ESPORTENOTAS ANALÍTICAS

Megaeventos esportivos e Democracia em rota de colisão

Há algum tempo que os megaeventos esportivos vêm exigindo dos países e/ou cidades que se propõem a sediá-los esforços quase que hercúleos para sua perfeita realização. Sem embargo, pode-se falar sobre a existência de um regime internacional dos megaeventos esportivos, haja vista que estes impõem inúmeros condicionantes às sedes e, não obstante, também contribuem para relativização da soberania dos países-sedes, os quais devem, obrigatoriamente, se adequar, respeitar e cumprir as determinações impostas pelas organizações esportivas internacionais – FIFA e COI – caso queiram sediar tais eventos.

Outrossim, tem-se constatado que, quanto maior o nível de desenvolvimento econômico, político e social de um país, menor será a ingerência externa das organizações esportivas internacionais nas leis deste. Isso é observado ao se analisar e comparar a atuação da FIFA, por conta da realização da “Copa do Mundo FIFA”, nas edições de 2006 e 2010, executadas na Alemanha e na “África do Sul”, respectivamente, e, principalmente, a “Copa do Mundo de 2014”, a ser realizada no Brasil.

Tendo em vista esta conjuntura, após a realização de um plebiscito, cujo resultado foi conhecido no último dia 10, os cidadãos de Munique (Alemanha) rejeitaram a ideia de uma candidatura da cidade para sediar osJogos Olímpicos de Inverno de 2022”. Segundo os cidadãos, enquanto a sede disponibiliza recursos e promove altos gastos, o COI obtém apenas lucros. Desta forma, a maioria dos habitantes de Munique e das localidades de Traunstein, Berchtesgaden e Garmisch-Partenkirchen, que receberiam algumas competições, foi contrária à candidatura às Olimpíadas, sendo de caráter unânime a recusa à mesma, resultado este que desagradou o secretário-geral daFederação Alemã de Esportes Olímpicos”, Michael Vesper.

Assim, de acordo com reportagem publicada no periódico “Deutsche Welle” (DW), a recusa de Munique se relacionou, primordialmente, aos custos imprevisíveis e à grande desconfiança para com o COI, que poderia vir a forçar a cidade a aceitar contratos que resultariam nas mesmas experiências anteriormente vividas por outras cidades-sede, com lucros extraordinários para o COI durante o megaevento enquanto a cidade e as comunidades vizinhas arcariam com todos os custos de organização. Em adição, o temor de alterações drásticas na paisagem local, com danos irreparáveis ao meio ambiente, já havia feito a “Associação Alemã de Hipismo” se pronunciar contra a candidatura de Munique. Por último, os moradores de Traunstein, Berchtesgaden e Garmisch-Partenkirchen temiam que o fluxo acentuado de turistas geraria caos na região, que já não atende os habituais visitantes.

O caso de Munique não foi um caso isolado. Recentemente, cidades da Suíça, França e Áustria, ao serem consultadas por intermédio de plebiscitos semelhantes, também se mostraram contra a apresentação de uma candidatura para megaeventos esportivos desta magnitude. Tem-se observado que nos países desenvolvidos e democráticos é cada vez maior a desconfiança para com o COI e a FIFA, o que leva a crer, na visão de alguns analistas internacionais, que os megaeventos esportivos tendem a ser, cada vez mais, direcionados para países de pouca tradição democrática, onde a população não pode se pronunciar sobre a aceitação do megaevento, a exemplo das “Olimpíadas de Inverno de 2014”, a ser realizada em Sochi, na Rússia; da “Copa do Mundo de 2018”, também na Rússia, e da “Copa do Mundo de 2022”, a ser realizada no Qatar.

Na opinião do ex-presidente da “Associação Atlética Alemã”, o COI deveria mostrar clara predisposição para reformar o processo de candidatura aos Jogos, tornando-o mais simples, menos oneroso e reduzindo as exigências feitas às cidades-sede, já que, de acordo com o sociólogo alemão, Helmut Dingel, seria um grande pesar para o desenvolvimento dos esportes e do espírito olímpico se o COI decidisse optar por realizar as Olimpíadas em países de pouca ou nenhuma tradição democrática.

