NOTAS ANALÍTICASORIENTE MÉDIOPOLÍTICA INTERNACIONAL

[:pt]O Colapso das Condições de Vida em Aleppo[:]

[:pt]

Aleppo, a maior cidade da Síria, localizada no norte do país, encontra-se em situação caótica após o início dos ataques das forças do regime e dos aliados russos e iranianos para expulsar os rebeldes. Estima-se que mais de 300 civis tenham sido mortos, na parte leste de Aleppo, desde que começaram as ofensivas do Governo em 15 de novembro. A tentativa, por parte do regime de Bashar al-Assad, de retomar o controle da cidade tem provocado a destruição das poucas condições de vida de milhares de pessoas que, neste momento, estão à mercê da própria sorte para sobreviverem e manterem a dignidade humana.

Calcula-se que o regime já recuperou 60% do leste de Aleppo, mas isto não representa qualquer melhoria para a população local, que se encontra sob fortes bombardeamentos. Segundo Stephen O’Brien, chefe humanitário da ONU, desde 26 de novembro, cerca de 25 mil pessoas foram forçadas a fugir de suas casas. A cidade está sitiada, o que gerou o aumento no número de cidadãos em fuga. Hoje, este contingente de fugitivos gira em torno de 80 mil e estão recebendo ajuda para sobreviver. Conforme informou Staffan de Mistura, enviado especial da ONU, nos últimos dias Aleppo já totaliza mais de 400 mil deslocados internos.

A cidade industrial síria está num caos e os seus habitantes perderam o direito até mesmo a uma morte digna. De acordo com fontes, Aleppo está se transformando em um cemitério gigante. Há um ano, o antigo cemitério chegou ao esgotamento e, recentemente, o novo também atingiu a sua capacidade máxima pelo que, devido à presença das tropas sírias que estão bombardeando os civis, não tem como abrir novas covas. Os responsáveis pela recolha e sepultamento dos corpos já não sabem mais o que fazer desde que começaram os confrontos impetrados pelo regime e seus aliados. O necrotério não tem espaço disponível e, tal como declarou Mohammed Abu Jaafar, chefe da autoridade forense de Aleppo, “mesmo que eu considere enterros em massa, não tenho as máquinas para fazer a escavação”. Os corpos estão apodrecendo nas ruas enquanto que o socorro aos feridos está cada vez mais precário, pois as ambulâncias ou foram transformadas em alvos, ou estão sem combustível. Desde julho, quando o leste de Aleppo caiu em poder das forças pró Bashar al-Assad, a situação tem piorado e os suprimentos alimentares estão chegando ao fim. Antes do início das ofensivas terrestres, os ataques aéreos destruíram sete instalações médicas, não havendo mais locais que ofereçam cuidados de terapia intensiva e os hospitais foram evacuados. Após a destruição dos hospitais foram criados postos médicos subterrâneos improvisados, com capacidade para prestar apenas os cuidados básicos de saúde.

Os feridos de Aleppo contam, hoje, com um atendimento deficitário, o que faz com que, para Zakaria Amino, Vice-Chefe do Conselho Local de Aleppo, “cada ferido é um mártir potencial”. Uma enfermeira que trabalha numa das clínicas subterrâneas afirmou que muitos morrem enquanto aguardam atendimento e por falta de sangue, pois o banco de sangue foi atingido durante os ataques aéreos e está fechado. O cenário atual de Aleppo é muito grave e há, ainda, a preocupação de que este quadro possa piorar se os locais de funcionamento dos ambulatórios subterrâneos forem descobertos pelo Governo e encerrados. Como há muitos mortos empilhados nas ruas, isto poderá denunciar a localização dessas clínicas. Segundo Abu Jaafar, “há informantes e colaboradores do regime em todos os lugares”. Neste contexto, Aleppo corre, também, o risco de enfrentar sérios problemas sanitários devido ao fato de haver grande quantidade de cadáveres em estado de putrefação nas ruas. Estas são as circunstâncias atuais que colocaram a cidade à beira de uma catástrofe humanitária. No entanto, não há perspectivas de retrocesso do caos, uma vez que o regime sírio e os seus aliados russos e iranianos não pretendem interromper os ataques.

———————————————————————————————–

ImagemBairro de Taree alBab, Aleppo, após ser bombardeado por um míssil Skud (3 de março de 2013)” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Batalha_de_Alepo#/media/File:Syria-_two_years_of_tragedy_(8557586198).jpg

[:]

DEFESANOTAS ANALÍTICASORIENTE MÉDIOPOLÍTICA INTERNACIONALPOLÍTICAS PÚBLICAS

[:pt]O Primeiro Confronto Entre as Forças de Defesa de Israel e o Estado Islâmico[:]

[:pt]

No último domingo, 27 de novembro, nas Colinas de Golã, soldados israelenses entraram em confronto com os jihadistas da organização Shuhada-Yarmouk, criada em 2012, que neste ano (2016) se juntou a outro grupo, passando a denominar-se Jaysh Khalid ibn al-Waleed. Ambos juraram lealdade ao Estado Islâmico (EI) e lutam sob o comando geral de Abu Bakr al-Baghdadi. Segundo a imprensa local, este foi o primeiro embate direto entre as Forças de Defesa de Israel (IDF) e o Estado Islâmico.

