NOTAS ANALÍTICASSociedade Internacional

Muçulmanos em todo o mundo celebram início do Ramadã

Na última segunda-feira, 6 de Junho de 2016, milhões de muçulmanos em todo o mundo marcaram o início do mês sagrado do Ramadã. O período é caracterizado por intensa oração, reflexão, jejum do amanhecer ao anoitecer, generosidade e boas ações. Autoridades religiosas na maioria dos países do Oriente Médio anunciaram que a lua nova de Ramadã foi vista na noite de domingo, 5 de junho. Indonésia, o país muçulmano mais populoso do mundo, declarou que os muçulmanos no país iniciariam o jejum na segunda-feira, assim como aqueles em Singapura, Iêmen, Líbano, Síria, Qatar, Kuwait, Jordânia, Egito, Emirados Árabes Unidos, Afeganistão, nos territórios palestinos, entre outros. No Brasil, em Foz do Iguaçu, no oeste do Paraná, considerada a segunda maior comunidade de língua árabe do país, parte dos cerca de 20 mil fiéis levantou cedo para a primeira das cinco orações do dia, antes das 6h, que começou com a leitura do Alcorão.

Os muçulmanos – cerca de 1,6 bilhão da população mundial – acreditam que o Ramadã é o mês em que os primeiros versos do Corão, livro sagrado do Islã, foram revelados ao Profeta Muhammad, mais de 1.400 anos atrás. O Alcorão teria sido verbalmente revelado por Deus a Muhammad através do anjo Gabriel (Jibril), gradualmente, durante um período de aproximadamente 23 anos, com início em 22 de Dezembro 609 d.C., e terminando em 632 d.C., ano de sua morte, em Medina.

A observação da lua nova marca o início do nono mês lunar muçulmano, que varia entre 29 e 30 dias. Alguns países utilizam cálculos astronômicos e observatórios, enquanto outros registram a aparição da lua somente a olho nu, levando por vezes a diferentes tempos de início da contagem deste mês. A cada ano, o Ramadã tem início cerca de 11 dias mais cedo.

Cada dia, durante o mês sagrado, os muçulmanos se abstêm de comer, beber, fumar e de manterem relações sexuais do nascer ao pôr do sol, para se concentrarem em sua espiritualidade, contemplação, boas obras e caridade. Há exceções ao jejum para crianças, idosos, doentes, mulheres grávidas ou amamentando e pessoas que viajam. Muitos quebram o jejum ainda como fez o Profeta Muhammad, com um gole de água e algumas tâmaras ao pôr do sol, seguido de oração. A despeito do sacrifício e da autodisciplina, o Ramadan é um tempo de celebração e de alegrias. Também é comum que os muçulmanos quebrem o jejum ao lado da família e amigos e instituições de caridade organizam refeições gratuitas para o público em Mesquitas e outros espaços públicos. É também comum a acolhida de não-muçulmanos para os ifṭars, inclusive nos Estados Unidos.

O Ramadã é um mês de intensa autorreflexão e aumento da consciência de Deus para subjugar e reprimir delitos cotidianos, como calúnias, rancores e mentiras, explica Hossein Kamaly, professor na Faculdade Barnard e especialista em estudos islâmicos e história do Oriente Médio. De acordo com a especialista de Oxford em estudos islâmicos e ética, Tariq Ramadan, o mês do Ramadã é uma jornada para compreender o significado da resistência no Islã, o jihad, ou luta em direção à sharia (lei islâmica). Este seria o verdadeiro e correto caminho de Deus a ser seguido Ash-shari’a – e não o código penal fruto da visão muito estreita e amplamente promovida no ocidente, explica Ramadan. O caminho correto é aquele que se recusa a seguir paixões, instintos e desejos. Neste sentido, o Ramadã tem a ver com o conhecimento, com o autocontrole, com a resistência às nossas paixões, instintos e ignorâncias. Assim, o mês celebra o conhecimento, a educação, a reforma do eu em nome do caminho certo, tendo a ver com a escolha da verdade através do conhecimento em oposição à ignorância. Nas palavras do filósofo e escritor, “não há sharia como um caminho sem o jihad como uma luta para cumprir nossas responsabilidades como seres humanos”.

Famílias e amigos se levantam cedo para suhoor, a última refeição feita antes do sol nascer, e no final de um dia de jejum, se reúnem para o iftar, a quebra do jejum ao pôr do sol. O jejum tem como intenção trazer os fiéis para mais perto de Deus e para lembrá-los do sofrimento dos menos afortunados. O jejum durante o Ramadã (sawm) é um dos cinco pilares do Islã, ao lado do testemunho de fé (shahada), a oração diária (salat), a caridade ou zakat aos necessitados, e a realização da peregrinação à Meca, o hajj, pelos capacitados ao menos uma vez na vida. Em muitos países muçulmanos, escritórios são obrigados por Lei a reduzir as horas de trabalho e a maioria dos restaurantes estão fechados durante o dia. Os muçulmanos celebram o fim do Ramadã com o feriado de Eid al-Fitr.

———————————————————————————————–                    

Imagem (Fonte):

https://pixabay.com/pt/quran-ramadan-ramadhan-religiosa-1409495/

NOTAS ANALÍTICASORIENTE MÉDIOPOLÍTICA INTERNACIONAL

Ministro do Meio Ambiente de Israel renuncia após guinada da coalizão governista à direita

Na última sexta-feira, dia 27 de maio de 2016, o Ministro do Meio Ambiente de Israel, o centrista Avi Gabbay, anunciou sua renúncia, em protesto contra a inclusão do ultranacionalista Avigdor Lieberman no Governo de coalizão. Gabbay, apesar de não fazer parte do Parlamento, é membro fundador do Koolanu, partido centrista na coligação governista, com 10 legisladores na casa legislativa. Seu anúncio vem dias após o Ex-Ministro da Defesa, Moshe Ya’alon, do partido conservador de Netanyahu, o Likud, ter renunciado tanto ao mandato no Parlamento, quanto cargo de Ministro da Defesa, em protesto contra a sua pasta ter sido oferecida a Lieberman.

O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu nomeou Lieberman como novo Ministro da Defesa de Israel na quarta-feira, 25 de maio. Com a sua nomeação, ocorre a entrada do partido Yisrael Beiteinu, ao qual ele pertence, na coalizão composta por seis partidos. Dessa forma, o Primeiro-Ministro expandiu a base do Governo, passando dos 61 assentos para 66, dos 120 lugares do Parlamento israelense (o Knesset). O ganho de 5 novas cadeiras fez a base oposicionista encolher para 54. Até o último pacto com Lieberman, Netanyahu governava com uma maioria das mais apertadas na história do Knesset.

Em seu comunicado de renúncia do Ministério do Meio Ambiente, Avi Gabbay alertou para o impacto que a nomeação de Lieberman poderia ter sobre a sociedade de Israel. “A recente manobra política e substituição do Ministro da defesa são, em minha opinião, ações graves que ignoram o que é importante para a segurança do país e trarão mais extremismo e fendas entre as pessoas”, reportou à agência de notícias Reuters. E concluiu: “Eu não podia aceitar a remoção de Ya’alon, um ministro de defesa profissional”.

Com a ação, Netanyahu fez com que a nova coalizão fosse descrita por observadores como “a mais direitista da história de Israel”, conforme o Middle East Monitor. Gabbay declarou ainda: “[o país] tem o direito de ter um governo de direita, mas eu não acho que seja correto formar um governo extremista”.

O Governo dos Estados Unidos declarou que a nova coalizão levanta “questões legítimas” sobre o compromisso do governo de Netanyahu a uma solução de dois Estados com os palestinos. “E também sabemos que muitos de seus ministros disseram que se opõem a uma solução de dois Estados”, afirmou Mark Toner, porta-voz do Departamento de Estado dos EUA.

Gabbay tinha disputas com Netanyahu sobre os planos do Governo para desenvolver reservas de gás natural israelenses no mar Mediterrâneo, no âmbito de um consórcio que os críticos consideram que irá limitar a concorrência e manter os preços elevados. Gabbay era crítico feroz do acordo de gás além mar da costa de Israel.

Com esta nova configuração política, o Knesset irá debater uma série de questões controversas nos próximos meses, incluindo regras sobre o financiamento externo para ONGs, orações mistas de gênero no Muro das Lamentações e medidas que permitam que os legisladores sejam suspensos do Knesset*, o que deverá afetar, principalmente, os representantes árabes.

———————————————————————————————–

* A Lei se referre à: “incitação ao terrorismo, violência ou racismo, apoio ao conflito armado contra Israel, ou negação de Israel como Estado judaico e democrático”.

A ideia é para Projeto de Lei, originalmente sugerida por Netanyahu, depois que os membros do Knesset Jamal Zahalke, Hanin Zoabi e Bassel Ghattas do Balad se reuniram e consolaram famílias de palestinos mortos em ataques à israelenses. Na ocasião, os três parlamentares observaram um minuto de silêncio, o que, conforme críticos, seriam manifestações de apoio ao terror.

A Comissão de Ética Knesset decidiu, em 8 de fevereiro, que Zoabi e Ghattas seriam proibidos de participar de Sessões e Comissões do Knesset durante quatro meses, enquanto Zahalka seria suspenso por dois meses.

———————————————————————————————–

ImagemAvi Gabbay, um dos fundadores do partido centrista Kulanu, no lançamento do novo gabinete de Benjamin Netanyahu, em maio 2015” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Avi_Gabai

NOTAS ANALÍTICASORIENTE MÉDIOPOLÍTICA INTERNACIONAL

Iraque vive uma das piores crises humanitárias do mundo

De acordo com as estimativas das Nações Unidas, 11 milhões de iraquianos necessitam de ajuda humanitária imediata, ou seja, cerca de 1/3 dos habitantes do país (34,81 milhões). Civis e oficiais iraquianos expressaram preocupação com a situação humanitária em cidades no oeste, como Fallujah e Ramadi, pois o número de pessoas que necessitam de proteção e assistência humanitária dobrou desde o ano passado (2015). Esta cifra inclui 3,4 milhões de pessoas internamente deslocadas, desde janeiro de 2014, mais de 440.000 repatriados e 246.589 refugiados sírios. A UNOCHA (sigla para o Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários) chamou a crise decomplexa e em expansão” e de “uma das priores do mundo”.

Em um comunicado lido no Conselho de Segurança das Nações Unidas, o enviado da ONU ao Iraque, Jan Kubis, alertou para o potencial de deslocamento em massa de um adicional de dois milhões de iraquianos nos próximos meses. Kubis pediu à comunidade internacional que forneça ajuda à Fallujah, pois, há quase dois anos, ela tem sofrido um cerco imposto, após ter se tornado a primeira cidade a cair sob controle do Estado Islâmico, em janeiro de 2014.

Desde então, o Exército iraquiano tem mantido um bloqueio quase total à Fallujah e o Estado Islâmico (EI) proibiu qualquer civil de sair da cidade. Com apenas algumas rotas permanecendo abertas, há uma grave escassez de alimentos, remédios e combustível. Aproximadamente 50.000 residentes estão em risco de fome. Além do severo domínio do Estado Islâmico imposto à cidade, a Human Rights Watch, juntamente com o Iraq Oil Reports relatam incidentes de crianças e adultos morrendo de fome ou de complicações por subnutrição.

O Governo iraquiano e as milícias xiitas aliadas também são responsáveis pela situação, por terem estabelecido um cerco e bombardearem o local. “As forças iraquianas impedem embarcações contendo alimentos e outros bens de alcançarem a cidade”, denuncia a Human Rights Watch e, conforme vem sendo divulgado, os poucos corredores humanitários estabelecidos para envio de ajuda são barrados pelo EI.

Milhões de iraquianos vivem no território controlado pelo Estado Islâmico no país e demandam alguma forma de assistência. A guerra contra o grupo criou mais de 3,4 milhões de deslocados internos, muitos vivendo em campos sem acesso a cuidados médicos, água ou roupas. Além disso, comunidades carentes hospedando uma alta concentração de deslocados internos, fora dos campos de refugiados, competem por serviços escassos, o que aumenta o risco de conflito social.

Em fevereiro de 2015, Ramadi foi totalmente recapturada pelas forças iraquianas e da coalizão liderada pelos Estados Unidos. A cidade, no entanto, permanece sob necessidade de assistência extrema. A maioria das casas foi destruída, dizem os habitantes. Enquanto os moradores locais reportam que a situação é mais gerenciável em Ramadi do que em Fallujah, eles têm manifestado preocupação com os cortes de energia, a falta de instalações médicas, bem como as minas terrestres não detonadas. “Não temos água potável. Na verdade, não temos o abastecimento de água para nada”, afirmou Fallah Khalifa, residente de Ramadi, à agência de notícias do Qatar Al Jazeera. Além disso, mais de 50 valas comuns foram descobertas nos territórios anteriormente controlados pelo Estado Islâmico, segundo enviado da ONU. Só em Ramadi, três valas contendo até 40 conjuntos de restos mortais foram achadas em um campo de futebol.

O Iraque permanece padecendo de uma severa crise de proteção humanitária, tendo também registrado neste ano (2016) um forte aumento de graves violações dos direitos da criança. Populações foram submetidas a execuções em massa, estupros sistemáticos e atos de violência, incluindo execuções e tortura. Crianças têm sido usadas como homens-bomba e escudos humanos, e mulheres e meninas foram escravizadas e submetidas à violência sexual. Estima-se que 3 milhões de crianças não têm acesso à escolas.

Neste sentido, as necessidades humanitárias no Iraque são mais críticas do que nunca. Novos deslocamentos ocorrem sempre que conflitos são registrados, mas civis em fuga agora possuem menos opções para aceder a áreas mais seguras no Iraque, devido à forte contaminação por resíduos dos explosivos de guerra e de dispositivos explosivos improvisados. O acesso à ajuda humanitária permanece muito restrito pela insegurança. Os números de repatriados que voltam ao Iraque estão aumentando, assim como as preocupações com relação às condições precárias em muitas áreas do país, pois os serviços básicos permanecem limitados, debilitados por anos de conflito, negligência e déficit de orçamento.

Estima-se que 2,4 milhões de pessoas estejam sob situação de insegurança alimentar e a desnutrição é crescente. Em 2015, a agência foi capaz de prover assistência alimentar para 2,1 milhões de pessoas no Iraque e, de acordo com o relatório de 2016 da UNOCHA, US$ 861 milhões são necessários para atender os 7,3 de 11 milhões de iraquianos alcançados pela organização, um aumento de 24%, em relação a 2015.

Além disso, o número de casos de doença aumentou em até 50% em áreas com grandes concentrações de pessoas deslocadas internamente, distendendo de forma severa as precárias instalações existentes. Surtos de doenças, incluindo a cólera, estão ocorrendo. Cada vez mais famílias iraquianas fogem para outros países em busca de segurança e melhores condições de vida. Segundo a ONU, cerca de 2,6 milhões de iraquianos deixaram o país desde o início da mais recente crise, em janeiro de 2014, quando o Estado Islâmico tomou grandes áreas do país.

Adicionalmente, mais de um milhão de iraquianos fugiram entre os anos de 2006 e 2008 devido à guerra sectária no país, que se seguiu a invasão e a ocupação liderada pelos Estados Unidos, em 2003. As forças governamentais iraquianas, apoiadas por ataques aéreos e conselheiros da coalizão internacional, conseguiram recuperar alguma parcela do território tomado pelo Estado Islâmico. No entanto, o grupo ainda controla vastas áreas do norte e oeste do Iraque

———————————————————————————————–

ImagemUm veículo militar das forças de segurança iraquianas é conduzido pelas ruas iraquianas de Ramadi” (FonteReuters/IslamwebFoto de arquivo, 16 de janeiro de 2016):

http://www.islamweb.net/en/article/211030/

ANÁLISES DE CONJUNTURAORIENTE MÉDIO

Líbano promove eleições para os 26 municípios do país

No último domingo, 8 de maio de 2016, o Líbano promoveu as primeiras eleições municipais desde 2010. Apesar do aumento de candidatos de base, em resposta à crise do lixo em Julho de 2015, em Beirute, os tradicionais e já estabelecidos grupos políticos demonstraram confiança com relação aos resultados, fazendo jus aos resultados esperados para a primeira fase das eleições. O Movimento Futuro, do sunita Saad Hariri, anunciou vitória em Beirute, enquanto o Hezbollah reivindicou vitória no Vale do Bekaa.

Outras três rodadas de votação ocorrerão nas próximas semanas em outras partes do país para preencher os mais de 10.000 assentos locais em Conselhos Municipais. As eleições municipais em quatro estágios tiveram início em Beirute e no distrito de Bekaa-al-Hermel, no dia 8, enquanto as eleições no Monte Líbano serão realizadas em 15 de maio. Eleições no sul do Líbano, nos arredores xiitas da capital libanesa e em Nabatieh ocorrerão em 22. No norte do Líbano e em Akkar, em 29 de maio.

A política libanesa é regida por uma democracia consociativa do tipo confessional que busca estabelecer um frágil equilíbrio entre o Estado moderno e as diferentes comunidades religiosas tradicionais no país. O Poder Executivo estabelece constitucionalmente que o Presidente deve ser um cristão (na prática, um maronita), o Primeiro-Ministro um muçulmano sunita, o Presidente ou Porta-Voz do Parlamento um muçulmano xiita, e os Vice-Primeiro-Ministro e Vice-Presidente do Parlamento, um ortodoxo oriental. O poder legislativo unicameral é exercido por uma Assembleia Nacional de 128 membros. A composição confessional da legislatura, conforme o acordo de Taif de 1989, é a seguinte: 34 maronitas, 27 sunitas, 27 xiitas, 14 gregos ortodoxos, 8 gregos católicos, 8 drusos, 5 armênios ortodoxos, 2 Alauitas, um armênio católico, um protestante, e 1 de minoria cristã. Esta rígida distribuição de assentos parlamentares obedece à proporção de 50% de cadeiras cristãs e 50% muçulmanas.

Desde 2005, após o assassinato do ex-primeiro-ministro Rafik Hariri, o Líbano está polarizado entre, de um lado, a Aliança 8 de Março, liderada pelo Hezbollah, contendo o Amal, o Movimento Patriótico Livre, o Partido Socialista Progressista e outros, apoiada por Teerã e Damasco; e, de outro lado, a Aliança 14 de Março, liderada por Saad Hariri, apoiada por Riad e Washington, e composta pelo Movimento Futuro, as Forças Libanesas, o Partido Kataeb, dentre alguns outros.

As eleições municipais no Líbano ocorrem a cada seis anos, com os partidos políticos muitas vezes formando listas conjuntas de candidatos, frequentemente orientados em linhas sectárias e liderados por antigos senhores de guerra. De acordo com Amanda Rizkallah, doutoranda em Ciência Política na Universidade da Califórnia, Los Angeles, historicamente, as eleições municipais no Líbano têm sido dominadas por membros de famílias políticas tradicionais aliados a partidos sectários nacionais. As eleições municipais são frequentemente desprovidas de competição significativa. Os vencedores são geralmente aqueles associados aos polos tradicionais de poder, sejam partidos ou famílias poderosas. Uma vez eleitos, os representantes servem como mais um ponto de conexão para os cidadãos que tentam navegar no sistema de nepotismo de “wasta” do Líbano, sob o qual quem você conhece é a chave para conseguir o que quer. Os candidatos para as eleições municipais raramente apresentam plataformas programáticas e agendas concretas para o desenvolvimento local – ainda que os novos movimentos de base e independentes pretendam mudar este cenário.

Para agravar este contexto, a grande maioria dos cidadãos libaneses só pode votar em sua cidade natal de origem – e não no município em que vivem, segundo a Lei de 1926 instaurada pelo mandato francês. Essa restrição ao direito de voto tem implicações de longo alcance em um país onde a migração rural-urbana e mudanças demográficas induzidas pela guerra são generalizadas. Para Beirute, este sistema é particularmente importante: apesar de ser o lar de pouco menos de dois milhões de habitantes, a capital tem apenas 470.000 eleitores registrados, muitos dos quais vivem no exterior. Isto significa que a maioria das pessoas que vivem na cidade não tem direito efetivo ao voto, mas alhures.

As eleições parlamentares, que deveriam ter sido realizadas em 2013, foram adiadas duas vezes pelo Governo, citando preocupações de segurança ligadas à instabilidade política, exacerbada pelo conflito sírio. O Legislativo já estendeu seu mandato por duas vezes, a primeira em maio de 2013, por 17 meses, e a segunda em novembro de 2014, por 31 meses, com previsão de ir até junho de 2017. O país está sem um Presidente há dois anos, desde maio de 2014, e não promove eleições legislativas desde 2009. O parlamento também não promove sessões legislativas desde novembro de 2015, já que os partidos cristãos Movimento Patriótico Livre (ou Partido Aounista, liderado por Gebran Bassil) e as Forças Libanesas (antiga milícia durante a guerra civil e liderada por Samir Geagea) se recusam a participar de qualquer sessão legislativa cuja agenda não inclua a votação de uma nova lei eleitoral.

