NOTAS ANALÍTICASORIENTE MÉDIOPOLÍTICA INTERNACIONAL

O ataque do Talibã Paquistanês que deixou 145 mortos em Escola Militar

Pelo menos 145 pessoas, 132 delas sendo crianças, foram mortas no ataque de combatentes do Talibã paquistanês, o Tehrik-e-Taliban Pakistan (TTP), a uma escola de gerência militar em Peshawar, no noroeste do Paquistão[1][2]. Conforme divulgado, explosões e tiros soaram quando sete homens armados atacaram a escola pública do Exército na terça-feira, 16 de dezembro, em uma das ações mais sangrentas da história do país. Dez funcionários e sete militantes também foram mortos na operação[1].

O ataque desencadeou choque e indignação ao redor de todo o mundo. O primeiro-ministro paquistanês Nawaz Sharif descreveu-o como uma “tragédia nacional”, chamando os mortos de “meus filhos[1]. Líderes mundiais manifestaram repúdio à ação. Mesmo o Taliban Afegão criticou o ataque, chamando-o de “anti-islâmico[3].

Em aparente resposta à opinião pública, Nawaz Sharif levantou a proibição da pena de morte e se comprometeu a acabar com o terrorismo em seu país. Sharif disse que irá “continuar a guerra contra o terrorismo até que o último terrorista seja eliminado[4]. A moratória sobre a aplicação da pena de morte estava em vigor desde 2008, mas o ataque de terça-feira, que provocou condenação doméstica e internacional, parece ter pressionado o Governo a tentar suprimir a sensação de impunidade que muitos paquistaneses têm sobre grupos terroristas[4]. Sharif declarou um período de três dias de luto oficial em virtude do ataque de militantes[4], o qual pode ter sido o mais mortífero na história do Paquistão.

O Talibã disse que o alvo eram os filhos de famílias de militares, em retaliação à campanha anti-Talebã do Paquistão no Waziristão do Norte e em Khyber[5][6]. Desde junho de 2014, a pedido dos Estados Unidos, o Paquistão tem travado uma grande ofensiva na região, em conjunto com a retomada dos ataques aéreos via drones norte-americanos[2]. O TTP afirmou que muitos de seus familiares haviam sido mortos na operação Zarb-e-Azb do Exército Paquistanês em curso contra o TTP e seus aliados na região tribal e que o ataque contra a escola teria ocorrido em vingança à essas mortes. “Muitos membros do TTP perderam seus familiares e eles disseram que querem infligir dor[1], afirmou o repórter Kamal Hyder da Al Jazeera, em Peshawar. Hyder explicou que muitas famílias civis colocam seus filhos em escolas militares, devido ao padrão educacional relativamente mais elevado, de modo que pessoas comuns foram também atingidas[1][5].

Especialistas afirmam que a ofensiva do Waziristão do Norte no último verão dispersou militantes e afrouxou seu controle sobre parte do cinturão tribal. Contudo, os combates deslocaram mais de um milhão de civis em fuga, em um país já repleto de deslocados internos. Adicionalmente, muitas células militantes aparentemente teriam apenas se mudado para distritos vizinhos, ou do outro lado da fronteira com o Afeganistão[5]. De acordo com fontes oficiais, os contínuos bombardeios e operações terrestres do Exército nas regiões do Waziristão e de Kyhber  nos últimos seis meses já causaram mais de 1.100 mortes[6].

Militares paquistaneses realizaram mais ações aéreas na fronteira com o Afeganistão na noite de terça-feira, em resposta ao ataque à escola[7]. Os militantes do Talibã paquistanês, que luta para impor a lei islâmica estrita no Paquistão, abrigam-se nas montanhas vigiando a fronteira entre o Paquistão e o Afeganistão[7]. Eles estão aliados ao Taliban afegão, a Al Qaeda e a outros combatentes estrangeiros, e o Paquistão há muito acusa o Afeganistão de não fazer o suficiente para acabar com suas bases. Este, por sua vez, acusa o Paquistão de permitir que grupos militantes como o Taliban afegão e a rede Haqqani operem livremente em seu território[7].

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Imagem Cadeiras reviradas e sangue manchando o chão do auditório da Escola Pública do Exército, um dia depois que homens armados do Talebã atacaram a escola em Peshawar, no Paquistão. O país está em luto e  se preparou para funerais em massa na quarta-feira, 17 de dezembro. São  mais de 140 pessoas, a maioria delas crianças, mortas num dos ataques mais mortais e horríveis em anos, segundo autoridades” (Fonte Foto AP / B.K. Bangash)

http://wavy.com/2014/12/17/pakistan-school-devastation-where-148-were-slain/

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Fontes consultadas:

[1] Ver:

http://www.aljazeera.com/news/asia/2014/12/fighters-attack-army-run-school-pakistan-20141216742794184.html

Ver também:

http://www.democracynow.org/2014/12/17/headlines#12172

[2] Ver:

http://www.democracynow.org/2014/12/16/headlines#12161

[3] Ver:

http://www.bbc.com/news/world-asia-30517904

[4] Ver:

http://link.foreignpolicy.com/view/525440b6c16bcfa46f6fced8236ou.8d6/09fe2e28

Ver também:

http://www.theguardian.com/world/2014/dec/17/pakistan-school-massacre-taliban-nawaz-sharif-lift-death-penalty-ban

[5] Ver:

http://www.worldaffairsjournal.org/content/pakistani-taliban-attack-peshawar-school-leaves-145-dead

[6] Ver:

http://operamundi.uol.com.br/conteudo/noticias/38854/Exercito+paquistanes+toma+controle+de+escola+onde+talibas+mataram+pelo+menos+cem.shtml?utm_source=akna&utm_medium=email&utm_campaign=Boletim_OM_161214

[7] Ver:

http://www.reuters.com/article/2014/12/17/us-pakistan-school-idUSKBN0JU0JO20141217

 

NOTAS ANALÍTICASORIENTE MÉDIOPOLÍTICA INTERNACIONAL

Parlamento de Israel é dissolvido em meio à debates sobre Orçamento e Lei Judaica

O Parlamento de Israel foi dissolvido nesta segunda-feira, 8 de dezembro, em meio a divergências sobre o orçamento de 2015 e o Projeto de Lei liderado pelo primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, que enfatizaria a identidade judaica de Israel. Críticos e opositores ao Projeto defendem que a proposta comprometeria a tradição democrática do país[1]. Os membros do Knesset votaram 93 à zero a favor do Projeto de Lei de Dissolução do Parlamento encabeçado pelos partidos de oposição. As eleições agora serão realizadas em 99 dias. A dissolução é seguida da demissão por Netanyahu de Yair Lapid, como ministro das Finanças, e de Tzipi Livni, como ministra da Justiça, no último 2 de dezembro[2]. Ambos são membros da coalizão governista e foram acusados de “agirem contra o governo[3].

As eleições gerais legislativas foram oficialmente antecipadas para 17 de março de 2015[4]. A última eleição em Israel ocorreu em janeiro de 2013, enquanto a próxima estava prevista somente para novembro de 2017[5][6]. Com o Knesset dissolvido, a campanha eleitoral já está em andamento[4] e Netanyahu lançou sua campanha de reeleição na própria segunda-feira. A maioria das pesquisas de opinião apresentam que Netanyahu será reeleito como PrimeiroMinistro, com muitos israelenses apoiando sua posição dura sobre o conflito com os palestinos e outros problemas de segurança. Mohammad Barakeh, deputado palestino do partido Hadash, condenou o Governo de Netanyahu antes da votação: “Durante um ano e nove meses, este governo conseguiu muitas guerras; a principal delas é a guerra em Gaza, que causou a morte de mais de 2.000 civis inocentes[3], disse. 

De acordo com as últimas pesquisas, o Likud de Netanyahu é esperado para vencer com 22 a 24 assentos no Parlamento, em comparação com os 18 que detém hoje[5]. Contudo, embora o Likud seja esperado para vencer a maioria dos assentos, Netanyahu terá de alinhar com outros partidos para formar um Governo com o apoio da maioria de 120 membros[2]. Em meio a críticas com respeito aos impostos adicionais sobre alimentos básicos, Netanyahu sinalizou recuo, na tentativa de garantir amparo dos partidos ultra ortodoxos e da classe média israelense, cujo apoio ele pode precisar para chefiar o próximo governo[2].

As rachaduras na coalizão direitista de Netanyahu surgiram em torno do orçamento de 2015 e de um Projeto de Lei controverso que visa consagrar o status de Israel como Estado judeu em Lei, movimento que, de acordo com seus críticos, institucionalizaria a discriminação das minorias, incluindo os árabes[5][7]. Observadores dizem que outro governo de direita reduziria as chances de retomar o processo de paz no Oriente Médio, após a última rodada de negociações apoiadas pelos EUA terem desmoronado em abril, notadamente em virtude da construção de assentamentos de Israel em território palestino[5]. Ministros de linha dura da coalizão de Netanyahu pressionaram pela aceleração da construção de casas de colonos judeus na Cisjordânia e em Jerusalém Oriental, o que atraiu a condenação internacional e descontentou os palestinos[5].

Na mesma sessão nesta segunda-feira, legisladores israelenses aprovaram uma emenda à chamada Lei Anti-Infiltração de Israel, projeto que foi cancelado duas vezes no passado pela Alta Corte do país. A Lei permite que Israel aprisione indefinidamente africanos requerentes de asilo que tenham entrado no país sem autorização, assim como deter aqueles que já estão vivendo no país[3]. Adicionalmente, o Comitê de Economia Parlamentar aprovou uma transferência complementar de NIS 2,1 bilhões (cerca de US$ 530 milhões) ao Exército Israelense[6], um movimento que envolveu o corte de aproximadamente NIS 350 milhões (US$ 88 milhões) dos transportes públicos, NIS 311 milhões (US$ 78 milhões) de creches e NIS 200 milhões (US$ 50 milhões) da educação, entre outros orçamentos governamentais[3].

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Imagem O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, participa de uma reunião de seu partido Likud no parlamento em Jerusalém na última segunda-feira, 8 dezembro de 2014” (Fonte Reuters/Baz Ratner):

http://www.reuters.com/article/2014/12/08/us-israel-politics-idUSKBN0JM2AP20141208

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Fontes consultadas:

[1] Ver:

http://link.foreignpolicy.com/view/525440b6c16bcfa46f6fced8229sk.8u2/db46ae72

Para mais informações sobre o projeto de lei apresentado conferir nota analítica publicada através do CEIRI Newspaper sob o títuloAprovação da Lei do Estado Nação Judaicodivide Sociedade e Governo”, publicada em 28 de novembro:

https://ceiri.news/aprovacao-da-lei-do-estado-nacao-judaico-divide-sociedade-e-governo/

[2] Ver:

http://www.reuters.com/article/2014/12/08/us-israel-politics-idUSKBN0JM2AP20141208

[3] Ver:

http://www.middleeasteye.net/news/israeli-parliament-dissolves-ahead-march-elections-170410393

[4] Ver:

http://english.alarabiya.net/en/News/middle-east/2014/12/08/Knesset-to-dissolve-itself-Monday-set-election-for-March-17.html

Ver também:

http://www.dailystar.com.lb/News/Middle-East/2014/Dec-08/280349-israeli-parliament-dissolved-ahead-of-march-election.ashx

[5] Ver:

http://www.dailymail.co.uk/wires/afp/article-2866109/Israeli-parliament-dissolved-ahead-March-election.html

[6] Ver:

http://www.haaretz.com/news/1.630569

[7] Ver:

http://www.nytimes.com/2014/12/09/world/middleeast/israels-nationality-bill-stirs-debate-over-religious-and-democratic-identity.html?ref=world&_r=0

NOTAS ANALÍTICASORIENTE MÉDIOPOLÍTICA INTERNACIONAL

Aprovação da “Lei do Estado Nação Judaico” divide Sociedade e Governo

Nesta segunda-feira, 24 de novembro, o Gabinete israelense aprovou uma medida que define legalmente Israel como “o Estado do povo judeu” e não de seus cidadãos. Israel sempre se definiu desta maneira, mas o Projeto de Lei codificaria este status em suas Leis Básicas[1]. Os ministros votaram 14 a 6 a favor do Projeto de Lei, que vem ameaçando a unidade da coalizão governista e provocando um racha dentro da sociedade israelense[2]. Dois partidos centristas, Yesh Atid e Hatnuah, aliados do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu na coalizão governamental, votaram contra o Projeto. O Parlamento de Israel (Knesset) votará a Lei na próxima semana. A aprovação foi um movimento controverso e é vista por alguns críticos e oposicionistas como uma intensificação das medidas de discriminação contra árabes que residem nos territórios ocupados[2].

O Projeto de Lei é tão controverso e divisionista em virtude de sua linguagem exclusivista ao povo judeu. Caso a Lei em sua forma atual seja consagrada no ordenamento jurídico de Israel ela “significará efetivamente que aqueles que não se auto-identificam como judeus se tornarão cidadãos de segunda classe[2]. A Lei declararia o país como pátria apenas do povo judeu, alienando, consequentemente, sua minoria árabe.

A luta política sobre a medida já ameaça romper a coalizão de governo do Primeiro-Ministro[3]. Vários ministros acusaram Netanyahu de querer um “Estado religioso” ao propor uma legislação que “arruinaria a democracia israelense[2]. O Presidente do país, Reuven Rivlin, também criticou o projeto, uma vez que se contrapõe à visão dos fundadores do país[4]. Rivlin declarou que os autores da Declaração de Independênciaem sua grande sabedoria, insistiram que o público árabe em Israel não se sentisse como os judeus se sentiram na Diáspora[5]. A declaração de 1948, ao proclamar a criação de um Estado judeu, também enfatizou sua natureza democrática e prometeu “completa igualdade” dos direitos sociais, religiosos e culturais para todos, disse Rivlin[6].

O Rabino Michael Melchior, ex-ministro do Partido Trabalhista, disse que a Lei distorceria tanto a natureza judaica quanto democrática de Israel. “É uma das piores coisas já feitas em Israel[3], afirmou. Na contramão das acusações, Netanyahu declarou: “Israel é o Estado nacionalista judeu para o povo judeu com igualdade de direitos para todos os cidadãos[2]. O partido Lapid ameaçou não apoiar o projeto ao menos que ele inclua a palavra “igualdade[5].

Netanyahu e outros políticos aliados que pressionam pela aprovação da lei afirmam ser essencial para proteger a identidade de Israel contra todos aqueles que questionam seu direito de existir. “Há muitas pessoas que estão desafiando o caráter de Israel como o Estado nacional do povo judeu[3], disse no domingo, 23 de novembro. “Os palestinos se recusam a reconhecer isso e também há oposição interna[3]. Centristas em seu governo argumentam que tal legislação não é necessária, observando que a Declaração de Independência de 1948 já proclamou o país como um Estado judeu[3]. Muitos comentaristas políticos argumentam que a principal razão de Netanyahu para aplicar o projeto é aplacar os radicais linha-dura de seu partido Likud, em face as futuras votações[3][6].

Os palestinos alegam que aceitar a proposta de Netanyahu poderia negar aos refugiados palestinos eventual direito de retorno. “O debate sobre a lei do Estado-nação coloca obstáculos no caminho da paz[3], disse o presidente palestino Mahmoud Abbas, na terça-feira. “Ela sofreu feroz oposição dentro do governo israelense, no Knesset e entre o povo de Israel[3]. De acordo com o legislador árabe Jamal Zahalkacom esta lei, o Estado será menos democrático e mais racista[3].  O Procurador Geral da Justiça, Yehuda Wenstein, condenou a iniciativa do Gabinete em termos duros já que para ele a medida “enfraquece o caráter democrático do Estado[7]. Segundo o jurista Eyal Gross, a afirmação que consta no Projeto de Lei, de que “o direito de implementação da autodeterminação nacional é exclusivo do povo judeu[7], contradiz a ideia de que a grande minoria nacional (dos árabes-palestinos que vivem em Israel) também tem direito a representatividade e não apenas a “direitos individuais[7]

Os árabes israelenses constituem 20% da população de 8,2 milhões e há muito se queixam de serem tratados, na prática, como cidadãos de segunda classe[3]. O professor de Direito Mordechai Kremnitzer do Instituto Democracia Israel disse que a Lei poderia abrir as portas dos tribunais para a discriminação. “Os juízes poderiam aprender com este projeto de lei que a fundação judaica substitui a base democrática e eventualmente inspirarem-se para ferir a igualdade de direitos a que todos os cidadãos têm direito, incluindo as minorias[3], disse Kremnitzer.

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Imagem Netanyahu conseguiu que projeto alterando o status jurídico do Estado de Israel fosse aprovado por 14 votos a 6 entre seu gabinete ministerial” (FonteOpera Mundi / Agência EFE)

http://operamundi.uol.com.br/conteudo/noticias/38624/lei+que+define+israel+como+estado+judaico+causa+racha+em+coalizao+de+netanyahu.shtml?utm_source=akna&utm_medium=email&utm_campaign=Boletim_OM_241114

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Fontes consultadas:

[1] Ver:

http://www.democracynow.org/2014/11/24/headlines#112411

[2] Ver:

http://www.aljazeera.com/news/middleeast/2014/11/israeli-cabinet-backs-jewish-state-measure-201411231312394870.html

[3] Ver:

http://www.reuters.com/article/2014/11/25/us-mideast-israel-identity-idUSKCN0J91KN20141125

Ver também:

http://www.nytimes.com/2014/11/24/world/middleeast/israeli-cabinet-backs-nationality-bill-that-risks-wider-rift-with-arab-minority.html?_r=1

[4] Ver:

http://link.foreignpolicy.com/view/525440b6c16bcfa46f6fced820wl8.7ei/c51e7dd5

[5] Ver:

http://www.haaretz.com/news/national/.premium-1.628530?utm_source=Sailthru&utm_medium=email&utm_term=%2AMideast%20Brief&utm_campaign=2014_The%20Middle%20East%20Daily_11.26.14

[6] Contudo, é preciso ponderação. As próprias opiniões de Rivlin sobre a autodeterminação palestina são controversas. Ele se opõe a um Estado independente para os palestinos, apoiando ao invés uma confederação entre eles e Israel. Ver:

http://www.reuters.com/article/2014/11/26/us-mideast-israel-president-idUSKCN0JA0VY20141126?utm_source=Sailthru&utm_medium=email&utm_term=%2AMideast%20Brief&utm_campaign=2014_The%20Middle%20East%20Daily_11.26.14

[7] Ver:

http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2014/11/141125_israel_projeto_de_lei_polemica_lgb?SThisFB

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Arábia Saudita, EAU e Bahrein reestabelecem embaixadores no Qatar

Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Bahrein concordaram no último domingo, 16 de novembro, em reinstituírem seus embaixadores em Doha, no Qatar, sinalizando o fim de um racha de oito meses sobre o apoio do país à grupos islâmicos[1]. O anúncio foi feito pelo Conselho de Cooperação do Golfo (GCC, em inglês) e veio depois de uma reunião de emergência na capital saudita Riad para discutir a disputa, que estava ameaçando a cúpula anual a ser realizada no Qatar, em dezembro[1]. O Conselho declarou que a reunião de domingo tinha alcançado um “entendimento destinado a virar uma nova página nas relações entre os seis membros da organização do Golfo[1], que inclui também Kuwait e Omã.

Em um movimento sem precedentes, em março de 2014, os três países retiraram seus embaixadores Qatar, acusando-o de “prejudicar a segurança interna e estabilidade do GCC através de seu apoio ao movimento islâmico, a Irmandade Muçulmana[1]. O GCC acusou Doha de não cumprir o acordo de não interferência nos assuntos internos dos membros do Conselho[2]. Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Bahrein têm apelado para uma maior união militar e diplomática dentro do GCC. No entanto, Qatar e Omã até agora resistiram à maior integração nesses campos[1].  

Os Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita indicaram a Irmandade Muçulmana como uma organização terrorista e veem o islã político como uma ameaça aos seus próprios sistemas políticos despóticos[3]. O Qatar é acusado de ter apoiado a Irmandade no Egito, nos Emirados Árabes Unidos e, mais recentemente, na Líbia. O país tem dado abrigo a alguns membros da Irmandade e estendeu cidadania ao Sheikh Youssef al-Qaradawi, um clérigo com laços com o grupo[1][4]. Riad e os Emirados Árabes Unidos também veem o canal de notícias Al Jazeera, com sede em Doha, como sendo um porta-voz da Irmandade Muçulmana – algo que o Qatar nega[1][4]. A Arábia Saudita baniu a Irmandade, acusando-a de tentar derrubar as monarquias do Golfo. No domingo, os Emirados Árabes Unidos designaram a Irmandade e cerca de 80 outros grupos como “organizações terroristas[2].

De acordo com Joseph Kechichian, escritor sênior da Gulf News, a Irmandade Muçulmana não foi o único ponto de discórdia entre os países do GCC. “Há outras questões em jogo aqui. A grande disputa entre os membros do GCC é sobre o que fazer com o crescente [número] de extremistas quer seja no Iêmen, na Síria, ou no Egito. Houve uma grande quantidade de desacordo entre todos os estados membros. De alguma forma, foi tomada uma decisão que envolveu concessões[2].

Diplomatas em Doha disseram que, entre outras coisas, como fruto do acordo, o Qatar havia prometido aos Emirados Árabes Unidos que a Irmandade não seria autorizada a operar a partir do país. Contudo, não houve confirmação imediata deste dado[1][4]. O acordo de segurança regional solicitou ao Qatar que cessasse o apoio a organizações que “ameaçam a estabilidade do Golfo[5]. Em uma tentativa de restaurar as relações com os seus vizinhos, o Qatar pediu que figuras importantes da Irmandade deixassem o país em setembro[6], durante o que foi chamado pelo The Wall Street Journal e pela Al Arabiya como “uma das piores crises desde a criação do GCC em 1981[6].

O Qatar foi o único país árabe do Golfo a manter seu apoio à Irmandade depois que o Exército Egípcio derrubou o presidente islamita Mohammed Morsi no ano passado, após grandes protestos populares contra seu governo. Outros membros do GCC, em contrapartida, ofereceram bilhões de dólares em apoio aos novos governantes militares do Egito[6].

A falta de clareza sobre o que foi acordado e a forma pela qual o Qatar foi pressionado para esse acordo permanecem desconhecidos e podem ter consequências problemáticas para qualquer política unificada do GCC no futuro[6]. Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Qatar têm usado suas receitas de petróleo e gás para influenciar os acontecimentos em outros países do Oriente Médio e qualquer resolução de suas diferenças pode alterar o ambiente político na Líbia, Egito, Síria, Iraque e Iêmen[1][4].

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ImagemO Emir do Qatar Sheikh Tamim beija a testa do rei saudita Abdullah na reunião de surpresa do Conselho de Cooperação do Golfo (GCC) na noite de 16 de novembro em Riyadh” (FonteAl Arabiya/SPA):

http://english.alarabiya.net/en/News/middle-east/2014/11/16/Gulf-leaders-meet-in-Riyadh-for-surprise-GCC-meeting-.html

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Fonte Consultada:

[1] Ver:

http://www.reuters.com/article/2014/11/16/us-gulf-summit-ambassadors-idUSKCN0J00Y420141116

Ver também:

http://www.bbc.com/news/world-middle-east-26447914

[2] Ver:

http://www.aljazeera.com/news/middleeast/2014/11/gulf-leaders-reinstate-ambassadors-qatar-20141116202842331341.html

[3] Ver:

http://www.nytimes.com/2014/11/18/world/middleeast/qatar-ambassadors-to-return.html?_r=0

Ver também:

http://abcnews.go.com/International/wireStory/ambassadors-gulf-arab-states-return-qatar-26956231

[4] Ver:

http://www.theguardian.com/world/2014/nov/16/gulf-state-ambassadors-return-to-qatar-after-eight-month-rift?utm_source=Sailthru&utm_medium=email&utm_term=%2AMorning%20Brief&utm_campaign=2014_MorningBrief

[5] Ver:

http://www.foxnews.com/world/2014/11/16/saudi-arabia-uae-and-bahrain-agree-to-return-ambassadors-to-qatar-signaling/

[6] Ver:

http://online.wsj.com/articles/saudi-uae-and-bahraini-ambassadors-to-return-to-qatar-ending-rift-1416228182

Ver também:

http://english.alarabiya.net/en/News/middle-east/2014/11/16/Gulf-leaders-meet-in-Riyadh-for-surprise-GCC-meeting-.html

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Ataque dos EUA com drones mata 10 militantes da Al-Qaeda no Iêmen

Ataques norte-americanos com drones mataram ao menos 10 pessoas nesta terça-feira, 4 de novembro, perto da cidade de Radaa, no centro do Iêmen[1]. Shawqi al-Badani, alto líder da al-Qaeda na Península Árabe (AQAP) e líder local da filial armada da Al Qaeda, a Ansar al-Sharia, é considerado um “terrorista global” pelos Estados Unidos e estava entre outros quatro membros mortos em virtude do ataque ocorrido durante a noite.

Al-Badani foi acusado de ter ligações com atentados suicidas em 2012 que mataram mais de 100 soldados iemenitas e relação com uma conspiração envolvendo a Embaixada dos EUA no Iêmen[2]. De acordo com fontes locais, Nabil al-Dahab, líder da Ansar al-Sharia na Província de al-Bayda, no Iêmen, pereceu conjuntamente na operação[3].

Outras 10 pessoas foram mortas em confrontos entre o grupo militante Ansar al-Sharia e os xiitas Houthi, que tomaram conta da capital iemenita Sanaa e avançaram para o sul em áreas de maioria sunita[1]. O combate deflagrou-se em diferentes partes do Iêmen, desde que os Houthis aumentaram sua envergadura nos últimos meses, ameaçando a frágil estabilidade do país. As forças Houthis tomaram controle de Sanaa em setembro e se propagaram para o Iêmen central e ocidental. Este movimento vem sendo combatido por membros de tribos sunitas e combatentes da Al-Qaeda, que consideram os Houthis hereges[3].

Os chamados “revolucionários yemenitas”, Ansarullah, cujo líder é Sayyed AbdulMalik al-Houthi, demonstraram nesta terça-feira preocupação com o “caos representado pela crescente ameaça do terrorismo takfiri no país[4]. Militantes da Al-Qaeda frequentemente realizam ataques contra forças de segurança do Iêmen e travaram batalhas mortais com militantes do Ansarullah.

A violência ligada à Al-Qaeda contra as forças de segurança iemenitas vem crescendo desde fevereiro de 2012, quando o presidente Abd Rabbuh Mansur Hadi subiu ao poder em uma eleição de um homem só e apoiado pela Arábia Saudita e os Estados Unidos[4].

Houthi e Al-Qaeda têm lutado pelo controle da província de Al-Bayda – cuja maior cidade é Radaa – por quase duas semanas. De acordo com a Agência de Notícias turca Anadolu, nos últimos meses o Iêmen pareceu oscilar à beira da guerra civil, com a expansão do controle dos Houthis para além da capital Sanaa em direção a outras partes do país[5]. Sua crescente influência tem colocado o movimento xiita contra a Al-Qaeda, que permanece ativa no país politicamente turbulento[5].

Após assumir o controle de Sanaa, centenas de combatentes Houthis criaram postos de controle dentro e em torno da capital iemenita. Eles também expandiram seu alcance para a maioria das províncias do norte do Iêmen, mas estão tendo dificuldade em combater a Al Qaeda em Al Baitha, considerado um dos principais redutos da rede no centro do Iêmen[6].

Mais de 400 pessoas já foram mortas de ambos os lados durante o mês passado em confrontos ainda em curso nas províncias de Al Baitha e Ibb[6]. Os Houthis há muito se queixam de terem sido marginalizados e perseguidos pela maioria sunita do Iêmen e se envolveram em uma série de rebeliões desde 2004, justificando suas ações através da alegação de legítima defesa[6].

Embora as atuais atenções estejam incidindo mais fortemente sobre as guerras dos Estados Unidos no Iraque e na Síria, os EUA continuaram seu bombardeio secreto à supostos militantes da Al-Qaeda no Iêmen e no Paquistão[1] e o país reconhece o uso de drones no Iêmen, mas não comenta publicamente sobre a prática.

A Al-Qaeda e suas afiliadas no Iêmen estão entre os ramos mais ativos da rede fundada por Osama bin Laden[3] e os ataques com drones pelos Estados Unidos supostamente apoiam a iniciativa do Governo do Yemen em combatê-la no país. Os Houthis, apesar de terem sido críticos aos ataques de drones norte-americanos no passado, aparentemente não se opuseram à sua utilização no último mês[6].

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Imagem AFP: Ataque com drone norte-americano matou ao menos 10 supostos militantes da Al-Qaeda nesta terçafeira, 4 de novembro de 2014, no centro do Iêmen” (Fonte):

http://www.aljazeera.com/news/middleeast/2014/11/drone-strike-kills-yemen-al-qaeda-official-201411565441924278.html

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Fontes consultadas:

[1] Ver:

http://www.democracynow.org/2014/11/4/headlines#1142

[2] Ver:

http://www.democracynow.org/2014/11/5/headlines#1159

[3] Ver:

http://www.aljazeera.com/news/middleeast/2014/11/drone-strike-kills-yemen-al-qaeda-official-201411565441924278.html

[4] Ver:

http://www.almanar.com.lb/english/adetails.php?eid=179518&cid=23&fromval=1

[5] Ver:

http://www.aa.com.tr/en/world/414737–us-drones-strike-qaeda-militants-in-central-yemen

[6] Ver:

http://edition.cnn.com/2014/11/04/world/meast/yemen-violence/

 

NOTAS ANALÍTICASORIENTE MÉDIOPOLÍTICA INTERNACIONAL

Partido Secular Nidaa Tounes obtém maioria parlamentar na Tunísia

A Tunísia divulgou nesta quintafeira, 30 de outubro, os resultados oficiais da eleição parlamentar do último domingo no país, com o principal partido secular, o Nidaa Tounes, obtendo 85 lugares e o partido islâmico Ennahda obtendo 69 assentos no parlamento de 217 membros[1]. Sem ter atingido maioria absoluta, o Nidaa Tounes buscará formar uma coalizão com seus parceiros através de negociações que provavelmente durarão semanas antes que um novo Governo seja instituído. O Ennahda pediu um Governo de unidade nacional, que inclua seu movimento[2]. As autoridades eleitorais declararam que o partido UNL, secular, obteve 16 lugares; o movimento Frente Popular, de esquerda, garantiu 15, e o partido liberal Afek Tounes, 8 assentos[2].

A votação parlamentar foi um dos últimos passos na transição do país para a Democracia, após o levante contra Zine el Abidine Ben Ali, em 2011. O Ennahda, que defende uma forma pragmática do islã político, ganhou as primeiras eleições livres da Tunísia em 2011, depois que Ben Ali fugiu em meio aos protestos contra a corrupção e a repressão, exilando-se na Arábia Saudita[2]. O Partido formou um governo de coalizão com dois parceiros seculares, mas teve de se afastar em virtude da crise que irrompeu sobre o assassinato de dois líderes da oposição por militantes islâmicos.

A Tunísia, “um dos países árabes mais seculares, tem sido aclamada como um exemplo regional de compromisso político, depois de superar uma crise entre os movimentos seculares e islamistas e aprovar uma nova constituição neste ano, que permitiu as eleições[2]. A transição da Tunísia para um governo democrático tem sido considerada uma trajetória de sucesso regional. A revolta no país durante a Primavera Árabe foi a “primeira e menos violenta das insurgências contra os governos autocráticos da região; seus secularistas e islamistas conseguiram realizar a transição para a democracia com menos aspereza e derramamento de sangue do que seus vizinhos[3].

Durante a campanha, o Ennahda lançou-se como um partido que aprendeu com o passado, contudo, o Nidaa Tounes parece ter capitalizado sobre as críticas de que o movimento islâmico teria gerido mal a economia e de que teria sido incapaz de conter militantes radicais durante os seus três anos de governo[2]. O Ennahda, primeiro movimento islâmico a assegurar o poder após as revoltas da Primavera Árabe, admitiu a derrota nas eleições de domingo, a segunda eleição livre desde o fim do governo autocrático de Ben Ali, que contou com 5 milhões de eleitores registrados[2][3].

A derrota significa um importante retrocesso aos islamistas moderados do Ennahda, que lideraram uma coalizão de governo com dois parceiros não religiosos por mais de dois anos. O declínio em sua popularidade eleitoral significaria o descontentamento do público com a forma pela qual o partido lidou com a economia e o Nidaa Tounes teria sido eleito sob a esperança de que recoloque a economia nos trilhos[4].

Apoiadores do regime de Ben Ali tiveram sua entrada permitida no Nidaa Tounes e concorreram para diferentes cargos. Mas sua inclusão não foi feita sem controvérsias e o Partido ainda precisará encontrar parceiros de coalizão para ser capaz de governar[3]. O Partido Liberal, com laços com o regime deposto, concorreu com uma plataforma explicitamente anti-islamista e possui agora o direito de nomear o Primeiro-Ministro e de liderar o governo de coalizão; mas não sem grandes desafios[5].

Desde a onda pró-democrática após 2011, a Tunísia vem sofrendo com turbulências econômicas e ataques terroristas[5]. O partido, “que inclui empresários, sindicalistas e políticos do antigo regime, rejeitou a formação de uma coalizão com o islamista Ennahda por ser ‘contra sua natureza’, apesar de seu apelo para um governo de união nacional. De modo que o Nidaa Tounes deverá recorrer à uma coleção de partidos menores para obter a maioria necessária de 109 assentos[5].  

Críticos do Nidaa Tounes temem que o partido possa ressuscitar o modelo político paternalista e autoritário anterior de um homem no poder, juntamente com as práticas securitárias de Ben Ali, condenando partidos islâmicos ao ostracismo político sob a bandeira do combate ao terrorismo[6]. A estrutura política interna do Nidaa Tounes também seria muito mais autoritária que a do Ennahda. De modo que, apesar da inicial simpatia ocidental com o partido secular, Monica Marks, do The Guardian, alerta para que resistamos à tendência simplista de analisar as eleições na Tunísia como uma mera oposição entre a democracia secularista esclarecida e o islamismo retrógrado. Para Marks, a realidade no país é bastante mais complexa e envolve outras variáveis como as expectativas pós-revolução, o baixo índice de votação entre jovens e o saudosismo do velho regime durante a fase de transição[6].

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Imagem Funcionários da Tunísia apresentam os resultados finais das eleições no país” (Fonte The Guardian / Foto: Mohamed Messara / EPA):

http://www.theguardian.com/world/2014/oct/30/tunisia-election-results-nida-tunis-wins-most-seats-sidelining-islamists

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Fontes Consultadas:

[1] Ver:

http://link.foreignpolicy.com/view/525440b6c16bcfa46f6fced81y0ub.gem/e14e4c35

[2] Ver:

http://www.reuters.com/article/2014/10/30/us-tunisia-election-idUSKBN0IJ04N20141030?utm_source=Sailthru&utm_medium=email&utm_term=%2AMideast%20Brief&utm_campaign=2014_The%20Middle%20East%20Daily_10.30.14

Ver também:

http://www.worldaffairsjournal.org/content/tunisia%E2%80%99s-secular-nidaa-tounes-sweeps-parliament?utm_source=World+Affairs+Newsletter&utm_campaign=724c28493e-WNN_10_30_2014&utm_medium=email&utm_term=0_f83b38c5c7-724c28493e-294612385

[3] Ver:

http://www.bbc.com/news/world-africa-29828706?utm_source=Sailthru&utm_medium=email&utm_term=%2AMideast%20Brief&utm_campaign=2014_The%20Middle%20East%20Daily_10.30.14

[4] Ver:

http://www.theguardian.com/world/2014/oct/27/tunisia-islamist-ennahda-accept-defeat-elections

[5] Ver:

http://www.theguardian.com/world/2014/oct/30/tunisia-election-results-nida-tunis-wins-most-seats-sidelining-islamists

Ver também:

http://www.theguardian.com/world/2014/oct/26/tunisia-vote-parliamentary-election-new-constitution

[6] Ver:

http://www.theguardian.com/commentisfree/2014/oct/29/tunisian-election-result-secularism-islamism-nidaa-tounes-ennahda?CMP=share_btn_tw&utm_source=Sailthru&utm_medium=email&utm_term=%2AMideast%20Brief&utm_campaign=2014_The%20Middle%20East%20Daily_10.30.14