ANÁLISES DE CONJUNTURAORIENTE MÉDIO

População desabrigada da Faixa de Gaza enfrenta inverno rigoroso

A menos de um ano do último conflito entre Israel e o Hamas, a Faixa de Gaza voltou a ser castigada, desta vez por uma catástrofe natural. Sem ter conseguido recuperar a infraestrutura e as casas destruídas durante o último confronto, o território costeiro está passando por sérias dificuldades que, no momento, se somam ao frio rigoroso e às tempestades de inverno que têm sacrificado a população desabrigada. As preocupações são elevadas, principalmente, com as inundações. Em novembro de 2014, a ONU declarou  estado de emergência e, hoje, a situação piorou com as fortes tempestades e muita neve. A Palestina corre, assim, o risco de ter que enfrentar mais uma catástrofe humanitária[1].

Aproximadamente 100.000 palestinos continuam desabrigados[2], na sequência da última ofensiva israelense contra o Hamas, em julho 2014. Com as casas destruídas e sem condições para as reconstruir, muitas pessoas passaram a viver em tendas improvisadas ao lado dos destroços das antigas moradias. Esta situação perdura até hoje e, sem alternativa, um contingente significativo de desabrigados tenta resistir ao Inverno rigoroso agravado pela escassez de eletricidade e de combustível que impossibilita a utilização de geradores e de aquecedores[3]. Em entrevista à agência Maan News, uma família de Khan Younis relata as dificuldades que tem passado. Mazen Maan afirmou: “fazemos de tudo para nos aquecermos, mas ainda é frio. A água corre sob os nossos pés, a tempestade é forte e o som dos trovões se assemelha aos bombardeios. Os meus filhos choram, reclamam do frio e eu não sei o que posso fazer[4].

As tendas não resistem às inundações. Somente no distrito de Raffah, as equipes da Defesa Civil tiveram que evacuar 25 famílias[5] que foram alojadas em 15 abrigos de emergência. Segundo as unidades dos serviços de emergência, é grande o número de casas inundadas, sobretudo nas cidades do centro e do norte da Faixa de Gaza. O nível das águas em Wadi al-Salqa, ao centro, aumentou quando Israel abriu a barragem nesta localidade, no leste de Deir al-Balah, provocando a inundação de 20 casas[6]. As autoridades locais improvisaram barreiras de areia como medida para tentar reduzir a catástrofe. Somente em Khan Younis aproximadamente 100 casas foram destruídas. O número de desabrigados gira em torno de 500 famílias, aproximadamente 3.200 pessoas, o que levou o Primeiro-Ministro da Faixa de Gaza, Ismail Haniyeh, a pedir ajuda à comunidade internacional[7].

Os problemas da Faixa de Gaza se somam uns aos outros, acentuando as dificuldades daquele território. Encontrando-se sob bloqueio israelense há alguns anos, a Faixa de Gaza ainda não conseguiu se recuperar do último embate entre o Hamas e Israel. O bloqueio impede a exportação e importação de mercadorias e leva a Economia daquela estreita faixa de terra a deteriorar-se cada vez mais, tornando-se dependente da ajuda internacional[8]. A escassez de materiais para a construção civil impede a reconstrução das habitações e muitas pessoas já deixaram de acreditar na possibilidade de verem as suas casas reedificadas. Hoje, a população da Faixa de Gaza enfrenta o rigoroso Inverno como pode, enquanto que a esperança de reverter a situação para uma vida cidadã parece estar cada vez mais distante.

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ImagemA ONU declarou o estado de emergência em Gaza, em 27 de novembro de 2014, após 2 dias de fortes chuvas que sitiaram o enclave” (Fonte):

http://4.bp.blogspot.com/-azLQ3oHouqc/VHg8HBBBBQI/AAAAAAAARe8/zI2F6OF5uqU/s1600/Mideast-Palestinians-_sham-10.jpg

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Fontes Consultadas:

[1] Ver:

http://jfjfp.com/?p=67202

[2] Ver:

http://el-saha.com/en/index.php?action=news&id=4178

[3] Ver:

http://www.maannews.com/eng/ViewDetails.aspx?ID=759541

[4] Ver:

http://www.maannews.com/eng/ViewDetails.aspx?ID=759541

[5] Ver:

http://www.maannews.com/eng/ViewDetails.aspx?ID=759541

[6] Ver:

https://www.middleeastmonitor.com/news/middle-east/8811-winter-storm-leaves-gazans-homeless-

[7] Ver:

https://www.middleeastmonitor.com/news/middle-east/8811-winter-storm-leaves-gazans-homeless-

[8] Ver:

http://www.maannews.com/eng/ViewDetails.aspx?ID=759541

NOTAS ANALÍTICASORIENTE MÉDIOPOLÍTICA INTERNACIONAL

Sanções Internacionais e queda do preço do petróleo agravam a Crise Econômica Iraniana

A Economia iraniana está sendo afetada por uma crise que tende a se agravar em 2015. A atual situação econômica do Irã é atribuída, também, às administrações anteriores, principalmente durante os mandatos do presidente Mahmoud Ahmadinejad. O conjunto de políticas erradas, a nível interno e externo, está levando ao estrangulamento econômico do país, agravado pelas sanções econômicas dos EUA e da União Europeia (em decorrência do Programa Nuclear Iraniano) e pela queda do preço do petróleo no mercado internacional. A inexistência de um acordo sobre a questão nuclear, para pôr fim ao embargo econômico, provocou a queda acentuada no mercado de ações iranianas, o qual se desvalorizou em torno de 20%, em 2014. O Rial, a moeda nacional, sofreu uma desvalorização acentuada em relação ao Dólar. O setor privado reduziu os investimentos em virtude dos riscos que se acentuam ante a permanência das sanções, tendo o mercado do petróleo perdido espaço para a Arábia Saudita, o Kuwait e o Iraque[1].

Segundo Sarie Khalid, um analista econômico, o Governo iraniano previu o preço do petróleo a USD$ 120,00, tendo revisto para USD$ 100,00 o preço base, mas isto não se concretizou, na medida em que a commodity sofreu uma redução brusca de preço. Este fato implica a necessidade de diminuição drástica nos gastos governamentais, que enfrentam uma inflação galopante de 25% e a deterioração do setor privado que conta, hoje, com inúmeras falências e empresas deficitárias devido à falta de peças de reposição para a indústria[2].  A administração de Hassan Rouhani insiste em resistir às sanções que têm afetado não somente a Economia do país, mas têm gerado problemas humanitários. Muitos iranianos com doenças graves sofrem com a falta de medicamentos. De acordo com informações, em 2013, 85 mil pacientes com câncer estavam sem condições de prosseguir os tratamentos de quimioterapia e de radioterapia por escassez dos produtos utilizados nestas terapêuticas[3].

