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Energia nuclear: como a opinião pública pode ser conquistada?

Embora, hoje, o maior problema do setor nuclear seja, sem dúvida, o custo e o prazo de construção de novas usinas, isto é, em última análise, causado por seu baixo nível de aceitação pública. Até que o medo que cerca o setor nuclear seja amplamente superado, é pouco provável que os custos desçam a níveis que permitam que novas usinas nucleares sejam realmente competitivas nos mercados atuais da eletricidade.

A Alemanha baniu a geração nuclear unicamente em razão da aceitação do público, independentemente do absurdo econômico que isso representou. Pouco progresso foi feito na aceitação pública desde o acidente de Fukushima. A resposta da indústria nuclear mundial ao acidente tem sido fraca e fragmentada. Esse, entretanto, é um desafio que deve ser visto de uma perspectiva em longo prazo.

Escolhendo entre os futuros cenários do recente “World Energy Outlook 2014”, lançado em 15 de junho de 2015 pela Agência Internacional de Energia, aqueles que apresentam um declínio notável no setor nuclear na Europa e América do Norte, mas com crescimento significativo na China e em alguns outros países, parecem ser os mais prováveis. O declínio em países mais estabelecidos em termos nucleares irá levar algum tempo para ser revertido, tendo em vista que o número de novas construções é insuficiente para compensar o envelhecimento das usinas existentes.

Uma esperança seria que as lições aprendidas através da construção de um grande número de usinas padronizadas na China sejam eventualmente transferidas para o mundo ocidental. Entretanto, sem abordar a questão da aceitação do público de forma abrangente, é improvável que isso aconteça. Para aqueles de nós convencidos de que o setor nuclear deve desempenhar um papel importante no atendimento à demanda mundial por energia deste século isto é profundamente frustrante.

Até 2030, porém, a mensagem de que as energia renováveis não poderão preencher a lacuna deixada pela diminuição da utilização de combustíveis fósseis certamente irá ser claramente confirmada. Nesse ponto, os esforços direcionados hoje para superar o fator medo da indústria nuclear poderão dar frutos objetivos, talvez com reatores de projetos inovadores, que apresentem melhores resultados econômicos pela combinação de simplicidade e segurança aceitável.

O primeiro ponto num plano de ação para “conquistar corações e mentes” seria a melhoria da compreensão do público sobre a radiação e uma ampla reforma do regime internacional de proteção radiológica. É o medo das consequências da exposição à radiação que corrobora a maioria das áreas em que a indústria vem sofrendo ataque, desde a mineração de urânio, passando pela segurança operacional dos reatores, até a gestão dos resíduos, desmantelamento e transporte de materiais nucleares. É justamente isso que marca o setor nuclear como excepcional. Até o público em geral e os seus representantes políticos entenderem melhor a radiação e seus reais efeitos, seu medo (de fato terror) da energia nuclear não poderá ser combatido.

Esta primeira etapa de compreensão do público é extremamente difícil. Explicar tudo sobre algo que não pode ser detectado por nenhum dos sentidos humanos é um desafio, mas teria que começar com as aulas de ciências da escola. É essencialmente um desafio educacional que tem que começar com aqueles que estarão vivendo suas vidas durante a maior parte deste século.

Não pode estar além da capacidade do setor nuclear desenvolver materiais educacionais fantásticos que possam ser usados internacionalmente, trazendo à luz (sol é um reator nuclear natural!), as exposições naturais de origem terrestre e cósmica às quais todos somos permanentemente submetidos e as exposições médicas, às quais crescente parte de nós se expõe voluntariamente em busca de cura para diversas doenças. As consequências de bombas nucleares não podem ser evitadas aqui: as grandes liberações de radiação em testes atmosféricos passados foram significativas, mas hoje estão proscritas por tratados internacionais. A indústria não tem nada a esconder e deve primar pela total transparência.

Em paralelo, o perverso regime internacional de proteção radiológica fundado no modelo linear nothreshold LNT, que não possui base nem comprovação científica, deve ser reformado. Sem dúvida haverá futuros acidentes nucleares com limitadas liberações externas de radiação. Deve-se supor que algo da ordem de Fukushima possa vir a acontecer novamente. Com as coisas como estão hoje, nós estaríamos diante de mais uma evacuação em massa da população local, sem uma avaliação adequada dos riscos relativos envolvidos e dos correspondentes custos e benefícios.

Os riscos associados a um baixo nível de exposição à radiação precisam ser colocados adequadamente no contexto de outros riscos enfrentados pelos seres humanos. Embora ainda haja algumas divergências internas sobre isso, a indústria precisa chegar a um consenso pelo qual ela possa desafiar o regime atual. As pessoas de Fukushima foram muito mais vítimas da evacuação em massa do que da radiação. A indústria nuclear tem de assumir a liderança e solicitar uma avaliação mais racional e científica dos riscos humanos e começar a colocá-la em todas as decisões.

Uma enorme quantidade de trabalhos de pesquisa muito bem feitos já foi elaborada nesta área, mas até que essa realidade se reflita nas políticas públicas, a indústria terá um grande problema. Em certa medida pode até se sentir vitimizada enquanto outros setores industriais escapam livres de pressões, mas a indústria nuclear tem de superar isso através de suas próprias ações.

O segundo ponto num plano de ação teria que ser uma reavaliação das mudanças climáticas como o principal argumento de justificativa para mais energia nuclear. Esta é uma proposta um tanto controversa e muitos a considerariam herética. Entretanto, lançar mão de ambientalistas que finalmente “viram a luz” e atravessaram as linhas inimigas para abraçar a indústria nuclear como uma espécie de último recurso quando todo o resto, na avaliação deles, falhou, não parece boa estratégia.

Uma crença fervorosa é tudo o que esses ambientalistas trazem para a causa nuclear, já que essas pessoas têm pouca compreensão das realidades comerciais da geração elétrica nuclear no mundo de hoje. Muitos deles acham a tecnologia nuclear atual tão insatisfatória que abraçam novos conceitos um tanto quanto “visionários” sobre reatores do futuro, os quais, invariavelmente, já foram testados e abandonados no passado.

Mesmo que algumas pessoas acreditem firmemente na ciência por trás da conclusão de que impactos perigosos e irreversíveis ao clima já ocorreram a partir da atividade humana e, sem ação, muitos mais virão, todo o processo de mitigação das mudanças climáticas tornou-se um absurdo burocrático internacional. Parece improvável que o setor nuclear vá ganhar muito, se ganhar, a partir de medidas que possam vir a ser criadas decorrentes de acordos internacionais ou políticas locais. Pelo contrário, as regras que tem surgido internacionalmente tendem a penalizar o setor nuclear. Isso porque as pessoas que definem essas regras são, invariavelmente, contrárias ao setor por razões ideológicas diversas.

Parece que sempre que o setor nuclear se envolve em qualquer coisa onde burocratas tentam comandar, controlar e proteger o público, ele tende a perder, vide problema que o setor nuclear tem com respeito à proteção radiológica. Pessoas bem-intencionadas se propõem a ajudar, mas os resultados são frequentemente contrários. Com as políticas de mitigação da mudança climática, são as energias renováveis que tem se beneficiado muito, apesar de seus resultados muitas vezes contraditórios, como o aumento das emissões de carbono na Alemanha e um aumento economicamente suicida nos custos.

O aspecto ambiental da questão nuclear está mais ligado ao seu potencial de limpar o ar nas cidades chinesas e na boa administração dos recursos da Terra, economizando hidrocarbonetos valiosos que têm importantes usos alternativos, do que a geração de energia. Entretanto, sabemos que os formuladores de políticas, infelizmente, têm ignorado de forma abrangente os benefícios nucleares, embora eles já tenham sido claramente identificados pela análise do ciclo de vida de sistemas de energia há muitos anos.

O maior argumento de “venda” do setor nuclear é que ele pode, operado corretamente, produzir grandes quantidades de energia de forma muito confiável, barata e com mínimo impacto ambiental.

O terceiro e último ponto do plano de ação é ficar longe da abordagem baseada em fatos para conquistar a opinião pública. A indústria nuclear sempre acreditou que “a verdade vai prevalecer” e, portanto, conta com o fornecimento de uma massa de notícias e informações, acreditando que isso irá convencer as pessoas de que sua tecnologia é a melhor opção. Entretanto, a informação factual detém pouca influência no comportamento das pessoas, sendo a crença o fator ‘todo-poderoso’. O campo antinuclear tem sido muito bem sucedido ao longo dos anos em incutir nas pessoas a crença de que a energia nuclear é perigosa e “do mal”. As aflições são atiçadas apelando para as emoções, e não ao intelecto. Por essa razão, quaisquer declarações factuais contra essa crença devem evitadas. Tentativas de oferecer somente cada vez mais e melhor informação podem ser contraproducentes.

As organizações representativas da indústria nuclear provavelmente fornecem mais e melhor informação para o resto do mundo do que qualquer outro setor industrial. Constata-se, porém, que essas informações ajudam pouco em obter uma real aproximação à opinião pública. De fato, as pessoas são irracionais quando apresentadas aos fatos sobre o setor nuclear. O que os defensores da indústria pensam ser mensagens muito positivas sobre o aumento da segurança dos mais recentes projetos de reatores, ou quanto aos novos procedimentos que superam limites regulatórios estabelecidos, acabam levando ao público um mensagem oposta, alimentando seus os receios.

A resposta tem que vir de uma mudança de imagem da indústria. Isso será muito difícil de ser alcançado dado o ponto de partida desfavorável: muitas pessoas pensam que a energia nuclear é uma das coisas mais perigosas do planeta. Conseguir uma melhor compreensão sobre a radiação e colocar as mensagens positivas certas sobre a energia nuclear (limpa, barata e segura) vai ajudar muito, mas esta é claramente uma tarefa para especialistas de relações públicas. Imagens positivas da energia nuclear na TV e no cinema muito ajudariam, possivelmente um personagem de desenho animado relacionado à energia nuclear (certamente não Homer Simpson!). Tudo para criar familiaridade do público com a geração elétrica nuclear, passando a vê-la como uma atividade normal e não uma “máquina do fim do mundo”. Alguns bons defensores demonstrando apoio à indústria também seriam muito úteis, como talvez notáveis desportistas, atores e músicos.

Em última análise, para aqueles que acreditam, nenhuma prova é necessária, e para aqueles que não acreditam, nenhuma prova é suficiente. Ficar longe da nuvem de cogumelo e das imagens de filmes de James Bond será certamente difícil, mas é alcançável através da persistência. Não existem soluções rápidas e a indústria precisa produzir uma estratégia que permitirá que a geração elétrica nuclear prospere em longo prazo. A opinião pública é certamente local, mas mesmo em países onde a energia nuclear atrai melhores níveis de aprovação pública, ainda há um fator de medo subjacente. Uma abordagem internacional, mas com veículos de comunicação canalizados para as culturas e sensibilidades locais, é, certamente, uma necessidade urgente.

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Imagem (Fonte):

Wikipedia

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Fonte Consultada:

Avaliação de Leonam dos Santos Guimarães: Doutor em Engenharia, Diretor de Planejamento, Gestão e Meio Ambiente da Eletrobrás Eletronuclear e membro do Grupo Permanente de Assessoria do Diretor-Geral da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA).

AMÉRICA LATINAANÁLISES DE CONJUNTURAÁSIAEUROPAORIENTE MÉDIO

Modelo de Negócios para novas Usinas Nucleares

O financiamento constitui uma das questões mais complexas no desenvolvimento de um programa de geração nucleoelétrica, tendo em vista que a construção de usinas nucleares é um empreendimento de longo prazo (da ordem de 10 anos entre a decisão de empreender e o início da operação comercial, mas com uma vida útil de 40 a 60 anos), intensivo em capital (da ordem de US$ 5.000 por quilowatt elétrico instalado, mas com baixo custo de operação). Grosso modo, a relação OPEX/CAPEX para uma Usina Nuclear é da ordem de 1 para 3, ou seja, praticamente o inverso dessa mesma relação para uma usina termelétrica a gás natural equivalente.

A essas peculiares condições, devemos acrescentar também as fraquezas internas da indústria nuclear, que tem um histórico de longos atrasos e custos muito acima dos orçados originalmente, que podem comprometer sua rentabilidade. Esses atrasos e sobrecustos derivam, principalmente, de incertezas regulatórias que podem elevar os riscos de atrasos na construção. Esse fator foi determinante para a brusca redução no acelerado ritmo de expansão do parque de geração nuclear mundial na década de 80, efeito até mesmo superior aos impactos negativos dos acidentes de Three Mile Island e Chernobyl na aceitação pública dos empreendimentos.

Passados mais de vinte anos desses eventos, o Brasil ainda enfrenta grandes dificuldades de financiamento para concluir Angra 3, usina que sofreu uma prolongada paralização em suas obras (1986 – 2010), mas considerou no seu Plano Nacional de Energia lançado em 2008 a expansão de seu parque de geração nuclear em 4.000 Mw, até 2030. Recentemente, o Ministro das Minas e Energia, Eduardo Braga, tem se pronunciado sobre a necessidade de 8.000 Mw adicionais entre 2030 e 2050.

O financiamento das usinas nucleares é quase tão importante quanto a construção propriamente dita. Nos tempo de exacerbação financeira que vivemos, onde os lucros no curto prazo tem precedência sobre estratégias de desenvolvimento de longo prazo, é lógico que a estruturação do financiamento é um fator chave de sucesso de um empreendimento desse tipo e, consequentemente, onde os responsáveis políticos devem concentrar seus maiores esforços.

A estrutura do financiamento para a retomada das obras de Angra 3 em 2010 foi majoritariamente baseado na participação do BNDES e no aporte de capital próprio da Eletrobrás. O cenário em que esta estrutura de financiamento foi concebida se alterou significativamente nos últimos anos e a continuidade das obras requer uma restruturação, que se encontra em andamento. Entretanto, pode-se desde já visualizar que novas usinas irão requerer estruturas de financiamento alternativas, com maior participação do setor privado, conforme várias declarações que também vem sendo feitas pelo ministro Eduardo Braga.

Estas novas usinas nucleares consolidariam o renascimento nuclear brasileiro, com múltiplos objetivos. Por um lado, enfrentar a transição hidrotérmica do Sistema Interligado Nacional, proporcionando geração de base a baixo custo de produção (O&M e combustível) e sem exposição à volatilidade dos preços internacionais dos combustíveis fósseis. Por outro, manter o país ativo no setor, aproveitando as equipes formadas com a conclusão de Angra 3 e alavancar a capacidade industrial nacional instalada. Um terceiro objetivo seria fortalecer o setor nuclear do Brasil, gerando a necessária evolução para a tecnologia PWR (Pressurized Water Reactor) avançada, de Geração III+, da qual também fazem parte os esforços do Ministério da Defesa, particularmente da Marinha, no desenvolvimento da propulsão nuclear naval, e do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, particularmente das Indústrias Nucleares do Brasil (INB), na nacionalização de todas as etapas da produção de combustível nuclear.

A possibilidade de expansão do parque nucleoelétrico brasileiro, evidentemente, não passa despercebida pelos vários países e fornecedores internacionais de usinas nucleares. O Brasil tem recebido delegações americanas, francesas, japonesas, coreanas, chinesas e russas, ou seja, de praticamente todo o espectro da indústria nuclear mundial. Eventuais escolhas futuras deverão ser feitas numa base pragmática, considerando, além dos aspectos tecnológicos fundamentais, as relações internacionais com cada país, à luz do cenário estratégico global. Devemos também considerar que, como em todos os jogos, os outros jogadores também têm uma estratégia, e buscar alternativas ganha-ganha seria a chave do sucesso em negociações futuras.

Os modelos de financiamento de usinas nucleares não são totalmente livres, mas sujeitos a muitas restrições de natureza comercial. Geralmente, qualquer país que tenha desenvolvido a respectiva tecnologia e venda uma instalação desse porte busca privilegiar o fornecimento de componentes feitos no seu próprio país, de forma a manter suas capacidades industriais e contribuir para seus níveis de emprego e renda. Por outro lado, é de todo interesse do Brasil maximizar o conteúdo local pelas mesmas razões. Outro aspecto é a confiabilidade do fornecedor internacional, demonstrada por outros projetos executados, dentro e fora dos respectivos países, dentro dos prazos originalmente definidos. Há ainda aspectos políticos, na medida em que possa ser um objetivo do país de origem do fornecedor internacional ampliar a esfera de influência através da participação em novos mercados.

O financiamento pode ser feito sob a forma de dívida (debt) ou capital próprio (equity). A primeira opção é recorrer a bancos, agências de exportação locais e estrangeiras, instituições financeiras internacionais ou diretamente ao mercado de capitais. A segunda forma de financiamento é aumentar o capital da empresa. Para isso, pode-se também recorrer ao mercado de capitais, a emissão de ações ou parceria com investidores públicos e privados. A estruturação balanceada dessas fontes de recursos é o cerne da questão.

Com o renascimento nuclear, vários países que não dispõem de usinas nucleares se interessaram em incorporar essa fonte de geração elétrica em sua matriz energética. Mencionaremos três casos específicos: Emirados Árabes Unidos (EAU), Belarus e Turquia. Cada um seguiu um modelo de negócios diferente para seu primeiro projeto, que mostram claramente suas estratégias.

Os EAU estabeleceram uma joint venture com participação estatal (60%) e privada (40%) como um modelo de gestão para a construção de quatro usinas nucleares em Barakah, sendo o fornecedor de tecnologia a empresa sul-coreana KEPCO, e contará com a participação de outros atores para a gestão, construção e operação das plantas (CH2M Hill). As usinas serão em grande parte financiadas pelo Estado, sem a necessidade de empréstimos externos nem da participação de fontes de capital coreanas.

Os Emirados também decidiram renunciar à fabricação de elementos combustíveis e transferir a contratados todas as atividades de produção do ciclo do combustível. Basicamente, tudo será fornecido por empresas e instituições estrangeiras, não tendo optado por qualquer desenvolvimento de capacidades locais. É evidente que é uma estratégia que requer grande disponibilidade de recursos financeiros próprios.

Por seu lado, a Belarus estabeleceu uma empresa para a exploração das usinas e delegou sua construção à empresa russa Atomstroyexport (duas unidades AES-2006 V491 do tipo VVER, PWR russo) por meio de um contrato turnkey. O gerenciamento do projeto e todos os trabalhos preliminares à construção foram também delegados a empresas estrangeiras.

A estratégia da Turquia é diferente das duas outras. Através de um Acordo de Estado com a Rússia, foi acertado que este país irá financiar integralmente a construção de quatro usinas por um valor superior a US$ 20 bilhões. A construção será realizada por um consórcio de empresas russas e o Acordo prevê que, durante quinze anos, a energia elétrica será vendida exclusivamente para a empresa turca de comercialização de eletricidade no atacado. Após esse período, no qual se espera que ocorra o payback do investimento, o Estado turco deterá 20% das ações da empresa. Este modelo de contratação é conhecido como BOOT, acrônimo em inglês para Construir, Possuir, Operar e Transferir (CPOT).

Identifica-se até aqui dois modelos de negociação para os países implantarem usinas nucleares em médio prazo. Os EAU decidiram comprar tudo (até mesmo a regulamentação) no melhor estilo “Sheik do Petróleo”. Por outro lado, tanto Belarus quanto Turquia, países sem tantos recursos financeiros disponíveis como os Emirados, entregaram todo o empreendimento a um terceiro. Esse modelo privilegia a Rússia que, desde os tempos da URSS, tem uma política de construção de usinas nucleares no exterior sob o conceito turnkey, incluindo o fornecimento de todo o combustível novo ao longo da vida útil da usina e a repatriação do combustível usado. Eventualmente, se a Rússia realizar reprocessamento desse combustível usado no exterior, os rejeitos de alto nível de atividade seriam devolvidos ao país cliente.

Estas estratégias adotadas pelos chamados newcomers (países que começam a implantação de um parque nucleoelétrico) são claramente diferentes daquelas estratégias que deveria desenvolver um país com história e tradição no setor nuclear, e com um parque, ainda que pequeno, instalado. Isso porque a geração elétrica nuclear deveria ser entendida como algo a mais do que uma “fábrica de kWh”, se constituindo numa alavanca para o desenvolvimento socioeconômico local, regional e nacional. Vejamos o caso da Argentina, que possui 3 usinas nucleares em operação, de tecnologia PHWR (Pressurized Heavy Water Reactor).

Historicamente, desde a construção do seu primeiro reator pesquisa, o RA1, em 1958, a estratégia argentina tem sido maximizar o conteúdo local, ampliando progressivamente a capacitação tecnológica de sua indústria. Esta estratégia passou por contratos turnkey para Atucha I, onde a participação de empresas nacionais foi mínima, até a conclusão da Atucha II (hoje denominada Usina Nuclear Nestor Kirchner), onde se atingiu mais de 90% de conteúdo local.

Isto significa que para as próximas usinas é esperada a mesma conduta pelo setor nuclear argentino. Sob estas condições é que acordos com a Rússia e a China foram assinados neste ano de 2015 pelo Governo Argentino. Estes acordos, celebrados em fevereiro com a República Popular da China e em abril com a Federação Russa, não são eventos isolados, mas devem ser entendidos como uma etapa de um longo processo que começou há mais de oito anos atrás, quando alguns já sonhavam com uma quarta usina nuclear naquele país, o que lhes deu a confiança para saber que Atucha II seria concluída.

Os acordos assinados em fevereiro com a China são, na verdade, um Memorando de Entendimento (MoU) para a cooperação numa usina PHWR, na sequencia de um acordo prévio assinado no ano anterior, e outro acordo sobre a cooperação no projeto de construção de uma usina PWR na Argentina. O memorando cobre a quarta e a quinta usina.

Esse memorando apresenta um claro progresso, estabelecendo datas e pontos de verificação para os trabalhos que já vem sendo feitos pela China National Nuclear Corporation (CNNC) e Nucleoelétrica Argentina AS (NASA). Impõe um prazo para a assinatura de acordos comerciais ao final de 2015 e visa acelerar todo o trabalho relacionado com o escopo detalhado do projeto, fornecimento de equipamentos, componentes, matérias-primas e serviços técnicos, preços e cronogramas. Também define a aplicação dos empréstimos concedidos por instituições financeiras chinesas que cobrem 85% dos créditos para os fornecimentos de bens e serviços.

A empresa argentina permanece como gerente do empreendimento (architect-engineer) encarregada da tecnologia em geral, construção, operação, manutenção, segurança e responsabilidade nuclear para o projeto, enquanto o CNNC será responsável pela prestação dos serviços requeridos e aprovados para a “ilha nuclear” e “ilha convencional”.

O acordo para a usina PWR é uma ação de mais longo prazo, com o objetivo central de adotar a tecnologia PWR chinesa, o ACP1000 (ou Hualong). Considerando que é uma tecnologia que a Argentina não domina, certamente haverá uma maior participação dos chineses. Ainda assim, os acordos preveem que a NASA será o architect-engineer do projeto, e que haja transferência de tecnologia, incluindo a fabricação de elementos de combustível, continuando a garantir um elevado conteúdo local de bens e serviços.

Os acordos firmados com a Rússia são muito mais concisos, sem muitos detalhes. Sua efetiva realização depende ainda de um longo caminho a percorrer. Esses acordos formalizam a vontade de ambos os países em realizar consultas para a construção de uma usina nuclear russa na Argentina como parte de uma ampla negociação que envolverá todas as atividades comerciais bilaterais.

O desenvolvimento de um novo Modelo de Negócio se reveste de particular importância para o desenvolvimento de um novo programa de geração nuclear no Brasil considerando (1) a necessidade da renovação da matriz elétrica brasileira em um quadro que garanta a diversidade das fontes de geração elétrica e a segurança de fornecimento, (2) a participação do setor privado em um contexto de escassez de recursos e controle das despesas públicas, (3) a inserção de tecnologias de geração elétrica avançadas com elevado desempenho energético e de segurança, como é o caso da Geração III+ de reatores nucleares e (4) a geração de benefícios socioeconômicos, tanto pelo desenvolvimento das atividades relacionadas à construção e fabricação dos equipamentos, quanto pela injeção de recursos de natureza tributária, geração de novas atividades e emprego no entorno das novas usinas nucleares.

O Modelo de Negócio é formado por quatro componentes (submodelos) que, integrados, constituem elementos essenciais para a viabilidade e consistência do processo de implantação e operação das novas usinas nucleares no Brasil. O Modelo Institucional define a participação e as responsabilidades de agentes públicos e privados na implantação e operação de novas usinas nucleares. O Modelo de Capitalização estabelece a participação de investidores privados na formação do capital próprio (equity) da entidade que vai construir as usinas nucleares. Neste componente, as condições institucionais e regulatórias devem estar reunidas para permitir que o setor privado realize a construção e a montagem das usinas nucleares. O Modelo de Financiamento determina as condições para o desenvolvimento do financiamento, reduzindo o risco para os investidores privados, justamente na fase pré-operacional, quando os riscos são mais elevados, o que aumenta o custo do financiamento. O Modelo de Comercialização viabiliza a garantia, aos financiadores e aos investidores, de recebimento da receita da geração de energia elétrica nuclear sob o Regime de Energia de Reserva, nos termos da Lei 12.111 (de 09/12/2009).

O sucesso na empreitada de ampliação do parque de geração nucleoelétrico brasileiro depende de uma harmoniosa definição detalhada desses quatro submodelos, estabelecendo um Modelo de Negócios que seja atrativo para os investidores privados e seguro para os agentes públicos envolvidos, garantindo geração elétrica de base de baixo custo com alta segurança de abastecimento para os consumidores finais na próxima década. Evidentemente, a segurança operacional e o gerenciamento de resíduos de baixa e média atividade, bem como do combustível usado será, como já é feito hoje, dentro dos mais elevados padrões internacionais.

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Imagem (Fonte):

Wikipedia

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Fonte Consultada:

Avaliação de Leonam dos Santos Guimarães: Doutor em Engenharia, Diretor de Planejamento, Gestão e Meio Ambiente da Eletrobrás Eletronuclear e membro do Grupo Permanente de Assessoria do Diretor-Geral da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA).

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Geração Elétrica Nuclear nos BRICS

A Geração Elétrica Nuclear faz parte da matriz energética de Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul com diferentes graus de contribuição. Somado, o parque de geração nuclear do BRICS monta a 86 usinas em operação*, o que representa 20% do parque mundial. Em termos de geração mundial de eletricidade nuclear, os BRICS produziram 15% do total de 2,5 mil TWh** em 2014.

O grupo também tem 40 usinas em construção***, o que representa 60% das futuras usinas a entrarem em operação ao longo dessa década. A forte participação fica por conta de China, Rússia e Índia. Na África do Sul, o Governo chegou a lançar mais de uma vez licitações internacionais, porém a decisão firme para início de construção de uma terceira usina vem sendo seguidas vezes postergada.

No Brasil há apenas uma usina em construção (Angra 3, com 1.405 MW) com início de operação em 2018. O Governo brasileiro, entretanto, tem anunciado novas unidades em horizontes de mais longo prazo. O Plano Nacional de EnergiaPNE 2030, lançado em 2008, considerava a instalação de 4.000 MW nucleares adicionais após a entrada em operação de Angra 3, porém ainda sem decisões firmes para efetivo início de construção.

A Rússia é um país que tem fartura de recursos energéticos, principalmente gás natural. Sua condição de potência nuclear militar lhe propiciou a base tecnológica para a exploração da geração elétrica nuclear, mas as baixas condições de segurança em seus reatores, tanto de projeto como na operação, levaram ao desastre de Chernobyl. Em 2010 as fontes hídricas, carvão e nuclear respondiam por cerca de 17% cada uma e o gás natural por 47%.

Não há participação significativa de energias alternativas na matriz elétrica russa. A produção a partir de petróleo está sendo desativada, como na maioria dos países, enquanto a participação da energia nuclear cresceu 38% em relação à de 1990. A Rússia tem 9 reatores em construção com capacidade total prevista de 8,2 GW.

A Índia é um país em rápido desenvolvimento, cuja opção para geração foi predominantemente o carvão. Seu PIB entre 1971 e 2009 cresceu 5,7% ao ano, tendo se multiplicado por um fator 8,1. O consumo de eletricidade foi multiplicado por 13,5 tendo crescido a 7,1% ao ano em média.

O país tem 21 reatores nucleares em operação e 6 em construção, com uma potência adicional prevista de 4,8 GW. A Índia é importadora de energia fóssil e depende do abastecimento externo em 16% do carvão, 81% do petróleo e 21% do gás natural.

A crescente aceitação da Índia como potência nuclear militar “de facto” tem aberto caminhos para a cooperação internacional que facilitam essa expansão.

A geração elétrica na China cresceu 9,0% ao ano entre 1971 e 2009, tendo sido multiplicada por um fator 27. O uso da eletricidade passou de 138 TWh para 3.696 TWh por ano. O PIB real cresceu 9,4% ao ano no mesmo período, tendo sido multiplicado por um fator 30****. Para atender este grande crescimento da demanda, a China adotou o carvão como combustível básico, cuja participação atingiu 80%.

Um grande investimento foi feito ainda em hidrelétricas, cuja participação, no entanto, após superar 20% nas décadas de setenta e oitenta, foi reduzida em alguns pontos percentuais. A participação do petróleo, que também chegou a superar 20%, foi reduzida a menos de 0,5% em 2009.

A China é praticamente independente de importação de carvão (4%), mas é dependente de importação de petróleo (52%) e importa 5% do gás natural que consome. Embora sem participação significativa na sua geração atual, a China tem ambiciosos programas nuclear e de energias alternativas.

Estão sendo construídos na China Continental 27 reatores com capacidade total de 26,6 GW, e ela está se preparando para ser fornecedora de centrais nucleares para o exterior. Dois outros reatores estão em construção em Taiwan. A China está atuando fortemente na área de produção de coletores fotovoltaicos a preços muito inferiores aos dos concorrentes e está a caminho de dominar este mercado. Também é líder mundial em energia eólica.

A geração elétrica na África do Sul é amplamente dominada pelo carvão, que responde por mais de 90% do total da eletricidade produzida no País. Isso se explica, basicamente, pela abundância desse recurso natural no país. A segunda maior fonte é a nuclear, com 6%. O gás natural e as renováveis, basicamente hidrelétricas, respondem por parcelas complementares muito pequenas.

A geração nuclear não deverá ser majoritária nestes países, mas continuará a ser uma opção relevante nas suas políticas e matrizes energéticas. A cooperação existente dentro do grupo no setor é ainda muito limitada, mas apresenta perspectivas concretas de acelerado crescimento nos próximos anos.

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* 2 no Brasil, 34 na Rússia, 27 na China, 21 na Índia e 2 na África do Sul.

** Brasil – 15.385 GW.h (2,86% do total de geração nacional); Rússia – 169.049 GW.h (18,57%); Índia – 33.232 GW.h (3,53%); China – 130.580 GW.h (2,39%) e África do Sul – 14.749 GW.h (6,20%)

*** 1 no Brasil; 24 na China; 6 na Índia e 9 na Rússia

**** No mesmo período, o PIB do Brasil se multiplicou por um fator 4,3!

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Imagem (Fonte):

http://4.bp.blogspot.com/-M-PmqVguODo/VCytUz2KwlI/AAAAAAACIUk/75Qp4NKsQ60/s1600/brics.jpg

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Fonte consultada:

Avaliação de Leonam dos Santos Guimarães: Doutor em Engenharia, Diretor de Planejamento, Gestão e Meio Ambiente da Eletrobrás Eletronuclear e membro do Grupo Permanente de Assessoria do Diretor-Geral da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA).

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Energia Nuclear nos BRICS

É inequívoca a importância estratégica do Brasil se manter ativo na exploração dos usos pacíficos da energia nuclear, expandindo seu domínio tecnológico e capacidade industrial instalada nos diversos setores associados, como produção de radioisótopos para medicina e indústria, produção de combustível nuclear, propulsão nuclear naval e geração elétrica nuclear. Para isso, a cooperação dentro dos BRICS desponta como uma excelente oportunidade.

Um aspecto pouco discutido sobre os BRICS é o fato de todos os cinco países terem uma indústria nuclear desenvolvida. Esse aspecto comum é pouco explorado nas discussões sobre as relações internas do grupo e externas, ou seja, do grupo com o resto do mundo.

A geração elétrica nuclear faz parte da matriz energética de Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul com diferentes graus de contribuição. Somado, o parque de geração nuclear do BRICS monta a 86 usinas em operação (2 no Brasil, 34 na Rússia, 27 na China, 21 na Índia e 2 na África do Sul), o que representa 20% do parque mundial. O grupo também tem 40 usinas em construção (1 no Brasil, 24 na China, 6 na Índia e 9 na Rússia), o que representa 60% das futuras usinas a entrarem em operação ao longo dessa década. Em termos de geração líquida em 2014, o Brasil produziu 15.385 GW.h de eletricidade nuclear (2,86% do total de geração nacional), a Rússia 169.049 GW.h (18,57%), a Índia 33.232 GW.h (3,53%), a China 130.580 GW.h (2,39%) e a África do Sul 14.749 GW.h (6,20%)[1].

O projeto e construção das usinas russas são totalmente autóctones. O parque nuclear chinês se iniciou também de forma autóctone, porém a China passou a adotar na década de 1990 a política de adquirir usinas de outros países, incluindo a Rússia, mas também dos EUA e França, e promover transferência de tecnologia que lhe permitisse desenvolvê-las localmente. A política teve sucesso e hoje seu parque já inclui usinas de projeto e construção local. A grande maioria das usinas indianas também é de projeto e construção nacional, mas se derivam de uma transferência de tecnologia inicial do Canadá. Só recentemente a Índia adquiriu usinas no exterior, no caso da Rússia, e tem negociado a compra de outras com outros países fora do grupo.

As usinas brasileiras e sul-africanas foram adquiridas de países fora do grupo: EUA e Alemanha, no caso do Brasil; França, no caso da África do Sul. Esses países tentaram uma política de transferência de tecnologia com, respectivamente, Alemanha e França, similar àquela adotada pela China, porém sem sucesso, dependendo hoje da importação de tecnologia para expansão de seus parques.

A Rússia é hoje o maior exportador de usinas nucleares no mundo, com 11 projetos em andamento no exterior[2]. A China deverá em breve tornar-se também importante ator nesse mercado, no passado dominado pelos EUA e Europa, já tendo concluído uma venda de um projeto autóctone para o Paquistão.

Em termos de recursos razoavelmente assegurados (Reasonably Assured ResourcesRAR) e inferidos de urânio, os BRICS somam 22,72% dos recursos globais (Brasil 3,62%; Rússia 9,03%; Índia 1,57%; China 2,61% e África do Sul 5,9%)[3]. Entretanto, o Brasil teve apenas 1/3 de seu território prospectado até o momento. As características geológicas do país, cujas áreas de formação pré-cambriana, propícias à ocorrência de urânio, tem extensão quase idêntica às mesmas áreas na Austrália, país que detêm a maior reserva (24% dos recursos RAR e inferidos globais), fazem crer que um esforço de pesquisa nacional poderia alterar em muito o quadro atual[4]. A China também tem significativa parte de seu território ainda sem prospecção adequada e está fazendo esforços nesse sentido.

A Rússia também atua no mercado internacional como fornecedor de serviços de conversão, enriquecimento e fabricação de elementos combustíveis. A China depende de importações de urânio para produzir o combustível para seus reatores, mas a conversão, enriquecimento e fabricação de elementos combustíveis são feitas localmente. A Índia também depende de importações de urânio e enriquecimento, mas faz a conversão e fabrica os elementos combustíveis localmente. Note-se que a maior parte do parque indiano de usinas usa urânio natural, não requerendo enriquecimento. A África do Sul produz o urânio, faz a conversão e fabrica elementos combustíveis para suas usinas localmente, mas o enriquecimento é feito no exterior. O Brasil também produz o urânio e fabrica os elementos combustíveis localmente, mas importa os serviços de conversão e enriquecimento, este último parcialmente, na medida em que tem uma capacidade de produção nacional insuficiente.

Todos os cinco países operam reatores de pesquisa e de produção de radioisótopos para usos médicos e industriais, também produzindo o combustível para esses reatores, e fazem amplo uso das diversas aplicações nucleares não energéticas. Rússia e África do Sul são também exportadores de radioisótopos.

As Marinhas de Rússia, China e Índia projetam, constroem e operam submarinos de propulsão nuclear. A Índia se iniciou alugando unidades de origem russa, mas recentemente lançou ao mar sua primeira unidade de projeto e construção nacional. O Brasil desenvolve de forma autóctone um programa para obtenção desses navios, que se encontra em estágio avançado.

Rússia e China são estados nuclearmente armados “de juris”, isto é, de acordo com o Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP). A Índia também possui armas nucleares, mas não é membro do TNP, sendo um estado nuclearmente armado “de facto”. A África do Sul já foi também um estado nuclearmente armado “de facto”, porém abandonou este tipo de armamento com a mudança de regime e assunção de Nelson Mandela à Presidência do país. O Brasil renunciou às armas nucleares pela Constituição de 1988 e, posteriormente, em 1999, aderiu ao TNP como estado não nuclearmente armado.

Os BRICS, portanto, são um grupo de países nuclearmente desenvolvidos. Inclui a Rússia, que comparte com os EUA a liderança mundial no setor e a China, que muito em breve se ombreará e esses dois países. A Índia tem um alto grau de avanço no setor, pouco inferior à Rússia e China. Brasil e África do Sul, por sua vez, fazem parte também da vanguarda do setor no mundo, ainda que num patamar inferior aos outros três parceiros.

O fato de todos os BRICS terem uma indústria nuclear desenvolvida, ainda que em diferentes graus, abre um amplo leque de possibilidades de cooperação e sinergias que explorem as complementaridades entre os países e que possam reforçar a competitividade do grupo como um todo.

Note-se aqui que o Brasil é o único país do grupo que não possui nem nunca possuiu armas nucleares. Interessa muito a nosso país manter sua opção constitucional pelo uso exclusivamente pacífico da energia nuclear. Isso lhe dá um caráter único junto aos parceiros do BRICS, que se reflete numa autoridade moral e ética que pode ser explorada politicamente em diversas situações como, por exemplo, na necessária reforma do Conselho de Segurança da ONU e na arbitragem de crises nucleares internacionais. Essa “vantagem competitiva” é muito mais valiosa do que a posse de armas nucleares que, ao final das contas, são feitas para nunca serem usadas.

Entretanto, uma análise equilibrada[5] mostra de forma inequívoca a importância estratégica do Brasil se manter ativo na exploração dos usos pacíficos da energia nuclear, expandindo seu domínio tecnológico e capacidade industrial instalada nos diversos setores associados, como produção de radioisótopos para medicina e indústria, produção de combustível nuclear, propulsão nuclear naval e geração elétrica nuclear. Para isso, a cooperação dentro dos BRICS desponta como uma excelente oportunidade.

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* Avaliação de Leonam dos Santos Guimarães: Doutor em Engenharia, Diretor de Planejamento, Gestão e Meio Ambiente da Eletrobrás Eletronuclear e membro do Grupo Permanente de Assessoria do Diretor-Geral da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA).

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Imagem (FonteIEE Spectrum):

http://spectrum.ieee.org/telecom/internet/how-bad-is-africas-internet

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Fontes Consultadas:

[1] Ver  “IAEA Power Reactor Information System”, http://www.iaea.org/pris/, consultado em 08/05/2015.

[2] Ver Atomstroyexport”, http://www.atomstroyexport.ru/wps/wcm/connect/ase/eng/, consultado em 08/05/2015.

[3] VerURANIUM 2014: RESOURCES, PRODUCTION AND DEMAND, NEA No. 7209, © OECD 2014”, disponível em: http://www.oecd-nea.org/ndd/pubs/2014/7209-uranium-2014.pdf, consultado em 08/05/2015.

[4] VerPires, Fernando Roberto Mendes; Urânio no Brasil: geologia, jazidas e ocorrências Rio de Janeiro: Vitrina, 2012”, disponível em: https://www.academia.edu/7828249/Ur%C3%A2nio_no_Brasil_Geologia_Jazidas_e_Ocorr%C3%AAncias, consultado em 08/05/2015

[5] VerSilva, Carlos Augusto Feu Alvim da; e Guimarães, Leonam dos Santos. As dez maiores economias e a energia nuclear: reflexões para o futuro do Brasil, Revista Brasileira de Planejamento e Orçamento RBPO, Brasília, Vol. 1, no 2, 2011, págs. 8594”, disponível em: http://www.assecor.org.br/index.php/rbpo/vol-1-numero-2-2011/, consultado em 08/05/2015 .

AMÉRICA DO NORTEANÁLISES DE CONJUNTURAÁSIAORIENTE MÉDIO

O Poder da Energia

O Poder da Energia, Energy Power, é a capacidade de uma nação em empregar suas vantagens em tecnologia e produção de energia para promover seus interesses globais e contrariar os de seus rivais. Isto pode significar, por exemplo, o fornecimento de energia para os aliados que se tornaram fortemente dependente de suprimentos fornecidos por concorrente, como nos esforços norte-americanos de reduzir a dependência da Europa do gás natural russo. Também pode significar a implantação de uma plataforma de petróleo em águas disputadas como um meio de afirmar seu controle, como nas operações chinesas de prospecção de petróleo no Mar do Sul da China. O fornecimento de energia pode ser usado para reforçar os laços com um parceiro geoestratégico, como no acordo nuclear forjado entre Estados Unidos e Índia, ou para punir um vizinho recalcitrante, como em repetidas vezes que a Rússiafechou a válvula” de gás natural para a Ucrânia. Apesar de não ser tão duro como o Poder Militar (Hard Power) o Energy Power pode implicar políticas muito mais duras do que o Poder Brando (Soft Power), de natureza política, diplomática, ideológica e cultural.

O fornecimento de energia tem sido há muito tempo usado como instrumento da política internacional. O Japão ampliou seu império antes da 2ª Guerra na Ásia e os Estados Unidos, que era então o principal fornecedor de petróleo ao Japão, impôs sanções cada vez mais severas nas suas exportações aquele país em uma tentativa (infrutífera) de impedir novas agressões japonesas. Em 1973-74, os países árabes da OPEP tentaram desencorajar o apoio a Israel através da imposição de um embargo sobre o fornecimento de petróleo, provocando uma desaceleração econômica global. Nesses exemplos, o Hard Power nunca esteve muito longe das mentes dos formuladores dessas políticas. O que torna a situação diferente hoje é que o Energy Power passou a ser visto como uma alternativa viável ao Hard Power num momento em que o uso da força militar entre as principais potências parece altamente improvável.

O recente aumento na produção de petróleo dos Estados Unidos tem sido útil para forçar o Irã a buscar uma solução negociada para a disputa sobre suas atividades de enriquecimento de urânio. O Irã já foi capaz, no passado, de contrariar as sanções econômicas impostas por Washington, explorando a sede mundial pelo seu petróleo, mas agora se encontra cada vez mais isolado com aumento da produção dos EUA neutralizando o impacto global da diminuição de suas exportações.

Considere-se a resposta dos EUA às incursões da Rússia na Ucrânia. No passado, esse tipo de comportamento teria provocado advertências tonitruantes de uma possível ação militar dos EUA e na movimentação de navios de guerra e aviões de combate para áreas próximas. Hoje, entretanto, mesmo os “falcões” de garras mais afiadas descartam o uso da força. Em vez disso, o setor de energia passou a ser o canal preferido para pressionar Putin. O Governo dos EUA tem procurado negar tecnologia e financiamento ocidental para empresas de energia russas e influenciar na queda dos preços internacionais do petróleo, na expectativa de que isso irá desacelerar sua economia.

Há uma série de razões pelas quais o Energy Power está se tornando cada vez mais importante, começando com a relutância de recorrer ao Hard Power, especialmente entre as grandes potências. Ao mesmo tempo, muitos se tornaram insatisfeitos com Soft Power apenas e assim buscam ferramentas mais potentes de influência. A estas considerações se adicionam os crescentes temores sobre a segurança das cadeias de suprimento de energia mundiais.

Ainda mais significativo é o excepcional aumento da produção dos EUA. A produção americana de petróleo bruto saltou de um mínimo de 5,0 milhões de barris por dia em 2008 para uma estimativa de 9,2 milhões de barris em janeiro de 2015, um notável aumento de 84 por cento. A produção americana deverá continuar aumentando nos próximos anos, atingindo um patamar projetado de 9,6 milhões de barris em 2020. A produção de gás também teve um surto de crescimento, subindo de 20,1 trilhões de pés cúbicos em 2008 para 24 trilhões em 2015, e deve chegar a cerca de 36 trilhões de pés cúbicos em 2035.

Como uma alternativa ao Hard Power, o Energy Power exercita de forma clara a defesa dos interesses de um país, sem incorrer nos perigos de uma ação militar. Como uma alternativa ao Soft Power, proporciona um grau de alavancagem não acessível à pura diplomacia. Além disso, uso do Energy Power é quase livre de risco.

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Imagem (Fonte):

 http://www3.jjc.edu/ftp/wdc12/joe_adam_and_matt/Images/Energy3.JPG

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Fonte consultada:

Avaliação de Leonam dos Santos Guimarães: Doutor em Engenharia, Diretor de Planejamento, Gestão e Meio Ambiente da Eletrobrás Eletronuclear e membro do Grupo Permanente de Assessoria do Diretor-Geral da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA).

ANÁLISES DE CONJUNTURAÁSIAEUROPAORIENTE MÉDIO

As reais ameaças nucleares na atualidade

Desde os bombardeios atômicos de Hiroshima e Nagasaki, as armas nucleares têm ocupado um lugar de destaque na segurança mundial. Toda uma nova disciplina acadêmica de estudos estratégicos surgiu para fornecer os fundamentos teóricos aos líderes políticos envolvidos na tomada de decisão sobre seu emprego. Com efeito, as armas nucleares foram o fundamento da estratégia americana para defender a Europa em face de um poder militar convencional soviético numericamente superior durante a Guerra Fria.

Nessa época, a maior parte do debate esteve focado no equilíbrio nuclear EUAURSS, sem dúvida a ameaça mais provável e mais perigosa. Esse equilíbrio foi mantido com base na doutrina da “Mutual Assured Destruction” (MAD), ou seja, na manutenção de um status quo no qual nenhuma das duas superpotências poderia vencer uma guerra nuclear, pois, se a guerra fosse iniciada por uma delas, ambas acabariam destruídas. O desenvolvimento de Sistemas Antimísseis Balísticos (ABM) e a Iniciativa de Defesa Estratégica (SDI) foram grandes ameaças a esse equilíbrio. Os ABM foram objeto de tratado específico limitando seu uso e a SDI é muitas vezes apontada como uma das principais causas da queda da URSS.

Desde o colapso da URSS, entretanto, as armas nucleares continuam sendo uma das principais preocupações geopolíticas mundiais. No entanto, o debate internacional decorrente não é focado nos países que possuem arsenais nucleares operacionais (EUA, Rússia, China, França, GrãBretanha, Índia, Paquistão, Israel). A grande visibilidade da política externa dos “cinco grandes”, membros do Conselho de Segurança da ONU, está nas hipotéticas armas nucleares operacionais que estados classificados como “rogue” (Coréia do Norte, Irã, Iraque, Síria, Líbia, entre outros), bem como grupos terroristas, não têm (com sucesso até agora, exceto no caso da Coréia do Norte).