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ImagemMunique descarta Olimpíadas” (Fonte):

http://www.dw.de/população-de-munique-envia-recado-ao-coi-ao-rejeitar-jogos-ol%C3%ADmpicos/a-17221879

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Fonte consultada:

http://www.dw.de/população-de-munique-envia-recado-ao-coi-ao-rejeitar-jogos-ol%C3%ADmpicos/a-17221879

ESPORTENOTAS ANALÍTICAS

A economia futebolística européia: indícios de crise

Movimentando uma excepcional soma monetária anualmente e considerado por inúmeros analistas financeiros e empresas de rating como o mais lucrativo mercado esportivo do planeta, o universo futebolístico europeu parece caminhar para uma grave crise, com sérios efeitos políticos, sobretudo financeiros, o que vem a comprovar a intrínseca ligação existente entre futebol, economia e política no continente, a qual, segundo reportagem do “Le Monde”, se sustenta e se baseia em um modelo econômico equivocado, que não se adequa à atual conjuntura econômica europeia. Entretanto, dado envolver inúmeros atores – federações nacionais, clubes, governos e empresas – as soluções passíveis de serem adotadas não gozam de credibilidade perante grande parte dos clubes europeus.

Na França, um dos grandes mercados futebolísticos da Europa, a implantação de uma taxa de 75% sobre a parte das receitas dos clubes profissionais que ultrapassarem o montante de um milhão de euros, além de provocar bastante polêmica, tem levado os clubes a ameaçarem uma greve prevista para ocorrer no próximo dia 30 de novembro como forma de protesto contra a instauração deste imposto sobre as altas receitas. Ademais, e ainda no tocante à tributação na França, segundo um dos presidentes do “Partido de Esquerda” francês (Parti de Gauche – PG), Jean-Luc Mélenchon, os futebolistas franceses que não pagarem seus respectivos impostos de forma correta deveriam ser proibidos de atuar pela seleção francesa.

Todavia, o estopim para a crise no futebol na Europa é a preocupante situação financeira do universo futebolístico europeu, na qual os clubes acumulam mais de 15 bilhões de euros em dívidas. De acordo com o “Le Monde”, a precária situação do futebol no continente se deve a um modelo econômico sem regulação e acentuadamente desigual, no qual os grandes clubes gastam bem mais do que arrecadam, haja vista a grande pressão exercida pelos altos salários pagos a vários jogadores, ocasionando uma acentuada pressão inflacionária nos salários, a qual teve início a partir de 1995, ano em que o mercado de jogadores na Europa foi totalmente liberalizado.

Com as novas leis para transações de jogadores, o mercado passou a se autorregular e as negociações entre os clubes atingiram valores cada vez mais elevados, passando a colocar em lados opostos os clubes mais ricos e os demais. Para tanto, também foi fundamental o papel exercido pelos grandes conglomerados, que passaram a financiar as contratações de vários futebolistas, criando um contexto de dependência dos clubes para com estes grupos, num processo denominado dopagem financeira, o que alavanca uma espiral de crescimento salarial e endividamento, pois uma elevação salarial em um clube transmite seus efeitos para todo o mercado, que tende a se igualar no mesmo patamar.

Diante deste contexto, impossível pensar a existência de um clube europeu sem um grande conglomerado por trás. Na visão do Le Monde, piores seriam os efeitos, caso algum destes conglomerados decidissem, repentinamente, retirar o capital de um determinado clube. Sem embargo, isto levaria à total falência do clube. Em tais condições, uma regulação se faz necessária no mercado como forma de se prevenir diante de uma crise sistêmica, o que na França começa a ser pensado com a atuação da “Direction Nationale du Contrôle  de Gestion” (DNCG), que passou a fiscalizar os balanços contábeis dos clubes, e com a implantação da supracitada taxa de 75%, a qual, na visão do governo francês, representa uma oportunidade para moderar os salários e reintroduzir certa igualdade entre os clubes.

A ressaltar que, visando evitar uma crise sistêmica na economia futebolística europeia, a UEFA implantou, neste ano, o denominadoFair-Play Financeiro”, medida que tem por objetivo impedir que os clubes europeus gastem mais do que arrecadam, bem como diminuir a desigualdade econômica entre eles.

No cenário futebolístico europeu, à semelhança do cenário econômico, os imperativos por uma maior regulação também têm se feito presentes. Contudo, na atual temporada europeia, vários clubes usaram de subterfúgios para burlar as recomendações da UEFA e continuaram a contratar jogadores por somas astronômicas, em nada contribuindo para diminuir os riscos de uma crise. Neste sentido, são soluções apontadas pela reportagem adotar medidas regulatórias, tais como adequar o valor dos contratos de patrocínio ao valor de mercado dos clubes e instituir um teto máximo para o valor dos salários que se adeque aos ativos dos clubes.

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ImagemO Montante das Dívidas de Alguns Clubes Europeus” (Fonte):

http://www.lefigaro.fr/medias/2010/03/09/c43686d4-2b6b-11df-8928-97cf89d87a97.jpg

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Fontes Consultadas:

Ver:

http://www.lemonde.fr/economie/article/2013/11/07/economie-du-football-un-premier-pas-vers-la-regulation_3509848_3234.html

Ver:

http://www.lemonde.fr/sport/article/2013/11/08/equipe-de-france-pour-melenchon-pas-d-impots-pas-de-maillot_3510729_3242.html

AMÉRICA LATINAANÁLISES DE CONJUNTURAÁSIAEUROPA

FUTEBOL: ESPELHO E REFLEXO DO SISTEMA INTERNACIONAL

No último sábado, dia 26 de Outubro de 2013, celebrou-se uma das mais relevantes datas para a história do esporte: o aniversário de 150 anos do surgimento do Futebol no mundo. Posto que inúmeros historiadores acreditem que as raízes do futebol datam de mais de três mil anos e considerem o cuju chinês, o kemari japonês e o epyskiros grego como os precursores do futebol, nenhum destes, na visão de especialistas no assunto, apresenta significativas semelhanças com o esporte que conhecemos como Futebol. Assim, na noite de 26 de Outubro de 1863, na taberna “Freemason’s Arms”, em Great Queen Street”, em Londres, um grupo de homens, que representavam os doze clubes londrinos existentes àquela época, reuniram-se e assinaram a que pode ser considerada a certidão de nascimento do futebol moderno: a criação da “Football Association” (FA) e a aprovação de um conjunto de 13 (treze) regras que constituíram o alicerce inicial do Futebol, padronizando a prática de um esporte que vinha sendo jogado de diversas formas e regras diferentes no cenário britânico da época.

Durante boa parte destes 150 anos de idade, muitos estudiosos têm buscado analisar as causas do excepcional sucesso e disseminação deste esporte no mundo, suas inúmeras implicações no cenário mundial e como o futebol se tornou um dos mais fortes elementos de coesão nacional no cenário internacional, impulsionado pela universalização das competições esportivas que passa a ocorrer a partir do início do século XX. É importante ressaltar, segundo o entender de alguns analistas, tais como Hilário Franco, a concepção de que o futebol pode ser encarado como uma metáfora da existência humana. Mais especificamente, este seria um mosaico que constrói com peças quantitativa e qualitativamente diferentes (jogadores, técnicos, torcedores etc.) a imagem síntese do mundo em que vivemos, a qual mostra tanto a realidade interna (anseios, medos, esperanças, alegrias) quanto a externa (social, econômica e política)[1].

Se em seus primórdios o futebol era visto como um esporte das elites, praticado apenas em círculos fechados, paulatinamente este foi se expandindo e se tornando o esporte mais praticado e popular em todo o mundo, o que, segundo Hobsbawm, se deveu pelo fato de, por ser este um jogo simples e elegante, não perturbado por regras e/ou equipamentos complexos e que podia ser praticado em qualquer espaço aberto, o futebol se tornou um esporte universal, o que se consolidou com a realização da primeira “Copa do Mundo de Futebol”, disputada em 1930, no Uruguai, país escolhido para ser sede da “Copa do Mundo” como forma de celebrar o centenário da independência uruguaia, denotando, desde já, o caráter político presente nas competições futebolísticas[2].

No tocante à disseminação do futebol pelo mundo, esta pode ser analisada como fruto da expansão do capitalismo na arena mundial, tendo seguido a lógica da influência cultural inglesa. A própria padronização das regras e a criação da FA, em 1863, se verifica no contexto histórico da “Segunda Revolução Industrial” e em plena expansão econômica vivenciada, à época, pela Inglaterra. Posteriormente, em fins do século XIX, época em que a delimitação das fronteiras nacionais era a preocupação primordial vigente, a FA passa a discutir a demarcação do campo de jogo. Outrossim, a própria expansão do capitalismo, levada a cabo pela Inglaterra, então uma potência econômica e comercial, propiciou a universalização do esporte na medida em que os costumes e práticas inglesas foram disseminados pelo mundo.

No Brasil, onde o futebol foi introduzido por intermédio de Charles Miller – estudante brasileiro, de pai escocês, que retornava de seus estudos na Inglaterra –, assim como na Inglaterra, o esporte se expandiu graças ao processo de industrialização e seu desenvolvimento se deve ao afluxo das companhias inglesas no país, principalmente as dos setores ferroviário e energético, que emergiram com o advento da “Revolução Industrial” e criaram uma classe operária que via neste outrora esporte das elites, fácil de ser praticado e de regras bastante simples, um esporte perfeito para seus anseios. É desta forma que o futebol acaba se tornando, com o decorrer dos anos, um esporte das massas.

Período importante a ser considerado é o que compreende os anos 1930, caracterizados por tensões e conflitos que vêm comprovar a derrocada do sistema de equilíbrio de poder europeu. As regras do futebol também são redefinidas e a FIFA, criada em 1904 segundo o modelo de um Estado-Nação soberano, é transferida para um país à época neutro no cenário europeu, a Suíça, como forma de atenuar a influência de questões políticas internacionais na organização do futebol mundial, a cargo da FIFA. Contudo, a mesma tensão política que marcava o relacionamento entre a Europa e a “América Latina” neste período se manifestou no universo futebolístico, fazendo com que a “Copa do Mundo de 1938” – realizada na França e sem que fosse respeitado o então existente rodízio de continentes na escolha dos países-sede da “Copa do Mundo” – tivesse apenas Brasil e Cuba como representantes do futebol do continente americano, tendo a Argentina liderado o boicote dos demais países desse continente à “Copa do Mundo de 1938[3].

Com o advento dos nacionalismos no cenário internacional, o futebol acaba adquirindo uma faceta política bastante acentuada, sendo representativo e portador dos interesses de governos e regimes, no que o exemplo descrito no periódico “Deutsche Welle” (DW) é bastante ilustrativo. Este ocorre em 1953, em plena “Guerra Fria”, na partida disputada entre a seleção da Hungria, país, à época, membro do bloco socialista, e a seleção da Inglaterra, membro do bloco capitalista, partida que terminou com o triunfo da seleção húngara, motivando intensa propaganda sobre a suposta superioridade do regime socialista face ao capitalista, prática que se intensificaria de forma acentuada no auge da “Guerra Fria”.

Outrossim, na Espanha dos anos 50 e 60, durante o governo de Franco, este apropriou-se do futebol como forma de enaltecer o país. Em oposição à Catalunha – região que até a presente data ainda almeja sua independência política da Espanha –, o governo do general Franco se utilizou do “Real Madrid” como instrumento de propaganda. Sendo o Barcelona o principal clube catalão, ostentando, inclusive a frase em catalão “Més Que Un Club” (“Mais Que Um Clube”, em português) para ilustrar a incorporação de um sentimento nativista catalão em sua história e formação, a rivalidade política transbordou para a esfera futebolística, contrapondo “Real Madrid” e Barcelona, os dois mais famosos times espanhóis.

Sem embargo, a última década do século XX é de grande importância para a “História Mundial”. A “Queda do Muro de Berlim” e a consequente reunificação alemã, o fim da antiga URSS, o término da “Guerra Fria”, o recrudescimento do processo de globalização, a revolução tecnológica nos meios de comunicação e a crise financeira mundial são fatos que provocaram mudanças significativas no sistema internacional, os quais acabaram por levar à emergência de uma nova ordem mundial calcada em novos paradigmas. E, à medida que esta nova ordem mundial emerge, o universo futebolístico, por espelhar e refletir as relações internacionais, também passa por inúmeras mudanças, as quais podem ser elencadas dentre as mais importantes para este esporte no decorrer destes seus 150 anos de existência.

A implosão da antiga URSS e a fragmentação de outros Estados – Iugoslávia e Tchecoslováquia – levou ao surgimento de novos Estados europeus ávidos por se fazerem presentes e reconhecidos no concerto internacional, bem como por buscarem elementos de coesão interna que propiciassem uma forte identidade coletiva. Grande parte desses novos Estados europeus – Montenegro, Bósnia-Herzegovina e Kosovo, por exemplo – buscou galgar prestígio por intermédio do futebol, como forma primordial de se inserir de maneira perspicaz no concerto internacional e de exaltar sua soberania, ou seja, com a constituição de uma equipe nacional de futebol. Para tanto, buscaram aderir, em primeiro lugar, à FIFA e não à ONU, como bem aponta o estudioso francês Pascal Boniface. Ainda segundo este, nesta nova ordem mundial, à definição clássica de Estado, calcada no trinômio território, população e governo, poder-se-ia inserir um quarto elemento essencial: uma equipe nacional de futebol[4]. No tocante a este ponto, a recente classificação da seleção nacional da Bósnia-Herzegovina para disputar sua primeira “Copa do Mundo”, a “Copa de 2014”, no Brasil, foi motivo de intensa comemoração e de grande união no país, que, por intermédio do futebol, obterá prestígio internacional, segundo garantem os próprios cidadãos do país.

Importante ressaltar que a revolução tecnológica nos meios de comunicação, essencial para disseminação da informação e para o crescimento da indústria do entretenimento, se foi fundamental para a expansão do conhecimento e para encurtar as distâncias o foi, sobretudo, para a mercantilização do futebol, atualmente, um dos mais lucrativos mercados mundiais, sendo a FIFA, na visão de Joseph Blatter, seu atual presidente, a maior empresa multinacional do mundo.

Os torneios, agora televisionados para os mais remotos cantos do planeta, rendem milhões de dólares e funcionam como canais de exposição para as mais diversas empresas dos mais diversos setores da economia mundial. Assim é que, no Japão, grande parte dos times que disputam o campeonato nacional não representam suas respectivas localidades, mas sim empresas patrocinadoras. Quanto aos torneios internacionais de grande visibilidade, estes passaram a associar aos seus antigos nomes, os nomes dos principais patrocinadores, vindo a antiga “Taça Libertadores da América” a ser agora conhecida como “Copa Santander Libertadores” e a “UEFA Champions League” a assumir a denominação de “Heineken Champions League”. Cumpre, também, registrar que a maior potência econômica europeia na atualidade, a Alemanha, é a que apresenta a mais proeminente e rentável liga europeia de futebol, a Bundesliga.

Por último, mas não menos importante, a globalização aumentou a porosidade das fronteiras, tornando o mundo bem mais integrado. Por outro lado, também provocou o surgimento (ou mesmo o reaparecimento) de manifestações xenofóbicas e, inclusive, a ascensão de certos comportamentos e atitudes racistas no mundo, as quais, mesmo em pleno século XXI, ainda são bastante visíveis. Um nacionalismo exacerbado diante de um afluxo de estrangeiros e de imigrantes tem se tornado algo recorrente, especialmente no continente europeu. E esta tendência se reflete no futebol, com os crescentes casos de racismo por parte de algumas torcidas para com jogadores negros e/ou estrangeiros, o que tem motivado inúmeras campanhas visando erradicar tais práticas. Por outro lado, a porosidade das fronteiras torna bastante visível o fato de que grande parte das equipes de futebol sejam compostas por jogadores das mais variadas nacionalidades. Mesmo as seleções nacionais vêm apresentando jogadores filhos de imigrantes e de diferentes etnias em seus quadros, a exemplo da França de Zinedine Zidane, da Itália de Mario Balotelli e, principalmente, da Alemanha de Lucas Podolski (de origem polonesa), Mesut Òzil (de origem turca), Gerald Asamoah (de origem ganesa) e Cacau (de origem brasileira). Enfim, este é o retrato do futebol, que em seus 150 anos de existência, celebrados no último dia 26 de outubro, impacta corações e mentes em todo o planeta, espelhando e refletindo o mundo em que vivemos.

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ImagemO Mundo é mesmo uma bola, uma bola de futebol” (Fonte):

http://paulohala.files.wordpress.com/2010/07/bola-mundo.png

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Fontes consultadas:

[1] Ver:

FRANCO, H. A Dança dos Deuses: futebol, sociedade e cultura. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

[2] Ver:

HOBSBAWM, E. A Era dos Extremos. Rio de Janeiro: Companhia das Letras, 2004.

[3] Ver:

SANTOS, M. A. Esporte e Relações Internacionais: a Diplomacia Futebolística como Ferramenta de Soft Power – o Caso do Brasil. Dissertação de Mestrado apresentada no Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro – PPGRI/UERJ. Rio de Janeiro: Novembro de 2011.

[4] Ver:

BONIFACE, P. Football et Mondialisation. Paris: Armand Colin, 2010.

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Ver também:

http://www.dw.de/fundado-em-taberna-londrina-futebol-completa-150-anos/a-17184347

ESPORTENOTAS ANALÍTICAS

Possíveis mudanças no “Regime Internacional dos Megaeventos Esportivos”

Desde que as inovações e modernização nas comunicações abreviaram de forma bastante significativa as distâncias e se aliaram à indústria esportiva, impulsionando, sobremaneira, a visibilidade e, consequentemente, a lucratividade dos eventos esportivos internacionais, estes se tornaram de fundamental importância para grupos privados transnacionais, organizações internacionais e, sobretudo, para diversos países, que deles se beneficiam econômica, comercial e politicamente. Ademais, de acordo com estudiosos da área, os megaeventos esportivos auxiliam na afirmação de valores e interesses particulares, projetados em nível global pela porosidade das fronteiras[1].

No que tange ao universo futebolístico, no qual as atenções mundiais se concentram, predominantemente,  nas edições da “Copa do Mundo FIFA” e nos torneios preparatórios que as antecedem, os interesses econômicos e políticos envolvidos, capitaneados pela FIFA, ditam o rumo e as condições de realização destes megaeventos, sem que haja um estudo consistente acerca dos impactos que estes possam vir a causar. Contudo, a “15ª Conferência da International Football Arena (IFA)” – organização que reúne inúmeros global players em negócios do futebol –, a ser realizada nos dias 28 e 29 de Outubro de 2013, em Zurique (Suíça), começa a discutir as implicações negativas dos megaeventos esportivos.

Tendo em vista os recentes protestos e a agitação social ocorrida no Brasil durante a realização da “Copa das Confederações”, evento teste para “Copa do Mundo de 2014”, a própria FIFA começa a se questionar acerca das condições de realizações destes megaeventos, preocupação esta que irá embasar o principal tema da “15ª Conferência da IFA”, qual seja: “Há Futuro para Os Megaeventos Esportivos?” De acordo com Christopher Gaffney, estudioso sobre os impactos econômicos e sociais causados pelos megaeventos esportivos, as imposições e obrigações às quais os países se sujeitam em virtude de sediar megaeventos, especialmente os países em desenvolvimento, devem mudar.

Ainda segundo Gaffney, os megaeventos são inteiramente planejados por indivíduos que não possuem conhecimento das particularidades locais dos países que são escolhidos como sede dos eventos e, além disso, os acordos necessários para realização destes acabam se sobrepondo às leis nacionais dos países, o que se torna fonte geradora de diversos problemas. Neste sentido, um alento talvez seja a ideia recentemente expressa por Jérôme Valcke, secretário-geral da FIFA, que afirma ser favorável a que países só possam se candidatar para serem sede da “Copa do Mundo” mediante aprovação prévia da população local ou de uma estância superior que represente o país, de forma a se evitar transtornos como os ocorridos durante a realização da “Copa das Confederações” no Brasil.

Entretanto, deve-se ter em mente que quaisquer mudanças que possam haver somente seriam aplicadas para o processo de seleção do país sede da “Copa do Mundo de 2026”. Além do mais, dado que a “Copa do Mundo” representa uma das maiores fontes de lucro da FIFA, movimentando acentuado volume de investimentos,  uma mudança de regras que não fosse favorável à FIFA não seria aprovada pela entidade.

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ImagemO Que Esperar de 2014?” (Fonte):

http://copadomundo.uol.com.br/noticias/redacao/2013/06/28/guru-de-megaeventos-usa-londres-como-exemplo-para-brasil-recuperar-imagem-da-copa-2014.htm

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Fontes consultadas:

[1] Ver:

VASCONCELLOS, D. W. Esporte, Poder e Relações Internacionais. Brasília: FUNAG, 2008.

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Ver também:

http://www.insideworldfootball.com/ifa/13441-ifa-is-there-a-future-for-mega-events

Ver também:

http://www.internationalfootball.com/

Ver também:

http://copadomundo.uol.com.br/noticias/redacao/2013/08/21/valcke-quer-consulta-popular-antes-de-pais-se-candidatar-a-sede-da-copa.htm

ESPORTENOTAS ANALÍTICAS

O Esporte gerando desenvolvimento no Qatar

Excluindo-se as polêmicas relacionadas a uma provável mudança no período de disputa da “Copa do Mundo FIFA de 2022”, tendo em vista as altas temperaturas que se verificam no país durante o verão, o Qatar vem colhendo inúmeros e lucrativos frutos provenientes do maior engajamento do país no universo esportivo, especialmente no que tange aos negócios relacionados à indústria esportiva. No decorrer dos últimos dez anos, o Qatar vem investindo maciçamente no sentido de se tornar o mais importante centro comercial e esportivo de todo o “Oriente Médio”, buscando, através do desenvolvimento da infraestrutura de transportes do país, impulsionar o turismo sustentável.

Um dos marcos iniciais para a geração do desenvolvimento qatari por intermédio do esporte foi o surgimento da “Aspire Academy”, uma agência governamental independente criada, em 2004, pelo “Decreto Número 16 do Emir Sheikh Hamad Bin Khalifa Al-Thani”, com o objetivo de patrocinar e impulsionar o treinamento esportivo e a educação de estudantes com grande potencial esportivo, visando formar atletas bem treinados nos níveis educacional e acadêmico nos mais diversos campos esportivos, de forma a suprir a demanda da sociedade qatari e atingir um grau de excelência nas competições internacionais. A relevância da “Aspire Academy” é tanta que, em 2008, esta se tornou, por outro “Decreto do Emir”, uma “Unidade Estratégica de Negócios (“Strategic Business Unit SBU, no Inglês), integrante da “Aspire Zone Foundation”.

Com a escolha do Qatar para sede da “Copa do Mundo de 2022” – escolha bastante polêmica e na qual, segundo declarações do próprio presidente da FIFA, Joseph Blatter, houve influências políticas diretas de governos europeus ligados ao Qatar por fortes interesses econômicos – o governo qatari expandiu o montante de investimentos por considerar que esta competição internacional será determinante para gerar um desenvolvimento econômico acentuado no país. Assim, megaprojetos de infraestrutura, tais como o “Qatar Integrated Rail Project”, a construção da “Lusail City” e o “Ras Laffan Olefins Project”, foram postos em prática. Desta forma, segundo o “Fundo Monetário Internacional” (FMI), devido à variada gama dos investimentos realizados até o momento no país espera-se que o “Produto Interno Bruto” (PIB) do Qatar atinja cerca de U$219 bilhões até o fim de 2013, o que levaria este país a possuir o maior PIB per capita do mundo.

Não obstante a grande visibilidade na arena esportiva internacional propiciada pelo patrocínio exclusivo da “Qatar Foundation ao Futbol Club Barcelona”, o país tem se destacado no cenário econômico esportivo mundial por ser o idealizador e palco, pelo quarto ano consecutivo, do “ASPIRE4SPORT Congress and Exhibition”, a ser realizado, este ano, entre os dias 16 e 19 de Novembro, em Doha. Este Congresso tem servido ao propósito de expandir o link entre negócios e esporte, impulsionando, sobremaneira, a indústria do esporte no “Oriente Médio”. Na visão de “Hamad Saif Buhindi”, diretor executivo da ASPIRE4SPORT, o principal objetivo do Congresso vem sendo demonstrar a todo o mundo, especialmente às empresas qataris, como negócios e esporte são mutuamente benéficos para o crescimento.

Este ano, estima-se que, de acordo com os organizadores do Congresso, mais de 5 mil participantes estejam presentes no “Aspire Dome”, lugar  de realização do ASPIRE4SPORT, público este que será superior ao verificado na edição de 2012, o que, segundo o governo qatari, ratifica a cada vez mais crescente força da indústria do esporte no país.

A se destacar o fato de que esta busca pela excelência e por um desenvolvimento econômico que tenha como um dos pilares a indústria do esporte não se processa de forma aleatória, mas sim está embasada na “Estratégia de Desenvolvimento Nacional” do país, que é um dos componentes de um projeto de longo prazo claramente definido: a Qatar National Vision 2030”.

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ImagemTodos na Torcida pelo Desenvolvimento no Qatar” (Fonte):

http://veja.abril.com.br/blog/ricardo-setti/files/2011/04/sp27no-Qatar.jpg

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Fontes consultadas:

Ver:

http://www.aspire4sport.com/

Ver:

http://www.insideworldfootball.com/world-football/asia/13235-aspire4sport-opens-gateway-to-200bn-infrastructure-build-in-qatar

Ver:

http://www.aspire.qa/Pages/AspireHome.aspx

Ver:

http://copadomundo.uol.com.br/noticias/redacao/2013/09/18/blatter-diz-que-escolha-do-qatar-para-sediar-copa-teve-influencia-politica.htm

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ESPORTENOTAS ANALÍTICAS

Futebol e Política: um vínculo por demais presente

Por mais que alguns poucos estudiosos queiram advogar favoravelmente à existência de uma dissociação entre o futebol e a política, o que se tem evidenciado no cenário internacional que se instaura a partir do século XX comprova a cada vez mais acentuada vinculação entre estes dois elementos centrais da sociedade[1]. No entender de Hobsbawm, foi no período do entre-guerras que o futebol se tornou uma expressão de luta nacional, na qual os futebolistas, que simbolizavam suas respectivas nações, expressões fundamentais de suas comunidades imaginadas, se digladiavam.

Ainda segundo Hobsbawm, esta imaginária comunidade de milhões de indivíduos se mostra mais verdadeira na forma de uma equipe de onze pessoas com nome, o que faz com que o indivíduo se torne o símbolo de sua própria nação[2]. Desta forma, considerando que o futebol pode vir a ser utilizado por dirigentes políticos, partidos políticos e governos visando a consecução de seus respectivos interesses, o resultado de tais intervenções têm se mostrado bastante variado[3].

