NOTAS ANALÍTICASORIENTE MÉDIOPOLÍTICA INTERNACIONAL

Como Israel é afetado nas negociações do Acordo com o Irã

Os Estados Unidos buscam aplicar as sanções e pressionar o Irã para a negociação de um acordo nuclear mais restrito do que o anteriormente assinado no marco do Plano de Ação Conjunto e Abrangente (Joint Comprehensive Plan of Action, da sigla em inglês, JCPOA). Atualmente, tem usado de restrições à compra de petróleo, bem como ao acesso a moedas estrangeiras, e tem classificado a Guarda Revolucionária do Irã como um grupo terrorista.

O governo israelense considera os Estados Unidos como um aliado vital, ao mesmo tempo em que entende que o Irã é sua maior ameaça no Oriente Médio. Desta forma, observa-se que uma escalada de enfrentamento na retórica ou ação entre os dois países teria um efeito direto sobre Israel.

O primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu sempre demonstrou que compactua com o projeto de Donald Trump em relação ao Acordo. Em distintas manifestações públicas expressou segurança ao afirmar que o Irã se retiraria dele e mentia quanto ao seu programa nuclear. O Times of Israel divulgou que o Primeiro-Ministro afirmou em vídeo que convenceu o Presidente estadunidense a deixar o JCPOA.

Tomadores de decisão em Israel defendem um aumento de pressão sobre a República Islâmica. Conforme afirmou Amos Yadlin, diretor do Diretor para Estudos de Segurança Internacional em Tel Aviv ao New York Times: “Ninguém pensa em mudança de regime militar, mas em enfraquecer o regime, enfraquecer a economia iraniana e fazer com que o povo iraniano mude o regime”. Dessa forma, veem com bons olhos uma maior pressão, que poderia, no entendimento israelense, levar à saída dos aiatolás e seus aliados.

Sofrendo os efeitos das ferramentas políticas e econômicas das quais os Estados Unidos lançam mão, o Irã decidiu suspender as contrapartidas com as quais havia se comprometido para manter o Acordo assinado em 2015. Por conta disso, o presidente iraniano Hassan Rouhani afirmou por suas redes sociais que o país “não manterá os programas de enriquecimento de urânio e produção de águas pesadas limitados”.

A declaração não implica em uma ameaça imediata, tampouco a capacidade de produzir urânio enriquecido dá a quem possua tecnologia suficiente para desenvolver armamentos, pois, isso exige tecnologias muito mais complexas. Pelos termos atuais do JCPOA, o Irã possui a permissão de enriquecer urânio à uma concentração de 3,67% – suficiente para alimentar uma usina comercial de energia.

Reagindo à retórica dos Estados Unidos, um enfrentamento direto é bastante improvável. Nenhuma das partes parece interessada em um confronto e grupos sob a influência dos dois lados podem reagir através de grupos de pressão para evitar também o confronto indireto. No entanto, esta escalada de conflitos pode envolver grupos de influência em distintos países, grupos como o Hezbollah podem reagir a pressões sobre o Irã.

O Presidente do Irã, Hassan Rouhani, discursa frente à Assembleia Geral das Nações Unida

Além disso, os iranianos buscam diversificar suas relações para equilibrar sua posição frente às sanções e à uma retórica mais agressiva. Um parceiro que tem aparecido como primordial para esta empreitada é a Turquia, alinhando-se a políticas de segurança, como ações contra os curdos, e rivalizando com Israel. Também a Rússia vem ganhando um espaço de inserção ainda maior no Oriente Médio, como um aliado preferencial de Teerã.

O ex-diretor do Serviço Geral de Segurança de Israel, Carmi Guillon, afirmou em artigo à Foreign Policy o que as medidas que protejam o país devem almejar: “eliminem desastres e parem ameaças em progresso”. Segundo Guillon, o JCPOA desmantelou o projeto nuclear do Irã e colocou a República Islâmica em um sistema de responsabilidades. Isso evitaria um eventual guarda-chuva nuclear, ainda que retórico, impedindo os iranianos de apoiarem grupos infranacionais ou de fazer pressão sobre os vizinhos.

Acredita que, sem as garantias do Acordo, o Irã ficaria sob uma influência menor das normas internacionais, além disso, que Israel ficaria mais fragilizado frente a um vizinho com capacidades nucleares e grupos extra-regionais não alinhados com sua posição, e também surgiria uma renovada ameaça de grupos infranacionais.

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Nota:

* Para produzir armamento é necessário possuir urânio enriquecido à 90%. Não é comprovado que o Irã consiga gerar o combustível à uma concentração maior do que 20%. Entretanto, possui plenas capacidades de produzir água pesada e outros elementos do processo

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Fontes das Imagens:

Imagem 1O PrimeiroMinistro israelense, Benjamin Netanyahu, em foto com o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em agosto de 2018” (Fonte: Página oficial de Benjamin Netanyahu no Facebook): https://www.facebook.com/Netanyahu/photos/a.376960237075/10155574211902076/?type=3&theater

Imagem 2O Presidente do Irã, Hassan Rouhani, discursa frente à Assembleia Geral das Nações Unidas” (Fonte: Twitter Oficial do Presidente do Irã@HassanRouhani): https://twitter.com/HassanRouhani/media?lang=es

ESPORTENOTAS ANALÍTICAS

Futebol no Oriente Médio a caminho da Copa em 2022

O futebol no Oriente Médio não é estranho às manchetes das páginas de esportes no Ocidente. As transferências milionárias de grandes jogadores em vias de se aposentarem na Europa, ou de jovens promessas tentando escapar da incerteza do mercado na América do Sul são temas recorrentes de projeção e debate. 

A decisão da Federação Internacional de Futebol, Associação (FIFA, da sigla em francês de Fédération Internationale de Football Association) de conceder a sede da Copa do Mundo de Futebol Masculino em 2022 para o Qatar suscitou os mais diversos tipos de reação. O investimento entre US$ 6-8 bilhões* para construir novos estádios e a mudança da competição para dezembro demonstram até onde o país estava disposto a ir para ser sede do evento.

A empreitada do Qatar acontece no marco mais amplo de uma disputa regional. O uso do esporte é uma ferramenta para alcançar prestígio internacional, bem como consolidar-se em posição de vantagem frente a vizinhos como a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos.

Apesar da disputa regional e do bloqueio imposto ao Qatar, esses países necessitaram replicar imagens da Al-Jazeera para transmitir a Copa do Mundo de 2018 em seus territórios. A relação com o público pode ser ainda mais difícil, caso as restrições de viagens se mantenham enquanto o país sedia o maior evento de futebol no planeta.

Logo da Copa do Mundo de 2022, que será realizada no Qatar

Para além da realização da Copa do Mundo de Futebol, o Estado catari investiu na melhora dos resultados esportivos. Com uma seleção composta de jogadores que nasceram em 10 países diferentes, sagrou-se campeão da Copa da Ásia em 2019, se impondo a adversários no esporte e na política, como o país-sede Emirados Árabes Unidos. Também garantiu uma participação na Copa América, que ocorre no Brasil entre junho e julho de 2019.

De elemento fortalecedor de identidades nacionais, facilitador para mobilizações políticas, até espaço de disputa, o futebol é um fator extremamente presente na vida das pessoas. Por conta disso, é uma ferramenta de soft power tão almejada.

Entretanto, não somente devido a transações milionárias o esporte se destaca, ele possui, também, um lugar histórico na região, carregado de significados indenitários e políticos. Como em muitos lugares do mundo, futebol e política conectam-se em mais de um aspecto, e o esporte expressa muito sobre as sociedades e sua organização.

Durante os eventos da Primavera Árabe, torcidas organizadas foram um ponto central de organização de protestos no Egito e na Tunísia. Para alguns analistas, o ambiente político repressivo encontrava um alívio nos estádios. O jornalista James M. Dorsey também afirmou ao portal Play the Game que a experiência dos torcedores nas disputas de rua foi essencial para manter coesão no princípio dos protestos. Outro exemplo que pode ser citado, é que, em contraposição à discussão que se arrasta faz décadas quanto ao reconhecimento do Estado Palestino em distintos fóruns internacionais, o país faz parte da FIFA desde 1998.

Jogador segura bandeira do Qatar após vitória sobre os Emirados Árabes Unidos na Copa da Ásia

Uma recente disputa tem acontecido no órgão, que é o pedido por parte da Federação Palestina, que demanda punições à Israel por estabelecer uma série de clubes baseados nos assentamentos localizados nos territórios da Faixa de Gaza e promover estas equipes no campeonato nacional israelense.

Outro exemplo de embate político envolvendo o futebol e as relações entre estes dois povos veio logo antes da realização da Copa do Mundo da Rússia, em 2018. A agenda preparatória da seleção da Argentina incluía um jogo amistoso em Jerusalém, contra a seleção israelense. A pedido da Autoridade Nacional Palestina e diversas organizações, Lionel Messi e seus companheiros desistiram de cumprir com a agenda no Oriente Médio.

Os estádios no Oriente Médio também têm sido espaços para disputas envolvendo questões de gênero. Depois de anos de pressão, mesmo após uma lei assinada pelo então presidente Mahmoud Ahmadinejad, em 2006, o público feminino passou a ser aceito nos estádios do Irã, algo que ocorreu  a partir de outubro de 2018. 35 anos após a Revolução Islâmica decretar que a presença de mulheres nos estádios contrariava princípios religiosos, a decisão foi comemorada como uma expansão das liberdades civis.

Apesar dos vultuosos investimentos de ricos setores do Oriente Médio em grandes clubes europeus aumentar a cada ano, o papel social do esporte também tem tido crescente importância. Como afirmou o jornalista James M. Dorsey ao “The Mint”, na região é “a única instituição que pode rivalizar – ao evocar tanta paixão – com a religião”, permitindo ao esporte ser um espaço de realização, ou também influenciar sentimentos.

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Nota:

* Aproximadamente entre 23,5 e 31,4 bilhões de reais, de acordo com a cotação de 31 de maio de 2019.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Foto da Seleção Nacional do Qatar durante a Copa da Ásia em 2019” (Fonte): https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Qatar_national_football_team.jpg

Imagem 2Logo da Copa do Mundo de 2022, que será realizada no Qatar” (Fonte): https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/6/69/Qatar_2022_Logo.png

Imagem 3Jogador segura bandeira do Qatar após vitória sobre os Emirados Árabes Unidos na Copa da Ásia” (Fonte): https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/6/61/Ali_Afif_%286376451251%29.jpg/1600px-Ali_Afif_%286376451251%29.jpg

NOTAS ANALÍTICASORIENTE MÉDIOPOLÍTICA INTERNACIONAL

A reaparição de al-Baghdadi e o futuro do Estado Islâmico

Depois de haver sido considerado morto, Abu Bakr Al-Bagdadhi, o líder supremo do Estado Islâmico (EI – ou Daesh, ou ISIS como também é nomeado), reapareceu para o público em um vídeo divulgado através da rede Al-Furqan, mecanismo mediático da organização, no dia 29 de abril.

Políticos e especialistas interessados no Oriente Médio buscam compreender o significado de sua repentina reaparição. Al-Baghdadi não havia se manifestado desde 2018, data da divulgação dos últimos áudios atribuídos a ele, já que setores das Forças Armadas russas haviam afirmado a possibilidade de o líder terrorista haver sido eliminado já em 2017.

Sua última aparição pública registrada em vídeo ocorreu em junho de 2014, quando discursou na Grande Mesquita al-Nuri, após a tomada da cidade de Mosul. Neste momento, al-Baghdadi aparecia como autoproclamado Califa, em território na Síria e Iraque, com extensão semelhante à do Reino Unido.

Na aparição recente, uma figura mais envelhecida abandona a postura clerical, posando em trajes militares junto a um fuzil. Em sua mensagem, agradece o apoio de militantes no Mali e Burkina Faso, bem como louva o sacrifício de combatentes das mais distintas nacionalidades na Síria. Lista recentes atos terroristas, como uma forma de vingança a ser perseguida pelas perdas que a organização sofreu nos últimos anos.

A mudança em sua postura poderia indicar para alguns uma alteração em relação ao público com quem o ISIS busca dialogar. Para o Primeiro-Ministro do Iraque, Adel Abdul Mahdi, o vídeo foi uma “tentativa de motivar militantes e que o Daesh buscará novos ataques”.

O Estado Islâmico é hoje um problema difícil de caracterizar dentro da dinâmica política do Oriente Médio. Outrora detentor de uma pujante organização militar, com um exército que tomava cidade após cidade na região, atualmente, seus combatentes vêm sendo encurralados em combates, detidos ou mortos pelas forças de segurança dos governos locais.

Combatentes do Estado Islâmico desfilam após a tomada da cidade de Raqqa, no norte da Síria, em 2014. O grupo declarou a cidade como sua capital no mesmo ano

O ISIS não possui mais uma base física desde que as forças do governo da Síria em conjunto com SDF (Syrian Democratic Forces, grupo curdo que atua na região) expulsaram-no da cidade de Baghouz, na Síria. Ainda assim, muitos não consideram que seja uma ameaça desprezível, sobretudo pela capacidade de suscitar ações desestabilizadoras em distintos lugares.

Em sua breve aparição, o líder supremo da organização fez menções aos ataques ocorridos no Sri Lanka* e à batalha por Baghouz. Segundo reportou a Al-Jazeera, Baghdadi salienta o que os  “irmãos no Sri Lanka acalentaram os corações dos monoteístas, porque seus atentados sacudiram as camas dos cruzados durante a páscoa, para a vingança dos irmãos em Baghouz”**.

A alusão aos dois eventos do passado próximo representa para alguns analistas a determinação de que o vídeo é de fato recente. Além disso, pode indicar um incentivo à outra forma de ação, migrando de recrutar combatentes estrangeiros para uma disputa territorial, para uma ação terrorista transnacional, através de células adormecidas da organização.

Para além de suscitar o debate sobre a possibilidade de uma nova ascensão do Estado Islâmico, ou uma transformação nas atividades do grupo, a divulgação do vídeo no final do mês passado (Abril) produziu uma mobilização de alerta. O Reino Unido esclareceu que tropas da Real Força Área começaram imediatamente ações na Líbia, visando capturar o líder insurgente.

Também foi reafirmado pelo governo do Iraque que a organização permanece sendo uma “poderosa ameaça ao mundo”. Quanto à localidade do vídeo, somente foi afirmado que ele foi gravado em “uma localidade remota”, como um deserto. Especialistas em segurança divergem quanto as possibilidades. Hisham al-Hashemi, especialista em segurança para o governo do Iraque, afirma que o mais provável é que o outrora proclamado Califa encontre-se em um deserto na Síria ou no Iraque, localidades onde há ação de grupos de seus seguidores.

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Notas:

* Referência aos ataques do dia 21 de abril de 2019 (domingo de Páscoa), cuja autoria foi assumida pelo ISIS. Uma série de ataques à bomba em hotéis e igrejas cristãs na cidade de Colombo, capital do Sri Lanka, deixou 257 mortos e mais de 500 feridos.

** No contexto da mensagem, os “Monoteístas” são os seguidores do ISIS, enquanto os identificados como “cruzados” são os cristãos vitimados pelos ataques na Páscoa.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1O estandarte negro que foi proclamado como bandeira do Estado Islâmico” (Fonte): https://en.wikipedia.org/wiki/Islamic_State_of_Iraq_and_the_Levant#/media/File:AQMI_Flag_asymmetric.svg

Imagem 2Combatentes do Estado Islâmico desfilam após a tomada da cidade de Raqqa, no norte da Síria, em 2014. O grupo declarou a cidade como sua capital no mesmo ano” (Fonte): https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/e/e1/ISIS_enters_Rakka.jpg

ÁSIANOTAS ANALÍTICASPOLÍTICA INTERNACIONAL

A situação dos curdos na Síria

O conflito da Síria já se estende por mais de 8 anos e tem afetado profundamente a vida da maioria da população do país e na região. Em 23 de março de 2019, as tropas das Forças Democráticas Sírias (SDF, em inglês) anunciaram a vitória sobre o Estado Islâmico (EI, ou ISIS, de Islamic State of Iraq and the Levant – traduzindo, Estado Islâmico do Iraque e do Levante) em seu território, após expulsar o grupo terrorista da cidade de Baghouz. Esta era reconhecida como último enclave territorial do ISIS na Síria.

Apesar das vitórias, os curdos ainda não possuem certeza quanto ao futuro que terão após o fim do conflito. Desde 2014, o SDF também tem enfrentado constantes embates com forças do governo sírio. Com o fim dos combates com o Estado Islâmico, os curdos controlam uma extensa parcela territorial do norte e leste da Síria, sobre a qual esperam negociar condições para incrementar a própria autonomia, senão almejar uma condição de independência parcial frente ao governo em Damasco (Síria).

O território controlado pela administração curda representa hoje quase 25% da extensão total da Síria, além de fazer fronteira tanto com a Turquia quanto com o Iraque. A proximidade com estes vizinhos representa a necessidade de enfrentar outras frentes de negociação.

O governo turco reconhece a entidade política curda síria, as Unidades de Proteção Popular (YPG, na sigla em curdo), como associada aos curdos na Turquia, representados pelo Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK, na sigla em curdo), compreendido pelos turcos como uma organização terrorista.

Por conta disto, o governo de Ankara possui severas restrições à autonomia curda no país vizinho. Com o fim dos conflitos contra o Estado Islâmico, foi percebido um aumento nas incursões militares e ataques do Exército turco contra forças do Curdistão sírio. Os turcos também requerem estabelecer e controlar uma “zona de segurança”, com 32 quilômetros de extensão, tanto entre a fronteira da Síria com a Turquia quanto com o Iraque.

O anúncio em princípios de 2019, por parte do presidente estadunidense Donald Trump, reforçou a situação de fragilidade para os curdos. A retirada dos soldados estadunidenses representa uma forte incerteza, uma vez que os Estados Unidos têm fornecido historicamente apoio tanto logístico quanto de recursos para os curdos, além do fato de a presença estadunidense frear o avanço de possíveis hostilidades.

Ante à ausência de Washington na negociação, a Rússia tem-se feito cada vez mais presente. Como Moscou detém bom trânsito junto à administração do presidente sírio Bashar al-Assad, e de sua contraparte turca, Recep Erdogan, tratou de destinar um grupo diplomático especializado para lidar com a situação. O foco das negociações por este lado tem sido demover os curdos do projeto de autonomia e aceitar a incorporação das suas forças no Exército sírio, leal a Assad.

O Presidente sírio, Bashar al-Assad, recebe em visita o Vice-Primeiro-Ministro para a Defesa da Rússia, Yuri Borisov, encarregado das negociações com a Síria

O Presidente sírio afirmou, segundo a Reuters, que os curdos não devem apoiar-se em Washington, e que somente a Síria pode defendê-los. Em um evento realizado em Moscou, uma assessora sênior da Presidência síria, Bouthaina Shaaban, afirmou à Reuters que “autonomia significa a partição da Síria. Nós não temos como dividir a Síria”.

Apesar da dificuldade em chegar a um acordo com o governo, Damasco também enfrentará resistência em reestabelecer as condições anteriores de sua relação com os curdos. Estes possuem uma memória extremamente presente do domínio do Baath (partido do governo de Assad) na região. Esta é relativa sobretudo à violência e repressões pelo governo central, como relatam veículos de mídia.

Por conta disso, trataram de estabelecer além de uma estrutura administrativa uma série de escolas, livrarias e manifestações cotidianas de autonomia. Retornar à condição anterior à guerra, quando o governo central proibia livros e expressões culturais no idioma curdo, é amplamente rejeitado pela população.

Os curdos afirmam estabelecer bases claras para a negociação, ao mesmo tempo em que enfrentam um crescente aumento da pressão por várias frentes. Com os Estados Unidos pressionando pela aceitação da entrada de tropas turcas, apresentaram ao Presidente sírio um plano para que possam chegar a um acordo. Ainda assim, deixam claro que não haverá incorporação de suas forças no Exército sírio sem uma contrapartida de autonomia política e que atos de violência serão respondidos com reações militares.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Combatente das Forças Democráticas Sírias posa em Rojava” (FonteTwitter oficial das Forças Democráticas Sírias @sdf_press1): https://twitter.com/sdf_press_1

Imagem 2O Presidente sírio, Bashar alAssad, recebe em visita o VicePrimeiroMinistro para a Defesa da Rússia, Yuri Borisov, encarregado das negociações com a Síria”(Fonte Twitter da Presidência da Síria. @Presidency_Sy): https://pbs.twimg.com/media/D4lsD8oW0AA3jXA.jpg

NOTAS ANALÍTICASORIENTE MÉDIOPOLÍTICA INTERNACIONAL

O vínculo entre o futuro da juventude iraquiana e a preservação a Democracia no Iraque

Atualmente, o Iraque é um país com uma população jovem, sendo que 62,8% dos seus habitantes possuem menos de 24 anos. É uma geração que passou pelo menos dois terços da sua vida vivendo em um país que atravessava profundas transformações. Estas pessoas vivenciaram de guerras civis à construção de um regime democrático.

Não vivendo mais sob a ameaça constante promovida pelo conflito, enfrentam hoje uma série de desafios. Compostos por distintos elementos, estes podem ser considerados como geradores de uma sensação generalizada de desesperança quanto ao futuro do Iraque.

O primeiro elemento é o elevado desemprego, sobretudo entre a população jovem. A taxa de desemprego entre os que possuem entre 15 e 24 anos era de 18,9% em 2018, de acordo com dados do Banco Mundial. A falta de infraestrutura, aliada à dificuldade no florescimento de uma iniciativa privada que possa prover empregos de qualidade para a população são algumas das principais causas deste problema.

A dependência do petróleo como principal fonte para a geração de divisas, aliada à um projeto que foi desenvolvido por Saddam Hussein durante sua permanência no poder, gerou uma dependência enorme do setor público enquanto empregador. Ainda que existam iniciativas para reverter a situação, como programas de Startups conduzidas por jovens, elas enfrentam problemas como a falta de qualificação e estrutura.

Jovens reunidas em curso para promoção da paz e coesão social, organizado pelo Fundo de População das Nações Unidas

Muitos destes jovens cresceram enfrentando problemas como a necessidade fazer constantes deslocamentos e a dificuldade em obter educação por conta do conflito que o país vivia. Tempo e investimento ainda serão necessários para que as escolas e universidades possam preparar uma nova geração para os novos desafios que o futuro trará.

O segundo é a falta de percepção de mudança no país. A democracia foi instaurada no Iraque através das eleições parlamentares de 2005. A experiência política anterior consistia na sucessão de governo identificados como autoritários, como os do Partido Ba’ath, que esteve no poder desde 1968.

A experiência democrática produziu uma sucessão de regimes no poder que, na percepção da população geral, não geraram mudanças efetivas e transformações. Conforme se identifica na mídia, a ideia é de que o dinheiro no Estado foi usado para promover o sectarismo e a corrupção no país.

Esta desconfiança é indicada tanto pelo baixo comparecimento nas eleições parlamentares de 2018, onde somente 44,5% dos eleitores aptos foram às urnas, bem como uma série de protestos contra a corrupção e uma crescente demonstração de nostalgia dos períodos autoritários.

Sendo um país que passou por duros períodos para a mudança de regime, o Iraque enfrenta hoje desafios inéditos e muitos recaem sobre o futuro dos jovens. Para além disso, o país espera um crescimento populacional à uma taxa de 2,6% ao ano, com uma taxa de fertilidade de 4,2 filhos por mulher, o que leva a concluir que as soluções necessitarão levar em conta o crescimento desta parcela da população.

O país vive hoje um período de maior estabilidade e passa a ter novas questões às quais responder. Segundo especialistas, é necessário sobretudo manter os ganhos democráticos que foram produzidos, sendo estes necessários, inclusive, para a estabilidade do país. Conforme se observa a partir dos fatos relatados na mídia e das considerações de analistas, para tais, a provisão das adequadas condições de desenvolvimento desta parcela da população é um desafio para o governo iraquiano evitar uma possível regressão ao autoritarismo.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Crianças bebem água em escola reformada pela Unicef no Iraque” (Fonte Twitter Unicef: Iraque @UNICEFiraq): https://twitter.com/UNICEFiraq/status/1107226137732751361

Imagem 2 Jovens reunidas em curso para promoção da paz e coesão social, organizado pelo Fundo de População das Nações Unidas” (Fonte Página oficial da UNFPA Iraque no Facebook): https://www.facebook.com/UNFPAIraq/photos/a.1766569953561240/2300751683476395/?type=3&theater

NOTAS ANALÍTICASORIENTE MÉDIOPOLÍTICA INTERNACIONAL

Pacote de Medidas dos EUA para a Palestina

A política externa dos EUA para o Oriente Médio neste momento tem focado no que já foi chamado de “O Acordo do Século”. A iniciativa é coordenada por Jared Kuschner (genro do Presidente, casado com Ivanka Trump; assistente de Donald Trump e Conselheiro Sênior da Casa Branca) e setores do Departamento de Estado. Ao que inicialmente se sabe, foi gestado um plano que visa investir bilhões de dólares, primordialmente na Cisjordânia e na faixa de Gaza.

A provável data oficial para o anúncio do pacote de medidas é o próximo dia 15 de maio. A apresentação coincide com a celebração do Nakba, quando Israel comemora sua independência e criação enquanto Estado.

Até agora, a administração Trump tem enfrentado as consequências de sua política externa para a região. Após a mudança da embaixada em Israel para Jerusalém, o embaixador palestino retirou-se de Washington e os Estados Unidos promoveram corte de boa parte da ajuda e apoio que já foi fornecido à Autoridade Nacional Palestina, incidindo na autonomia da organização.

O apoio que os Estados Unidos aportavam para agências internacionais garantiam provisão de serviços básicos, infraestrutura e educação para os refugiados palestinos, como os feitos à Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina (UNRWA, na sigla em inglês). Foi a primeira vez, desde a fundação da Agência, que o país se recusou a manter o apoio e em não assumir este papel na manutenção da paz no Oriente Médio.

O investimento que virá por meio do novo Acordo seria estendido também a outros países da região, como a Jordânia, o Líbano e o Egito, desde que os mesmos cumpram com exigências pré-determinadas que devem ser reveladas juntamente com o plano.

A Palestina receberia por meio deste acordo um investimento de US$25 bilhões (Em torno de 98,13 bilhões de reais, conforme cotação de 18 de abril de 2019). Os demais países árabes participes do acordo, teriam um investimento em torno de US$ 40 bilhões de dólares (aproximadamente, 157 bilhões de reais, também de acordo com a mesma cotação). A quantia ainda não é certa, tampouco quem pagará por ela.

O presidente dos EUA, Donald Trump, cumprimenta o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu

As negociações preliminares envolveram não somente os EUA, mas também os países considerados mais estáveis na região. Estes esperam atrair Estados como a Arábia Saudita para investir no acordo. Até agora, somente a Turquia pronunciou-se veementemente contra algumas das medidas, como considerar as colinas de Golã território israelense.

Um acerto que busque estabelecer um ponto final para um dos conflitos mais complexos existentes envolve distintos fatores. Para além do cenário positivo de um ambiente economicamente saudável que Kushner ressalta, está a ausência de uma solução para a autonomia palestina. A proposta de “eliminar fronteiras” antevê que as ambições políticas dos palestinos não estão incluídas na agenda.

Ainda que falte mais informação sobre os detalhes que serão oferecidos, analistas consideram que concretizar tal feito envolve uma série de impedimentos. O primeiro, e talvez mais imediato, é convencer os palestinos a abandonar suas bandeiras históricas e o reclamo sobre autonomia da terra em troca de investimentos. Por outro lado, ainda não deixa claro como vai equilibrar as demandas já existentes.

De acordo com o Middle East Monitor, Mahmoud Abbas, Presidente da Autoridade Nacional Palestina, definiu que o chamado “Acordo do Século” se apresenta como um dos maiores desafios para o governo recém-eleito. Também declarou que os palestinos irão observar os avanços das propostas, mas salientou a dificuldade do diálogo com Donald Trump e afirmou que rejeitam um acordo que não inclua Jerusalém, porque os palestinos não querem “um Estado sem Jerusalém e sem Gaza.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Os presidentes de Israel (Yitzhak Rabin), dos EUA (Bill Clinton) e da Organização para a Libertação da Palestina (Yasser Arafat), cumprimentamse durante as negociações dos Acordos de Oslo, 1993” (Fonte): https://en.wikipedia.org/wiki/Israeli%E2%80%93Palestinian_conflict#/media/File:Bill_Clinton,_Yitzhak_Rabin,_Yasser_Arafat_at_the_White_House_1993-09-13.jpg

Imagem 2 O presidente dos EUA, Donald Trump, cumprimenta o primeiroministro Benjamin Netanyahu”(Fonte): https://commons.wikimedia.org/wiki/File:President_Trump_at_the_Israel_Museum.Jerusalem_May_23,_2017_President_Trump_at_the_Israel_Museum._Jerusalem_May_23,_2017(34460980460).jpg