Por outro lado, a comunidade não-governamental dos estudos estratégicos nucleares foi sendo eclipsada pela comunidade da não-proliferação e controle de armas, que se esforça para tentar abolir as bombas nucleares, mas que muito pouco foca na busca pela minimização do perigo real que aquelas bombas que existem nos arsenais nucleares dos EUA, Rússia, França, GrãBretanha, China, Índia, Paquistão e Israel representam.

Sem nenhuma dúvida, essas atividades são importantes e necessárias. No entanto, elas criaram um vácuo, na medida em que também muito pouco se discute (e muito menos se minimiza) as ameaças nucleares reais que o mundo de hoje enfrenta. Infelizmente, essas ameaças, tão discutidas durante a Guerra Fria, não desapareceram com a queda do muro de Berlim. Com a esperança de provocar esse necessário debate, vamos tentar identificar as ameaças nucleares reais que se acredita serem as mais perigosas e sobre as quais pouco se discute.

MIRVs asiáticos

Como já discutido em artigo anterior, a ameaça nuclear mais perigosa que o mundo enfrenta atualmente é a perspectiva de China e Índia obterem Multiple Independently Targetable Reentry Vehicles (MIRV). Os MIRVs permitem aos mísseis balísticos transportarem múltiplas ogivas nucleares cada uma sendo destinada a um alvo diferente.

Durante a Guerra Fria, a introdução de mísseis MIRV desestabilizou muito o equilíbrio nuclear EUAURSS, tornando os arsenais nucleares mais suscetíveis de serem destruídos por um primeiro ataque de surpresa inimigo, ou seja, criaram a possibilidade de um dos lados ganhar a guerra nuclear. Para compensar este risco, EUA e URSS construíram mais armas nucleares e as dispersaram por um maior número de locais.

Isto seria especialmente problemático caso o mesmo se repetisse agora para a Índia e China, que têm mantido arsenais nucleares extremamente pequenos em relação aos mantidos pelos EUA e URSS/Rússia. O impacto mais imediato da China e da Índia obterem MIRVs será a expansão de seus respectivos arsenais nucleares. O impacto, entretanto, não será limitado somente aos dois países. Por um lado, um arsenal nuclear indiano em rápida expansão deixará o Paquistão temeroso de que seu arsenal possa ser destruído em um primeiro ataque. É provável que, em resposta, o Paquistão expanda seu próprio arsenal tão rapidamente quanto possível e busque também obter seus próprios mísseis MIRV (talvez com a ajuda da China).

Da mesma forma, a Rússia depende cada vez mais de seu massivo arsenal nuclear para “compensar” uma relativa perda de poder militar convencional. Como a modernização militar da China continua, Moscou vai se tornar ainda mais dependente de suas armas nucleares para dissuadir os chineses. Assim, é absolutamente crucial que a Rússia mantenha uma grande vantagem sobre a China no domínio nuclear. Um arsenal nuclear chinês em rápida expansão comprometeria muito isso. No futuro, poderá ocorrer que os mísseis MIRV da China invalidem todos os esforços de controle de armas dos EUA e Rússia ao longo de décadas.

Armas Nucleares Táticas do Paquistão

Ao contrário do que aparenta numa primeira vista, o Paquistão não adquiriu armas nucleares para combater o arsenal da Índia, mas para “compensar” sua inferioridade em termos de poder militar convencional. Aliás, essa foi a mesma motivação de Israel.

Na verdade, a decisão paquistanesa de buscar armas nucleares foi feita em uma reunião em janeiro 1972 em Multan, no sul de Punjab, Paquistão. No mês anterior, o poder militar do Paquistão tinha sido gravemente humilhado em sua guerra com a Índia, o que resultou no então Paquistão Oriental tornar-se o atual Estado independente de Bangladesh. Esta perda de quase metade do seu território fez o Paquistão aumentar ainda mais sua inferioridade em termos de população (de 5:1 para 10:1 em favor da Índia) e potencial econômico. Essa guerra de 1971 também destruiu a crença predominante no Paquistão de que seu poder militar seria qualitativamente superior às forças armadas indianas e reforçou a ideia de que a Índia buscava desmantelar e absorver o país.

Como resultado, não é surpreendente que o Paquistão esteja buscando armas nucleares táticas para usar no campo de batalha contra a Índia, especialmente à luz da doutrina militar indiana de “Cold Start”. Afinal, a OTAN até hoje possui armas nucleares táticas na Europa e Turquia que foram originalmente instaladas para compensar a superioridade convencional da URSS, o que indica que a motivação permanece com a Rússia, não tendo sido afetada pela queda do muro de Berlim e fim da URSS.

No entanto, as armas nucleares táticas devem ser vistas com muita cautela, especialmente quando operadas por um país como o Paquistão. Por um lado, as armas nucleares táticas ressaltam a disposição do Paquistão em empregar armas nucleares, mesmo que seja para responder a ameaças convencionais. Além disso, de forma a serem eficazes, as armas nucleares táticas do Paquistão teriam que ser mantidas em estado de prontidão para serem empregadas em curto prazo. Mais ainda, uma vez instaladas na linha de frente, os comandantes no campo de batalha provavelmente teriam que ter autoridade para empregá-las, aumentando o perigo de uso indevido. Finalmente, as armas nucleares táticas seriam mais suscetíveis a roubos por qualquer um dos inúmeros grupos terroristas que atuam na região.

Evolução na Precisão e Velocidade dos Mísseis

Um grande esforço tecnológico vem sendo aplicado ao aperfeiçoamento da precisão das armas convencionais. Uma munição guiada de precisão ou “bomba inteligente” (“Precison Guided Munition”, “Smart Bomb”) é uma arma com guiagem ativa com a intenção de acertar com precisão um alvo específico, minimizando danos colaterais. Todos já vimos vídeos dessas armas em ação realizando os chamados “bombardeios cirúrgicos”.

Entretanto, pouco ou mesmo nada se discute sobre como essa evolução na precisão dos mísseis afeta as armas nucleares, evolução que tem o potencial de minar o equilíbrio estratégico nuclear. A aquisição de mísseis de alta precisão pelas potências nucleares pode significar o fim da estratégia da Destruição Mútua Assegurada (MAD) e da consequente doutrina relacionada ao não primeiro uso de armas nucleares. Isso porque seu emprego pode permitir o sucesso de um primeiro ataque de surpresa e, com isso, uma potência poderia vencer uma guerra nuclear, causando danos limitados ao oponente.

A estratégia MAD se fundamenta em dois pressupostos básicos. Em primeiro lugar, que as superpotências nucleares sempre teriam capacidade de um segundo ataque de retaliação que tornaria impossível para uma delas destruir o arsenal nuclear da outra com um ataque surpresa. Em segundo lugar, que o poder destrutivo das armas termonucleares e a natureza indiscriminada da destruição por elas provocada torna seu uso abominável. Relacionado ao MAD está o preceito de que nenhuma superpotência poderia vencer a outra num conflito termonuclear.

A evolução na precisão dos mísseis pode anular esses pressupostos. Para começar, a incrível precisão dos sistemas de mísseis modernos torna a destruição total do arsenal nuclear do oponente em um primeiro ataque de surpresa bem sucedido muito mais plausível. Isto é particularmente verdadeiro contra potências nucleares que têm, pelo menos por enquanto, arsenais nucleares relativamente pequenos em comparação com Rússia e os EUA.

No entanto, após a modelagem de um potencial primeiro ataque contra as forças estratégicas da Rússia, Lieber e Press concluíram que os EUA poderiam, com um alto grau de probabilidade, ter sucesso na destruição total do arsenal nuclear de um oponente, mesmo que ele seja de porte massivo como o da Rússia. Na verdade, esses autores alegam que os formuladores de políticas dos EUA construíram efetivamente suas forças estratégicas com o objetivo de ter a capacidade de empregar armas nucleares para destruir as forças estratégicas de qualquer outro país, ou seja, de obter a primazia estratégica.

Com efeito, o esforço para neutralizar as forças estratégicas do adversário e alcançar a primazia se estende por quase todos os domínios da guerra moderna, não se limitando à capacidade de ataque nuclear. Por exemplo, inclui os sistemas de defesa contra Mísseis Balísticos (ABM), a guerra antissubmarino, a inteligência eletrônica, sistemas de vigilância e reconhecimento, a guerra cibernética ofensiva, ataque convencional de precisão de curto, médio e longo alcance.

Além de comprometer a MAD, a crescente precisão dos mísseis modernos também potencialmente enfraquece a doutrina de não primeiro uso de armas nucleares. Esta doutrina foi construída em grande parte sobre o conceito de que as armas nucleares eram moralmente repugnantes porque seu poder de destruição maciça e as severas consequências radiológicas colaterais correspondentes iriam dizimar populações indiscriminadamente. No entanto, é a precisão que determina a letalidade de arma nuclear. Fazer uma arma duas vezes mais precisa tem o mesmo efeito sobre a letalidade como fazer uma ogiva oito vezes mais potente. Dito de outra forma, fazer um míssil duas vezes mais preciso exigiria apenas um oitavo do poder explosivo de sua cabeça de combate para manter a mesma letalidade. Além disso, as consequências radiológicas são proporcionais ao poder explosivo da arma e decaem de acordo com o quadrado da distância do ponto da explosão, o que minimiza os impactos colaterais.

Conclui-se, portanto, que com a evolução da precisão, as bombas nucleares podem se tornar uma arma de guerra passível de emprego numa situação de conflito grave ou guerra. Essa evolução permitiria destruir instalações nucleares protegidas de um inimigo com armas de baixo poder explosivo, reduzindo assim em muito as consequências radiológicas e os danos colaterais. De fato, usando um modelo de computador do Pentágono, especialistas estimam que um ataque nuclear americano contra silos de Mísseis Balísticos (ICBM) da China usando armas de alto poder explosivo detonadas no solo poderia matar entre 3 e 4 milhões de pessoas. Usando armas precisas de poder explosivo reduzido este número cairia para menos de 700 vítimas.

Simultaneamente ao aumento da precisão, um grande desenvolvimento tecnológico vem ocorrendo também na velocidade. Os mísseis de cruzeiro modernos podem atingir velocidades não só supersônicas como hipersônicas (mais de cinco vezes a velocidade do som). Por exemplo, o míssil BrahMosII, em desenvolvimento pela Índia e Rússia, pode atingir a velocidade de Mach 7 (8.575 km/h). A China e EUA também desenvolvem mísseis hipersônicos.

Sistemas como o “Prompt Global Strike”, em desenvolvimento pelos EUA, que poderia lançar um ataque com mísseis de precisão que atingiriam seus alvos em até uma hora, podem inviabilizar a ação dos sistemas de alerta antecipado das demais potências nucleares, impedindo-as de responder a um ataque devido aos curtíssimos tempos envolvidos.

O desenvolvimento de mísseis hipersônicos de grande precisão aumenta em muito a probabilidade de sucesso de uma potência nuclear destruir totalmente o arsenal de outra sem que essa tenha como responder a tal ataque de surpresa. Isso também comprometeria de forma irreversível a estratégia MAD e a doutrina de não primeiro uso, amplificando enormemente a ameaça de uma guerra nuclear. Passaria a vigorar a síndrome “use them or lose them”.

Modernização militar da China

A modernização militar da China é uma ameaça nuclear mais do que hipotética. No mínimo ela vai forçar a Rússia a se tornar cada vez mais dependente de suas armas nucleares. É provável que isto seja verdadeiro para a Índia também. Mesmo os EUA podem se encontrar num futuro não tão distante também numa situação em que deva mais uma vez recorrer às armas nucleares para deter um inimigo convencional superior em um teatro de operações distante, como foi no caso do pós Segunda Guerra Mundial.

Com sua superioridade convencional crescendo e seus interesses se expandindo, a modernização militar da China vai servir como um poderoso motivador para os seus vizinhos construírem suas próprias forças nucleares. Se os EUA não forem capazes de exercer uma efetiva estratégia de contenção da China como fez com a URSS, o Japão seria dos primeiros a questionar sua política de não possuir armas nucleares.

Na verdade, a necessidade de dissuadir ameaças militares convencionais esmagadoras tem sido a força motriz por trás da decisão de muitos Estados obterem armas nucleares. Por exemplo, a França tomou a decisão de construir armas nucleares poucos dias depois que a OTAN decidiu rearmar a Alemanha Ocidental. Tendo em conta que os seus inimigos árabes eram muito maiores e mais povoados do que Israel, e inclinadas à destruição deste último, David Ben-Gurion considerou as armas nucleares essenciais no início da existência do Estado judeu. Como mencionado acima, essa lógica foi aplicada pelos líderes paquistaneses também.

Não é impensável, então, que países como o Japão, Vietnã, Taiwan e Coréia do Sul ainda venham sentir a necessidade de adquirir armas nucleares para compensar a superioridade convencional da China, especialmente quando se considera as disputas territoriais que Beijing mantém com a maioria deles. Além disso, a Coreia do Sul, Taiwan e, especialmente, Japão têm programas nucleares avançados que fariam com que fosse relativamente fácil e barato construir a bomba.

Abolição das Armas Nucleares

Enquanto as armas nucleares parecem ainda ter muito futuro, particularmente na Ásia, a comunidade da não proliferação e controle de armas trabalha incansavelmente para impedi-lo. De fato, desde 11/09, a causa “Global Zero” tem expandido muito suas fileiras e ganhou apoio de líderes políticos importantes, como o presidente Obama (Declaração de Praga, 2009). Infelizmente, essa causa, por mais nobre que seja, é perigosa. Graças à sua capacidade de impedir conflitos entre as grandes potências, a única coisa pior do que as armas nucleares seria, paradoxalmente, um mundo sem elas.

Considere-se uma estimativa conservadora de vítimas mortais da Segunda Guerra Mundial de 60 milhões de pessoas, ou cerca de 3% da população mundial na época. Numa terceira guerra mundial não nuclear igualmente letal, portanto, seria esperada a morte de pelo menos 210 milhões de pessoas. Entretanto, a sofisticação das armas convencionais modernas e a urbanização muito maior fariam com que essa hipotética terceira guerra mundial não nuclear fosse muito mais letal do que a Segunda Guerra Mundial, apesar dos avanços na medicina reduzirem parcialmente essa letalidade.

Isso por si só seria uma tragédia sem precedentes na história da humanidade. O maior perigo, no entanto, é que tal conflito não permaneceria convencional por muito tempo. As propostas de desarmamento nuclear global existentes não oferecem nenhum mecanismo concebível para garantir que tal guerra permanecesse não nuclear. Na verdade, o senso comum sugere que imediatamente após o início das hostilidades, se não mesmo no período de preparação para a guerra em si, todas as potências nucleares anteriores fariam uma rápida corrida armamentista para reconstruir suas forças nucleares no mais curto espaço de tempo.

O resultado não seria apenas uma volta ao mundo com armas nucleares que habitamos. Em vez disso, alguns países reconstruiriam suas armas nucleares mais rapidamente do que outros e nenhum deles poderia ter certeza do progresso que seus rivais teriam feito. Os “vencedores” nesta renovada corrida armamentista nuclear teriam, então, todo o incentivo para o emprego imediato de suas novas capacidades nucleares contra os seus adversários, num esforço para acabar rapidamente com o conflito, eliminando as capacidades nucleares dos oponentes, ou simplesmente por medo de que outros o façam antes, lançando um ataque debilitante sobre seu arsenal nuclear pequeno e vulnerável. Não haveria destruição mutuamente assegurada em tal ambiente, prevalecendo a síndrome “use them or lose them”.

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Imagem (Fonte):

Wikipedia

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Fonte Consultada:

Avaliação de Leonam dos Santos Guimarães: Doutor em Engenharia, Diretor de Planejamento, Gestão e Meio Ambiente da Eletrobrás Eletronuclear e membro do Grupo Permanente de Assessoria do Diretor-Geral da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA).