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Macron e Putin realizam encontro bilateral às vésperas do G7

No dia 19 de agosto (2019), o Presidente da Rússia, Vladimir Putin, desembarcou em Fort de Brégançon, na Riviera Francesa, onde encontrou-se com o Presidente da França, Emmanuel Macron, em sua residência de verão. A reunião entre os dois líderes ocorreu às vésperas da Cúpula anual do G7, a qual, este ano (2019), ocorrerá também no sul da França. Em 2014, após a reincorporação da Crimeia, a Rússia foi suspensa do grupo, que antes era chamado de G8. Observadores internacionais destacaram que o gesto francês de recepcionar os russos nesta semana é bastante significativo para as relações exteriores do país europeu, colocando-o numa posição de liderança no apaziguamento das relações entre o Ocidente e a Rússia.

A Conversa entre Macron e Putin era bastante antecipada pela mídia por conta de a pauta de discussão envolver não apenas questões bilaterais, como também assuntos de interesse internacional, que outrora seriam discutidos num ambiente de negociação multilateral. Assim, a situação na Ucrânia, na Síria e questões internas da Rússia foram abordadas no diálogo entre os líderes.

O Presidente da Rússia, Vladimir Putin, o Presidente da França, Emmanuel Macron e a Primeira-Dama da França, Brigitte Macron em Fort de Brégançon, na França

Em relação à Ucrânia, Moscou e Paris concordaram em retomar as negociações sobre a crise no país que envolve movimentos separatistas e a reincorporação da Crimeia à Rússia. Para tanto, ambos os lados consentiram que o Formato de Normandia seja revisitado, o qual envolve Alemanha, França, Rússia e Ucrânia nas discussões de um possível Acordo.

Sobre a Síria, Macron declarou: “[nós] estamos profundamente preocupados com a situação em Idlib*, onde a população civil vive sob bombardeios. Há vítimas entre a população civil e a França está muito preocupada com isso”. O Presidente Putin contrapôs-se ao líder francês ao destacar que apoia a luta do Exército do governo sírio para impedir o avanço de organizações terroristas na região, as quais se fortalecem em Idlib e partem para o resto do mundo.

Localização da região de Idlib, na Síria

À parte das situações internacionais, o Presidente francês colocou em pauta a recente onda de protestos que está ocorrendo em Moscou. De acordo com a mídia ocidental, os manifestantes estão pedindo pela liberdade dos candidatos da oposição de concorrerem à eleição do legislativo da cidade. Macron, então, destacou “[nós] pedimos neste verão por liberdade de protesto, liberdade de expressão, liberdade de opinião e liberdade de concorrer em eleições que deveriam ser plenamente respeitadas na Rússia, como em qualquer membro do Conselho da Europa”.

Putin, por sua vez, rebateu o comentário do líder europeu com a onda de protestos dos coletes amarelos na França nos últimos meses. O Presidente russo afirmou que “todos nós sabemos sobre os eventos ligados aos chamados coletes amarelos, durante os quais, de acordo com nossos cálculos, 11 pessoas foram mortas e 2.500 ficaram feridas. Não iríamos querer que tais eventos ocorressem na capital russa e faremos tudo que pudermos para que nossa situação política doméstica transcorra estritamente dentro do marco da lei”. Em resposta a esse comentário, Macron argumentou ser imprecisa essa comparação, visto que os manifestantes franceses podem concorrer livremente nas eleições europeias.

Há ainda questões a serem convergidas entre os dois países. Em muitos aspectos, Rússia e França se distanciam em sua política externa e até interna. Entretanto, como tem sido apontado por especialistas, é importante que o diálogo entre os dois permaneça. Da mesma forma, aponta-se ser relevante, também, que a França esteja tomando partido em se aproximar mais do Governo russo em um período marcado por conturbações entre o Ocidente e a Rússia. Observa-se que a disposição para a realização de encontros bilaterais já destaca um avanço na relação diplomática não só entre os dois países, como entre a Europa e a Federação Russa.

