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Presidentes Putin e Lukashenko discutem sobre a União da Rússia e Bielorrússia

Nos dias 17 e 18 de julho, o Presidente da Rússia, Vladimir Putin, e o Presidente da Bielorrússia (ou Belarus), Alexander Lukashenko, realizaram reuniões informais às margens do Fórum das Regiões Russas e Bielorrussas, em São Petersburgo. As expectativas eram positivas, esperava-se que os dois líderes discutissem sobre questões estratégicas e de integração entre os dois países, principalmente referente ao Tratado firmado no final da década de 1990.

Em 1999, a Belarus e a Federação Russa acordaram a criação da União da Rússia e Bielorrússia, uma entidade supranacional em semelhança com a antiga União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS). Entretanto, a União não se realizou por completo, com cada Estado ainda seguindo soberano e independente, porém, mais próximos economicamente.

A reunião de Putin com Lukashenko, portanto, foi uma oportunidade para alinhar as demandas necessárias para que a Entidade prossiga em pleno funcionamento. De acordo com o Presidente da Bielorrússia, “nosso Tratado da União completará 20 anos em dezembro e eu acho que nem uma única questão deve ir além dessa data. Estamos pressionados pelo tempo. O que devemos dizer quando celebramos o aniversário? Não teremos nada a dizer se não conseguirmos resolver todas as questões pendentes e assinar um programa que determine nossas atividades futuras”.

Em vista do prazo curto, algumas decisões já foram colocadas na pauta da conversa entre os dois líderes. Ambos concordaram em vários pontos referentes às áreas de desenvolvimento do processo de integração da União e aprovam a implementação de um documento que planeje ações futuras e soluções para possíveis problemas.

Uma das propostas de confecção de bandeira que representaria a entidade supranacional, a União da Rússia e da Bielorrússia

Há ainda muito a ser discutido para que a Entidade esteja totalmente implantada, como questões econômicas, comerciais e até políticas. Por exemplo, o Ministro do Desenvolvimento Econômico da Rússia, Maxim Oreshnkin, afirmou que é preciso cautela em relação à possibilidade de unir a moeda e política monetária dos dois países. Não há pressa para resolver esse assunto, visto que para implementar um programa desses é preciso estudo detalhado sobre as implicações futuras na economia.

Em contrapartida, ambos os países concordaram na criação de um mercado industrial comum até 2021. Segundo o Ministro da Economia da Belarus, Dmitry Krutoy, espera-se a unificação dos mercados não só de gás natural e petróleo, como também das indústrias, da agricultura e do transporte. Assim, “independentemente de estar registrado na Rússia ou na Bielorrússia, uma empresa trabalhará de acordo com regras comuns, com base na administração unificada, sistemas unificados de controle, sistemas informativos integrados e unificados”.

A perspectiva é que, nos próximos meses, Bielorrússia e Federação Russa realizem encontros oficiais entre suas delegações e Presidentes para resolver as questões pendentes. O caminho não será fácil. De acordo com Kirill Koktysh, especialista em Teoria Política, ambos os países “precisam estabelecer os novos objetivos da União Rússia-Belarus. A agenda anterior já foi implementada em grande parte, é imprescindível trabalhar em um novo documento para orientar as metas”.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Presidente da Bielorrússia, Alexander Lukashenko, e o Presidente da Rússia, Vladimir Putin”(Fonte): http://static.kremlin.ru/media/events/photos/big/Jd9q7KfhD8weOCkd4zpv4sKJIctMd24Y.jpg

Imagem 2 “Uma das propostas de confecção de bandeira que representaria a entidade supranacionala União da Rússia e da Bielorrússia” (Fonte): https://en.wikipedia.org/wiki/File:Flag_of_the_Union_State.svg

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Sistema russo de defesa antiaérea começa a ser entregue à Turquia

No dia 12 de julho, a Turquia começou a receber da Rússia os primeiros equipamentos para a instalação do S-400 Triumf, sistema de mísseis antiaéreos de longo alcance. Seu objetivo é defender de ataques de aeronaves, mísseis cruzeiros ou balísticos, inclusive aqueles de médio-alcance, e também impedir ofensivas terrestres. Seu alcance chega a 400km de distância e a 35km de altitude. O Acordo entre Turquia e Federação Russa sobre a venda desse aparato militar foi anunciado, primeiramente, em 2016, e a assinatura do contrato foi realizada oficialmente em 2017, o qual detém o valor de 2,5 bilhões de dólares*.

O Presidente da Turquia, Recep Erdogan, relatou que o S-400 da Rússia é o melhor sistema de defesa de mísseis do mundo e que esse é o maior tratado entre Moscou e Ancara. Conforme aponta Erdogan, “hoje, o acordo mais importante em nossa história moderna é o acordo S-400. Com a aquisição de sistemas S-400, a Turquia não está se preparando para uma guerra. Esses sistemas de defesa antimísseis devem garantir a paz e a segurança em nosso país”.

O S-400 russo

O líder, então, garantiu que a implantação desses aparatos militares servem unicamente para garantir a segurança do país. Em suas palavras, “se a necessidade surgir, teremos o direito de usá-lo [o sistema antimísseis S-400]. Caso nos ataquem, nós iremos lançar os sistemas de defesa antiaéreos”. Erdogan também comentou sobre a possibilidade de realizar uma produção do S-400 em parceria com a Rússia. Embora não haja nenhum acerto concreto sobre o assunto, os Presidentes não descartam a possibilidade de que essa colaboração ocorra futuramente.

Em contrapartida, membros da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) realizaram críticas sobre a venda e entrega do S-400, em especial os EUA. Como integrante da OTAN, a Turquia estaria sujeita ao chamado CAATSA, um ato implantado na Organização, em 2017, que penaliza com sanções os aliados que realizarem transações com o setor de defesa russo.

Caça norte-americano F-35 Lightning 2

Não houve ainda nenhum informe indicando que tais sanções serão aplicadas. Entretanto, o Governo norte-americano ameaçou retirar a Turquia do programa de desenvolvimento e de uso dos aviões de caça F-35, pois eles não são compatíveis com os sistemas russos S-400, podendo esse comprometer o funcionamento daquele. Além disso, Washington tem o receio de que os russos tenham acesso ao sistema de defesa dos caças, o que se colocaria como um risco às operações militares.

Embora haja tal perigo, a Turquia seguiu em frente com o Acordo fechado com a Rússia e espera que até abril de 2020 o S-400 esteja totalmente implantado no país. Especula-se, no entanto, que Ancara e Washington já dialogaram e chegaram a um consentimento sobre o assunto. Segundo Yuri Netkachvev, especialista militar, “as sanções relacionadas à participação do regime de Erdogan no projeto do F-35 podem ser amenizadas em troca de esforços para promover os interesses dos Estados Unidos na região”.

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Nota:

* 2,5 bilhões de dólares equivalem a aproximadamente 9,4 bilhões de reais, pela cotação do dia 16 de julho de 2019.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1O Presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, e o Presidente da Rússia, Vladimir Putin, durante o G20 em Osaka, no Japão, em 29 de junho de 2019” (Fonte): http://static.kremlin.ru/media/events/photos/big2x/lNGvarqaa5YfW8OUm8q5GrtOQf4MGXMb.jpg

Imagem 2O S400 russo” (Fonte): https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/9/94/%D0%A1-400_%C2%AB%D0%A2%D1%80%D0%B8%D1%83%D0%BC%D1%84%C2%BB.JPG/300px-%D0%A1-400_%C2%AB%D0%A2%D1%80%D0%B8%D1%83%D0%BC%D1%84%C2%BB.JPG

Imagem 3Caça norteamericano F35 Lightning 2” (Fonte): https://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:F-35A_flight_(cropped).jpg

FÓRUNS INTERNACIONAISNOTAS ANALÍTICASPOLÍTICA INTERNACIONAL

BRICS realizam reunião informal à margem da Cúpula do G20

Nos dias 28 e 29 de junho (2019), aconteceu em Osaka, no Japão, a 14ª Cúpula do G20, um grupo que compreende os Chefes de Estado de 19 países e da União Europeia. Este ano, discutiu-se 8 temas para garantir o desenvolvimento global sustentável, os quais são: Economia Global; Comércio e Investimento; Inovação; Meio Ambiente e Energia; Emprego; Empoderamento Feminino; Desenvolvimento; e Saúde. Enquanto a programação do Evento seguia seu curso, muitos líderes aproveitaram para realizar reuniões paralelas para tratar de assuntos referentes às suas relações bilaterais ou multilaterais. Assim, um dos encontros promovidos à margem do G20 foi entre os líderes dos países que compõem o BRICS*.

Durante essa reunião informal estiveram presentes o Presidente da China, Xi Jinping; o Presidente da Rússia, Vladimir Putin; o Presidente do Brasil, Jair Bolsonaro; o Primeiro Ministro da Índia, Narendra Modi; e o Presidente da África do Sul, Cyril Ramaphosa. Foi a primeira vez que o presidente Bolsonaro participou de um Encontro do BRICS. Bolsonaro também não havia se encontrado ainda com o presidente Putin, com quem teve uma conversa antes do começo da reunião. De acordo com o Porta-Voz do Kremlin, Dmitry Peskov, “enquanto estava esperando por outros participantes, Putin teve a oportunidade de conhecer bem o presidente brasileiro Bolsonaro, foi o primeiro encontro deles e tiveram a chance de ter uma boa conversa”.

Antes do início da ReuniãoPresidente da RússiaVladimir Putinconversa com Presidente do BrasilJair Bolsonaro

Os principais assuntos em pauta foram acerca dos desafios atuais da economia mundial para o BRICS. Em destaque, os líderes conversaram sobre as inconstâncias do comércio internacional, o crescimento de políticas protecionistas e como isso está afetando a economia dos países emergentes. Acerca desse tema, Putin destacou a importância de aumentar o uso de moedas nacionais nas trocas entre eles para se protegerem de possíveis instabilidades. Além disso, os líderes concordaram que a Organização Mundial do Comércio (OMC) precisa passar por mudanças institucionais. O primeiro-ministro Modi destacou: “nós ainda devemos nos concentrar na reforma da OMC para alcançar um desenvolvimento equilibrado da economia global e, assim, o crescimento estará aberto a todos”.

Um grande assunto de política mundial é a situação na Venezuela, mas tal questão não foi abordada na reunião do BRICS. De acordo com o jornal O Estado de São Paulo, Bolsonaro pretendia discutir sobre a Venezuela e cobrar ajuda da Rússia para a transição do governo. Entretanto, o Presidente brasileiro recuou em sua decisão e justificou-a em declaração: “Nós sabemos que quem decide o futuro do mundo são as potências nucleares, então não quis polemizar com o senhor Putin, e tocamos o barco (…). Eu estava na presença do presidente da Rússia e vi que não era o momento de ser mais agressivo na questão”. Nessa situação, o Brasil é o único país entre os cinco que reconheceu Juan Guaidó, líder da oposição, como o Presidente interino da Venezuela, enquanto que os outros Estados do BRICS seguem apoiando Nicolás Maduro.

Outro tema em discussão foi referente à sustentabilidade. Todos os países membros do BRICS anunciaram o comprometimento deles com o Acordo de Paris e com a Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável. Além disso, foi colocado em pauta questões relativas ao combate ao terrorismo. Destacou-se, portanto, a importância de criar cooperações entre empresas e governos para impedir que plataformas digitais sejam usadas para recrutar aqueles que desejam realizar atos terroristas.

A reunião entre os membros do BRICS, apesar de informal, gerou uma conversa bastante produtiva entre os líderes e pavimentou o caminho para o encontro oficial que está marcado para ocorrer em novembro deste ano (2019), em Brasília. O Brasil, em 2019, está na Presidência do grupo, por isso irá sediar a 11ª Cúpula no final do ano, a qual tem como temática a discussão sobre “Crescimento Econômico para um Futuro Inovador”.

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Nota:

BRICS é um fórum entre Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, que tem o objetivo de facilitar a troca e a assinatura de Acordos bilaterais, trilaterais ou multilaterais entre esses Estados.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 “Os participantes da Reunião do BRICS (da esquerda para a direita): o Presidente da China, Xi Jinping; o Presidente da Rússia,Vladimir Putin; o Presidente do Brasil, Jair Bolsonaroo PrimeiroMinistro da Índia, Narendra Modi; e o Presidente da África do Sul, Cyril Ramaphosa” (Fonte): http://static.kremlin.ru/media/events/photos/big/u98FhYbJiACB8jREaAnZFIAhriUeHmKU.jpg

Imagem 2 “Antes do início da ReuniãoPresidente da RússiaVladimir Putinconversa com Presidente do BrasilJair Bolsonaro” (Fonte): http://static.kremlin.ru/media/events/photos/big/qHO5CAvMlZfxWoucuhzgxJ5fgn3rfXTS.jpg

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Protestos na Geórgia e tensões diplomáticas com a Rússia

Nos últimos dias, está ocorrendo uma onda de protestos em Tbilisi, capital da Geórgia. Os motivos do movimento são vários e referem-se principalmente ao descontentamento da população em relação às questões de política interna. Porém, o estopim do início das manifestações está ligado às tensões diplomáticas com a Rússia que existem desde 2008*.

Em 20 de junho (2019), quando os protestos se iniciaram, estava marcado para ocorrer no Parlamento georgiano a Assembleia Interparlamentar sobre a Ortodoxia (IAO, sigla em inglês), uma instituição transnacional que visa a discussão entre parlamentares de países que seguem o cristianismo ortodoxo.

O legislador russo, Sergei Gavrilov, abriu o evento com um discurso em russo, idioma estrangeiro na Geórgia, e sentado na cadeira do Porta-Voz do Parlamento, Irakli Kobakhidze. Sua atitude gerou descontentamento de parte dos legisladores georgianos, com depoimentos declarando que a conduta de Gavrilov foi “um tapa na cara na recente história da Geórgia”.

Emblema da Assembleia Interparlamentar sobre a Ortodoxia

Assim, os protestantes acusam membros do governo de estarem cooperando com a Rússia e exigiram a renúncia de Kobakhidze, por ter convidado a delegação russa e permitido que Gavrilov presidisse a sessão, e do Ministro do Interior, Georgy Gakhariya. Apesar da tensão diplomática com a Federação Russa ter impulsionado a crise política, considera-se que ela não é de fato a causa. De acordo com Thomas de Waal, especialista na região do Cáucaso, “a causa foi a política doméstica bastante polarizada em que a oposição utiliza a Rússia como uma forma de desacreditar o governo”.

A análise de Waal condiz com o posicionamento do Primeiro-Ministro da Federação Russa. Dmitry Medvedev declarou que “a tentativa de colocar a culpa na Rússia parece apenas distorcer a situação real. Ela [a Rússia] foi usada para unir essas duas forças, para usá-la como um instrumento de pressão sobre o Parlamento e, em última análise, para enfraquecer o atual sistema político na Geórgia”.

Em meio ao acirramento da crise diplomática, o Presidente da Federação Russa, Vladimir Putin, assinou um Decreto que bane temporariamente voos para a Geórgia a partir do dia 8 de julho. Segundo o Documento, a razão é garantir a segurança nacional do país e proteger seus cidadãos de ações criminosas perante a insurgência de um movimento anti-Rússia no Estado vizinho. O Decreto permanecerá em vigência até que a situação se normalize e não haja nenhuma ameaça para a segurança dos turistas russos. Nos últimos anos, um grande volume de turistas da Rússia viajou à Geórgia, de forma que o banimento dos voos pode vir a ser um grande problema para a economia georgiana.

Enquanto questões de política externa se complicam, protestos pela Geórgia continuam. Até agora, foram 5 dias consecutivos de manifestações. O resultado foi a renúncia do Porta-Voz do Parlamento e a divulgação de que um pacote de reformas eleitorais seria colocado em prática já em 2020. Todavia, não há como prever se essas medidas serão suficientes para frear os protestos pelo país. Ao passo que a situação política se mantém instável, as relações com a Rússia também estarão incertas.

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Notas:

* Em 2008, Rússia e Geórgia entraram em conflito direto e tal acontecimento ficou conhecido como a Guerra dos Cinco Dias. Foi uma guerra de curta duração, em que a Geórgia buscou manter os territórios separatistas Ossétia do Sul e Abecásia, enquanto que a Rússia apoiou a independência dessas regiões ao alegar que lá haveria uma maioria russa que deveria ser defendida. A guerra encerrou-se com um acordo de cessar-fogo negociado entre as partes e mediado pela União Europeia. Desde então, a Rússia retirou suas tropas do território da Geórgia, mas ainda as mantêm na Ossétia do Sul e na Abecásia e reconhece a independência das duas regiões. Em resposta a esse posicionamento, a Geórgia cortou as relações diplomáticas com a Federação Russa, algo que se mantém até os dias de hoje, 10 anos após o conflito.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Antigo prédio do Parlamento em Tbilisi, na Geórgia” (Fonte): https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/b/b3/Parlamento_de_Georgia%2C_Tiflis%2C_Georgia%2C_2016-09-29%2C_DD_07.jpg/800px-Parlamento_de_Georgia%2C_Tiflis%2C_Georgia%2C_2016-09-29%2C_DD_07.jpg

Imagem 2 Emblema da Assembleia Interparlamentar sobre a Ortodoxia” (Fonte): https://upload.wikimedia.org/wikipedia/en/thumb/e/ef/Interparliamentary_Assembly_on_Orthodoxy.svg/800px-Interparliamentary_Assembly_on_Orthodoxy.svg.png

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Destaques do Fórum Econômico Internacional em São Petersburgo

Entre os dias 5 e 8 de junho (2019), ocorreu em São Petersburgo, na Rússia, o 23º Fórum Econômico Internacional (SPIEF, sigla em inglês). O SPIEF é um evento anual que ocorre desde 1997, seu objetivo é reunir chefes executivos das grandes empresas russas e mundiais, além de também atrair Presidentes e Ministros de vários países para discutirem os principais desafios do cenário econômico global. Na edição de 2019, estabeleceu-se um novo recorde com a participação de 19.000 pessoas de 145 países e a representação de 1.300 empresas estrangeiras e de 2.500 companhias russas. Em destaque, tem-se a participação do Presidente da China, Xi Jinping, e do Secretário Geral das Nações Unidas, Antonio Guterres.

No dia 7 de junho, o presidente russo Vladimir Putin realizou um discurso na sessão plenária do Fórum. Sua fala abordou diversos assuntos e ressaltou-se os principais desafios do comércio internacional. Putin, portanto, destacou os temas acerca da recente guerra comercial entre os EUA e a China, além das inúmeras sanções que os americanos e os europeus utilizaram nos últimos anos contra vários países, inclusive a Rússia. De acordo com o Presidente, “países que antes eram a favor dos princípios do livre comércio e da competição justa e honesta passaram a agir de forma a criar guerras comerciais e a recorrer a sanções. Eles usam invasões econômicas, intimidação e quaisquer métodos não mercantis para eliminar a concorrência”.

Símbolo oficial do Fórum Econômico Internacional de São Petersburgo

Putin também utilizou do seu tempo no Fórum para questionar a importância do dólar nas transações internacionais. Assim, afirmou que “por o dólar dos EUA ter se tornado a moeda da reserva global, hoje é uma ferramenta que garante que o país emissor pressione o resto do mundo”. A Rússia, hoje, é um dos vários países do mundo que apoiam e utilizam moedas nacionais nas trocas bilaterais, o que coloca o dólar norte-americano em segundo plano e retira dos EUA a capacidade de intervir economicamente em quaisquer acordos nos quais não haja sua participação direta.

À parte da participação dos grandes empresários e líderes mundiais, a SPIEF também atrai estandes de diferentes companhias que propõem sua visão de mundo para o futuro. Houve várias inovações tecnológicas presentes no Fórum, como um robô batizado de Pythagoras, o protótipo de uma plataforma educacional para ensinar alunos a criar e programar robôs para interações sociais. Outra novidade apresentada foi um aplicativo para os óculos de realidade virtual que simula a visita de uma casa que está a venda. A partir do programa, é possível visitar os cômodos da casa e descobrir a vista das janelas, tudo isso sem que o interessado tenha que se locomover até o local.

Em resumo, o SPIEF 2019 foi bastante importante para garantir visibilidade para a Rússia e também para que acordos econômicos e comerciais fossem discutidos entre as partes presentes, tanto no âmbito privado, entre empresas, como no âmbito público, entre Estados. No total, 650 acordos no valor de 48 bilhões de dólares* foram assinados durante o evento**. Em destaque, tem-se o contrato bilateral entre Rússia e a empresa chinesa de tecnologia Huawei, sobre o qual firmou-se que a companhia implantará no território russo a tecnologia 5G. De acordo com Putin, “tentativas estão sendo feitas não apenas para desafiar a empresa Huawei no mercado global, mas para restringi-la de maneira arbitrária. Alguns círculos já chamam isso de a primeira guerra tecnológica a surgir na era digital”.  Assim, se o Presidente russo estiver certo em sua análise, Rússia e China estariam na frente dos outros Estados na utilização da inovação tecnológica mais importante nos últimos anos.

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Notas:

48 bilhões de dólares é equivalente a, aproximadamente, 186 bilhões de reais, de acordo com a cotação do dia 10 de junho de 2019.

** Os principais acordos firmados são: o contrato realizado entre a companhia Ferrovias Russas e a Siemens para a compra de 13 trens de alta-velocidade e a sua manutenção pela empresa alemã pelos próximos 30 anos; a compra de armas russas pela Armênia; o comprometimento pelo envio de militares russos para a missão de paz das Nações Unidas na República Centro-Africana; e um acordo bilateral entre Rússia e Cuba para renovar o sistema ferroviário cubano.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 “Símbolo oficial do Fórum Econômico Internacional de São Petersburgo” (Fonte): https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/2/2d/%D0%9B%D0%BE%D0%B3%D0%BE%D1%82%D0%B8%D0%BF_%D0%9F%D0%9C%D0%AD%D0%A4.png

Imagem 2 “Presidente da Rússia, Vladimir Putindiscursa no Fórum Econômico Internacional de São Petersburgo” (Fonte): http://static.kremlin.ru/media/events/photos/big2x/MJnUilZ3OqwO1YCU0kmWPWzA9iStKlzZ.jpg

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Congresso americano ameaça impor sanções à construção do gasoduto Nord Stream 2

Atualmente, a Federação Russa é uma das principais parceiras da Europa em relação ao suprimento de gás natural. O Nord Stream é um dos vários dutos que fornecem essa fonte energética ao continente europeu. O seu caminho é pelo Mar Báltico, ele parte de Vyborg, na Rússia, e termina em Greifswald, na Alemanha. Há 2 gasodutos paralelos com 1.222 quilômetros de extensão cada, o que resulta numa capacidade de transporte anual de 55 bilhões de metros cúbicos. Agora, em 2019, está em andamento a construção do Nord Stream 2, que adicionaria mais dois condutos aos que existem, elevando o volume total de carregamento anual para 110 bilhões de metros cúbicos.

Economicamente, esse projeto garantiria que a Europa tivesse acesso a uma quantidade maior de gás natural a um preço mais barato. Entretanto, essa afirmação é contestável. De acordo com uma análise realizada pelo jornal inglês “The Economist”, a prospectiva da demanda europeia por gás natural para os próximos anos não é suficiente para justificar a construção de um novo gasoduto neste momento, principalmente por causa da eficiência energética e a utilização de fontes renováveis de energia.

Localização do Nord Stream

Politicamente, a construção do Nord Stream 2 também trouxe várias controvérsias. A principal é que com esse novo gasoduto a Rússia poderia cortar o fornecimento de gás natural à Ucrânia sem afetar a Europa, o que resultaria num prejuízo de 2 a 3 bilhões de dólares* para o país e isso seria suficiente para que sua economia entrasse numa recessão. Outros Estados também poderiam sofrer cortes no fornecimento por questões político-estratégicas, como a Polônia ou outros países Bálticos.

A partir desse cenário, os senadores norte-americanos Ted Cruz e Jeanne Shaheen apresentaram ao Senado um Projeto de Lei que sancionaria as companhias envolvidas em projetos energéticos russos de construção de dutos em águas profundas. Caso a lei passe, as partes sancionadas não serão permitidas a conseguir licenças de exportação para os EUA e nem conseguirão empréstimos maiores de 10 milhões de dólares** de instituições financeiras americanas. Pelas especificações do Projeto de Lei, a construção do Nord Stream 2 pode ser afetada e, consequentemente, as empresas envolvidas*** na obra.

Os maiores dutos de Gás Natural que partem da Rússia até a Europa

Embora exista essa ameaça, os empresários não acreditam que a lei vá entrar em vigor, que ela seria apenas uma maneira de pressioná-los a não realizarem projetos futuros com a Rússia nesse campo comercial. Richard Nephew, um pesquisador do Centro de Energia Política Global da Universidade de Columbia, nos EUA, declarou que essa lei poderia atrasar a conclusão do gasoduto, mas que é pouco provável que impediria a sua finalização, visto que a Rússia já demonstrou estar disposta a continuar, apesar das controvérsias.

A Alemanha e a Federação Russa já se pronunciaram contra o Projeto de Lei proposto pelos senadores norte-americanos. O Ministro das Relações Exteriores da Alemanha, Heiko Maas, afirmou que “as questões de política energética devem ser decididas na Europa e não nos EUA”. O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, declarou que, ao “invés de uma competição justa com o Nord Stream 2, os EUA preferem atuar na Europa como nos tempos do Velho Oeste. Eles mostraram suas armas e disseram aos europeus que eles comprarão gás americano e não importa que seja pelo menos 30% mais caro do que o gás russo”.

Dessa forma, especialistas apontam que a introdução dessa lei americana pouco afetará a construção do Nord Stream 2. Mesmo que haja controvérsias políticas e econômicas que rodeiam o novo gasoduto, ele provavelmente será concluído e passará a ser utilizado já em 2020. As suas consequências, portanto, só poderão ser confirmadas no próximo ano.

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Nota:

* Aproximadamente, 7,82 e 11,72 bilhões de reais, conforme a cotação de 4 de junho de 2019.

** Em torno de 39,08 milhões de reais, também de acordo com a mesma cotação de 4 de junho de 2019.

*** As empresas que podem sofrer sanções são: Allseas, da Suíça; Anglo-Dutch Shell e OMV, da Áustria; Engie, da França; Saipem, da Itália; e Uniper e Wintershall, da Alemanha.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Capitólio dos Estados Unidos, prédio que serve como centro legislativo do governo dos EUA” (Fonte): https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/a/a3/United_States_Capitol_west_front_edit2.jpg/800px-United_States_Capitol_west_front_edit2.jpg

Imagem 2Localização do Nord Stream” (Fonte): https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/5/58/Nordstream.png/220px-Nordstream.png

Imagem 3Os maiores dutos de Gás Natural que partem da Rússia até a Europa” (Fonte): https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/d/d7/Major_russian_gas_pipelines_to_europe.png