NOTAS ANALÍTICASORIENTE MÉDIOPOLÍTICA INTERNACIONAL

Israel realiza ataque aéreo a posições militares no Iraque

Israel realizou incursões com caças F-35 em espaço aéreo iraquiano nos dias 19 de julho e 31 de julho. Em ambos momentos, as aeronaves sobrevoaram e realizaram ataques a posições em solo. Os principais alvos que sofreram danos foram as bases militares de Amirli Abu Montazer al-Muhammadavi, conhecida como Camp Ashraf. As posições atingidas estão localizadas nos estados de Saladin e Diyala, ambos no nordeste do Iraque.

De acordo com veículos midiáticos, como o Jerusalem Post, os ataques tiveram como principal alvo posições onde encontravam-se emissários militares e possivelmente armamento iraniano.

A ação reverberou e produziu uma série de reações de surpresa no país, principalmente devido ao silêncio de Bagdá sobre os incidentes. Até o dia 8 de agosto, o governo iraquiano não havia emitido uma posição sobre o ocorrido.

Frente ao silêncio do governo do país, um grupo significativo de parlamentares iraquianos vêm cobrando uma posição. Eles rememoram declarações do atual Primeiro-Ministro do país, Adel Abdul-Mahdi, que, frente a questionamentos, afirmou categoricamente que o Iraque não se tornaria uma base para realizar ataques ao Irã. Também foram vistas com surpresas declarações recentes do embaixador iraquiano para os Estados Unidos, que afirmou existirem “razões objetivas para buscar uma normalização das relações com Israel”.

O primeiro-ministro iraquiano Adil Abdul-Mahdi em discurso

As acusações que recaem sobre o governo variam de uma exposição do país frente a um complexo conflito até a colaboração com Israel, identificado com histórico adversário dos interesses iraquianos.

O Times of Israel afirma que integrantes do grupo libanês Hezbollah e da Guarda Revolucionária do Irã baseados nesta região do Iraque teriam resultado em feridos ou como fatalidades dos ataques. Segundo o jornal, emissários das Forças de Defesa Israelenses recusaram-se a comentar o assunto ao serem consultados.

O governo israelense já afirmou, entretanto, que o Campo de Ashraf estaria sendo usado como base para equipamento militar iraniano. Em agosto de 2018, uma reportagem da Reuters afirmava que o Irã havia transferido mísseis balísticos para grupos xiitas dentro do Iraque.

Mísseis Fateh 110, de fabricação iraniana, sendo disparados

Os armamentos seriam respectivamente dos modelos Zelzal, Fateh-110 e Zolfaqar, cujo raio de alcance varia entre 200 e 700 quilômetros, colocando, portando, cidades como Tel Aviv no seu raio de alcance, se disparados de território iraquiano.

Ainda assim, uma investida militar representa uma mudança na trajetória das relações entre os países que causa espanto à maioria dos observadores. O Iraque, apesar de haver repetidamente conclamado sua neutralidade, é reconhecido como um aliado dos Estados Unidos na região.

Os rumores e tensões vinculados ao ataque aumentam o debate sobre a estabilidade na área e possíveis frentes de batalhas que poderiam ser abertas, além de gerar difíceis questionamentos aos governantes da região.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Aeronave de caça f35I, da Força Aérea de Israel (IAF), em operação em 2018” (Fonte): https://en.wikipedia.org/wiki/Lockheed_Martin_F-35_Lightning_II#/media/File:IAF-F-35I-2016-12-13.jpg

Imagem 2O primeiroministro iraquiano Adil AbdulMahdi em discurso”(Fonte Página Oficial do primeiroministro Adil AbdulMahdi no Facebook): https://www.facebook.com/Adil.Abd.Al.Mahdi1/photos/pcb.2623407917723732/2623407724390418/?type=3&theater

Imagem 3Mísseis Fateh 110, de fabricação iraniana, sendo disparados” (Fonte): https://en.wikipedia.org/wiki/Fateh-110#/media/File:Fateh-110_Missile_by_YPA.IR_02.jpg

NOTAS ANALÍTICASSegurança Internacional

Emirados Árabes Unidos e Irã realizam reunião para tratar sobre Segurança Costeira

Na terça-feira, dia 30 de julho, uma missão dos Emirados Árabes Unidos desembarcou no Irã para discutir segurança marítima. Membros dos serviços de Guarda Costeira e diplomatas dos Emirados buscam pontos de identidade e cooperação entre os dois países.