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Notas:

* A Província de Idlib, na Síria, é uma região situada no noroeste do país e um dos últimos redutos dos rebeldes que lutam pela saída do Presidente sírio, Bashar al-Assad, do poder.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 O Presidente da Rússia, Vladimir Putin, e o Presidente da França, Emmanuel Macron, em Fort de Brégançon, na França” (Fonte): http://static.kremlin.ru/media/events/photos/big2x/szFKqDzdzLZ1PiKLhYFXsinUUbauAdBK.jpg

Imagem 2O Presidente da Rússia, Vladimir Putin, o Presidente da França, Emmanuel Macron e a PrimeiraDama da França, Brigitte Macron em Fort de Brégançon, na França” (Fonte): http://static.kremlin.ru/media/events/photos/big2x/Y8a95PqQVled8lOiF9ZWStjR9A3YAcmK.jpg

Imagem 3 “Localização da região de Idlibna Síria” (Fonte): https://pt.wikipedia.org/wiki/Idlib_(distrito)#/media/File:SyriaIdlib.PNG

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Observadores apontam que explosão em base militar na Rússia apresenta caráter nuclear

No dia 8 de agosto (2019), ocorreu uma explosão em uma base militar na Rússia em Nyonoksa, localizada ao norte do país, no Mar Branco. A companhia nuclear estatal russa, Rosatom, logo emitiu um comunicado afirmando que ocorreu um acidente durante testes com um motor de foguete de propelente líquido, o qual ocasionou um incêndio a bordo de um navio atracado no porto. Ainda segundo a declaração, duas pessoas teriam morrido por conta da casualidade e outras 6 teriam sido feridas.

Entretanto, a informação começou a ser contestada quando autoridades de Severodvinsk, cidade localizada a 30km da base militar, divulgaram em site oficial que os níveis de radiação tinham se alterado levemente após a explosão. Tal informe causou agitação entre os moradores, os quais saíram em busca de iodo nas farmácias locais, substância conhecida por minimizar os efeitos da radiação no organismo. A publicação no website da cidade acabou sendo apagada e o governo russo seguiu negando o caráter nuclear do acidente.

Entretanto, o posicionamento das autoridades não acalmou a população e nem os observadores internacionais. Primeiramente, de acordo com especialistas, testes que envolvem mecânica de mísseis não envolve material atômico, então, é instigante que os níveis radioativos da cidade tenham indicado uma alta. Houve também muita movimentação de paramédicos em trajes especiais de proteção contra radiação ao transportar os feridos para um hospital em Moscou. O porto da Baía Dvina, onde localiza-se a base militar, fechou-se ao recebimento de embarcações por um mês e um quebra-gelo nuclear responsável por coletar e armazenar lixo líquido atômico atracou na região do acidente.

Logo da Corporação Estatal de Energia Nuclear Rosatom

Após essas constatações, no sábado, dia 10 de agosto (2019), a Rosatom informou que além das duas mortes confirmadas, outros cinco funcionários faleceram devido a um acidente causado por testes que envolviam fontes de energia isotópicas. Isto é, houve de fato vazamento de material radioativo, porém, não informaram o que foi detonado, nem que tipo de experimento estava sendo realizado, ou o quanto de radiação foi exposta.

A mídia ocidental especula que a explosão ocorreu durante o experimento de um novo míssil de longo alcance que seria abastecido por um reator nuclear. Ano passado (2018), o Presidente da Rússia, Vladimir Putin, anunciou que estaria testando um novo míssil chamado de 9M730 Burevestnik, conhecido pela OTAN por SSC-X-9 Skyfall. Tal armamento foi apresentado sob a possibilidade de alcançar qualquer canto do planeta por utilizar energia atômica, e suas características específicas também impedem que o Skyfall seja percebido ou até mesmo abatido pelos mais atuais sistemas antimísseis pelo mundo.

Acidente Nuclear em Chernobyl em 1986

O acidente ocorrido em Nyonoksa estabelece mais um patamar na tensão entre Rússia e Estados Unidos após o término do Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermediário (INF, sigla em inglês). Sem esse Acordo, testes e utilização desse tipo de armamento não estão sob os auspícios de nenhuma agência de controle, o que escalona uma corrida armamentista entre os dois Estados.

Além disso, apontam observadores que ocultamento das autoridades russas sobre o que realmente aconteceu na última semana assemelha-se ao acidente em Chernobyl, em 1986. Na época, ainda União Soviética, não foi divulgado o grau do acidente, o que causou um grande aumento de vítimas intoxicadas e afetadas pela radiação. O acontecimento em Nyonoksa, especula-se, foi em uma escala bem menor, mas pode ser um dos piores acidentes nucleares desde Chernobyl.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Nuvem de cogumelo causada pela explosão da bomba nuclear na cidade de Nagasaki, no Japão, em 9 de agosto de 1945” (Fonte): https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/e/e0/Nagasakibomb.jpg/800px-Nagasakibomb.jpg

Imagem 2Logo da Corporação Estatal de Energia Nuclear Rosatom” (Fonte): https://upload.wikimedia.org/wikipedia/en/a/ab/Rosatom_logo.png

Imagem 3Acidente Nuclear em Chernobyl em 1986” (Fonte): https://upload.wikimedia.org/wikipedia/pt/1/1b/Chernobyl_Disaster.jpg

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Sistema russo de defesa antiaérea começa a ser entregue à Turquia

No dia 12 de julho, a Turquia começou a receber da Rússia os primeiros equipamentos para a instalação do S-400 Triumf, sistema de mísseis antiaéreos de longo alcance. Seu objetivo é defender de ataques de aeronaves, mísseis cruzeiros ou balísticos, inclusive aqueles de médio-alcance, e também impedir ofensivas terrestres. Seu alcance chega a 400km de distância e a 35km de altitude. O Acordo entre Turquia e Federação Russa sobre a venda desse aparato militar foi anunciado, primeiramente, em 2016, e a assinatura do contrato foi realizada oficialmente em 2017, o qual detém o valor de 2,5 bilhões de dólares*.

O Presidente da Turquia, Recep Erdogan, relatou que o S-400 da Rússia é o melhor sistema de defesa de mísseis do mundo e que esse é o maior tratado entre Moscou e Ancara. Conforme aponta Erdogan, “hoje, o acordo mais importante em nossa história moderna é o acordo S-400. Com a aquisição de sistemas S-400, a Turquia não está se preparando para uma guerra. Esses sistemas de defesa antimísseis devem garantir a paz e a segurança em nosso país”.

O S-400 russo

O líder, então, garantiu que a implantação desses aparatos militares servem unicamente para garantir a segurança do país. Em suas palavras, “se a necessidade surgir, teremos o direito de usá-lo [o sistema antimísseis S-400]. Caso nos ataquem, nós iremos lançar os sistemas de defesa antiaéreos”. Erdogan também comentou sobre a possibilidade de realizar uma produção do S-400 em parceria com a Rússia. Embora não haja nenhum acerto concreto sobre o assunto, os Presidentes não descartam a possibilidade de que essa colaboração ocorra futuramente.

Em contrapartida, membros da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) realizaram críticas sobre a venda e entrega do S-400, em especial os EUA. Como integrante da OTAN, a Turquia estaria sujeita ao chamado CAATSA, um ato implantado na Organização, em 2017, que penaliza com sanções os aliados que realizarem transações com o setor de defesa russo.

Caça norte-americano F-35 Lightning 2

Não houve ainda nenhum informe indicando que tais sanções serão aplicadas. Entretanto, o Governo norte-americano ameaçou retirar a Turquia do programa de desenvolvimento e de uso dos aviões de caça F-35, pois eles não são compatíveis com os sistemas russos S-400, podendo esse comprometer o funcionamento daquele. Além disso, Washington tem o receio de que os russos tenham acesso ao sistema de defesa dos caças, o que se colocaria como um risco às operações militares.

Embora haja tal perigo, a Turquia seguiu em frente com o Acordo fechado com a Rússia e espera que até abril de 2020 o S-400 esteja totalmente implantado no país. Especula-se, no entanto, que Ancara e Washington já dialogaram e chegaram a um consentimento sobre o assunto. Segundo Yuri Netkachvev, especialista militar, “as sanções relacionadas à participação do regime de Erdogan no projeto do F-35 podem ser amenizadas em troca de esforços para promover os interesses dos Estados Unidos na região”.

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Nota:

* 2,5 bilhões de dólares equivalem a aproximadamente 9,4 bilhões de reais, pela cotação do dia 16 de julho de 2019.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1O Presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, e o Presidente da Rússia, Vladimir Putin, durante o G20 em Osaka, no Japão, em 29 de junho de 2019” (Fonte): http://static.kremlin.ru/media/events/photos/big2x/lNGvarqaa5YfW8OUm8q5GrtOQf4MGXMb.jpg

Imagem 2O S400 russo” (Fonte): https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/9/94/%D0%A1-400_%C2%AB%D0%A2%D1%80%D0%B8%D1%83%D0%BC%D1%84%C2%BB.JPG/300px-%D0%A1-400_%C2%AB%D0%A2%D1%80%D0%B8%D1%83%D0%BC%D1%84%C2%BB.JPG

Imagem 3Caça norteamericano F35 Lightning 2” (Fonte): https://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:F-35A_flight_(cropped).jpg

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Presidente da Rússia realiza visita oficial à Itália

No dia 4 de julho (2019), o Presidente da Rússia, Vladimir Putin, realizou uma visita oficial à Itália, onde fez reunião com o Primeiro-Ministro italiano, Giuseppe Conte, e o Presidente da Itália, Sergio Mattarella. Putin também esteve no Vaticano para encontrar-se com o Papa Francisco. Essa é sua primeira vez no país europeu desde 2014, quando as relações entre os dois países se desestabilizaram por conta da anexação da Crimeia, na Ucrânia, pela Rússia.

Ao desembarcar em Roma, a delegação russa, liderada por Putin, seguiu primeiramente para o compromisso com líder da Igreja Católica. Na Audiência Papal, o mandatário russo e o Papa Francisco focaram a discussão nas questões globais, como a situação na Síria. O cerne dessa conversa foi a proteção da população cristã no Oriente Médio, ressaltando a importância de fornecer assistência humanitária e a preservação dos Locais Sagrados Cristãos na Síria. Não foi abordado sobre uma possível visita do Papa à Rússia em um futuro próximo, entretanto, discutiu-se sobre as relações Federação Russa – Vaticano, com ambos os lados concordando em cooperar nas áreas de cultura, educação e saúde.

Presidente da Rússia, Vladimir Putin, e o Papa Francisco

Após esse Encontro, Putin e sua comitiva seguiram para o Palácio do Quirinal, a residência oficial da Presidência italiana, onde reuniu-se com o presidente Mattarella e o primeiro-ministro Conte. O principal tópico do diálogo foram as sanções que a União Europeia impôs à Rússia desde os acontecimentos de 2014 com a Ucrânia. A razão para tal é que o novo governo instituído na Itália, no ano passado (2018), é formado por uma coalizão que não aprova as medidas impostas pelos outros países europeus à Rússia.

Dessa forma, o presidente Putin destacou a possibilidade de a Itália ajudar na conciliação entre a Federação Russa e a União Europeia, assim, “espera-se que a Itália expresse esta posição de forma consistente e clara e se esforce para perceber o que tem sido repetidamente dito publicamente, ou seja, retomar as relações normais de formato completo entre a Rússia e a Europa em geral”. Putin também destacou que apesar de entender que o Governo italiano queira ajudar, sabe-se que o espaço para negociação sobre o assunto é bastante limitado.

Presidente da Rússia, Vladimir Putin, e o Primeiro-Ministro da Itália, Giuseppe Conte

Além dessa questão, os líderes também discutiram sobre a crise na Síria, assunto no qual concordaram que é preciso encontrar uma solução de longo prazo, usando políticas pragmáticas e inclusivas. Outro ponto abordado foi o Tratado de Forças Nucleares de Médio-Alcance (INF, sigla em inglês), em que consentiram pela necessidade de pautar os diálogos multilaterais no Acordo, porém, pouca informação sobre essa conversa foi divulgada.

Na conferência realizada à mídia, Conte destacou que as relações entre Itália e Rússia são excelentes, apesar das condições impostas pelas sanções europeias. Ainda de acordo com o Primeiro-Ministro, há uma perspectiva positiva para que Moscou e Roma aproximem-se mais. Em suas palavras: “amizade, diálogo, fortalecimento da cooperação bilateral e intercâmbio cultural – são as palavras-chave que melhor descrevem a atmosfera do encontro de hoje com o presidente Putin […]. A amizade entre a Itália e a Rússia tem um enorme potencial e estamos desenvolvendo-a, investindo nossos esforços diariamente para garantir a segurança, o bem-estar e a igualdade”.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 “Presidente da RússiaVladimir Putine o Presidente da ItáliaSergio Mattarella” (Fonte): http://static.kremlin.ru/media/events/photos/big/VRwbNRlMo4tUitC8rlo712gDhnsosH0Q.jpg

Imagem 2 “Presidente da RússiaVladimir Putine o Papa Francisco” (Fonte): http://static.kremlin.ru/media/events/photos/big/ZfUuAIM3bGCcPtxHjCocdrRqZ46RTEcS.jpg

Imagem 3 “Presidente da RússiaVladimir Putine o PrimeiroMinistro da ItáliaGiuseppe Conte” (Fonte): http://static.kremlin.ru/media/events/photos/big/4G4ADbx3baOkBRa9RWqfhwvPGMNtZQOT.jpg

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Protestos na Geórgia e tensões diplomáticas com a Rússia

Nos últimos dias, está ocorrendo uma onda de protestos em Tbilisi, capital da Geórgia. Os motivos do movimento são vários e referem-se principalmente ao descontentamento da população em relação às questões de política interna. Porém, o estopim do início das manifestações está ligado às tensões diplomáticas com a Rússia que existem desde 2008*.

Em 20 de junho (2019), quando os protestos se iniciaram, estava marcado para ocorrer no Parlamento georgiano a Assembleia Interparlamentar sobre a Ortodoxia (IAO, sigla em inglês), uma instituição transnacional que visa a discussão entre parlamentares de países que seguem o cristianismo ortodoxo.

O legislador russo, Sergei Gavrilov, abriu o evento com um discurso em russo, idioma estrangeiro na Geórgia, e sentado na cadeira do Porta-Voz do Parlamento, Irakli Kobakhidze. Sua atitude gerou descontentamento de parte dos legisladores georgianos, com depoimentos declarando que a conduta de Gavrilov foi “um tapa na cara na recente história da Geórgia”.

Emblema da Assembleia Interparlamentar sobre a Ortodoxia

Assim, os protestantes acusam membros do governo de estarem cooperando com a Rússia e exigiram a renúncia de Kobakhidze, por ter convidado a delegação russa e permitido que Gavrilov presidisse a sessão, e do Ministro do Interior, Georgy Gakhariya. Apesar da tensão diplomática com a Federação Russa ter impulsionado a crise política, considera-se que ela não é de fato a causa. De acordo com Thomas de Waal, especialista na região do Cáucaso, “a causa foi a política doméstica bastante polarizada em que a oposição utiliza a Rússia como uma forma de desacreditar o governo”.

A análise de Waal condiz com o posicionamento do Primeiro-Ministro da Federação Russa. Dmitry Medvedev declarou que “a tentativa de colocar a culpa na Rússia parece apenas distorcer a situação real. Ela [a Rússia] foi usada para unir essas duas forças, para usá-la como um instrumento de pressão sobre o Parlamento e, em última análise, para enfraquecer o atual sistema político na Geórgia”.

Em meio ao acirramento da crise diplomática, o Presidente da Federação Russa, Vladimir Putin, assinou um Decreto que bane temporariamente voos para a Geórgia a partir do dia 8 de julho. Segundo o Documento, a razão é garantir a segurança nacional do país e proteger seus cidadãos de ações criminosas perante a insurgência de um movimento anti-Rússia no Estado vizinho. O Decreto permanecerá em vigência até que a situação se normalize e não haja nenhuma ameaça para a segurança dos turistas russos. Nos últimos anos, um grande volume de turistas da Rússia viajou à Geórgia, de forma que o banimento dos voos pode vir a ser um grande problema para a economia georgiana.

Enquanto questões de política externa se complicam, protestos pela Geórgia continuam. Até agora, foram 5 dias consecutivos de manifestações. O resultado foi a renúncia do Porta-Voz do Parlamento e a divulgação de que um pacote de reformas eleitorais seria colocado em prática já em 2020. Todavia, não há como prever se essas medidas serão suficientes para frear os protestos pelo país. Ao passo que a situação política se mantém instável, as relações com a Rússia também estarão incertas.

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Notas:

* Em 2008, Rússia e Geórgia entraram em conflito direto e tal acontecimento ficou conhecido como a Guerra dos Cinco Dias. Foi uma guerra de curta duração, em que a Geórgia buscou manter os territórios separatistas Ossétia do Sul e Abecásia, enquanto que a Rússia apoiou a independência dessas regiões ao alegar que lá haveria uma maioria russa que deveria ser defendida. A guerra encerrou-se com um acordo de cessar-fogo negociado entre as partes e mediado pela União Europeia. Desde então, a Rússia retirou suas tropas do território da Geórgia, mas ainda as mantêm na Ossétia do Sul e na Abecásia e reconhece a independência das duas regiões. Em resposta a esse posicionamento, a Geórgia cortou as relações diplomáticas com a Federação Russa, algo que se mantém até os dias de hoje, 10 anos após o conflito.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Antigo prédio do Parlamento em Tbilisi, na Geórgia” (Fonte): https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/b/b3/Parlamento_de_Georgia%2C_Tiflis%2C_Georgia%2C_2016-09-29%2C_DD_07.jpg/800px-Parlamento_de_Georgia%2C_Tiflis%2C_Georgia%2C_2016-09-29%2C_DD_07.jpg

Imagem 2 Emblema da Assembleia Interparlamentar sobre a Ortodoxia” (Fonte): https://upload.wikimedia.org/wikipedia/en/thumb/e/ef/Interparliamentary_Assembly_on_Orthodoxy.svg/800px-Interparliamentary_Assembly_on_Orthodoxy.svg.png

NOTAS ANALÍTICASTecnologia

A possível guerra cibernética entre EUA e Rússia

Os Estados Unidos e a Federação Russa podem estar a poucos passos do início de uma guerra cibernética*. Recentemente, o jornal norte-americano The New York Times (NYT) realizou uma matéria acerca do acirramento das incursões digitais que oficiais estadunidenses estariam realizando na rede de energia elétrica da Rússia. O artigo contou com depoimentos de vários oficiais estadunidenses envolvidos na operação do Comando Cibernético, o qual tem o objetivo de defender e proteger a rede de computadores militares dos EUA.

De acordo com a reportagem do NYT, os norte-americanos estariam vigiando a rede elétrica da Rússia desde 2012. Antes, eram apenas missões de reconhecimento, a fim de encontrar possíveis irregularidades. Entretanto, nos últimos meses, a atuação teria se tornado mais severa. De acordo com os oficiais, agora eles estariam transmitindo malwares** para o sistema russo com o intuito de enviar um “aviso” e também para garantir que, caso uma guerra ocorra entre os dois países, a rede da Rússia estaria vulnerável aos programas maliciosos dos americanos.

Apesar de o jornal ter apurado a matéria por meses, apresentando fontes que preferiram manter-se em anonimato, o presidente Donald Trump utilizou da plataforma digital Twitter para expressar seu descontentamento com o NYT e sua reportagem, opinando de forma a desacreditar das informações apuradas. Assim, de acordo com Trump, “você acredita que o decaído New York Times acabou de fazer uma reportagem afirmando que os Estados Unidos estão aumentando substancialmente os ataques cibernéticos contra a Rússia? Este é um ato virtual de traição por um jornal que antes era importante, [eles] estão desesperados por uma história, qualquer história, mesmo que seja ruim para nosso país. [A qual] TAMBÉM não é verdade! Hoje, qualquer coisa passa pela nossa mídia de notícias corrupta. Eles farão, ou dirão, o que for preciso, sem o menor pensamento nas consequências! Esses são os verdadeiros covardes e, sem dúvida, O INIMIGO DO POVO!

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Entretanto, de acordo com oficiais do governo, acredita-se que o presidente Trump não teria sido informado sobre a operação do Comando Cibernético de colocar o código malicioso na rede elétrica russa. Tal agência não precisa da aprovação presidencial para agir e não o teria inteirado por receio de que Trump reagiria contra e cancelasse o programa.

O Porta-Voz do Kremlin, Dmitry Peskov, comentou que “se as agências norte-americanas estão conduzindo ataques cibernéticos sem notificar o Chefe de Estado isso poderia ser um sinal de ciberguerra direcionada à Rússia”. Peskov complementou destacando que alguns setores econômicos importantes do país vêm sofrendo ataques virtuais de outros países, mas que as agências russas estão trabalhando regularmente para prevenir que ocorra qualquer prejuízo.

Assim, especialistas apontam que uma guerra cibernética entre EUA e Federação Russa pode estar em vias de se desenrolar. A situação entre os dois Estados nesse campo já se encontrava bastante estremecida desde as acusações norte-americanas de que a Rússia teria interferido nas eleições estadunidenses de 2016, por meio de ataques virtuais. O senador John McCain pronunciou-se sobre o assunto, afirmando que “(…) a fim de fazer Putin lamentar profundamente seu ataque à nossa democracia, deveríamos considerar seriamente retaliar com os tipos de armas que ele usou. Também temos capacidades cibernéticas”.

Embora esse tipo de conflito não envolva armas físicas, ele pode afetar de maneira mais direta os civis e prejudicar a economia do país de forma drástica. Dessa forma, não se sabe quais serão as próximas consequências caso EUA e Rússia iniciem uma guerra cibernética com ataques reais em suas redes.

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Notas:

*A guerra cibernética se caracteriza por ser um conflito em que não se utiliza armas físicas, o confronto é por meios eletrônicos, são ataques a computadores, softwares ou redes específicas que comandam determinado setor de um país

** Malwares são programas de computador que tem o objetivo de se infiltrarem de maneira ilícita em redes alheias para causar danos, alterações ou ter acesso a informações.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Militares americanos monitorando o envio de dados a aviões numa simulação de ciberguerra” (Fonte): https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/6/62/Monitoring_a_simulated_test_at_Central_Control_Facility_at_Eglin_Air_Force_Base_%28080416-F-5297K-101%29.jpg/285px-Monitoring_a_simulated_test_at_Central_Control_Facility_at_Eglin_Air_Force_Base_%28080416-F-5297K-101%29.jpg

Imagem 2Pronunciamento do Presidente dos EUA, Donald Trump, via a plataforma digital Twitter” (Fonte): https://twitter.com/realDonaldTrump/status/1140065304019644427?ref_src=twsrc%5Etfw%7Ctwcamp%5Etweetembed%7Ctwterm%5E1140065304019644427&ref_url=https%3A%2F%2Fsputniknews.com%2Frussia%2F201906171075909744-trump-cyberattacks-russia-signs-cyberwar%2F