ÁSIAECONOMIA INTERNACIONALNOTAS ANALÍTICAS

Impactos políticos da desaceleração do crescimento chinês

As taxas de crescimento da China no fim do século XX e na primeira década do século XXI estiveram entre as maiores do mundo. O país passou de uma posição secundária na economia global para ator importante, tornando-se o segundo maior PIB do planeta. Apesar das posturas firmes de defesa do livre-comércio e de ambiciosos projetos de investimento em infraestrutura, a China está desacelerando seu crescimento, com taxas inferiores a 7% ao ano. O menor ritmo de progresso econômico gera impactos políticos nos âmbitos doméstico e internacional.

Companhia Chinesa de Ferrovias

No plano doméstico, pesquisas indicam que há provável correlação entre o menor crescimento e o aumento dos protestos nos últimos anos. No entanto, ainda não há investigação suficientemente aprofundada que permita estabelecer se as manifestações ocorreram por causa da desaceleração ou se a causaram. John Dinardo e Kevin Hallock analisaram as greves nos EUA entre 1925 e 1937 e concluíram que elas provocaram perdas significativas no valor de ações de indústrias. Os dados obtidos até o momento sobre o contexto chinês indicam aumento de greves desde 2016 e concentração na província de Gungdong*, o que não implica necessariamente a validade da conclusão sobre os EUA dos anos 1930 para a China contemporânea, já que a reação das bolsas de valores aos protestos foi bastante discreta. 

No plano internacional, a desaceleração chinesa significa menor margem de manobra nas negociações para solucionar a guerra comercial com os EUA. A economia do país asiático é muito dependente de suas exportações e os Estados Unidos são seu principal parceiro comercial. As tarifas impostas sobre U$ 34 bilhões de produtos chineses dificultam ainda mais a retomada do alto ritmo de crescimento. Segundo a analista Renee Mu, “Quando mais tempo a China permanecer nessa guerra comercial, mais ela irá perder; o mesmo vale para os EUA. A desaceleração do crescimento chinês pode torná-la menos resiliente do que antes: o PIB do terceiro trimestre cresceu 6.5%, menos do que os esperados 6.6%”. Dessa forma, aumenta-se o risco de que os estadunidenses consigam impor suas exigências aos chineses.

O projeto da Nova Rota da Seda** também é afetado pelas menores taxas de crescimento do país asiático. Os valores investidos em infraestrutura crescem cada vez menos desde 2011, com tendência de desaceleração ainda mais expressiva nos próximos anos. A menor disponibilidade de recursos para investir prejudica sobremaneira o projeto, já que este tem um custo muito elevado. Como a iniciativa é uma das bases da política externa do presidente Xi Jinping, a demora na concretização de avanços pode prejudicar a estratégia de inserção internacional da China.

A economia chinesa impacta diretamente o grau de influência do país no sistema internacional. A sua ascensão está muito vinculada a seu poderio econômico, que permite estabelecer relações de confiança e até mesmo de aliança com determinados países, por meio da ajuda ao desenvolvimento e de investimentos em infraestrutura. A capacidade de influenciar as relações internacionais pode, portanto, ficar prejudicada com a desaceleração econômica.

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Nota:

* Província do sul da China, próxima das regiões administrativas especiais de Hong Kong e Macau.

** Projeto que busca integrar os mercados asiáticos e prover conexão física até a Europa. É, segundo analistas, a principal iniciativa da política externa do presidente Xi Jinping e expande a área de influência da China.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Banco Industrial e Comercial da China” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Economy_of_China

Imagem 2 Companhia Chinesa de Ferrovias” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Economy_of_China

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Demais Fontes Consultadas

[1] Ver:

https://thediplomat.com/2018/10/a-slowing-chinese-economy-means-more-instability/

[2] Ver:

http://journals.sagepub.com/doi/abs/10.1177/001979390205500202

[3] Ver:

https://maps.clb.org.hk/strikes/en#201804/201810/10539

[4] Ver:

https://www.forbes.com/sites/panosmourdoukoutas/2018/10/25/america-should-let-china-lose-the-trade-war-gracefully/

[5] Ver:

https://www.abc.net.au/news/2018-06-14/china-growth-stumbles-on-weaker-industrial-production-and-inves/9870214

ÁSIANOTAS ANALÍTICASPOLÍTICA INTERNACIONAL

China intensifica combate ao terrorismo

O terrorismo é um dos temas mais presentes na agenda internacional. Por ser uma ameaça difusa, em que nunca se pode ter certeza sobre quais serão seus alvos nem como eventuais ataques serão executados, o terrorismo é uma das maiores preocupações dos Estados nacionais no século XXI. A China enfrenta desafios, sobretudo na província de Xinjiang*, mas tem conseguido adotar uma estratégia eficaz que permitiu redução significativa do número de ataques terroristas nos últimos anos. No entanto, a ameaça ainda persiste. 

Tanques destruídos na Guerra Civil Síria

Até os anos 2000, as ações eram concentradas na região de Xinjiang, sendo orientados muitas vezes por um desejo separatista da população Uigur, cuja maioria professa a religião islâmica. Na primeira metade da presente década (anos 2010), contudo, os atentados terroristas tornaram-se mais ousados, visando atingir símbolos do governo e diversificando sua abrangência geográfica. Em 28 de outubro de 2013, um carro repleto de explosivos colidiu com um grupo de pessoas na Praça Tiananmen, em Pequim, muito perto do retrato de Mao Zedong**. Além disso, também houve atentado na província de Yunnan***, em 2014. Embora os ataques sejam espalhados geograficamente pelo país, especialistas acreditam que os terroristas são originários de Xinjiang.

Desde 2015, contudo, quase nenhuma ação ocorreu na China. Esse fato pode ser atribuído às rígidas medidas de vigilância adotadas pelo governo, em que a tecnologia é utilizada a serviço da obtenção de informações importantes para a segurança nacional. Entre os procedimentos que facilitam a vigilância podem ser mencionados o monitoramento pela internet, reconhecimento facial e de voz, sistema integrado de vigilância das ruas por câmeras e análise de DNA. Outro fator importante para a redução de ataques está relacionado ao rigor da lei anti-terrorismo, aprovada em 2015. O diploma legal permite o uso de vários instrumentos pelas autoridades chinesas, incluindo cooperação com autoridades estrangeiras para que a polícia possa atuar no exterior e o maior monitoramento de voos.

A relativa tranquilidade na China não significa que as ameaças desapareceram. Pelo contrário, a participação de extremistas uigures na guerra civil síria, no Afeganistão e no Paquistão implica aumento do risco de atentados terroristas em um futuro próximo. Na Europa, os indivíduos radicalizados que retornaram da Síria ameaçaram a estabilidade regional e tiveram influência em ataques recentes na França e na Alemanha. Alguns jornalistas afirmam que centenas de uigures foram treinados no Oriente Médio e poderiam realizar atentados terroristas no território chinês. Mesmo com a prisão de muitos desses líderes em 2015, quando regressaram a Xinjiang, não está claro qual o grau de influência que eles poderiam ter para outros extremistas radicais na China.

O terrorismo continua sendo uma ameaça relevante para a segurança chinesa. Apesar dos avanços no combate e na prevenção a ataques, isso não significa a eliminação do perigo. Diante disso, o governo mantém-se atento e busca cooperar com outros Estados para conservar protegido e lutar contra um dos maiores riscos para a segurança internacional.

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Nota:

* Província chinesa com grande percentual de população islâmica, situada na fronteira com o Paquistão. Local onde há sentimento separatista e o governo chinês identifica ameaças terroristas.

** Um dos governantes mais populares da história chinesa, foi o principal líder da Revolução Comunista de 1949.

*** Província do sul da China.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Retrato de Mao Zedong na Praça Tiananmen, local do atentado de 2013” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Mao_Zedong

Imagem 2 Tanques destruídos na Guerra Civil Síria” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Syrian_Civil_War

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Demais Fontes Consultadas

[1] Ver:

https://thediplomat.com/2015/05/beyond-doubt-the-changing-face-of-terrorism-in-china/

[2] Ver:

https://thediplomat.com/2018/09/the-de-extremitization-campaign-in-xinjiang-a-cure-worse-than-the-disease/

[3] Ver:

http://www.ciis.org.cn/english/2016-10/25/content_9110049.htm

[4] Ver:

https://www.scmp.com/news/china/article/1734203/islamic-state-members-arrested-xinjiang-says-chinese-government-official

ÁFRICAÁSIANOTAS ANALÍTICASPOLÍTICA INTERNACIONAL

China muda o foco nas relações com a África

O continente africano foi historicamente submetido a pressões políticas e econômicas das potências ocidentais. Tendo sido colonizadas em sua quase totalidade por países europeus, as nações africanas tendem a desconfiar de atores externos que oferecem recursos para o desenvolvimento local. Nesse contexto, alguns estudiosos afirmaram que a presença chinesa crescente na África seria um neocolonialismo. Atenta às críticas, Pequim busca mudar o foco das relações com o continente e construir um relacionamento em bases equilibradas, em que os benefícios para ambas as partes sejam facilmente percebidos.

Logomarca do FOCAC

No âmbito da Conferência Ministerial do Fórum sobre a Cooperação China- África (FOCAC, em inglês)* 2018, a China ampliou a ajuda externa aos países africanos, ao mesmo tempo em que reduziu o volume de empréstimos vinculados ao pagamento de juros. Isso ocorreu porque muitos especialistas criticavam a chamada armadilha do débito. Segundo eles, o fornecimento de empréstimos a países africanos gerava uma dívida insustentável para os países do continente que beneficiaria sobretudo o governo chinês, sendo prejudicial para as economias locais a longo prazo. Dessa forma, a redução desses empréstimos veio acompanhada de aumento da ajuda externa, que não é vinculada a juros. Isso aumenta a legitimidade do discurso chinês de que a busca de benefícios recíprocos é o que orienta a relação com a África.

Além dos recursos financeiros, o governo chinês aumentou o foco em outras áreas de cooperação com os países africanos. As áreas enfatizadas pelo presidente Xi Jinping são promoção industrial, conectividade de infraestrutura, facilitação do comércio e desenvolvimento sustentável. Em relação à promoção industrial, a China irá realizar exposições sobre o comércio com a África e estimular empresas chinesas a investirem na base industrial de países africanos. Na questão da infraestrutura, os chineses irão trabalhar com a União Africana** para formular um plano de cooperação que facilite a construção de obras por empresas do país asiático. No que se refere ao comércio, a China comprometeu-se a importar mais da África, em especial produtos que não sejam minérios. Sobre desenvolvimento sustentável, os chineses irão implementar 50 projetos de ajuda, com foco no combate às mudanças climáticas. 

A diversificação do foco no relacionamento com países africanos poderá melhorar a imagem dos chineses em relação aos governos locais, afastando a ideia da China como potência neocolonial. A aproximação do país asiático ao continente pode ser percebida pelo aumento do número de nações que romperam relações diplomáticas com Taiwan e estabeleceram vínculos com a China. Atualmente, apenas Suazilândia reconhece os insulares como Estado.

Além disso, o presidente Xi Jinping enfatiza a diferença entre o relacionamento dos chineses com o continente africano e as relações de países ocidentais com a África. Segundo o mandatário, o Estado asiático é orientado pela política dos “5 nãos”: não interferir nas estratégias nacionais de desenvolvimento, não interferir nos assuntos internos africanos, não impor os desígnios chineses a nações africanas, não colocar condições políticas para a ajuda à África e não buscar ganhos políticos egoístas na cooperação financeira com os africanos

A afirmação de uma estratégia abrangente e cooperativa para o continente africano aumenta a confiabilidade dos chineses como parceiros. A prática de ações concretas no apoio ao desenvolvimento local contribui para a legitimidade da presença do país asiático na África. Pequim responde às críticas sobre uma suposta estratégia de dominação neocolonial por meio de iniciativas que mostram que o objetivo no continente não é endividar os países africanos, mas buscar integrá-los, de modo a facilitar o comércio e contribuir para a expansão global da influência do país asiático.

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Notas:

* Fórum em que a parceria entre China e África é concretizada. A Conferência Ministerial, órgão de cúpula da iniciativa, reúne-se a cada 3 anos. Em 2018, houve a presença de quase todos os Chefes de Estado africanos em Pequim, o que demonstra o êxito desse foro de cooperação.

** Organização internacional fundada em 2002 e que tem por objetivo promover a integração entre os países africanos.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Mapa físico do continente africano” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Africa

Imagem 2 Logomarca do FOCAC” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Forum_on_China–Africa_Cooperation

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Demais Fontes Consultadas: 

[1] Ver:

https://thediplomat.com/2017/06/why-chinese-infrastructural-loans-in-africa-represent-a-brand-new-type-of-neocolonialism/

[2] Ver:

https://thediplomat.com/2018/09/focac-2018-rebranding-china-in-africa/

[3] Ver:

http://www.xinhuanet.com/english/2018-09/03/c_137441563.htm

ÁSIANOTAS ANALÍTICASPOLÍTICA INTERNACIONAL

China expande sua presença em organizações internacionais

De uma perspectiva liberal*, as organizações internacionais são fundamentais para a promoção da cooperação e da estabilidade no sistema internacional. Apesar de ainda ser muito presente nas universidades chinesas o pensamento realista**, segundo o qual essas organizações servem primariamente para projetar poder, o país asiático investe cada vez mais na capacitação de seus jovens e na promoção do interesse de servir em organizações internacionais. Com isso, o governo chinês busca aumentar sua influência em organismos multilaterais.

Cúpula de 2009 da Organização de Cooperação de Xangai

Historicamente, a presença da China em organizações internacionais é discreta. Compreendidas como uma construção ocidental, eram percebidas com suspeita pelos chineses. Além disso, os jovens interessados em tornar-se servidores públicos internacionais ainda precisam enfrentar processo seletivo mais árduo do que aquele existente em outros países, dado que o Governo tem um papel muito relevante. Os candidatos necessitam fazer uma prova organizada pelo Ministério de Recursos Humanos e Segurança Social. Se têm êxito são colocados na lista de “talentos reservados”, podendo ser chamados quando há contato de algum organismo internacional. Segundo analistas, o processo burocrático desencoraja muitos potenciais candidatos.

A baixa representatividade em várias organizações internacionais motivou Pequim a reformar o sistema de seleção nacional, desburocratizando-o, e a buscar ampliar o interesse dos jovens na carreira de servidor público nessas instituições. O Conselho de Bolsas da China*** (CSC, em inglês) estabeleceu, em 2016, parceria com 7 organizações internacionais, cobrindo até mesmo os custos de estágios, que geralmente não são remunerados. Além disso, as universidades chinesas procuram firmar programas conjuntos com universidades renomadas localizadas perto de organismos multilaterais, como exemplifica o Mestrado de Políticas Públicas para as metas de desenvolvimento sustentável, que é realizado por meio da cooperação entre a Universidade Tsinghua e a Universidade de Genebra. A proximidade de várias organizações importantes na cidade suíça pode aumentar o interesse dos jovens chineses e contribuir para melhorar a representatividade da China nesses organismos.

Além de buscar aumentar sua presença em organizações tradicionalmente consolidadas, os chineses também criam instituições em que têm maior influência, moldando o processo de elaboração normativa e o auxílio ao desenvolvimento. A Organização para a Cooperação de Xangai, iniciativa de 2007, fundada no contexto da maior presença dos Estados Unidos na Ásia Central desde a guerra no Afeganistão, é foro importante para a coordenação com a Rússia e para o aumento da influência chinesa na governança da região central do continente. O Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura (AIIB), que iniciou suas operações em 2016, também é importante organismo liderado pela China. O Banco de Desenvolvimento amplia o poder de barganha chinês ao fornecer empréstimos a nações emergentes e ao influenciar o sistema financeiro internacional. 

A presença chinesa na governança global está crescendo. O poder brando**** do país asiático aumenta na mesma proporção, dado que influencia o processo de criação de normas e o comportamento de outros atores internacionais. Nesse sentido, o reforço ao multilateralismo é estratégia basilar da política externa de Xi Jinping e demonstra a intenção chinesa de liderar a ordem internacional emergente.

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Notas:

* Escola de pensamento das Relações Internacionais que defende a importância da cooperação e do indivíduo para o sistema internacional, adotando uma postura menos estatocêntrica do que a escola realista.

** Escola de pensamento das Relações Internacionais que entende o sistema internacional como ambiente de disputa de poder e afirma a centralidade do Estado. Segundo David Shambaugh, é o pensamento predominante nos meios universitários chineses. Cada vez mais, contudo, o governo busca afastar-se de uma política externa predominantemente realista.

*** Agência governamental com fins não lucrativos e afiliada ao Ministério da Educação da China.

**** Capacidade de influenciar as relações internacionais por meio de atributos como cultura e negociação. É uma forma mais branda de poder, sem recurso à força militar ou a sanções econômicas.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Assembleia Geral da ONU” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/United_Nations

Imagem 2 Cúpula de 2009 da Organização de Cooperação de Xangai” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Shanghai_Cooperation_Organisation

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Demais Fontes Consultadas:  

[1] Ver:

https://thediplomat.com/2018/08/china-wants-more-chinese-to-work-in-international-organizations/

[2] Ver:

http://www.sppm.tsinghua.edu.cn/english/mid/Admission/AboutMPPSDG/

[3] Ver:

https://nationalinterest.org/blog/the-buzz/chinas-aiib-bank-part-much-bigger-master-plan-12748

[4] Ver:

https://www.aiib.org/en/about-aiib/index.html

ÁSIANOTAS ANALÍTICASPOLÍTICA INTERNACIONAL

Crescem as tensões entre China e EUA no Sudeste Asiático

O Sudeste Asiático é região geograficamente próxima à China, mas que recebe certa influência estadunidense. As duas potências globais competem por maior presença na área por meio do comércio, de investimentos e de cooperação para o desenvolvimento. Os chineses buscam dissipar desconfianças em relação a um suposto projeto hegemônico, enquanto os estadunidenses tentam manter a influência que adquiriram no governo de Barack Obama. Ambos enfrentam dificuldades, e a competição tende a acirrar-se.

Bandeiras dos Estados da ASEAN em Jacarta

A política de investimentos da China na região é substancialmente diferente da adotada pelos Estados Unidos. Os chineses priorizam os capitais investidos pelo Estado, especialmente em infraestrutura, no contexto da Nova Rota da Seda*. Os estadunidenses, por sua vez, atuam sobretudo por meio do capital privado, tendo anunciado recentemente o investimento de U$ 113 milhões na área do Indo-Pacífico. Esse valor, contudo, é ínfimo se comparado ao montante investido pela China, que chega a bilhões de dólares. O Ministro das Relações Exteriores chinês, Wang Yi, comentando a oferta dos norte-americanos, afirmou que “(…) esperava que os EUA oferecessem alguns bilhões. Minha primeira reação foi que eu devia ter ouvido errado”.

Os Estados Unidos, entretanto, têm algumas vantagens no Sudeste Asiático. Há aliados importantes na região, como as Filipinas. Esse país tem controvérsias territoriais com os chineses no Mar do Sul da China. Uma decisão arbitral que favorece os filipinos na disputa chegou a ter seu aniversário de 2 anos celebrado em um fórum em julho de 2018. Essa desconfiança sobre os chineses encontra eco em outras nações, que poderiam aproximar-se dos EUA.

Há também aproximação ideológica aos norte-americanos, na medida em que o soft power** exercido no governo do então presidente Barack Obama ainda deixou legado de influência. O antigo mandatário estabeleceu, por meio de sua estratégia do Pivô para a Ásia-Pacífico***, confiança e respeito mútuo com países do Sudeste Asiático. A estratégia de “América Primeiro” do presidente Donald Trump, entretanto, pode prejudicar o relacionamento com a região.

A China tenta contrabalançar as vantagens dos EUA por meio da ênfase nos fatores que a aproximam da região. A área é fundamental para a política externa chinesa e para o êxito do grande projeto do presidente Xi Jinping, a já citada Nova Rota da Seda. Isso pode ser evidenciado pelo aumento da cooperação entre o país e a Associação das Nações do Sudeste Asiático (ASEAN)****, nas preparações para o 15o aniversário da parceria estratégica, estabelecida em 2003. Na cúpula de Manila, em novembro de 2017, a China propôs uma visão para aprofundar a parceria até 2030, com foco nos pilares de economia, comércio e segurança política.

O comércio é ponto importante na relação com os Estados do Sudeste Asiático. A China é o maior parceiro comercial da ASEAN e, em 2017, o fluxo de comércio chegou ao número recorde de U$ 514 bilhões. Além disso, o superávit chinês não é tão significativo quanto em outras regiões, o que reduz as tensões comerciais. A segurança política também é importante e ambas as partes trabalham para resolver seus contenciosos no Mar da China meridional. Isso pode ser demonstrado pelo acordo de um texto sobre o Código de Conduta nesse mar, na cúpula de Manila.

EUA e China disputam influência no Sudeste Asiático, isso é evidenciado continuamente, e o resultado dessas tensões ainda não pode ser previsto, já que ambos têm vantagens e problemas na região. Os norte-americanos buscam mostrar-se como atores cooperativos e transparentes, conquistando a confiança de algumas nações. Os chineses, por sua vez, adotam estratégia de utilizar a vizinhança geográfica e o comércio para gerar aproximação. O que é claro para os analistas é que o resultado na disputa regional certamente terá repercussões no âmbito global.   

 

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Notas:

* Projeto que busca integrar os mercados asiáticos e prover conexão física até a Europa. É, segundo analistas, a principal iniciativa da política externa do presidente Xi Jinping e expande a área de influência da China.

** Capacidade de influenciar as relações internacionais por meio de atributos como cultura e negociação. É uma forma mais branda de poder, sem recurso à força militar ou sanções econômicas.

*** Estabelece a região como fundamental para a política externa estadunidense e aumenta os investimentos e a presença dos EUA no continente asiático.

**** Organização que tem por objetivo promover a governança e a cooperação no Sudeste da Ásia. 

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Discurso do presidente Ford em Pequim em 1975” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/China–United_States_relations

Imagem 2 Bandeiras dos Estados da ASEAN em Jacarta” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Association_of_Southeast_Asian_Nations

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Demais Fontes Consultadas: 

[1] Ver:

https://thediplomat.com/2018/08/can-the-us-compete-with-china-in-southeast-asia/

[2] Ver:

https://www.wsj.com/articles/asian-nations-push-back-at-u-s-on-trade-sanctions-1533507560?mod=searchresults&page=1&pos=3

[3] Ver:

https://www.philstar.com/headlines/2018/07/12/1832881/robredo-warns-philippines-losing-arbitral-ruling-advantage-south-china-sea

[4] Ver:

http://en.ce.cn/National/big-news/201808/06/t20180806_29948177.shtml

ÁSIANOTAS ANALÍTICASPOLÍTICA INTERNACIONAL

Principais novidades na Política Externa de Xi Jinping

Historicamente, a política externa chinesa é focada no seu entorno regional, com iniciativas para manter um papel relevante na governança da Ásia e do Pacífico. Nas últimas décadas, a China busca tornar-se uma potência global, com influência em vários continentes. Apesar disso, a liderança chinesa afirma que a ascensão do Estado será pacífica. Desde que chegou ao poder, em 2013, o presidente Xi Jinping aprofundou o projeto globalista, acrescentando maior assertividade ao discurso e promovendo iniciativas ambiciosas de projeção internacional.

A política externa de Xi Jinping caracteriza-se pelo reforço da diplomacia presidencial*. O mandatário assumiu cada vez mais funções na condução das relações exteriores, inclusive criando conceitos para interpretar a ordem global e o papel da China no mundo. Em 2013, ele afirmou que o mundo viveria um “novo tipo de relações internacionais” e defendeu a ideia de uma “comunidade de destino compartilhado da humanidade”, termo que foi inserido em vários documentos da Organização das Nações Unidas. Além disso, o Presidente vem defendendo o papel de liderança chinesa na defesa do multilateralismo e do livre comércio.

O governo de Xi Jinping também atua para maior centralização e coordenação do processo decisório em temas de política externa. Em 21 de março de 2018, foi criada a Comissão Central de Relações Exteriores, presidida pelo mandatário. A comissão substitui o anterior pequeno grupo de lideranças, que havia sido acusado de ineficaz por especialistas, pois não coordenava bem as iniciativas de política externa. A mudança pode estar relacionada à necessidade de maior organização para concretizar a principal iniciativa do governo: a Nova Rota da Seda.

O projeto da Nova Rota da Seda, que busca integrar os mercados asiáticos e aprimorar a conexão física até a Europa pela via terrestre e pela via marítima, é a grande ambição do Presidente chinês, segundo analistas. Ocorre que a iniciativa é complexa e envolve a gestão de vários conflitos, já que passa por países do Oriente Médio e pela Caxemira, área disputada por indianos e paquistaneses. Além disso, o projeto requer elevado financiamento. Caso concluído, contudo, poderia aumentar a influência internacional da China significativamente.

Líderes dos BRICS em 2016

A cooperação sul-sul é outra base da política externa de Xi Jinping. Em abril de 2018, foi criada a Agência de Cooperação para o Desenvolvimento Internacional, que, segundo o periódico Xinhua, tem como funções estabelecer diretrizes estratégicas para a ajuda internacional, coordenar e fazer sugestões em temas correlatos, reformar o sistema de ajuda internacional, fazer planos e supervisionar sua implementação. Além disso, o apoio ao desenvolvimento é manifestado por meio do Novo Banco de Desenvolvimento, instituição criada pelo agrupamento BRICS** na Cúpula de Fortaleza (Brasil), em 2014. O Banco não impõe condicionalidades rígidas e tem como foco o auxílio a nações em desenvolvimento.

O presidente Xi Jinping tem, segundo analistas, o objetivo de levar a China à condição de potência global. Para tanto, centraliza a tomada de decisões e participa ativamente da formulação da política externa. O aumento da influência chinesa no plano internacional é buscado por meio de maior cooperação com países em desenvolvimento, de auxílio à integração física na Eurásia e da defesa de postulados do globalismo, como o livre comércio e o multilateralismo. O projeto de inserção internacional da China parece, por ora, estar avançando a passos largos.

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Notas:

* Atuação diplomática em que o mandatário tem papel de destaque, engajando-se em temas de política externa.

** Coalizão que envolve Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul (ingressa em 2011), que se reúne regularmente desde 2008 para debater temas da agenda internacional e promover iniciativas de reforma da ordem mundial, de modo a torná-la menos assimétrica, mais aproximada à atual distribuição internacional de poder e mais representativa dos interesses das nações em desenvolvimento. 

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Xi Jinping no Parlamento Britânico” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Xi_Jinping

Imagem 2 Líderes dos BRICS em 2016” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/BRICS

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Demais Fontes Consultadas

[1] Ver:

https://thediplomat.com/2018/08/chinas-new-foreign-policy-setup/

[2] Ver:

https://thediplomat.com/2018/08/in-xis-china-the-center-takes-control-of-foreign-affairs/

[3] Ver:

http://www.xinhuanet.com/english/2018-04/18/c_137120544.htm