ANÁLISES DE CONJUNTURAÁSIA

A China e a vitória parlamentar do “Partido Liberal Democrático do Japão”

A vitória no Japão do conservador “Partido Liberal Democrático” (PLD – em inglês, LDP) nas eleições para a “Câmara dos Conselheiros” deste domingo (21 de julho) é recebida com apreensão na China. Desde que voltou ao governo em dezembro de 2012*, Shinzo Abe, o líder do PLD e Primeiro-Ministro, tem ocasionalmente proferido discursos pessoais que evocam “a glória do passado imperial do Japão”, algo que, de certa forma, “fere as sensibilidades” dos povos vizinhos, em particular da China[1].

Crê-se que esta vitória abre espaço para o Partido japonês vencedor levar a cabo reformas econômicas e mudanças que igualem o país ao Japão do período pré-1945. Por isso, a China está preocupada com a pretensão de Abe alterar o caráter pacifista japonês, estipulado no “Artigo Nono” da Constituição, em vigor desde o fim da “2ª Guerra Mundial”, Constituição que o próprio Shinzo Abe afirma ter sido imposta pelos “Estados Unidos da América” (EUA). Ele ainda deseja reforçar o orçamento das “Forças de Autodefesa do Japão[2].

Como prova disso, o “Livro Branco de Defesa” do Japão (publicado em 9 de julho deste ano) destaca que, pela primeira vez em uma década o ano fiscal de 2013 tem um aumento de 0,8% para o setor de Defesa, alegadamente para fazer face a uma China mais assertiva com quem tem disputas territoriais marítimas, sendo as Ilhas Senkaku” (Diaoyu para os chineses) o caso mais emblemático, assim como também menciona a mesma postura no “Mar da China Meridional” com outros países[3].

No entanto, em resposta, a China não só refuta a ideia de que esteja a fazer manobras militares provocadoras junto ao “Mar da China do Leste” como também interpreta a preocupação do Japão em relação ao “Mar da China Meridional” como um sinal de desejo deste país expandir o seu poderio naval além de se imiscuir em assuntos alheios. Da mesma maneira, em Pequim também se critica o apelo vigoroso de Abe à aliança Japão-EUA que, em última instância, se acredita que objetiva conter a China[4].

Na semana passada, numa rara visita à “Ilha Ishigaki”, que dista cerca de 160 km das disputadas “Ilhas Senkaku” (Diaoyu), Shinzo Abe reafirmou que o Japão nunca recuará da questão da soberania sobre o território, o qual também a China reclama ter-lhe sido “roubado” no contexto da “Guerra Sino-Japonesa”, de 1895. A mídia chinesa entende que a ida do Primeiro-Ministro àquele lugar representa um precedente muito perigoso. Contudo, salienta que o gesto de Abe não tinha outro objetivo senão fazer campanha eleitoral pelo seu partido de direita e nacionalista para as eleições que acabavam de acontecer[5].

Coligado desde dezembro do ano passado ao “Partido Novo Komeito”, o “Partido Liberal Democráticotem a oportunidade de governar sem os grandes obstáculos que os governos anteriores, que foram tidos como dos mais instáveis na história recente do Japão. Neste período recente, o país teve sete Primeiros-Ministros entre 2006 e 2012, ou seja, neste intervalo, nenhum líder japonês conseguiu chegar ao fim do seu mandato[6]. Uma das razões da instabilidade governamental é a ausência de um Partido majoritário no Parlamento, composto pela “Câmeras Alta” (dos Conselheiros) e “Câmara Baixa” (dos Representantes)[7]. Portanto, o domínio do PLD no Governo e no Parlamento abre caminho para um ambiente de estabilidade política no Japão[8]

Especialistas chineses não só entendem que o domínio da coalizãoPLD-Partido Novo Komeitonas duas Câmaras (135 dos 242 Conselheiros, 325 dos 480 Representantes) pode levar o governo até ao fim do seu mandato (isto é, 2016), como também acreditam que Abe levará avante a sua política econômica (conhecida por Abenômica): “afrouxar as políticas monetária e fiscal e reformas estruturais[9], com vista a tirar o país da estagnação econômica que dura quase duas décadas[9].

Abe afirmara alguns meses atrás que sem crescimento econômico não é possível o seu governo garantir segurança social ao povo japonês e seria também difícil revitalizar a diplomacia do país[10]. Por isso, devido às suas políticas, a economia do Japão só este ano já cresceu cerca de 4% e as taxas do mercado de valores japonês aumentaram para acima de 40%. Porém, um dos maiores desafios do atual governo será aderir àParceria Trans-Pacífico”, contestada pelos fazendeiros locais. Esta Parceria de natureza econômica está ainda em formação e envolve 11 países de dois continentes sob liderança dosEstados Unidos[11].  

A China é um dos países que mais se beneficiam com a recuperação do Japão e também pode ajudar o Japão com o seu vasto mercado, mas Pequim está de guarda em relação às tentativas do “Governo Abe” na direção do fortalecimento militar, pois, para os chineses, mais que questão da existência de outro país belicamente forte na região, a ocupação de seu território, as guerras e a humilhação que a esteve sujeita ainda têm cicatrizes que vão levar muito tempo para sarar.

No entanto, alguns analistas chineses encontram conforto na posição pacifista do parceiro doPLD”,  oPartido Novo Komeito”, que publicamente afirma não ser favorável à militarização do Japão. Alguns ainda calculam que o PLD, por si só, não dispõe de 2/3 em ambas Câmaras, necessários para mudanças constitucionais, por isso acreditam que se Abe forçar a sua agenda “agressiva” levará ao colapso do atual governo, o que resultaria na continuação da instabilidade política, como vem ocorrendo ao longo dos últimos seis anos[12].   

Apesar de ainda não ter mantido um contato direto com as autoridades chinesas, Shinzo Abe afirmou nesta segunda-feira que os dois países vizinhos deviam trabalhar juntos para ultrapassar as diferenças que os opõem. Também disse que esperava levar avante diálogos de alto nível entre os dois Governos[13].     

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* Entre 2006 e 2007 também liderou o governo.

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Imagem (Fonte):

http://www.globaltimes.cn/NEWS/tabid/99/ID/798050/Abe-attends-press-conference-after-LDPs-election-win.aspx

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Fontes consultadas:

[1] Ver:

http://www.bbc.co.uk/news/world-asia-23400979

[2] Ver:

http://www.isn.ethz.ch/Digital-Library/Articles/Detail/?id=165176

[3] Ver:

http://www.isn.ethz.ch/Digital-Library/Articles/Detail/?id=165176

[4] Ver:

http://eng.chinamil.com.cn/news-channels/china-military-news/2013-07/10/content_5403881.htm  

[5] Ver:

http://www.reuters.com/article/2013/07/18/us-china-japan-idUSBRE96H05Q20130718

[6] Ver:

http://www.globaltimes.cn/content/797935.shtml#.Ue2_7Y0wcqN  

[7] Ver:

http://en.wikipedia.org/wiki/Diet_of_Japan

[8] Ver:

http://www.japantimes.co.jp/news/2013/07/22/national/abe-cements-power-with-ldps-sweeping-victory-in-upper-house-race/#.Ue28X40wcqO

[9] Ver:

http://www.globaltimes.cn/content/797935.shtml#.Ue2_7Y0wcqN

[10] Ver:

http://www.globaltimes.cn/content/798059.shtml#.Ue3LsY0wcqN

[11] Ver:

http://www.bbc.co.uk/news/world-asia-23400979

[12] Ver:

http://www.globaltimes.cn/content/797935.shtml#.Ue2_7Y0wcqN

[13] Ver:

http://www.globaltimes.cn/content/798059.shtml#.Ue3LsY0wcqN

AMÉRICA DO NORTEANÁLISES DE CONJUNTURAÁSIA

“Quinto Diálogo Estratégico e Econômico EUA-China”: ênfase à “Cooperação Bilateral” e nas “Questões Globais”

Apesar de persistirem diferenças importantes entre si, o encontro bilateral anual entre as duas maiores economias do mundo, realizado na capital dos “Estados Unidos da América” (EUA), Washington, nos dias 10 e 11 de julho, aproximou mais os dois países numa variada gama de assuntos individuais que dizem respeito a ambos, mas também sobre assuntos globais. Este forma de aproximação entre a China e os EUA formalizou-se desde que Barack Obama chegou à “Casa Branca”. As vezes se diz que eles compõem uma espécie de G2 (Grupo dos dois países mais influentes do mundo)[1]

Na realidade, esta prática já vem do tempo de George W. Bush que, em 2004, aceitou a sugestão do seu homólogo chinês, Hu Jintao, sobre a criação de um Fórum para a discussão de temas de interesse comum. É neste âmbito que entre 2005 e 2008 as duas partes haviam se reunido por seis vezes no quadro do “Diálogo dos Seniores[2]. Em 2006, os dois líderes concordaram em institucionalizarem um outro mecanismo bilateral que tratasse semestralmente de assuntos econômicos, o “Diálogo Econômico Estratégico[3], e, neste contexto, surge em 2009 o “Diálogo Estratégico e Econômico EUA-China[4].

No entanto, desentendimentos continuam a minar o relacionamento entre as duas maiores potências econômicas globais. O que cria desconfiança entre as partes inclui, por exemplo, a acusação americana de que a China propositadamente desvaloriza a sua moeda, o yuan (também conhecida por renminbi, denominação chinesa para “moeda do povo” ), para ganhar vantagem na venda de seus produtos no mercado mundial; a violação da propriedade intelectual; os ataques informáticos a instalações militares e empresas americanas; e a violação dos direitos humanos dos grupos étnicos minoritários, como os Uigures (originários da Província de Xinjiang) e os Tibetanos (originários da “Província de Tibet”) e dos opositores políticos do governo chinês, que é liderado pelo “Partido Comunista Chinês” desde a criação da “República Popular da China”, em 1949[5].

Entretanto, no encontro da semana passada os chineses foram criticados pela maneira como lidaram com o “assunto Edward Snowden” quando este se encontrava ainda no território autônomo de “Hong Kong[6].

Por sua vez, Pequim entende que Washington esteja a se imiscuir nos assuntos domésticos principalmente nos temas ligados aos direitos humanos e por adotar políticas de protecionismo às empresas americanas e dificultar a entrada de capitais chineses em áreas estratégicas. Da mesma forma, os chineses acusam os americanos de  fomentarem turbulência na região por frequentemente levarem a cabo manobras militares com os vizinhos, em especial com o Japão, as Filipinas e a “Coreia do Sul”. Também desconfia da intensificação da presença militar dos EUA na região da Ásia-Pacífico, cujo objetivo principal, entende que seja para conter a China que está num crescendo fenomenal, acompanhado de influência em áreas outrora de domínio norte-americano, como indica a recente visita de presidente Xi Jinping a três países da “América Latina” a caminho dos EUA para o primeiro encontro com Obama[7].

Os chineses também igualmente contestam veementemente a venda sistemática de armamento a Taiwan, território que os chineses consideram parte integrante do seu país e encaram a reunificação como uma questão de princípio na “China Continental”. Por esta razão, no encontro de junho passado, Xi Jinping solicitou a Obama que os “Estados Unidos” parassem de vender armas a Taiwan[8]. Em realidade, o apoio norte-americano a este território insular desde 1949 sempre foi fundamental para a sobrevivência do mesmo e é uma das principais causas do anti-americanismo no seio da população chinesa. É importante lembrar que a questão de Taiwan também esteve por detrás do estabelecimento tardio das relações China-EUA que só ocorreu em 1979, além do problema de combate americano ao comunismo no âmbito da Guerra Fria”.

As recentes revelações de Snowden sobre a espionagem estadunidense às instituições públicas chinesas embaraçaram de certa maneira as autoridades americanas que sempre acusaram a China de liderar cyberataques a interesses dos EUA. Na China, há quem sugira que isso significa a falta de sinceridade por parte dos americanos[9].  

Mas, mesmo assim, o conselheiro de Estado Yang Jiechi e o vice-primeiro-ministro Wang Yang, por parte da China, dialogaram com o secretário adjunto de estado William Burns (no lugar do secretário de estado John Kerry, ausente por questões familiares) e com secretário de fazenda Jack Lew (à frente da delegação americana) e estabeleceram oito passos que englobam uma variedade de questões bilaterais e mundiais. Os mesmos são: (1) o fortalecimento da cooperação bilateral; (2) a abordagem dos desafios regionais e globais; (3) a cooperação sub-nacional; (4) a cooperação em matéria de energia; (5) a cooperação em proteção ambiental; (6) a cooperação em ciência, tecnologia e agricultura; (7) a cooperação em saúde; e (8) os diálogos bilaterais sobre energia, meio ambiente, ciência e tecnologia[10].

Na área de fortalecimento da cooperação bilateral o destaque vai para as visitas de alto nível e, no caso das relações militares, explorarão um mecanismo de notificação sobre as principais atividades militares, privilegiando a discussão das regras de comportamento das atividades militares aéreas e navais. Igualmente, decidiu-se estabelecer uma linha direta entre os representantes especiais dos dois Presidentes com o objetivo de facilitar a comunicação, além de fazer consultas na área dos direitos humanos, contra-terrorismo e segurança marítima. Concordou-se ainda em se realizar encontros sobre a “Política de Planejamento”, a África, a “América Latina”, a “Ásia do Sul e Centralpara melhorar a coordenação e a cooperação bilateral em questões regionais e internacionais[10].

Alguns dos desafios regionais e globais incluem o dossiê “Península Coreana”. Os dois países estão de acordo que esta Península deve ser desnuclearizada de forma pacífica, como sempre defendeu o Grupo dos 6” (“Coreia do Norte”, “Coreia do Sul”, China, EUA, Rússia e Japão), para se alcançar a paz e a estabilidade. O Irã foi também discutido entre as partes. Reafirmaram a necessidade de procurar uma solução completa e de longa-duração para restaurar a confiança da comunidade internacional sobre a natureza pacífica do “Programa Nuclear do Irã”, como defende o “Tratado de Não Proliferação[10].   

A Síria também constou do debate anual. As duas delegações dão importância à “Conferência de Genebra sobre a Síria” e ambas tentarão naquela Conferência, através de meios políticos, resolver a crise apoiando uma transição política pacífica, liderada pelo povo sírio, que estabelecerá um organismo de governo de transição com poderes executivos. Washington e Pequim não deixaram de expressar preocupação sobre a atual situação humanitária e clamaram por medidas para aliviar o sofrimento dos sírios[10].     

A estabilização política e a revitalização econômica do Afeganistão têm apoio das duas potências, em especial num momento que se está na fase decrescente da retirada militar naquele país, em 2014. Por isso, os dois grandes, desde 2012, providenciam apoio conjunto na formação de funcionários do “Ministério das Relações Externas do Afeganistão” e decidiram fazer esforços conjuntos para ajudar na área de saúde[10].

A situação da tensão entre os vizinhos Sudão e “Sudão do Sul” foi debatida. Houve a reafirmação do apelo à paz ao nível doméstico e entre ambos países, bem como um diálogo produtivo entre os dois Estados em todas as questões bilaterais, incluindo a implementação das Resoluções do “Conselho de Segurança das Nações Unidas” (CSNU) e Acordos entre as partes[10].  

Outros temas de domínio regional e mundial que colhem consenso entre a China e os “Estados Unidos” incluem a manutenção da Paz, a cooperação para o desenvolvimento, o diálogo sobre o desenvolvimento global, o diálogo sobre o “Oriente Médio”, sobre a Ásia-Pacífico e a “Cooperação Anti-Malária[10].

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Imagem (Fonte):

http://english.cntv.cn/20130712/104365.shtml

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Fontes consultadas:

[1] Ver:

http://en.wikipedia.org/wiki/Group_of_Two

[2] Ver:

http://en.wikipedia.org/wiki/Senior_Dialogue

[3] Ver:

http://en.wikipedia.org/wiki/Strategic_Economic_Dialogue

[4] Ver:

http://en.wikipedia.org/wiki/U.S.%E2%80%93China_Strategic_and_Economic_Dialogue 

[5] Ver:

http://news.yahoo.com/factbox-key-issues-annual-u-china-strategic-economic-003319832.html

[6] Ver:

http://www.scmp.com/news/world/article/1280772/william-burns-says-us-disappointed-chinas-handling-edward-snowden

[7] Ver:

http://freebeacon.com/counter-pivot/

[8] Ver:

http://www.taipeitimes.com/News/front/archives/2013/06/10/2003564416

[9] Ver:

http://www.globaltimes.cn/content/795319.shtml#.UeVw-40wcqN

[10] Ver:

http://www.fmcoprc.gov.hk/eng/xwdt/wsyw/t1058543.htm 

 

ANÁLISES DE CONJUNTURAÁSIA

Resposta do Governo chinês à recente onda de violência em Xinjiang

Na semana retrasada, a “Região Autônoma Uigur de Xinjiang” voltou a ser sacudida por uma onda de violência levada a cabo por alguns membros do grupo étnico local (conhecido por Uigur*) que, segundo dados oficiais, resultou em 35 mortes e destruição de bens públicos (principalmente esquadras policiais). Os ataques ocorreram em duas cidades próximas da capital da Província, na quarta-feira (dia 26) e sexta-feira (28)[1].

Esta foi a terceira vez no ano de 2013. As outras ocorreram em fevereiro e abril com saldo de dezenas de pessoas assassinadas e alguns atacantes abatidos pelas forças de segurança. Os analistas apontam que os recentes ataques étnicos têm uma particularidade simbólica, pois ocorreram nas vésperas da data de 5 de julho, quando, em 2009, aconteceu a eclosão da maior violência dos últimos anos entre as comunidades Uigur e Han** na capital da província, Urumqi, quando197 pessoas perderam a vida, a maioria da etnia Han[2].

Entretanto, a China se opõe ao “Ocidente” sobre as causas que quase que ciclicamente originam cenas de ataques sangrentos nas ruas de “Xinjiang”, que é a maior província da China, com cerca de 20 milhões de habitantes, sendo 9 milhões da etnia Uigur, ressaltando-se  que o número dos Han vem crescendo há décadas[3].

Enquanto que para o governo dos “Estados Unidos da América” e para a “mídia ocidental” questões ligadas à limitação da liberdade religiosa, ao desrespeito à cultura dos Uigures e à exclusão de benefícios econômicos em favor dos Han fomentam ressentimento dos primeiros que se degeneram em violência com uso de armas brancas contra os segundos, com destaque para facas de tamanho maior. Igualmente, a mobilização de um forte contingente das forças de segurança e de defesa para patrulhar as ruas das cidades “problemáticas”, restaurar a ordem e a tranquilidade públicas, bem como a caça e a prisão de suspeitos constituem um motivo adicional de críticas por parte dos países ocidentais que acusam a China de “uso excessivo da força[4].   

Mesmo reconhecendo que há muito ainda por se fazer no que diz respeito à “estabilidade social” e à “manutenção da estabilidade” naquela região autônoma[5] ao mesmo tempo que reitera que respeita os direitos étnicos de toda população do país, o governo de Pequim defende-se afirmando que o que origina a instabilidade se resume nas “três forças do mal” também chamadas de “três ameaças principais” com ligações internas e externas: “terrorismo, separatismo e extremismo[6].

De acordo com as autoridades chinesas, alguns dos protagonistas da violência em “Xinjiang” são clandestinos formados militar e ideologicamente na Turquia, sem o conhecimento do governo local. Crê-se que desde o início do ano de 2013, cerca de 100 chineses da etnia Uigur teriam se juntado aos rebeldes que estão a lutar contra o governo da Síria[7]. Por isso, na quinta-feira passada (4 de julho) já se noticiava localmente que os governos da China e Turquia haviam concordado em intensificar a luta contra o terrorismo em ambos países, em particular na conturbada província chinesa de “Xinjiang[8].

Mas a China havia antes condenado o “Ocidente” por usar “um peso e duas medidas” quando reage à sua forma firme e dura para repor a ordem nas zonas afetadas. Contudo, Pequim clama por uma maior colaboração internacional no combate ao terrorismo que desde 11 de Setembro de 2001 é uma ameaça global, no lugar dos outros países se imiscuírem nos assuntos internos da China[9]

De igual modo, a luta contra o terrorismo consta das prioridades da SCO (sigla inglesa para a “Organização de Cooperação de Xangai”, composta por seis países: Cazaquistão, China, Quirguistão, Rússia, Tajiquistão e Uzbequistão), tanto que em 2009 foi a mesma entidade quem aprovou uma convenção contra terrorismo[10]

É importante referir que a informação alternativa a partir daquela região continua controlada e jornalistas estrangeiros são aconselhados a evitarem escalar a Província por questões de segurança dos mesmos. Daí que o mundo fora informado a partir de fontes oficiais e de relatos vinculados por grupos independentistas de Uigures no exterior, como o “Movimento Islâmico do Turquistão Oriental”, a “Associação de Solidariedade e Educação de Turquistão Oriental”, o “Congresso Mundial de Uigures” e organizações estrangeiras dos “Direitos Humanos[11].

Doutro lado, o governo chinês usa momentos como estes para reforçar ainda mais o controle da internet. Normalmente censura-se a informação, eliminam-se as discussões online sobre temas relacionados com alguns problemas sócio-políticos recém-acontecidos e também bloqueiam-se alguns sites estrangeiros cujas notícias considera-se nefasta à sociedade. 

Por exemplo, em março de 2008, para evitar a abundância no Youtube de vídeos de reportagens noticiosas estrangeiras (“Ocidentais”) e imagens fotográficas sobre os acontecimentos de uma manifestação no “Tibet”, o governo da China baniu momentaneamente ou limitou o acesso no território nacional deste sítio de compartilhamento de vídeos. Mas o bloqueio definitivo de Youtube só aconteceu um ano depois (março de 2009) após o “Governo Tibetano no Exílio” postar um vídeo em que supostamente a polícia agredia um jovem quando dos protestos do ano anterior. Por sua vez, a China disse ter sido uma pura fabricação para enganar a opinião pública internacional[12].

Nesses tipos de casos o governo da China tem recorrido a uma série de medidas. Além de incrementarem o controle policial no terreno dos acontecimentos, os departamentos relevantes do “Partido Comunista da China” e Ministérios do governo central igualmente se esforçam em garantir que na internet, em especial no Twitter chinês, o Weibo, não abundem discussões sobre “assuntos negativos”, por exemplo, palavras ligadas ao nome de local onde ocorre um incidente são bloqueadas na internet[13].

Pode-se imaginar que as autoridades chinesas pretendem garantir um ambiente de estabilidade ao nível nacional. No entanto, é muito provável eclodir a violência contra outras minorias étnicas noutras cidades chinesas, levadas a cabo pela maioria Han, como forma de retaliação aos ataques que muitas vezes visam este grupo majoritário em “Xinjiang” e “Tibet”. 

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* Com afinidades linguísticas com os turcos.

** Que corresponde a cerca de 92% da população chinesa, enquanto que as outras 55 etnias perfazem a remanescente percentagem.

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Imagem (Fonte):

http://images.echinacities.com/detail/8829-After-the-Attack-Shots-of-Xinjiang-Streets/3#img_pos

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Fontes consultadas:

[1] Ver:

http://www.nytimes.com/2013/07/01/world/asia/china-blames-religious-extremists-for-violence-in-xinjiang.html?_r=0

[2] Ver:

http://www.chinadaily.com.cn/china/2012-03/06/content_14766900.htm

[3] Ver:

http://www.globaltimes.cn/content/792653.shtml#.UdXRt_kwcqP

[4] Ver:

http://www.chinadaily.com.cn/china/2013-06/28/content_16685197.htm

[5] Ver:

http://blogs.wsj.com/chinarealtime/2013/07/02/in-wake-of-xinjiang-violence-hints-of-a-new-approach/

[6] Ver:

http://english.peopledaily.com.cn/90785/8307876.html

[7] Ver:

http://www.globaltimes.cn/content/792959.shtml#.UdWt73jFscx

[8] Ver:

http://www.china.org.cn/world/2013-07/04/content_29318745.htm

[9] Ver:

http://www.chinadaily.com.cn/opinion/2013-06/28/content_16677456.htm

[10] Ver:

http://www.fidh.org/The-Convention-Against-Terrorism

[11] Ver:

http://www.dailytimes.com.pk/default.asp?page=2013\07\01\story_1-7-2013_pg14_1

[12] Ver:

http://www.guardian.co.uk/world/2009/mar/25/china-blocks-youtube

[13] Ver:

http://chinadigitaltimes.net/2013/06/ministry-of-truth-xinjiang-violence/

ÁFRICANOTAS ANALÍTICASPOLÍTICA INTERNACIONAL

Obama busca aproximação com a África

No dia 1º de julho de 2013, o Presidente norte-americano, Barack Obama, em viagem pelo continente africano, visitou, dentre vários países, a Tanzânia e lá buscou construir uma nova parceria econômica, não apenas com aquele país, mas com a região africana como um todo.

Observadores afirmam que, dentre os vários motivos impulsionadores da iniciativa do referido “Chefe de Estado” deve-se, principalmente, para fins de estabelecer concorrência com a China, a qual tem investido maciçamente no continente em anos recentes. Tal afirmação pode ser corroborada pelo fato de Obama estar “estreitando laços” com a região apenas três meses após o “tour realizado por Xi Jinping (o Presidente Chinês).

Durante o percurso por alguns países, o Mandatário estadunidense asseverou “que seu país não foi ameaçado pelo papel da China, mas disse aos africanos para se certificarem de que todos os investidores estejam retribuindo à África, além de consumirem suas matérias-primas[1].

E, de modo a efetivamente aproximar-se mais do continente, Obama anunciará no dia 30 de julho, na África do Sul, um plano de apoio à região no montante de US$ 7 bilhões, com o principal fito de auxílio no setor elétrico, notadamente para o espaço da África Subsaariana, onde dados apontam que mais de dois terços da população vivem sem acesso à luz. A medida recebeu o nome de “Power África e envolve Etiópia, Gana, Quênia, Libéria, Nigéria e Tanzânia, sendo que os recursos serão aplicados no prazo de cinco anos.

Especificamente com a Tanzânia, o Presidente norte-americano lançou um projeto denominado “Comércio na África, cujo objetivo inicial é focar um bloco comercial do leste africano que possui uma população total estimada em 130 milhões de pessoas, ou seja, milhões de potenciais consumidores de produtos exportados pelos Estados Unidos.

O Representante do país, Jakaya Kikwete, por sua vez, brincou dizendo que estava satisfeito com o apoio dos EUA, mas relutante em afirmar que “Os EUA estão fazendo o suficiente? Os EUA têm feito muito. Mas se eu disser que eles têm feito o suficiente, então o presidente não vai ouvir os meus novos pedidos[1].

Isso mostra o que diversos estudiosos e observadores têm afirmado ao longo dos últimos anos no sentido de que o continente africano é o novo “El Dorado”, tão perseguido na antiguidade pela existência de supostas riquezas, como decorrência de lendas indígenas contadas a diversos exploradores, principalmente espanhóis.

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Imagem (Fonte):

http://www.kinocinema.net/gimage/de47a5b1a36529518836113896b7417c.jpg

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Fontes consultadas:

[1] Ver:

http://noticias.terra.com.br/mundo/obama-busca-parceria-economica-com-africa-em-visita-a-tanzania,2dc9beee69b9f310VgnCLD2000000ec6eb0aRCRD.html  

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Ver também:

http://www.jb.com.br/internacional/noticias/2013/06/30/obama-prepara-anuncio-da-liberacao-de-us-7-bilhoes-para-a-africa/

 

ANÁLISES DE CONJUNTURAÁSIA

A China lança a quinta “Missão Espacial Tripulada”

Na tarde da terça-feira (dia 11) da semana passada, toda China e o mundo testemunharam o lançamento da Nave “Shenzhou X” (em português: “Obra Divina”/“Navio Divino”/“Barco Mágico” ou “Estado Divino”, um dos nomes da China da Antiguidade) transportada no foguete “Longa Marcha 2F”. O gigante asiático mandava à órbita a sua 5ª missão tripulada*. Composta por 3 astronautas, dentre eles uma mulher, a tripulação ficará ainda 15 dias no ainda em construção “Laboratório Espacial Tiangong-1 (“Palácio Celestial”), lançado em 2011[1].

Este acontecimento tem lugar cerca de um mês depois do “Departamento de Defesa dos Estados Unidos (EUA)” apresentar ao Congresso o13° Relatório” (desde 2000) sobre o Desenvolvimento na área Militar e Segurança da China”. No documento declara-se, pela primeira vez, que a China já constitui um rival militar dos EUA e cuja melhoria rápida no capítulo espacial permitiria a este país que limite ou impeça os seus adversários utilizarem elementos espaciais numa eventual crise ou conflito[2]. Mas a China sempre reiterou que o objetivo do seu Programa Espacialé pacífico, já que o mesmo visa fins científicos e de melhoria da vida dos seres humanos.   

O presidente chinês Xi Jinping testemunhou o evento no “Centro de Lançamento de Satélites de Jiuquan” (na “Província da Mongólia do Interior”) enquanto que o premiê Li Keqiang assistia ao vivo a partir do “Centro de Comando e Controle Aeroespacial de Pequim”. O presidente Xi antes dissera aos astronautas que eles levavam “o sonho espacial da nação e representam as aspirações nobres do povo chinês de explorar o espaço. (…). Desejo-vos (se despedia) sucesso e estou ansioso por vosso retorno triunfal[3].  Depois, o líder chinês conferenciou com os trabalhadores do “Centro de Jiuquan” e disse-lhes que o objetivo era de fazer da China uma potência mundial na pesquisa espacial[4].

Basicamente, os três cientistas chineses se ocuparão de quarto tarefas:  (1) “oferecer recursos pessoal e material para o Tiangongtestar a tecnologia de acoplagem e a capacidade do sistema de transporte ao espaço”; (2) “avaliar a capacidade do Complexo Espacial para garantia da vida, trabalho e saúde de astronautas e a execução de missão dos tripulantes”; (3) “fazer pesquisa sobre a adaptação dos astronautas ao ambiente espacial e a eficiência das manobras espaciais, desenvolvimento de experimentos científicos espaciais e de reparação em órbita dos módulos, além de se ministrar aulas espaciais ao público na terra”; e (4) “avaliar a coordenação de função e sistemas[5].

O “Programa Espacial da Chinaprevê que por volta de 2020 o país possa já ter a sua própria estação espacial mas só depois de se estabelecer um laboratório espacial em 2015. O custo total das missões tripuladas ronda nos 6,27 bilhões de dólares. É interessante notar que, de acordo com um astrofísico norte-americano, o que a China investe neste setor é muito baixo, mas com resultados impressionantes[6]. O desenvolvimento do “Programa Espacial Nacionaljá vem desde a década de 1950 no quadro da Guerra Fria mas só foi nos últimos 20 anos que a China observou avanços assinaláveis e, hoje, é o terceiro país no mundo com missões no espaço, depois dos EUA e da Rússia[7].

O “Programa Espacial Chinês” conta com Universidades, “Cidades Espaciais”, “Centros de Lançamento de Satélites”, “Centros de Monitoramento e Controle”, “Estações de Monitoramento Nacionais”, “Estações de Monitoramento no Estrangeiro” (no Paquistão, Quênia e Namíbia) e também “Estações de Monitoramento Compartilhado” (com a Austrália, Brasil, França e Suécia). Desde 1999 até ao presente o país já lançou ao espaço com sucesso 11 missões tripuladas e não tripuladas. As tripuladas ocorreram nos anos de 2003, 2005, 2008, 2012 e 2013[8].

A título comercial, fazendo uso das suas instalações espaciais e tecnologia, a China lançou em 2012 um satélite da Venezuela de observação da terra; o satélite de telecomunicações Europeia e o satélite da Turquia para a observação ambiental, exploração de recursos minerais, planejamento urbano, monitoramento e gestão de desastres[9].

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* A 1ª ocorreu em 2003.

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Imagem (Fonte):

http://www.chinadaily.com.cn/china/2013shenzhoux/2013-06/11/content_16607553.htm

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[1] Ver:

http://news.xinhuanet.com/english/china/2013-06/12/c_132449851.htm

[2] Ver:

http://www.defense.gov/pubs/2013_China_Report_FINAL.pdf

[3] Ver:

http://news.xinhuanet.com/english/china/2013-06/12/c_132449851.htm

[4] Ver:

http://portuguese.cri.cn/1721/2013/06/12/1s168062.htm

[5] Ver:

http://portuguese.cri.cn/1721/2013/06/10/1s168037.htm  

[6] Ver:

http://www.globaltimes.cn/content/789320.shtml#.UcGa6PkwdHH

[7] Ver:

http://au.ibtimes.com/articles/477040/20130611/china-space-mission-shenzhou-10.htm#.UcGu3vkwdHH

[8] Ver:

http://en.wikipedia.org/wiki/Chinese_space_program

[9] Ver:

http://phys.org/news/2012-12-china-turkish-satellite.html

       

ÁFRICAANÁLISES DE CONJUNTURA

A “Diplomacia Moçambicana” na Região Austral da África

Ao longo da sua história, Moçambique sempre jogou um papel de destaque naÁfrica Austral”, mas não apenas nessa região. Mesmo antes da proclamação da independência nacional de Moçambique, em 1975, enquanto combatia o colonialismo português, a “Frente de Libertação de Moçambique” (Frelimo) se preocupava também em apoiar outros movimentos de libertação nacional, como há dias lembrou presidente Armando Guebuza, no decurso proferido na “21ª Cimeira da União Africana”, realizada em “Adis Abeba”, Etiópia, que coincidiu com celebração dos 50 anos da criação da já extinta “Organização da Unidade Africana” (25 de Maio é considerado o dia da África)[1].   

O ativismo moçambicano no plano internacional constantemente tem sido caracterizado pela necessidade de combater o colonialismo, o imperialismo, o neo-colonialismo, a injustiça, a pobreza, a defesa dos direitos humanos, a auto-resiliência, o apoio mútuo, a promoção da união entre os povos oprimidos, o respeito mútuo e a não interferência externa. Nesse âmbito, o “Governo de Maputo” (Moçambique) consentiu enormes sacrifícios a bem da libertação do Zimbábue e “África do Sul”, por albergar bases militares no seu território, com perdas de vidas humanas e avultadas somas em divisas[2].

Observadores apontam inclusive que o conflito armado interno devastador que durou 16 anos (1976-1992) foi despertado em parte como consequência do internacionalismo de Moçambique. Ilustrativamente, o governo moçambicano, ao implementar em 1976 a “Resolução da ONU” (“Organização das Nações Unidas”), que apelava para um maior isolamento do regime racista da “Rodésia do Sul”, encerrou a fronteira com este território, perdendo cerca de 556 milhões de dólares até 1979; permitiu que os serviços de informação e militares rodesianos conseguissem unir e armar os elementos moçambicanos que não estavam de acordo com o novo governo liderado pela Frelimo e estavam congregados na “Resistência Nacional de Moçambique” (Renamo), hoje, o maior partido de oposição do país. Mas também é necessário compreender a guerra civil moçambicana no contexto da “Guerra Fria” e facilmente pode-se ligar o fim do conflito ideológico de período com o fim da guerra em Moçambique[3].

Similarmente, a assistência moçambicana aos nacionalistas sul-africanos do “Congresso Nacional Africano” (CNA) que lutavam pelo fim do regime do Apartheid da “África do Sul”, levou o governo minoritário branco desse país a atacar alvos sócio-econômicos e a matar pessoas indefesas em Moçambique (atos violentos similares eram levados a cabo noutros países vizinhos), ao mesmo tempo em que treinava e armava os rebeldes da Renamo, depois da independência do Zimbábue.

É face a esta crescente ameaça que Maputo viu-se obrigado a negociar com Pretória com o objetivo de manter uma boa vizinhança entre os dois Estados. O resultado foi a assinatura do “Acordo de Incomáti”, em 1984, no qual o Governo moçambicano se comprometia a parar o apoio ao CNA, enquanto que o governo sul-africano garantia que cortaria a ajuda à Renamo. No entanto, houve mais dificuldades por parte da “África do Sul” em cumprir com a sua promessa e, ao inverso do esperado, os rebeldes da Renamo se tornaram mais violentos depois deste Acordo[4].

Decorridas duas décadas após o fim da guerra interna, o papel de Moçambique na pacificação da África tem continuado. Como forma de retribuir ao papel desempenhado por outros países da região e não só os que receberam moçambicanos forçados a abandonarem o país para lugares seguros, o Governo criou no território nacional um centro de refugiados na “Província Nortenha de Nampula”, em coordenação com a “Agência da ONU para Refugiados” (ACNUR), que acolhe cidadãos africanos que fogem dos seus países devido aos conflitos armados e perseguições políticas[5]. Parte destes asilados já está se inserindo na sociedade moçambicana e se destaca no setor comercial de produtos da primeira necessidade em várias cidades ao longo do país.

Chegada a vez da “República de Moçambique” liderar simultaneamente a SADC (sigla em inglês para a “Comunidade de Desenvolvimento da África Austral”), entre 2012 e 2013, e a CPLP (“Comunidade dos Países da Língua Portuguesa”), de 2012 a 2014, a diplomacia de Moçambique se destaca ainda mais na região e no mundo. Mas, o que ainda torna visível a sua imagem internacionalmente é o fato das duas organizações serem igualmente lideradas por moçambicanos: Tomaz Salomão, que ocupa o cargo de “Secretário Executivo da SADC”, desde 2005; e Murade Murargy, eleito “Secretário Executivo da CPLP” na Cimeira da Organização em Maputo, em julho de 2012.

De igual modo, o antigo “Presidente de Moçambique”, Joaquim Chissano (1986-2005), também tem se empenhado em nome do seu país na busca do consenso político para a crise no Madagáscar e recentemente foi nomeado pela SADC para mediar o conflito territorial entre o Malaui e a Tanzânia sobre as fronteiras do “Lago Malaui[6]. No mesmo espírito, em 2006, Chissano foi nomeado para o cargo de “Representante Especial da ONU no Norte do Uganda[7]. O carisma de Chissano, tido como um dos excelentes presidentes do continente, engrandece a imagem de Moçambique mundialmente. Na verdade, o mundo ainda se rende aos moçambicanos por terem conseguido negociar e acabar com o conflito armado e também por terem levado a cabo um processo de pacificação interna com sucesso.

President of Mozambique, Armando Emílio Guebuz...President of Mozambique, Armando Emílio Guebuz...

President of Mozambique, Armando Emílio Guebuza, November 29, 2006. (Photo credit: Wikipedia)

Além disso, o sucessor de Chissano, Armando Guebuza, também está fazendo todo o possível para o aumentar o prestígio do seu país no mundo, através do seu maior empenho na busca da paz para a “República Democrática do Congo” (RDC), país membro da SADC. Na realidade, é durante a presidência moçambicana na SADC que se observa uma maior movimentação do Bloco regional com vistas à solução da crise político-militar congolesa que se prolonga há 15 anos[8]. Por isso, além de presidir encontros sobre a RDC, Guebuza já se deslocou à região dos “Grandes Lagos” e manteve encontros com os líderes locais, principalmente com o “Presidente de Ruanda”, Paul Kagamé, acusado pela comunidade internacional de apoiar os rebeldes congoleses do M23[9]. Enfatizando-se o papel da SADC na solução do problema congolês, as “Nações Unidas” convidaram Armando Guebuza, para ser um dos onze signatários do PSCFDRCR (abreviatura inglesa para “Quadro para a Paz, Segurança, e Cooperação para a República Democrática do Congo e para a Região dos Grandes Lagos”), em fevereiro do corrente ano, 2013[10].

A preocupação em manter um relacionamento de boa vizinhança levou o líder de Moçambique a estender a sua mão à nova líder do Malaui, Joyce Banda, poucos dias depois dela tomar posse após a morte súbita do anterior Presidente, Bingu Wa Mutharika, em abril de 2012. As relações entre os dois países as vezes foram tensas durante a Presidência de Wa Mutharika, em parte devido ao plano do líder malauiano em forçar a navegabilidade dos rios Chire e Zambeze (ambos correm no território moçambicano), no lugar de usar as vias rodoviárias e portuárias de Moçambique para importar e exportar os seus produtos, além de se ter recusado a comprar a energia hidrelétrica de Moçambique, mesmo que isso custasse mais ao seu país[11].

Por essa razão, compreendendo a importância do vizinho para a revitalização da economia do Malaui, a presidente Banda respondeu positivamente ao apelo do presidente Guebuza. Não é por acaso que ela escalou Moçambique na sua primeira visita ao estrangeiro, cerca de um mês depois de chegar ao poder, e Guebuza fez o mesmo neste ano, quando efetuou uma visita de estado ao Malaui[12]. Importante referir que os setores dos transportes e energia constituem os principais focos de discussões entre as partes desde que Banda se tornou Presidente. 

Há ainda que salientar que a diplomacia moçambicana também se tem destacado nos esforços regionais para a estabilização política no Zimbabué. A preocupação dos diplomatas de Maputo é compreensível, a crise política e econômica que aflige este país vizinho tem causado transtornos enormes a Moçambique, principalmente ao nível da economia, pois com um Zimbábue estável, os serviços de transportes ferro-portuários moçambicanos saem a ganhar, principalmente depois da sua recente modernização. 

Pode-se concluir que, apesar das limitações financeiras, Moçambique tem jogado um papel de destaque na região onde, tradicionalmente, países como “África do Sul”, Angola, Tanzânia, Zâmbia se apresentam para fazer vincular a sua influência e prestígio.

As avaliações de Analistas confluem para a posição de que numa altura na qual Moçambique se vai tornando um dos principais destinos de investimentos estrangeiros, principalmente na área de extração de recursos minerais e energéticos, os líderes do país devem ser capazes de capitalizar isso para elevar ainda mais o prestígio moçambicano não só na “África Austral”, mas igualmente no mundo, ao mesmo tempo que deve contribuir para o bem-estar de todos os moçambicanos .

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Imagem (Fonte):

http://www.nyasatimes.com/2013/04/03/mozambiques-guebuza-in-malawi-to-sign-power-interconnection-project-agreement/

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[1] Ver:

http://www.rm.co.mz/index.php?option=com_content&view=article&id=9594:africa-vai-vencer-guebuza-na-etiopia&catid=1:ultimas&Itemid=50

[2] Ver:

http://www.mozambique.mz/pdf/constituicao.pdf

[3] Ver:

http://www.flcs.uem.mz/files/chistoria/jTembeCdeM2011.pdf

[4] Ver:

http://en.wikipedia.org/wiki/Nkomati_Accord

[5] Ver:

http://www.mynetpress.com/mailsystem/noticia.asp?ref4=4%23k&ID=%7BB259F7D1-287F-4A84-A31C-B4CA258586CE%7D

[6] Ver:

http://www.amalawi.info/index.php/2013/02/19/mbeki-chissano-and-mogae-to-mediate-in-lake-malawi-tanzania-dispute/

[7] Ver:

http://www.un.org/apps/news/story.asp?NewsID=20835&Cr=LRA&Cr1#.UafHckAwdwE

[8] Ver:

http://www.minec.gov.mz/index.php?option=com_content&task=view&id=619&Itemid=140

[9] Ver:

http://www.rm.co.mz/index.php?option=com_content&view=article&id=4089:guebuza-no-ruanda-para-discutir-congo&catid=1:ultimas&Itemid=50

[10] Ver:

http://noticias.sapo.mz/aim/artigo/697923022013141437.html

[11] Ver:

http://www.opais.co.mz/index.php/politica/63-politica/10446-zambeze-um-rio-de-problemas-e-incidentes-diplomaticos.html

[12] Ver:

http://noticias.sapo.mz/aim/artigo/473611052012110340.html

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Ver também:

http://www.oplop.uff.br/boletim/2244/sadc-reunida-em-mocambique-para-analisar-conflito-no-congo

Ver também:

http://www.clubofmozambique.com/solutions1/sectionnews.php?secao=mozambique&id=28156&tipo=one

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