Tendo em vista a dinâmica supramencionada, se faz mister destacar a análise empreendida pelo periódico “Deutsche Welle” (DW), por ocasião do aniversário de 40 anos do golpe militar no Chile, ocorrido em 11 de Setembro de 1973, sobre a estreita ligação entre o futebol e a política. Assim, segundo o DW, o futebol ditou o cronograma do golpe militar, na medida em que o fator a postergar este golpe teria sido o sucesso do Colo-Colo, uma tradicional equipe chilena de futebol, na temporada futebolística de 1973. Baseado no livro “Colo-Colo 1973 – El Equipo que Retrasó El Golpe”, de autoria do jornalista esportivo chileno Luis Urrutia O’Nell, o DW destaca a importância do futebol no cenário político do Chile.

Em entrevista para o DW, Urrutia argumenta em favor da tese de que o poder do futebol pode, por vezes, ser maior do que o da política. Segundo o jornalista, no começo da década de 1970 o Colo-Colo empolgava as massas com seu sucesso, tendo, inclusive, derrotado poderosas esquadras brasileiras e chegado à final da “Copa Libertadores da América de 1973, façanha até então inédita para uma equipe chilena. Outrossim, o Colo-Colo fazia as vezes de um contundente elemento aglutinador nacional, um elo bastante importante para um país que se encontrava, à época, profundamente dividido entre esquerda e direita no cenário político nacional. Destarte, na visão de Urrutia, enquanto o sucesso do Colo-Colo se mantivesse, o status quo no Chile não se alteraria, ideia esta compartilhada por adeptos do ex-presidente chileno Salvador Allende, que associavam a manutenção do governo Allende ao sucesso futebolístico da equipe chilena. Contudo, após a final da “Copa Libertadores da América”, disputada em três jogos entre o Colo-Colo e o Independiente – tradicional equipe argentina – o Colo-Colo acabou sendo derrotado no dia 6 de junho de 1973 e não obteve o título de campeão. Cerca de três meses depois, os militares depuseram Salvador Allende e assumiram o poder no país.

Emblemático, de acordo com o DW, é o “Estádio Nacional de Santiago”. Este, na época anterior ao golpe militar no Chile, era o local onde o Colo-Colo celebrava suas glórias e torcedores e jogadores entoavam cânticos de apoio e celebração de forma bastante efusiva. Com o golpe, o “Estádio Nacional” se transformou no lugar em que os militares mantinham, torturavam e assassinavam os presos políticos contrários ao regime, dentre estes, inclusive dois ex-jogadores da seleção chilena de futebol: Hugo Pepe e Mario Moreno. O caso do até hoje considerado o mais popular jogador do Colo-Colo, Caszely, também conhecido como “El Chino” e atualmente com 63 anos, é ilustrado na reportagem do DW. Ele era simpatizante do governo Allende e teve a mãe presa e torturada pelo governo de Augusto Pinochet.

Por fim, o DW destaca outros fatos ocorridos no decorrer dos anos que atestam quanto à vinculação entre o futebol e a política. Em uma ocasião, o Santos da época de Pelé, durante uma excursão pelo continente africano em 1969, fez com que fosse decretado um cessar-fogo temporário nas guerras civis da Nigéria e do Congo para que os combatentes pudessem ver Pelé jogar e para que a equipe brasileira pudesse transitar pelas regiões sem problemas.

A mesma análise acerca da vinculação entre o futebol e a política se aplica no caso da denominada “Guerra do Futebol”, confronto armado entre Honduras e El Salvador, ocorrido em 1969, que teve como um dos fatores impulsionadores as partidas, válidas pelas Eliminatórias da “Copa do Mundo do México”, de 1970, disputadas entre as seleções de futebol de Honduras e de El Salvador, partidas estas que foram palco de acentuadas tensões entre ambos os países.

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ImagemDuas Faces da Mesma Moeda (Fonte):

http://samirewerton.wordpress.com/2012/10/25/futebol-e-politica/

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Fontes Consultadas:

[1] SANTOS, M. A. Esporte e Relações Internacionais: A Diplomacia Futebolística Como Ferramenta de Soft Power – O Caso do Brasil. Dissertação de Mestrado do Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais da UERJ/PPGRI-UERJ. Apresentada em novembro de 2011.

[2] HOBSBAWM, E. Nações e Nacionalismo desde 1870: programa, mito e realidade. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2002.

[3] BALLER, S.; SAAVEDRA, M. Le Dossier: les terrains politiques du football. IN: Politique Africaine. Número 118, Juin, 2010.

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Ver também:

http://www.dw.de/futebol-ditou-cronograma-de-golpe-no-chile/a-17085515

Ver também:

http://pt.wikipedia.org/wiki/Copa_Libertadores_da_Am%C3%A9rica_de_1973