AMÉRICA LATINAANÁLISES DE CONJUNTURA

REGIME INTERNACIONAL DE NÃO-PROLIFERAÇÃO NUCLEAR: O CASO ESPECIAL DO BRASIL E ARGENTINA

O modelo de Protocolo Adicional (PA) proposto pela AIEA para adesão voluntária de seus Estados-Membros muda o objeto e amplia o escopo das salvaguardas abrangentes em vigor. A abordagem do PA é muito mais intrusiva, dando margem a interpretações que podem ferir tanto o princípio da soberania nacional, como o princípio da propriedade industrial. A eventual adesão de um país ao PA, decisão de cunho eminentemente político, deveria, portanto, ser feita no contexto de um processo de negociação que, do ponto de vista técnico, garantisse a impossibilidade do uso indevido de tais interpretações. O processo histórico que levou Brasil e Argentina a firmarem e ratificarem o TNP pode aportar ensinamentos importantes sobre possíveis rumos de negociação.

O que são salvaguardas nucleares

Salvaguardas são atividades realizadas pela Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) para verificar se um Estado estaria violando seus compromissos internacionais de não desenvolver programas de armas nucleares.

O Tratado de Não-Proliferação Nuclear (TNP) e outros tratados internacionais contra a proliferação de armas nucleares, como o Tratado de Proibição de Armas Nucleares na América Latina (Tratado de Tlatelolco) delegam à AIEA estas atividades de inspeção.

Hoje, as salvaguardas da AIEA sobre atividades e materiais nucleares são aplicadas a mais de 140 Estados-Membros, no âmbito dos diversos acordos internacionais de não-proliferação em vigor. Note-se, entretanto, que a AIEA não aplica salvaguardas aos seus Estados-Membros que não aderiram ao TNP (Israel, Índia e Paquistão). A Coréia do Norte é um caso à parte porque, tendo aderido inicialmente ao TNP, o denunciou, passando a desenvolver declaradamente um Programa de Armas Nucleares.

Dentro do regime mundial de não-proliferação nuclear, o sistema de salvaguardas da AIEA funciona como uma medida de confiança, um mecanismo de alerta antecipado, e um gatilho que aciona outras respostas da comunidade internacional, em especial resoluções do Conselho de Segurança da ONU, se e quando surgir uma suposta necessidade.

Durante a última década, as salvaguardas da AIEA foram reforçadas em áreas-chave. As medidas visam aumentar a probabilidade de detectar um programa clandestino de armas nucleares e para construir a confiança de que os Estados estão cumprindo os seus compromissos internacionais.

Esse reforço foi estabelecido pelo Modelo de Protocolo Adicional, estabelecido em reação à identificação de atividades e materiais nucleares não declarados pelo Iraque, em decorrência das inspeções que se sucederam à sua derrota na 1a Guerra do Golfo.

O que são salvaguardas abrangentes

A AIEA aplica três tipos de acordos de salvaguardas:

  1. Salvaguardas Abrangentes (modelo INFCIRC-153[1]), aplicável a todos os países não-nuclearmente armados que aderiram ao TNP;
  2. Salvaguardas Parciais (modelo INFCIRC-66[2]), aplicável aos países que não aderiram ao TNP e possuem armas nucleares (Índia, Paquistão, Israel);
  3. Acordos de Oferta Voluntária, aplicáveis aos cinco países nuclearmente armados reconhecidos pelo TNP (EUA, Rússia, Grã-Bretanha, França e China).

Todos os países ao assinarem o TNP têm que assinar com a AIEA um Acordo de Salvaguardas Abrangentes, ou seja, que inclua todas as instalações e materiais nucleares no país. Esse Acordo segue o modelo estabelecido pela AIEA denominado INFCIRC-153, conhecido como o “Acordo do TNP”, que pode receber da AIEA outro número; como no caso da EURATOM, Agência Nuclear da Comunidade Europeia (INFCIRC-193[3]) e no caso do Brasil e Argentina (INFCIRC-435[4]).

Aplicação de Salvaguardas no Brasil

O INFCIRC-435[5], acordo associado ao tratado dito “Quadripartite[6], assinado pela AIEA, Agência Brasil-Argentina de Contabilidade e Controle (ABACC), Brasil e Argentina, entrou em vigor em 1994, quando os dois países não haviam firmado nem ratificado o TNP. Ele constitui um acordo de salvaguardas abrangente.

Note-se que o formato original do Tratado, firmado em 1991, era “Tripartite” (ABACC, Brasil e Argentina, sem AIEA). Mais tarde, respectivamente em 1997 e 1999, Argentina e Brasil ratificaram o TNP. Como já tinham com a AIEA um acordo de salvaguardas abrangentes, o INFCIRC 435, não foi necessário assinar outro acordo, sendo este usado para os fins de atendimento às obrigações do TNP.

O acordo INFCIRC 435 associado ao Tratado Quadripartite, substituiu os antigos acordos firmados pelo Brasil segundo o modelo INFCIRC-66 da AIEA (salvaguardas parciais, de aplicação a instalações específicas) usados para importação de sistemas, como Angra 1 e as instalações contratadas dentro do escopo do Acordo Nuclear Brasil-Alemanha (Angra 2, Fábrica de Elementos Combustíveis, dentre outras).

Como são aplicadas as salvaguardas

As salvaguardas são baseadas em avaliações da exatidão e integridade da contabilidade e controle do material nuclear e das atividades nucleares declaradas pelo Estado-Membro. As medidas de controle incluem inspeções in loco e visitas de acompanhamento e avaliação.

Basicamente, dois conjuntos de medidas são aplicados, em conformidade com os termos dos acordos de salvaguardas abrangentes em vigor para cada Estado-Membro.

Um conjunto diz respeito à verificação dos relatórios sobre materiais e atividades nucleares declarados pelo Estado-Membro. Estas medidas, autorizadas pelos acordos de salvaguardas abrangentes firmados em decorrência do TNP, em grande parte são baseadas na contabilidade e controle dos materiais nucleares, complementadas por técnicas de contenção e vigilância, tais como selos invioláveis e câmeras nas instalações.

Outro conjunto acrescenta medidas destinadas a reforçar as capacidades de inspeção da AIEA. Elas incluem aquelas incorporadas pelo Modelo de um Protocolo Adicional, que é um documento legal complementar aos acordos de salvaguardas. Estas medidas visam verificar não só o desvio não-declarado de material nuclear, mas também dar garantias quanto à ausência de material e atividades nucleares não declaradas em um Estado-Membro.

Inspeções e visitas de salvaguardas

A AIEA realiza diferentes tipos de inspeções e visitas ao abrigo dos acordos de salvaguardas[7].

  • Inspeções ad hoc são normalmente feitas para verificar um relatório inicial de material nuclear do Estado-Membro ou relatórios sobre suas eventuais alterações e verificar o material nuclear envolvido em transferências internacionais.
  • Inspeções de rotina são as mais utilizadas, podendo ser realizadas de acordo com um cronograma definido. Estas inspeções de rotina normalmente não se realizam sem aviso prévio, mas podem ocorrer com comunicação de curto prazo. O direito de a Agência efetuar inspeções de rotina sob acordos de salvaguardas abrangentes limita-se a locais dentro de uma instalação nuclear, ou outros locais que contenham material nuclear, ou nos quais algum fluxo de material nuclear é esperado (pontos estratégicos).
  • Inspeções especiais podem ser realizadas em circunstâncias específicas previstas pelos acordos de salvaguardas abrangentes. A AIEA pode levar a cabo inspeções especiais se considerar que as informações disponibilizadas pelo Estado-Membro em causa, incluindo as explicações e informações obtidas através das inspeções de rotina, não são adequadas para que a Agência cumpra suas responsabilidades definidas no âmbito do acordo de salvaguardas em vigor.
  • Visitas de Salvaguardas podem ser feitas em instalações declaradas durante todo seu ciclo de vida para verificar as informações sobre o projeto em causa. Por exemplo, essas visitas podem ser realizadas durante a construção, para determinar a integridade das informações de projeto declaradas, durante operações de rotina das instalações e na sequência de atividades de manutenção, para confirmar que nenhuma modificação foi feita, que permitiria atividades não declaradas terem lugar, e durante o descomissionamento da instalação, para confirmar que o equipamento sensível foi inutilizado.

As atividades que os inspetores da AIEA realizam durante e em conexão com inspeções ou visitas às instalações podem incluir a auditoria de contabilidade do material nuclear e os registros de funcionamento da instalação, comparando estes registros com os relatórios de contabilidade do Estado-Membro apresentados à Agência, a verificação do inventário de material nuclear e de suas alterações, com base em amostras ambientais e aplicação de medidas de confinamento e vigilância, por exemplo, a aplicação de selos e a instalação de equipamentos de vigilância.

O que são protocolos adicionais

O Protocolo Adicional é um documento legal que concede à AIEA autoridade de inspeção complementar àquela prevista nos acordos de salvaguardas subjacentes. De caráter voluntário, ele é, por princípio, aplicável aos três tipos de acordos de salvaguardas.

Seu objetivo principal é permitir que os serviços de inspeção da AIEA ofereçam garantias não só sobre os materiais e atividades declarados pelos Estados-Membros, mas também sobre possíveis materiais e atividades não declarados. Ele concede à AIEA direitos ampliados de acesso a informações e locais.

O Protocolo Adicional recebeu da AIEA a designação de INFCIRC-540[8][9]e ele tem que necessariamente ser um acordo adicional a um acordo de salvaguardas abrangente previamente existente. Não é possível um país assinar somente o PA sem ter assinado antes um acordo compreensivo.

Uma visão geral das medidas de salvaguardas previstas pelos acordos de salvaguardas abrangentes e sua ampliação pelos protocolos adicionais são apresentadas a seguir.

Medidas no âmbito dos acordos de salvaguardas abrangentes

  • Prestação de informações pelo Estado-membro sobre novas instalações e alterações em instalações existentes, logo que suas autoridades decidirem construir, autorizar a construção ou modificar uma instalação; a Agência tem continuamente o direito de verificar as informações de projeto ao longo do ciclo de vida da instalação, incluindo seu descomissionamento.
  • Coleta de amostras ambientais nas instalações e em locais onde os inspetores têm acesso durante as inspeções, com análise de amostra no laboratório de referência da AIEA e/ou em laboratórios certificados nos Estados-Membros e verificação de informações de projeto das instalações
  • Avaliação aprimorada de informações provenientes de declarações do Estado-membro, das atividades de verificação da Agência e de uma vasta gama de fontes abertas
  • Controle autônomo e remoto de movimentos de materiais nucleares declarados em instalações e a transmissão dos dados relevantes de salvaguardas autenticados e criptografados à Agência
  • Prestação de formação avançada para inspetores e pessoal de salvaguardas da Agência e de pessoal do Estado-Membro responsável pela aplicação de salvaguardas
  • Uma cooperação mais estreita entre a AIEA e os sistemas nacionais (e regionais) para contabilização e controle de materiais nucleares nos Estados-Membros
  • Utilização expandida de inspeções não anunciadas dentro do regime de inspeção de rotina programadas.
  • Comunicação voluntária pelo Estado-membro das importações e exportações de material nuclear e a exportação de equipamentos e materiais não-nucleares especificados (novos componentes deste relatório foram incorporados no modelo de protocolo adicional).

Medidas no âmbito dos protocolos adicionais

  • Fornecimento de informações pelo Estado-Membro e acesso dos inspetores da Agência a todas as etapas do ciclo de combustível nuclear, incluindo minas de urânio, fabricação de combustível e instalações de enriquecimento e locais de armazenagem de resíduos nucleares, bem como para qualquer outro local onde os materiais nucleares estão ou poderão estar presentes (os acordos de salvaguardas abrangentes não incluem as minas).
  • Estado-Membro fornece informações e permite à Agência acesso em curto prazo a todos os edifícios em um sítio nuclear (os acordos de salvaguardas abrangentes preveem acesso apenas às instalações declaradas em um sítio).
  • O protocolo prevê que os inspetores da AIEA tenham acesso “complementar” para garantir a ausência de materiais nucleares não declarados ou para resolver questões ou inconsistências nas informações que um Estado Membro forneceu sobre suas atividades nucleares. O acesso complementar, entretanto, não é algo que possa ser aplicado de maneira sistemática e/ou indiscriminada, mas somente nos casos em que houver dúvidas razoáveis por parte da Agência.
  • A antecedência na maioria dos casos é de pelo menos 24 horas. O aviso prévio é menor, pelo menos duas horas, para acesso em qualquer lugar em um sítio quando solicitado em conjunto com a verificação de informações de projeto ou em inspeções ad hoc e de rotina nesse sítio.
  • As atividades realizadas durante o acesso complementar podem incluir exame dos registros, observação visual, coleta de amostras ambientais, utilização de dispositivos de detecção e medição da radiação e a aplicação de selos e outros dispositivos de identificação e indicação de adulterações.
  • Coleta de amostras ambientais em locais fora dos locais declarados quando considerada necessária pela Agência (os acordos de salvaguardas abrangentes preveem coletas apenas nas instalações declaradas).
  • A coleta de amostras ambientais em área mais vasta exige aprovação da Junta de Governadores da AIEA e consultas ao Estado-Membro em questão
  • Direito de os inspetores fazerem uso dos sistemas de comunicações estabelecidos internacionalmente, incluindo sistemas de satélites e outras formas de telecomunicação.
  • Aceitação pelo Estado-Membro da designação de inspetores pela Agência e emissão de vistos de entrada múltiplos, válidos para pelo menos um ano, para os inspetores (os acordos de salvaguardas abrangentes preveem vistos específicos para cada entrada, válidos somente pelo período previsto da inspeção ou visita).
  • Prestação de informações pelo Estado-Membro e estabelecimento de mecanismos de verificação pela Agência sobre atividades de pesquisa e desenvolvimento relacionadas com o ciclo do combustível nuclear declaradas pelo Estado-Membro (os acordos de salvaguardas abrangentes não preveem declaração de atividades de P&D, a não ser que haja manipulação de “quantidades significativas” de “materiais físseis especiais”)
  • Prestação de informações sobre a fabricação e exportação de tecnologias nucleares sensíveis e mecanismos de verificação da Agência em locais de fabricação e nos locais de importação declarados pelo Estado-Membro (os acordos de salvaguardas abrangentes não preveem declaração de locais de fabricação nem de importação de tecnologias sensíveis, a não ser que haja manipulação de “quantidades significativas” de “materiais físseis especiais”)

