AMÉRICA DO NORTEAMÉRICA LATINAANÁLISES DE CONJUNTURAORIENTE MÉDIO

O Acordo Nuclear do Irã: consequências para o Brasil e Argentina?

Dia 14 de julho de 2015, o grupo de potências mundiais “E3/UE+3” (China, EUA e Rússia, juntamente com três membros da União Europeia, Reino Unido, França e Alemanha) e o Irã concluíram em Viena, após meses de intensas negociações, um Acordo final sobre o Programa Nuclear Iraniano, destinado a garantir a natureza estritamente pacífica desse programa, em troca da suspensão das sanções internacionais contra o Irã, estabelecidas por diversas Resoluções do Conselho de Segurança da ONU.

O próximo passo será o Conselho de Segurança da ONU aprovar o Acordo na forma de Resolução, que também suspenderá as sanções estabelecidas pelas Resoluções anteriores. Isto está previsto para ocorrer hoje, dia 21 de julho de 2015. Algumas medidas serão, no entanto, mantidas como exceção.

As sanções americanas e europeias relacionadas com o Programa Nuclear Iraniano visando os setores das finanças, energia e transporte, serão levantadas “assim que o Irã implemente” os compromissos assumidos pelo Acordo. Essa implementação deverá ser atestada por um relatório da AIEA, o que não deve acontecer antes de 2016. As sanções sobre aquisição de armas convencionais no exterior vão ser mantidas por cinco anos, mas exceções poderão ser concedidas pelo Conselho de Segurança. Toda aquisição pelo Irã de componentes para mísseis balísticos com capacidade de transportar ogivas nucleares permanece banida por um período indeterminado.

Não deixa de ser irônico o fato de dois dias depois da finalização do acordo, em 16 de julho de 2015, estar se completando 70 anos da primeira explosão de uma bomba nuclear, o teste “Trinity” de um dispositivo de plutônio, modelo básico da arma lançada sobre Nagasaki em 10 de agosto de 1945. Note-se que mesmo naqueles primórdios, havia tal confiança dos projetistas americanos nas armas nucleares desenvolvidas pelo chamado “Manhattan Project”, que não foi julgado necessário testar o dispositivo de urânio, lançado sobre Hiroxima quatro dias antes, em 6 de agosto.

O texto integral do Acordo é altamente técnico, mas, surpreendentemente, é bastante legível para um documento internacional de controle de armas tão polêmico. A Casa Branca publicou uma página na internet que explica o Acordo em termos bastante didáticos.

Ele visa bloquear o acesso do Irã ao material necessário à construção de um explosivo nuclear, ou seja, urânio altamente enriquecido (alto teor do isótopo 235) ou plutônio “grau de arma” (alto teor do isótopo 239 e baixo conteúdo de isótopos mais pesados). Esse acesso poderia ser viabilizado por quatro caminhos distintos, os quais o Acordo busca bloquear: produzir urânio altamente enriquecido na instalação de Natanz; ou na instalação subterrânea de Fordow (protegida contra ataques aéreos); produzir plutônio “grau de arma” no reator de pesquisa de Arak e, por último, produzir esses materiais em locais secretos. Vejamos então os principais parâmetros do Acordo.

O parâmetro crucial para acesso aos materiais físseis é o chamado “Breakout time”, avaliação técnica do tempo necessário para o Irã produzir urânio altamente enriquecido suficiente para a fabricação de uma arma. Quanto mais longo esse tempo, mais viável se torna para a comunidade internacional detectar essa tentativa em tempo para atuar no sentido de bloqueá-la. Este tempo é atualmente de 2 a 3 meses, considerando o inventário de urânio de baixo enriquecimento existente e a capacidade separativa, ou seja, de enriquecimento, instalada em Natanz e Fordow, da ordem de 19.000 centrífugas. Natanz é a principal instalação de enriquecimento iraniano, com cerca de 17.000 centrífugas IR1 de primeira geração, 1.000 de IR2M, mais eficientes, e tem capacidade de acomodar um total de 50.000 máquinas.

Note-se que enriquecimento de urânio por centrifugação abre caminho para diferentes utilizações, segundo o grau de enriquecimento (taxa de concentração de isótopo U235): 3,5 a 5% para combustível de usinas nucleoelétricas, 20% para combustível de reatores de pesquisa e produção de radioisótopos para usos médicos e industriais, e 80-90% para uma arma. Esta última etapa, que vai dos 20% aos 90% é, tecnicamente, a de produção mais rápida. O Irã terá, portanto, que reduzir seu estoque de urânio de baixo enriquecimento, que hoje é de 10.000 kg, para 300 kg, por um período de 15 anos.

O Acordo, portanto, prevê o aumento desse “Breakout time”, com a redução do número de máquinas para 6.104 num prazo de dez anos. Todas as centrífugas autorizadas pelo Acordo ficarão em Natanz e serão aquelas cujos modelos são mais antigos e menos eficientes. Essa instalação, porém, não poderá produzir urânio com enriquecimento superior a 3,67%, o que é compatível com o grau exigido para fabricação do combustível da usina nucleoelétrica de Bushehr, durante 15 anos. Essa instalação passará a ser a única usina de enriquecimento iraniana, mantendo apenas 5.060 centrífugas, todas IR1. As centrífugas IR2M serão retiradas e colocadas sob controle da AIEA.

A instalação de Fordow, construída sob um maciço montanhoso e, portanto, praticamente impossível de ser destruída por ataque aéreo, permanecerá aberta, mas não será permitida nenhuma atividade de enriquecimento nela nos próximos 15 anos. Todo o urânio enriquecido existente em Fordow será de lá retirado. Cerca de dois terços de suas máquinas serão também removidas do local.

O Irã se compromete também a não construir nenhuma nova instalação de enriquecimento de urânio nesse período de 15 anos. Contudo, poderá prosseguir com suas atividades de pesquisa com centrífugas mais modernas e começar a fabricação, após oito anos, dos IR6, dez vezes mais eficazes que as máquinas atuais, e a IR8, com desempenho 20 vezes superior.

O Acordo visa também impedir que o Irã produza plutônio “grau de arma”, outro material físsil que pode compor o explosivo de uma nuclear. Esse material é produzido pela irradiação do combustível de reatores de pesquisa e produção de radioisótopos. O reator de água pesada em construção pelo Irã em Arak será modificado de modo a torná-lo incapaz de produzir esse tipo de plutônio. Todo combustível nele irradiado será enviado ao exterior durante toda a vida do reator. O Irã também não poderá construir um novo reator desse tipo durante 15 anos.

A Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), já presente no Irã, será responsável por controlar regularmente todas as instalações nucleares iranianas, e terá suas prerrogativas consideravelmente reforçadas. Suas ações de salvaguardas se estenderão a todo Programa Nuclear Iraniano, desde a mineração e beneficiamento de urânio à Pesquisa & Desenvolvimento, passando pela conversão e o enriquecimento. Os inspetores da AIEA poderão ter acesso às minas de urânio e aos locais onde o Irã produz o “yellow cake” (concentrado de urânio) durante 25 anos.

O Irã também concedeu um acesso limitado dos inspetores da AIEA a suas instalações não nucleares, principalmente as militares, em caso de suspeita de atividade nuclear ilegal. Esse acesso é previsto pelo Protocolo Adicional (PA) ao Acordo de Salvaguardas decorrente das obrigações assumidas pelo Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP), que o Irã se comprometeu a ratificar e efetivamente implementar. Note-se que Irã assinou o PA com a AIEA em 2003, mas nunca o ratificou. Apesar disso, aplicou-o de 2003 a 2006, quando então anunciou que deixaria de implementá-lo.

É justamente nesses pontos finais, ou seja, na implementação do Protocolo Adicional, que residem possibilidades de consequências do acordo nuclear do Irã para Brasil e Argentina. Conforme discutido em outro artigo, Brasil e Argentina constituem um caso especial na aplicação de salvaguardas da AIEA de acordo com o TNP.

Inicialmente, os dois países não aderiram ao TNP (1968). Bilateralmente, ambos instituíram um sistema de salvaguardas regional (1991) baseado na Agência Brasil Argentina de Contabilidade e Controle (ABACC). Em seguida, firmaram um Acordo deSalvaguardas Abrangentes com a AIEA (1994). Somente depois de estabelecido este sistema regional, reconhecido pela AIEA e do qual ela é parte ativa, os países aderiram ao TNP (Argentina em 1998, Brasil em 1999).

Uma demonstração clara da importância do regime de salvaguardas regional adotado pelo Brasil e Argentina vem das negociações ocorridas para revisão das diretrizes do Nuclear Suppliers Group (NSG). Cabe ressaltar que o NSG não é um órgão da AIEA. Logo, suas diretrizes não têm o respaldo direto nos tratados internacionais de salvaguardas em vigor. O NSG é constituído em base voluntária e suas Diretrizes não são legalmente obrigatórias. Cabe a cada Estado membro, em sua exclusiva soberania nacional, decidir se autoriza ou não exportações de itens controlados.

Nas negociações no NSG para a revisão das Diretrizes relativas ao controle de transferências de tecnologias de enriquecimento de urânio e reprocessamento de combustível irradiado, o Brasil empenhou-se em evitar que a adoção de PA viesse a ser considerado critério imprescindível para a transferência dessas tecnologias.

Após consistente esforço diplomático, o Brasil conseguiu que fossem estabelecidos dois critérios objetivos alternativos para que um país se qualifique a receber tais tecnologias: (a) ter um PA em vigor ou (b) fazer parte de um Acordo Regional para aplicação de salvaguardas aprovado pela Junta de Governadores da AIEA, antes da adoção do modelo de Protocolo Adicional (1997), condição que é atendida apenas pelo Brasil e pela Argentina (por meio do Acordo Quadripartite) e pelos EstadosParte da Agência Nuclear Europeia (EURATOM). Isto configurou um importante êxito da diplomacia brasileira.

