ANÁLISES DE CONJUNTURAORGANIZAÇÃO INTERNACIONAL

O futuro dos BRICS: o brasileiro Marcos Troyjo é eleito para presidir o New Development Bank

Ao final do mês de maio deste ano (2020), o diplomata, economista e cientista político brasileiro Marcos Troyjo foi eleito como o Presidente do New Development Bank (NDB), popularmente conhecido como Banco dos BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul). A instituição foi fundada em 2014 na Cúpula de Fortaleza (Brasil) e teve o início de suas operações no ano seguinte. Sete (7) dos 59 projetos aprovados pelo NDB foram destinados ao Brasil, totalizando o montante de US$ 1,5 bilhão (aproximadamente, 7,57 bilhões de reais, conforme cotação de 15 de junho de 2020) e perpassando diversos setores: transporte, desenvolvimento sustentável, energias renováveis, desenvolvimento urbano etc.

O Banco possui capital autorizado de US$ 100 bilhões (em torno de 504,81 bilhões de reais, de acordo com a mesma cotação), podendo realizar empréstimos anuais de até US$ 34 bilhões (próximo de 171,64 bilhões de reais, ainda segundo esta cotação) e tendo como objetivo estimular o desenvolvimento sustentável em países emergentes. A contribuição financeira e o poder de voto de cada país são divididos de forma igualitária. A sede do Banco está localizada em Xangai, na China, com um escritório regional em Johannesburgo, África do Sul. Ao final de 2019 foi aprovado um projeto legislativo para a criação de um escritório regional do NDB em São Paulo e um escritório de representação em Brasília.

Marcos Troyjo, o novo Presidente do NDB

Marcos Troyjo deixa o cargo que ocupava enquanto secretário especial de Comércio Exterior e Assuntos Internacionais do Ministério da Economia para suceder o indiano Kundapur Vaman Kamath na presidência do NDB. Troyjo deverá exercer a função por um mandato de cinco anos e enfrentando uma conjuntura especialmente desafiadora: um cenário internacional de instabilidade geopolítica, com o acirramento de tensões entre Estados Unidos e China, além das incertezas sobre os impactos que a crise do coronavírus acarretará para as estruturas da governança global.

A sigla dos BRICS foi originalmente lançada como BRIC (na época, apenas Brasil, Rússia, Índia e China), pelo economista Jim O’Neill, em 2006, como um acrônimo designando países com potencial de crescimento, nos quais valeria a pena investir. Surgiu como uma sigla de investimentos e foi posteriormente adotada pelos respectivos corpos diplomáticos dos países membros como uma iniciativa de cooperação internacional. Através dos anos o grupo foi ganhando materialidade e institucionalização, realizando cúpulas anuais, cooperação ministerial nos mais diversos temas e consolidando-se definitivamente com a criação do NDB.

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Por muitos anos apontou-se a heterogeneidade dos Estados membros como um dos entraves para a cooperação, mas a experiência tem demonstrado a habilidade e o pragmatismo dos corpos diplomáticos de forma a negociar e cooperar entre si, apesar das grandes divergências culturais e de regime político entre os membros. Entretanto, existe outra dificuldade premente que poderá impactar a concertação de interesses e a cooperação futura: instabilidades domésticas nos países membros.

O Brasil enfrenta a sua maior crise econômica desde 1929, além disto, a África do Sul também enfrenta problemas neste sentido. A Índia e a China continuam a manter altas taxas de crescimento nos anos recentes e embora não se possa dizer o mesmo da Rússia, este país continua sendo um ator importante na geopolítica global, devido ao seu poder militar e sua capacidade de projeção de influência através da Eurásia. 

Chefes de Estado dos BRICS na ocasião da Cúpula de 2019

A tendência parece apontar para uma crescente disparidade econômica, com a China decolando rapidamente à frente dos outros membros, o que talvez provoque assimetrias nos recursos de poder disponíveis para a negociação entre os BRICS. A próxima reunião de Cúpula foi adiada e deverá ocorrer em São Petersburgo, na Rússia, em Outubro (2020), se a pandemia de Covid-19 permitir. A Rússia ocupa a Presidência rotativa do grupo no ano de 2020, tendo sucedido o Brasil, que a ocupou no ano passado (2019). 

Em uma economia global profundamente conectada e interdependente, crises como a Covid-19 só podem ser enfrentadas através do diálogo, troca de conhecimentos e cooperação internacional. Nesse sentido, a necessidade de promover o desenvolvimento sustentável, a cooperação Sul-Sul e instituições globais mais justas são três dos principais temas que unem o grupo dos BRICS. Em relação à dimensão do desenvolvimento, a Covid-19 vem mostrando a necessidade de promover políticas industriais e fomento à ciência e tecnologia em países que não são capazes de produzir bens como respiradores e máscaras em quantidades suficientes.

Evolução da renda per capita dos BRICS entre 2000-2018

Governos e sociedades capazes de olhar além de suas fronteiras nacionais, promovendo a cooperação com parceiros estratégicos, poderão emergir desta crise como líderes na governança global que ainda está sendo moldada pelos impactos da pandemia. A atuação de Marcos Troyjo à frente do NDB poderá ser um exemplo positivo neste sentido.

Por fim, a cooperação não implica que os atores concordem com todos os termos de um determinado assunto. A cooperação exige negociação para alcançar pontos de benefícios mútuos e geralmente implica em concessões de todas as partes envolvidas. No entanto, especialistas afirmam que o resultado sistêmico ainda é mais positivo do que quando os Estados tentam buscar apenas os seus próprios interesses individuais.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Tipografia estilizada com as iniciais e as bandeiras dos países membros” (Fonte):

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/3/31/BRICS_Typography.svg/1280px-BRICS_Typography.svg.png

Imagem 2 Marcos Troyjo, o novo Presidente do NDB” (Fonte): https://www.flickr.com/photos/worldeconomicforum/39000368960

Imagem 3 Mapa demonstrando a localização dos BRICS” (Fonte):

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/b/bb/BRICS.svg/1280px-BRICS.svg.png

Imagem 4 Chefes de Estado dos BRICS na ocasião da Cúpula de 2019” (Fonte):

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/7/7d/2019_Reuni%C3%A3o_Informal_do_BRICS_-_48142657062.jpg/1280px-2019_Reuni%C3%A3o_Informal_do_BRICS_-_48142657062.jpg

Imagem 5 Evolução da renda per capita dos BRICS entre 20002018” (Fonte):

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/2/21/BRICS-GDP-pCapita-2000-2018.jpg

AMÉRICA LATINAANÁLISES DE CONJUNTURAÁSIA

Panorama para o futuro das relações entre a China e a América Latina

A presença da China na América Latina cresceu significativamente na última década. O país é o principal parceiro comercial da América do Sul e o segundo maior parceiro comercial da América Latina, ficando atrás apenas dos Estados Unidos. Segundo dados divulgados pela Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL), a China representa 11% das exportações regionais e 18% das importações. A próxima década será decisiva para as relações entre os chineses e os países latino-americanos. Nesse sentido, é importante compreender o panorama histórico e as perspectivas para o futuro.

O movimento de estabelecimento de relações com a China iniciou no governo de Mao Zedong (1949-1976), logo no princípio da década de 1970. Inicialmente, estabeleceram-se relações com 11 países: Chile, Peru, México, Argentina, Guiana, Jamaica, Trinidad e Tobago, Venezuela, Brasil, Suriname e Barbados. O sucessor de Mao Zedong, Deng Xiaoping (1978-1989), aprofundou esta tendência na década de 1980 executando uma política externa pragmática, e buscando parcerias político-diplomáticas e econômicas que pudessem auxiliar e legitimar a participação chinesa no sistema internacional*.

Mapa demonstrando a divisão entre o Sul Global e o Norte desenvolvido

Começando os anos 1990 houve uma expansão da política externa chinesa para a região, visando à obtenção de recursos naturais para fomentar o seu processo de desenvolvimento econômico. A partir de 1993 a China deixa de ser autossuficiente em matéria de energia e a busca por recursos naturais e alimentos torna-se necessária por questões econômicas e de segurança. Ressalta-se que as relações com a região são enquadradas no âmbito Sul-Sul** e crescem igualmente iniciativas de cooperação científica e tecnológica com diversos países.

Este processo se amplia a partir de 2001, quando a China ingressa oficialmente na Organização Mundial do Comércio (OMC) e lança a sua estratégia Going Global, que visava à expansão das empresas chinesas com o objetivo de garantir o acesso a recursos naturais. O século XXI marca o início de uma estratégia diplomática chinesa que enfatiza três elementos: 1) a ascensão pacífica da China como poder regional e global; 2) o conceito de um mundo multipolar; 3) a visão das Organizações Internacionais como principais instrumentos de política externa da China, sobretudo fora da Ásia.

Corroborando as afirmações anteriores, o país se torna Observador Permanente junto à Organização dos Estados Americanos (OEA) em maio de 2004. Da mesma forma, a China obteve o status de Observador Permanente na Comissão Econômica para a América Latina e Caribe (CEPAL), na Associação Latino-Americana de Integração (ALADI), no Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e no Parlamento Latino-Americano (PARLATINO).

Mandatários chinês Xi Jinping participando de uma reunião de Cúpula acerca dos meios de comunicação na América Latina

Em 2015, a China e a Comunidade dos Países Latino-Americanos e Caribenhos criaram o Fórum China-CELAC, um canal de diálogo para promover a cooperação chinesa com a região. Durante a segunda reunião ministerial do Fórum, o país convidou oficialmente a América Latina para juntar-se à Belt and Road Initiative (BRI), também conhecida como a Nova Rota da Seda, a principal iniciativa de política externa do mandatário Xi Jinping.

Adicionalmente, a América Latina vem crescendo como destino para os investimentos estrangeiros diretos (IED) da China. O estoque de IED chinês na região entre 2005-2019 está estimado em US$ 175,52 bilhões (em torno de 913,13 bilhões de reais, conforme cotação do dia 16 de abril de 2020), sendo que os principais setores de destino são: energia (57%); mineração (20%) e transporte e logística (11%), seguidos de diversos segmentos com valores menos expressivos. Com relação à modalidade de entrada do IED, estima-se que 62% seja realizado através de fusões e aquisições. Isto quer dizer objetivamente que a maior parte dos investimentos consistiu na compra de empresas locais e estrangeiras atuando na região.

Analistas apontam que a importância da China para o Sistema internacional continuará a crescer nas próximas décadas. O país emitiu dois White Papers delineando sua política externa para a América Latina, em 2008 e 2016. Isto mostra que o Governo chinês tem uma visão para a cooperação com a região, por outro lado, o contrário não ocorreu. Ou seja, a América Latina não articulou uma visão estratégica conjunta em relação ao aumento da presença chinesa. A conjuntura atual, na qual diversos países da região estão sofrendo crises econômicas, dificulta que tal iniciativa seja realizada.

Imagem demonstrando a composição das exportações chinesas, extraída do Atlas da Complexidade Econômica

Embora a China ainda se considere uma nação em desenvolvimento, o país é hoje a segunda maior economia mundial e já lidera em diversos segmentos da indústria, tendo passado por intenso processo de catching up em sua estrutura produtiva. A América Latina, por outro lado, não passou por um processo tão intenso de industrialização e desenvolvimento. A região é composta por países com economias muito heterogêneas, portanto é difícil falar da região como um todo. Não obstante, ao observar a estrutura produtiva e de exportações da maior economia local, o Brasil, a dicotomia fica clara: percebe-se uma estrutura produtiva menos diversificada e menos sofisticada/industrializada.

Portanto, embora os intercâmbios entre a China e a América Latina ainda sejam conceitualmente relações Sul-Sul, a disparidade de recursos fica evidente. É imperativo que se criem estratégias, planejamentos de longo prazo para a cooperação com a China, que busquem enfatizar a possibilidade de cooperação científica e tecnológica, e o upgrading industrial dos países latino-americanos. Esta é uma tarefa muito complexa, visto que a indústria chinesa compete em vários dos segmentos nos quais a indústria local possui expertise e especialização.

Imagem demonstrando a composição das exportações brasileiras, extraída do Atlas da Complexidade Econômica

Existe espaço e grande potencial para a cooperação com os chineses em áreas como construção de infraestrutura, âmbito no qual a América Latina é notoriamente deficitária e a China possui capital e experiência. A área de energias renováveis é outro exemplo notável para o desenvolvimento da cooperação bilateral nas próximas décadas. É importante salientar a cooperação com Brasil no desenvolvimento aeroespacial, mostrando um exemplo no qual há transferência de tecnologia e ganhos entre ambas as partes.

Entretanto, a conjuntura que está se delineando devido à ameaça global do coronavírus trará imensos desafios para os países latino-americanos, vários do quais já enfrentavam crises econômicas antes da pandemia. Este fator provavelmente prejudicará a capacidade da região de articular estratégias a nível internacional, à medida que as economias locais ficarão mais preocupadas com o seu contexto doméstico. Autoridades projetam uma queda de 2% no PIB global em 2020, evidenciando esta tendência.

A instabilidade econômica poderá acentuar a instabilidade política. Se este cenário se consolidar, deverá aumentar o risco de erosão das instituições em diversas democracias locais. É uma conjuntura que exige extrema cautela e conscientização popular. Uma vez passado o surto epidêmico, é importante que seja reforçada a cooperação internacional como um dos instrumentos capazes de auxiliar no desenvolvimento da América Latina, desde que os países da região saibam articular os seus projetos de desenvolvimento.

É necessário reforçar a promoção de iniciativas que incluam a transferência de conhecimento e tecnologia e o desenvolvimento industrial da América Latina, e não apenas fomentar a venda de empresas e a exportação de bens agrícolas e commodities. Para isto, será necessária a ação de líderes pragmáticos que não realizem alinhamentos automáticos. O futuro da América Latina vai exigir muita diplomacia, políticos competentes e mobilização popular acerca da promoção do desenvolvimento local e a preservação das instituições democráticas.

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Notas:

* Naquele momento o país estava promovendo a sua política de reformas e abertura lançada em 1978, inaugurando uma nova fase na política externa chinesa. Para maiores informações: https://ceiri.news/quarenta-anos-do-processo-de-abertura-e-reformas-na-china/.

** As relações Sul-Sul não dizem respeito necessariamente a países que pertençam ao hemisfério sul do planeta, mas faz referência ao seu estágio de desenvolvimento. O conceito se refere aos países que integram o Sul global e que estão trilhando o seu caminho de desenvolvimento econômico. Por relações Sul-Sul, entende-se que haja uma proximidade entre os recursos de poder das partes, diferentemente do que se estabelece quando um país desenvolvido negocia com um país emergente. Neste caso, refere-se como relação Norte-Sul, onde a disparidade de poder e recursos é maior. 

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Mapa demonstrando os países da América Latina” (Fonte): https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/6/63/Latin_America_%28orthographic_projection%29.svg/1024px-Latin_America_%28orthographic_projection%29.svg.png

Imagem 2 Mapa demonstrando a divisão entre o Sul Global e o Norte desenvolvido” (Fonte): https://en.wikipedia.org/wiki/Global_South#/media/File:North_South_divide.svg

Imagem 3 Mandatários chinês Xi Jinping participando de uma reunião de Cúpula acerca dos meios de comunicação na América Latina” (Fonte): https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Presidenta_asiste_a_la_inauguraci%C3%B3n_de_la_Cumbre_de_L%C3%ADderes_de_Medios_de_Comunicaci%C3%B3n_China-Am%C3%A9rica_Latina_(31052691622).jpg

Imagem 4 Imagem demonstrando a composição das exportações chinesas, extraída do Atlas da Complexidade Econômica” (Fonte): https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/e/ec/2014_China_Products_Export_Treemap.png

Imagem 5 Imagem demonstrando a composição das exportações brasileiras, extraída do Atlas da Complexidade Econômica” (Fonte): https://commons.wikimedia.org/wiki/File:2014_Brazil_Products_Export_Treemap.png

AMÉRICA LATINAANÁLISES DE CONJUNTURAÁSIA

Vice-Presidente do Brasil, Hamilton Mourão, vai à China para recalibrar as relações bilaterais

O Vice-Presidente da República Federativa do Brasil, Hamilton Mourão, partiu no dia 18 de maio (2019) em uma viagem de seis dias à República Popular da China (RPC), visando recalibrar as relações bilaterais entre os dois países. As declarações e a retórica negativa do presidente Jair Bolsonaro enquanto candidato deixaram os chineses preocupados sobre a disposição do Brasil em cooperar. Soma-se a isto a viagem realizada pelo Presidente à Taiwan no mesmo período, que rendeu represálias do Governo chinês.

O vice-presidente Mourão atua em uma situação muito complexa: deve tentar equilibrar as relações com a China, sem ficar totalmente afastado de grupos dentro do Governo que vêem com maus olhos a aproximação com a RPC e buscam um alinhamento aos Estados Unidos (EUA). Mantendo uma perspectiva pragmática, seria possível manter relações estratégicas com ambos os países. Mourão parece compreender estas oportunidades e está realizando um esforço para tal empreendimento. 

A China é o principal parceiro comercial do Brasil desde o ano de 2009, sendo, atualmente, o principal parceiro de 14 dos 26 estados da Federação. Segundo dados publicados pelo Ministério da Indústria, Comércio exterior e Serviços, o ano de 2018 registrou R$ 64,2 bilhões em exportações do Brasil para a China e R$ 34,7 bilhões em importações, apresentando saldo superavitário para os brasileiros.

Localização do Brasil e da China

No período entre 2003-2016 estima-se que a China tenha firmado mais de 180 acordos com o Brasil, tendo consolidado mais de US$ 61 bilhões em investimento estrangeiro direto, aproximadamente, 245,28 bilhões de reais, de acordo com a cotação de 28 de maio de 2019. Por outro lado, no mesmo período configuraram-se mudanças estruturais na economia brasileira. A participação da indústria na composição do PIB caiu de 18% para cerca de 11%. Ao final da década de 1980, a participação da indústria no PIB chegou a 33%. Neste sentido, é importante debater a dimensão qualitativa do comércio exterior brasileiro.  

As exportações do Brasil para a China foram compostas por 43% de soja, 22% de petróleo bruto e derivados e 17% em minério de ferro e concentrados. Por outro lado, as importações do Brasil foram majoritariamente de produtos manufaturados, incluindo circuitos, componentes eletroeletrônicos, máquinas e equipamentos, aparelhos transmissores ou receptores de energia, entre outros.

Ou seja, identifica-se ser preciso promover o aumento da complexidade econômica do Brasil, necessitando agregar valor aos produtos exportados e isto se faz através da indústria e da produção de tecnologia. Mourão foi categórico ao afirmar queO Brasil não pode ser só uma loja onde a China vai e compra itens. Tem que ser mais do isso. As coisas que vêm do Brasil têm que ter o mesmo valor que as que vêm da China. Estamos na era do conhecimento. A economia do século 21 é a economia do conhecimento, esse é o passo adiante que temos que dar nessa relação”.

Xi Jinping, mandatário da China

Devemos destacar que o mandatário da China, Xi Jinping, encontrou o vice-presidente Mourão pessoalmente. A cultura política chinesa valoriza altamente os gestos e a hierarquia, portanto, sob esta lógica, um Presidente deveria encontrar outro Presidente. O gesto demonstra que a China vê com importância as relações com o Brasil. Nas palavras de Xi: “Ambos os lados devem continuar a ver as oportunidades e a relação de parceria para promover o desenvolvimento mútuo, respeitando um ao outro, confiando um no outro, apoiando um ao outro e construindo as relações Brasil-China em um modelo de solidariedade e cooperação entre países em desenvolvimento”.

Durante este ano (2019), ocorrerão outros dois grandes eventos que podem aumentar as possibilidades de cooperação entre a China e o Brasil: a Décima Primeira Cúpula dos BRICS, sediada em Novembro (2019), no Brasil, e uma visita de Estado à China, planejada pelo Governo de Jair Bolsonaro para o segundo semestre, ainda sem data definida.

Especialistas afirmam que é improvável que ocorram grandes mudanças nas relações bilaterais. O que é mais provável é um relativo distanciamento ou uma relativa aproximação política do Governo Bolsonaro em relação à China, dependendo de como ocorrerem os próximos desenvolvimentos. O acirramento das tensões comerciais entre China e Estados Unidos, como tem sido visto nas últimas semanas, apresenta uma conjuntura de oportunidades.

Acredita-se que o Governo brasileiro deveria procurar conduzir uma diplomacia triangular, visando à aquisição de tecnologia, o intercâmbio de conhecimentos e a atração de investimentos tanto com os EUA quanto com a China. Entretanto, a administração de Donald Trump tem reduzido a participação global dos Estados Unidos, promovendo posturas nacionalistas. Por outro lado, a China visa promover a Nova Rota da Seda (Belt and Road Initiative), um já conhecido plano de investimentos internacionais, abordado em análises anteriores publicadas no CEIRI Newspaper.

Países membros da Belt and Road Initiative

Mourão afirmou que a adesão à Nova Rota da Seda está sendo considerada pelo Brasil e que o país vê com bons olhos a atuação da Huawei e o desenvolvimento da tecnologia 5G, assuntos de extrema importância para a China. Adicionalmente, foi reativada a Comissão Sino-Brasileira de Alto Nível de Cooperação e Concertação (COSBAN), comissão bilateral entre Vice-Presidentes do Brasil e da China, criada em 2004, e que se encontrava paralisada nos últimos anos.

A quinta reunião da COSBAN ocorreu em Pequim no dia 24 de maio, entre Mourão e o vice-presidente chinês Wang Qishan, discutindo temas como: 1) a participação dos países no BRICS; 2) os fluxos de investimentos existentes entre as duas economias; 3) a exportação da carne brasileira e dos aviões da Embraer para a China. Estas são questões técnico-burocráticas que poderão auxiliar a atuação das empresas brasileiras.

Se a conjuntura de concorrência internacional entre China e Estados Unidos continuar a se acirrar, é possível que os países se vejam obrigados a “escolher lados” como foi necessário na época de intensa disputa geopolítica da Guerra Fria. Entretanto, esta ainda não é uma realidade concreta. Portanto, é preciso que se evitem quaisquer movimentos de alinhamento automático. Mourão parece ser um dos agentes em posição para auxiliar a conduzir o Brasil neste período de múltiplos balanceamentos e relações com diversos atores. Pragmatismo na condução da política externa e o fortalecimento das nossas parcerias comerciais e estratégicas são atributos que o país necessita neste momento.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Vicepresidente do Brasil, Hamilton Mourão” (Fonte): https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/0/06/Mour%C3%A3o_no_Senado_em_Posse_presidencial_-_2019.jpg

Imagem 2 Localização do Brasil e da China” (Fonte): https://pt.wikipedia.org/wiki/Rela%C3%A7%C3%B5es_entre_Brasil_e_China#/media/File:Brazil_China_Locator.png

Imagem 3 Xi Jinping, mandatário da China” (Fonte): https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/e/ed/Xi_Jinping_2016.jpg

Imagem 4 Países membros da Belt and Road Initiative” (Fonte): https://www.silkroadbriefing.com/news/2019/04/29/2019-belt-road-forum-xi-jinping-actually-said-terms-belt-road-development-china-market-access/

ÁSIANOTAS ANALÍTICASPOLÍTICA INTERNACIONAL

Discurso de Xi Jinping enfatiza a sustentabilidade ao longo da Nova Rota da Seda

Ocorreu no final de abril (2019) o II Fórum da Nova Rota da Seda (Belt and Road Initiative) em Pequim, na China. O comunicado conjunto do evento reuniu 37 Estados, apontando crescimento em relação aos 29 países que estiveram presentes na primeira edição do evento que ocorreu em 2017. Neste ano (2019), foram fechados 283 acordos, totalizando US$ 64 bilhões* em investimentos anunciados. 

Os investimentos estrangeiros diretos da China em 56 dos países que compõem a Belt and Road Initiative cresceram 8,9% em 2018, se comparados ao ano de 2017. Estima-se que entre 2014-2017 mais de US$ 120 bilhões** tenham sido efetivamente destinados pela China no arcabouço da BRI. Os projetos na área de energia compõem 44% do montante, seguidos pelo setor de transporte que compõe 30% do total. Estima-se que existam mais de US$ 3,6 trilhões*** de investimentos anunciados e/ou planejados ao longo da Nova Rota da Seda.

Xi Jinping, mandatário da China

A China visa promover a BRI como uma ampla visão para a integração internacional, promovendo valores como a cooperação para ganhos mútuos (win-win), o estímulo aos fluxos de comércio e finanças, a coordenação de políticas econômicas e a construção de infraestrutura como via de desenvolvimento para os países emergentes. O discurso de Xi Jinping durante o evento enfatizou a importância do desenvolvimento sustentável e de energias renováveis como metas para a Belt and Road Inititative (BRI) nas próximas décadas.

Além disto, o mandatário abordou cinco principais pontos na sua fala: 1) aumentar a abertura do mercado chinês para empresas estrangeiras; 2) fortalecer os mecanismos de cooperação internacional para a proteção dos direitos de propriedade intelectual; 3) expandir a importação de produtos estrangeiros; 4) expandir o engajamento da China na coordenação de políticas macroeconômicas de acordo com os padrões internacionais; 5) aprofundar o processo de reformas e abertura da economia chinesa.

Países membros da Belt and Road Initiative

Desde o lançamento da Iniciativa no ano de 2013, a falta de clareza quanto aos projetos envolvidos e às diretrizes necessárias para que os diferentes empreendimentos pudessem ser considerados como parte da BRI levantou suspeitas a nível internacional. Os chineses parecem ter ouvido algumas das principais críticas realizadas por observadores internacionais, haja vista o discurso de Xi Jinping enfatizar a transparência e a necessidade de se cumprir acordos e seguir as normas do direito internacional. O endividamento dos países que contraem empréstimos chineses através da BRI é uma questão comumente apontada por analistas internacionais.

Um recente estudo lançado pelo Rhodium Group analisou quarenta (40) casos de renegociação de dívidas contraídas através da BRI entre os anos de 2013-2017. Os principais resultados afirmam que a renegociação das dívidas tem sido frequente, o que pode levar a China a ser mais cautelosa com os seus empréstimos no futuro. A apreensão de bens e infraestrutura, como foi o caso da aquisição do porto de Hanbantota no Sri Lanka, após o país não ter podido saldar o compromisso com a dívida, ocorreu em raríssimos casos. Por fim, embora existam assimetrias de poder e recursos entre a China e os países receptores de financiamento, o Reino do Meio tem tido dificuldades em conduzir a renegociação dos termos dos empréstimos ao seu favor. Apontam-se ainda os casos mais extremos de risco, como é a Venezuela, que recebeu US$ 62 bilhões de dólares em investimentos chineses**** na última década e atualmente se encontra em uma situação de grande instabilidade política e econômica.

Os objetivos do Desenvolvimento Sustentável para 2030

Foi lançada neste mês (maio) uma plataforma junto à UNCTAD para catalogar os projetos ligados à BRI, o que é um avanço importante. Antes disto, a compilação de projetos de infraestrutura ligados ao plano era feita de maneira informal por think tanks e diferentes centros de pesquisa, na ausência de uma base de dados oficial.

Em diversos pronunciamentos, a China se mostra engajada com os objetivos do desenvolvimento sustentável lançados pela Organização das Nações Unidas (ONU) para o ano de 2030. Entretanto, a ênfase na sustentabilidade anunciada por Xi Jinping entra em conflito com a realidade da BRI: mais de 90% dos projetos de energia envolvidos na Nova Rota da Seda concentram-se em torno do setor de combustíveis fósseis. A exemplo dos esforços domésticos empreendidos pelo país para a mudança gradual da sua matriz energética, é possível que a BRI se torne cada vez mais verde e sustentável, a questão é saber o tempo que isso demorará para efetivamente acontecer. O ponto positivo é que parece haver vontade política para promover tal mudança.

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Notas:

* Aproximadamente, 253,14 bilhões de reais, conforme cotação de 10 de maio de 2019.

** Em torno de 474,64 bilhões de reais, conforme a mesma cotação.

*** Próximos de 14,24 trilhões de reais, ainda de acordo com a cotação de 10 de maio de 2019.

**** Aproximadamente, 245,23 bilhões de reais, pela mesma cotação de 10 de maio de 2019.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Energias renováveis” (Fonte): https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/3/3f/Renewable_Energy_on_the_Grid.jpg

Imagem 2 Xi Jinping, mandatário da China” (Fonte): https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/e/ed/Xi_Jinping_2016.jpg

Imagem 3 Países membros da Belt and Road Initiative” (Fonte): https://www.silkroadbriefing.com/news/2019/04/29/2019-belt-road-forum-xi-jinping-actually-said-terms-belt-road-development-china-market-access/

Imagem 4 Os objetivos do Desenvolvimento Sustentável para 2030” (Fonte): https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/4/46/Sustainable_Development_Goals.jpg

ANÁLISES DE CONJUNTURAÁSIA

China e a tecnologia 5G: a nova revolução nas telecomunicações

A China vem promovendo uma série de investimentos em ciência e inovação de modo a alavancar-se como um dos centros de desenvolvimento de tecnologia nas próximas décadas. Dentro deste escopo mais amplo, encontra-se a tecnologia de telecomunicações 5G, aspecto no qual a Ásia está desponstando como líder no cenário global. Espera-se que a conectividade 5G provoque uma revolução nos modelos de negócios e nas cadeias de valor a nível internacional, tendo sua data de lançamento comercial prevista para o início de 2020.

Para que possamos dimensionar o potencial aportado pelas novas tencolgias, cabe mencionar as transformações ocorridas nas gerações anteriores da comunicação sem fio. A primeira geração permitiu a realização de ligações telefônicas sem fio. A segunda geração permitia além disto, o envio de mensagens SMS. A terceira geração permitiu o acesso à sites da internet, ainda que com pouca velocidade e dinamismo, se comparada aos padrões atuais. Já a tecnologia 4G permitiu o acesso e a transmissão de vídeos ao vivo, além de ter possibilitado o surgimento de novos modelos de negócios através do Sistema de Posicionamento Global (GPS, na sigla em inglês), tais como o UBER e o Airbnb.

5G Evento

Por sua vez, o 5G não conecta apenas smartphones, mas qualquer objeto que possua um chip. Neste ponto, podemos pensar na internet of things (IOT), ou seja, a aplicação de internet à objetos da vida cotidiana. Podemos igualmente pensar em carros inteligentes e/ou smart cities. Essencialmente, a 5G possibilitará que quase qualquer objeto da vida cotidiana colete e transmita dados, com uma velocidade estimada a ser 100 vezes superior à proporcionada pelo 4G.

Neste sentido, fazendo uma comparação com a economia tradicional, o veículo de mídia The Economist afirma que o acesso, controle e o uso de dados são comparáveis à detenção de petróleo no que diz respeito ao seu potencial para acumulação de capital na economia digital, setor que se propaga para o futuro: “Data is the new oil” (os dados são o novo petróleo).

Por outro lado, a transmissão dessa enorme massa de dados acaba por levantar suspeitas e preocupações relativas à segurança digital, privacidade e direitos individuais. Questões como estas estão longe de ser resolvidas, e a aplicação da tecnologia 5G deverá levantar importantes debates em relação às leis, regulação do espaço digital e ética nas atividades econômicas.

estudo prospectivo realizado pela empresa de consultoria Ernst Young estima que a China deverá possuir 576 milhões de usuários conectados ao 5G até 2025, o que constitutiria 40% do total global. A atual tensão comercial entre China e Estados Unidos tem como pano de fundo a disputa geopolítica pelo desenvolvimento e controle de tecnologias que vão originar a nova geração de empresas que dominarão os mercados mundiais em diversos segmentos. No cerne deste debate se encontra a capacidade da China no desenvolvimento 5G.

Logo da Huawei

O fomento à campeãs nacionais, empresas líderes que despontam em diferentes segmentos da economia mundial, é uma conhecida estratégia de política industrial. No caso da tecnologia 5G, a Huawei é a empresa que está capitaneando este processo na China. Em dezembro de 2018, os Estados Unidos (EUA) ordenaram a prisão da diretora financeira da companhia, Meng Wanzhou, por supostas violações à propriedade intelectual. Desde então, a Austrália e a Nova Zelândia se uniram aos EUA banindo a Huawei de suas atividades nesses países. Adicionalmente, o Reino Unido, a França, a Alemanha e a República Tcheca  demonstraram preocupações em relação à segurança da atuação da Huawei em seus territórios.

Ainda não existem informações suficientes para que se possa analisar conclusivamente estes casos, dado o período recente de sua ocorrência. No entanto, especialistas afirmam que é necessário levar em consideração a dimensão geopolítica envolvida no controle e produção de novas tecnologias, que está ligada às disputas com a Huawei. A empresa é especialmente qualificada para a produção da infraestrutura necessária para a expansão da nova tecnologia e os Estados Unidos têm receio de ficar dependentes de fornecedores chineses. Além disso, a China está em posicionada para angariar as vantagens inerentes à posição de primeiras empresas ingressantes em um novo mercado.

A tecnologia está mudando os negócios

Se os fatos geopolíticos continuarem ditando as regras no campo do desenvolvimento 5G, existe o risco de que se produzam dois ecossistemas separados: o primeiro deles centrado nos Estados Unidos, se espraiando para os seus principais aliados transatlânticos; e outro centrado na China e se espraiando pelo espaço eurasiático, pela África e, possivelmente, pela América Latina.

Tal hipótese seria políticamente custosa e econômicamente ineficiente. Neste cenário existe a maior probabilidade de aproximação dos países em desenvolvimento em relação à China, devido às suas vantagens de custo e à estratégia chinesa de prover financiamento para projetos de infraestrutura ao redor do mundo.

Por fim, outra conjuntura possível reside em uma visão conciliatória, na qual percebe-se que há espaço para ganhos relativos entre todos os agentes econômicos ingressantes em novos setores. Sob esta perspectiva, a eficiência, a inovação, os custos e a capacidade de gestão ditariam o espaço ocupado pelas empresas de determinado país no cenário global da telecomunicação 5G.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Imagem demonstrando a tecnologia 5G” (Fonte): https://c.pxhere.com/images/cc/6e/38d2434782e68a917435e59e3c32-1444337.jpg!d

Imagem 2 5G Evento”(Fonte): https://www.flickr.com/photos/janitors/25405606331/in/photostream/

Imagem 3 Logo da Huawei” (Fonte): https://www.flickr.com/photos/[email protected]/13482871425

Imagem 4 A tecnologia está mudando os negócios” (Fonte): http://i.vimeocdn.com/video/498469360_1280x720.jpg

ÁSIANOTAS ANALÍTICASPOLÍTICA INTERNACIONAL

Os maiores congressos políticos da China indicam rumos para a economia do país em 2019

Ocorreram entre os dias 5 e 15 de março deste ano (2019) as duas sessões (“two sessions”) do Congresso Nacional Popular (National People’s Congress) da China. Neste evento são tomadas importantes decisões sobre os rumos do país, reunindo importantes personalidades públicas e privadas. A desaceleração da economia chinesa e a guerra comercial com os Estados Unidos foram assuntos em foco.

As Two Sessions reúnem anualmente mais de 3.000 membros do Congresso Nacional do Povo (NPC), além do órgão conhecido como Conferência Consultiva do Povo Chinês (CNPPCC). Nesta ocasião serão ratificados regulamentos e leis, além de ocorrerem discussões relacionadas à mudança de funcionários e alterações na composição do orçamento nacional.

O premier Li Keqiang anunciou a meta de crescimento do PIB flutuando entre 6% a 6,5% para 2019. Além disto foi anunciado o corte de impostos sobre o setor empresarial, no sentido de estimular a atividade econômica do país. Por outro lado, foi destacada a importância de manter a estabilidade da política monetária, evitando a excessiva emissão de moeda e injeção de dinheiro na economia.

O relatório inclui menções à preocupação com a eficiência dos serviços de saúde e educação, além da necessidade de aprimorar a regulamentação da vacinação no país. Outro tópico importante diz respeito à continuidade dos investimentos no crescimento do poder militar da China, que deverão apresentar uma alta de 7,5% neste ano (2019), comparado com um crescimento de 8,1% no ano passado. Se mantida esta meta, o montante investido no setor militar deverá chegar a US$ 178 bilhões (aproximadamente, 678,67 bilhões de reais, conforme cotação de 19 de março de 2019), sendo grandemente destinado à Marinha chinesa.

Imagem simbolizando a bandeira da China

O slogan “Made in China 2025” não apareceu nem uma única vez no relatório anual. Embora haja pontos que reafirmem a necessidade de continuar promovendo a modernização da estrutura produtiva chinesa. O programa “Made in China 2025” consiste em uma política industrial visando transformar a China em um líder em tecnologias de ponta, tais como: big data, biotecnologia, inteligência artificial, robótica, entre outros setores. A China investirá mais de 2,5% do seu PIB em ciência e tecnologia em 2019. Em termos absolutos, o montante será de mais de US$ 300 bilhões (aproximadamente, 1,144 trilhão de reais, de acordo com cotação de 19 de março de 2019), ficando atrás apenas dos Estados Unidos.

O contexto das disputas comerciais com os Estados Unidos pode explicar a omissão desta política, que pode causar tensão para os policy-makers norte-americanos e europeus. O Premier afirmou que o país está dedicado a melhorar o tratamento das empresas internacionais que venham a China, impedindo, por exemplo, que haja exigências em relação à transferência de tecnologia como condição para instalação no país. Esta lei será votada ainda neste ano e a declaração de Li Keqiang visa reforçar o compromisso da China com reformas que poderão aliviar as tensões com os Estados Unidos.

Li Keqiang, Premier da República Popular da China

A guerra comercial travada com os norte-americanos é um ponto de preocupação para os chineses.  Entretanto, apesar de todas as dificuldades e desafios para a economia chinesa, é muito cedo para prever uma crise ou uma súbita queda no seu processo de desenvolvimento, lembrando que analistas ocidentais já previram a falibilidade do modelo chinês em diversas ocasiões nos últimos 30 anos.

A realidade é que a máquina estatal da China possui uma estabilidade inerente em relação ao mandato dos seus políticos, que lhes permite traçar estratégias de longo prazo. Além disto, a organização dos planos econômicos quinquenais traz uma conexão do topo da economia com as amplas bases da sociedade. Este processo é decorrente da coleta de informações advindas tanto dos níveis nacional, provinciais, municipais e mesmo distritais.

Por fim, deve-se reafirmar alguns dos desafios para o futuro: a taxa de endividamento do Estado chinês é uma questão que está confrontando os policy-makers locais. Os desafios ambientais e a reforma do modelo energético (energy mix) do país rumo à utilização de tecnologias sustentáveis serão outros difíceis processos a serem conduzido através das próximas décadas.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Imagem demonstrando o Congresso do Partido Comunista da China” (Fonte): https://commons.wikimedia.org/wiki/File:18th_National_Congress_of_the_Communist_Party_of_China.jpg#/media/File:18th_National_Congress_of_the_Communist_Party_of_China.jpg

Imagem 2 Imagem simbolizando a bandeira da China” (Fonte): https://pixabay.com/illustrations/china-map-flag-red-outline-112116/

Imagem 3 Li Keqiang, Premier da República Popular da China” (Fonte): https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Li_Keqiang-19052015.png