Israel, que até então havia mantido certa distância em relação ao conflito sírio, se viu afrontado pelos radicais que tencionavam preparar uma emboscada aos seus soldados em seu próprio território. Os insurgentes utilizaram, como base, uma instalação abandonada da ONU para deflagrar o ataque com armas automáticas e morteiros contra os militares israelenses, mas nenhum ficou ferido. Em contrapartida, as IDF desferiram uma contraofensiva aérea que culminou na morte de quatro militantes islâmicos. Especialistas acreditam que este enfrentamento não será capaz de alterar a dinâmica bélica da região. Porém, é preciso assinalar que, em solo sírio, se encontram os inimigos de Israel, tais como o Irã e o Hezbollah.

Os reveses sofridos pelos extremistas, especialmente o Estado Islâmico que, nos últimos tempos perdeu territórios na Síria e no Iraque, poderão despertar o interesse em justificar a sua própria força e avançar sobre outros espaços, encontrando assim novos oponentes que, até agora, estiveram fora do seu raio de ação. Recentemente, o Xeique Mohammed bin Abdulrahman bin Jassim al-Thani, Ministro das Relações Exteriores do Catar, advertiu sobre a possibilidade de a Faixa de Gaza, que se encontra em situação caótica, ser transformada numa “plataforma de lançamento” para o “extremismo e o terrorismo” do EI.

Partindo deste pressuposto, a condição de extrema pobreza e de desemprego da população do enclave palestino facilita o recrutamento de mujahideen. Consequentemente, Israel se tornará um alvo provável desses combatentes. Esta é apenas uma hipótese, mas, se ela se concretizar, poderá levar o terrorismo para o território israelense. Cabe ressaltar que, em agosto e outubro deste ano (2016), o grupo salafista Ahfad al-Sahaba Bayt al-Maqdis, ligado ao Estado Islâmico, disparou rockets em direção ao sul de Israel, desde a Faixa de Gaza, tendo atingido a cidade de Sderot, mas não fez vítimas. Na ocasião, o grupo afirmou que o ataque fez parte de um conjunto de ações da “jihad contra os judeus” e também constituiu uma resposta ao Hamas que havia prendido cinco militantes salafistas.

A princípio, tudo indica que Israel está empenhado em impedir que forças inimigas se instalem nas proximidades de suas fronteiras. Em reunião semanal do Governo, na sequência do incidente ocorrido nas Colinas de Golã, o Primeiro-Ministro, Benjamin Netanyahu, prometeu que o seu país “não permitirá que figuras do Estado Islâmico ou outros atores inimigos, a pretexto da guerra na Síria, se instalem ao lado de nossas fronteiras”. Autoridades israelenses acreditam que o EI não pretende abrir uma nova frente contra Israel. Neste contexto, também consideraram que a ação contra os soldados fez parte de uma decisão local e não do alto escalão do grupo. Isto porque a ofensiva desencadeada por parte dos jihadistas foi em pequena escala, diferente das ações que são executadas. De fato, o episódio que teve lugar nas Colinas de Golã não representa, para Israel, o pior dos cenários, mas é um acontecimento primário que, apesar da fraca intensidade, tem potencial para despertar a sanha do Estado Islâmico em pretender se reinventar a partir das fronteiras com Israel.

———————————————————————————————–                    

Imagem13º Batalhão da Brigada Golani, das Forças de Defesa de Israel, durante um exercício nas Colinas de Golã” (Fonte):

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/e/eb/Flickr_-_Israel_Defense_Forces_-_13th_Battalion_of_the_Golani_Brigade_Holds_Drill_at_Golan_Heights_(22).jpg

[:]

NOTAS ANALÍTICASORIENTE MÉDIOPOLÍTICA INTERNACIONAL

[:pt]O Envolvimento Iraniano no Conflito Armado Sírio[:]

[:pt]

A evolução do conflito armado sírio, ao longo de cinco anos, criou um conjunto de situações que converge para a formação de cenários nos quais as disputas entre os interesses externos se acentuam ao assumirem a condução da guerra. Recentemente, o Conselho Nacional da Resistência do Irã (NCRI)[1], grupo de oposição iraniano exilado em França, teve acesso a informações que, aparentemente, foram vazadas pelo alto comando do Corpo dos Guardas Revolucionários do Irã. De acordo com as revelações feitas pelo NCRI, o envolvimento iraniano na Síria é bem maior do que se pensava até o momento. Ao contrário daquilo que se supunha, a participação do Irã no conflito não se restringe à mera assessoria, pois o seu papel é de liderança. Neste sentido, quando os iranianos perceberam a profundidade dos problemas enfrentados por Bashar al-Assad, Qasem Soleimani, o principal Comandante da Guarda Revolucionária, foi para a Rússia solicitar junto ao Presidente russo, Vladimir Putin, aquilo que seria mais adequado à República Islâmica do Irã. Isto é, Soleimani pediu que os russos comandassem os bombardeios para que as forças iranianas avançassem no terreno.

O regime iraniano tem investido pesado na guerra na Síria em várias frentes, inclusive na parte financeira. Há dados que afirmam que o montante gasto naquele conflito é superior à cifra de USD $ 15 bilhões, estimada por analistas ocidentais. Segundo o NCRI, este valor corresponde, de fato, a USD $ 100 bilhões. Os oposicionistas do Irã afirmam que estas e outras informações foram confirmadas por várias fontes que se mantêm dentro do país a partir de funcionários do regime e, inclusive, do Conselho dos Guardas Revolucionários.

A extensão da participação iraniana na Síria está ligada aos seus interesses, que passam pela temática religiosa, que consiste na defesa do xiismo e, também, pela luta pelo poder travada com as potências regionais do Golfo, nomeadamente, a Arábia Saudita. Porém, há outra questão considerada fundamental para o regime, que ultrapassa a estratégia regional. Conforme afirma Shahin Ghobadi, porta-voz da oposição iraniana: “O regime iraniano vê que sua preeminência atual é amplamente baseada na sobrevivência de al-Assad. Em fevereiro, o Aiatolá Ali Khamenei disse: ‘Se não lutarmos nas cidades da Síria, teremos de lutar contra a oposição nas nossas cidades’. Este é muito maior [interesse] para o Irã do que o mero regime político regional”.

Para assegurar o seu propósito, o NCRI afirma que os estrategistas militares iranianos dividiram a Síria em cinco frentes: frente norte, frente oriental, frente sul, frente de comando central e frente costeira. Em cada setor foi estabelecida uma base dos Guardas Revolucionários que “pode acomodar até 6.000 soldados, além de armas pesadas, poder aéreo e mísseis anti-aéreos”. Deste modo, mesmo que Bashar al-Assad seja deposto, o Irã manterá o controle militar sobre a Síria, com capacidades defensivas e ofensivas.

A estratégia iraniana desenvolvida exclusivamente para o país tem se convertido em altos custos para o financiamento da Guerra que incluem o pagamento de muitos mercenários estrangeiros, iraquianos, libaneses e afegãos, que lutam naquele conflito armado. A transferência desses mercenários e de armas para a Síria está sendo realizada desde 2012 através da empresa aérea Mahan Air, uma companhia privada iraniana que, à primeira vista, dá a impressão de ser uma estatal. Porém, o maior acionista da Mahan Air é a Charity of Mowla al-Movaheddin, propriedade dos Guardas Revolucionários Iranianos.

Conforme foi divulgado pelo NCRI, a Mahan Air possui 60 aeronaves de passageiros e de carga, compreendendo, para além de voos domésticos, o Oriente Médio, a Ásia e 52 destinos na Europa. Neste contexto, os combatentes afegãos residentes no Irã são transferidos pela Mahan Air e, da mesma maneira, as milícias iraquianas que, após seguirem de ônibus de Baçorá até Abadan, chegam à Síria em aviões daquela companhia. Vários batalhões que participaram do cerco a Aleppo entraram desse modo, em outubro de 2016. Isto tudo constitui uma organização estratégica do Irã naquilo que se refere à sua participação no conflito para estabelecer as regras que tentam definir, não somente a permanência, mas, sobretudo, procurar garantir o poder naquele país e salvaguardar os seus interesses num teatro de operações onde várias potências se confrontam por intermédio da guerra por procuração.

———————————————————————————————–                     

ImagemCorpos de soldados iranianos abatidos na Guerra da Síria regressam a Kermanshah, Irã (Agosto de 2016)” (Fonte):

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/9/98/Return_of_Iranian_Casualties_in_Syrian_Civil_War_to_Kermanshah_02.jpg

———————————————————————————————–                    

Nota e fonte consultada, para maiores esclarecimentos:

[1] Conselho Nacional da Resistência do Irã (NCRI) – Organização oposicionista iraniana, baseada em Paris, que se “considera uma espécie de Governo secular iraniano no exílio. Serve como plataforma política para cinco grupos oposicionistas, entre eles o controvertido MEK (que, no passado, participou da luta armada e de outras atividades violentas e que foi considerado um grupo terrorista pela União Europeia até 2009)”. Foi o NCRI que “revelou, em 2002, a existência de instalações nucleares clandestinas em Natanz, o que provocou o início da crise sobre o programa nuclear iraniano”.

Ver:

http://www.elconfidencial.com/mundo/2016-10-01/guerra-de-siria-iran-bashar-al-assad_1267375/

[:]

Entrevistas

[:pt]Entrevista com Padre Sírio que esteve frente a frente com o Estado Islâmico[:]

[:pt]

Na guerra você pensa somente na obrigação e as emoções ficam no freezer”, Samaan Nasri

[box type=”note” align=”aligncenter” class=”” width=””]Samaan Nasri, o atual pároco da Igreja Ortodoxa Antioquina São Jorge, em Curitiba, viu a sua igreja e casa, em Tabqa, na Síria, serem destruídas pelo Estado Islâmico. Após retirar todos os seus paroquianos da cidade, ocupada pelos radicais, ele saiu do território sírio. Está vivendo no Brasil, há três anos.[/box]

Pergunta: Qual a sua opinião sobre a guerra civil na Síria e a participação de grupos fundamentalistas islâmicos?

Resposta: Como padre eu não tenho uma visão clara nesse ponto político, mas acho que essa frase, guerra civil, não está correta, porque não é uma guerra civil. Ainda tem um Governo na Síria que está cumprindo com a sua obrigação, que é cuidar e defender os habitantes que estão lá. A gasolina dessa guerra vem de fora da Síria, não é 100% síria. Na minha cidade [Tabqa], por exemplo, quando o Governo sírio saiu de lá, a administração ficou em mãos de 3 juízes de fora da Síria; dois deles eram da Líbia e o outro, que era o principal, era da Arábia Saudita. Então, essa palavra, guerra civil, não é 100% correta. Também tenho que deixar claro para os brasileiros que esses grupos islâmicos não estão fazendo tudo o que temos visto em nome do Islã. Em nome do Islã, tem muitos muçulmanos cuidando do nosso povo, enquanto que naquilo que esses grupos estão fazendo em nome do Islã estão envolvidas a propaganda e uma agenda econômica. Os radicais têm salários, dinheiro, comida, remédios. Eles têm tudo, como num hotel de cinco estrelas. Não estão fazendo isto em nome do Islã. Nós sabemos quem são os verdadeiros muçulmanos, esses grupos não são muçulmanos.

 

Pergunta: Por que alguns países têm interesse na Síria? O senhor tem conhecimento se alguns desses países financiam os grupos jihadistas? Qual o propósito?

Resposta: É uma pergunta muito interessante e precisaria de um ano para responder. Primeiro, é a posição geográfica da Síria: entre a Ásia, a África e a Europa. A Síria é um país muito rico em petróleo e gás natural e a sua localização entre a Ásia, a África e a Europa desperta o interesse das grandes potências mundiais. A Síria tem uma das cidades mais antigas do mundo, que ainda é habitada. Tem cidades mais antigas, mas Aleppo, a cidade onde nasci, tem pessoas desde há 12.500 anos. O mercado antigo de Aleppo, que é coberto, tem 13 Km de lojas. Aleppo, a capital industrial da Síria, antes da guerra, tinha 115.000 empresas industriais. Ela é a primeira cidade do Oriente Médio. Esta cidade tem 50 empresas de Medicina e o destino desses produtos é a África, de modo que a produção de medicamentos cobre o continente africano. O Governo sírio criou o ISO 9001 e 9002 para que os comerciantes pudessem exportar os seus produtos para o mundo inteiro. Aleppo vendia, antes da guerra, 75 milhões de produtos diariamente para o Iraque, que também está destruído por causa da guerra. A Síria era o 3.º país em segurança, e o 1.º país na produção de algodão, de azeitonas e de azeite.

No âmbito da Educação, na Síria, as pessoas podem estudar gratuitamente e formar-se médicos, arquitetos, engenheiros, professores, sem pagar nenhum centavo. O aluno do Ensino Fundamental estuda três línguas. Os meus filhos, depois de três anos aqui no Brasil, estão estudando coisas que eles já tinham estudado na Síria. O computador entra para o currículo escolar entre o Ensino Fundamental e o Médio. O acesso à tecnologia é financiado pelo Estado. As pessoas podem emprestar dinheiro do Governo para comprar um computador para a sua casa e colocar uma linha de internet, pagando em até 5 anos. As Igrejas não pagam água, luz, não pagam impostos, podem fazer eventos e ninguém atrapalha. Esse mosaico sírio era bem forte antes da guerra. Então, há muitas coisas que despertam a vontade de quebrar esse país.

 

Pergunta: Como o senhor descreve o Estado islâmico?

Resposta: Eles são disciplinados, programados como um computador. Quando é para transmitir uma mensagem, somente uma pessoa fala. Quando eles entraram na minha igreja, era um grupo de 30 pessoas, e um deles disse: xeique, nós temos uma missão aqui na igreja e o senhor tem que sair. Como uma máquina, bem programada, somente uma pessoa falou durante 2 minutos a mesma palavra: tem que sair, tem que sair, temos uma missão. A missão deles era quebrar todas as cruzes da igreja como um sinal de que não querem cristãos. Três meses antes dessa história, eles raptaram um rapaz e disseram que queriam conversar com o padre. Um mês antes de pedirem para falar comigo haviam matado um padre em Damasco. Então fiquei com medo, até a minha família ficou com medo, mas tenho responsabilidades com os meus paroquianos e o pai do rapaz me pediu, por favor, para eu ir conversar com eles. Fui falar com eles com muito medo, mas com a força de Deus, porque tinha que cumprir com a minha obrigação. Durante a guerra você pensa somente nas obrigações e as emoções ficam no freezer. Então, fui ao encontro dos membros do Estado islâmico e devolveram o rapaz, a chave e as mercadorias da loja dele, e disseram: vocês são nossos amigos, nossos irmãos. Três meses depois, eles quebraram a santa cruz e, um mês depois, começaram a matar os jovens cristãos. Os jovens cristãos esconderam-se nas casas dos muçulmanos, no depósito dentro da casa. Como é um costume na Síria, as casas têm um depósito. As famílias muçulmanas colocaram os jovens cristãos dentro desses depósitos. Esses são os verdadeiros muçulmanos. Depois de um mês eles emitiram uma fatwa que era para matar os cristãos, mas não havia mais nenhum cristão na cidade, pois já tinham saído todos, tirei todos da cidade. Para fazer a propaganda, dois meses depois, decidiram que os cristãos tinham que pagar a jizya, um imposto religioso para aqueles que não são muçulmanos, em troca de proteção. O imposto consistia no pagamento de 17 gramas de ouro por ano para os ricos, mas havia apenas 3, 4 cristãos. A fatwa foi para fazer propaganda do Estado Islâmico. Depois, nos vídeos que saem na mídia, esses guerreiros não morrem, nem se caírem sobre eles umas três bombas.

Cada grupo tem um financiador e, se esse financiador fechar a torneira do dinheiro, o grupo acaba em 24 horas. A Frente al-Nusra [a atual Frente da Conquista do Levante] diz que não são terroristas, são guerreiros normais, mas como? Tem gente fornecendo dinheiro, pagando os salários dos guerreiros. O salário de um guerreiro do Estado Islâmico, há 3 anos atrás, era de 3 a 4 mil Dólares por mês. Aqui no Brasil você pode fazer o Estado Islâmico: vai para as ruas, pega as pessoas sem abrigo, paga salários para elas, dá autoridade para elas pelas armas, diz para elas que o reino de Deus está cheio de cerveja, Carnaval, futebol, o jogo de futebol não termina nunca e o Brasil ganha sempre. Faz uma imagem maravilhosa do reino de Deus [Paraíso] que eles vão com você. A religião é somente uma jaqueta desse grupo, uma jaqueta, eles têm outro objetivo.

 

Pergunta: Qual a sensação de estar frente a frente com combatentes do Estado Islâmico, o grupo jihadista mais temido da atualidade?

Resposta: Como padre, coloquei as emoções no freezer e cumpri somente com as minhas obrigações. Eu tinha certeza que não iria morrer, mas não sei por quê. Tinha que conseguir a paz para os meus paroquianos. Como ser humano eu estava muito fraco, mas Deus me deu muita força. Depois da batalha grande, travada entre os jihadistas e o Exército Árabe da Síria, saí da minha cidade e, um mês depois, voltei, mas não dava para viver. Algumas famílias ficaram, mas quando o Estado Islâmico começou a matar os jovens, todas as pessoas saíram.

Eles são programados, disciplinados, não demonstram emoções, não demonstram nada. Por exemplo, a mulher tem que usar o vestido até abaixo do tornozelo e se for acima eles dizem que o Islã não aceita. Neste caso, chamam o marido, pedem para ele falar com a sua esposa e dizer para ela se cobrir por inteiro. Eles também mudaram os livros nas escolas, nas Universidades. Eles são como um Governo, um Estado, eles têm muito poder.

 

Pergunta: Qual a situação dos cristãos na Síria, atualmente?

Resposta: A situação dos cristãos é como a situação dos sírios. Todos são atingidos por bombas, independentemente da identidade. Cristãos e muçulmanos perdem as suas casas. Se uma igreja foi destruída, foram destruídas 20 a 30 mesquitas; se mataram 10 cristãos, mataram 1.000 muçulmanos. O Estado Islâmico não é somente contra os cristãos, porque as perseguições também são contra os muçulmanos e isto tem que ficar claro. Por exemplo: o profeta Maomé rezava de três modos, mas se o Estado Islâmico entrar numa mesquita e os muçulmanos não rezarem do modo como eles determinaram, não são considerados muçulmanos. Eles são contra todos: cristãos, alauitas, xiitas, sunitas. Claro que os cristãos sofrem muito, pois têm muitos padres mortos, igrejas destruídas, mas os muçulmanos são mais. Então, o problema dos cristãos é o mesmo de todos os sírios, porque a crise e a fome estão para todos. Muitos cristãos saíram da Síria, eu tive esta sorte de sair. A minha mãe e os meus irmãos viajaram ilegalmente pelo mar e tiveram a sorte de chegar à Grécia em paz. Mas muitos sírios morreram no mar. Aqueles que tinham dinheiro viajaram.

 

Pergunta: Qual o pior trauma provocado pela guerra, principalmente pela ação dos radicais islâmicos junto às pessoas? O senhor pode descrever?

Resposta: O sofrimento veio devido à troca do modo de vida. Esse trauma vem desse outro modo de vida. O povo sírio não está acostumado com o modelo de vida fechado estabelecido pelo Estado Islâmico. Os sírios estão acostumados, por exemplo, a ir à noite ao rio Eufrates. Em Raqqa, todo mundo vai ao rio à noite, mas o Estado islâmico diz que é proibido os homens ficarem junto com as mulheres, lá. Tudo isso gera sofrimento porque os homens e as mulheres estão acostumados a conviver juntos. Em Raqqa, as mulheres pegam táxis, conversam com homens, porque são parentes, são da mesma família. Agora, o Estado Islâmico entrou e determinou que roupa usar e que roupa não usar, que os homens têm que ter barba grande. Você é padre e não pode jogar vídeo games. Esse sofrimento veio pelo fato de mudar o modo de vida. Para eles ou é permitido ou é proibido. Aquele que tem poder e que tem dinheiro deixou o território do Estado Islâmico, pois nem os muçulmanos sunitas conseguem viver com eles, mas aqueles que não têm parentes fora da cidade, que não têm dinheiro para alugar um apartamento, que não podem deixar a loja que têm, esses não podem sair.

 

Pergunta: Quais as principais dificuldades que as pessoas encontram para sair da Síria?

Resposta: A principal dificuldade é conseguir o visto. O Brasil foi o país mais fácil para os sírios conseguirem o visto. O Governo e o povo brasileiro abriram as portas. Todos os sírios que estão aqui têm o visto e agora estão com permanência de cinco anos. O Governo brasileiro tem tratado os sírios com respeito e na identidade não está escrito refugiado, mas residente, isto é dignidade. O Brasil está em crise e vamos rezar para esta crise passar. Os sírios querem trabalhar e há muitas famílias registradas nas Ruas da Cidadania, CRAS [Centros de Referência da Assistência Social], há muitas famílias registradas e ganham o Bolsa Família, cestas básicas, vale-transporte. A Universidade Federal tem uma vaga por ano para estrangeiro refugiado ou imigrante e isto é uma coisa muito boa.

Os Governos do Canadá, da Austrália e da Europa estão ajudando muito, mas tem que ter contrato de trabalho. Os Governos europeus não concedem visto, eles não têm mais dinheiro, há muitos refugiados. Eu, que tenho passaporte sírio, não posso viajar em voo direto para a Europa, mas somente naqueles voos que têm escala em um país árabe ou africano, mas sem sair do aeroporto. Está difícil sair da Síria por causa do visto, ou tem que viajar ilegalmente. A minha mãe viajou ilegalmente e vendeu a casa para pagar às pessoas que deram documentos para ela. Ela ficou 9 horas no mar para atravessar 1 Km entre a Turquia e a Grécia.

 

Pergunta: Qual a sua posição em relação às autoridades brasileiras no que diz respeito ao pedido de refúgio, documentação e meios de sobrevivência dos refugiados no Brasil?

Resposta: O atendimento é bem forte. No primeiro dia, ganham o protocolo com foto/pedido de refúgio. Um ano e seis meses depois, ganham o RNE [Registro Nacional de Estrangeiro] por cinco anos e podem conseguir a Carteira de Trabalho, CPF, abrir uma empresa, podem estudar. As crianças, em Curitiba, podem entrar para qualquer Escola Estadual, ou Municipal, em 24 horas. O Governo brasileiro facilita bastante a parte da documentação. Uma das dificuldades com os sírios é a seguinte: levei muitas famílias sírias para a Cáritas e perguntavam qual a necessidade e elas diziam que não tinham necessidades, mas não tinham dinheiro nem para a alimentação. Querem trabalhar e não querem as cestas básicas. Eles querem trabalhar, mas o idioma dificulta e, por isso, encontram muitos problemas para entrarem no mercado de trabalho. Quanto à entrada no Brasil, um refugiado sírio entrega o passaporte e uma fotografia no Consulado, conseguindo, assim, obter o visto. Que país faz isto? Obrigado, Brasil.

 

Pergunta: Qual a opinião dos refugiados sírios sobre o Brasil? Eles se sentem acolhidos?

Resposta: Sim. Eles têm problemas, mas graças a Deus podem estudar, podem ter todos os documentos e se eles venderem a casa na Síria podem abrir uma pequena empresa aqui. Os sírios têm dificuldades também com o estilo de vida. O povo aqui tem muita disciplina, é um povo tranquilo, feliz, e o nosso povo é agitado, está fervendo. O povo brasileiro respeita muito as leis, as filas, ninguém buzina nas ruas, não joga nada nas ruas. Os sírios também têm dificuldades com a comida, com a cultura, que é diferente. A cultura de toda a América Latina não tem os tempos verbais do passado – passado é memória – e não tem futuro, por causa dos indígenas. Nosso povo vai 48 horas para a praia e tem que ter dinheiro, colocar tudo na garagem, roupa, remédios, comida e leva para 2 dias coisas suficientes para 10 dias. O brasileiro pode não ter nada e vai uma semana para a praia. São férias e tem que aproveitar, aproveita o dia. O nosso povo ganha 10, esconde 5. É outra cultura.

 

Pergunta: Qual o futuro da Síria?

Resposta: Se deixarem a Síria em paz, se fecharem as torneiras do dinheiro e das armas, os sírios podem reconstruir a Síria em um ano. A Síria volta para a vida em um ano. O Governo está muito forte nas cidades que têm a presença do Governo. Nos prédios destruídos por bombas, em um dia o Governo avisa que abriu esses serviços noutro local. O Governo ainda está controlando o país. Há um mês, o Governo decidiu que 20.000 trabalhadores se tornassem trabalhadores com salário fixo. Se fecharem a torneira do terrorismo a Síria precisa de um ano para se recuperar. Muitos sírios vão voltar. 

———————————————————————————————–     

Imagem (FonteFoto de Marli de Barros Diaz):

Roytes Free para o CEIRI.

[:]

EUROPANOTAS ANALÍTICASPOLÍTICA INTERNACIONALPOLÍTICAS PÚBLICASSociedade Internacional

[:pt]Calais: O Retrato da Crise Humanitária dos Refugiados na Europa[:]

[:pt]

O campo de refugiados de Calais, mais conhecido como “Selva”, ou “Abrigo de Calais”, localizado ao norte de França, nas proximidades do Canal da Mancha[1], iniciou o processo de desocupação em 24 de outubro. O maior acampamento de expatriados na Europa, que abrigou um contingente de 6 mil a 8 mil pessoas oriundas de diferentes partes do mundo mas, sobretudo, do Sudão e do Afeganistão, foi, até recentemente, o retrato das condições de vida péssimas em habitações improvisadas, nas quais as vítimas de guerras, perseguições políticas e religiosas, tentavam sobreviver e encontrar um rumo após o processo migratório forçado. As autoridades francesas prepararam a transferência dos refugiados para 450 centros de acolhimento em diferentes partes de França e deixaram duas opções para eles, isto é, seguir para o local determinado ou retornar ao país de origem. O modo como foi feita a remoção dessas pessoas tem gerado críticas, principalmente por parte das organizações humanitárias que estão descontentes, sobretudo, com a falta de cuidado com as crianças.

Os grupos de ajuda denunciaram o fato de, aproximadamente, 1.200 crianças e adolescentes desacompanhados não terem recebido um cuidado especial por parte das autoridades francesas e de permanecerem sozinhos no local, em condições inaceitáveis, devido ao início da demolição do acampamento. Segundo Gloria Micallef, voluntária da ONG Care4Calais, “as autoridades não ofereceram nenhuma solução. Se não fossemos nós, onde é que estas crianças iriam dormir?”.

O descaso com os menores é um aspecto que vem sendo questionado pelos ativistas de causas humanitárias, mas não é o único. Ao pôr fim ao acampamento de Calais, “considerado a maior favela da Europa”, o Governo francês não conseguiu fazer retroceder a movimentação desses desabrigados no país, a qual tem provocado a favelização. Paris, que ficou fora da operação de Calais por não ter condições de receber refugiados, tornou-se o destino daqueles que evitaram ir para os centros de acolhimento.

A capital francesa, que contava com aproximadamente 3.000 pessoas vivendo nas ruas, a maioria homens jovens, nos últimos dias viu esta população aumentar. De acordo com Colombe Brossel, Secretária Municipal de Segurança de Paris, após o fechamento do acampamento de Calais aumentou o número de moradores de rua daquela metrópole. Ela estima que cerca de 1.500 a 2.000 pessoas provenientes do lugar teriam se instalado no norte de Paris, onde está concentrada a maioria dos barracos improvisados.

Por medo de serem apanhadas, muitas pessoas que estão, hoje, em Paris, negam que estiveram em Calais. Um jornalista do Sudão, que dorme nas ruas parisienses, afirmou que “as pessoas têm medo de dizer a alguém que estavam em Calais. Eles não sabem se a pessoa é da Polícia ou trabalha para o Governo”. Nos últimos tempos, cerca de 30 acampamentos foram desmontados na capital francesa, mas isto não tem sido suficiente para aplacar o surgimento de outros que crescem rapidamente e cada vez mais com um maior número de pessoas.

Enquanto em Paris aumenta a quantidade de moradores de rua, o que já é considerado uma “catástrofe humanitária”, muitos tencionam retornar para Calais, com o objetivo de conseguir chegar à Grã-Bretanha. As circunstâncias reforçam a compreensão de que o desmantelamento de campos de refugiados, em território francês, não conseguiu inibir a procura de uma resposta precária por aqueles que perderam os lares em seus países de origem e tentam, em terra estranha, substituí-los por um abrigo enquanto aguardam pela realização de um futuro que nunca chega.

———————————————————————————————–                    

ImagemHabitantes do campo de refugiados Selva incendeiam suas barracas durante os despejos (Março de 2016)” (Fonte):

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/8/8e/Calais-jungle-demolitions.jpg

———————————————————————————————–                    

Nota:

[1] Localizada no Estreito de Dover, Calais está situada no ponto mais estreito do Canal da Mancha, sendo a cidade francesa mais próxima de Inglaterra.

[:]

NOTAS ANALÍTICASORIENTE MÉDIOPOLÍTICA INTERNACIONALSociedade Internacional

O Papel de Shimon Peres na Construção de Israel

[:pt]

Shimon Peres, um dos fundadores do Estado de Israel, nascido Szymon Perski,  em 2 de agosto de 1923, em Višneva, Bielorrússia, faleceu em 28 de setembro de 2016, em Israel. Ele emigrou para a Palestina durante o Mandato Britânico, em 1934. Na juventude viveu num kibbutz da Galileia, onde desempenhou algumas tarefas junto a criadores de gado. Neste período, filiou-se no partido político Mapai, de ideologia sionista-socialista e, em 1944, foi eleito Secretário do partido. No ano de 1946, foi um dos delegados ao Congresso Sionista de Basileia e, no ano seguinte, passou a integrar o Haganah[1]. Ao longo dos seus 93 anos de vida, construiu a identidade de um líder hábil que dedicou a sua existência à defesa de seu país, cujas maiores vitórias não estão inscritas nos campos de batalha, mas no campo da condução dos negócios estrangeiros de seu país.

Diplomata exímio, Peres usou o seu talento em favor de Israel na medida em que se empenhou em edificar as bases da atual doutrina de Segurança e Defesa do Estado. Pioneiro do programa nuclear israelense, em 1959, ele conseguiu convencer o então Presidente francês, Charles de Gaulle, a vender um reator nuclear a Israel. Esta façanha permitiu ao seu país ter, mais do que uma arma de destruição em massa, um recurso de dissuasão do inimigo. Do mesmo modo, ignorando as perspectivas pouco otimistas a nível mundial, atuou na tentativa de se estabelecer a paz entre o seu povo e os palestinos, o que culminou no Acordo de Oslo (1993), assinado pelo Primeiro-Ministro de Israel, Yithzchak Rabin, e o líder palestino, Yasser Arafat. Embora a ação diplomática não tenha sido suficiente para pôr um fim definitivo ao conflito israelo-palestino, a iniciativa conseguiu mostrar que é possível a abertura para o diálogo. Esta atitude conferiu, em 1994, a Shimon Peres, o Prêmio Nobel da Paz, co-atribuído a Yithzchak Rabin e a Yasser Arafat.

Shimon Peres sobreviveu a todos os líderes da sua geração e, com habilidade política, transitou entre aliados e a oposição, sempre agindo em nome de um projeto coletivo e de bem-estar para Israel. Na longa jornada de sua vida pública, ele destacou-se por ser um grande negociador e um líder que tomou decisões importantes com repercussões positivas e, por vezes, controversas como, por exemplo, os acontecimentos acerca do campo de refugiados palestinos de Jenin, no norte da Cisjordânia. Sobre esta questão, afirma-se que Peres, na ocasião Ministro das Relações Exteriores de Israel, transformou o problema em “tabu[2]. Porém, os acertos e os erros que fazem parte da vida do estadista israelense compõem a trajetória de um homem cuja história individual se confunde com a própria história do país que ajudou a edificar, mesmo sob a ameaça externa constante presente no período que antecedeu a independência de Israel em 1948 e, também, na fase seguinte.

As condições adversas enfrentadas por Israel nas relações com os vizinhos árabes fomentaram a necessidade de se manter em alerta permanente. Esta situação fez com que muitos de seus fundadores sepultassem os sonhos de infância ante o objetivo maior, que era a consolidação do jovem país. Shimon Peres que, com tenra idade, sonhava ser pastor de ovelhas, ou “poeta das estrelas”, viu-se confrontado com realidades, muitas vezes hostis, que transformaram os desejos pueris e o levaram a trabalhar por um ideal nacional, servindo o seu país ao ocupar por quase 50 anos um assento como membro do Knesset (Parlamento israelense) e, também, a ser o único político israelense a assumir os cargos de Primeiro-Ministro e de Presidente.

A luta para fazer de Israel a potência regional mais forte do Oriente Médio correspondeu a uma meta conquistada por Shimon Peres. A profundidade estratégica que ele concebeu tornou-se o instrumento determinante na política de Segurança e Defesa israelense. O cenário de conflito, no qual Israel está inserido, levou o líder Shimon Peres, no decorrer da sua carreira política, a descortinar o nexo entre segurança e consenso. Para ele, mais do que as armas e a geografia, a paz tornou-se o recurso mais eficiente para assegurar a harmonia entre os judeus, os palestinos e os demais povos árabes. Na verdade, ele acreditava que era possível a paz entre Israel e os vizinhos árabes. Esta crença, alimentada por Peres, permaneceu até o seu último dia de vida enquanto que a sua proposta pacifista, de abertura ao diálogo e às negociações, parte importante de seu legado político, já há algum tempo está presente nas mesas de negociações, não somente de Israel, mas em situações que envolvem os conflitos mais complexos da atualidade.

Shimon Peres foi o braço direito de David Ben Gurion e, quando foi necessário, cumpriu com afinco o papel de comprador de armas no exterior numa fase difícil para Israel que, recém-independente, era militarmente frágil e enfrentava a Guerra da Independência. Porém, a tarefa que lhe foi atribuída, embora tenha sido vital para o país, não significou, para a população de Israel, algo digno de enaltecimento pelo fato de ele não ter envergado uniforme militar nem ter pegado em armas em 1948. Isto implicou na pouca popularidade de Peres, pois “os eleitores israelenses nunca respeitaram ou confiaram nele tanto quanto nos contemporâneos como Yithzchak Rabin e Yigal Allon, que tinham sido comandantes famosos da Guerra de Independência”. Esta situação foi alterada somente nos últimos anos como Presidente, embora, no exterior, sempre tenha sido considerado um político excepcional. Enquanto “figura de relevo universal”, Peres desempenhou um papel decisivo em momentos cruciais da política israelense, tanto ao nível interno quanto ao externo. Durante sete décadas de vida pública, a mais longa da história de Israel, que vai desde antes da independência até o fim do mandato de Presidente, em 2014, ele ocupou todos os cargos do Estado e jamais perdeu a esperança naquilo em que acreditava, mesmo quando foi derrotado em várias eleições.

Aquando da morte de Shimon Peres, o povo israelense sentiu pela falta daquele que aprendeu a amar. No instante em que foi anunciado o falecimento do derradeiro fundador de Israel, quase todo o mundo, atualmente carente de líderes sérios, avaliou a perda de um dos últimos grandes políticos dos nossos tempos, que foi, também, o “símbolo da busca por um consenso nacional”. Ele morreu como um lutador incansável pela paz, no momento em que muitas pessoas deixaram de acreditar nesta possibilidade. Peres não conseguiu ver realizado o projeto de paz entre o Estado israelense e os vizinhos árabes, mas plantou uma semente que, por mais discreta que seja, está presente quando se abrem as possibilidades de negociações e de diálogo entre Israel e a Palestina. O trabalho do homem que escreveu: “sou filho da geração que perdeu um mundo e construiu outro”, legou-nos o exemplo de que, com seriedade, é possível construir um país próspero e que, simultaneamente, a melhor segurança é aquela pautada pela paz.

———————————————————————————————–

ImagemShimon Peres” (Fonte):

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/4/4f/Shimon_Peres_at_2009_WEF.jpg

———————————————————————————————–                    

Notas e Fontes bibliográficas:

[1] Haganah: Organização paramilitar sionista, atuante durante o Mandato Britânico da Palestina, entre 1920 e 1948. Lutou contra a ocupação britânica e, também, contra a população local, de origem árabe.

[2] Ver:

Marli Barros Dias. Israel e Palestina: O Papel do Poder Político e da Ideologia na Construção da Paz, Curitiba: Juruá Editora, 2015, pág. 132.

[:]