EUROPANOTAS ANALÍTICASPOLÍTICA INTERNACIONAL

Vítima de ataque com agente químico Novichok encontra-se com Embaixador da Rússia no Reino Unido

No dia 7 de abril (2019), o cidadão inglês Charles Rowley realizou uma visita à Embaixada da Rússia no Reino Unido, onde realizou uma reunião com o embaixador russo Alexander Yakovenko. Em julho do ano passado (2018), Rowley e sua namorada, Dawn Sturgess, foram hospitalizados sob a suspeita de terem sido envenenados pelo agente nervoso Novichok, arma química que também foi encontrada em Sergei Skripal, ex-espião russo, e em sua filha Yulia, em março daquele ano.

Em ambos os casos, as autoridades britânicas acusam a Rússia de estar envolvida nos ataques com Novichok. Segundo as investigações conduzidas, dois nacionais russos são suspeitos, já que, por meio de imagens e vídeos, foi observado que eles circularam pela área do envenenamento horas antes dos Skripal serem encontrados inconscientes. Além dessas evidências, o Governo inglês acusou a Federação Russa pelos ataques por conta de o agente Novichok ter sido criado há muitos anos na antiga União Soviética.

A partir desses acontecimentos, Rowley e Yakovenko conduziram uma reunião na qual foram discutidas questões referentes a ambos os ataques e a possibilidade do próprio Rowley encontrar-se pessoalmente com o presidente russo Vladimir Putin para tratar sobre o assunto. As percepções acerca desse encontro entre o Embaixador e a vítima inglesa são ambíguas. Pela mídia russa, a situação foi descrita como bastante informativa e bem amigável; já pelas fontes inglesas, a reunião não trouxe nenhuma informação nova a Rowley, o qual seguiria acreditando que o responsável pelos ataques é a Rússia. Essas duas interpretações sobre a mesma situação demonstram o desgaste diplomático que vem ocorrendo entre os dois países desde março do ano passado (2018).

Em entrevista a um jornal britânico, Rowley afirmou que perguntou ao Embaixador diversas questões acerca dos ataques, como o porquê de os suspeitos russos não terem sido entrevistados pela polícia inglesa. E declarou: “eu não consegui nenhuma resposta, apenas consegui propaganda russa. Eu gostei do Embaixador, mas acredito que muito do que ele disse para justificar a inocência da Rússia foi ridículo. Eu sou grato por o ter conhecido e sinto que descobri coisas que não sabia antes, mas eu ainda acredito que a Rússia realizou o ataque”.

O Relatório Salisbury: Perguntas Não Respondidas

Em contrapartida, Yakovenko apontou que houve muitas perguntas e que ficou feliz em responder todas. Ele destacou o relatório “Salisbury: Perguntas Não Respondidas” que foi entregue a Rowley, documento no qual há cartas e anotações enviadas pela Rússia ao Reino Unido sobre as investigações, portanto, uma visão detalhada da perspectiva russa sobre o que aconteceu com os Skripal.

Além disso, o Embaixador afirmou que “a maioria das perguntas foi relacionada à completa falta de informação do lado dos britânicos. Foi nos perguntado se a Rússia envenenou os Skripal e se a Rússia é o único país capaz de produzir Novichok. Nós fornecemos uma explicação completa sobre este assunto e eu provei a ele mais uma vez que este Novichok pode ser feito em qualquer laboratório europeu, o que aconteceu na República Tcheca e em outros países também”.

Há, portanto, duas visões diferentes acerca do que foi discutido, assim como há discrepâncias entre as autoridades inglesas e russas acerca do comando das investigações e dos resultados encontrados. O que permanece como certo é que a Rússia e o Reino Unido ainda enfrentam dificuldades diplomáticas para compreender e resolver a situação.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 “Charles Rowleyseu irmão Matthew Rowley e o Embaixador Russo para o Reino Unido, Alexander Yakovenko” (Fonte): https://www.rusemb.org.uk/data/img/activity/747_7b.jpg

Imagem 2 “O Relatório Salisbury: Perguntas Não Respondidas” (Fonte): https://www.rusemb.org.uk/data/img/activity/747_8b.jpg

AMÉRICA LATINAEUROPANOTAS ANALÍTICASPOLÍTICA INTERNACIONAL

Rússia inaugura centro de treinamento de pilotos de helicóptero na Venezuela

No dia 29 de março (2019), foi inaugurado um novo centro de treinamento de pilotos de helicóptero na Venezuela. A área foi construída com o auxílio da Rosoboronexport, exportadora de armamentos da Rússia que pertence à estatal Rostec, em parceria com a CAVIM, empresa estatal venezuelana do setor militar.

O objetivo do Centro é instruir pilotos venezuelanos no comando dos helicópteros russos da linha Mi, como o Mi-17V-5, o Mi-35M e o Mi-26T. De acordo com a Rosoboronexport, “atualmente, os helicópteros russos fornecidos à Venezuela não só participam de operações contra contrabandistas, mas também realizam com sucesso levantamentos aéreos de incêndios florestais, participam de missões de resgate e evacuação em áreas atingidas por desastres naturais e transportam cargas humanitárias para regiões remotas do país”. Ainda segundo comunicado da empresa exportadora, espera-se a ampliação contínua da cooperação de defesa entre os dois países, agora atentando-se à capacitação de especialistas e na manutenção dos equipamentos.

A inauguração do novo centro de treinamento ocorre em meio ao escalonamento das tensões entre a Venezuela e o seu entorno regional, principalmente com os Estados Unidos (EUA). No dia 23 de março (2019), dois aviões que transportavam militares russos e 35 toneladas de carga pousaram na capital Caracas. Esse acontecimento despertou desconfianças quanto às intenções russas na região e o Secretário de Estado norte-americano, Mike Pompeo, entrou em contato com o Ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergey Lavrov, para esclarecer a situação.

Projeção Ortográfica do Mi-24

De acordo com um diplomata russo, na conversa entre os dois líderes foi explicado que esses militares foram enviados com o objetivo de garantir a manutenção de equipamentos fornecidos sob um acordo intergovernamental, ratificado pelo Parlamento venezuelano, em 2001. Embora tenham apresentado essa justificativa, o governo norte-americano segue em alerta. Pompeo declarou que os EUA não relevariam as ações russas na Venezuela e o presidente Trump declarou publicamente que a Rússia tem que sair do país sul-americano.

A partir do posicionamento americano, o ministro da defesa venezuelano Vladimir López declarou que, embora haja reclamações das atividades militares da Federação Russa em seu país, não há um descontentamento igual ou similar ao aumento das atividades militares dos EUA. De acordo com López, “Ninguém diz nada quando tentam violar a soberania da Venezuela”.

A situação política do país sul-americano, portanto, é conturbada, e as relações entre Rússia e EUA seguem inconstantes, com várias discordâncias. Enquanto o governo norte-americano reconhece Juan Guaidó, líder da oposição, como Presidente Interino da Venezuela, os russos seguem apoiando Nicolás Maduro como o líder legítimo do país. Entretanto, de acordo com o cientista político russo Gevorg Mirzayan, seu governo não tem a intenção de salvar Maduro, “os objetivos são mais globais. O programa mínimo é reforçar o prestígio [da Rússia] nos países do Terceiro Mundo. O programa máximo é forçar os EUA a reverem as relações russo-americanas”.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Um Mi24PN russo” (Fonte): https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/1/11/Russian_Air_Force_Mil_Mi-24PN_Dvurekov-6.jpg/800px-Russian_Air_Force_Mil_Mi-24PN_Dvurekov-6.jpg

Imagem 2Projeção Ortográfica do Mi24” (Fonte): https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/d/d6/Mil_Mi-24_HIND.svg/800px-Mil_Mi-24_HIND.svg.png

AMÉRICA DO NORTEANÁLISES DE CONJUNTURAEUROPA

EUA e Rússia à beira de uma nova corrida armamentista

O mundo assiste novamente à escalada de tensões entre EUA e Rússia por conta da decisão do Governo norte-americano de se retirar do Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermediário (INF, sigla em inglês*). Esse Acordo previa a eliminação e a proibição do desenvolvimento e implantação de mísseis balísticos e de cruzeiro, sejam eles nucleares ou não, em que o alcance estaria entre 500 e 5.500 quilômetros. O INF foi firmado ainda na época da Guerra Fria pelos antigos líderes Ronald Reagan – dos EUA – e Mikhail Gorbachev – da extinta União Soviética, em 1987. Desde então, o Tratado foi responsável pelo desmantelamento de mais de 2.500 mísseis e manteve aqueles com ponta nuclear longe do continente europeu.