É fato que a adoção de um PA como “critério imprescindível” para a transferência dessas tecnologias não afeta diretamente de forma significativa os interesses do Brasil no âmbito restrito do NSG. Entretanto, entende-se que a adoção de um PA elevada a um “critério imprescindível”, ainda que em âmbito restrito ao NSG, seria um precedente que viola a firme posição do Brasil no sentido do caráter voluntário da adoção do PA em quaisquer âmbitos.

A Estratégia Nacional de Defesa (END), aprovada pelo Decreto nº 6.703, de 18 de dezembro de 2008, estabelece que oBrasilnão aderirá a acréscimos ao Tratado de Não-Proliferação de Armas Nucleares destinados a ampliar as restrições do Tratado sem que as potências nucleares tenham avançado na premissa central do Tratado: seu próprio desarmamento nuclear”. A condicionante para acréscimos ao TNP, que seria avanços reais no desarmamento das potências nucleares, certamente não foi atendida nem o será no curto prazo.

A adoção de um Acordo Regional para aplicação de salvaguardas aprovado pela Junta de Governadores da AIEA antes da adoção do modelo de PA como alternativa é uma postura coerente com a END e com o princípio da voluntariedade na adoção dePA por Brasil e Argentina, que vem sendo defendida com êxito pela diplomacia de ambos os países há mais de uma década, sendo um tema razoavelmente “pacificado”, mas nunca esquecido.

A efetiva aplicação do Acordo Nuclear do Irã, entretanto, poderá mudar essa situação “pacífica”. Ainda que pareça pouco provável, dadas as condições políticas internacionais, o E3/UE+3 pode, “animado” pelo sucesso da aplicação do PA no Irã, se voltar para os países que ainda não adotaram um PA, exercendo pressões políticas e até mesmo econômicas para universalizar sua implementação. Se verificarmos na lista dos países que ainda não o adotaram, Brasil e Argentina surgem como dos únicos que tem uma indústria nuclear desenvolvida e, portanto, seriam alvos preferenciais, caso tal “investida” realmente venha a ocorrer.

Cabe à diplomacia dos dois países ficarem muito atentas aos desdobramentos do Acordo Nuclear do Irã e identificarem indícios de que tal possibilidade possa vir a se concretizar para poder reagir em tempo de forma coordenada e eficaz na defesa do regime de salvaguardas regional implantado pelos dois países que é hoje um modelo de sucesso reconhecido internacionalmente e que tem sido citado como procedimento que poderia ser aplicado em outras regiões do mundo, até mesmo no Oriente Médio.

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Imagem (Fonte):

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Fonte Consultada:

Avaliação de Leonam dos Santos Guimarães: Doutor em Engenharia, Diretor de Planejamento, Gestão e Meio Ambiente da Eletrobrás Eletronuclear e membro do Grupo Permanente de Assessoria do Diretor-Geral da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA).

ENERGIANOTAS ANALÍTICASPOLÍTICAS PÚBLICAS

Geração Elétrica Nuclear nos BRICS

A Geração Elétrica Nuclear faz parte da matriz energética de Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul com diferentes graus de contribuição. Somado, o parque de geração nuclear do BRICS monta a 86 usinas em operação*, o que representa 20% do parque mundial. Em termos de geração mundial de eletricidade nuclear, os BRICS produziram 15% do total de 2,5 mil TWh** em 2014.

O grupo também tem 40 usinas em construção***, o que representa 60% das futuras usinas a entrarem em operação ao longo dessa década. A forte participação fica por conta de China, Rússia e Índia. Na África do Sul, o Governo chegou a lançar mais de uma vez licitações internacionais, porém a decisão firme para início de construção de uma terceira usina vem sendo seguidas vezes postergada.

No Brasil há apenas uma usina em construção (Angra 3, com 1.405 MW) com início de operação em 2018. O Governo brasileiro, entretanto, tem anunciado novas unidades em horizontes de mais longo prazo. O Plano Nacional de EnergiaPNE 2030, lançado em 2008, considerava a instalação de 4.000 MW nucleares adicionais após a entrada em operação de Angra 3, porém ainda sem decisões firmes para efetivo início de construção.

A Rússia é um país que tem fartura de recursos energéticos, principalmente gás natural. Sua condição de potência nuclear militar lhe propiciou a base tecnológica para a exploração da geração elétrica nuclear, mas as baixas condições de segurança em seus reatores, tanto de projeto como na operação, levaram ao desastre de Chernobyl. Em 2010 as fontes hídricas, carvão e nuclear respondiam por cerca de 17% cada uma e o gás natural por 47%.

Não há participação significativa de energias alternativas na matriz elétrica russa. A produção a partir de petróleo está sendo desativada, como na maioria dos países, enquanto a participação da energia nuclear cresceu 38% em relação à de 1990. A Rússia tem 9 reatores em construção com capacidade total prevista de 8,2 GW.

A Índia é um país em rápido desenvolvimento, cuja opção para geração foi predominantemente o carvão. Seu PIB entre 1971 e 2009 cresceu 5,7% ao ano, tendo se multiplicado por um fator 8,1. O consumo de eletricidade foi multiplicado por 13,5 tendo crescido a 7,1% ao ano em média.

O país tem 21 reatores nucleares em operação e 6 em construção, com uma potência adicional prevista de 4,8 GW. A Índia é importadora de energia fóssil e depende do abastecimento externo em 16% do carvão, 81% do petróleo e 21% do gás natural.

A crescente aceitação da Índia como potência nuclear militar “de facto” tem aberto caminhos para a cooperação internacional que facilitam essa expansão.

A geração elétrica na China cresceu 9,0% ao ano entre 1971 e 2009, tendo sido multiplicada por um fator 27. O uso da eletricidade passou de 138 TWh para 3.696 TWh por ano. O PIB real cresceu 9,4% ao ano no mesmo período, tendo sido multiplicado por um fator 30****. Para atender este grande crescimento da demanda, a China adotou o carvão como combustível básico, cuja participação atingiu 80%.

Um grande investimento foi feito ainda em hidrelétricas, cuja participação, no entanto, após superar 20% nas décadas de setenta e oitenta, foi reduzida em alguns pontos percentuais. A participação do petróleo, que também chegou a superar 20%, foi reduzida a menos de 0,5% em 2009.

A China é praticamente independente de importação de carvão (4%), mas é dependente de importação de petróleo (52%) e importa 5% do gás natural que consome. Embora sem participação significativa na sua geração atual, a China tem ambiciosos programas nuclear e de energias alternativas.

Estão sendo construídos na China Continental 27 reatores com capacidade total de 26,6 GW, e ela está se preparando para ser fornecedora de centrais nucleares para o exterior. Dois outros reatores estão em construção em Taiwan. A China está atuando fortemente na área de produção de coletores fotovoltaicos a preços muito inferiores aos dos concorrentes e está a caminho de dominar este mercado. Também é líder mundial em energia eólica.

A geração elétrica na África do Sul é amplamente dominada pelo carvão, que responde por mais de 90% do total da eletricidade produzida no País. Isso se explica, basicamente, pela abundância desse recurso natural no país. A segunda maior fonte é a nuclear, com 6%. O gás natural e as renováveis, basicamente hidrelétricas, respondem por parcelas complementares muito pequenas.

A geração nuclear não deverá ser majoritária nestes países, mas continuará a ser uma opção relevante nas suas políticas e matrizes energéticas. A cooperação existente dentro do grupo no setor é ainda muito limitada, mas apresenta perspectivas concretas de acelerado crescimento nos próximos anos.

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* 2 no Brasil, 34 na Rússia, 27 na China, 21 na Índia e 2 na África do Sul.

** Brasil – 15.385 GW.h (2,86% do total de geração nacional); Rússia – 169.049 GW.h (18,57%); Índia – 33.232 GW.h (3,53%); China – 130.580 GW.h (2,39%) e África do Sul – 14.749 GW.h (6,20%)

*** 1 no Brasil; 24 na China; 6 na Índia e 9 na Rússia

**** No mesmo período, o PIB do Brasil se multiplicou por um fator 4,3!

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Imagem (Fonte):

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Fonte consultada:

Avaliação de Leonam dos Santos Guimarães: Doutor em Engenharia, Diretor de Planejamento, Gestão e Meio Ambiente da Eletrobrás Eletronuclear e membro do Grupo Permanente de Assessoria do Diretor-Geral da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA).

ENERGIANOTAS ANALÍTICASPOLÍTICAS PÚBLICAS

Conferência de Revisão 2015 do Tratado de Não-Proliferação Nuclear

A Conferência de Revisão do Tratado de Não-Proliferação Nuclear (TNP) está em andamento desde 27 de abril, devendo encerrar-se em 22 de maio. Nessa Conferência, diplomatas dos EstadosMembros do Tratado juntamente com centenas de Organizações Não Governamentais (ONGs) irão se reunir na sede das Nações Unidas, em Nova Iorque, para discutir como um dos instrumentos internacionais de segurança mais importantes do mundo pode ser reforçado para enfrentar os desafios nucleares que se colocam na atualidade, alguns deles antigos, outros emergentes. Essa revisão ocorre de 5 em 5 anos, tendo a última se realizado em 2010. A Conferência de 2015 provavelmente revelará tensões em relação à execução de alguns dos principais compromissos do plano de ação acordado na Conferência de 2010.

Ao longo dos últimos 45 anos, o TNP tem estabelecido um conjunto indispensável, ainda que imperfeito, de obrigações e normas de não proliferação e desarmamento nuclear. Reforçado pelos controles de exportação e pelo sistema de salvaguardas da Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA), o TNP tem tornado muito mais difícil para os estados não possuidores de armas nucleares a possibilidade de adquirirem ou construírem armas sem serem detectados. Igualmente importante, o Artigo VI do TNP compromete os Estados Unidos, Rússia, Reino Unido, França e China, os cinco Estados detentores de armas nucleares que são parte do Tratado, a terminar com a corrida armamentista, parar com os testes nucleares e alcançar o desarmamento nuclear.

Ao invés das dezenas de Estados com armas nucleares conforme era previsto antes do TNP entrar em vigor em 1970, apenas quatro países adicionais (Índia, Israel, Paquistão e Coreia do Norte), dos quais os três primeiros nunca foram partes do TNP e o quarto dele se retirou, tem essas armas hoje, e o tabu contra o uso de armas nucleares se tornou muito mais forte.

A Conferência de Revisão do TNP 2015 oferece uma nova oportunidade para os EstadosMembros adotarem um plano de ação equilibrado e voltado para o futuro, que permita aperfeiçoar as salvaguardas nucleares, criar mecanismo de proteção contra retirada unilateral de um estado-membro do Tratado, acelerar os progressos em matéria de desarmamento e enfrentar os desafios regionais de proliferação nuclear.

Há uma frustração generalizada com o ritmo lento em que os objetivos de desarmamento nuclear previstos pelo Artigo VI do TNP vem sendo alcançados e pela falta de acordo entre os signatários do Tratado sobre a melhor forma de avançar no desarmamento nuclear. Embora os Estados Unidos e a Rússia estejam implementando o Novo Tratado de Redução de Armas Estratégicas (New START) desde 2010, ainda não começaram as negociações sobre novas reduções dos arsenais nucleares. A crise na Ucrânia, com a anexação da Criméia pela Rússia, provavelmente será severamente criticada por alguns EstadosMembros como uma violação dos compromissos de segurança feitos em 1994, quando Kiev se juntou ao TNP como um Estado sem armas nucleares.

Ao mesmo tempo, a maioria dos Estados com armas nucleares, membros e não membros do NPT, está modernizando seus arsenais nucleares. Isso está levando alguns países não possuidores de armas atômicas a defenderem uma negociação para proibição total dessas armas, mesmo sem a participação dos Estados que não as detém; enquanto outros estão pressionando pela efetivação dos compromissos-chave de desarmamento assumidos na Conferência de Revisão do TNP de 2010.

Em 2010, os EstadosMembros decidiram convocar uma conferência sobre uma zona livre de armas nucleares e outras armas de destruição em massa no Oriente Médio, mas as principais partes interessadas, incluindo o Egito (membro do TNP) e Israel (não membro do TNP), não conseguiram se entender sobre a forma de chegar a uma agenda, data e local para essa conferência. Essa questão pode aquecer a retórica das partes durante a Conferência de Revisão do TNP 2015.

Em contrapartida, o AcordoQuadro de 2 de abril de 2015 entre seis potências mundiais e o Irã sobre um acordo global acerca do seu programa nuclear provavelmente vai ser elogiado como um desenvolvimento positivo que pode, se finalizado e implementado, reforçar o TNP e impedir o surgimento de outro Estado com armas nucleares na região.

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Imagem (Fonte):

 wikipedia

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Fonte consultada:

Avaliação de Leonam dos Santos Guimarães: Doutor em Engenharia, Diretor de Planejamento, Gestão e Meio Ambiente da Eletrobrás Eletronuclear e membro do Grupo Permanente de Assessoria do Diretor-Geral da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA).

 

AMÉRICA DO NORTEANÁLISES DE CONJUNTURAÁSIAORIENTE MÉDIO

O Poder da Energia

O Poder da Energia, Energy Power, é a capacidade de uma nação em empregar suas vantagens em tecnologia e produção de energia para promover seus interesses globais e contrariar os de seus rivais. Isto pode significar, por exemplo, o fornecimento de energia para os aliados que se tornaram fortemente dependente de suprimentos fornecidos por concorrente, como nos esforços norte-americanos de reduzir a dependência da Europa do gás natural russo. Também pode significar a implantação de uma plataforma de petróleo em águas disputadas como um meio de afirmar seu controle, como nas operações chinesas de prospecção de petróleo no Mar do Sul da China. O fornecimento de energia pode ser usado para reforçar os laços com um parceiro geoestratégico, como no acordo nuclear forjado entre Estados Unidos e Índia, ou para punir um vizinho recalcitrante, como em repetidas vezes que a Rússiafechou a válvula” de gás natural para a Ucrânia. Apesar de não ser tão duro como o Poder Militar (Hard Power) o Energy Power pode implicar políticas muito mais duras do que o Poder Brando (Soft Power), de natureza política, diplomática, ideológica e cultural.

O fornecimento de energia tem sido há muito tempo usado como instrumento da política internacional. O Japão ampliou seu império antes da 2ª Guerra na Ásia e os Estados Unidos, que era então o principal fornecedor de petróleo ao Japão, impôs sanções cada vez mais severas nas suas exportações aquele país em uma tentativa (infrutífera) de impedir novas agressões japonesas. Em 1973-74, os países árabes da OPEP tentaram desencorajar o apoio a Israel através da imposição de um embargo sobre o fornecimento de petróleo, provocando uma desaceleração econômica global. Nesses exemplos, o Hard Power nunca esteve muito longe das mentes dos formuladores dessas políticas. O que torna a situação diferente hoje é que o Energy Power passou a ser visto como uma alternativa viável ao Hard Power num momento em que o uso da força militar entre as principais potências parece altamente improvável.

O recente aumento na produção de petróleo dos Estados Unidos tem sido útil para forçar o Irã a buscar uma solução negociada para a disputa sobre suas atividades de enriquecimento de urânio. O Irã já foi capaz, no passado, de contrariar as sanções econômicas impostas por Washington, explorando a sede mundial pelo seu petróleo, mas agora se encontra cada vez mais isolado com aumento da produção dos EUA neutralizando o impacto global da diminuição de suas exportações.

Considere-se a resposta dos EUA às incursões da Rússia na Ucrânia. No passado, esse tipo de comportamento teria provocado advertências tonitruantes de uma possível ação militar dos EUA e na movimentação de navios de guerra e aviões de combate para áreas próximas. Hoje, entretanto, mesmo os “falcões” de garras mais afiadas descartam o uso da força. Em vez disso, o setor de energia passou a ser o canal preferido para pressionar Putin. O Governo dos EUA tem procurado negar tecnologia e financiamento ocidental para empresas de energia russas e influenciar na queda dos preços internacionais do petróleo, na expectativa de que isso irá desacelerar sua economia.

Há uma série de razões pelas quais o Energy Power está se tornando cada vez mais importante, começando com a relutância de recorrer ao Hard Power, especialmente entre as grandes potências. Ao mesmo tempo, muitos se tornaram insatisfeitos com Soft Power apenas e assim buscam ferramentas mais potentes de influência. A estas considerações se adicionam os crescentes temores sobre a segurança das cadeias de suprimento de energia mundiais.

Ainda mais significativo é o excepcional aumento da produção dos EUA. A produção americana de petróleo bruto saltou de um mínimo de 5,0 milhões de barris por dia em 2008 para uma estimativa de 9,2 milhões de barris em janeiro de 2015, um notável aumento de 84 por cento. A produção americana deverá continuar aumentando nos próximos anos, atingindo um patamar projetado de 9,6 milhões de barris em 2020. A produção de gás também teve um surto de crescimento, subindo de 20,1 trilhões de pés cúbicos em 2008 para 24 trilhões em 2015, e deve chegar a cerca de 36 trilhões de pés cúbicos em 2035.

Como uma alternativa ao Hard Power, o Energy Power exercita de forma clara a defesa dos interesses de um país, sem incorrer nos perigos de uma ação militar. Como uma alternativa ao Soft Power, proporciona um grau de alavancagem não acessível à pura diplomacia. Além disso, uso do Energy Power é quase livre de risco.

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Imagem (Fonte):

 http://www3.jjc.edu/ftp/wdc12/joe_adam_and_matt/Images/Energy3.JPG

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Fonte consultada:

Avaliação de Leonam dos Santos Guimarães: Doutor em Engenharia, Diretor de Planejamento, Gestão e Meio Ambiente da Eletrobrás Eletronuclear e membro do Grupo Permanente de Assessoria do Diretor-Geral da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA).

AMÉRICA DO NORTEANÁLISES DE CONJUNTURAEUROPA

Falso Alarme, Verdadeira Catástrofe

Há 20 anos, em 25 de janeiro de 1995, o lançamento de um pequeno foguete de pesquisa científica de uma ilha ao largo da costa noroeste da Noruega acionou o sistema de alerta antecipado de ataque nuclear da Rússia.

O foguete inicialmente passou fora do horizonte de visão dos radares soviético. Após o desligamento dos motores, ele atingiu altitudes mais elevadas, passando inadvertidamente por um importante corredor de ataque entre a base de lançamento de mísseis balísticos intercontinentais americanos de Grand Forks e Moscou. Sem que os responsáveis pelo lançamento do foguete soubessem, um dos seus estágios terminou sua trajetória a uma altitude e velocidade comparáveis à de Míssil Balístico Trident lançado por submarino. Essa combinação de eventos configurou um cenário de ataque nuclear típico na Guerra Fria, em que as armas são intencionalmente explodidas em altitudes elevadas de modo a cegar os radares de alerta antecipado inimigo antes de um grande bombardeio.

A explicação mais imediata para o que deu errado naquele dia parece ter decorrido de deficiências nos equipamentos soviéticos de detecção. A causa subjacente, entretanto, decorreu do medo criado e sustentado pelo implacável e obsessivo programa de modernização das Forças Nucleares Americanas em curso à época. Esta iniciativa foi, e continua a ser, hoje, fortemente focado em aumentar a precisão e o poder de destruição de cada ogiva nuclear americana, gerando e reafirmando as preocupações de analistas militares e líderes russos de que os Estados Unidos poderiam realmente estar se preparando para lutar e vencer uma guerra nuclear.

O que aconteceu depois destes eventos inicialmente ambíguos tem sido fonte de grande especulação no Ocidente. Felizmente, o nível das tensões políticas entre a Rússia, os Estados Unidos e a Europa no momento do incidente era baixo. Sabe-se que o alarme por eles deflagrado fez com que o então Presidente da Rússia, Boris Yeltsin, fosse chamado e mantido devidamente informados pela liderança militar enquanto o foguete era rastreado até passar a sua altitude máxima de 1.400 km.

Se esse tipo de alerta falso tivesse ocorrido durante um período de crise política, as forças nucleares russas poderiam ter sido acionadas. Os sistemas de alerta antecipado americanos teriam detectado imediatamente o lançamento e acionado, por sua vez, o lançamento imediato de armas norte-americanas em resposta ao lançamento russo.

Isso porque os russos não teriam escolha senão assumir que tentar cegar seus sistemas de alerta antecipado seria uma tática americana para esconder um lançamento de numerosas ogivas que ainda não teriam aparecido acima do horizonte radar, mas que teriam sido lançadas anteriormente por Submarinos Trident submersos no Atlântico Norte. De acordo com a estratégia nuclear, o caos e confusão que poderia acompanhar a “cegueira” do alerta antecipado poderiam, então, serem explorados para destruir as forças russas terrestres vulneráveis antes que pudessem lançar seus mísseis. Certamente os ataques e contra-ataques seguintes a esses eventos iniciais levariam ao fim do mundo como nós o conhecemos.

Se o Sistema de Alerta Antecipado russo fosse baseado no espaço, a partir de satélites em órbitas baixas geoestacionárias, os líderes teriam imediatamente sido capazes de identificar que não havia indicação de quaisquer lançamentos de Submarinos Trident no norte do Atlântico. Eles também teriam visto não haver nenhuma atividade no Golfo do Alasca, onde a Frota Trident do Pacífico estaria em patrulha.

Como se vê, a Rússia, naquela época, tinha alguma observação por satélite dos silos de Grand Forks, mas não tinha radares terrestres que pudessem detectar lançamentos de Mísseis Trident, nem no Atlântico, nem no Pacífico. Em suma, a Rússia não tinha como saber se estava realmente sendo atacada ou se o foguete subindo a grande altitude era solitário.

Nas diferentes circunstâncias políticas de 2015, a mesma avaliação cautelosa da trajetória do foguete por líderes políticos e militares da Rússia poderia não ser possível. A Rússia anexou Criméia, interveio no leste da Ucrânia e iniciou em uma importante modernização de suas forças convencionais. Os Estados Unidos e a NATO responderam com sanções que, juntamente com a queda abrupta do preço do petróleo, estão desestabilizando a economia russa e podem ameaçar a popularidade do presidente Vladimir Putin.

A Rússia reagiu às sanções cancelando o promissor programa Cooperative Threat Reduction de 1991, que vinha melhorando substancialmente o diálogo para evitar a proliferação nuclear vertical, bem como o aumento dos níveis de segurança e de transparência no que diz respeito à manipulação e desmantelamento de armas nucleares. Esta ação foi acompanhada por uma forte escalada nas operações militares e navais russas, especialmente as de submarinos, aumentando ainda mais as chances de incidentes indesejados que poderão agravar ainda mais as tensões. Além de tudo isso, a incessante modernização de forças nucleares americanas continua inabalável.

A atual situação tornou-se tão grave que, recentemente, o Bulletim of Atomic Scientists adiantou seu “relógio do juízo final” que simbolicamente representa o nível de tensões que podem levar o mundo ao Armagedom. Por outro lado, uma evolução positiva no sentido de tornar o mundo mais seguro foi a Rússia já não mais ter, praticamente, espaços “cegos” na sua rede de Radares de Alerta Antecipado.

Ambos os lados precisam ter muito cuidado. Falsos alarmes como o de 1995 podem se repetir e sua ocorrência em momentos de tensão como os atuais os tornam muito mais perigosos. Um falso alarme pode se tornar uma verdadeira catástrofe.

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Imagem (Fonte):

 wikipedia

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Fonte consultada:

Avaliação de Leonam dos Santos Guimarães: Doutor em Engenharia, Diretor de Planejamento, Gestão e Meio Ambiente da Eletrobrás Eletronuclear e membro do Grupo Permanente de Assessoria do Diretor-Geral da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA).

ANÁLISES DE CONJUNTURAÁSIA

Ninguém está falando da mais perigosa ameaça nuclear de hoje: desenvolvimento de mísseis MIRV pela China e Índia

Enquanto os programas nucleares do Irã e da Coreia do Norte são objeto de todas as preocupações e cobertura midiática, a ameaça nuclear mais perigosa que o mundo enfrenta hoje continua passando largamente despercebida. China e Índia estão prestes a colocar em operação mísseis balísticos dotados de múltiplos veículos de reentrada independente (MIRV, na sigla em inglês). Esse desenvolvimento pode ter consequências profundas, com grande alcance para a segurança da Ásia e de todo o mundo.

Os mísseis MIRV transportam várias ogivas nucleares, cada uma capaz de ser dirigida a um conjunto de alvos diferentes. Eles são extremamente desestabilizadores para o equilíbrio estratégico, principalmente porque dão uma nítida vantagem a quem atacar primeiro, criando uma postura nuclear do tipo “use-os ou perca-os” (do inglês “use emor lose em”).

Os mísseis MIRV são também menos vulneráveis aos sistemas de mísseis antibalísticos (ABM, na sigla em inglês). Isso ocorre por dois motivos principais: o primeiro e mais óbvio é que um único míssil MIRV pode ser usado para eliminar vários sítios nucleares inimigos simultaneamente. Assim, teoricamente, pelo menos, apenas uma pequena parcela da força de mísseis seria necessária para eliminar completamente a capacidade de dissuasão nuclear estratégica do adversário. Em segundo lugar, mísseis MIRVpermitem aos países usar técnicas de direcionamento cruzado, programando dois ou mais mísseis contra um único alvo, o que aumenta a probabilidade de acerto.

Em outras palavras, mísseis MIRV são extremamente desestabilizadores porque fazem o arsenal nuclear do adversário vulnerável, podendo ser eliminado por um primeiro ataque de surpresa. Para compensar este fato, o Estado ameaçado, para garantir seu efeito de dissuasão diante da possibilidade de um primeiro ataque inimigo, normalmente aumenta o tamanho de seu arsenal e dispersa suas armas ainda mais para evitar que um inimigo realize um primeiro ataque bem sucedido. Por exemplo, em 1968, quando osEUA colocaram mísseis MIRV em operação, a União Soviética tinha menos de 10.000 ogivas nucleares. Uma década mais tarde, no entanto, tinha mais de 25.000. A União Soviética desenvolveu então seus próprios mísseis MIRV expandindo o tamanho de seu arsenal, desde que mais ogivas foram necessárias por míssil.

Em relação à China e Índia, então, a introdução de mísseis MIRV pode ter profundas consequências para as posturas nucleares dos Estados Nucleares. Um dos aspectos mais notáveis de todos eles, exceto Rússia e Estados Unidos, é que têm contado com arsenais nuclear reduzidos para satisfazer as suas necessidades de dissuasão.

Isto é especialmente verdadeiro para Índia e China, que têm declarado politicamente buscarem uma dissuasão mínima e seguirem a doutrina de “não primeiro uso” (do inglês “no first use”). Com a introdução de mísseis MIRV, no entanto, haverá fortes incentivos em ambos os lados para aumentarem consideravelmente o tamanho dos seus arsenais, mais ainda, não serão mais para se protegerem contra a ameaça de um primeiro ataque por um adversário.

Claro, as consequências de a China e a Índia adquirirem mísseis MIRV não seriam limitadas a esses Estados. Obviamente, a aquisição pela Índia de mísseis MIRV imediatamente ameaçaria a sobrevivência das forças nucleares do Paquistão. No curto prazo, provavelmente, faria com que Islamabad dispersasse ainda mais seu arsenal nuclear, algo que o deixaria mais vulnerável aos grupos terroristas islâmicos que atuam nesse país. No longo prazo, o Paquistão vai ser pressionado para expandir o tamanho do seu arsenal nuclear, bem como adquirir seus próprios mísseis MIRV.

As mesmas pressões serão sentidas em Moscou. Desde a desintegração da União Soviética, a Rússia dependeu de seu vasto arsenal nuclear para compensar sua fraqueza relativa em forças convencionais. Aos olhos dos líderes russos, só cresceria na medida em que a China continuasse a modernizar suas forças militares convencionais. Atualmente, a Rússia detém um número de ogivas nucleares vastamente superior a da China, o que é uma fonte de alívio para Moscou. Com a China operando mísseis MIRV e, consequentemente, aumentando o tamanho de seu arsenal, Moscou verá sua superioridade nuclear sobre Beijing ser rapidamente erodida.

É possível, então, que a Rússia responda revogando os Acordos de Redução de Armas que tem firmado com os Estados Unidos e também expandindo seu próprio arsenal. Em tal situação, o presidente dos Estados Unidos ficaria sob uma enorme pressão interna para responder a essa atitude russa com um aumento do arsenal americano, numa perigosa “reação em cadeia” armamentista.

Assim, ainda que a perspectiva do Irã e da Coreia do Norte adquirirem e aumentarem arsenais nucleares operacionais seja preocupante, a obtenção de mísseis MIRV pela China e Índia é uma ameaça muito maior para a paz no mundo.

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Imagem (Fonte):

http://images.forbes.com/media/2009/08/18/0818_china-india-flag_390x220.jpg

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Fonte consultada:

Avaliação de Leonam dos Santos Guimarães: Doutor em Engenharia; Diretor de Planejamento, Gestão e Meio Ambiente da Eletrobrás Eletronuclear e membro do Grupo Permanente de Assessoria do Diretor-Geral da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA).