ANÁLISES DE CONJUNTURAORIENTE MÉDIOPOLÍTICA INTERNACIONAL

[:pt]Saad Hariri anuncia apoio a Michel Aoun para Presidência do Líbano: impasse institucional pode estar perto do fim[:]

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Em 20 de outubro de 2016, o líder do “Movimento Futuro”, Saad Hariri, endossou oficialmente Michel Aoun como seu candidato à Presidência do Líbano. O anúncio representa um abandono do seu aval prévio a Sleiman Frangieh, anunciado em dezembro de 2015. Aoun é maronita e fundador do Movimento Patriótico Livre, o maior partido político cristão no Líbano, país que está sem um Presidente desde maio 2014

Falando em uma conferência de imprensa televisionada de sua residência, no centro da capital, Beirute, Hariri afirmou que tomou a decisão “para que o Líbano como um todo preservasse o Estado, suas instituições, sua estabilidade e sua segurança”, conforme reportou o The Daily Star. Classificando a decisão como um “sacrifício e não um acordo”, ele declarou ainda que “o Líbano precisa desesperadamente alcançar uma solução política e, portanto, estou formalmente endossando Michel Aoun para o cargo de presidente do país”.

Os partidos libaneses e suas coalizões têm disputado, tanto internamente, como entre si, sobre quem será o próximo Presidente, desde o término do mandato de Michel Sleiman, em maio de 2014. Sob o acordo de partilha de poder libanês, o cargo presidencial é reservado a um candidato cristão, geralmente maronita. O impasse presidencial já passa de 29 meses e ocorre em meio a outro impasse mais amplo, que também tem paralisado o Parlamento e ameaçado o trabalho do Gabinete. O Legislativo já estendeu seu mandato por duas vezes, a primeira em 31 maio de 2013, por 17 meses, e a segunda em novembro de 2014, por 31 meses, que irá até junho de 2017.

A “Coalizão 8 de Março” é composta pelo Hezbollah, Amal, Movimento Patriótico Livre (liderado por Michel Aoun), Movimento Marada e partidos sírios. Já a “Coalizão 14 de Março” é composta pelo Movimento Futuro, liderado por Saad Hariri, Forças Libanesas, Kataeb, Partido Socialista Progressista de Walid Jumblatt, entre outros.

As Forças Libanesas, o Hezbollah e o Movimento Patriótico Livre pedem pela eleição do parlamentar Michel Aoun, enquanto o Movimento Futuro, Walid Jumblatt e Nabih Berri – do Amal – manifestavam, até então, apoio pela nomeação do líder do Movimento Marada, Sleiman Frangieh. Ambos, Aoun e Frangieh, são membros da “Coalizão 8 de Março”. Nabih Berri, contudo, ainda não endossa o apoio a Aoun. Já o líder do Hezbollah, Hassan Nasrallah, confirmou no último 23 de outubro que seu bloco parlamentar votará em Aoun na sessão da próxima segunda-feira, dia 31 de outubro, suspendendo, portanto, o longo período de boicote às sessões.

Aoun serviu como Chefe das Forças Armadas e brevemente como Primeiro-Ministro durante a Guerra Civil do Líbano, 1975-1990, quando era um forte opositor da presença militar síria no país. Mas ele surpreendeu muitos ao estabelecer um Memorando de entendimento com o aliado de Damasco, o Hezbollah, em fevereiro de 2006, um ano após seu retorno do exílio na França e da retirada das tropas sírias do Líbano, em abril de 2005.

Originalmente, antes de apoiar Frangieh, Hariri endossou a candidatura de Samir Geagea, das Forças Libanesas, membro de sua “Coalizão 14 de Março”. Após a desistência, em janeiro de 2016, Samir Geagea apoiou a candidatura do antigo inimigo, o general Michel Aoun, encerrando mais de duas décadas de relações amargas.

Hariri, ex-Primeiro-Ministro, pode voltar para o cargo de Premier sob um acordo de união nacional mediado com Aoun. Com um oficial de alto escalão da “Coalizão 8 de Março” como Michel Aoun na Presidência, Hariri poderia mais facilmente garantir o cargo de Primeiro-Ministro para si, já que é o líder da “Coalizão 14 de Março”, especulam especialistas. Mas este movimento de apoio a Aoun, na prática, coloca Hariri (líder do partido de maioria sunita e apoiado pela Arábia Saudita e pelo Ocidente) ao lado do Hezbollah, crítico severo das políticas sauditas, aliado do Irã e que possui membros combatendo na vizinha Síria. Hariri e seus parceiros apoiam o levante contra Bashar al Assad, enquanto o Hezbollah denuncia a presença de jihadistas no país. Ainda assim, o Hezbollah já sinalizou que aceitará Hariri como Premier, se este for o caso. O correspondente da Al Jazeera, Imtiaz Tyab, reportou que pelo menos dois membros seniores do Movimento Futuro anunciaram que se oporiam à nomeação de Aoun. A animosidade entre Hariri e Aoun remonta mais de uma década e muitos parlamentares membros do Partido Futuro como Ahmed Fatfat, Fouad Siniora, Farid Makari e Mohammad Qabbani expressaram abertamente insatisfação com a decisão de seu líder sunita.

Apesar de rivais, Hezbollah e as Forças Libanesas vinham tentando convencer o líder do Movimento Futuro, Saad Hariri, a abandonar o apoio a Frangieh e endossar Aoun, que diziam ser a única maneira de encerrar o vácuo presidencial. Os legisladores do Bloco Mudança e Reforma, do deputado Michel Aoun, junto ao bloco do Hezbollah e seus aliados, denominado “Coalizão 8 de Março”, têm frustrado qualquer quórum através do boicote às sessões parlamentares, exigindo um acordo de antemão com os seus rivais da “Coalizão 14 de Março” acerca de um candidato de consenso. O Parlamento deverá se reunir na próxima semana, em 31 de outubro, para nova tentativa de votação de um Presidente, a 46ª tentativa, desde 2014. Desta vez, a garantia de apoio em torno do nome de Aoun deve ser suficiente para a obtenção de uma maioria de 2/3 para a eleição presidencial.

Hariri fez referência à vizinha Síria como uma das principais razões por ter confirmado o apoio a Aoun, e exortou os cidadãos libaneses a se reunirem em torno do candidato. O país faz fronteira a norte e a leste com a Síria, devastada pela guerra que já gerou estimados 500.000 mortos. Como consequência, o Líbano vem registrando um alastramento no número de combatentes extremistas e grande afluxo de refugiados, deteriorando a já debilitada infraestrutura do país. A população total do país é estimada em 5,851 milhões de habitantes – excluindo o número de refugiados. Outros 1.033.513 de habitantes são refugiados sírios, conforme dados da UNHCR.

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ImagemGeneral Michel Aoun” (Fonte):

https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Aoun.jpg

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NOTAS ANALÍTICASORIENTE MÉDIOPOLÍTICA INTERNACIONALTecnologia

[:pt]Inédita explosão de drone do Estado Islâmico mata dois soldados curdos no Iraque[:]

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No último 2 de outubro de 2016, dois combatentes curdos foram mortos após a detonação de um drone do Estado Islâmico (EI) na cidade Erbil, norte do Iraque. O grupo já fazia uso de drones de vigilância e já havia lançado ao menos dois ataques anteriores com eles, mas sem quaisquer mortes reportadas. Acredita-se que esta tenha sido a primeira vez que um ataque de drone do EI tenha matado tropas inimigas. Militares norte-americanos alertam agora que os jihadistas podem fazer uso exitoso destes mecanismos contra as forças de coalizão lideradas pelos Estados Unidos na próxima batalha pelo controle de Mosul.

O drone carregado de explosivos e enviado pelo Estado Islâmico foi interceptado e derrubado por forças curdas no Iraque no início deste mês (Outubro). Contudo, o dispositivo explodiu matando dois combatentes curdos e ferindo dois soldados franceses. A informação somente foi confirmada no último 11, terça-feira passada, pelo Governo da França. Em Erbil, capital do Curdistão iraquiano, tropas francesas têm lutado ao lado dos combatentes curdos contra soldados do EI. Cerca de 500 militares da França foram mobilizados para a luta contra eles no Iraque, ressaltando-se que o contingente inclui Forças Especiais que treinam combatentes Peshmerga curdos na parte norte do país, conforme  informa o International Business Times.

O primeiro uso do equipamento pelo EI foi para filmar ataques suicidas com carros-bomba, os quais eram divulgados online pelo grupo. Mas, no início deste ano (2016), comandantes americanos e iraquianos constataram que “[se] tornou claro que o grupo estava fazendo uso de drones para ajudá-los no campo de batalha”, além de vigilância e reconhecimento de território de bases norte-americanas e iraquianas, de acordo com notícia reportada pelo New York Times.

O uso de veículos aéreos não tripulados pelo EI tem preocupado as autoridades americanas. Relatos dão conta de que o grupo jihadista faz uso de drones comercialmente disponíveis que podem ser comprados na Amazon, como o DJI Phantom, ao contrário do Exército norte-americano que opera equipamentos do tamanho de um pequeno avião tripulado. A Agência Central de Inteligência e a Agência de Inteligência de Defesa estão examinando o esse tipo de ação pelo grupo jihadista e estudam como responder à ameaça emergente.

Nos campos de batalha no Iraque e na Síria, os Estados Unidos têm dedicado recursos para minar a capacidade desses equipamentos. Segundo comunicados de imprensa do comando militar americano em Bagdá, nos últimos 18 meses, o país lançou pelo menos oito ataques aéreos que destruíram drones do grupo no chão. Apesar dos esforços, analistas militares acreditam que tais “armas” continuarão a ser um problema no Iraque, na Síria e em outros lugares.

Um novo relatório do Centro de Combate ao Terrorismo de West Point aponta que, no futuro, dronesfora da casca” utilizados pelos grupos terroristas serão capazes de transportar cargas mais pesadas, voarem por mais tempo e fazerem empreendimentos mais longe de seu controlador, empregando links seguros de comunicação. De acordo com Don Rassler, diretor do centro de iniciativas estratégicas, nos próximos anos “o número e sofisticação dos drones utilizados também deve aumentar o alcance e gravidade da ameaça”.

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ImagemUm DJI Phantom UAV para fotografia aérea comercial e recreativa. O Estado Islâmico tem feito uso de drones como este para atividades de vigilância, filmagem de ataques e agora explosões” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Unmanned_aerial_vehicle#/media/File:DJI_Phantom_2_Vision%2B_V3_hovering_over_Weissfluhjoch_(cropped).jpg

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AMÉRICA DO NORTEEURÁSIANOTAS ANALÍTICASORIENTE MÉDIOPOLÍTICA INTERNACIONAL

[:pt]Cessar fogo entra em vigor na Síria: analistas são receosos quanto à efetividade da trégua[:]

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No final da segunda-feira, 12 de setembro de 2016, entrou em vigor na Síria um cessar-fogo de amplitude nacional intermediado pelos Estados Unidos e Rússia. Há preocupações de analistas sobre a sustentação da trégua, cujo anúncio coincidiu com o feriado muçulmano de Eid al-Adha. Várias horas depois do cessar-fogo, o Observatório Sírio para Direitos Humanos, baseado no Reino Unido, afirmou que as principais zonas de conflito em todo o país estavam tranquilas. No entanto, foram registrados bombardeios leves pela Oposição e pelas forças do Governo no sudoeste do país.

O Acordo de Cessar Fogo foi estabelecido na última sexta-feira, 9 de setembro, pelo Secretário de Estado dos Estados Unidos, John Kerry, e pelo Chanceler russo, Sergey Lavrov. A trégua visa permitir a entrada da ajuda humanitária, além de buscar os cominhos de uma solução política para o conflito entre as forças leais ao presidente Bashar al-Assad e grupos rebeldes de oposição, mais ou menos moderada, lutando para depô-lo. O Governo sírio, bem como o Irã e o Hezbollah, dois de seus mais fortes aliados, concordaram com os termos firmados.

A trégua, contudo, não se aplica ao Estado Islâmico ou ao Jabhat Fateh al-Sham, anteriormente conhecido como Frente al-Nusra, que mudou seu nome após cortar laços com a al-Qaeda, em julho de 2016. Horas após a trégua ter entrado em vigor em todo o país, mais de uma dúzia de grupos rebeldes, incluindo a Aliança do Exército Livre da Síria (FSA), o Ahrar al-Sham e o Jaish al-Islam criticaram duramente o Acordo como “injusto”, sem, contudo, rejeitá-lo totalmente. Questões permanecem, no entanto, sobre como o cessar-fogo será aplicado nas várias partes do país onde grupos extremistas estão presentes.

Com violações pontuais no cessar fogo de ambas as partes durante os primeiros dois dias, mas sem mortes de civis, os chamados rebeldes moderados questionam a falta de clareza nas garantias de implementação do que foi acertado, ou nos mecanismos de monitoramento da trégua. Expressando suas reservas, Salem al-Meslet, porta-voz do Alto Comitê de Negociações, principal bloco de oposição sírio, questionou qual será a definição escolhida para “terrorismo” e qual será a resposta em caso de violações.

Segundo os termos estabelecidos, o acesso humanitário a muitas áreas sitiadas do país e “de difícil alcance” deve começar imediatamente, com forças governamentais e rebeldes assegurando-o sem restrições, sobretudo à cidade de Aleppo. Nela, cerca de 250.000 civis estão presos na parte oriental, controlada pelos rebeldes, devido a um cerco das forças do Governo. Autoridades da ONU declaram estarem prontas para prestar ajuda às áreas sitiadas, mas necessitam de melhores garantias de paz. Caso o cessar-fogo se mantenha, o Acordo prevê que Washington e Moscou comecem a atacar conjuntamente grupos radicais extremistas, incluindo o Estado Islâmico e a Jabhat Fateh al-Sham, em uma semana.

Conforme o Observatório Sírio para Direitos Humanos, o número de mortes registradas desde o início do conflito, em março 2011, já passa dos 300.000. Estimativas chegam a 430.000, mas a ONU cessou o recolhimento de números oficiais, incerta sobre a sua capacidade de recolher dados precisos. Mais 4,8 milhões fugiram para o estrangeiro, e estimados 6,5 milhões estão deslocados no interior do país, segundo afirmação do Alto Comissariado das Nações Unidas.

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ImagemRepresentantes russos e americanos se reúnem para discutir a situação na Síria, em 29 de Setembro de 2015” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Russian_military_intervention_in_Syria#/media/File:Sergey_Lavrov,_Vladimir_Putin_and_John_Kerry.jpg

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AMÉRICA DO NORTECOOPERAÇÃO INTERNACIONALNOTAS ANALÍTICASORIENTE MÉDIOPOLÍTICA INTERNACIONAL

[:pt]EUA atinge meta de reinstalação de refugiados sírios: 0,2% do total de deslocados no mundo[:]

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Nesta última segunda-feira, 29 de agosto, a Casa Branca afirmou ter cumprido sua meta de reassentar 10.000 refugiados sírios neste ano (2016). O total equivale a cerca de 0,2% do número total de refugiados sírios registrados junto às Nações Unidas. Muitos organismos de direitos humanos urgem aos Estados Unidos que aceitem mais refugiados da Síria. De acordo com o Alto Comissariado para Refugiados das Nações Unidas (ACNUR, ou UNHCR, na sigla em inglês), atualmente, 4,808 milhões de sírios estão nesta condição.

A admissão deles em território norte-americano é parte de um programa de reassentamento anunciado pelo presidente Obama, em outubro de 2015. Sob pressão da Europa e de outros países que vem enfrentando a crise migratória global, Obama prometeu conceder status legal a pelo menos 10.000 refugiados sírios no ano fiscal de 2016. Também alocando US$ 4 bilhões para grupos humanitários que trabalham com refugiados. A meta foi atingida um mês antes do cronograma, mas a maioria dos refugiados foi admitida somente nos últimos três meses de 2016. Os meses de Junho, Julho e Agosto registraram o recebimento de cerca de 2.500 refugiados cada. Em 2015, a média mensal não passou de 250, e em anos anteriores beirava a zero.

De acordo com o Jornal The New York Times, os refugiados que chegaram da Síria desde 2012 foram alocados em 231 vilarejos e cidades. Michigan e Califórnia tomaram a maioria, com 570 e 500, reportou o The Atlantic. Alguns deles chegaram a grandes cidades como Chicago e Houston, mas a maioria foi enviada para cidades médias mais acessíveis e com maiores índices de emprego. Os refugiados recebem ajuda para encontrar trabalho e moradia, mas espera-se que se tornem autossuficientes dentro de um ano. Eles também foram instalados em localidades que já contemplassem outros imigrantes sírios – 150.000 deles já vivem no país. Boise, em Idaho, aceitou mais do que Nova York e Los Angeles juntos; Worcester, Massachusetts, aceitou mais que Boston.

Desde o início da Guerra Civil síria, em 2011, os EUA admitiram um total de quase 12.000 refugiados em solo nacional, somente 2.000 deles sendo recebidos entre 2011 e 2015. No ano fiscal de 2015, apenas 2% dos 70.000 refugiados admitidos eram sírios. A maioria era de Mianmar, Iraque e Somália.

Após parabenizar o anúncio da Casa Branca, Tarah Demant, diretora sênior da Anistia Internacional norte-americana declarou que “muitos sírios ainda estão presos em circunstâncias terríveis em campos de refugiados ou em zonas de guerra”. E que “os Estados Unidos devem fazer mais para manter sua responsabilidade de fazer todo o possível para proteger aqueles que fogem de abusos aos direitos humanos”.

Os refugiados sírios totalizam 4.808.229 no estrangeiro e 6,6 milhões de deslocados internos na Síria. Somente na Turquia vivem 2.724.937; no Líbano, 1.033.513 sírios formam cerca de um quinto da população total do país; enquanto 656.198 estão registrados da Jordânia, outros 114.911 no Egito e 249.395 no Iraque, conforme dados da ACNUR.

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ImagemSírios caminham em direção à região do Curdistão Iraquiano em 17 de agosto de 2013” (FonteACNUR/G. Gubaeva):

http://data.unhcr.org/syrianrefugees/syria.php

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AMÉRICA DO NORTENOTAS ANALÍTICASORIENTE MÉDIOPOLÍTICA INTERNACIONALSociedade Internacional

[:pt]Pentágono anuncia transferência de 15 prisioneiros de Guantánamo aos Emirados Árabes Unidos[:]

[:pt] O Departamento de Defesa norte-americano anunciou nesta última segunda-feira, 15 de agosto, a transferência de quinze prisioneiros da Baía de Guantánamo, em Cuba, aos Emirados Árabes Unidos. Três presos afegãos e doze iemenitas foram…

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ÁFRICANOTAS ANALÍTICASPOLÍTICA INTERNACIONAL

[:pt]Estados Unidos anunciam campanha aérea aberta contra Estado Islâmico na Líbia[:]

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Na última segunda-feira, 1o de agosto, militares norte-americanos realizaram dois ataques aéreos na cidade Líbia de Sirte contra combatentes do Estado Islâmico (EI). Autoridades do Pentágono afirmaram que esta será uma campanha contínua até que o grupo seja expulso da cidade, da qual tomou controle no ano passado. O Pentágono declarou que o Governo de Acordo Nacional da Líbia (GAN), do primeiro-ministro Fayez Serraj, apoiado pelo Ocidente e pela ONU, solicitou os ataques. O chamado Governo de Unidade é um dos três Governos concorrentes que reivindicam legitimidade no país.

Os bombardeios norte-americanos ocorreram em apoio a milícias pró-GAN, buscando retomar a estratégica cidade portuária de Sirte. Posições do Estado Islâmico foram atingidas por aviões tripulados e drones, que teriam lançado “ataques de precisão” contra tanques e outros veículos do grupo na cidade situada ao norte da Líbia. Após o início das ações, combatentes legalistas foram capazes de avançar em direção ao bairro central da cidade, Al-Dollar, além dos norte-americanos, forças britânicas fornecem apoio logístico e de inteligência para a operação.

Desde 2011, Forças Especiais norte-americanas já realizavam ataques aéreos contra indivíduos e alvos específicos do Estado Islâmico na Líbia, e tem sido relatado que, desde dezembro, alguns soldados estadunidenses e europeus aconselhavam e construíam laços com combatentes locais. Aviões americanos atacaram um campo de treinamento do EI em Sabratha, em fevereiro de 2016, e uma figura sênior do grupo, em novembro de 2015. Ataques contra alvos da Al-Qaeda no país eram registrados desde 2011, quando a OTAN realizou uma guerra aérea contra o ditador Muammar Gaddafi. Contudo, as operações anunciadas pelo Departamento de Defesa dos Estados Unidos, no dia 1o de agosto, marcam a primeira intervenção sustentada dos norte-americanos – em coordenação com forças terrestres locais – contra o afiliado líbio do Estado Islâmico. O anúncio da campanha é significativo, pois, na prática, é o primeiro envolvimento direto dos EUA na batalha que se desdobra na Líbia contra o EI e uma expansão significativa dos seus esforços contra o grupo para além da Síria e do Iraque, em direção ao norte da África.

Confirmando a colaboração com o Governo líbio, o Porta-Voz do Pentágono, Peter Cook, declarou que “o objetivo do GAN é eliminar o ISIL de Sirte e do país e nós estaremos trabalhando em estreita colaboração com eles, e eles vão determinar o ritmo e o sucesso desta campanha, sem dúvida (…). Eles (GAN) têm as suas forças no terreno realizando seus esforços, e isso (campanha aérea) será em apoio a seus esforços”. Já o primeiro-ministro Serraj declarou que os ataques não irão além de Sirte e seus arredores, acrescentando: “Este é o momento da comunidade internacional cumprir suas promessas ao povo líbio”.

O Governo de Acordo Nacional foi o resultado de um acerto mediado pela ONU, assinado em dezembro de 2015, para encerrar um conflito entre dois governos rivais e grupos armados que os apoiavam. Contudo, o GAN está enfrentando dificuldade para impor sua autoridade e ganhar o apoio de facções no leste do país, sobretudo em meio às milícias fortalecidas com a queda de Gaddafi – algumas jihadistas e aliadas ao Estado Islâmico. São dois governos em disputa: um em Tobruk, no leste, e outro em Trípoli, no oeste, e a ONU estabeleceu um terceiro, que não tem poder sobre os outros dois. Assim, apesar do estabelecimento do Governo interino, a Líbia vive um caos, com dois Governos, infinitas milícias e o avanço do Estado Islâmico.

Dois dias após o anúncio do Pentágono sobre a campanha aérea aberta contra o EI no país, um carro-bomba matou pelo menos 20 pessoas em Benghazi. O Conselho Revolucionário da Shura de Benghazi, uma coalizão que inclui islamitas, teria reivindicado o ataque, disse uma fonte militar líbia.

Desde o anúncio, até quarta-feira, dia 3 de agosto, 5 ataques aéreos já tinham sido lançados por forças norte-americanas, com facções líbias apoiadas pelos EUA continuando sua luta contra o EI. Os ataques ocorrem quase cinco anos após os EUA ajudarem a depor Muammar Gaddafi em uma revolução popular que se transformou em uma guerra civil e de Washington ter participado dos ataques aéreos em 2011 para impor uma zona de exclusão aérea no país, derrubando o Ditador.

Em entrevista realizada em abril, Obama declarou que a intervenção “não funcionou”. Durante a Primavera Árabe, a morte de Gaddafi, nas mãos dos revolucionários locais, deixou um vácuo que o Estado Islâmico tem procurado preencher. A falta de planejamento para o rescaldo da derrubada do mandatário foi o que Barack Obama chamou de “pior erro” de sua Presidência.

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ImagemEmblema do Governo de Acordo Nacional Líbio” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Government_of_National_Accord

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NOTAS ANALÍTICASORIENTE MÉDIOPOLÍTICA INTERNACIONAL

[:pt]Turquia solicita oficialmente a extradição de Fethullah Güllen, em meio à ampliação da repressão e Estado de Emergência no país[:]

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Nesta última terça-feira, dia 19 de julho, a Turquia solicitou oficialmente a extradição de Fethullah Güllen, clérigo muçulmano turco em autoexílio nos Estados Unidos. O Governo turco responsabiliza o imã pela fracassada tentativa de Golpe na última sexta-feira, 15 de Julho. Güllen condenou duramente a tentativa de Golpe por oficiais militares que resultou em uma noite de explosões, batalhas aéreas e tiros que deixaram centenas de mortos no país. Ainda assim, o Governo de Erdogan culpa o clérigo pelo caos. Fethullah Güllen vive exilado na Pensilvânia, desde 1999, e promove uma filosofia que combina uma forma mística e moderada do Islã, a defesa firme da democracia, educação, ciência e do diálogo inter-religioso.

Em um discurso televisionado no sábado, 16 de julho, o presidente turco Recep Tayyip Erdogan declarou que os Estados Unidos devem extraditar Fethullah Güllen. Erdogan afirmou que a Turquia nunca recusou qualquer pedido de extradição de “terroristas” pelos Estados Unidos e salientou o papel conjunto da Turquia com os norte-americanos no combate ao terrorismo. Conforme reportou o jornal canadense National Post, Erdogan declarou: “Eu digo, se nós somos parceiros estratégicos, então você deve acatar o nosso pedido”.

Em 19 de julho, o primeiro-ministro turco Binali Yildirim afirmou ao Parlamento que a Turquiaenviou quatro dossiês aos Estados Unidos para extradição do chefe terrorista. Vamos apresentá-los com mais evidências do que eles querem”, complementou o Primeiro-Ministro. Conforme reportou a Radio Free Europe, Yildirim acusou os Estados Unidos de padrões duplos em sua luta contra o terrorismo: “Eu quero perguntar aos meus amigos norte-americanos: vocês pediram provas quando queriam terroristas e as Torres Gêmeas foram destruídas no 11 de setembro?”. Certamente, foi uma resposta ao fato de o Secretário de Estado Norte-Americano, John Kerry, ter afirmado no fim de semana que os Estados Unidos considerariam a extradição, mas somente se apresentada com provas convincentes, conforme noticiou o jornal norte-americano  PBS NewsHour. Além disso, Kerry esclareceu: “E, obviamente, gostaríamos de convidar o Governo da Turquia, como sempre fazemos, para nos apresentar qualquer evidência legítima que resista a escrutínio. E os Estados Unidos irão aceitar olhar para as evidências e fazer julgamentos sobre as mesmas de forma adequada”.

Acredita-se que o movimento de Fethullah Güllen, ou, por vezes, denominado Hizmet, possua apoio significativo entre alguns membros dos burocratas militares e de nível médio. Contudo, Güllen nega qualquer liderança sobre o movimento e diz desconhecer seus efetivos seguidores ou eventuais inspirados. O Hizmet inclui grupos de reflexão ou os chamados think tanks, escolas laicas e diversas empresas midiáticas. Na prática, o Hizmet não possui uma cadeia de comando. Ele é formado pelos seus próprios simpatizantes, indivíduos que se sentem próximos aos ideais religiosos e humanistas de Güllen e passam a praticá-los – sobretudo através de serviços assistenciais.

Ressalte-se que o chamado Movimento Güllen é uma associação da sociedade civil que se originou no final dos anos 1960, na cidade de Izmir. Era um grupo da sociedade civil que se reunia para atuar na comunidade sob a liderança de Fethullah Güllen. Este prefere se referir ao grupo como um “movimento de seres humanos unidos em torno de valores humanos elevados”.

Erdogan afirma que são, na verdade, infiltrados que conspiram para pôr fim a seu governo, acusação negada categoricamente pelos seus simpatizantes. Neste sentido, além de uma organização civil, o Hizmet é acusado de ser uma espécie de “organização secreta dentro do Estado, um projeto que vem acontecendo há décadas com o objetivo de estabelecer o controle burocrático sobre o Estado”, conforme escreve Mustafa Akyol, para o Al Monitor. Erdogan há muito acusa Güllen, um ex-aliado, de tentar derrubar o governo. Washington alega nunca ter encontrado qualquer prova particularmente atraente sobre a participação de Güllen em turbulências anteriores.

O Governo turco já tentou, sem sucesso, extraditar Güllen após um escândalo de corrupção que abalou o país em 2013 e provocou a demissão de três ministros. O AKP (Partido Justiça e Desenvolvimento) de Erdogan e Güllen eram aliados em torno de valores modernizantes e pró-democracia até 2013, após as denúncias de corrupção terem atingido familiares do Presidente e altos membros do Gabinete. Desde então, Erdogan passou a acusar o movimento de implantar um “Estado paralelo” na Turquia, com o objetivo de derrubá-lo e ordenou o fechamento de suas escolas no país (as chamadas dershanes).

Güllen, que vive recluso por motivos médicos, rejeitou fortemente qualquer responsabilidade e participação no golpe fracassado: “Como alguém que sofreu sob vários golpes militares durante as últimas cinco décadas, é especialmente insultuoso ser acusado de ter qualquer ligação com tal tentativa. Nego categoricamente tais acusações”, sustentou o clérigo, pedindo o reestabelecimento do Estado de Direito e o respeito à Constituição turca.

Na última terça-feira, 19 de julho, o Presidente turco disse estar pronto para restabelecer a pena de morte no país, abolida em 2004, sob reformas visando sua adesão à União Europeia. Conforme foi reportado pela Al Jazeera e pelo Democracy Now, ele vem pressionando os legisladores para que votem pelo restabelecimento da pena no Parlamento. Delegados da União Europeia alertaram que as conversações congeladas há muito tempo sobre a candidatura da Turquia à UE acabariam se Ankara restaurasse esse tipo de penalidade, o que foi reiterado por Angela Merkel.

O presidente turco Recep Tayyip Erdogan declarou na noite de quarta-feira, 20 de julho, um Estado de Emergência de três meses no país. “O objetivo da declaração do estado de emergência é ser capaz de tomar medidas rápidas e eficazes contra a presente ameaça contra a democracia, ao Estado de direito e aos direitos e liberdades dos nossos cidadãos”, disse mandatário em um discurso televisionado. Na prática, a condição irá conceder a Erdogan amplos poderes executivos e a possibilidade de governar por decreto. Toques de recolher podem ser aplicados, associações e protestos sem o consentimento oficial proibidos e a mídia pode ser ainda mais limitada, além da eventual autorização de revistas em indivíduos, veículos e propriedades. A Turquia também irá suspender a Convenção Europeia de Direitos Humanos por pelo menos um mês, afirmou o vice-primeiro-ministro Numan Kurtulmus, seguindo o exemplo francês.

Desde tentativa de golpe da última sexta-feira, mais de 9.000 pessoas já foram presas e mais de 24.000 membros da polícia, do serviço público, do judiciário e do Exército foram detidos ou demitidos de seus empregos, de acordo com o Ministério do Interior turco para a Foreign Policy. Segundo a mídia turca e o The Telegraph, o Ministério da Educação demitiu 21.000 professores e outros 15.200 funcionários além de ter proibido acadêmicos de viajarem para fora do país. O Ministério do Interior também fez milhares de demissões. Ainda, conforme o jornal brasileiro Folha de São Paulo, o Ministério da Família e de Políticas Sociais demitiu 393. Ao todo, mais de 50.000 pessoas já foram detidas, demitidas ou suspensas de seus empregos desde o golpe fracassado de sexta-feira.

A repressão interna vêm se ampliando nos últimos dias e analistas e grupos de direitos humanos manifestaram preocupação com as detenções arrebatadoras. Críticos observam uma inclinação autoritária do Executivo cada vez mais centralizado e a falta de evidências no expurgo de funcionários, juízes, promotores, militares, decanos de universidades e professores. É preocupante também o recente cancelamento da licença de imprensa de jornalistas de oposição, além do bloqueio de dezenas de portais de notícias.

Erdogan nega como difamação as sugestões de analistas e da Oposição de que a tentativa de Golpe forneceu-lhe um pretexto para a repressão de todos os adversários, e não apenas daqueles que organizaram o movimento, aumentando seu poder. Outros até suspeitam que Erdogan teria aplicado um Autogolpe que legitimaria seu crescente autoritarismo, uma vez que os militares seriam o último reduto güllenista remanescente na Turquia, e que Erdogan já havia purgado simpatizantes do movimento na polícia, no judiciário e na mídia.

Até o momento, ao menos 118 generais e almirantes foram detidos, suspeitos de estar envolvidos na ação. Desses, 26 foram colocados sob prisão preventiva após serem acusados de “tentativa de subverter a ordem constitucional” e de “tentativa de assassinato” do presidente Erdogan. O Estado-Maior turco afirmou que “a grande maioria das Forças Armadas não teve absolutamente nada a ver” com o ocorrido, e que os “traidores serão punidos da forma mais dura”. O vice-primeiro-ministro Numan Kurtulmuş alegou que o golpe “não foi apoiado pela cadeia de comando do exército. Foram os güllenistas que estão nas forças armadas que tentaram o golpe de Estado. Não há diferença entre elas e o grupo extremista Estado Islâmico (EI)”, escreveu a FSP.

O chefe de direitos humanos das Nações Unidas instou as autoridades turcas a respeitarem o Estado de direito em sua resposta ao fracassado movimento e expressaram preocupação com as perspectivas de restabelecimento da pena de morte. De seu lado, o presidente Barack Obama pediu a todos os lados na Turquia que apoiem o Governo democraticamente eleito no país, um aliado-chave da OTAN. Obama também pediu que aqueles na Turquia mostrem moderação e evitem a violência ou derramamento de sangue.

Ao telefone, em 19 de julho, Obama ofereceu assistência dos EUA à Turquia na investigação sobre a tentativa de Golpe Militar no país, mas pediu que o líder turco “respeite princípios democráticos” na condução dos processos contra os suspeitos de envolvimento na ação e esperam que as investigações sejam conduzidas de maneira “consistente com os valores democráticos” da Constituição turca.

Reiterando o apoio americano ao Governo de Erdogan, Kerry declarou no Sábado que os EUA se opõem a qualquer tentativa de derrubar um líder democraticamente eleito. E declarou que uma mudança de Governo só deve ocorrer através de um processo legal e constitucional. Kerry também reafirmou que a cooperação militar norte-americana com seu aliado da OTAN não foi afetada pela turbulência.

Críticos afirmam que a posição norte-americana ilustra o aprofundamento da frustração não somente com respeito à reação de Erdogan à tentativa de Golpe, mas com as alegações da cumplicidade ou leniência norte-americana a esta forma de violência. “A Turquia desempenha um papel-chave nos esforços liderados pelos EUA contra o Estado Islâmico na Síria e no Iraque. Tudo isto permanece como antes”, concluiu Kerry.

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ImagemFethullah Gulen em entrevista com Nuriye Akman, nos Estados Unidos, em Julho de 2012” (Fonte):

https://www.flickr.com/photos/[email protected]/7494640488

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