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Rússia apresenta novo quebra-gelo nuclear

No sábado passado, dia 25 de maio (2019), a Rússia apresentou o novo quebra-gelo nuclear que faz parte da frota do “Projeto 22220”. Batizado de Ural, o navio foi lançado no Estaleiro Báltico em São Petersburgo e integra uma frota de outras 3 embarcações semelhantes que, quando concluídas, constituirão a esquadra de quebra-gelos mais poderosa do mundo. Os quebra-gelos nucleares são navios movidos a propulsão nuclear para navegação em áreas cobertas de gelo, eles são mais potentes que aqueles movidos a diesel e não exigem grandes volumes de combustível para operar.

O “Projeto 22220” compreende a construção de 3 navios: Arktika, Sibir e Ural. Os dois primeiros estão para entrar em serviço em 2020 e em 2021, respectivamente, enquanto que o Ural será finalizado completamente em 2022. Os investimentos para a construção dos quebra-gelos são em torno de 120 bilhões de rublos*. Além disso, há a previsão da construção de mais 2 navios pela empresa de energia nuclear civil russa, Rosatom, sendo que o quarto entraria em operação em 2024 e o quinto em 2027.

O objetivo da Rússia é utilizar essa nova esquadra de quebra-gelos nucleares para explorar a Rota do Mar do Norte (NSR, sigla em inglês), uma rota marítima que corre ao longo da costa russa do Ártico, desde da Sibéria até o Estreito de Bering, e também pelas costas do Alaska, Canadá, Dinamarca, Finlândia, Islândia, Noruega e Suécia. Durante dois meses do ano esse percurso fica livre de gelo, permitindo que navios comuns adentrem o espaço, entretanto, ao longo dos outros meses o deslocamento só é possível com os quebra-gelos. Com essa nova frota, o NSR será navegável o ano todo.

Mapa da região do Ártico onde é destacada a Rota do Mar do Norte pela Passagem a Noroeste e pela Passagem ao Nordeste

A partir do momento que a circulação marítima é facilitada, a Federação Russa consegue ter mais controle sobre essa região do globo em relação aos outros países que também utilizam do Ártico para rota comercial. Outra questão importante é que a região possui grandes quantidades de petróleo e gás natural. De acordo com o Serviço Geológico dos Estados Unidos, há aproximadamente uma reserva energética de 412 bilhões de barris, isso equivale a 22% do total não descoberto de petróleo e gás do mundo.

Especialistas destacam que essa estratégia russa coloca o país em vantagem na corrida pelo Ártico. Em alguns anos, as mudanças climáticas vão resultar no derretimento do gelo, mas, enquanto isso não ocorre, a Rússia já coloca uma frota de quebra-gelos em ação para o melhor reconhecimento da área.

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Nota:

* 120 bilhões de rublos correspondem a aproximadamente 1,8 bilhão de dólares que, consequentemente, correspondem a aproximadamente 7,2 bilhões de reais (cotação do dia 27 de maio 2019).

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Fontes das Imagens:

Imagem 1O quebragelo nuclear Yamal” (Fonte): https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/f/f5/Yamal_2009.JPG/300px-Yamal_2009.JPG

Imagem 2Mapa da região do Ártico onde é destacada a Rota do Mar do Norte pela Passagem a Noroeste e pela Passagem ao Nordeste” (Fonte): https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/b/bc/Map_of_the_Arctic_region_showing_the_Northeast_Passage%2C_the_Northern_Sea_Route_and_Northwest_Passage%2C_and_bathymetry.png/440px-Map_of_the_Arctic_region_showing_the_Northeast_Passage%2C_the_Northern_Sea_Route_and_Northwest_Passage%2C_and_bathymetry.png

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As perspectivas futuras sobre as relações EUA – Rússia

Nos últimos meses, as relações diplomáticas entre Rússia e Estados Unidos (EUA) encontram-se estremecidas e instáveis. Há, de um lado, questões de política internacional em que o posicionamento dos dois países é antagônico, como sobre a liderança política na Venezuela e sobre o fim do Acordo Nuclear dos EUA com o Irã. Mas, há também assuntos bilaterais que impactam negativamente no diálogo entre eles e, consequentemente, despertam desconfianças e apreensão da comunidade internacional.

Diante desse cenário, no dia 14 de maio (2019), o Secretário de Estado dos Estados Unidos, Mike Pompeo, esteve em Sochi, na Rússia, para uma reunião oficial com o presidente Vladimir Putin e o Ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov. A visita oficial de Pompeo representa uma tentativa de aproximação entre os dois países.

Como esperado, assuntos de política internacional foram discutidos entre os três líderes, principalmente sobre a Síria, a Venezuela, o Irã e a Coreia do Norte. Em síntese, o presidente Putin e o secretário Pompeo se comprometeram em manter o diálogo sobre tais questões delicadas e anunciaram que vão se empenhar para encontrar meios que possam permitir que conflitos internos e crises humanitárias, como na Síria e na Venezuela, encerrem-se de maneira pacífica.

O Ministro das Relações Exteriores, Sergei Lavrov

À parte dessas questões, as relações bilaterais também foram o foco da Conversa, principalmente sobre o futuro do Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermediário (INF, sigla em inglês) e do Novo START, um Tratado de redução de armas entre os dois países que está para expirar em fevereiro de 2021. Pompeo, Putin e Lavrov comprometeram-se a incentivar suas delegações a negociarem sobre a extensão do Novo START, contudo, o futuro do INF não foi discutido explicitamente. Mike Pompeo, no entanto, destacou que o Presidente dos EUA, Donald Trump, tem a intenção de construir um Acordo trilateral, o qual envolveria não só a Rússia e os EUA, mas a China também. De acordo com o Secretário de Estado, “o presidente [Trump] quer um controle sério dos armamentos que ofereça segurança real ao povo americano e nós sabemos que para alcançar esses objetivos teremos que trabalhar juntos, e seria importante se isso fosse possível envolver a China também”.        

Outro assunto bilateral que foi discutido foi o Relatório Mueller e a suposta intervenção russa nas eleições norte-americanas em 2016. De acordo com esse Documento, o procurador especial Robert Mueller concluiu que não houve conspiração entre a campanha de Donald Trump e a Rússia. Lavrov então destacou que esperava que a conclusão dada pela investigação encerrasse esse momento conturbado entre os dois países, podendo, portanto, caminhar para a construção de um diálogo mais profissional e construtivo. A resposta dada por Pompeo foi de garantir a Putin e Lavrov que os EUA não aceitarão intervenção da Rússia em seus assuntos internos e que caso algo desse porte ocorra nas eleições de 2020, o futuro das relações diplomáticas entre os dois Estados estará bastante comprometido.

Reunião entre as duas delegações, EUA e Rússia, com a presença do Secretário de Estado dos Estados Unidos, Mike Pompeo, do Presidente da Rússia, Vladimir Putin, e do Ministro das Relações Exteriores, Sergei Lavrov

Embora a Porta-Voz do Ministério das Relações Exteriores russo, Maria Zakharova, tenha descrito que o Encontro produziu uma discussão bastante frutífera entre as partes, especialistas destacam que há ainda muito do que precisa ser feito para que as perspectivas futuras sejam positivas, visto que não houve muitas decisões concretas acerca dos assuntos delicados que permeiam a diplomacia dos dois países. Além disso, recentemente, o Porta-Voz do Kremlin, Dmitry Peskov, deu uma entrevista ao canal televisivo Rossiya-1 em que afirmou que os posicionamentos das autoridades norte-americanas são bastante instáveis, que elas mudam diariamente e não há como prever como estarão as relações Rússia-EUA diante dessas alterações constantes. Segundo Peskov, “dificilmente alguém terá coragem de fazer previsões sobre o futuro das relações bilaterais nos próximos dois anos”.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Secretário de Estado dos Estados Unidos, Mike Pompeo, e o Presidente da Rússia, Vladimir Putin” (Fonte): http://static.kremlin.ru/media/events/photos/big/UjvgDM28h9FmvoZXoZdUUOPnbnMCrDSQ.jpg

Imagem 2O Ministro das Relações Exteriores, Sergei Lavrov” (Fonte): http://static.kremlin.ru/media/events/photos/big/xeRNn5ecLQOTqQJQ68siy9AA0oYfZQAZ.jpg

Imagem 3Reunião entre as duas delegações, EUA e Rússia, com a presença do Secretário de Estado dos Estados Unidos, Mike Pompeo, do Presidente da Rússia, Vladimir Putin, e do Ministro das Relações Exteriores, Sergei Lavrov” (Fonte): http://static.kremlin.ru/media/events/photos/big/ZWBWA0dA7WMhqjG1KJCsexmYADwgn4Qf.jpg

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Rússia facilita a obtenção de cidadania russa a ucranianos

Rússia e Ucrânia estão novamente em tensão, dessa vez por conta da assinatura de dois Decretos pelo presidente russo Vladimir Putin que facilitam a obtenção da cidadania russa aos nacionais ucranianos.

No dia 24 de abril, Putin firmou o primeiro Documento que garante que cidadãos da região separatista de Donbass* possam adquirir o passaporte russo de maneira mais rápida e facilitada, sem precisar abdicar da atual cidadania ucraniana. Logo em seguida, no dia 1º de maio, o Presidente russo expandiu as condições do primeiro Decreto pela assinatura de um segundo. A partir deste, as pessoas que moravam na Crimeia** antes da eclosão do conflito em 2014 e que se mudaram para outras regiões, como a própria Rússia, onde vivem como refugiados ou residentes temporários, também são elegíveis a conseguir a cidadania russa pelo processo rápido. Estima-se, portanto, que o número de potenciais candidatos para adquirir o passaporte está entre 5 e 10 milhões de pessoas.

Os Decretos assinados pelo presidente Putin abrangem não só aqueles que vivem hoje nessas regiões da Ucrânia. Pelo Documento, pessoas que moravam no leste do país antes da eclosão do conflito em 2014 e que se mudaram para outras regiões, como a própria Rússia, onde vivem como refugiados ou residentes temporários, também são elegíveis a conseguir a cidadania russa por esse processo rápido. Estima-se, portanto, que o número de potencial candidatos para adquirir o passaporte está entre 5 e 10 milhões de pessoas.

Moscou alega que sua decisão foi baseada em questões humanitárias. De acordo com Putin, as pessoas que moram no leste da Ucrânia estão vivendo em isolamento, em que muitas questões cotidianas são dificultadas, como o acesso à universidade ou a possibilidade de viajar ao exterior. Outro ponto utilizado para justificar tal ação é a legalização dos ucranianos que vivem na Rússia em condição de refugiados e até apátridas.

As regiões da Crimeia e Donbass na Ucrânia

Entretanto, a ação russa não foi positivamente aceita por muitos países da comunidade internacional, principalmente pelos Estados Unidos (EUA) e pela própria Ucrânia. De acordo com comunicado liberado pelo Departamento de Estado dos EUA, “a Rússia, através desta ação altamente provocativa, está intensificando seu ataque à soberania e integridade territorial da Ucrânia”, ao mesmo passo que Ministro das Relações Exteriores da Ucrânia, Pavlo Klimkin, utilizou o twitter para afirmar que esse movimento da Rússia é apenas mais uma “continuação da sua agressão e interferência em nossos assuntos internos”. Outra crítica também colocada foi que a Ucrânia está atualmente numa situação fragilizada, visto que a transição de governo logo ocorrerá. O atual Presidente, Petro Poroshenko, está deixando o cargo para que seu sucessor recém-eleito, Volodymyr Zelenski, assuma a posição. Nesse cenário, Poroshenko e Zelesnki têm as mesmas opiniões, ambos pediram aos aliados para que eles condenem essas ações russas, assim como reivindicaram que mais sanções sejam impostas.

Em resposta, Putin disse ter ficado surpreso e estranhado as reações negativas, visto que a situação não é nova na Ucrânia. O Presidente então lembrou que a Polônia, a Hungria e a Romênia também emitem rapidamente passaportes aos seus respectivos grupos étnicos que vivem em território ucraniano, assim, “se outros vizinhos da Ucrânia fazem isso há muitos anos, por que a Rússia não pode fazer o mesmo? (…) Os russos que vivem na Ucrânia não são tão bons quanto romenos, poloneses e húngaros?”.

Em meio a essa polêmica, especialistas apontam que a Rússia pode estar montando uma intervenção militar nos mesmos moldes que ocorreu na Geórgia em 2008. Conforme suas afirmações, na época, justificou-se a entrada militar na região da Ossétia do Sul na Geórgia para proteger a minoria separatista que detinha passaporte russo. De acordo com Wilfried Jilge, do Conselho Alemão de Relações Exteriores, se nacionais ucranianos tiverem cidadania russa, Moscou pode atuar em situações que considerar emergenciais para proteger essas pessoas do governo da Ucrânia.

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Notas:

* Donbass é uma região que se localiza no extremo leste da Ucrânia. Em 2014, após a Revolução Ucraniana e o Movimento Euromaidan, movimentos pró-Rússia e anti-governo ganharam força em Donbass, o que resultou numa guerra entre as forças separatistas das autodeclaradas Repúblicas Populares de Donetsk e Lugansk contra o governo ucraniano. Em setembro de 2014, foi assinado o Protocolo de Minsk para o fim do conflito, contudo, as hostilidades entre as partes continuaram com as acusações de violação do cessar-fogo.

** A Crimeia era uma entidade política autônoma dentro da Ucrânia, apesar de estar sob sua soberania. Após um referendo, em 2014, a região decidiu pela sua anexação à Rússia.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Passaportes da Federação Russa” (Fonte): https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/e/e7/Russian_passports.jpg/800px-Russian_passports.jpg

Imagem 2 As regiões da Crimeia e Donbass na Ucrânia” (Fonte): https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/b/b2/Map_of_the_Donbass.png

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O estreitamento das relações China – Rússia

No dia 25 de abril, o Presidente da Rússia, Vladimir Putin, chegou à China para participar do Segundo Fórum do Cinturão e da Rota para a Cooperação Internacional. Mais de 30 líderes de diferentes países encontraram-se em Beijing para esse Encontro que reúne iniciativas do Cinturão Econômico da Rota da Seda e da Rota da Seda Marítima do século XXI. Embora o foco da delegação russa fosse essa Conferência multilateral, Putin realizou também reuniões bilaterais, inclusive com o presidente chinês Xi Jinping.

O foco da conversa dos dois líderes foi o avanço das relações econômicas e comerciais entre seus países. Em 2018, o comércio cresceu 24,5%, totalizando um recorde de 108 bilhões de dólares (aproximadamente, 425,1 bilhões de reais, conforme cotação de 30 de abril de 2019), valor que ultrapassou as expectativas estabelecidas de 100 bilhões de dólares (em torno de 393,6 bilhões de reais, de acordo com a mesma cotação). O estreitamento da diplomacia foi igualmente colocado em pauta, visto que este ano (2019) é o aniversário de 70 anos das relações entre China e Rússia. Sobre isso, Putin destacou que “a Rússia está determinada a expandir a parceria estratégica com a China em todas as áreas, como sempre esteve ao longo das últimas décadas”.

Outra questão discutida foi a crise que a Venezuela vem enfrentando ao longo dos últimos meses. China e Rússia são dois dos poucos países no mundo que demonstram apoio ao presidente Nicolas Maduro, enquanto que Estados Unidos, membros do Grupo de Lima (excluindo o México), a Organização dos Estados Americanos e a maioria dos países da União Europeia apoiam o líder da oposição, Juan Guaidó. Diante desse cenário, Xi Jinping e Putin destacaram que a pressão externa para que seja adotado o uso da força para depor Maduro é inaceitável.

Durante a reunião bilateral entre a delegação russa e a delegação chinesa

De acordo com o porta-voz russo do Kremlin, Dmitry Peskov, “tanto os chineses quanto o nosso líder [Putin] destacaram que é totalmente inaceitável quando tentam derrubar autoridades em um terceiro país, quando tenta-se o uso da força e a pressão internacional ilegal contra um Estado soberano”. Peskov destacou que ambos os presidentes concordam que o próprio povo venezuelano deve decidir sobre o futuro do seu país, não sendo aceitável a interferência de outros Estados.

A partir do Encontro de Putin e Xi Jinping, especialistas apontam que as relações entre os dois países se encontram numa posição positiva. Um dos resultados direto dessa aproximação foi o anúncio da criação de um fundo denominado em Yuan (moeda chinesa) para investimentos conjuntos no dia 28 de abril. De acordo com o comunicado liberado pelo Fundo de Investimento Direto Russo (RDIF), “o Fundo foca principalmente no investimento em projetos estrategicamente importantes na Rússia e na China em igual proporção, colocando-se como o primeiro e mais importante exemplo de implementação de cooperação regional entre dois países (região de Moscou, extremo-leste e nordeste da China). Para projetos chineses, será dado maior foco a projetos relacionados com a Nova Rota da Seda e outros setores em perspectiva”.

A partir de observações de analistas internacionais, percebe-se que China e Rússia estão paulatinamente criando condições para que a cooperação bilateral entre eles evolua para questões maiores, como a possibilidade de maior protagonismo mundial em áreas como diplomacia, finanças e comércio internacional.

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Notas:

* 108 bilhões de dólares, pela cotação do dia 30 de abril de 2019 equivale a, aproximadamente, 425,1 bilhões de reais.

** 100 bilhões de dólares pela cotação do dia 30 de abril de 2019 equivale a, aproximadamente, 393,6 bilhões de reais.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Presidente da Rússia, Vladimir Putin, e Presidente da China, Xi Jinping, antes da conversa bilateral” (Fonte): http://static.kremlin.ru/media/events/photos/big/UB7yKAsnrCbQiiBAasY5NGcvfSY356Dj.jpg

Imagem 2Durante a reunião bilateral entre a delegação russa e a delegação chinesa” (Fonte): http://static.kremlin.ru/media/events/photos/big/rSaIaNmASnwhRSYVe1GCzkAXRwKDGBnN.jpg

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OTAN realiza exercícios militares no Mar Negro

Entre os dias 9 e 13 de abril (2019), a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) realizou um exercício militar no Mar Negro, o chamado “Sea Shield”, que traduzido livremente significa “Escudo do Mar”. Participam da missão navios e aeronaves dos Estados Unidos, Bulgária, Grécia, Canadá, Holanda, Romênia e Turquia e há também a cooperação das forças da Geórgia e da Ucrânia.

Esse treinamento militar ocorre após a escalada de tensões entre a Ucrânia e a Rússia pela passagem do Estreito de Kerch, área que liga o Mar Negro ao Mar de Azov, em novembro do ano passado (2018). Na época, navios russos detiverem a passagem de três embarcações ucranianas sob a alegação que elas estariam invadindo o território marítimo da Rússia.

Após esse incidente, a OTAN expandiu a sua vigilância. No início deste mês (abril, 2019), os Estados Unidos anunciaram o envio de novos navios para fortalecer a presença militar da Organização na região. De acordo com os Ministros da OTAN, a postura agora é direcionada para a defesa e dissuasão no Mar Negro.

O Mar Negro visto por satélite

Não obstante, a Federação Russa não enxerga esse novo posicionamento da mesma maneira. Segundo o Vice-Ministro das Relações Exteriores, Alexander Grushko, “(…) qualquer esforço da OTAN na região do Mar Negro não tem sentido do ponto de vista militar. Eles não fortalecerão a segurança nem da região nem da própria OTAN, mas serão associados a riscos militares adicionais”. Grushko também destacou que a segurança da área tem que ser fundada na cooperação entre os países da costa, a qual pode ser aprofundada ou pela Organização para a Cooperação Econômica do Mar Negro*, ou pelo Documento sobre medidas de construção de confiança no Mar Negro**.

Em relação ao exercício militar da OTAN, a Rússia anunciou que responderia igualmente, tendo realizado ela mesma um treinamento no Mar Negro no dia 13 de abril (2019). Dessa forma, os dois eventos aconteceram ao mesmo tempo na região, o que o serviço de imprensa da frota naval classificou como “uma boa oportunidade para simular as habilidades da marinha numa situação real de combate”. A atividade militar envolveu não apenas navios, como também forças terrestres e aéreas.

A presença militar da OTAN no Mar Negro, portanto, traz novas instabilidades. A razão divulgada pela Organização para a sua presença militar mais incisiva na região é para garantir que as frotas ucranianas circulem livremente e com segurança. Entretanto, especialistas apontam que pode haver outros objetivos. Em entrevista ao jornal Sputnik, o presidente da Academia de Problemas Geopolíticos da Rússia, Leonid Ivashov, destacou que os exercícios da Organização visam impedir a aproximação entre Rússia e Turquia e dificultar o projeto do gasoduto TurkStream, que transportaria gás natural do território russo pelo Mar Negro até a Europa. Sejam quais forem as verdadeiras razões, teme-se que as provocações de ambos os lados evoluam para algo mais preocupante.

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Notas:

* A Organização para a Cooperação Econômica do Mar Negro foi criada em 1992 pelos Chefes de Estado e de Governo dos 12 Estados membros: Albânia, Armênia, Azerbaijão, Bulgária, Geórgia, Grécia, Moldóvia, Romênia, Rússia, Sérvia, Turquia e Ucrânia. O objetivo é incentivar a interação e a harmonia entre seus membros, assim como garantir a paz, a estabilidade e a prosperidade na região do Mar Negro. Hoje é um fórum de discussão que engloba assuntos relacionados desde à agricultura até a troca de informações e tecnologia.

** O Documento sobre medidas de construção de confiança no Mar Negro foi aprovado, em 2002, pelo Ministros das Relações Exteriores dos seis países que dividem suas costas com o Mar Negro, sendo eles: Bulgária, Geórgia, Romênia, Rússia, Turquia e Ucrânia. Os objetivos desse acordo são o desenvolvimento das relações de boa-vizinhança e a contribuição ao fortalecimento da estabilidade e do sentimento de confiança na região.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 O Cruzador russo Pedro, o Grande durante uma missão de exercício” (Fonte): https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/7/73/Tactical_exercises_of_the_Russian_Navy.jpg

Imagem 2 O Mar Negro visto por satélite” (Fonte): https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/8/8f/Mar_Negro_satelite.png

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Vítima de ataque com agente químico Novichok encontra-se com Embaixador da Rússia no Reino Unido

No dia 7 de abril (2019), o cidadão inglês Charles Rowley realizou uma visita à Embaixada da Rússia no Reino Unido, onde realizou uma reunião com o embaixador russo Alexander Yakovenko. Em julho do ano passado (2018), Rowley e sua namorada, Dawn Sturgess, foram hospitalizados sob a suspeita de terem sido envenenados pelo agente nervoso Novichok, arma química que também foi encontrada em Sergei Skripal, ex-espião russo, e em sua filha Yulia, em março daquele ano.

Em ambos os casos, as autoridades britânicas acusam a Rússia de estar envolvida nos ataques com Novichok. Segundo as investigações conduzidas, dois nacionais russos são suspeitos, já que, por meio de imagens e vídeos, foi observado que eles circularam pela área do envenenamento horas antes dos Skripal serem encontrados inconscientes. Além dessas evidências, o Governo inglês acusou a Federação Russa pelos ataques por conta de o agente Novichok ter sido criado há muitos anos na antiga União Soviética.

A partir desses acontecimentos, Rowley e Yakovenko conduziram uma reunião na qual foram discutidas questões referentes a ambos os ataques e a possibilidade do próprio Rowley encontrar-se pessoalmente com o presidente russo Vladimir Putin para tratar sobre o assunto. As percepções acerca desse encontro entre o Embaixador e a vítima inglesa são ambíguas. Pela mídia russa, a situação foi descrita como bastante informativa e bem amigável; já pelas fontes inglesas, a reunião não trouxe nenhuma informação nova a Rowley, o qual seguiria acreditando que o responsável pelos ataques é a Rússia. Essas duas interpretações sobre a mesma situação demonstram o desgaste diplomático que vem ocorrendo entre os dois países desde março do ano passado (2018).

Em entrevista a um jornal britânico, Rowley afirmou que perguntou ao Embaixador diversas questões acerca dos ataques, como o porquê de os suspeitos russos não terem sido entrevistados pela polícia inglesa. E declarou: “eu não consegui nenhuma resposta, apenas consegui propaganda russa. Eu gostei do Embaixador, mas acredito que muito do que ele disse para justificar a inocência da Rússia foi ridículo. Eu sou grato por o ter conhecido e sinto que descobri coisas que não sabia antes, mas eu ainda acredito que a Rússia realizou o ataque”.

O Relatório Salisbury: Perguntas Não Respondidas

Em contrapartida, Yakovenko apontou que houve muitas perguntas e que ficou feliz em responder todas. Ele destacou o relatório “Salisbury: Perguntas Não Respondidas” que foi entregue a Rowley, documento no qual há cartas e anotações enviadas pela Rússia ao Reino Unido sobre as investigações, portanto, uma visão detalhada da perspectiva russa sobre o que aconteceu com os Skripal.

Além disso, o Embaixador afirmou que “a maioria das perguntas foi relacionada à completa falta de informação do lado dos britânicos. Foi nos perguntado se a Rússia envenenou os Skripal e se a Rússia é o único país capaz de produzir Novichok. Nós fornecemos uma explicação completa sobre este assunto e eu provei a ele mais uma vez que este Novichok pode ser feito em qualquer laboratório europeu, o que aconteceu na República Tcheca e em outros países também”.

Há, portanto, duas visões diferentes acerca do que foi discutido, assim como há discrepâncias entre as autoridades inglesas e russas acerca do comando das investigações e dos resultados encontrados. O que permanece como certo é que a Rússia e o Reino Unido ainda enfrentam dificuldades diplomáticas para compreender e resolver a situação.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 “Charles Rowleyseu irmão Matthew Rowley e o Embaixador Russo para o Reino Unido, Alexander Yakovenko” (Fonte): https://www.rusemb.org.uk/data/img/activity/747_7b.jpg

Imagem 2 “O Relatório Salisbury: Perguntas Não Respondidas” (Fonte): https://www.rusemb.org.uk/data/img/activity/747_8b.jpg