A redução dos subsídios, a inflação alta e o desemprego em ascensão poderão agravar ainda mais a situação dos iranianos que já enfrentam dificuldades para suprirem as necessidades básicas de saúde e de alimentação. Com uma população de 78 milhões de pessoas, sendo que 60% tem menos de 20 anos[4], o Irã necessita urgentemente de criar empregos, mas a perspectiva a curto prazo não é animadora. De acordo com analistas, a taxa de desemprego poderá chegar a 25%, o que significa uma bomba-relógio para um país que não tem conseguido controlar a inflação, nem colocar em funcionamento os setores mais produtivos da Economia como, por exemplo, o Turismo. Os investimentos externos estão paralisados enquanto perdura uma Economia dependente da venda de petróleo[5] e de aliados como a Rússia que, no momento, também passa por dificuldades econômicas e a China, que se encontra em fase de desaceleração do crescimento.

O Irã terá que resolver os seus problemas internos a partir da redução de gastos, opção que terá consequências diretas sobre a população. Uma de suas demandas externas, que consome uma parcela significativa do orçamento de Estado, pode tornar mais complexa a questão, pois o financiamento de grupos insurgentes, como o Hezbollah, no Líbano e na Síria, as milícias no Iraque e os Houthis, no Iêmen[6], envolvem despesas enormes. Neste momento, o Irã necessita de definir uma estratégia para sair da estagnação econômica, devendo repensar a própria estrutura do Governo, considerada corrupta e ineficaz. As cedências para colocar um fim às sanções econômicas e reestabelecer a confiança internacional são um fator decisivo para tentar reerguer a Economia do país e oferecer condições de vida satisfatórias em ordem a evitar uma possível revolta da população.

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Imagem Mona, uma criança iraniana, vende papéis da fortuna no metrô em Teerã” (Fonte):

http://blogs.ft.com/photo-diary/files/2014/01/iran.jpg

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Fontes Consultadas:

[1] Ver:

http://www.khaleejtimes.com/biz/inside.asp?xfile=/data/opinionanalysis/2015/January/opinionanalysis_January29.xml&section=opinionanalysis

[2] Ver:

http://www.khaleejtimes.com/biz/inside.asp?xfile=/data/opinionanalysis/2015/January/opinionanalysis_January29.xml&section=opinionanalysis

[3] Ver:

http://cointelegraph.com/news/113493/bitcoin-irans-savior-in-the-economic-crisis-op-ed

[4] Ver:

http://www.khaleejtimes.com/biz/inside.asp?xfile=/data/opinionanalysis/2015/January/opinionanalysis_January29.xml&section=opinionanalysis

[5] Ver:

http://www.khaleejtimes.com/biz/inside.asp?xfile=/data/opinionanalysis/2015/January/opinionanalysis_January29.xml&section=opinionanalysis

[6] Ver:

https://now.mmedia.me/lb/en/commentary/564817-the-mahdi-is-not-coming-to-hezbollahs-state

ANÁLISES DE CONJUNTURAORIENTE MÉDIO

A contribuição da economia do terrorismo para a expansão da Jihad Global

A ligação entre o terrorismo e o narcotráfico não é uma tendência recente. Há mais de duas décadas que esse tipo de atividade econômica vem sendo identificado como uma atividade que cresce à “velocidade da luz[1]. Tradicionalmente, os grupos terroristas têm sido financiados por Estados e, no ano 2000, sete deles foram identificados como sendo os principais patrocinadores: Cuba, Irã, Iraque, Líbia, Coreia do Norte, Sudão eSíria[2]. Porém, nos últimos anos, estes Estados, de entre outros, têm encontrado dificuldades em manter o financiamento, em virtude da ação dos Serviços de Inteligência na identificação dos doadores privados e na interrupção do repasse de dinheiro para o terror[1]. A necessidade de encontrar novas fontes de recursos fez com que as organizações terroristas globais optassem pelo narcotráfico. Segundo a ONU, o comércio internacional de drogas tornou-se, para os insurgentes, a atividade ilícita mais lucrativa[3].

Atualmente, os grupos irregulares estão atuando internacionalmente no tráfico de drogas, de modo eficaz. Os jihadistas estão consolidando posições em determinadas áreas do planeta para a prática desta atividade. O comércio de cocaína na Europa, por exemplo, está a financiar os grupos irregulares aliados do Estado Islâmico, no norte de África. Em 2007, a al-Qaeda no Magreb se estabeleceu na região e criou uma base nos desertos norte-africanos. O poder ali instalado estrategicamente permitiu ao grupo o acesso às principais rotas comerciais de drogas para o norte de África e Europa[4]. O montante arrecadado com o comércio ilegal é usado para a compra de armas, financiamento de guerras locais, para a preparação de atentados no Ocidente e, sobretudo, para assegurar a expansão da Jihad global.

A ação dos jihadistas é preparada nos pormenores e a desestruturação política dos países onde operam é o meio ideal para atuarem. Após a queda de Muammar al-Gaddafi, em 2011, os jihadistas do Magreb se equiparam militarmente com a compra de veículos blindados, mísseis terra-ar e fuzis AK-47, através de soldados que fugiram da Líbia[4]. Esta e outras situações semelhantes têm permitido aos insurgentes agirem livremente não só na comercialização de drogas e compras de armas mas, também, na tomada do poder local, independentemente de ser um território de origem do grupo ou não, como é o caso de Mali[5] e Derna, cidade líbia sob poder do Estado Islâmico[6].

Em 2004, as drogas da América Latina começaram a ser transportadas através do Oceano Atlântico por via aérea e marítima[7]. A América Latina é conhecida internacionalmente, como sendo a área de atuação doHamas e do Hezbollah, onde estes grupos insurgentes mantêm ligação com organizações criminosas regionais. O predomínio daqueles dois grupos data do final dos anos de 1980 e inícios de 1990 e operam, principalmente, na Tríplice Fronteira (Brasil, Argentina e Paraguai)[8].

Cada vez mais é possível verificarmos a conexão entre grupos insurgentes e o narcotráfico. De acordo com informações, a droga vem sendo amplamente utilizada pelos jihadistas não somente para a comercialização, mas também para o consumo. O Estado Islâmico tem utilizado a cocaína para elevar o ânimo de seus combatentes, embora consumir drogas seja condenado pela Sharia (Lei Islâmica) e seus militantes tenham, reiteradamente, feito propaganda contra a utilização de entorpecentes. Após a morte do Emir Abu Zahra, um dos líderes doEstado Islâmico, foi descoberto em sua casa, em Kobane, na Síria, um saco de cocaína[9]. Acredita-se que a droga apreendida na casa do Emir Abu Zahra fosse para distribuir em pequenas porções aos seus jihadistas. Atualmente, estima-se que o Estado Islâmico tem uma fortuna calculada em USD$ 2 bilhões[10].

A situação também se agravou na Síria, devastada pela Guerra Civil. O caos em que o país se encontra tem beneficiado a produção e a comercialização de entorpecentes. O comércio de drogas na Síria é florescente e a falta de segurança permite que as pessoas ligadas ao comércio ilícito se tornem cada vez mais poderosas[11]. O que vem acontecendo na Síria está a ser comparado com a América Latina, onde a ausência de aparelhos deSegurança eficazes permite o estabelecimento de cartéis de drogas. A instabilidade política, associada à falta de segurança, tem permitido a atuação de cartéis sírios em operações que atingem toda a região, a América Central e os EUA, contribuindo assim para gerar uma enorme riqueza e espalhar a violência[12].

Um traficante de drogas no Vale do Beqaa, no Líbano, onde ocorre a maior produção de drogas no país, em entrevista à Reuters, afirmou que, em 2013, o Líbano deixou de gerar 90% de drogas, se comparado com os dois anos anteriores. Ele atribui essa queda ao fato de ter havido a transferência da produção para a Síria. Ainda, de acordo com este informante, situação semelhante pode estar acontecendo na Turquia[13].

Inevitavelmente, as guerras e os conflitos estão sendo benéficos para o narcotráfico e a economia do terrorismo, que têm se aproveitado da desordem política e do vazio de poder para se instalarem em diferentes regiões do planeta e conduzir o lucrativo mercado de drogas, espalhando a insegurança a nível mundial. A associação entre o narcotráfico e o terrorismo global é uma relação complexa que exige a atuação dos Estados a nível internacional. Somente a ação conjunta dos diferentes países, com Serviços de Inteligência devidamente preparados, será capaz de desarticular as ações de organizações criminosas, locais e regionais, ligadas ao terrorismo global e, assim, evitar a instalação de poderes paralelos por jihadistas que colocam em risco a soberania nacional.

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Imagem Além dos entorpecentes tradicionais, asdrogas de desenho’, nomeadamente o Captagon, são cada vez mais populares nos ambientes jihadistas” (Fonte):

https://now.mmedia.me/Pages/ImageStreamer/param/MediaID__2a81f9ed-ea55-4819-b9af-cc84f66b5faa/w__616/h__394/capta.jpg

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Fontes Consultadas:

[1] Ver:

http://www.washingtoninstitute.org/policy-analysis/view/drug-trafficking-and-middle-eastern-terrorist-groups-a-growing-nexus

[2] Ver:

http://www.e-ir.info/2011/08/31/what-is-the-impact-of-terrorism-on-the-ipe/

[3] Ver:

http://www.washingtoninstitute.org/policy-analysis/view/drug-trafficking-and-middle-eastern-terrorist-groups-a-growing-nexus

[4] Ver:

http://www.ibtimes.co.uk/cocaine-funding-isis-drug-smuggling-profits-islamic-state-linked-jihadists-north-africa-1475824

[5] Ver:

http://www.ibtimes.co.uk/cocaine-funding-isis-drug-smuggling-profits-islamic-state-linked-jihadists-north-africa-1475824

[6] Ver:

https://ceiri.news/o-estado-islamico-avanca-na-libia-atacando-a-embaixada-da-argelia-em-tripoli/

[7] Ver:

http://www.ibtimes.co.uk/cocaine-funding-isis-drug-smuggling-profits-islamic-state-linked-jihadists-north-africa-1475824

[8] Ver:

http://cnsnews.com/news/article/hezbollah-hamas-raise-money-terrorist-activities-drug-trade-south-america-congressional

[9] Ver:

http://www.dailymail.co.uk/news/article-2898876/Isis-fighters-high-cocaine-Huge-bag-drugs-home-Islamic-State-leader-accused-drugging-troops-boost-morale.html

[10] Ver:

LORETTA NAPOLEONI. The Islamist Phoenix: Islamic State and the redrawing of the Middle East. New York / Oakland, Seven Stories Press, 2014, pág. 3.

[11] Ver:

https://now.mmedia.me/lb/en/reportsfeatures/564751-amidst-the-syrian-war-a-burgeoning-narcotic-trade

[12] Ver:

https://now.mmedia.me/lb/en/reportsfeatures/564751-amidst-the-syrian-war-a-burgeoning-narcotic-trade

[13] Ver:

http://uk.reuters.com/article/2014/01/12/uk-syria-crisis-drugs-insight-idUKBREA0B04Y20140112

AMÉRICA LATINAANÁLISES DE CONJUNTURAORIENTE MÉDIO

A morte de Alberto Nisman expõe a cumplicidade entre a Argentina e o Irã para ilibar terroristas do caso AMIA

A morte do promotor Natalio Alberto Nisman, responsável pelas investigações sobre o atentado terrorista contra a Associação Mutual Israelita Argentina (AMIA), perpetrado em 18 de julho de 1994, revela a cumplicidade que envolve os Governos argentino e iraniano desde, pelo menos, 2011[1]. Os últimos 14 anos da vida de Nisman foram dedicados ao caso AMIA, em busca de provas contra os responsáveis pela morte de 85 pessoas e de aproximadamente 300 feridos. Durante este período, o Promotor revelou conexões perigosas envolvendo radicais islâmicos estabelecidos na Tríplice Fronteira, tendo apontado Moshen Rabbani como o responsável da República Islâmica do Irã na América Latina e, simultaneamente, o arquiteto do atentado contra a AMIA[2].

Segundo Nisman, em 2009, a Promotoria argentina não só “emitiu um novo ditame sobre o atentado” como também identificou o cidadão colombiano Samuel Salman El Reda, com livre circulação entre Foz do Iguaçu e Buenos Aires, como fazendo parte da célula terrorista do Hezbollah responsável pela coordenação da logística do atentado contra a AMIA[3]. Durante os anos em que esteve envolvido nas investigações desse atentado, Nisman sofreu várias ameaças e fez muitos inimigos[4]. A morte suspeita do Promotor[5] aconteceu poucas horas antes de ele denunciar, formalmente, ante uma Comissão Reservada do Congresso Nacional Argentino, a presidente Cristina Kirchner como responsável pela elaboração de um plano secreto para encobertar os iranianos envolvidos no caso AMIA[6]. A mandatária do país vizinho, em comunicação televisiva em rede nacional, defendeu o Governo a que preside, tendo declarado: “É descabelado pensar que nosso Governo possa sequer ser suspeito disso. A denúncia é tão absurda que não cabe delito[7].

O suposto plano secreto, de acordo com as acusações de Nisman, tinha por objetivo ilibar os iranianos responsáveis pelo atentado contra a AMIA e, em contrapartida, garantir à Argentina a venda de grãos e armas para o Irã em troca de petróleo iraniano. O caso AMIA tornou-se, assim, uma moeda de troca para a Argentina, para o Irã e os seus altos representantes. Para além da Presidente argentina, considerada nas denúncias a autora do plano, há de registrar o auxílio de seu “Ministro das Relações Exteriores e Culto, Héctor Marcos Timerman, também com a colaboração de Luís Ángel D’Elía, Fernando Luis Esteche, Jorge Alejandro ‘Yussuf’ Khalil, o Deputado Nacional Andrés Larroque[8]. Na denúncia apresentada por Nisman constam, ainda, “o Dr. Luís Yrimia e um indivíduo identificado como ‘Allan’, que tem desempenhado um papel por demais relevante nos fatos, que responde ante a Secretaria de Inteligência da Presidência da Nação e, segundo sugerem os indícios obtidos, se trata do Sr. Ramón Allan Héctor Bogado[9].

O plano também envolvia acordos secretos que não aparecem no Memorando de Entendimento assinado pela Argentina e o Irã, em 2013, durante a Cimeira de Adis Abeba. Embora o Memorando tenha sido feito de comum acordo entre a Argentina e o Irã, o documento não foi aceito pelos Congressos argentino e iraniano, em virtude de, naquele momento, terem começado a vir à tona denúncias envolvendo o Memorando assinado pelos dois países[10], que ressalta a importância das investigações do caso AMIA serem realizadas de modo transparente e imparcial e estabelece “uma Comissão da Verdade composta por juristas internacionais para analisar toda a documentação apresentada pelas autoridades judiciais da Argentina e da República Islâmica do Irã[11]. Porém, de acordo com a denúncia, isto nunca correspondeu à realidade. Paralelamente ao Memorando de Entendimento, foi-se criando uma aliança entre os Governos argentino e iraniano com o objetivo de acobertar os iranianos e encerrar as “notificações vermelhas” da Interpol sobre eles[12].

Durante os 14 anos da investigação, Nisman recolheu documentação que comprova ter ocorrido, ao longo do tempo, uma mudança de posição do Governo argentino em relação ao atentado contra a AMIA. Inicialmente, a ação contra a AMIA foi considerada, sob o ponto de vista judicial, como um “crime contra a Humanidade” e classificada como genocídio “pelo Juiz da causa”, o Dr. Rodolfo Canicoba Corral[13]. Recorde-se que a Justiça argentina denunciou as autoridades iranianas por terem decidido atentar contra a AMIA, tendo imputado a execução da tarefa ao grupo irregular libanês, Hezbollah[14].

As determinações judiciais argentinas envolveram a ordem para a captura, em território nacional e internacional, dos principais mandantes do crime: o ex-presidente iraniano Ali Akbar Hashemi Bahramaie Rafsanjani; o ex-ministro das relações exteriores Ali Akbar Velayati; o ex-ministro de inteligência Ali Fallahijan; o ex-chefe da guarda revolucionária Moshen Rezai; o ex-Chefe da Força al-Quds e ex-Ministro da Defesa, Ahmad Vahidi; o ex-Adido Cultural da Embaixada iraniana na Argentina, Moshen Rabbani; o ex-Terceiro Secretário da Embaixada do Irã na Argentina, Ahmad Reza Asghari e, também, o ex-Embaixador iraniano na Argentina, Hadi Soleimpanpour[15].

Em 2011, o Governo argentino mudou de posição relativamente ao papel do Irã no âmbito do caso AMIA. Em janeiro daquele ano, Héctor Timerman, Ministro das Relações Exteriores, viajou para Aleppo, a cidade síria onde manteve um encontro secreto com seu colega iraniano, Ali Akbar Salehi. Através da diplomacia paralela, a Argentina renunciou ao fato de ter sido um país agredido e propôs ao agressor tanto a cooperação, como o fim das investigações que impendiam contra o Irã, afim de se reestabelecerem plenas relações comerciais entre ambos os países.

O Chanceler iraniano, considerando a oferta de seu homólogo argentino, transmitiu a proposta ao então Presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, a quem informou que a “Argentina já não está mais interessada em resolver aqueles dos atentados […] em troca prefere melhorar suas relações comerciais com o Irã[16]. A partir desse momento, verificou-se o estreitamento das relações entre a Argentina e o Irã, decorrendo o período de negociações secretas entre os dois países, que durou até setembro de 2012. Durante esta fase, de acordo com as denúncias de Nisman, foi estabelecido um plano para ilibar os responsáveis pelo atentado na AMIA[17], que sempre se recusaram a se apresentar ante a Justiça argentina[18].

Segundo as provas levantadas por Nisman, no atual Governo, o que ocorreu, de fato, foi a reabertura de uma proposta de negociações comerciais feita pelo Irã em anos anteriores, mas que fora recusada pelo então presidente Néstor Kirchner. No passado, o Irã propôs à Argentina 4 bilhões de dólares na compra de milho e trigo para retomar o comércio bilateral mas, em contrapartida, exigiu que abandonasse o caso AMIA[19]. Com o passar dos anos, o Governo argentino tomou a iniciativa das negociações, o que nos permite compreender quão rápidas foram as decisões por parte dos dois Governos. Segundo as informações presentes na denúncia de Nisman, “em paralelo ao interesse da Dr.ª Fernández [Cristina Kirchner] e o seu Chanceler por reestabelecer trocas comerciais ao nível estatal com o Irã, como paliativo para a severa crise energética, também se obtiveram elementos evidentes que dão conta de uma motivação de índole geopolítica, que – segundo essas provas – contribuíram para impulsionar a decisão e a execução do plano de impunidade aqui denunciado[20].    

As graves denúncias que pesam contra a presidente Cristina Kirchner, bem como a morte de Alberto Nisman, elevam o grau de suspeitas que recaem sobre o Governo argentino. Segundo o jornal La Nación, as últimas horas do Promotor foram tensas e de muita ansiedade, uma vez que ele acreditava que poderia sofrer algum tipo de represália. Pouco antes de seu falecimento, Nisman fez a seguinte confissão a um amigo: “estão me preparando algo[21]. O caso AMIA leva-nos à reflexão sobre os limites da realpolitik e a necessidade da atenção por parte da comunidade internacional no sentido de assegurar a efetivação de direitos, liberdades e garantias ao poder judicial, possibilitando, por outro lado, que as ações de combate ao terrorismo sejam efetivamente concluídas de maneira imparcial.

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ImagemNatalio Alberto Nisman (Buenos Aires, 5 de dezembro de 1963Buenos Aires, 18 de janeiro de 2015)” (Fonte):

http://www.expedientepolitico.com.ar/wp-content/uploads/nisman3-1024×768.jpg

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Fontes Consultadas:

[1] A presidente Cristina Kirchner sempre apostou numa conexão síria e acusou o presidente Carlos Menem de estar vinculado a esta pista. Em 2013, a Presidente argentina publicou tweets em que classificou como histórico o acordo assinado com o Irã. Ela escreveu, também: “Jamais permitiremos que a tragédia AMIA seja utilizada como peça de xadrez no tabuleiro de interesses geopolíticos estrangeiros.” Isto em referência aos EUA e a Israel. Ver:

http://www.clarin.com/politica/AMIA-Cristina-apostaba-acusaba-Menem_0_871712874.html

[2] Ver:

https://ceiri.news/celulas-radicais-financiam-o-hezbollah-a-partir-do-sul-do-brasil/

[3] Cf. [ALBERTO NISMAN], Formula Denuncia, s. l. [Buenos Aires], Ministerio Público de la Nación, s. d. [2015], págs. 154-155 [texto policopiado].

A versão digital de Denuncia Completa, de Alberto Nisman, pode ser consultada no sítio web do Centro de Información Judicial:

http://www.cij.gov.ar/inicio.html

[4] Ver:

http://www.lanacion.com.ar/1761474-una-vida-marcada-a-fuego-por-la-causa-que-termino-siendo-su-epitafio

[5] A morte de Alberto Nisman permanece envolvida em mistério. O cadáver foi encontrado em seu apartamento com o orifício de uma bala calibre 22 que, segundo a perícia forense, foi disparada “apoiando a arma no parietal direito, sobre a orelha”. Não foram encontrados vestígios de pólvora nas mãos do Promotor. A tese de suicídio, prontamente defendida pela presidente Cristina Kirchner, foi por ela substituída pela tese de assassinato. Por outro lado, na tarde do dia 24 de janeiro, “fontes judiciais” defenderam que o disparo foi efetuado a 15/20 cm da cabeça de Nisman; no início da noite desse mesmo dia, a promotora Viviana Fein declarou que o disparo fatal foi realizado a 1 cm da cabeça de Nisman. Vide, a respeito: REDAÇÃO, “Cristina Kirchner Publicó una Carta sobre la Muerte de Alberto Nisman: ¿Qué Fue lo que Llevó a Una Persona a Tomar la Terrible Decisión de Quitarse la Vida?”, La Nación, 18.01.2015, disponível em:

http://www.lanacion.com.ar/1761408-cristina-kirchner-publico-una-carta-sobre-la-muerte-de-alberto-nisman-que-fue-lo-que-llevo-a-una-persona-a-tomar-la-terrible-decision-de-quitarse-la-vida

Ver Também:

REDAÇÃO, “Cristina Kirchner, sobre la Muerte del Fiscal Alberto Nisman: ‘El Suicidio (Que Estoy Convencida) no Fue Suicidio’”, La Nación, 22.01.2015, disponível em: http://www.lanacion.com.ar/1762098-cristina-kirchner-el-suicidio-que-estoy-convencida-no-fue-suicidio

Ver Também:

Natasha Niebieskikwiat, “El Arma se Habría Disparado a Más de 15 Cm de la Cabeza”, Clarín, 24.01.2015, disponível em: http://www.clarin.com/politica/arma-disparado-cm-cabeza_0_1291071005.html

Ver Também:

REDAÇÃO, “La Fiscal Viviana Fein: ‘El Disparo Fue a Una Distancia no Mayor a Un Centímetro; El Arma Fue Apoyada sobre la Sien’”, La Nación, 24.01.2015, disponível em: http://www.lanacion.com.ar/1762851-la-fiscal-viviana-fein-revelo-que-el-disparo-que-mato-a-alberto-nisman-se-produjo-a-una-distancia-no-mayor-a-un-centimetro

[6] Ver:

http://www.elconfidencial.com/mundo/2015-01-20/no-encuentran-restos-de-polvora-en-las-manos-del-fiscal-que-acuso-a-kirchner_625083/

[7] Ver:

http://www.lanacion.com.ar/1763443-la-presidenta-volvio-a-sugerir-que-fue-un-crimen-y-apunto-a-lagomarsino

[8] Ver:

[ALBERTO NISMAN], Formula Denuncia, s. l. [Buenos Aires], Ministerio Público de la Nación, s. d. [2015], pág. 3 [texto policopiado].

[9] Ver:

[ALBERTO NISMAN], Formula Denuncia, s. l. [Buenos Aires], Ministerio Público de la Nación, s. d. [2015], págs. 2 e 243 [texto policopiado]. De acordo com a denúncia apresentada por Alberto Nisman, por ocasião da investigação dos fatos, “Allan” tinha a seguinte presença na web:

– conta de e-mail: [email protected]

– rede social “SONICO”: conta em nome de “allanbogad”. [cf. Denuncia…, págs. 243-254].

O Secretário de Inteligência, Oscar Parrilli, enviou ao Juiz Ariel O. Lijo um ofício no qual sublinha que “os senhores Ramón Allán Héctor BOGADO e Héctor YRIMIA não pertencem, nem pertenceram, como pessoal do quadro permanente, contratado, do gabinete, nem pessoal transitório à Secretaria de Inteligência” [Ofício de Oscar Parrilli, Presidencia de la Nación ArgentinaSecretaría de Inteligencia, Buenos Aires, 20.01.2015]. Nos últimos dias, a imprensa argentina, além de reforçar as informações contidas na denúncia de Nisman, divulgou a naturalidade de “Allan” – Misiones –, a idade – 44 anos – e o vínculo dele com organizações sociais, de entre as quais sobressai Quebracho – Movimiento Patriótico Revolucionario.

[DANIEL SANTORO, “Quedó al Desnudo la Identidad del Espía Acusado por El Fiscal”, Clarín, 20.01.2014: http://www.clarin.com/politica/Quedo-desnudo-identidad-acusado-fiscal_0_1288671236.html e Hernán Cappiello, “Lo Niegan, pero Bogado se Movía como Espía”, La Nación, 22.01.2015, http://www.lanacion.com.ar/1762063-lo-niegan-pero-bogado-se-movia-como-espia].

[10] Cf. AAVV, [Fallo sobre el Memorandum de Entendimiento con Irán], Buenos Aires, Poder Judicial de la Nación, CCCF – Sala I – CFP 3184/2013/CA 1, 15 de maio de 2014 [“AMIA s/Amparo – Ley 16.986], 96 págs., uso oficial.

A decisão de inconstitucionalidade do Memorando pode ser consultada, em versão digital, no seguinte sítio web:

http://www.cij.gov.ar/nota-13397-La-C-mara-Federal-declar–la-inconstitucionalidad-del-Memor-ndum-con-Ir-n-.html

Vide, igualmente, a conferência de imprensa do Ministro das Relações Exteriores da Argentina, Héctor Timerman, sobre o assunto em epígrafe:

http://www.presidencia.gob.ar/informacion/conferencias/27506-fallo-sobre-el-memorandum-de-entendimiento-con-iran-conferencia-de-prensa-de-los-ministros-de-justicia-y-de-relaciones-exteriores

[11] Ver:

AAVV, Memorandum de Entendimiento entre el Gobierno de la República Argentina y el Gobierno de la República Islámica de Irán sobre los Temas Vinculados al Ataque Terrorista a la Sede de la AMIA en Buenos Aires el 18 de Julio de 1994, Buenos Aires, Senado de la NaciónDireción de Mesa de Entradas, s. d. [2013], fls. 34-36.

[12] Cf. [ALBERTO NISMAN], Formula Denuncia, s. l. [Buenos Aires], Ministerio Público de la Nación, s. d. [2015], pág. 5 [texto policopiado].

[13] Cf. [ALBERTO NISMAN], Formula Denuncia, s. l. [Buenos Aires], Ministerio Público de la Nación, s. d. [2015], pág. 9 [texto policopiado].

[14] Cf. [ALBERTO NISMAN], Formula Denuncia, s. l. [Buenos Aires], Ministerio Público de la Nación, s. d. [2015], pág. 9 [texto policopiado].

[15] Cf. [ALBERTO NISMAN], Formula Denuncia, s. l. [Buenos Aires], Ministerio Público de la Nación, s. d. [2015], pág. 9 [texto policopiado].

[16] Cf. [ALBERTO NISMAN], Formula Denuncia, s. l. [Buenos Aires], Ministerio Público de la Nación, s. d. [2015], pág. 11 [texto policopiado].

[17] Cf. [ALBERTO NISMAN], Formula Denuncia, s. l. [Buenos Aires], Ministerio Público de la Nación, s. d. [2015], pág. 60 [texto policopiado].

[18] Ver:

http://internacional.elpais.com/internacional/2015/01/16/actualidad/1421366944_903811.html

[19] Cf. [ALBERTO NISMAN], Formula Denuncia, s. l. [Buenos Aires], Ministerio Público de la Nación, s. d. [2015], págs. 42-43 [texto policopiado].

[20] Ver:

[ALBERTO NISMAN], Formula Denuncia, s. l. [Buenos Aires], Ministerio Público de la Nación, s. d. [2015], pág. 102 [texto policopiado].

[21] Ver:

http://www.lanacion.com.ar/1761524-preocupado-y-ansioso-en-sus-ultimas-horas           

AMÉRICA LATINAANÁLISES DE CONJUNTURAORIENTE MÉDIO

Células radicais financiam o Hezbollah a partir do Sul do Brasil

O Hezbollah (Partido de Deus), fundado como milícia, em 1982, no Líbano, durante a Guerra Civil, é, hoje, uma força islâmica xiita preeminente no combate a Israel e ao Ocidente. A sua estrutura é semelhante à de um Exército, formada por um grupo paramilitar que tem se notabilizado em várias frentes de combate, inclusive nos conflitos travados contra Israel. Ao longo dos anos, o Hezbollah também conquistou destaque na política libanesa e chegou ao Parlamento do país. Atualmente, os seus combatentes estão atuando na Guerra Civil da Síria em defesa do presidente Bashar al-Assad, ao lado do Irã.

Autor de vários atentados, incluindo aquele que foi perpetrado contra a Embaixada de Israel, na Argentina, em 1992, o Hezbollah é considerado pelo Ocidente uma organização terrorista. Com grande capacidade de ação e logística complexa, o grupo necessita de financiamento e de aliados que não estão restritos ao Oriente Médio, tendo a América Latina se destacado ao longo do tempo no apoio e financiamento ao Hezbollah através de suas células radicais. No Brasil, o Hezbollah mantém ligações com a maior organização criminosa do país, o Primeiro Comando da Capital (PCC), que atua em praticamente todo território nacional[1].

Esta foi uma descoberta realizada pela Polícia Federal mas, desde 2006, o Departamento de Tesouro dos EUA já havia emitido um alerta acerca da cooperação do Hezbollah com os cartéis do crime na América do Sul, com forte presença na Tríplice Fronteira (Argentina, Brasil e Paraguai)[2]. Na época, todos os Governos do continente foram notificados, mas os de esquerda não deram atenção ao aviso, tendo o Governo brasileiro negado o fato. No entanto, o Drug Enforcement Administration (DEA) pressionou o Governo brasileiro e insistiu sobre a presença de integrantes do Hezbollah em território nacional[3].

No Brasil, o caso nunca foi admitido oficialmente pelo Governo, mas a Agência Brasileira de Inteligência (ABIN) apurou o envolvimento de empresários de origem libanesa com o narcotráfico e com ligações ao Hezbollah. De acordo com o jornal O Globo, vários documentos esclarecem o elo entre o movimento xiita libanês e a facção criminosa do Brasil, o PCC, desde 2006, quando a associação teve início[4]. Esta união criminosa só foi descoberta em 2008, durante uma operação da Polícia Federal, na qual vários traficantes internacionais foram presos[5]. Na “Operação Camelo”, da Polícia Federal, Farouk Abdul Hay Omairi, um comerciante de origem libanesa, residente em Foz do Iguaçu, foi preso por tráfico internacional, assim como os seus dois filhos, sendo que o mais novo conseguiu fugir. O inquérito tratou somente do narcotráfico, mas Omairi fazia parte da lista de nove nomes apontados pelo Departamento de Tesouro dos EUA referente à “rede de financiamento do Hezbollah na Tríplice Fronteira[6], sendo Omairi o líder dessa força radical islâmica na região[6].

De acordo com as informações divulgadas pela imprensa brasileira, há um acordo entre as duas facções, segundo o qual os libaneses detidos nas prisões brasileiras recebem proteção do PCC e, em contrapartida, o Hezbollah trata do fornecimento de armas e explosivos ao aliado brasileiro[7]. Há indícios de que a Venezuela, em 2009, durante o Governo do Presidente Hugo Chávez, se tornou uma base aliada do Hezbollah. Neste período, ocorreu o estreitamento das relações entre a Venezuela e o movimento xiita, que tencionava praticar atentados em países da América Latina, incluindo o Brasil. Na época, recorde-se, os Serviços de Inteligência israelenses declararam que o Hezbollah pretendia atentar contra alvos de Israel no Brasil, na Argentina, no Uruguai, no Paraguai e no Peru. Segundo informações, naquele período foram criadas, na Venezuela, células ligadas ao “braço operativo” do Hezbollah, denominadas “Órgão de Pesquisas Especiais”, para praticar atentados no exterior[8].

Um relatório do Conselho Americano de Política Externa revela, também, que a Tríplice Fronteira é utilizada por redes terroristas há bastante tempo, não sendo o Hezbollah o único grupo irregular presente na região. O relatório afirma que a falta de legislação antiterrorista brasileira tem beneficiado a presença dos insurgentes no país[9]. Neste contexto, desde os anos de 1980 tem-se registrado o crescimento do movimento islâmico radical no Brasil, através do Irã. Conforme descreve o relatório, “este movimento é composto por clérigos radicais, terroristas, traficantes de influência e de lavagem de dinheiro, e articuladores que usam o país como um centro de logística para muitas de suas operações regionais que se estendem do Cone Sul aos Andes. A mais preeminente destas operações foi o bombardeio do Centro Comunitário Judaico em Buenos Aires (AMIA), Argentina, em 1994, que, em parte foi apoiado por elementos radicais islâmicos no Brasil e na Tríplice Fronteira[10]. De acordo com informações, o mentor do ataque ao AMIA, que fez oitenta e cinco vítimas mortais e cerca de trezentos feridos, foi o iraniano Moshen Rabbani, apontado por Alberto Nisman, Procurador argentino, como o responsável do regime iraniano, na América Latina, para a criação de uma “rede de radicais islâmicos[11].

Após o atentado contra o AMIA, Rabbani fugiu para o Irã, tendo a Interpol emitido um alerta, o que impossibilitou, naquele momento, o seu retorno ao Brasil. No entanto, há provas de que, mais tarde, ele viajou duas vezes ao Brasil e, em 2008, foi monitorado pela ABIN, que o seguiu no percurso entre Curitiba e a Tríplice Fronteira. Curitiba foi identificada como sendo a residência de Mohammad Baquer Razavi Rabbani, irmão mais novo de Moshen Rabbani e o responsável pelo recrutamento e a conversão de brasileiros ao Islã radical através da Mesquita Imam Ali ibn Abi Tálib e do Instituto Brasileiro de Estudos Islâmicos, ambos sediados em Curitiba[12].

Em 2010, Moshen Rabbani voltou ao Brasil com um passaporte venezuelano falso, usando o nome de Ali Tayvdianareial. A Interpol advertiu a Polícia Federal brasileira sobre a presença de Rabbani, mas ele já havia deixado o país. De acordo com informações, a ABIN tinha conhecimento do retorno de Rabbani ao Brasil, mas a vigilância foi abortada por motivos desconhecidos[13]. O mais jovem dos Rabbani teve o seu visto cancelado em 2011.

A conexão entre vários grupos irregulares, no Brasil e na Tríplice Fronteira, é de longa data e, dentre esses grupos, além do Hezbollah, destacam-se o Hamas, a al-Qaeda, a Jihad Islâmica egípcia e a al-Gamaa al-Islamyya, também do Egito. A facilidade em estabelecer negociações ilícitas na Tríplice Fronteira despertou o interesse dos líderes daqueles grupos radicais, necessitados de dinheiro para manter as suas organizações. Em 1995, Osama bin Laden e Khaled Sheikn Mohmmed, o idealizador dos atentados de 11 de setembro, nos EUA, visitaram a Mesquita de Foz do Iguaçu e, em 1998, retornaram para se reunirem na mesma Mesquita com outros líderes radicais[14].

Hoje, alguns analistas acreditam que a facilidade de acesso do Hezbollah e outros grupos radicais à América Latina está em decadência, devido a pequenas mudanças ocorridas na política externa do continente, desde a morte de Hugo Chávez[15] e, também, da tentativa de reaproximação entre Cuba e os EUA. Embora estas evidências sejam verdadeiras, tal não significa, de fato, uma mudança na política externa dos países de esquerda do continente. Ideologicamente, a esquerda latino-americana continua irmanada e partilha visões do mundo semelhantes. De certo modo, ela compreende os grupos radicais islâmicos como sendo parceiros de “esquerda” que, na verdade, não abdicam do fundamentalismo religioso que tem os seus próprios princípios, divergentes daquilo que conhecemos por esquerda política.

Neste sentido, vários observadores, analistas e especialistas no tema apontam que a Tríplice Fronteira permanecerá sem cobertura e os países da região continuarão a ser placas giratórias para a entrada dos insurgentes, garantindo, assim, o financiamento do Hezbollah e demais grupos irregulares, enquanto  a sociedade brasileira enfrenta o risco de uma islamização radical, sem descartar a hipótese de que um dia, por pouco provável que possa parecer, o país venha a sofrer as consequências das opções estratégicas erradas de seus dirigentes políticos.

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ImagemUm judeu argentino caminha pelas ruínas do edifício do AMIA (direita, na foto), em Buenos Aires (18 de julho de 1994): as últimas ordens recebidas pelos insurgentes do Hezbollah partiram do telefone de um morador de Foz do Iguaçu, no Brasil” (Fonte):

http://veja.abril.com.br/blog/ricardo-setti/files/2013/06/terrorV2.jpg

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Fontes Consultadas:

[1] Ver:

https://now.mmedia.me/lb/en/reportsfeatures/564617-hezbollahs-glory-days-in-south-america-are-numbered

[2] Ver:

http://oglobo.globo.com/brasil/libanes-apontado-pelos-eua-como-coordenador-do-hezbollah-no-brasil-14512474

[3] Ver:

https://now.mmedia.me/lb/en/reportsfeatures/564617-hezbollahs-glory-days-in-south-america-are-numbered

[4] Ver:

http://oglobo.globo.com/brasil/policia-federal-aponta-elo-entre-faccao-brasileira-hezbollah-14512269

[5] Ver:

http://oglobo.globo.com/brasil/policia-federal-aponta-elo-entre-faccao-brasileira-hezbollah-14512269

[6] Ver:

http://oglobo.globo.com/brasil/libanes-apontado-pelos-eua-como-coordenador-do-hezbollah-no-brasil-14512474

[7] Ver:

http://oglobo.globo.com/brasil/policia-federal-aponta-elo-entre-faccao-brasileira-hezbollah-14512269

[8] Ver:

http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/geral/jornal-diz-que-hezbollah-teria-bases-na-venezuela-com-intencoes-de-atacar-ate-o-brasil/

[9] Ver:

http://almanac.afpc.org/brazil

[10] Ver:

http://almanac.afpc.org/brazil

[11] Ver:

http://almanac.afpc.org/brazil

[12] Ver:

http://almanac.afpc.org/brazil

[13] Ver:

http://almanac.afpc.org/brazil

[14] Ver:

http://almanac.afpc.org/brazil

[15] Ver:

https://now.mmedia.me/lb/en/reportsfeatures/564617-hezbollahs-glory-days-in-south-america-are-numbered

ANÁLISES DE CONJUNTURAORIENTE MÉDIO

Refugiados Sírios no Líbano provocam crise generalizada no país

As consequências da Guerra Civil da Síria continuam a impactar a economia libanesa. Os reflexos estão presentes na demografia, na instabilidade política e na segurança do país. Há previsão de que, em início de 2015, o Líbano acolha mais de 1,3 milhão de refugiados, situação que coloca em risco a capacidade para atender de modo satisfatório o contingente de necessitados[1]. Em meados de dezembro de 2014, o Banco Mundial divulgou um relatório sobre a atual situação econômica libanesa, apresentando projeções pouco animadoras para o futuro. O Governo libanês terá que enfrentar sérios desafios ao longo deste ano para superar as diversas carências econômicas, políticas, sociais e de infraestrutura.

Apesar de o Líbano ter apresentado uma recuperação nos setores do Turismo, Comércio e Imobiliário, após três anos em declínio, o déficit continua elevado e a situação financeira do país está a deteriorar-se. Segundo o Relatório, “o déficit poderá chegar a até 10,2 por cento do PIB em 2014, ante 9,4 por cento em 2013[2]. Ele ainda chama a atenção para o fato de que “o impasse político e as repercussões dos conflitos regionais limitam a capacidade de a Economia crescer se a situação se agravar[3]. Isto corresponde aos efeitos provocados pelos conflitos em países vizinhos, que estão pressionando as Finanças do Líbano, afetando desta maneira os vários setores da Economia e o desempenho dos serviços públicos.

O Relatório do Banco Mundial foi contestado por Ghassan Diba, Chefe do Departamento de Economia da Universidade Libanesa Americana (LAU). Diba argumentou que os dados do Relatório não são precisos e o impacto positivo dos refugiados não foi considerado. Segundo ele, “há vantagens econômicas em ter estes muitos refugiados. Os números negativos são exagerados, deturpados pelo Banco Mundial, agravando o racismo contra os refugiados[4]. A rejeição aos refugiados sírios no Líbano já vem ocorrendo há algum tempo. Eles são responsabilizados pela crise econômica, financeira e de infraestrutura no país[5]. Esta é uma das preocupações de Diba, pois a projeção negativa das Finanças libanesas, para 2015, faz aumentar o preconceito e a continuidade das campanhas de ataques contra os expatriados.

A pressão sobre a Economia e a Infraestrutura libanesas é um argumento para o Governo fechar as fronteiras aos refugiados, pois os indicadores sócio-econômicos continuam em declínio. O PIB sofreu uma queda acentuada. O crescimento do PIB em 2010 foi de 10% enquanto que em 2014, foi de apenas 1%, acompanhado pelo dobro de desempregados[6]. Ante o agravamento da crise, o país está preparando um plano, juntamente com a ONU, abrangendo 2015 e 2016 para, assim, tentar encontrar uma solução para o problema. Tamman Salam, Primeiro-Ministro do Líbano, diz estar esperançoso e espera que os doadores levem em conta setores específicos, esperando que as doações não se restrinjam às questões humanitárias[7].

A ONU reconhece que os países que recebem os refugiados sírios estão lutando para enfrentar os problemas gerados com o acolhimento de uma grande quantidade de pessoas. Segundo Gina Casar, representante do Programa de Desenvolvimento da ONU, “a resposta humanitária tradicional não é mais suficiente. A tarefa que temos pela frente requer uma resposta global para a crise em ordem a construir a capacidade de resistência das comunidades e instituições governamentais[8]. O Líbano que, apesar de não fazer parte da Convenção de Refugiados, de 1951, é o país no mundo que, até hoje, acolheu mais refugiados sírios. Embora as restrições fronteiriças já sejam uma realidade, a Agência da ONU para Refugiados (UNHCR) acredita que o Líbano continuará a ser um local de abrigo para os sírios[9].

Desde junho de 2014 têm aumentado, também, os pedidos de asilo por cidadãos iraquianos que, atualmente, contabilizam o maior número de novos registros entre os estrangeiros em seu território. Segundo a UNHCR, “estima-se que há dezenas de milhares de pessoas apátridas no Líbano. Refugiados sírios nascidos no Líbano estão particularmente em risco. Uma pesquisa com 5.779 recém-nascidos sírios em 2014 descobriu que 72 por cento não possuem uma certidão de nascimento oficial, levantando preocupações sobre o reconhecimento de sua nacionalidade por parte das autoridades sírias[10].

As ações a serem desenvolvidas pelo Líbano e pela ONU, no decorrer de 2015, determinarão as condições de vida de seus cidadãos e dos refugiados, ambos na dependência da reorganização política e econômica do país. A ausência de assistência ao Líbano levará ao colapso da infraestrutura local e dos serviços básicos como saúde, educação, água e esgotos.

Para Gina Cassar, “Os países que acolhem os refugiados sírios estão lutando com o enorme impacto sobre suas Economias, sociedades e infraestrutura, ameaçando não só a sua estabilidade, mas a estabilidade de toda a região[11]. Este cenário reflete a dimensão da crise que o Líbano está vivendo, o que exige a atenção da comunidade internacional com a finalidade de traçar uma meta capaz de auxiliar o país a superar as dificuldades, evitando assim mais uma catástrofe humanitária e o agudizar do conflito na região.

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Imagem Família de refugiados sírios numa tenda alugada, na aldeia de Jeb Jennine, Vale de Beqaa, Líbano” (Fonte):

http://catholicphilly.com/media-files/2012/11/syrian-refugee-family.jpg

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Fontes consultadas:

[1] Ver:

http://www.unhcr.org/pages/49e486676.html

[2] Ver:

http://english.al-akhbar.com/node/23099

[3] Ver:

http://english.al-akhbar.com/node/23099

[4] Ver:

http://english.al-akhbar.com/node/23099

[5] Ver:

https://ceiri.news/a-campanha-de-ataques-contra-os-refugiados-sirios-no-libano/

[6] Ver:

http://www.3rpsyriacrisis.org/the-3rp/lebanon/

[7] Ver:

http://www.dailystar.com.lb/News/Lebanon-News/2014/Dec-15/281079-lebanon-to-launch-refugee-crisis-response-plan.ashx

[8] Ver:

http://www.unhcr.org/5492a7bb6.html

[9] Ver:

http://www.unhcr.org/pages/49e486676.html

[10] Ver:

http://www.unhcr.org/pages/49e486676.html

[11] Ver:

http://www.unhcr.org/5492a7bb6.html