O encontro é um marco em uma relação conduzida por intensa rivalidade política. Os Emirados Árabes Unidos apoiaram uma extensão das medidas restritivas ao Irã, alinhados com os Estados Unidos na suspensão dos efeitos do Plano de Ação Conjunto Global (JCPOA, do inglês Joint Comprehensive Plan of Action)*. 

Os príncipes de Abu Dhabi ainda mantêm tropas no Iêmen para combater as milícias Houthi, declaradamente pró-Irã, e usam palcos internacionais para fazer severas denúncias contra o regime dos aiatolás. O episódio de maior tensão entre os países se deu recentemente, quando o Irã foi acusado de ter parte na sabotagem de quatro cargueiros no porto de Fujeira, nos Emirados.

A República Islâmica também é muito crítica da postura do vizinho. De acordo com a afirmação feita à Al-Jazeera pelo conselheiro do Supremo Líder do Irã para assuntos de Defesa, Hossein Denghan, os Emirados Árabes tornaram-se “uma base estadunidense para atacar a segurança nacional iraniana”.

A última vez que uma reunião semelhante ocorreu foi no ano de 2013. Os Emirados Árabes Unidos buscam se envolver como pivô de diálogo, reforçando sua posição de porto seguro no Golfo. Apesar da retórica, quase 29% dos US$ 71,5 bilhões (aproximadamente R$ 272,63 bi, de acordo com a cotação de 31/07/2019) exportados em 2018 pelo Irã passaram por portos do país vizinho. A balança comercial entre ambos fechou julho de 2018 em US$ 1,75 bilhão (aproximadamente 6,67 bilhões de reais).

Os objetivos da reunião não se tornaram públicos, mas, segundo o Hareetz, fontes do governo iraniano confirmam que a discussão pode incluir cooperação técnica, vistos e conexões marítimas. Segundo afirmação à Agência de Notícias da República Islâmica apresentada pelo comandante da guarda-costeira dos Emirados, General de Brigada Mesabh Al-Ahbabi, a cooperação deve focar na decisão e operação conjunta dos países na extensão de suas fronteiras marítimas, visando combater primordialmente o tráfico de drogas e contrabando.

De acordo com as expectativas gerais, o diálogo deve centrar no controle do Estreito de Hormuz. A região é objetivo de uma sensível disputa entre os países, uma vez que estes disputam as fronteiras de seu território marítimo sobre as águas da passagem, tanto pelo direito (de jure) quanto pelo controle direto (de facto). Além disso, os dois países disputam o controle de três ilhas na região, as Ilhas Tunb e Abu Masa.

Mapa do Estreito de Hormuz, incluindo a jurisdição das águas

Anualmente, quase 25% do gás natural consumido em todo o planeta e mais de um terço do petróleo bruto consumido no mundo atravessa esta região. Esta quantidade representa cerca de 21 milhões de barris de petróleo ao dia. O governo em Teerã afirmou repetidas vezes não descartar a possibilidade de negar o uso do acesso por completo, impossibilitando navios comerciais de cruzarem as águas na região.

Os diálogos de alto nível vêm sendo celebrados por ambos países como primeiro passo para uma política de segurança comum. O chanceler iraniano Mohammad Javad Zariff celebrou a atitude dos Emirados como uma mudança política, que espera levar à diminuição da influência de figuras como John Bolton e Benjamin Netanyahu na região.

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Nota:

* O Joint Comprehensive Plan of Action (JCPOA), popularmente conhecido como “Acordo do Irã”, foi firmado em 14 de julho de 2015 entre a República Islâmica do Irã e o P5+1 das Nações Unidas (China, Estados Unidos, França, Reino Unido e Rússia + Alemanha). O acordo estabelece que o Irã controlaria seu projeto de enriquecimento e armazenamento de urânio em troca de combustível para pesquisa e suspenção de sanções. Sob a gestão de Donald Trump, os Estados Unidos denunciaram o acordo em maio de 2018.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1O BrigadeiroGeneral Qasem Rezaee, Comandante da Guarda da Fronteira da Polícia do Irã, cumprimenta o Comandante da Guarda Costeira dos Emirados Árabes Unidos, General de Brigada Mohammad Ali Mesbah AlAhba” (FonteAgência de Notícias da República Islâmica IRNA): https://en.irna.ir/news/83418325/Iran-UAE-vow-to-strengthen-diplomatic-border-ties#gallery

Imagem 2Mapa do Estreito de Hormuz, incluindo a jurisdição das águas” (Fonte): https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/a/ae/Strait_of_hormuz_full.jpg/555px-Strait_of_hormuz_full.jpg

NOTAS ANALÍTICASORIENTE MÉDIOPOLÍTICA INTERNACIONAL

Julgando os combatentes estrangeiros do Estado Islâmico

Após perder controle sobre a cidade de Mossul em 2017, o grupo conhecido como Estado Islâmico (EI, ou ISIS na sigla em inglês para Islamic State in Iraq and Syria) passou a sofrer recorrentes derrotas militares. O grupo, que possuiu em seu auge um notável poderio, alcançando uma série de vitórias militares e um extenso território físico sob seu controle, passou a ser perseguido. Derrota atrás de derrota, cada vez mais combatentes do EI têm sido mortos ou detidos.

O ISIS foi reconhecido pelo uso feito de um complexo sistema de propaganda. Os vídeos com prisioneiros usando vestes laranja rodaram o mundo expondo a capacidade de comunicação da organização, que contava também com uma revista eletrônica.

A propaganda estimulou a presença de estrangeiros, nascidos e criados fora do Oriente Médio, a compor as colunas da organização. De acordo com o ISIS, e também pelo estimado por estudos conduzidos pelas Nações Unidas, o autoproclamado califado chegou a possuir mais de 40 mil combatentes estrangeiros no Iraque e na Síria. Atualmente, estes combatentes se converteram em um entrave diplomático, em vários níveis.

Após esta série de derrotas, muitos morreram e outros foram presos. Os detidos têm sido distribuídos por prisões no Iraque e na Síria. Também os campos de refugiados estão povoados de mulheres que vieram aderir à causa do ISIS, ou crianças resultantes de uniões entre estrangeiras e combatentes da organização.

Somente no ano de 2019, as Forças Democráticas da Síria (Syrian Democractic Forces) detiveram 2.000 combatentes estrangeiros do Estado Islâmico (de um total de 9.000 prisioneiros pertences à organização).

Grupo de combatentes do Estado Islâmico, que se entregaram às Forças de Segurança do Afeganistão, após serem derrotados pelo Talibã na cidade da Darzab, Afeganistão, em 2018

Estes prisioneiros tornaram-se um problema e risco de segurança. Provenientes de 46 países ao redor do mundo, não é desejo dos governos locais mantê-los presos em uma única unidade, com temor de uma provável rearticulação por parte do Estado Islâmico.

Algumas nações acenaram com a repatriação, mas as medidas práticas têm sido esparsas. Muito do temor está na dúvida quanto à radicalização dos retornados, ainda que indicadores, como estudo desenvolvido na Entidade Norueguesa de Pesquisa em Defesa (FFI) apontem que somente 0,002 por cento dos combatentes retornados tenham se engajado em atividade terrorista em sua terra natal.

Se por um lado há o temor de atividades terroristas por conta do retorno, mantê-los presos ou em campos também é uma tarefa que demanda vastos recursos. Veículos de mídia informam, inclusive, que muitos conseguem escapar ou pagar por uma oportunidade de sair, desaparecendo em países do Oriente Médio.

Soldado iraquiano posa com combatente do Estado Islâmico capturado na cidade de Tikrit, em 2015

O Iraque, que recebeu a tutela de uma parcela dos prisioneiros, enfrenta problemas diplomáticos envolvendo o futuro dos cidadãos estrangeiros. Durante sua visita à França, em fevereiro de 2019, o presidente iraquiano Barham Salih ressaltou que os prisioneiros que permanecessem no país seriam julgados de acordo com a legislação no Iraque, onde a punição atribuída a atos de terrorismo é a execuçãoCortes iraquianas já condenaram ao menos sete cidadãos franceses ao enforcamento, os detidos chegaram a afirmar que foram torturados para a obtenção de confissões.

A França defendeu que o julgamento ocorresse nos locais das prisões. O presidente francês Emmanuel Macron afirmou que “as autoridades dos países devem decidir, soberanamente, se [devem] julgá-los no local”. Apesar de o chanceler francês Jean-Yves Le Drian afirmar que a “França se opõe, por princípio, a pena de morte, de qualquer maneira e em qualquer lugar”, o país não aceitou repatriar nenhum dos combatentes franceses detidos no Iraque.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 “O Estandarte Negroautoproclamado como bandeira do Estado Islâmico” (Fonte): https://en.wikipedia.org/wiki/File:AQMI_Flag_asymmetric.svg

Imagem 2 “Grupo de combatentes do Estado Islâmico, que se entregaram às Forças de Segurança do Afeganistão, após serem derrotados pelo Talibã na cidade da Darzab, Afeganistão, em 2018” (Fonte): https://en.wikipedia.org/wiki/File:Surrendered_Islamic_State_fighters_in_Darzab_2.png

Imagem 3 “Soldado iraquiano posa com combatente do Estado Islâmico capturado na cidade de Tikrit, em 2015” (Fonte): https://en.wikipedia.org/wiki/File:Captured_ISIL_fighter_in_Saladin_Governorate_(4).jpg

NOTAS ANALÍTICASORIENTE MÉDIOPOLÍTICA INTERNACIONAL

Crescimento da tensão e possibilidade de enfrentamento entre Estados Unidos e Irã

Entre os dias 20 e 22 de junho, o mundo acompanhou com certa tensão o aumento na complexidade da relação entre Estados Unidos e Irã. Em um comunicado, a Guarda Revolucionária do Irã anunciou haver identificado um Veículo Aéreo Não-Tripulado (VANT) violando seu espaço aéreo.

Como medida preventiva, o país afirmou que abateu o VANT RQ-4A Global Hawk na madrugada de quinta-feira, dia 20 de junho. As autoridades iranianas salientaram ainda haver contatado Washington, para alertar que suas aeronaves haviam adentrado o espaço aéreo iraniano. Também ressaltam a presença de uma aeronave B8, que possuía 35 tripulantes a bordo em companhia do VANT.

De acordo com o general de brigada Amir Ali Hajizadeh, a segunda aeronave também havia violado espaço aéreo do país. A Guarda Revolucionária, no interesse de não causar conflitos, procedeu com a derruba somente do veículo não tripulado.

O Pentágono confirmou que uma aeronave da Força Aérea dos Estados Unidos havia sido abatida. Entretanto, sustentou que, no momento em que foi atacado, o veículo em questão encontrava-se sobrevoando águas internacionais, sobre o Estreito de Ormuz, não reconhecendo a legitimidade do reclamo iraniano.

Até o momento, as questões entre os dois países haviam permanecido sobretudo no campo discursivo e em medidas econômicas. Ao redor do mundo, diversos analistas e políticos demonstraram pouca convicção de que os eventos pudessem escalar para um confronto militar, ao menos não a um direto.

O presidente do Irã, Hassan Rouhani, em recente discurso em frente ao Ministério da Saúde, em Teerã

Considerando ataques pontuais que ocorreram a aliados estratégicos dos Estados Unidos no Oriente Médio, notoriamente a destruição de um oleoduto saudita no Iêmen pelas milícias Hutus e o ataque a quatro cargueiros pertencentes aos Emirados Árabes Unidos, as avaliações preliminares indicavam que a escalada de violência se daria por vias indiretas. Ainda assim, considera-se o uso de combates assimétricos, como a participação de milícias pró-Irã em ataques, um elemento presente e que contribuiria para envolver todo o Oriente Médio em um eventual confronto.

Dentre o próprio círculo dos tomadores de decisão em Washington havia pouca disposição em buscar um conflito com o Irã. Frente ao novo cenário, as tensões são maiores, ainda que o Presidente dos EUA, Donald Trump, tenha afirmado que ordenou a suspensão de um ataque eminente a bases militares iranianas.

Segundo o próprio Presidente, este tomou a decisão ao ser informado que o ataque resultaria na morte de 100 iranianos, o que seria desproporcional. Em um tweet posterior, publicado no dia 25 de junho, Trump salientou que o ataque a “qualquer alvo estadunidense” seria respondido com uma “força grande e avassaladora”. Questionado posteriormente, ele frisou que “avassaladora em alguns casos significa obliteração”.

Em visita à Israel, o assessor de Segurança Nacional da Presidência dos EUA, John Bolton, afirmou, conforme relata o Huffington Post, que o Irã não deve tomar “a prudência e discrição dos EUA por fraqueza”, afirmando que uma ação militar não está descartada.

O assessor especial para a Segurança Nacional, John Bolton, saúda o premier israelense Benjamin Netanyahu, após medidas para pressionar o Irã, em Jerusalém

Frente a ameaças de incrementos nas sanções, o presidente iraniano Hassan Rouhani afirmou em conferência de imprensa, realizada no dia 25 junho, que a Casa Branca vem sofrendo de “instabilidade intelectual”, que o presidente Trump não se porta de “forma sã”. Ainda de acordo com a Agência de Notícias da República Islâmica, Rouhani afirmou que as sanções cumprem uma tarefa que, além de desumana, não surte efeitos, simbolizando a clara derrota política dos Estados Unidos.

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Fontes das Imagens:                                                                                                                 

Imagem 1O General de Brigada Amir Ali Hazijadeh, comandante da Força Aeroespacial da Guarda Revolucionária do Irã, observa os destroços do VANT estadunidense abatido” (FontePágina Oficial da Agência de Notícias da República Islâmica no Twitter @IRNAEnglish): https://twitter.com/IrnaEnglish/status/1143187263045742592

Imagem 2O presidente do Irã, Hassan Rouhani, em recente discurso em frente ao Ministério da Saúde, em Teerã” (FontePágina Oficial da Agência de Notícias da República Islâmica no Twitter @IRNAEnglish): https://twitter.com/IrnaEnglish/status/1143549664559587334)

Imagem 3O assessor especial para a Segurança Nacional, John Bolton, saúda o premier israelense Benjamin Netanyahu, após medidas para pressionar o Irã, em Jerusalém” (FontePágina Oficial de John Bolton no Twitter. @AmbJohnBolton): https://twitter.com/AmbJohnBolton/status/1142757809680977921

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O Conselho dos Países do Golfo frente à crise com o Qatar

O Conselho dos Países do Golfo realizou entre o dia 30 de maio e 1o de junho uma série reuniões na cidade sagrada de Meca, para responder ao que considera uma inquietante situação para a segurança da região. Dentre os fatos que elege como mais preocupantes, estão o ataque de milícias Houthi a um oleoduto saudita no Iêmen e a sabotagem coordenada de 4 cargueiros dos Emirados Árabes Unidos.

O encontro acontece em um momento em que vários desafios se apresentam para a região, como decidir a política de segurança frente às mudanças no posicionamento de países como a Turquia e o Irã. Também marca dois anos de um grande problema que é o embargo ao Qatar.

Quando o grupo conhecido como o Quarteto (Arábia Saudita, Barein, Emirados Árabes Unidos e Egito) anunciou o embargo, a situação parecia complicada para o governo em Doha. Um dos menores países da região, apesar de extremamente rico, via-se alijado de aliados próximos.

Entretanto, enfrentando a pressão política de seus vizinhos, o Qatar mostrou uma resiliência que não era esperada e saiu fortalecido. Para tanto, necessitou buscar uma série de políticas próprias, bem como encontrou maiores similitudes com novos aliados.

Após o Quarteto declarar o bloqueio, o apoio iraniano mostrou-se essencial para a manutenção de certos aspectos logísticos. Dentre outros, a aliança com o vizinho e a Turquia permitiu ao país manter o acesso a alimentos e produtos perecíveis, bem como facilitar a transferência de operações ao porto de Hamad.

A declaração final dos encontros trouxe sérias críticas ao Irã, ao afirmar que o país possui papel central na instabilidade regional ao financiar grupos armados, e declarou ser necessário alinhamento aos Estados Unidos para prevenir o desenvolvimento de seu programa nuclear. Tanto o Qatar quanto o Iraque se opuseram ao texto, bem como à posição dos Estados vizinhos quanto ao tema.

Doha e Teerã têm experimentado o período de maior entendimento diplomático em sua história, com reabertura de embaixadas e voos regulares, por exemplo. Entretanto, para além da renovada simpatia com o país dos aiatolás, uma posição mais independente e crítica à política saudita mostrou-se determinante.

O Ministro das Relações Exteriores do Qatar, Sheik Mohammed bin Abdulrahman Al Thani, declarou não ser possível endossar a proposta porque esta “condena o Irã, mas não propõe uma política moderada para dialogar com Teerã”. Também criticaram o alinhamento dos vizinhos com os interesses dos Estados Unidos na região. Al Thani ponderou que não está no interesse dos Estados do Golfo adotar “a política de Washington em relação ao Irã e não uma que leva a vizinhança em consideração”.

O Rei Salman bin Abdulaziz al Saudi, presidindo a mesa de abertura no encontro do Conselho dos Países do Golfo

Os sauditas se pronunciaram condenando o posicionamento dos vizinhos. Ao sediar uma conferência na Cidade Sagrada, esperavam encontrar mais coesão nas posições do grupo.

Frente à negativa do Qatar, o Ministro das Relações Exteriores Saudita, Abdel al-Jubeir declarou que, “de acordo aos costumes, anunciam-se restrições a conferências durante o espaço das reuniões, não após as mesmas”. Anwar Gargash, Ministro das Relações Exteriores dos Emirados Árabes, acusou Doha de ser “débil frente à pressão do Irã”.

Frente à declaração de seus pares, Sheik Mohammed Al Thani reiterou que “eles estão mantendo a mesma política que não funcionou nos últimos três anos, acreditamos que é o momento de mudar”. Também expressou reservas à validade das demandas no fórum, ao questionar que “o comunicado da Conselho do Golfo falou sobre um Golfo unificado, mas onde ele está em meio à continuação do bloqueio do Catar?

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Mesa de discussão nos Debates de Meca, ocorridos no final de Maio e primeiros dias de Junho” (FontePágina Oficial do Conselho dos Países do Golfo): https://www.gcc-sg.org/ar-sa/MediaCenter/NewsCooperation/News/PublishingImages/News-Pics/%D8%A7%D9%84%D9%85%D8%A4%D8%AA%D9%85%D8%B1%20%D8%A7%D9%84%D8%B5%D8%AD%D9%81%D9%8A.JPG

Imagem 2O Rei Salman bin Abdulaziz al Saudi, presidindo a mesa de abertura no encontro do Conselho dos Países do Golfo” (FonteTwitter do ministro das Relações Exteriores Saudita, Adel al-Jubeir): https://twitter.com/AdelAljubeir/status/1134672364199993344

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Como Israel é afetado nas negociações do Acordo com o Irã

Os Estados Unidos buscam aplicar as sanções e pressionar o Irã para a negociação de um acordo nuclear mais restrito do que o anteriormente assinado no marco do Plano de Ação Conjunto e Abrangente (Joint Comprehensive Plan of Action, da sigla em inglês, JCPOA). Atualmente, tem usado de restrições à compra de petróleo, bem como ao acesso a moedas estrangeiras, e tem classificado a Guarda Revolucionária do Irã como um grupo terrorista.

O governo israelense considera os Estados Unidos como um aliado vital, ao mesmo tempo em que entende que o Irã é sua maior ameaça no Oriente Médio. Desta forma, observa-se que uma escalada de enfrentamento na retórica ou ação entre os dois países teria um efeito direto sobre Israel.

O primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu sempre demonstrou que compactua com o projeto de Donald Trump em relação ao Acordo. Em distintas manifestações públicas expressou segurança ao afirmar que o Irã se retiraria dele e mentia quanto ao seu programa nuclear. O Times of Israel divulgou que o Primeiro-Ministro afirmou em vídeo que convenceu o Presidente estadunidense a deixar o JCPOA.

Tomadores de decisão em Israel defendem um aumento de pressão sobre a República Islâmica. Conforme afirmou Amos Yadlin, diretor do Diretor para Estudos de Segurança Internacional em Tel Aviv ao New York Times: “Ninguém pensa em mudança de regime militar, mas em enfraquecer o regime, enfraquecer a economia iraniana e fazer com que o povo iraniano mude o regime”. Dessa forma, veem com bons olhos uma maior pressão, que poderia, no entendimento israelense, levar à saída dos aiatolás e seus aliados.

Sofrendo os efeitos das ferramentas políticas e econômicas das quais os Estados Unidos lançam mão, o Irã decidiu suspender as contrapartidas com as quais havia se comprometido para manter o Acordo assinado em 2015. Por conta disso, o presidente iraniano Hassan Rouhani afirmou por suas redes sociais que o país “não manterá os programas de enriquecimento de urânio e produção de águas pesadas limitados”.

A declaração não implica em uma ameaça imediata, tampouco a capacidade de produzir urânio enriquecido dá a quem possua tecnologia suficiente para desenvolver armamentos, pois, isso exige tecnologias muito mais complexas. Pelos termos atuais do JCPOA, o Irã possui a permissão de enriquecer urânio à uma concentração de 3,67% – suficiente para alimentar uma usina comercial de energia.

Reagindo à retórica dos Estados Unidos, um enfrentamento direto é bastante improvável. Nenhuma das partes parece interessada em um confronto e grupos sob a influência dos dois lados podem reagir através de grupos de pressão para evitar também o confronto indireto. No entanto, esta escalada de conflitos pode envolver grupos de influência em distintos países, grupos como o Hezbollah podem reagir a pressões sobre o Irã.

O Presidente do Irã, Hassan Rouhani, discursa frente à Assembleia Geral das Nações Unida

Além disso, os iranianos buscam diversificar suas relações para equilibrar sua posição frente às sanções e à uma retórica mais agressiva. Um parceiro que tem aparecido como primordial para esta empreitada é a Turquia, alinhando-se a políticas de segurança, como ações contra os curdos, e rivalizando com Israel. Também a Rússia vem ganhando um espaço de inserção ainda maior no Oriente Médio, como um aliado preferencial de Teerã.

O ex-diretor do Serviço Geral de Segurança de Israel, Carmi Guillon, afirmou em artigo à Foreign Policy o que as medidas que protejam o país devem almejar: “eliminem desastres e parem ameaças em progresso”. Segundo Guillon, o JCPOA desmantelou o projeto nuclear do Irã e colocou a República Islâmica em um sistema de responsabilidades. Isso evitaria um eventual guarda-chuva nuclear, ainda que retórico, impedindo os iranianos de apoiarem grupos infranacionais ou de fazer pressão sobre os vizinhos.

Acredita que, sem as garantias do Acordo, o Irã ficaria sob uma influência menor das normas internacionais, além disso, que Israel ficaria mais fragilizado frente a um vizinho com capacidades nucleares e grupos extra-regionais não alinhados com sua posição, e também surgiria uma renovada ameaça de grupos infranacionais.

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Nota:

* Para produzir armamento é necessário possuir urânio enriquecido à 90%. Não é comprovado que o Irã consiga gerar o combustível à uma concentração maior do que 20%. Entretanto, possui plenas capacidades de produzir água pesada e outros elementos do processo

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Fontes das Imagens:

Imagem 1O PrimeiroMinistro israelense, Benjamin Netanyahu, em foto com o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em agosto de 2018” (Fonte: Página oficial de Benjamin Netanyahu no Facebook): https://www.facebook.com/Netanyahu/photos/a.376960237075/10155574211902076/?type=3&theater

Imagem 2O Presidente do Irã, Hassan Rouhani, discursa frente à Assembleia Geral das Nações Unidas” (Fonte: Twitter Oficial do Presidente do Irã@HassanRouhani): https://twitter.com/HassanRouhani/media?lang=es