Adesão ao Modelo de Protocolo Adicional

Conforme pode ser visto, o modelo de Protocolo Adicional proposto pela AIEA para adesão voluntária de seus Estados-Membros muda o objeto e amplia o escopo das salvaguardas abrangentes.

Estas são focadas na contabilidade e controle dos materiais nucleares contidos em instalações em que haja manipulação de “quantidades significativas” de “materiais físseis especiais” e cuja existência é declarada pelo próprio país.

O PA, por sua vez, estende estas salvaguardas à mineração e beneficiamento de urânio, para instalações que não teriam sido declaradas pelo Estado-Membro, mas que supostamente manipulem materiais nucleares, e para instalações em que não ocorre manipulação destes materiais, mas que são consideradas como de interesse para a garantia de não-proliferação, como laboratórios de pesquisa e fábricas de componentes e equipamentos.

Evidentemente, a abordagem do PA é muito mais intrusiva, dando margem a interpretações de livre acesso de inspetores da AIEA a qualquer ponto do território nacional. Ainda que não plenamente explícitas no texto do protocolo, muitas vezes vago e genérico, a aplicação de tal interpretação fere tanto o princípio da soberania nacional (acesso arbitrário a qualquer parte do território de um país), como o princípio da propriedade industrial (acesso arbitrário a informações tecnológicas protegidas).

Portanto, a eventual adesão de um país ao PA, decisão de cunho eminentemente político, só seria aceitável se fosse feita no contexto de um processo de negociação que, do ponto de vista técnico, garantisse a impossibilidade do uso indevido de tais interpretações. Isto poderia ser feito através de acordos subsidiários, prática corrente na negociação da aplicação de acordos de salvaguardas.

Essa é a prática que deveria ter sido adotada pelos 139 países e uma agência regional de salvaguardas (EURATOM) que a ele aderiram até dezembro de 2010[10].

O Caso de Brasil e Argentina

O processo histórico que levou Brasil e Argentina a firmarem e ratificarem o TNP pode aportar ensinamentos importantes sobre potenciais rumos de negociação que levem em conta os interesses nacionais, não se limitando a adesão pura e simples a um sistema pré-definido internacionalmente.

Inicialmente os dois países não aderiram ao Tratado (1968). Bilateralmente os dois países instituíram um sistema de salvaguardas regional (1991). Em seguida, firmaram um acordo de salvaguardas abrangentes com a AIEA (1994). Somente depois de estabelecido este sistema regional, reconhecido pela AIEA e do qual ela é parte ativa, os países aderiram ao TNP (Argentina em 1998, Brasil em 1999).

De um ponto de vista jurídico, Brasil e Argentina não poderiam firmar de forma independente protocolos adicionais. Isto porque o PA é adicional a um acordo de salvaguardas abrangente em vigor. Nem Brasil nem Argentina possuem tal tipo de acordo individualmente.

O acordo de salvaguardas abrangente em vigor nos dois países (INFCIRC-453) é conjunto e com interveniência da ABACC. Logo, um Protocolo Adicional só poderia ser implementado pelos dois países em comum acordo e com interveniência da ABACC.

A alternativa a isto, ou seja, se um dos dois países decidir aderir ao PA individualmente, seria denunciar o Tratado Quadripartite e a INFCIRC-435 que lhe é associada e firmar um novo Acordo de Salvaguardas Abrangente individual com a AIEA para depois aderir ao PA.

Evidentemente, tal alternativa implicaria na ruína do regime de salvaguardas regional implantado pelos dois países que é hoje um modelo de sucesso reconhecido internacionalmente e que tem sido citado como procedimento que poderia ser aplicado em outras regiões do mundo. Uma demonstração clara da importância do Regime de Salvaguardas Regional adotado pelo Brasil e Argentina vem das negociações em curso para revisão das diretrizes do Nuclear Suppliers Group (NSG).

Cabe ressaltar que o NSG não é um órgão da AIEA. Logo, suas diretrizes não têm o respaldo direto nos tratados internacionais de salvaguardas em vigor. O NSG é constituído em bases voluntárias e suas Diretrizes não são legalmente obrigatórias. Cabe a cada Estado membro, em sua exclusiva soberania nacional, decidir se autoriza ou não exportações de itens controlados.

Há cinco anos, vêm ocorrendo negociações no NSG para a revisão das Diretrizes relativas ao controle de transferências de tecnologias de enriquecimento de urânio e reprocessamento de combustível irradiado. Desde o princípio, o Brasil empenhou-se em evitar que a adoção de PA viesse a ser considerado critério imprescindível para a transferência dessas tecnologias.

Note-se que o Brasil não tem, a princípio, qualquer interesse em transferências de tecnologias de enriquecimento e reprocessamento, nem como supridor nem como recipiendário. No que tange ao enriquecimento, já desenvolveu tecnologia própria e não considera a possibilidade de comercializá-la. No que tange ao reprocessamento, dentro do horizonte de planejamento de longo prazo não existe previsões de implantação desta tecnologia no País.

Após consistente esforço diplomático, o Brasil conseguiu que no texto de base das negociações fossem estabelecidos dois critérios objetivos alternativos para que um país se qualifique a receber tais tecnologias: (a) ter um PA em vigor ou (b) fazer parte de um acordo regional para aplicação de salvaguardas aprovado pela Junta de Governadores da AIEA antes da adoção do modelo de Protocolo Adicional (1997), condição que é atendida apenas pelo Brasil e pela Argentina (por meio do Acordo Quadripartite) e pelos Estados-Parte da Agência Nuclear europeia (EURATOM)[11].

Isto configura um importante êxito da diplomacia brasileira. Evidência objetiva deste êxito pode ser encontrada nas críticas que a ele são feitas pelo “establishment” da não-proliferação internacional[12].

É fato que a adoção de um PA como “critério imprescindível” para a transferência dessas tecnologias não afeta diretamente de forma significativa os interesses do Brasil no âmbito restrito do NSG. Entretanto, entende-se que a adoção de um PA elevada a um “critério imprescindível”, ainda que em âmbito restrito ao NSG, seria um precedente que viola a firme posição do Brasil no sentido do caráter voluntário da adoção do PA em quaisquer âmbitos.

Conclusões

A Estratégia Nacional de Defesa (END), aprovada pelo DECRETO Nº 6.703, DE 18 DE DEZEMBRO DE 2008, estabelece que o Brasilnão aderirá a acréscimos ao Tratado de Não-Proliferação de Armas Nucleares destinados a ampliar as restrições do Tratado sem que as potências nucleares tenham avançado na premissa central do Tratado: seu próprio desarmamento nuclear”. A condicionante para acréscimos ao TNP, que seria avanços reais no desarmamento das potências nucleares, certamente não foi atendida nem o será no curto prazo. A diplomacia brasileira adota uma postura firme no sentido do caráter voluntário da adoção do PA no âmbito do TNP e do Tratado Quadripartite, bem como do Acordo de Salvaguardas Abrangentes que a eles é associado (INFCIRC-435).

A adoção de um Acordo Regional para aplicação de salvaguardas aprovado pela Junta de Governadores da AIEA antes da adoção do modelo de PA como alternativa, conforme texto base atual da revisão das diretrizes do NSG, é uma postura coerente com a END e com o princípio da voluntariedade na adoção de PA por Brasil e Argentina.

Caso a condicionante da END venha a ser atendida no médio ou longo prazo, as negociações para a adesão de Brasil e Argentina ao PA devem ser feitas no âmbito da INFCIRC-435, ou seja, de forma conjunta entre Brasil, Argentina, ABACC e AIEA.

Essas negociações, quando e se vierem a ser estabelecidas, deverão incluir Acordos subsidiários que impeçam interpretações do Modelo de PA (INFCIRC-540) que possam vir a ferir os princípios da soberania e propriedade industrial nacional. Neste caso, o Protocolo Adicional ao Acordo de Salvaguardas Parciais firmado pelos EUA com a AIEA (INFCIRC/288/Add.1, de 9 de março de 2009)[13], com as devidas adaptações devido ao diferente status desse país no TNP, pode ser uma referência interessante.

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Imagem (Fonte):

 Wikipedia

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Avaliação de Leonam dos Santos Guimarães: Doutor em Engenharia; Diretor de Planejamento, Gestão e Meio Ambiente da Eletrobrás Eletronuclear e membro do Grupo Permanente de Assessoria do Diretor-Geral da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA).

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Fontes consultadas:

[1] Ver:

http://www.iaea.org/Publications/Documents/Infcircs/Others/infcirc153.pdf

[2] Ver:

http://www.iaea.org/Publications/Documents/Infcircs/Others/infcirc66r2.pdf 

[3] Ver:

http://www.iaea.org/Publications/Documents/Infcircs/Others/inf193.shtml  

[4] Ver:

http://www.iaea.org/Publications/Documents/Infcircs/Others/infcirc435.pdf

[5] À INFCIRC 435 (março de 1994) original foram feitas 3 modificações em agosto de 1997, maio de 1998 e março de 2000:

Ver:

http://www.iaea.org/Publications/Documents/Infcircs/1997/infcirc435m1.pdf

Ver:

http://www.iaea.org/Publications/Documents/Infcircs/1998/infcirc435m2.pdf

Ver:

http://www.iaea.org/Publications/Documents/Infcircs/2000/infcirc435m3.pdf

[6] Ver:

http://www2.mre.gov.br/dai/abacc.htm

[7] Para uma definição detalhada sobre as inspeções, ver IAEA Safeguards Glossary, capítulo 11, em:

http://pub.iaea.org/MTCD/publications/PDF/nvs-3-cd/PDF/NVS3_prn.pdf

[8] Ver:

http://www.iaea.org/Publications/Documents/Infcircs/1997/infcirc540.pdf

[9] À INFCIRC-540 original, de setembro de 1997, foram feitas duas correções, uma ainda em setembro de 1997 e outra em outubro de 1998:

Ver:

http://www.iaea.org/Publications/Documents/Infcircs/1997/infcirc540c.pdf

Ver:

http://www.iaea.org/Publications/Documents/Infcircs/1998/infcirc540c1.pdf

[10] Ver:

http://www.iaea.org/OurWork/SV/Safeguards/sg_protocol.html

[11] Note-se, entretanto, que a EURATOM e todos os seus Estados-Membros já aderiram ao PA (vide nota 10).

[12] VerNuclear Suppliers Group and the IAEA Additional Protocol, Mark Hibbs, Nuclear Energy Brief, August 18, 2010, Carnegie Endowment for Peace”, em:

http://www.carnegieendowment.org/publications/index.cfm?fa=view&id=41393

[13] Ver:

http://www.iaea.org/Publications/Documents/Infcircs/2009/infcirc288a1.pdf

AMÉRICA LATINAANÁLISES DE CONJUNTURA

GERAÇÃO ELÉTRICA NUCLEAR HOJE

Recentemente a Associação Brasileira para o Desenvolvimento das Atividades Nucleares (ABDAN) encaminhou aos candidatos à Presidência da República o documento “Definição do Programa Nuclear Brasileiro: uma necessidade para o desenvolvimento do País”. O tema é oportuno, mas dificilmente será discutido na profundidade necessária durante esse período atual de campanha eleitoral. Cabe então acrescentar alguns elementos para discussão pós-campanha, que tentarei resumir a seguir.

A geração elétrica nuclear tem respondido por 2,5 – 3% da eletricidade produzida no Brasil nos últimos anos. Essa contribuição, relativamente pequena, tem, entretanto, grande importância para o Sistema Interligado Nacional (SIN), que requer cada vez mais geração térmica de base para fazer frente a condições climáticas adversas e à limitada capacidade de armazenamento dos reservatórios das hidrelétricas face ao crescimento da carga decorrente do desenvolvimento econômico e social do País ocorrido nos últimos anos.

As usinas Angra 1 e Angra 2 têm respondido com excelente desempenho às demandas do Operador Nacional do Sistema (ONS), batendo sucessivos recordes de produção tanto em termos de energia gerada, com fatores de capacidade superando 90%, como em termos de potência máxima instantânea. Isso coloca o Parque Nuclear Brasileiro em posição de destaque ao nível mundial, apresentando o 4º melhor desempenho no triênio 2011-2013, sendo o 2º melhor em 2012. Existem atualmente 434 usinas nucleares em operação no mundo, operadas por 31 países.

Em termos de custos, a geração por Angra 1 e Angra 2 é a mais barata dentre as opções térmicas, tanto em termos de preço contratual da energia (MW.hora a R$ 156), como em termos de preço do combustível (custo variável unitário de R$ 21).

Os efeitos das mudanças climáticas hoje parecem ser inegáveis tanto ao nível global como ao nível nacional, face aos sucessivos recordes da temperatura global e ao aumento da frequência local de fenômenos naturais severos, tais como períodos secos prolongadas como o que vivemos hoje no Brasil. A resposta a essas mudanças passa, necessariamente, por uma significativa ampliação da geração elétrica por tecnologias com baixa emissão de carbono. Nesse contexto, as energias renováveis têm um papel crucial. Entretanto, suas características de intermitência e sensibilidade a fatores climáticos implicam em crescentes riscos para a segurança de abastecimento, na medida em que as renováveis passam a ter contribuição cada vez mais significativa. O caso brasileiro, cujo sistema elétrico exibe o maior nível de contribuição de energias renováveis do mundo, é um exemplo dessa realidade. Note-se que nosso sistema é baseado na hidroeletricidade, renovável com menor intermitência de longo ciclo e amplas possibilidades de estocagem de energia nos reservatórios, mais robusto, portanto, a esses efeitos.

Esses riscos são amplificados pelos próprios efeitos das mudanças climáticas, requerendo que a expansão das renováveis seja acompanhada também pela expansão de fontes de geração elétrica de base, não intermitentes, não sujeitas aos efeitos das mudanças climáticas e, principalmente, sem emissão de gases de efeito estufa, que são os “vilões” dessas mudanças. A nuclear é a única tecnologia disponível hoje em escala industrial que atende plenamente a essas três condições para a geração elétrica de base indispensável à expansão das renováveis e, portanto, à mitigação dos efeitos das mudanças climáticas. Nesse sentido, nuclear e renováveis devem ser entendidas como um par de fontes cujo desenvolvimento deve ser harmônico e coordenado de forma a enfrentar de maneira efetiva e sustentável os desafios das mudanças climáticas.

Não é por acaso que atualmente existem (ABR/14) 72 usinas nucleares em construção no mundo, 173 já contratadas ou com planejamento firme, e ainda 309 propostas. Esses novos projetos são concentrados na China, Rússia e Índia, nossos parceiros no grupo BRICS, com 45 usinas em construção, e que também desenvolvem robustos programas de geração renovável. Esses números são significativamente superiores àqueles de março de 2011, momento do acidente ocorrido na central de Fukushima-Daiichi, no Japão, provocado por terremoto e tsunami de inusitada severidade. Essa é uma realidade que contrasta com o discurso fácil de alguns autodenominados ambientalistas que afirmam que a geração nuclear seria abandonada, sempre citando a Alemanha como exemplo.

Passados três anos do acidente de 2011, só um país se propôs formalmente a abandonar a geração nuclear: a Alemanha. Entretanto, esse país, além de ser o único, vem pagando um elevado preço por tal decisão tomada no “calor” de disputas políticas locais, acirradas pelo acidente. Tal decisão tem implicado em severos aumentos de custos para os consumidores alemães e um grande aumento na geração de gases de efeito estufa, já que lá a necessária expansão da geração de base que acompanha a acelerada expansão das renováveis vem sendo feita com base no carvão.

O Brasil segue esse movimento global de forma modesta, porém adaptada ao contexto energético nacional. Angra 3 encontra-se em construção, com início de operação previsto para 2018. O Plano Nacional de Energia PNE-2030 prevê 4.000 MW nucleares adicionais a entrarem em operação na segunda metade da década de 2030. Angra 3 é um legado do Acordo Nuclear Brasil-Alemanha de 1975 e suas obras foram retomada em 2010, baseada numa revisão global de seu projeto original para adaptá-la às mais atuais normas de segurança nacionais e internacionais, inclusive as lições aprendidas com o acidente de Fukushima-Daiichi, o que a torna uma usina moderna, compatível com as demais 71 usinas em construção no mundo.

Recentemente o TCU relatou um aumento do seu orçamento de R$ 4 bilhões. Entretanto, 27% desse aumento se devem à correção monetária e reajustes contratuais ocorridos de JUN10 a JUN14 e a variação cambial incidente sobre bens e serviços importados (que correspondem a cerca de 30% do total). O aumento de custos real se limita a 13% e decorre das condições do mercado nacional e internacional de bens e serviços na indústria nuclear. Foi também relatado um atraso no cronograma de mais de 2 anos. Esse atraso se deve principalmente às inerentes dificuldades de conduzir uma obra desse porte dentro do rigor da legislação e regulamentação de compras e execução de obras públicas.

Em que pese o aumento do orçamento e atrasos relatados pelo TCU, o preço da energia a ser gerada por Angra 3 é muito competitivo em relação às demais alternativas térmicas. Se a usina estivesse operando hoje, sua energia contratual seria comercializada a um preço reajustado até DEZ13 de R$ 190.

Quando se debate a geração elétrica nuclear, um tema sensível em termos de aceitação pública é a disposição final dos resíduos decorrentes daqueimado combustível, o impropriamente chamadolixo nuclear”. Mais de 90% do combustível usado pode ser reciclado e de fato o é há muitos anos em países como a França e a Rússia. Entretanto essa reciclagem não é amplamente difundida por fatores econômicos e políticos conjunturais que, certamente, serão superados no futuro.

Certamente, esse é um tema sobre o qual a indústria nuclear tem grande atenção. Evidência cabal da efetividade dos procedimentos de gerenciamento desses resíduos aplicados pela indústria nuclear mundial reside no fato de que nunca houve qualquer acidente envolvendo o combustível usado que implicasse em danos ao público e ao meio ambiente ao longo dos 55 anos de operação de usinas nucleares, atualmente um parque mundial de 434 unidades de geração elétrica.

No Brasil, a Eletronuclear desenvolve, em parceria com a Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), um conceito pioneiro de depósito intermediário de longa duração para o combustível usado, que permitirá armazená-lo de forma segura por um período de 500 anos, prazo mais do que suficiente para que os fatores econômicos e políticos conjunturais sejam superados. Note-se que todo o combustível usado por Angra 1, Angra 2 e Angra 3 ao longo de toda sua vida útil estimada em 60 anos para cada unidade, poderia ser armazenado numa área equivalente a um campo de futebol oficial.

Ficam então colocados esses elementos para um necessário debate sobre o tema, a ser estabelecido a partir de 2015, no contexto da atividades e consultas públicas para elaboração do Plano Nacional de Energia PNE-2050 que se encontram em andamento. O PNE-2050 atualizará o PNE-2030, lançado em 2007, e será o “farol” que nos indicará os caminhos para enfrentarmos os desafios energéticos e ambientais que se colocam no século XXI.

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 wikipedia

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Fonte consultada:

Avaliação de Leonam dos Santos Guimarães: Doutor em Engenharia, Diretor de Planejamento, Gestão e Meio Ambiente da Eletrobrás Eletronuclear e membro do Grupo Permanente de Assessoria do Diretor-Geral da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA).

AMÉRICA LATINAANÁLISES DE CONJUNTURA

O Desafio da TRANSIÇÃO HIDROTÉRMICA

O sistema elétrico brasileiro é único pelo seu inédito nível de contribuição de fontes renováveis, superior a 85%, num mundo dominado pelas energias fósseis, que representam quase 70% do total da eletricidade gerada globalmente. Isso ocorre graças ao intensivo aproveitamento do potencial hídrico nacional, iniciado desde os primórdios do século XX. Esse sistema, entretanto, vive hoje uma TRANSIÇÃO HIDROTÉRMICA.

O que é isso? É o que acontece quando a expansão de um sistema elétrico com predominância de fonte hídrica passa a requerer uma crescente contribuição térmica, seja por esgotamento do potencial ou por perda da capacidade de autorregulação devida à diminuição do volume de água armazenada nos reservatórios, ou ambos simultaneamente, como veremos ser o caso do Brasil.

A TRANSIÇÃO HIDROTÉRMICA começou a ocorrer no Brasil em 2000, quando a taxa de crescimento das térmicas passou a ser muito superior a taxa de crescimento das hídricas. Isso decorre do fato da taxa de crescimento do volume de água nos reservatórios ter passado a ser bastante inferior à taxa de crescimento de potência hídrica instalada a partir do final da década de 80. O Brasil percebeu isso de forma dolorosa em 2001, com uma crise de abastecimento devido à redução do nível dos reservatórios, sem haver disponibilidade de energia térmica complementar.

Desde então, a geração térmica vem sendo ampliada com sucesso, permitindo enfrentar, sem crise, o baixo nível dos reservatórios de 2012, que foi inferior ao verificado na crise de 2001. De 2000 a 2012, a contribuição da geração térmica ao Sistema Interligado Nacional (SIN) mais do que dobrou (6,26% em 2000, 15,74% em 2012).

Verificando-se a geração térmica mensal no SIN, nota-se que já existe a necessidade de uma pequena geração térmica na base – entre 2.000 e 3.000 MWmédios – representados pelo mínimo dos mínimos mensais. Aí reside o “nicho competitivo” da geração nuclear no Brasil, a mais barata térmica de base disponível. Note-se que esses 3.000 MWmédios são superiores à capacidade das usinas nucleares brasileiras, Angra 1 e Angra 2. Efeito disso são os sucessivos recordes de geração dessas usinas, que as colocam no topo do ranking mundial de desempenho nos últimos 3 anos.

Chegamos em 2012 com uma contribuição térmica de 16% e com a carga do SIN crescendo numa taxa de 4,6% ao ano. O último Plano Decenal de Energia divulgado, o PDE-2021, prevê um crescimento de apenas 5% no armazenamento hídrico do SIN, indicando que os efeitos da transição hidrotérmica se acelerarão nos próximos 10 anos.

A relação entre a energia armazenável máxima e a carga do SIN nesse período mostra uma contínua perda de autorregulação, requerendo aumento da contribuição térmica, tanto na base como na complementação. O Plano Nacional de Energia, PNE-2030, aponta que as perspectivas de expansão hídrica em mais longo prazo são limitadas, podendo-se afirmar que o potencial aproveitável estaria virtualmente esgotado ao final da década de 2020. Essa parcela do potencial viável de ser desenvolvida é da ordem de 150 a 180 GW, dos quais quase 100 já foi aproveitada, de um total teórico de 260 GW.

A evolução do sistema elétrico canadense nos últimos 50 anos guarda muitas similaridades com a situação do brasileiro nos últimos 15. A partir de uma contribuição de mais de 90% em 1960, a participação da hidroeletricidade no Canadá declinou de forma constante até 1990, se estabilizando em torno de 60%. No Canadá, o crescimento da geração térmica nuclear e a carvão operando na base, permitiu que as hidrelétricas passassem a fazer a regulação de demanda, garantida pelo gás natural na complementação térmica dessa regulação.

A estratégia básica da transição canadense foi o crescimento da geração térmica de base, nuclear e a carvão. No Brasil, a partir de 2000 verificou-se a expansão da geração térmica de base nuclear (com Angra 2) e da geração a gás e derivados de petróleo, inicialmente operando a fatores de capacidade reduzidos. Do final dessa década de 2000 até os dias atuais, tivemos uma expansão da geração hídrica a fio-d´água (com pequenos ou mesmo nenhum reservatório), biomassa e eólica. Desde então, porém, tem-se notado uma paulatina elevação do fator de capacidade do parque térmico nuclear e convencional, denotando uma crescente necessidade dessa geração na base de carga.

Dessa forma, a expansão a partir daí terá que ser baseada num mix de gás natural (dependendo da quantidade e custos de Pré-Sal), carvão mineral (dependendo das futuras tecnologias de carvão limpo) e nuclear (dependendo da aceitação pública).

As novas renováveis (biomassa, eólica e solar) e os programas de eficiência energética (que crescem em importância com aumento dos custos marginais de expansão) serão um complemento importante. Cabe aqui ressaltar a vantagem competitiva única do Brasil para as novas renováveis: sua complementaridade com as hídricas. Isso permite a estocagem de energia intermitente nos reservatórios a baixo custo, economizando água e ampliando a capacidade das hidrelétricas fazerem regulação da demanda.

Concluindo, a gestão segura de um sistema hidrotérmico passa pela geração de base hídrica (sustentada pela mínima energia natural afluente – ENA dos rios) e térmica (nuclear e carvão), associado a um seguimento de demanda feito pela energia hídrica em excesso da mínima ENA, garantido pela complementação térmica do gás natural, com a energia das novas renováveis sendo armazenada nas hídricas, o que amplia sua capacidade de seguimento carga.

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Fonte consultada:

Avaliação deLeonam dos Santos Guimarães: Doutor em Engenharia, Diretor de Planejamento, Gestão e Meio Ambiente da Eletrobrás Eletronuclear e membro do Grupo Permanente de Assessoria do Diretor-Geral da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA).

NOTAS ANALÍTICASPOLÍTICA INTERNACIONALSociedade Internacional

Baixa probabilidade de terroristas usarem explosivos nucleares

O assunto é polêmico porque dados confiáveis sobre explosivos nucleares são classificados e grande parte da discussão gira em torno de especulações. Pode-se afirmar que a confiabilidade de explosivos nucleares de plutônio está diretamente ligada à quantidade de Pu240 presente na massa de plutônio utilizada e à velocidade com que é realizada sua montagem supercrítica. Em virtude da natureza estatística do problema da pré-ignição, dois explosivos nucleares idênticos podem, em condições de igual performance, produzir explosões nucleares de potências completamente díspares.

Considerável polêmica tem sido travada a respeito da possibilidade de se fabricarem explosivos nucleares de potência razoavelmente elevada (> 1 quiloton), utilizando como elemento físsil o plutônio proveniente de reatores nucleares de potência (portanto com altas porcentagens de Pu240) e técnicas usuais de implosão.

A questão, como se pode depreender das Tabelas a seguir, tem de ser examinada probabilisticamente. Do ponto de vista da aplicação militar, em que é exigida alta confiabilidade e, geralmente, alta potência, tais explosivos seriam considerados inadequados, em razão da alta probabilidade de pré-detonação.

Probabilidade de não ocorrer a pré-ignição durante a inserção de criticalidade em função de diferentes porcentagens de Pu-240 na massa de plutônio de 6 kg.[1]

Probabilidade de não ocorrer a pré-ignição durante a inserção de criticalidade em função de diferentes porcentagens de Pu-240 na massa de plutônio de 6kg.[1]

 

Energia liberada supondo que a explosão nuclear ocorra em pontos do criticalidademenor do que o máxima alcançada (k = 1.3) e a probabilidade de não ocorrer o pré-ignição até os respectivos valores de criticalidade.[2]

Energia liberada supondo que a explosão nuclear ocorra em pontos do criticalidademenor do que o máxima alcançada (k = 1.3) e a probabilidade de não ocorrer o pré-ignição até os respectivos valores de criticalidade.[2]

Já sob a ótica da ameaça de eventual emprego por grupos terroristas com capacidade e meios de fabricá-los, a probabilidade de não ocorrer a pré-detonação, mesmo quando considerada baixa para os padrões militares, poderia, para esses grupos, ser admitida “suficientemente alta” para cumprir propósitos chantagistas.

Além disso, mesmo ocorrendo precocemente a reação de fissão em cadeia divergente tão logo a massa físsil se tornasse supercrítica, haveria chance ainda da inserção de razoável excesso de reatividade, com liberação de energia tremendamente destrutiva comparada à outros explosivos convencionais.

Deve-se frisar, porém, que o projeto e a construção de explosivos nucleares requerem conhecimentos teóricos e práticos específicos, complexas simulações computacionais, aquisição de materiais especiais, instalações adequadas, testes experimentais de componentes, os quais, provavelmente, estão muito acima da capacidade de realização de grupos avulsos.

Além disso, existem duas circunstâncias adicionais, dificilmente contornáveis, relacionadas ao plutônio com alto teor de isótopos pares: sua mais alta radioatividade, que dificultaria sobremodo sua manipulação (exigindo, provavelmente, que fosse remota e sob alguma espécie de blindagem), e o problema do auto-aquecimento causado pela radiação alfa emitida por esses isótopos. Considerando  resfriamento por convecção natural, estima-se uma diferença de temperatura de mais ou menos 65°C entre a superfície da massa do plutônio e o ambiente. Tal auto-aquecimento causaria danos significativos ao alto explosivo químico em volta do núcleo físsil do explosivo nuclear.

Não é por outra razão que a totalidade dos explosivos nucleares de plutônio utiliza-o com alto teor de pureza em Pu239, produzido em reatores nucleares especialmente projetados para esse fim.

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Avaliação de Leonam dos Santos Guimarães: Doutor em Engenharia, Diretor de Planejamento, Gestão e Meio Ambiente da Eletrobrás Eletronuclear e membro do Grupo Permanente de Assessoria do Diretor-Geral da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA).

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Fontes consultadas:

[1] Ver:

Barroso, D.E.G., A Física dos Explosivos Nucleares, 2ª. Edição, São Paulo, Editora Livraria da Física, 2009, pág. 199

[2] Ver:

Idem, pág. 200

DEFESAENERGIANOTAS ANALÍTICASPOLÍTICAS PÚBLICAS

Armas Nucleares: Rejeitar o arado empunhando a espada

Cinco países são reconhecidos internacionalmente como “estados dotados de armas nucleares”. Possuem essas armas por direito concedido pelo Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP): os EUA, Reino Unido, França, China e Rússia. Entretanto, outros países têm essas armas “de fato” e não “de direto.

Três deles, não signatários do TNP, declararam formalmente e demonstraram na prática, através de testes nucleares, possuí-las: Índia, Paquistão e Coreia do Norte. Apesar de nunca ter declarado nem demonstrado diretamente, parece não haver dúvidas que Israel, que não é signatária do TNP, também as tem. A África do Sul, quando ainda não tinha aderido ao TNP, também as teve, mas decidiu desmontá-las voluntariamente. A Ucrânia também armazenou armas nucleares em seu território, mas elas foram totalmente repatriadas para a Rússia mediante acordo após o desaparecimento da URSS. Nos dias de hoje, o Irã é acusado pela comunidade internacional de estar buscando obtê-las, o que vem sendo tratado como uma grande ameaça à paz mundial.

Mas o que dizer dos cinco países europeus que têm em seu território armas nucleares de origem americana “não declaradas”, incluindo Bélgica, Alemanha, Turquia, Holanda e Itália? Levanta-se a questão de saber se eles também não constituem uma ameaça. A existência de armas nucleares nesses cinco países, incluindo os procedimentos e meios operativos para seu emprego, é formalmente reconhecida pela OTAN.

Os EUA têm cerca de 480 armas termonucleares B61 nesses cinco “estados não dotados de armas nucleares” pelo TNP e desenvolve um programa de modernização dessas armas. Sua existência é ignorada pela AIEA, que é o organismo técnico internacional que têm delegação da ONU para verificar o cumprimento dos compromissos assumidos pelos países que aderiram ao TNP. Dentre esses cinco “estados nucleares não declarados”, a Alemanha é o mais armado. A Força Aérea Alemã tem três bases que podem armazenar até 150 armas e operar aviões alemães Tornado, capazes de lançar ogivas nucleares.

Os observadores se questionam a que se destina a instalação e acumulação de armas táticas B61 nestes cinco “estados não dotados de armas nucleares”, bem como quais seriam os potenciais alvos dessas armas. Dadas suas características técnicas operacionais, elas somente poderiam ser empregadas contra alvos na Rússia e Leste Europeu ou no Oriente Médio e Norte da África.

Essa realidade implica em muitas contradições, que especialistas acabam interpretando como casos típicos de “dois pesos, duas medidas”. A primeira delas é que enquanto alguns desses mesmos países europeus dotados de armas nucleares “de fato” acusam o Irã de buscá-las, eles próprios têm capacidade de atacá-lo com essas mesmas armas. A segunda é que três desses cinco países, Alemanha, Itália e Bélgica, decidiram abandonar o uso pacífico da energia nuclear, que é a geração elétrica, sob a justificativa dosriscos elevados”, mas nenhum decidiu devolver as armas aos EUA, como fez a Ucrânia à Rússia. Será que as usinas nucleares são um risco maior do que as “bombas atômicas”? A classe política e a sociedade desses países parecem pensar que sim.

A Alemanha é o caso mais emblemático dessa contradição: não é uma potência nuclear “de direito” pelo TNP, mas estoca armas nucleares fabricadas nos EUA e sua força aérea tem capacidade própria de lançá-las. A empresa EADS, controlada pelo poderoso Grupo Daimler, é o fornecedor para a França do míssil balístico M51, capaz de lançar ogivas nucleares de submarinos e ainda o estaleiro alemão HDW é o fornecedor para Israel de submarinos capazes de lançar mísseis com armas nucleares. Ao mesmo tempo, a Alemanha decidiu descomissionar todo o seu parque de geração elétrica nuclear, na esteira do acidente de Fukushima. Isso tem implicado num aumento na geração de gases efeito estufa, afetando todo o mundo, e em grandes custos para o país, a serem arcados pela sociedade alemã. Rejeitam o arado e abraçam a espada.

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Fonte consultada:

Avaliação de Leonam dos Santos Guimarães: Doutor em Engenharia, Diretor de Planejamento, Gestão e Meio Ambiente da Eletrobrás Eletronuclear e membro do Grupo Permanente de Assessoria do Diretor-Geral da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA).

ENERGIANOTAS ANALÍTICASPOLÍTICAS PÚBLICAS

A ética da Segurança Nuclear

A indústria de geração elétrica nuclear tem um histórico de segurança e desempenho notável, apesar das persistentes imagens dos acidentes de Three Mile Island (TMI), Chernobyl e Fukushima Daiichi. Este registro é o legado de uma comunidade de projetistas, operadores e reguladores que, embora imperfeitos, estiveram comprometidos com a segurança da energia nuclear.

A geração de especialistas que projetaram e construíram nossa frota de usinas nucleares atual não é mais a mesma. A geração de especialistas que se dedicaram na era pós-TMI está agora se aposentando ou se aproximando da aposentadoria. Assim, o “bastão” da segurança nuclear está passando para uma nova geração que vai carregar a responsabilidade de garantir a segurança dos futuros projetos de usinas nucleares e da operação da frota existente.

Fica diante de todos aquilo que a história ensinou sobre a forma como um especialista em segurança nuclear deve encarar sua profissão. Neste quadro, a Ética da Segurança Nuclear, entendida como o conjunto de crenças e valores fundamentais do profissional, incorpora cinco princípios fundamentais:

1. Um agudo senso de responsabilidade para com a sociedade. A geração elétrica nuclear é a única tecnologia de energia disponível hoje com real potencial para fornecer eletricidade abundante para bilhões de pessoas ao redor do mundo, que vivem hoje com pouco ou nenhum acesso a ela. A energia nuclear é também uma das poucas tecnologias que, se mal gerenciada, tem o potencial de impedir que os vizinhos de uma usina de nunca mais retornem para suas comunidades e residências. Estas duas realidades devem proporcionar uma forte motivação para aqueles que aspiram a ser profissionais de segurança nuclear.

2. Uma sensação de desconforto crônica. O profissional de segurança nuclear deve ter uma atitude de questionamento persistente sobre o que sabemos, o que sabemos que não sabemos, e o que não sabemos que não sabemos (os chamados “desconhecidos conhecidos” e “desconhecidos desconhecidos”).

3. Um zelo pela compreensão dos fundamentos. O profissional de segurança nuclear deve ter paixão e habilidades para integrar os dados experimentais, simulação e análise, e experiência operacional para chegar a um entendimento científico baseado em fatos.

4. A disposição para desafiar o status quo e o establishment. O profissional de segurança nuclear deve possuir a coragem para defender suas convicções e estar disposto a desafiar o status quo e o establishment (tanto industrial, como o regulatório), quando seu instinto e sua compreensão obrigá-lo à ação.

5. A humildade científica e técnica. Um profissional de segurança nuclear deve ter um saudável respeito aos limites de seu conhecimento e sabedoria para operar dentro desses limites. Ele ou ela deve ter medo de perguntar e responder a pergunta: “e se eu estiver errado?”.

Num momento em que o International Panel on Climate Change (IPCC) da ONU reafirma o importante papel que a geração elétrica nuclear deverá ter para acelerar a redução das emissões de gases de efeito estufa ao nível mundial, é oportuno e necessário revisitar essa ética da segurança nuclear.

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 http://www.brasilescola.com/geografia/energia-nuclear.htm

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Fonte consultada:

Avaliação de Leonam dos Santos Guimarães: Doutor em Engenharia, Diretor de Planejamento, Gestão e Meio Ambiente da Eletrobrás Eletronuclear e membro do Grupo Permanente de Assessoria do Diretor-Geral da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA).