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Al-Sisi formaliza candidatura à Presidência no Egito

O ex-chefe militar das forças armadas egípcias, Abdel-Fattah Al-Sissi,formalizou na segunda-feira passada, dia 14 de abril de 2014, sua candidatura às eleições presidenciais egípcias previstas para 26 e 27 de Maio deste ano. O já aposentado “Marechal de Campo”, na pessoa de seu consultor jurídicoMohammed Bahaa Abou Shaqah, submeteu à “Comissão Eleitoral do Egito” 200.000 assinaturas de eleitores egípcios, um número oito vezes maior que o mandatório. Este foi o último passo formal para que o militar pudesse se inscrever como candidato às “Eleições Presidenciais” do país no próximo mês[1].

De acordo com a legislação eleitoral egípcia, cada candidato aspirante à Presidência deve reunir ao menos 25.000 assinaturas de eleitores obtidas ao redor de pelo menos 15 das 27 províncias do país. Contudo, conforme afirmou Ahmed Kamel, o porta-voz do candidato,Al-Sisi conseguiu mais de 460 mil assinaturas de cidadãos de todo o país endossando sua candidatura. A apresentação das candidaturas terminou no domingo passado, dia 20 de abril, e a “Comissão Eleitoral” deve anunciar os candidatos efetivos até um dia antes do início oficial da campanha, dia 3 de maio de 2014[2].

Al-Sisi, protagonista da destituição em julho do ano passado do então Presidente membro da “Irmandade Muçulmana”, Mohamed Morsi[2], é o grande favorito da disputa eleitoral e está se beneficiando de uma onda de popularidade após a destituição do líder islâmico. Al-Sisi, foi o primeiro aspirante a formalizar oficialmente sua candidatura para a eleição presidencial do próximo mês, que será supervisionada pela primeira vez pela “União Europeia[3][1][2].

Até o momento, o líder esquerdista Hamdeen Sabahi[4] e o advogado Mortada Mansur, crítico severo dos ativistas que lideraram a revolta de 2011 contra o ex-presidente Hosni Mubarak, também manifestaram intenção de disputar a Eleição[3]. A campanha de Al-Sissi afirma que mais assinaturas continuam a jorrar em sua sede no Cairo, algo que descreveram como um “exemplo único de apoio e respaldo nacional[1]. O Marechal, no entanto, ainda não anunciou um programa eleitoral que claramente enuncie quais medidas pretende tomar para reviver a economia, restabelecer a segurança e salvar o vital setor do turismo de sua vertiginosa queda[1].

No último dia 15 de abril, a Corte egípcia de Alexandria baniu membros e ex-membros da Irmandade Muçulmana de concorrerem nas próximas eleições presidenciais e parlamentares, horas após um ataque a bomba em um sofisticado bairro central do Cairo que feriu dois policiais e um pedestre[5]. Em dezembro de 2013, as autoridades egípcias já haviam declarado a “Irmandade Muçulmana” um “grupo terrorista”, após responsabilizá-la por um bombardeio mortal no norte do Cairo[5][6]. Desde a deposição de Morsi, as autoridades militares têm reprimido brutalmente o movimento e seus membros, enquanto a polícia e os soldados se tornaram os principais alvos de uma campanha de atentados e tiroteios perpetrados por militantes[5]. A decisão judicial marca uma escalada na campanha do Estado contra a oposição islâmica e atrai críticas de grupos de Direitos Humanos e potências ocidentais[6]. A “Anistia Internacionalafirma que mais 1.400 pessoas já foram mortas pelarepressão, na sua maioria islamitas. Nos nove meses, desde o golpe militar, mais de 15.000 islamitas, principalmente membros da Irmandade, foram presos, enquanto centenas foram mortos ou condenados à morte após julgamentos frequentemente rápidos[1].

O Egito vem sendo afetado por três anos de turbulência política desde o início da chamada Primavera Árabe cujas manifestações levaram à renúncia de Hosni Mubarak, em 2011, Presidente egípcio por três décadas. O país possui uma população de quase 90 milhões de habitantes e está mergulhado na pobreza. A economia egípcia enfrenta grandes desafios como a alta taxa de desemprego entre milhões de jovens. Os protestos populares contínuos e prisões de opositores têm acirrado a crise política no país, fruto dos inúmeros confrontos entre as forças de segurança e manifestantes partidários de Morsi[5][7][8]. Os críticos de Sisi afirmam que caso ele vença as eleições, o que é amplamente esperado, o Egito presenciará um retorno ao regime autocrático que marcou as últimas décadas do país[4].

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Imagem (Fonte):

http://www.haaretz.com/news/middle-east/1.585639

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Fontes consultadas:

[1] Ver:

http://www.haaretz.com/news/middle-east/1.585639

[2] Ver:

http://english.al-akhbar.com/content/sisi-officially-enters-egypts-presidential-race

[3] Ver:

http://g1.globo.com/mundo/noticia/2014/04/marechal-al-sisi-apresenta-candidatura-presidencia-do-egito.html

[4] Ver:

http://english.al-akhbar.com/content/egypt-sabahi-supporters-turf-war-sisi-campaign

[5] Ver:

http://dailystar.com.lb/News/Middle-East/2014/Apr-15/253409-egypt-court-bans-brotherhood-members-from-polls.ashx

[6] Ver:

http://g1.globo.com/revolta-arabe/noticia/2014/03/comandante-do-exercito-egipcio-anuncia-candidatura-a-presidencia.html

[7] Ver:

http://www.aljazeera.com/news/middleeast/2014/04/injuries-as-blast-hits-central-cairo-201441563243764591.html

[8] Ver:

http://g1.globo.com/mundo/noticia/2014/04/estudante-e-morto-durante-confrontos-no-egito.html

[9] Ver:

http://dailystar.com.lb/News/Middle-East/2014/Apr-15/253371-blast-heard-in-central-cairo.ashx

[10] Ver:

http://english.al-akhbar.com/content/cairo-student-shot-dead-clashes

[11] Ver:

http://english.al-akhbar.com/content/cairo-bomb-wounds-civilian-two-police-checkpoint

ÁfricaCOOPERAÇÃO INTERNACIONALNOTAS ANALÍTICASORIENTE MÉDIO

Risco de seca eleva preocupação da ONU com a fome na Síria

A “Organização das Nações Unidas” (ONU) alertou a Síria nesta terça-feira, 8 de abril, quanto ao risco de escassez de alimentos devido à seca iminente no país. A ONU alarmou que uma seca na Síria pode levar à um record na quebra da safra de trigo e colocar milhões de habitantes em risco, já que o índice pluviométrico sírio desde setembro está inferior à metade da média para o período[1].

De acordo com o “Programa para Alimentação Mundial” (WFP, na sigla em inglês) da ONU, em março de 2014 foi fornecida alimentação para inéditos 4,1 milhões de sírios. Contudo, a ajuda alimentar internacional à Síria foi reduzida em um quinto, devido à falta de fundos dos doadores internacionais[2].

A “Porta-Voz do Programa da ONU para Alimentação Mundial”, Elisabeth Byrs, anunciou estar preocupada com o impacto que uma seca iminente possa ter no noroeste do país, principalmente nas cidades de Aleppo, Idlib e Hamah[1], assim como em Al Raqqah”, Al Hasakah” e Deir el Zour no nordeste[3]. O relatório da WFP informou que as áreas mais afetadas pela seca, as localizadas no noroeste, são tradicionalmente responsáveis por metade da produção de trigo síria. Além da falta de chuvas, muitas destas províncias presenciaram alguns dos piores combates nos últimos dois anos[3].

Segundo Byrs, até 6,5 milhões de sírios poderão precisar de ajuda alimentar de emergência, acima das cifras de 4,2 milhões atuais[1]. De acordo com o relatório da WFP, como resultado da seca, a Síria pode ser obrigada a importar mais do que os 5,1 milhões de toneladas de trigo que precisou no ano passado[1]. A agência da ONU estima que a produção de trigo no país será de somente 1,7 milhões à 2 milhões de toneladas este ano – um recorde de baixa[3]. Com a menor área plantada de trigo em 15 anos, a quebra de produção do cereal prevista é de 29% em relação à safra do ano passado e a colheita estimada em cerca de metade dos níveis pré-guerra, disse a WFP[4]. A produção de cevada e a agropecuária também têm sido atingidas.

Byrs relatou que o número de pessoas que necessitam de assistência alimentar deve aumentar nos próximos meses, uma vez que as condições de seca, agravadas pelos impactos da guerra civil, resultarão no colapso do setor agrícola[3]. Desde o início da guerra, o país vem sofrendo maciças faltas de abastecimento porque a luta tem se concentrado em áreas rurais – dominadas pela oposição – em torno de grandes cidades da Síria, incluindo a capital, e ao longo da fronteira com o Líbano, onde a maioria das terras agrícolas está localizada[3].

Além da pior seca desde 2008, estes três anos de guerra civil devastaram a infraestrutura do país, deixando danos de longo prazo para irrigação devido a danificação de bombas e canais, falhas no fornecimento de energia e falta de peças de reposição. De acordo com a agência, estes danos terão efeitos duradouros sobre a produção agrícola da Síria, mesmo depois que a paz for restaurada[4].

Na segunda-feira, 7 de abril, o Programa para Alimentação Mundial da ONU informou que em março foi forçado à reduzir o tamanho das suas cestas de alimento às famílias sírias em 20%[1]. A redução teria sido forçada pelos atrasos no recebimento de fundos dos doadores internacionais. A cesta básica familiar para cinco pessoas inclui arroz, trigo para quibe, macarrão, grãos, óleo vegetal, açúcar, sal e farinha de trigo. De acordo com a WFP, somente 22% dos recursos necessários para suas operações na Síria foram recebidos[1]. A WFP afirmou que sua operação na Síria é a maior e mais complexa do mundo, lhes custando mais de US$ 40 milhões por semana, incluindo a alimentação de 1,5 milhão dos 2,6 milhões de sírios refugiados registrados oficialmente que migraram para países vizinhos, principalmente Turquia, Líbano, Jordânia e Iraque[4].

Ao todo, a “Organização das Nações Unidas” recebeu apenas 16% dos US$ 2,2 bilhões necessários para as suas operações de ajuda no interior da Síria este ano. Os “Estados Unidos” são o maior doador com 108 milhões dólares, seguido pela “União Europeia”, com US$ 53,7 milhões, e os “Emirados Árabes Unidos”, com US$ 50 milhões[4]. A mídia estatal iraniana informou também neste dia 8 de abril que o Irã enviou um extra de 30 mil toneladas em alimentos para auxiliar o Governo vizinho à lidar com a escassez de alimentos devido à guerra civil[5][1].

A fome, em virtude da iminente seca no noroeste do país, pode exacerbar a crise humanitária de refugiados e deslocados internos. De acordo com a ONGObservatório Sírio dos Direitos Humanos (OSDH), mais de 150.000 pessoas foram mortas desde que os combates começaram na Síria há três anos[6] e o país sofre com a maior crise de refugiados e deslocamentos internos, cujo êxodo para países vizinhos totaliza estimados 3 milhões de pessoas, de acordo com o alto comissário da ONU para refugiados Antonio Guterres.

O número de refugiados sírios oficiais registrados nos países vizinhos é de 2,6 milhões, embora centena de milhares mais já tenham cruzado as fronteiras sem solicitar assistência internacional[2]. No Líbano, por exemplo, mais de um milhão de refugiados registrados totalizam quase um quarto da população total do país[2]. Os refugiados sírios em países vizinhos, somados aos 6,5 milhões de deslocados internos, indicam que metade da população síria[7] já seja constituída de deslocados e de refugiados[2].

Ainda de acordo com Guterres, a tensão é iminente em em vizinhos como Líbano e Jordânia, onde vem sendo registrado o aumento no número de desempregados, decréscimos nos salários e aumento nos preços de produtos e dos alugueis, de modo que a crise síria tem registrado um impacto dramático também na economia e na sociedade dos países ao seu redor[2].

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Imagem (Fonte):

http://www.bbc.com/news/world-middle-east

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Fontes consultadas:

[1] Ver:

http://www.bbc.com/news/world-middle-east-26943503

[2] Ver:

http://www.aljazeera.com/news/middleeast/2014/04/fund-crunch-forces-un-cut-syria-food-aid-20144851120732617.html

[3] Ver:

http://www.haaretz.com/news/middle-east/1.584566

[4] Ver:

http://www.dailystar.com.lb/News/Middle-East/2014/Apr-08/252681-syrians-face-drought-wheat-production-seen-at-record-low-wfp.ashx#axzz2yK7CcoAf

[5] Ver:

http://www.dailystar.com.lb/News/Middle-East/2014/Apr-08/252695-syria-iran-sends-30000-tons-of-food-supplies.ashx#axzz2yK7CcoAf

[6] Ver:

http://g1.globo.com/mundo/siria/noticia/2014/04/guerra-na-siria-provocou-mais-de-150-mil-mortes-diz-ong.html

[7] De acordo com os dados da “Central de Inteligência Americana” (CIA), em 2008, a população síria era estimada em 22,5 milhões de habitantes. Ver

https://www.cia.gov/library/publications/the-world-factbook/rankorder/2119rank.html?countryName=Vietnam&countryCode=vm&regionCode=eas&rank=14#vm