ANÁLISE - Sociedade InternacionalANÁLISES DE CONJUNTURAEUROPA

[:pt]O Elogio da Velhice, pelo Papa, no Dia de Seu 80.º Aniversário[:]

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No passado dia 17 de dezembro o Papa Francisco celebrou seu 80.º aniversário. Associado às comemorações do líder da Igreja Católica, o Vaticano disponibilizou uma conta de e-mail e uma hashtag para felicitar Francisco[1]. O primeiro ato de seu dia festivo teve lugar durante o café da manhã, servido na Casa Santa Marta, no Vaticano, para o qual convidou um grupo de oito pessoas sem abrigo, que dormiam nas proximidades da Praça de São Pedro, para se juntar a ele. Durante a refeição matutina Francisco recebeu um telefonema de felicitações do Presidente dos EUA, Barack Obama. Em seguida, às 8 horas da manhã, o Sumo Pontífice presidiu a uma concelebração litúrgica, na Capela Paulina, no Vaticano, com os Cardeais residentes em Roma. Cumprindo a rotina de um dia normal, Francisco recebeu em audiência o Presidente da República de Malta, o Prefeito da Congregação para os Bispos, o Bispo de Chur, na Suíça, e a Comunidade de Nomadelfia, fundada por Frei  Zeno Saltini. Mais tarde, às 17 horas, o Papa se conectou, via Skype, à Prisão dos Palácios, em Veneza, a convite do Capelão, o Padre Marco Pozza[2].

Em pleno Advento, a partir de sua condição pessoal, Francisco se dirigiu aos 60 Cardeais, com idades aproximadas à sua, presentes na Capela Paulina para refletir acerca da dignidade da velhice e, também, do humor que é necessário para se enfrentarem as diferentes fases e situações vitais. Tendo recebido felicitações desde quarta-feira, dia 14 de dezembro, o Papa comentou: “Na minha terra, parabenizar antes da hora dá azar, e quem dá parabéns antecipado é pé-frio”. Por outro lado, na saudação proferida no final da missa, ele disse: “Vem-me à mente aquele poema… acho de Plínio: ‘Tacito pede lapsa vetustas’ [Ovídio]: chegará a velhice recurvada com passo silencioso. É assustador! Mas quando a consideramos como uma etapa da vida que serve para proporcionar alegria, sabedoria, esperança, começamos a viver”.

Para Francisco, a traditio é a base da revolutio. Com efeito, só sabendo quem fomos poderemos saber quem iremos ser. Esta máxima é válida para cada um de nós. Isto é válido para a família a que pertencemos, como o é para o país que nos viu nascer. Tradição, de tradere, equivale a “entrega”, é aquilo que se passa de um a outro, trans, um conceito que é irmão dos de transmissão e de transladação. Não pode ter esperança quem não tem recordações: é o caminho percorrido que nos dá forças para completar o que falta. Podemos, contudo, rejeitar a herança; podemos aceitá-la, criticando-a; podemos, ainda, aceitá-la sem qualquer tipo de crítica. Não defendemos, contudo, que os povos sejam tábuas rasas que, sem memória de nada, criem tudo a cada momento do seu existir. De acordo com Francisco, “é próprio do amor o facto de não esquecer; é próprio do amor ter sempre sob o olhar o muito, o muito bem que recebemos; é próprio do amor olhar para a história: de onde viemos, os nossos pais, os nossos antepassados, o caminho da fé…”. Assim, assinalou o Papa, “esta memória faz-nos bem, porque torna ainda mais intensa esta expetativa vigilante do Natal. Um dia calmo. A memória que remonta ao início da eleição do povo: ‘Jesus Cristo, Filho de David, Filho de Abraão’ (Mt 1, 1)”.

Tal como o Vigário de Cristo confidenciou aos presentes na missa do dia 17, “desde há alguns dias vem-me à mente uma palavra, que parece feia: a velhice. Assusta, pelo menos, assusta… Também ontem, para me oferecer um dom, monsenhor Cavalieri ofereceu-me o De Senectute de Cícero — uma gota a mais… Recordo o que vos disse a 15 de março [de 2013], no nosso primeiro encontro: ‘A velhice é a sede da sabedoria’. Esperemos que também para mim seja isto. Esperemos que seja assim!”. Após ter citado um verso de Hölderlin, “Es ist ruhig, das Alter, und fromm” – “a velhice é tranquila e religiosa”, Francisco pediu: “Rezai para que a minha seja assim: tranquila, religiosa e fecunda. E também jubilosa”.

Se o Papa Francisco, à semelhança de seus antecessores, tem defendido a vida em sua integralidade, o certo é que atualmente, altura em que se entende o ser humano a partir da dimensão hedonista, transferiram-se para o domínio público as dimensões fundamentais da existência humana: hoje, cada vez mais seres humanos nascem e morrem em hospitais. Paradoxalmente, nesta época em que se cultuam os aspectos lúdicos subjacentes a cada um de nós, se avaliam os seres humanos pelas capacidades aquisitivas que demonstram e não pelo valor ontológico que têm. Em contrapartida, o Sumo Pontífice, defendendo os valores de sempre, e não o relativismo neoliberal deste tempo, vê na velhice a fonte de sabedoria, tal como os gregos, os romanos e grande parte da História do Ocidente o fizeram. Francisco não descarta os idosos nem qualquer outra pessoa, qualquer que seja a faixa etária em que se encontram. Afinal de contas, tal como Cícero sublinhou[3] certeiramente, e Francisco corroborou, em nossos dias, a velhice é a idade da sabedoria.

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Imagem 1Jorge Mario Bergoglio, o Papa Francisco, enquanto Arcebispo e Cardeal de Buenos Aires (2008)” (Fonte):

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/5/5a/Conf%C3%A9rence_18_juin_2008_par_le_cardinal_Bergoglio_-9.jpg

Imagem 2Domus Sanctae Marthae” / “Casa Santa Marta” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Casa_de_Santa_Marta

Imagem 3Vista da Praça de São Pedro do topo da Cúpula de Michelangelo” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Vaticano

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Notas e Fontes consultadas, para maiores esclarecimentos:

[1] Ver:

email: [email protected]

hashtag: #pontifex80

[2] Acerca da relação especial que mantém com aqueles que se encontram privados da liberdade, Francisco escreveu: “Tenho um afeto especial pelos que vivem na prisão, privados da liberdade. Sempre fui muito apegado a eles, por esta consciência do meu ser pecador. Cada vez que entro numa prisão para celebração ou para uma visita, sempre me vem este pensamento: por que eles e não eu? Devia estar aqui, merecia estar aqui. A sua queda poderia ser a minha, não me sinto melhor do que aqueles que tenho diante de mim. Assim me encontro a repetir e a rezar: por que eles e não eu? Isso pode escandalizar, mas consolo-me com Pedro que negou Jesus e apesar disso foi escolhido.”, FRANCISCO, O Nome de Deus é Misericórdia. Uma Conversa com Andrea Tornielli, São Paulo, Planeta do Brasil, 2016, trad. do italiano por Catarina Mourão, pág. 76.

[3] CÍCERO, A Velhice Saudável, in (Apresentação de Luiz Feracine), A Velhice Saudável. O Sonho de Cipião, São Paulo, Editora Escala, 2006, trad. do latim por Luiz Feracine, págs. 21-77.

A versão online de “De Senectute”, em latim, pode ser consultada em:

http://www.thelatinlibrary.com/cicero/senectute.shtml

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ANÁLISE - Sociedade InternacionalANÁLISES DE CONJUNTURACooperação Internacional

[:pt]A Despedida Ecumênica das Vítimas da Associação Chapecoense de Futebol[:]

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Na noite do dia 28 de novembro, o avião da LaMia – Línea Aérea Merideña Internacional de Aviación –, um BAe 146 Avro RJ-85 que transportava a equipe de futebol da Associação Chapecoense de Futebol, de Santa Catarina (Brasil), técnicos do clube e jornalistas que iriam fazer a cobertura do primeiro jogo da final da Copa Sul-Americana, despenhou-se em Cerro Gordo, uma área montanhosa e de difícil acesso, na Colômbia, poucos minutos antes de aterrar no Aeroporto Internacional José María Córdova, em Rio Negro, Medellín, numa viagem que teve início em Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia. Dos 77 ocupantes do voo CP-2933, houve 6 sobreviventes: 4 passageiros e 2 tripulantes. A tragédia que envolveu a equipe de Chapecó e seus acompanhantes ultrapassou, em muito, a dimensão esportiva do acontecimento. Por outro lado, as causas do acidente – provável erro humano, do Comandante da aeronave[1] e do pessoal de terra[2] – contribuíram, em muito, para tornar absurdo um episódio triste que decisões prudenciais teriam evitado.

A exaltação da memória dos falecidos e a solidariedade em torno dos familiares dos vitimados foram duas constantes nas homenagens que tiveram lugar. Nos eventos realizados, ao longo da semana seguinte, várias confissões religiosas se uniram para, ao fazerem uso da palavra consoladora, manifestarem o papel do sagrado ante a insuficiência humana em face dos absurdos vitais. Por outro lado, os muitos milhares de adeptos, da Chapecoense e de outros clubes, que se congregaram em diversos estádios de futebol, atribuíram uma dimensão metafísica às vidas precocemente ceifadas em território colombiano.

No dia 30 de novembro, à hora em que iria decorrer o primeiro jogo da final da Copa Sul-Americana, entre o Clube Atlético Nacional e a Chapecoense, milhares de pessoas se reuniram no Estádio Atanasio Girardot, em Medellín, e na Arena Condá, em Chapecó, para homenagear os desaparecidos. Naquela ocasião, no estádio da Chapecoense, líderes cristãos levaram o conforto aos milhares de assistentes à cerimônia religiosa. Os Pastores Claudir e Bartolomeu e o Padre Igor, adepto confesso do clube enlutado, proferiram algumas palavras durante o ato ecumênico.

Bartolomeu, o líder da Igreja Batista Central de Chapecó, referiu: “O que mais nós precisamos é de esperança. Não qualquer esperança, não uma mera esperança, mas a esperança que está em Deus”. Por outro lado, acrescentou o Pastor Bartolomeu, “a esperança que não falha, a esperança que dá força para caminharmos mesmo com o vento soprando de maneira contrária. Às famílias que estão aqui: Deus vai consolar o coração de vocês, Deus vai limpar de seus olhos toda a lágrima, porque Ele é bom”. O Padre Igor, se dirigindo aos familiares dos mortos, disse: “A minha oração é que o Espírito Santo venha confortar o coração dos familiares. Um Deus que nós servimos, um Deus que é fiel, que por mais que eu e você possamos estar abalados, ainda está no controle”.

O velório coletivo dos jogadores e dirigentes da Chapecoense, que teve lugar no sábado, dia 3 de dezembro, sob uma chuva impenitente, foi marcado por uma forte comoção coletiva. Ante um estádio praticamente lotado e uma cidade transformada em bancada de apoio incondicional aos falecidos no acidente aéreo na Colômbia, o Prefeito da cidade, Luciano Buligon, agradecendo ao povo colombiano e aos torcedores do Atlético Nacional, aludiu a um aforismo publicado na Internet: “Vieram por um sonho, voltaram como lendas”. “E lendas não morrem!”, completou o político.

Cid Moreira, cristão adventista, ex-Jornalista da Rede Globo, fez uma leitura da Bíblia que emocionou os presentes no estádio. O Bispo da Arquidiocese de Chapecó, Dom Odenir José Magri, leu, na cerimônia, uma mensagem do Papa Francisco: “Consternado pela trágica notícia do acidente na Colômbia – escreveu o Secretário de Estado do Vaticano, Cardeal Dom Pietro Parolin –, o Papa pede que sejam transmitidas suas condolências e sua participação na dor de todos os enlutados. Ao mesmo tempo, pede ao céu conforto e restabelecimento para os sobreviventes e coragem e consolação para todos os atingidos pela tragédia”.

Alguns dias antes, em 30 de novembro, na Audiência Geral levada a cabo no Vaticano, o Sumo Pontífice destacou as semelhanças que existem entre o acidente aéreo que vitimou a Chapecoense e aquele que, no dia 4 de maio de 1949, enlutou a cidade de Turim, em Itália, quando a aeronave em que seguia a equipe de futebol do Torino F. C. colidiu com a Basílica de Superga, devido ao nevoeiro. Francisco disse: “Eu também gostaria de recordar hoje a dor do povo brasileiro pela tragédia do time de futebol e rezar pelos jogadores mortos, pelas suas famílias. Na Itália, sabemos bem o que isso significa, pois lembramos o acidente aéreo de Superga, em 1949. São tragédias duras. Rezemos por eles”.

A tragédia do voo da LaMia não teria ocorrido se ele tivesse obedecido à gestão prudencial, do voo, do combustível disponível e, também, da gestão aeroportuária boliviana. Falamos, em boa medida, da prudência prática tão ao gosto de Aristóteles[3] que sucumbiu, neste caso, em face da tentação do lucro fácil e da mercantilização das pessoas, tantas vezes denunciadas pelo Papa Francisco. Entrementes, a solidariedade que se gerou em torno do clube de Santa Catarina revela que o espírito de entreajuda e o altruísmo se sobrepõem, entre os seres humanos, às pequenas disputas que animam nosso cotidiano[4], fazendo de todos nós criaturas melhores e mais disponíveis ante a dor e o sofrimento alheios.

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ImagemEscudo da Associação Chapecoense de Futebol” (Fonte):

https://logodownload.org/wp-content/uploads/2016/09/Chapecoense-logo-escudo-1.png

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Notas e Fontes consultadas, para maiores esclarecimentos:

[1] O Comandante Miguel Alejandro Quiroga Murakami, um antigo piloto militar, de 36 anos, era um apaixonado pela aviação. Graduado pela Academia de Aviação da Bolívia, em 2002, retomou a carreira de piloto comercial há 5 anos. Ele era casado com Daniela Pinto – filha de Roger Pinto, Senador boliviano oposicionista – e tinha três filhos, com idades compreendidas entre os 4 anos e os 5 meses.

Além de piloto da LaMia, ele era um dos donos da empresa, juntamente com Marco Antonio Rocha.

Segundo declarações de Denise Pinto, familiar do Comandante tragicamente desaparecido, ao jornal colombiano El Tiempo, ele “sempre estava ajudando, preocupado em solucionar problemas”.

Entrementes, de acordo com Reymi Ferreira, Ministro da Defesa da Bolívia, “o capitão Quiroga, que era o piloto do avião acidentado, tinha um julgamento pendente com a Força Aérea Boliviana, tendo, inclusive, um mandado de prisão”.

[2] Várias zonas-sombra envolvem o acidente com o avião da LaMia. A partir dos últimos 11 Minutos de conversas do Comandante Miguel Quiroga com a torre do controle do Aeroporto Internacional José María Córdova ficamos a saber que, muito provavelmente, a aeronave se despenhou por falta de combustível.

De acordo com uma reportagem realizada pelo Globo Esporte, o reabastecimento do voo malogrado “teria um custo adicional de cerca de R$ 10 mil se decidisse por parar no Aeroporto de Bogotá para realizar um abastecimento, segundo especialista consultado pela ‘Folha de S. Paulo’. O valor inclui combustível e taxas aeroportuárias”.

Celia Castedo Monasterio, funcionária da Aasana, a Administração de Aeroportos e Serviços Auxiliares à Navegação Aérea da Bolívia, “questionou o piloto Miguel Quiroga sobre a autonomia do avião para o trajeto. Ela alertou que a capacidade de armazenamento de combustível da aeronave não era adequada para o plano de voo determinado e que faltava um plano alternativo, pois a quantidade de combustível seria insuficiente em caso de emergência.

A principal observação da funcionária teria sido com o tempo de voo entre Santa Cruz de la Sierra e Medellín. Celia alertou a um despachante da companhia que a duração era igual à autonomia de combustível da aeronave. […] O tempo de rota era de 4H22Min, assim como a autonomia. Em resposta, o despachante disse ter conversado com o piloto, que insistiu na realização do voo, afirmando que a autonomia era suficiente e que faria a viagem em menos tempo […].

– Não, senhora Celia, essa autonomia, me passaram, é suficiente. Assim, não apresento mais nada. Vamos fazer em menos tempo, não se preocupe. É assim, fique tranquila, está bem”.

[3] Parece ser sensato aquele que tem o poder de deliberar corretamente acerca das coisas que são boas e vantajosas para si próprio, não de um modo particular, como, por exemplo, acerca das coisas que são boas em vista do restabelecimento da saúde, ou da obtenção do vigor físico, mas de todas aquelas qualidades que dizem respeito ao viver bem em geral. Um indício disto é dado pelo fato de, ao falarmos daqueles que são sensatos, dizermos que são capazes de calcular de modo correto a forma de chegarem a obter um certo objetivo final sério, fim este que não se encontra entre os produtos de qualquer perícia. Assim, aquele que delibera é alguém absolutamente sensato. Porque ninguém delibera acerca daqueles entes que não podem ser nunca de outra maneira, nem acerca daquelas coisas sobre as quais não tem o poder de agir”, ARISTÓTELES, Eth. Nic., 1140a-30.

[4] Presente na Arena Condá, para dar o último adeus a seus heróis, Jacir Tolotti, torcedor da Chapecoense sintetizou o sentimento coletivo preponderante no dia 3 de dezembro: “Nós somos um time pequeno, cara. Não queríamos ser conhecidos no mundo todo como agora. Não desse jeito. Só queríamos ganhar a Sul-Americana

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ANÁLISES DE CONJUNTURAPOLÍTICA INTERNACIONALSociedade Internacional

[:pt]O Papa Francisco e a Unidade entre Católicos e Luteranos[:]

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O Papa Francisco realizou, entre 31 de outubro e 1o de novembro, uma viagem apostólica à Suécia, por ocasião da comemoração comum luterano-católica da Reforma. O Pastor Heiner Bludau, Decano da Igreja Evangélica Luterana na Itália e Pastor da Comunidade Evangélica Luterana de Turim sublinhou, aos microfones da Rádio Vaticano, que “as Igrejas luteranas sempre celebraram os centenários da Reforma. No passado, estas manifestações eram realizadas ‘contra’ a Igreja Católica, ou assumiam um caráter nacional. Em 2017, porém, pela primeira vez abriu-se a possibilidade de celebrar este aniversário em um clima de diálogo”. Tal como referiu Monsenhor Franco Buzzi, Prefeito da Biblioteca Ambrosiana de Milão, “a grande novidade deste centenário é que se trata do primeiro a ser celebrado em uma época ecumênica”.

Desejando criar o entendimento entre católicos e luteranos, que cessou logo em 1517, com a publicação das 95 Teses de Martinho Lutero sobre o poder e a eficácia das indulgências católicas, o Papa Francisco assinalou o fato de, hoje em dia, estarmos ante a possibilidade de se estabelecer um caminho comum “que se foi configurando ao longo dos últimos cinquenta anos no diálogo ecuménico entre a Federação Luterana Mundial e a Igreja Católica”, que se viu plasmado na Declaração Conjunta sobre a Doutrina da Justificação, assinada em 31 de outubro de 1999, pelo Bispo Dr. Christian Krause, da Federação Luterana Mundial, e pelo Cardeal Dom Edward Idris Cassidy, da Igreja Católica.

Naquele documento, as duas Igrejas passaram a professar a mesma doutrina sobre a justificação da fé, embora com desdobramentos diferentes. Tal como o Sumo Pontífice referiu na homilia proferida em Lund, sul da Suécia, no dia 31 de outubro, é ponto assente, para a Igreja Católica, a existência da “possibilidade de reparar um momento crucial da nossa história, superando controvérsias e mal-entendidos que impediram frequentemente de nos compreendermos uns aos outros”.

Mais tarde, na Declaração Conjunta assinada, em Lund, no âmbito da comemoração católico-luterana da Reforma, lemos a intenção de se construir um caminho comum, diferente do passado marcado por massacres, guerras e ódios que se estenderam pelos últimos quinhentos anos[1]. Se, por um lado, o passado não pode ser modificado, o “que se recorda e o modo como se recorda podem ser transformados”. Atualmente, quer para os católicos, quer para os luteranos, há a intenção de rejeitar a dor e o sofrimento “implementados em nome da religião. Hoje, escutamos o mandamento de Deus para se pôr de parte todo o conflito. Reconhecemos que fomos libertos pela graça para nos dirigirmos para a comunhão a que Deus nos chama sem cessar”. O compromisso de ambas confissões religiosas em prol de um testemunho comum foi expresso desta maneira: “Desejamos ardentemente que esta ferida no Corpo de Cristo seja curada. Este é o objetivo dos nossos esforços ecuménicos, que desejamos levar por diante inclusive renovando o nosso empenho no diálogo teológico”.

Apelando à unidade como prioridade, para católicos e luteranos, na Malmö Arena, o Papa Francisco, depois de ouvir o testemunho do Bispo Dom Héctor Fabio Henao Gaviria, Diretor do Secretariado Nacional da Pastoral Social – Cáritas Colombiana, referiu: “É uma boa notícia saber que os cristãos se unem para dar vida a processos comunitários e sociais de interesse comum. Peço-vos uma oração especial por aquela terra maravilhosa para que, com a colaboração de todos, se possa chegar finalmente à paz, tão desejada e necessária para uma digna convivência humana”.

Referindo-se ao testemunho proferido por Marguerite Barankitse, em Malmö, o Papa qualificou da seguinte maneira o trabalho daquela ativista pela paz, levado a cabo na Maison Shalom e no Hospital REMA: “Aquilo que tu consideras como uma missão, foi uma semente, uma semente que produziu frutos abundantes, e hoje, graças a esta semente, milhares de crianças podem estudar, crescer e recuperar a saúde. Apostaste no futuro! Obrigado. E agradeço-te pelo facto de agora, mesmo no exílio, continuares a comunicar uma mensagem de paz”.

Reforçando seu apreço em relação à obra da vencedora, em 2016, do Prêmio Aurora para o Despertar da Humanidade, Francisco acrescentou: “Disseste que, todos os que te conhecem, pensam que aquilo que fazes é uma loucura. Sim, é a loucura do amor a Deus e ao próximo! Quem dera que esta loucura pudesse propagar-se, iluminada pela fé e a confiança na Providência!”.

Apesar das críticas dos católicos tradicionalistas à aproximação aos luteranos, promovida pelo Papa Francisco[2], o certo é que, para o Vigário de Cristo, de acordo com o vaticanista Edward Pentin, a posição adotada em relação aos seguidores de Martinho Lutero “é um reflexo de como o papa enxerga as demais religiões. É como se não existisse um chamado à conversão e que todas têm o seu caminho a Deus”. Para o Sucessor de Pedro é ponto assente que “a nossa fé comum em Jesus Cristo e o nosso Batismo exigem de nós uma conversão diária, graças à qual repelimos as divergências e conflitos históricos que dificultam o ministério da reconciliação”.

Defendendo que as intenções de Lutero não foram erradas[3], Francisco demonstrou, publicamente, querer deixar de lado as controvérsias doutrinais abrindo, assim, o caminho da unidade entre católicos e luteranos, que deverá ser construído a partir da diversidade. Na verdade, os sinais de aproximação, que agora se tornaram evidentes aos olhos do público, podem conduzir-nos, tal como afirmou o Bispo Dr. Munib A. Younan, Presidente da Federação Luterana Mundial, “a uma reconciliação pacífica, em vez de contribuir, como habitualmente, para mais conflitos no nosso já conturbado mundo”.

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ImagemMartinho Lutero inscreve as 95 Teses na Igreja de Wittenberg com uma pena gigante. Impressão feita para o Jubileu da Reforma, 1617” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Ninety-five_Theses#/media/File:G%C3%B6ttlicher_Schrifftmessiger_print.jpg

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Notas e Fontes consultadas, para maiores esclarecimentos:

[1] A excomunhão de Martinho Lutero pelo Papa Leão X, em 3 de janeiro de 1521, foi, talvez, “o clímax do conflito entre duas visões da religião cristã que acabaria numa das mais importantes cisões do Cristianismo”. Pároco da Igreja de Wittenberg, sul de Berlim, desde 1514, o sacerdote e teólogo Martinho Lutero verificou que muitos fiéis preferiam comprar cartas de indulgência a confessar-se com ele. Na altura, “essas indulgências são vendidas nas feiras livres, e, negociando com o pecado, a Igreja arrecada o capital de que precisa urgentemente. Conta-se que o monge dominicano Johann Tetzel anunciava: ‘Quando o dinheiro cair na caixinha, o Céu estará recebendo a sua alminha’”. Lutero, crítico da venda de indulgências, pela Igreja Católica, e defensor da confissão, tal como da confiança na Graça divina, enviou, em outubro de 1517, as “95 teses a seus superiores eclesiásticos. Conta a lenda que Lutero pregou as teses com estrondosos golpes de martelo na porta da Igreja do Castelo de Wittenberg. O documento é logo impresso e distribuído entre a gente de Leipzig, Nurembergue e da Basileia”.

[2] O blog Rorate Cæli, veículo de divulgação das teses dos católicos tradicionalistas, referiu a propósito da aproximação entre católicos e luteranos: “O movimento da Reforma e Martinho Lutero são exaltados repetidas vezes, enquanto que a Contrarreforma, os Papas e os Santos do século XVI são ignorados em total silêncio”. Por outro lado, assinala o blog, “a ênfase esmagadora neste material recai sobre aquilo que supostamente une os católicos e luteranos, enquanto que as doutrinas que nos ‘dividem’ – doutrinas pelas quais inumeráveis mártires católicos e confessores sofreram, deram o seu sangue, combateram e morreram – são omitidas e abandonadas”.

[3] Na conferência de imprensa concedida pelo Santo Padre durante o voo de regresso da Armênia, no dia 26 de junho de 2016, ele declarou: “Creio que as intenções de Martinho Lutero não fossem erradas: era um reformador. Talvez alguns métodos não fossem justos, mas naquele tempo, se lermos por exemplo a história do Pastor (um luterano alemão que, ao ver a realidade daquele tempo, se converteu e fez católico), vemos que a Igreja não era propriamente um modelo a imitar: havia corrupção na Igreja, havia mundanidade, havia apego ao dinheiro e ao poder. E por isso ele protestou. Sendo inteligente, deu um passo em frente justificando por que motivo fazia isso. E hoje luteranos e católicos, com todos os protestantes, estamos de acordo sobre a doutrina da justificação: sobre este ponto tão importante, ele não errara. Elaborou um ‘remédio’ para a Igreja, depois este remédio consolidou-se num estado de coisas, numa disciplina, num modo de crer, num modo de fazer, num modo litúrgico”.

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ANÁLISE - Sociedade InternacionalANÁLISES DE CONJUNTURAECONOMIA INTERNACIONALPOLÍTICA INTERNACIONAL

[:pt]O Vaticano, o Microcrédito e a Dignificação dos Pobres[:]

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Criado na década de 1970 por Muhammad Yunus, um economista e banqueiro bengali, ganhador do Prêmio Nobel da Paz, em 2006 – juntamente com o Grameen Bank, por ele fundado – o microcrédito constitui uma medida política de combate à pobreza que tem, como público-alvo, as populações economicamente excluídas, sem acesso ao crédito. O microcrédito é, em suas linhas de orientação, um mecanismo de combate à exclusão e não um instrumento utilizado para financiar marginalizados. Segundo Yunus, enquanto o mercado livre capitalista prospera globalmente, quase sem oposição, trazendo prosperidade sem precedentes para muitos, metade do mundo vive com dois Dólares por dia ou muito menos”, até. Se, em termos sociais, a “erradicação da pobreza permanece o maior desafio diante o mundo”, o microcrédito permite aos pobres, por intermédio da concessão de pequenos empréstimos, a geração de auto-emprego e, também, de renda, permitindo-lhes que cuidem deles e de suas famílias.

No entanto, para Aneel Karnani, Professor de Estratégia na Universidade de Michigan, “o microcrédito não acaba com a pobreza”. Ainda assim, de acordo com o mesmo autor, há alguns anos, o mundo tinha no microcrédito um tipo de intervenção econômica muito prestigiada junto dos desfavorecidos nos países em desenvolvimento. Deste modo, escreveu Karnani na Stanford Social Innovation Review, em 2007: “O microcrédito é nova bala de prata para aliviar a pobreza. Filantropos ricos, tal como o financista George Soros e o co-fundador da eBay, Pierre Omidyar, estão prometendo centenas de milhões de Dólares para o movimento do microcrédito”. Por outro lado, os “bancos comerciais globais, como o Citigroup, Inc., e o Deutsche Bank, AG, estão criando fundos de microcrédito. Até pessoas com apenas alguns Dólares para poupar vão para os sítios Web do microcrédito para, com um único clique no mouse, emprestarem dinheiro aos agricultores de arroz no Equador e aos mecânicos de automóveis no Togo”. No artigo intitulado “É o Microcrédito Um Conto de Fadas Neoliberal?”, publicado no jornal inglês The Guardian, Madeleine Bunting aponta os pontos débeis desta modalidade de financiamento. Consoante a autora, eles são os seguintes: 1.º – o microcrédito se baseia numa premissa atrativa, mas falsa, segundo a qual as pessoas pobres podem tornar-se ricas desde que tenham acesso ao crédito[1]; 2.º – o microcrédito sempre defendeu que o autofinanciamento não está relacionado com os custos de arranque iniciais do projeto empresarial[2]; 3.º – a maioria dos empréstimos não é utilizada para criar pequenos negócios[3]; 4.º – o microcrédito não é muito bem sucedido na criação de pequenos negócios prósperos a longo prazo[4].

Participando em Roma, no 3.º Fórum Europeu de Microfinanciamento, o Cardeal Dom Peter Kodwo Appiah Turkson, Presidente do Pontifício Conselho para a Justiça e da Paz, proferiu, no dia 19 de outubro, uma palestra intitulada “Economia Social de Mercado, Acesso ao Crédito e Combate à Pobreza”. Naquela oportunidade, o prelado salientou a necessidade de se adotar um progresso de tipo integral que tenha presentes os aspectos fundamentais da Doutrina Social da Igreja[5], isto é, o bem comum, a solidariedade e a subsidiariedade. Na linha do Papa Francisco, Turkson defendeu a existência de uma “economia social moderna de mercado para combater o desemprego generalizado, o crescimento das desigualdades e a degradação do meio ambiente”, no âmbito da qual “a pessoa humana seja o fulcro de um sistema em que todos sejam incluídos na vida econômica e social, e a criatividade seja apreciada e protegida”. Para o Cardeal ganês, o microfinanciamento e o microcrédito são geradores de um “impacto econômico, mas também social e cultural”. Deste modo, considerou ele, “a solidariedade toma o lugar de garantias pessoais ou reais”, o que permite “uma cultura da subsidiariedade”, que dá aos mais pobres a confiança de poderem “cumprir os compromissos assumidos”, vivenciando deste modo uma dignidade idêntica à dos outros cidadãos. Tal como Peter Turkson pôs em evidência, “seria moralmente inaceitável se esses instrumentos, que se revelaram tão importantes para a promoção da dignidade dos pobres, fossem reconduzidos para dentro da lógica da maximização do lucro que caracteriza o setor do crédito em seu conjunto”. Tendo presentes as consequências da crise econômica mundial que, desde 2008, atingiu os países economicamente desenvolvidos e, num breve período de tempo, alastrou a todo o planeta, aquele dirigente do Vaticano sublinhou: “Seria dramático se diante da crise enfrentada em muitos países pelos institutos de créditos tradicionais, o microcrédito se tornasse uma oportunidade gananciosa de expandir as finanças para fins especulativos”.

Para o Cardeal Turkson a economia não pode perder o sentido humano das relações produtivas, devendo fomentar, além da concessão de microcrédito, a empregabilidade e a produtividade dos pobres. Em consonância com o preceito bíblico – “o sábado foi feito para o homem[6] – e com o Papa Francisco, o purpurado ganês defende ser necessário que o mundo aposte na sustentabilidade, que se promove com medidas de financiamento de pequenos produtores e com uma produção diversificada”. Apesar do vigor do individualismo neoliberal que, em nossos dias, se manifesta de modo implacável até em relação aos mais desfavorecidos, o realismo otimista do Cardeal Turkson permite-lhe afirmar, citando Francisco: “Nem tudo está perdido, porque os seres humanos, capazes de tocar o fundo da degradação, podem também superar-se, voltar a escolher o bem e regenerar-se[7]. Por isso, entendendo a economia a partir de um humanismo de matriz cristã, aberto à transcendência, Turkson propõe: “Recebemos este mundo como um jardim, não deixemos como herança aos nossos filhos e às futuras gerações uma terra selvagem”.

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ImagemCardeal Dom Peter Turkson, Presidente do Pontifício Conselho para a Justiça e Paz” (Fonte):

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/f/fc/Peter_Turkson%2C_Aachen.JPG

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Notas e Fontes consultadas, para maiores esclarecimentos:

[1] A criação de riqueza, fora dos contos de fadas, é muito rara em resultado do esforço individual. Pelo contrário, é um esforço coletivo – que requer competências e conhecimento – em instituições como companhias e cooperativas. O microcrédito tem atribuído, erroneamente, grande importância ao indivíduo, refletindo uma visão do mundo neoliberal”.

[2] A menos que ocorra uma grande injeção de fundos de ajuda governamentais, as instituições de microcrédito têm que cobrar taxas de juro muito altas. Sem subsídios, as taxas de juro sobem até os 50% e até mais alto. Isto corta qualquer possibilidade de os pequenos negócios serem capazes de investir os seus lucros”.

[3] Os empréstimos são usados para “suavizar o consumo’, tal como os economistas descrevem ou, em outras palavras, as despesas extraordinárias, tais como casamentos, funerais, educação ou saúde. Este é o tipo de cenário que leva ao endividamento”.

[4] Se uma ideia de negócio funciona e é acessível a pessoas pobres, todos se vão amontoar nela; é por isso que você vê filas de mulheres sentadas, vendendo pacientemente alguns tomates em mercados africanos. A superlotação é o resultado de opções muito limitadas em termos de tecnologia, competências e recursos financeiros: o microcrédito não resolve nenhum desses problemas”.

[5] Ver:

PAPA LEÃO XIII, Carta Encíclica Rerum Novarum, 1891.

Disponível online:

http://w2.vatican.va/content/leo-xiii/pt/encyclicals/documents/hf_l-xiii_enc_15051891_rerum-novarum.html

[6] Ver:

Mc 2.27.

[7] Ver:

FRANCISCO, Laudato Si’. Louvado Sejas. Sobre o Cuidado da Casa Comum, São Paulo, Paulus Editora – Edições Loyola Jesuítas, 2015, trad. do italiano, § 205 [pág. 120].

Disponível online:

http://w2.vatican.va/content/francesco/pt/encyclicals/documents/papa-francesco_20150524_enciclica-laudato-si.html

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ANÁLISE - Sociedade InternacionalANÁLISES DE CONJUNTURA

[:pt]O Vaticano Defende a Condenação do Terrorismo pela Religião[:]

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O Ocidente que emergiu após os atentados de 11 de setembro de 2001, nos EUA, o Oriente Médio subsequente à criação do Estado Islâmico, em 2014, assim como a atividade dos grupos insurgentes na Ásia, no Chifre de África e na África Ocidental se assumem como variáveis que contribuíram para a instabilidade mundial que, atualmente, estamos vivendo.

No dia 19 de setembro, John Kerry, o Secretário de Estado dos EUA, se reuniu nas Nações Unidas, em Nova Iorque, com o Cardeal Dom Pietro Parolin, seu homólogo do Vaticano, numa cimeira destinada a debater as questões gerais relacionadas com os refugiados e migrantes. Ambos os líderes abordaram os problemas globais, assim como a situação humanitária na Síria. Um dia mais tarde, Dom Pietro Parolin, participou, também em Nova Iorque, no evento intitulado “Mantendo a Responsabilidade de Proteger: O Papel dos Líderes Religiosos na Prevenção de Atrocidades”, organizado pela Santa Sé e a Organização das Nações Unidas.

Naquela oportunidade, Parolin apelou à proteção das vítimas das atrocidades, tendo referido que tanto os líderes religiosos quanto as autoridades nacionais devem reforçar as medidas preventivas: “Em face destes crimes graves, existe uma responsabilidade grave, primeiro dos Estados nacionais e depois da comunidade internacional”. E continuou: “Parece inteiramente apropriado, por conseguinte, refletir acerca da responsabilidade dos líderes religiosos, especialmente num mundo cada vez mais interconectado, para ajudar a combater a propagação do ódio e da violência em nome da religião e para promover sociedades mais inclusivas e pacíficas”.

Em seu discurso, o Cardeal Parolin apontou a crescente popularização do extremismo, na religião, afirmando que algumas religiões foram manipuladas até se terem tornado campeãs da violência, do genocídio, de crimes de guerra e da limpeza étnica. Se as religiões são, para o Secretário de Estado do Vaticano, “um direito humano inalienável”, elas não estão na raiz das atrocidades, mas sim aqueles indivíduos que lutam pelo poder. De acordo com o Cardeal italiano, se “todas as religiões aspiram à paz”, em face da dor, do sofrimento e da morte coletivas, as “religiões não são a causa destes males que, em contrapartida, resultam de alguns interesses políticos, geopolíticos e econômicos, e do desejo de poder e de dominação”.

Naquela oportunidade, o Cardeal Parolin incitou os líderes religiosos e as autoridades nacionais a trabalharem em conjunto para compreenderem a responsabilidade das medidas preventivas, condenando o uso da religião para promover a violência: “Uma posição urgente é necessária por parte dos líderes religiosos para condenarem sem demora todas as formas de abuso da religião ou dos textos religiosos para justificar a violência e a violação da dignidade humana levada a cabo em nome de Deus ou de uma religião”. Ao finalizar sua intervenção, o Cardeal Pietro Parolin afirmou que a Santa Sé continuará a promover o princípio moral e jurídico fundamental da Responsabilidade para Proteger, assim como o direito a entender as consequências sociais da religião.

Deste modo, defendeu o dignitário: “Esperamos que através de esforços combinados dos líderes e crentes de todas as religiões e de todos os povos de boa vontade, em conjunto com as instituições estatais, baseados no respeito pela vida e pela dignidade humana, e orientados para o bem da pessoa humana, seja possível, um dia, pôr um final às atrocidades que por muito tempo abalaram a consciência da Humanidade, minando sua fibra moral e espiritual, tendo afastado as pessoas para longe do plano de Deus[1].

Reunido no dia 24 de setembro com sobreviventes do atentado de Nice, França, perpetrado em 14 de julho por Mohamed Salmene Lahouaiej Bouhlel, um “soldado do Estado Islâmico”, o Papa Francisco fez suas as palavras de Dom Pietro Parolin. Na Sala Paulo VI, local da recepção, no Vaticano, o Sumo Pontífice declarou: “É para mim uma grande emoção reunir-me convosco, vocês que sofrem no corpo ou em vossa alma porque numa noite de festa a violência vos golpeou cegamente, a vocês ou a alguém que vos é próximo, independentemente da origem ou religião. Eu quero partilhar a vossa dor, uma dor que é ainda mais viva quando eu penso nas crianças, por vezes famílias inteiras, cujas vidas foram ceifadas inesperada e dramaticamente”.

Prosseguindo seu discurso, Francisco abordou a possibilidade de se frear a violência em nossos dias. Ele reiterou: “O estabelecimento de um diálogo sincero e relações fraternais entre todos, em particular entre aqueles que confessam um Deus único e misericordioso, é uma prioridade urgente que os responsáveis, tanto políticos quanto religiosos, devem procurar promover e cada um é chamado a fazer cumprir em torno de si”. Neste contexto, de acordo com o Vigário de Cristo, mau grado “a tentação de se recolher em si mesmo, ou de responder ao ódio com o ódio e à violência com a violência sejam grandes, é necessária uma conversão autêntica do coração. Esta é a mensagem que o Evangelho de Jesus nos dirige a todos nós. Não podemos responder aos assaltos do Demônio a não ser pelas obras de Deus, que são o perdão, o amor e o respeito pelo próximo, mesmo se ele é diferente” de cada um de nós.

Dias mais tarde, em 29 de setembro, o Papa recebeu na Sala Clementina, no Vaticano, os membros de organizações católicas que servem no Iraque, na Síria e nos países limítrofes. Nesta ocasião, o Santo Padre elaborou o estado da arte naquela parte do mundo: “Um ano depois do último encontro, notamos com grande tristeza que, apesar dos muitos esforços feitos em várias áreas, a lógica das armas e da opressão, os interesses obscuros e a violência continuam a devastar estes países e, até agora, não se conseguiu pôr fim ao sofrimento desgastante e à violação contínua dos direitos humanos. As consequências dramáticas da crise já são visíveis muito além das fronteiras da região, sendo o grave fenómeno migratório a sua expressão”. Sublinhando sua preocupação relativamente às comunidades cristãs do Oriente Médio, “que sofrem as consequências da violência e olham para o futuro com medo”, o Papa ilustrou como, de modo prático, as diferentes Igrejas adotaram, no Oriente Médio, uma atitude comum contra a violência promovida pelos insurgentes: “Em meio a tanta escuridão, estas Igrejas mantêm bem alta a chama da fé, esperança e caridade. Elas, com coragem e sem discriminação, ajudam todos os que sofrem e trabalham para uma coexistência pacífica. Hoje, os cristãos do Oriente Médio são um sinal claro da misericórdia de Deus. Eles têm a admiração, o reconhecimento e o apoio da Igreja universal”.

Após São João Paulo II ter promovido, em outubro de 1986, em Assis, o encontro inter-religioso de oração, jejum e peregrinação, que reuniu representantes do judaísmo, islamismo, budismo, hinduísmo, religiões africanas, de outras confissões religiosas e ateus[2], os seus sucessores protagonizaram declarações enérgicas e tomadas de posição firmes quanto ao binômio paz/conflito. Atualmente, numa altura da evolução da Humanidade em que parece estarmos a viver o triunfo da marcha da insensatez, o Vaticano reafirma que o amor deve ser a única resposta ao mal. No âmago daquela que, no dizer do Papa Francisco, é a III Guerra Mundial em fragmentos[3], somente um esforço simultaneamente exigente e tolerante por parte das religiões e, ao mesmo tempo, de cada um de nós no caminho da não-violência poderá pôr fim ao ciclo de barbárie que estamos vivendo.

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ImagemDom Pietro Parolin durante uma missa em Caracas, julho de 2012” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Pietro_Parolin#/media/File:Monse%C3%B1or_Pietro_Parolin,_2012.JPG

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Notas e Fontes Consultadas para maiores esclarecimentos:

[1] Numa entrevista concedida a Paolo Mastrolilli, publicada pelo jornal La Stampa em 22 de setembro de 2016, Pietro Parolin esclareceu: “São importantes o respeito mútuo e a aceitação do Outro. Infelizmente, hoje, estamos testemunhando o revivalismo do extremismo e das tendências radicais. O radicalismo se caracteriza por uma atitude fechada em relação àqueles que não são como nós e que veem as coisas de um modo diferente. Em ordem a lidar com este problema tendo em vista sua resolução, necessita de ser obtido um grande acordo, começando pela maneira como as novas gerações são educadas, incutindo o respeito nelas. Eu uso a palavra respeito porque nós discutimos a tolerância na ONU, hoje, afirmando que não é palavra correta a usar. O que é necessário, em contrapartida, é o respeito mútuo, assegurando que cada pessoa seja aceite por ser quem é. Juntos, nós podemos construir algo bom, algo melhor”.

[2] O encontro de Assis “não foi único, porque João Paulo II regressou a Assis em 1993, para rezar pela paz nos Balcãs, com os judeus e os muçulmanos e, mais tarde, depois do dia 11 de Setembro de 2001, quando o mundo parecia deslizar inexoravelmente para o chamado ‘choque das civilizações e das religiões’”.

[3] Papa Francisco se referiu, até hoje, à III Guerra Mundial “fragmentada” nas seguintes ocasiões:

a) 18 de agosto de 2014, durante a viagem de regresso da Coreia do Sul. Ver:

http://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/ansa/2014/08/18/vivemos-a-3-guerra-mundial-diz-papa-francisco.htm

b) 13 de setembro de 2014, no Cemitério Militar de Redipuglia, na Itália. Ver:

http://www.bbc.com/news/world-europe-29190890

c) 06 de junho de 2015, durante a viagem apostólica a Sarajevo, capital da Federação da Bósnia e Herzegovina. Ver:

http://pt.euronews.com/2015/06/06/papa-francisco-evoca-especie-de-3-guerra-mundial/

d) 20 de setembro de 2015, no início da viagem apostólica a Cuba. Ver:

http://www.dn.pt/globo/interior/papa-pede-reconciliacao-nesta-atmosfera-de-terceira-guerra-mundial-que-vivemos-4787708.html

e) 14 de novembro de 2015, condenando os atentados de Paris, que tiveram lugar no dia anterior. Ver:

http://extra.globo.com/noticias/mundo/papa-francisco-chama-ataques-em-paris-de-uma-iii-guerra-mundial-desorganizada-18052432.html

f) 26 de agosto de 2016, Mensagem do Papa Francisco para a 50.ª Jornada Mundial da Paz, que terá lugar em 1 de janeiro de 2017, sob o lema “A Não-Violência: Um Estilo de Política para a Paz”. Ver:

https://press.vatican.va/content/salastampa/it/bollettino/pubblico/2016/08/26/0599/01345.html

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ANÁLISE - Sociedade InternacionalANÁLISES DE CONJUNTURA

[:pt]A Canonização de Teresa de Calcutá[:]

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Nascida Anjezë Gonxhe Bojaxhiu, em Üsküp, capital da Macedônia, então parte da Albânia, Império Otomano, a católica mais famosa da Índia veio ao mundo no dia 26 de agosto de 1910. Ela viveu na Macedônia durante seus primeiros dezoito anos, tendo se mudado para a Irlanda, onde ingressou na Ordem das Irmãs de Nossa Senhora de Loreto. Aí passou a usar o nome Teresa, em homenagem a Santa Teresa de Lisieux. Enviada para Calcutá, na Índia, foi professora numa escola para meninas de classe alta, antes de decidir se dedicar aos pobres.

Em 1950, Madre Teresa fundou as Missionárias da Caridade, uma congregação religiosa católica que pretendia ser uma resposta à miséria prevalecente na Índia. Desde então, os membros da congregação têm que se submeter aos votos de castidade, pobreza e obediência, devendo disponibilizar, de todo o coração, livre atendimento aos mais pobres de entre os pobres. Atualmente, as mais de 4.500 religiosas que integram as Missionárias da Caridade estão presentes em 133 países, onde dirigem cerca de 700 casas de assistência aos moribundos com HIV/AIDS, lepra e tuberculose; cozinhas populares; dispensários e clínicas ambulantes; programas de aconselhamento para as crianças e as famílias; orfanatos; escolas.

Apesar de, em vida, Madre Teresa de Calcutá ter recebido inúmeras distinções, de entre as quais se destaca o Prêmio da Paz Ramon Magsaysay, em 1962, e o Prêmio Nobel da Paz, em 1979, ela foi alvo de críticas oriundas em diversos setores da sociedade civil, nomeadamente os ateus. Porém, Madre Teresa nunca se sujeitou às avaliações negativas e jamais se coibiu em tornar públicos seus posicionamentos em defesa daquilo em que acreditava, inclusive em relação aos posicionamentos do Papa João XXIII e às conclusões do Concílio Vaticano II, assumindo-se como adversária tenaz da Teologia da Libertação, ao ponto de o Papa São João Paulo II a ter tomado como bandeira de sua restauração eclesiástica.

Acusada de ter sido mais amiga da pobreza do que dos pobres, Madre Teresa foi questionada pelo jornalista e crítico literário Christopher Hitchens, em seu livro The Missionary Position: Mother Teresa in Theory and Practice (A Posição do Missionário. Madre Teresa na Teoria e na Prática)[1] e, também, no documentário Hell’s Angel (Anjo do Inferno)[2]. Hitchens acompanhou a Santa pelas ruas de Calcutá e a ouviu elogiar a pobreza, a doença e o sofrimento como “presentes do céu, propondo aos fiéis que aceitassem aqueles presentes com alegria. Segundo o jornalista norte-americano, sua clínica, em Calcutá, lhe pareceu um morredouro, um lugar em que o tratamento médico era rudimentar ou inexistente. No entanto, de acordo com Christopher Hitchens, quando adoeceu, Madre Teresa “voou em primeira classe a uma clínica privada da Califórnia”. Por outro lado, Aroup Chatterjee, no livro Mother Teresa, The Final Verdict (Madre Teresa, O Veredito Final)[3] denuncia as ligações de Madre Teresa ao ditador do Haiti, Jean-Claude Duvalier, e a Enver Hoxha, o responsável pela Albânia marxista-leninista.

Tendo recebido uma doação de Charles Keating, preso pela maior fraude financeira da história dos Estados Unidos até à década de 1980, quando Keating foi encarcerado, longe de devolver o dinheiro que lhe havia entregue (pelo menos 1 milhão de Dólares, cerca de 3,25 milhões de Reais), madre Teresa intercedeu no tribunal pedindo misericórdia. Segundo Chatterjee, médico nascido e criado em Calcutá e hoje residente em Londres, Madre Teresa “não dava nenhum analgésico forte aos moribundos, mesmo nos casos mais extremos, e os cuidados não eram profissionais. Careciam da mais básica higiene, sofriam condições de tortura”.

O cubano-norte-americano Hemley González é outro dos críticos de Madre Teresa. Em 2008, ele trabalhou como voluntário junto das Missionárias da Caridade, dado que “a marca de Madre Teresa é tão forte, que mesmo sem ser religioso foi a primeira coisa que me ocorreu. Eu me dei conta de que se tratava de uma violação sistemática dos direitos humanos e de um escândalo financeiro”. Segundo González, os missionários têm pouca preparação técnica: “Um deles deu de comer a um paralítico, que se engasgou e morreu. Eu estive na cremação de 12 pessoas, algumas das quais acredito que poderiam ter sobrevivido”.

Em contrapartida, em paralelo às críticas de que Madre Teresa foi alvo, cabe referir o testemunho de Joe McGowan, Jr., o repórter da Associated Press que, em 1966, pela primeira vez, divulgou ao mundo a obra da religiosa. O então chefe do escritório daquela agência noticiosa na Índia, Paquistão, Afeganistão, Nepal, Ceilão e nas Ilhas Maldivas declarou: “Não havia nada de pretencioso com ela”. Por outro lado, “naqueles dias, não havia leitos [hospitalares] suficientes em locais como Calcutá. Se você fosse declarado doente terminal, sua família tinha que levá-lo para casa para que o leito fosse para outra pessoa. Se ninguém o levasse, você era colocado na calçada para morrer”. Extremamente impressionado pelo trabalho de Madre Teresa, Joe McGowan, Jr. confessou: “Eu tenho o maior respeito por ela, o trabalho que ela fez, para trabalhar lá nas favelas de Calcutá”.

O Vaticano, que contou com Aroup Chatterjee e Christopher Hitchens entre as testemunhas oficiais hostis de Madre Teresa no processo de beatificação, que teve sua conclusão em 2003, reconheceu o primeiro milagre da fundadora das Missionárias da Caridade na cura de um tumor maligno abdominal de Monika Besra; em 2015, a Igreja abriu o caminho para a canonização de Madre Teresa, após ter declarado como milagre a recuperação do brasileiro Marcilio Haddad Andrino, que tinha múltiplos pontos de inflamação no cérebro.

No dia 4 de setembro, o Papa Francisco, que conheceu pessoalmente Madre Teresa em 1994, durante um Sínodo dos Bispos celebrado em Roma, canonizou a Beata que se notabilizou na Índia. Naquela ocasião, ante mais de cem mil fiéis originários de todas as partes do mundo, congregados na Praça de São Pedro, o Sumo Pontífice declarou que a Madre será a santa do “vasto mundo do voluntariado”, pedindo que ela seja considerada como o “modelo de santidade”. Segundo o Vigário de Cristo, a missão de Madre Teresa “nas periferias das cidades e nas periferias existenciais permanece nos nossos dias como um testemunho eloquente da proximidade de Deus junto dos mais pobres entre os pobres”.

Teresa de Calcutá, afirmou Francisco, “fez ouvir a sua voz aos poderosos da Terra, para que reconhecessem a sua culpa diante dos crimes – diante dos crimes! –  da pobreza criada por eles mesmos. A misericórdia foi para ela o ‘sal’, que dava sabor a todas as suas obras, e a luz que iluminava a escuridão de todos aqueles que nem sequer tinham mais lágrimas para chorar pela sua pobreza e sofrimento”. O Papa sublinhou, ainda, a oposição de Madre Teresa à interrupção voluntária da gravidez, ao declarar que ela “foi uma dispensadora generosa da misericórdia divina, fazendo-se disponível a todos, através do acolhimento e da defesa da vida humana, dos nascituros e daqueles abandonados e descartados. Comprometeu-se na defesa da vida, proclamando incessantemente que ‘quem ainda não nasceu é o mais fraco, o menor, o mais miserável’”.

A canonização daquela que, em vida, ficou conhecida como “a santa das sarjetas”, constituiu o evento mais importante do Ano Santo da Misericórdia. Santa Teresa de Calcutá, que “simboliza a fé cristã de uma maneira que toca os corações humanos além dos limites da denominação religiosa”, é, desde o passado dia 4 de setembro de 2016, uma referência de vida para todos os cristãos, mas, sobretudo, para os católicos. Com efeito, ante o fracasso de muitas políticas públicas na Índia, a par dos inúmeros problemas sociais e de uma mentalidade globalmente caracterizada pela resignação, talvez o assistencialismo promovido por Santa Teresa de Calcutá continue sendo alvo de críticas. Contudo, sua obra constitui a gota de água que, de modos muito diferenciados, tem alimentado a esperança dos mais miseráveis no deserto da indiferença. Como a própria Madre Teresa gostava de dizer, em relação aos despojados da dignidade, “talvez não fale a língua deles, mas posso sorrir”.

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ImagemPlaca memorial dedicada a Madre Teresa de Calcutá, Praça Wenceslas, Olomouc, República Checa” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Mother_Teresa#/media/File:Mother_Teresa_memorial_plaque.jpg

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Notas e Fontes Consultadas, para maiores esclarecimentos:

[1] Ver:

CHRISTOPHER HITCHENS, The Missionary Position: Mother Teresa in Theory and Practice, Londres – Nova Iorque, Verso, 1995, 98 págs.

[2] Ver:

Christopher Hitchens, Mother Teresa: Hell’s Angel, Channel 4, s. l., 1994.

Disponível online:

https://www.youtube.com/watch?v=65JxnUW7Wk4

[3] Ver:

Aroup Chatterjee, Mother Teresa, The Final Verdict, s. l. [Calcutá], Meteor Books, India, 2003, 415 págs.

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