Em outubro do ano passado (2018), a Administração Trump surpreendeu os seus aliados e a própria Rússia ao anunciar que iria se retirar do INF, visto que haveria provas de que os russos não estariam cumprindo o Tratado. Por cinco anos, os EUA exigiram transparência acerca de um míssil que supostamente violaria as regras do Acordo e não obtiveram retorno. Ressalta-se, no entanto, que no governo Obama não ocorreu uma ameaça definitiva quanto à saída do Acordo, apesar de ter ocorrido pressão para que informações desse míssil russo fossem divulgadas.

O Secretário Geral da União Soviética, Mikhail Gorbachev, e o presidente dos Estados Unidos, Ronald Reagan, assinam o Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermediário na Casa Branca, em 1987

Após o anúncio em outubro passado (2018), aliados dos EUA, em especial a Alemanha de Angela Merkel, destacaram a relevância do Acordo. Eles pediram para que o Governo norte-americano reconsiderasse sua decisão e que primeiro tentasse resolver a situação pela diplomacia. Foi determinado um prazo de 2 meses para que delegações americanas e russas tentassem resolver a situação através do diálogo em ambientes de negociação internacional.

O combinado ocorreu, mas não trouxe os resultados esperados. Em um encontro em Genebra entre as duas partes em janeiro deste ano (2019), os russos ofereceram a possibilidade da realização de uma inspeção por especialistas americanos ao suposto míssil que estaria infringindo os regulamentos do INF. Entretanto, os representantes do Governo dos EUA não aceitaram a proposta da inspeção, taxando-a como insuficiente e exigiram a destruição do sistema do míssil conhecido como 9M729. A Subsecretária de Estado para Controle de Armas e Segurança Internacional dos EUA, Andrea Thompson, afirmou que “ver o míssil não confirmaria a distância que ele pode viajar e, no final do dia, isso é uma violação do tratado”. Por outro lado, o Ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, acusou os EUA de serem intransigentes e destacou que “os representantes americanos chegaram com uma posição baseada em um ultimato e centrada em uma demanda de destruição daquele foguete, seus lançadores e tudo relacionado ao seu equipamento sob a supervisão dos EUA”.

Estoques de armas nucleares dos Estados Unidos e da União Soviética/Rússia no período da Guerra Fria e após esse conflito ideológico

Visto que a via diplomática não surtiu os efeitos desejados, o governo Trump anunciou efetivamente a retirada do país do Tratado. A partir de fevereiro (2019), os EUA começaram a suspender suas obrigações ditadas pelo INF e em 6 meses, portanto, em agosto (2019), sairão por completo do Acordo. Conforme declarou Mike Pompeo, Secretário de Estado dos EUA, a situação só se reverteria se a Rússia honrasse com sua parte. Entretanto, o Governo russo segue afirmando que suas ações seguem os trâmites estabelecidos pelo INF.

O Presidente da Federação Russa, Vladimir Putin, destacou que a saída dos EUA permitiria que houvesse a implantação de armas nucleares de curto e médio alcance em territórios da OTAN na Europa. Segundo Putin, “isso é uma ameaça muito séria para nós e, neste caso, seremos obrigados a tomar medidas drásticas nas mesmas proporções”. O líder continuou seu discurso afirmando que “há problemas, os EUA criam cada vez mais esses problemas, mas também existem mecanismos e ferramentas para trabalharmos juntos nesses problemas. Espero que eles sejam usados para prevenir novas crises no mundo como a Crise do Caribe**. Não há razão para que exista uma outra crise dessas”.

Ainda conforme Putin, a Rússia, então, seria obrigada a colocar sistemas de mísseis que podem ser usados tanto contra territórios de onde a ameaça direta está vindo como também contra territórios onde centros de decisão estão localizados, ou seja, os locais da onde vêm as ordens para o disparo dessas armas. Em conjunto com a Rússia, o Presidente da Bielorrússia, Alexander Lukashenko, destacou: “nós precisaremos pensar em meio de retaliação. Se acontecer, não há como fugir. E será pior se esses mísseis americanos forem colocados (Deus nos livre, hipoteticamente) no território da Ucrânia”.

Em vista desse cenário, a escalada de tensões é evidente. Segundo um legislador russo, Peter Tolstoy, a decisão dos EUA de retirar-se do INF coloca a segurança dos países europeus em risco. Muitos especialistas apontam que uma nova era de corrida armamentista está para começar. Essas mesmas autoridades apontam que os EUA se retiraram do Tratado não só por acreditar que a Rússia o está violando, mas também por não estar equiparando seu arsenal ao da China, país que não está incluído no INF. Dessa forma, os EUA têm a intenção de desenvolver novas armas e talvez instalá-las em suas bases pela Europa. Mas, assim como os americanos, a Rússia também está se preparando para o novo cenário. Putin, no dia 22 de fevereiro, declarou que novas armas estão sendo desenvolvidas e que esses tipos de armamentos são diferentes de tudo o que há pelo mundo.

A OTAN está em alerta. Toda a Europa está em alerta. Muitas autoridades estão avisando que uma era de tensões envolvendo potências nucleares está para recomeçar. Cabe aos EUA e à Rússia continuarem tentando por vias diplomáticas a manter o INF e outros Acordos de armas nucleares. Afinal, são os dois países que detêm o maior arsenal de armas nucleares do mundo: os EUA possuem 6.550 armamentos nucleares, ao passo que a Rússia tem 6.800. Analistas apontam que os números hoje já são grandes, têm capacidade de destruição inimaginável e uma nova corrida armamentista resultaria em muitas incertezas e inseguranças.

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Notas:

* Tratado INF do inglês: Intermediate-Range Nuclear Forces.

** A Crise do Caribe mencionada por Vladimir Putin em seu discurso refere-se à Crise dos Mísseis em Cuba em 1962. Ela foi causada pela implantação de mísseis balísticos soviéticos em Cuba. Foi o auge da Guerra Fria, quando, por 13 dias, o mundo assistiu aflito à possibilidade real de o escalonamento das tensões entre EUA e União Soviética (URSS) resultar numa guerra nuclear. Em razão da diplomacia, foi acordado que em troca da retirada dos mísseis da URSS de Cuba, os EUA garantiriam que nunca invadiriam a ilha do Caribe e que retirariam os seus mísseis da Turquia.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Teste nuclear realizado em 18 de abril de 1953, nos Estados Unidos” (Fonte): https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/7/79/Operation_Upshot-Knothole_-Badger_001.jpg/800px-Operation_Upshot-Knothole-_Badger_001.jpg

Imagem 2O Secretário Geral da União Soviética, Mikhail Gorbachev, e o presidente dos Estados Unidos, Ronald Reagan, assinam o Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermediário na Casa Branca, em 1987” (Fonte): https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/8/8d/Reagan_and_Gorbachev_signing.jpg/300px-Reagan_and_Gorbachev_signing.jpg

Imagem 3Estoques de armas nucleares dos Estados Unidos e da União Soviética/Rússia no período da Guerra Fria e após esse conflito ideológico” (Fonte): https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/b/bb/US_and_USSR_nuclear_stockpiles.svg/1024px-US_and_USSR_nuclear_stockpiles.svg.png

ANÁLISES DE CONJUNTURAEURÁSIA

República da Bielorrússia em alerta

O Presidente bielorrusso mudou algumas diretrizes de sua administração a fim de lidar com as críticas negativas e para ajustar-se ao modelo neoliberal (…)

A Bielorrússia (ou Belarus) é um país relativamente novo, tendo conquistado sua independência em 1991*. Desde 1994, Alexander Lukashenko é o Presidente do país e, por estar no cargo há mais de 20 anos, ele é o líder atual em maior tempo de exercício na Europa, algo que divide opiniões pelo continente. Lukashenko, ao contrário de outros Chefes de Estado das antigas repúblicas soviéticas, identifica-se com as ideias socialistas e comanda o país de acordo com muitas diretrizes da extinta URSS. Uma estátua de Lênin permanece em frente ao Parlamento da Belarus, muitas ideias liberais nunca foram adotadas e é um lugar onde a desigualdade social é uma das mais baixas do mundo.

O Parlamento da Belarus e a estátua de Lênin em frente

Não obstante, a Bielorrússia mantém uma forte ligação política, econômica e social com a Federação Russa. Em 1999, firmou-se o tratado que deu origem à União da Rússia e Bielorrússia, uma entidade supranacional em semelhança com a antiga URSS. Desde então, Minsk e Moscou têm uma aliança econômica-militar forte, porém, a União não se realizou por completo, com cada Estado ainda seguindo soberano e independente.

Por muitos anos esse arranjo funcionou. A Belarus desenvolveu-se comprando gás natural e petróleo bruto da Rússia a preços reduzidos e a Federação Russa garantiu um grande aliado na região. Militarmente, em 2009, foi criado o Grupo Regional de Forças da Bielorrússia e Rússia (RGF). O objetivo da RGF é promover a coesão e a aproximação entre as Forças Armadas dos dois países, a fim de garantir uma estratégia conjunta.

A situação alterou-se em 2014. Neste ano, a Crimeia, que pertencia à Ucrânia, foi anexada à Rússia. A Bielorrússia, ao contrário do que se esperava, não reconheceu essa ação de política externa do Governo russo e continuou praticando boas relações com a Ucrânia. Lukashenko encarou a atitude do presidente russo Vladimir Putin como uma ameaça ao seu próprio país, desconfiando das intenções futuras de seu vizinho e aliado.

Uma das propostas de confecção de bandeira que representaria a entidade supranacional, a União da Rússia e da Bielorrússia

Em razão disso, o governo da Belarus resolveu impulsionar sua aproximação com o Ocidente. O Presidente bielorrusso mudou algumas diretrizes de sua administração a fim de lidar com as críticas negativas e para ajustar-se ao modelo neoliberal, além de se mostrar comprometido em reatar as boas relações com os Estados Unidos (EUA)**. Desde então, especialistas internacionais afirmam que Rússia e Bielorrússia estão em um momento diplomático delicado, havendo muitas apreensões de ambos os lados, principalmente no que concerne o comércio entre eles.

Em dezembro de 2018, Putin e Lukashenko encontraram-se oficialmente em duas ocasiões em Moscou. O objetivo foi discutir o novo regime de taxação do petróleo que a Rússia pretendia implementar no começo de 2019. O plano russo era diminuir o seu subsídio àquela fonte de energia, algo que corresponderia a 4% do PIB da Belarus, com uma perda de bilhões de dólares. De acordo com o Presidente bielorrusso, a intenção de Moscou foi “minar a soberania de seu país e empurrá-lo para o centro russo de influência”. Ele ainda afirmou: “se alguém deseja quebrar Belarus em regiões e nos forçar a nos submeter à Rússia, adianto que isso nunca acontecerá”.

Em contrapartida, mídias russas afirmam que as conversas entre os dois líderes seguiram de forma construtiva. De acordo com Vladimir Putin, após uma reunião realizada no dia 25 de dezembro (2018), “as relações entre a Rússia e a Bielorrússia estão se desenvolvendo com sucesso e é visível a tendência de crescimento do volume de negócios no comércio entre eles”.

Apesar desse otimismo, observadores internacionais acreditam que o objetivo de Putin é seguir adiante com a concretização da Entidade Supranacional entre Rússia e Bielorrússia. Ainda de acordo com esses especialistas, Putin já estaria pensando em 2024, quando ele teria que deixar a Presidência da Federação Russa***. Caso a União ocorra, ele poderá se candidatar ao cargo de Presidente da nova União entre os dois Estados.

Tal perspectiva é apenas uma suposição, não havendo nenhum indício concreto que indique que esse seja o plano de Vladimir Putin. Entretanto, o sentimento receoso da Belarus em relação ao seu vizinho existe e espera-se que os diálogos, conduzidos no último mês entre os dois líderes, tenham tranquilizado as relações bilaterais entre ambos.

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Notas:

* Antes de 1991, a Bielorrússia era uma república constituinte da União Soviética (URSS) e, anteriormente a 1917, as partes do que hoje é seu território pertenceram a vários outros países, e foram unificadas sob a bandeira da então República Socialista Soviética Bielorrussa (RSSB) apenas em 1939.

** Em 2008, o governo dos EUA retirou seu embaixador de Minsk, capital da Belarus, em protesto às acusações de que repressões políticas estavam sendo praticada no país.

*** De acordo com a Constituição da Federação Russa, não é possível que o mesmo Presidente permaneça por mais do que dois mandatos consecutivos.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Os presidentes Alexander Lukashenko, da Bielorrússia, e Vladimir Putin, da Rússia, reúnem-se oficialmente em Moscou no dia 29 de dezembro de 2018” (Fonte): http://static.kremlin.ru/media/events/photos/big/M7KVeTfVytNzlYuXtBJdWulwOaXo3bCL.jpg

Imagem 2O Parlamento da Belarus e a estátua de Lênin em frente” (Fonte): https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/3/35/House_of_Representatives_of_Belarus.jpg

Imagem 3Uma das propostas de confecção de bandeira que representaria a entidade supranacional, a União da Rússia e da Bielorrússia” (Fonte): https://en.wikipedia.org/wiki/File:Flag_of_the_Union_State.svg

EURÁSIAEUROPANOTAS ANALÍTICASPOLÍTICA INTERNACIONAL

A reaproximação diplomática entre Grécia e Rússia

Na última sexta-feira, dia 7 de dezembro (2018), o Presidente russo, Vladimir Putin, e o Primeiro-Ministro grego, Alexis Tsipras, reuniram-se no Kremlin, em Moscou. A discussão entre os líderes incluiu assuntos de cooperação bilateral e outras questões internacionais e regionais de destaque, uma mudança positiva nas relações Rússia-Grécia, visto que elas estavam abaladas desde julho (2018).

Nesse período, Atenas expulsou dois diplomatas russos sob a alegação de que eles tentaram sabotar as negociações entre Grécia e Macedônia na renomeação do país de República Iugoslava da Macedônia para República da Macedônia do Norte. A Rússia negou as acusações e respondeu à altura, expulsando dois diplomatas gregos em agosto (2018). Durante a Reunião, Putin destacou que houve discordância entre as partes sobre os motivos que levaram a expulsão dos diplomatas russos e continuou: “Mal posso imaginar que alguém sensato na Grécia e na Rússia pense que a Rússia esteja ‘tramando’ contra a Grécia ou que trame outras conspirações. É um absurdo. Se os serviços de inteligência têm alguma pergunta um para o outro, o que também é possível, há muitas maneiras de resolver esse tipo de situação, sem nenhum gesto teatral. Espero que este momento [nas relações Rússia-Grécia] tenha realmente se encerrado”.

Reunião com o Primeiro-Ministro da Grécia, Alexis Tsipras, no Kremlin, em Moscou

À parte do escândalo diplomático, os líderes também discutiram sobre assuntos estratégicos. Tsipras propôs que a Grécia faça parte do trajeto do duto de gás natural, o TurkStream, para a Europa Ocidental. O objetivo do Primeiro Ministro é demonstrar o interesse grego em se tornar um hub de energia regional, assim, o sul da Europa também se conectaria ao gasoduto TurkStream pela Grécia. Com essa declaração, Putin apontou que há a possibilidade desse projeto ocorrer, além de que há planos para que, no futuro, os dois países implementem conjuntamente grandes empreendimentos de infraestrutura energética.

Para tanto, o Presidente russo destacou que o fortalecimento da economia grega é essencial para que ocorra a entrada de novos investimentos da Rússia no país. Em relação a esse fato, o Ministro Adjunto dos Negócios Estrangeiros da Grécia, George Katrougkalos, enfatizou que “o potencial é [agora] muito maior em muitas áreas desde que a economia grega se recuperou completamente [de uma crise econômica]. No último trimestre [do ano, 2018], subiu 2,2%, e a previsão para 2019 é ainda melhor, cerca de 2,5%. A nova lei de desenvolvimento prevê garantias e incentivos importantes para os investidores. Nunca houve condições mais favoráveis para o investimento em nosso país”.

Não obstante, mesmo que a Grécia passe por dificuldades, Putin ressaltou que os dois países estão ligados por uma relação histórica, em que a Rússia sempre apoiou o povo e o Estado gregos. Por conta disso, há um compromisso diplomático para que o Governo russo continue atuando nesse sentido. A Reunião, portanto, trouxe apaziguamento para a relação entre os dois países, ambos reconheceram a importância da retomada do diálogo entre eles, o qual trouxe avanços positivos nas questões bilaterais.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1PrimeiroMinistro da Grécia, Alexis Tsipras, cumprimenta o Presidente da Rússia, Vladimir Putin, na coletiva de imprensa conjunta” (Fonte): http://static.kremlin.ru/media/events/photos/big/v7KZ21dyhYtByFhA3xrvAUXsbxzLWkod.jpg

Imagem 2Reunião com o PrimeiroMinistro da Grécia, Alexis Tsipras, no Kremlin, em Moscou” (Fonte): http://static.kremlin.ru/media/events/photos/big/5XBkngitxTx38WYY2y5FjAsBVEJ7sYKO.jpg

COOPERAÇÃO INTERNACIONALEURÁSIANOTAS ANALÍTICAS

O fortalecimento da cooperação trilateral entre China, Índia e Rússia

Neste último fim de semana, nos dias 30 de novembro e 1º de dezembro (2018), ocorreu a Reunião de Cúpula do Grupo dos 20 (G20) em Buenos Aires, na Argentina. Líderes das maiores economias do mundo estiveram presentes para discutir assuntos de relevância para o cenário internacional, desde questões relacionadas à crise dos refugiados até discussões sobre as criptomoedas. Durante o Encontro, muitos Chefes de Estado e de Governo aproveitaram para realizar reuniões em paralelo, para tratar de assuntos políticos e econômicos com determinados países. Foi o caso da Rússia, da China e da Índia.

O Primeiro Ministro da Índia, Narendra Modi, na Reunião Trilateral entre China, Índia e Rússia

O Presidente da Rússia, Vladimir Putin, o Presidente da China, Xi Jinping, e o Primeiro Ministro da Índia, Narendra Modi, encontraram-se para discutir sobre o fortalecimento da cooperação trilateral. A iniciativa foi de Putin, o qual destacou seu interesse em continuar realizando conferências no formato RIC (Rússia, Índia e China), pois há uma conexão centenária e amistosa entre eles, a qual sempre foi baseada em relações igualitárias e com confiança mútua.

A última vez que ocorreu um Encontro entre esses três países foi há 12 anos, o qual, segundo o Presidente russo, foi bastante produtivo, resultando diretamente na criação do BRICS*. Ainda de acordo com ele: “acreditamos que o formato RIC tenha grandes perspectivas e que a cooperação trilateral possa se tornar uma complementação efetiva à cooperação que nossos países realizam bilateralmente e nos BRICS”.

O objetivo da Reunião do RIC foi estabelecer uma relação mais forte e douradora entre eles, tanto política quanto economicamente. Durante a discussão, os três líderes debateram sobre a liberalização e a facilitação do comércio e investimento entre as partes, além de também compartilharem o entendimento comum quanto à promoção da paz e a estabilidade nas regiões em crise pelo globo.

O Presidente da China, Xi Jinping, na Reunião Trilateral entre China, Índia e Rússia

O Presidente chinês destacou a importância dos três países em fortalecer a coordenação e a cooperação em Reuniões multilaterais como o G20, o BRICS e a Organização para a Cooperação de Xangai**. Em adição, Modi apontou que o RIC tem que ser uma plataforma de discussão e comparação das percepções destes sobre as maiores ameaças à comunidade internacional, como questões relacionadas ao terrorismo transnacional.

O Ministro das Relações Exteriores da Índia, Vijay Gokhale, declarou: “todos [os líderes presentes] sentiram que deveríamos trabalhar juntos para orientar a governança econômica global. Além disso, concordaram que os três países deveriam se unir para promover a paz em uma crise regional, cooperando no combate ao terrorismo e no oferecimento de assistência humanitária”.

Ao final do Encontro, Putin, Jinping e Modi concordaram em continuar realizando reuniões trilaterais em paralelo às cúpulas e eventos internacionais. Assiste-se, portanto, ao fortalecimento das relações entre China, Índia e Rússia por meio do estabelecimento e do fortalecimento de mecanismos de cooperação. De acordo com Putin, isso é importante para que haja entre eles a coordenação de política e de economia na região da Eurásia.

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Notas:

* O BRICS é um bloco político que foi formalmente institucionalizado em 2009. Na época, era formado por Brasil, Rússia, Índia e China. Em 2011, a África do Sul uniu-se oficialmente ao grupo.

** A Organização para a Cooperação de Xangai é uma organização política, econômica e militar da Eurásia formada em 2001 pela China, Cazaquistão, Quirguistão, Rússia, Tadjiquistão e Uzbequistão.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1A Reunião Trilateral entre China, Índia e Rússia” (Fonte):

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Imagem 2O Primeiro Ministro da Índia, Narendra Modi, na Reunião Trilateral entre China, Índia e Rússia” (Fonte):

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Imagem 3O Presidente da China, Xi Jinping, na Reunião Trilateral entre China, Índia e Rússia” (Fonte):

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