Sob forte esquema de segurança, milhares de libaneses foram às urnas em 8 de maio para as eleições municipais em Beirute, no vale do Bekaa e em Baalbek-Hermel. Os residentes de Beirute elegeram um Conselho Municipal de 24 lugares para administrar os assuntos da cidade pelos próximos seis anos. Todos os 24 assentos foram para a lista “Beirutes”, liderada por Jamal Itani e apoiada pelo “Movimento Futuro”, do ex-primeiro-ministro sunita Saad Hariri, que normalmente domina as eleições na capital. As listas apoiadas por Hariri ganharam na maioria das áreas sunitas; as listas apoiadas pelo druso Walid Jumblatt ganharam nas aldeias drusas. Na cidade de maioria cristã de Zahleh, na Bekaa, uma lista de candidatos dos partidos cristãos Movimento Patriótico Livre, Forças Libanesas e Partido Kateb ganhou todos os assentos no Conselho. Na capital, a lista conjunta dos “Beirutes” foi apoiada por uma coligação dos principais partidos políticos do Líbano, incluindo o Movimento Futuro, o Partido Socialista Progressista, Al-Jamaa Al-Islamiya, o Movimento Amal, Kataeb, as Forças Libanesas e o Movimento Patriótico Livre. Os blocos rivais se uniram em Beirute para apoiar a mesma lista “Beirutes” contra o recém criado grupo independente, o “Beirut Madinati”.

A vitória dos partidos tradicionais em Beirute desafiou o movimento independente e secular “Beirut Madinati” que buscava galvanizar votos dos eleitores irritados com a paralisia política no país. A votação de 8 de Maio é a primeira desde que a crise do lixo de dez meses em Beirute provocou protestos maciços anti-governo. A crise é decorrente do fechamento do principal aterro da cidade, Naameh, ocorrido em meados de julho de 2015, devido ao excesso de capacidade. Montanhas de lixo amontoaram-se na capital do país e nas montanhas circundantes, enquanto a falta de alternativas adequadas para depósitos do lixo estimulou protestos contra o fracasso do Governo em encontrar uma solução. Os políticos continuam a debater sobre como lidar com a situação, enquanto ativistas, organizações não governamentais e municípios tomam iniciativas próprias, como reciclagem local e tratamento de resíduos. Desde então, organizações de base e outros grupos tradicionalmente excluídos desafiam o establishment político dominante, amplamente visto como corrupto e inapto.

O movimento Beirut Madinati, em português, “Beirute, minha cidade”, promete limpar a política – e as ruas – da cidade. A aliança secular e apartidária é composta por professores, empresários, artistas, educadores, engenheiros e pescadores como a conhecida diretora de cinema Nadine Labaki. O novo movimento foi fundado em 2015, logo após a crise do lixo no verão daquele ano, exigindo uma inspeção nas paralisadas instituições governamentais. Sua lista de 24 candidatos independentes era dividida igualmente entre homens e mulheres, muçulmanos e cristãos, e prometia endereçar questões de trânsito, lixo e corrupção.

A campanha “Beirut Madinati” opõe-se aos partidos arraigados e à classe política tradicional profundamente enraizada. Seus candidatos acessaram seus eleitores através de reuniões em salões na cidade, comícios e captadores de recursos, mas muitos questionam se os tecnocratas independentes podem ter sucesso em um sistema dominado por políticos vitalícios e por uma lógica institucionalmente sectária.

A nova iniciativa popular ganhou 40% dos votos nas eleições municipais na capital libanesa (que é dividida em três zonas), apesar de todos os assentos do Conselho terem ido para a classe política estabelecida. Os independentes ficaram em segundo lugar, e os vitoriosos do “Beirutes”, apoiados pelos partidos políticos arraigados, ficaram com cerca de 48% dos votos e todos os assentos. Os votos restantes foram para duas outras listas, como a secular “Cidadãos em um Estado” da qual o ex-ministro do trabalho Charbel Nahas faz parte. Os resultados oficiais emitidos pelo Ministério do Interior mostraram que a lista dos “Beirutes”, liderada por Jamal Itani, ganhou cerca de 15.000 votos a mais do que “Beirute Madinati”. Yusra Sidani, concorrendo com os Beirutes, conseguiu angariar a pontuação máxima, com 47.465 votos, em comparação com os 31.933 votos obtidos por Ibrahim Mneimneh, que lidera a lista do Beirute Madinati. A lista “Beirutes”, com o maior número de votos, obteve todos os assentos, já que as eleições municipais são majoritárias e os vitoriosos obtém todas as cadeiras.

O vice-chefe do Hezbollah, Sheikh Naim Qassem, declarou vitória e antecipou o sucesso de sua lista “Lealdade e Desenvolvimento” em 60 municípios da região do Vale do Beka, para o distrito oriental de Baalbek, e para a cidade fronteiriça de Brital. A lista “Lealdade e Desenvolvimento” é formada pelo Hezbollah, pelo “Movimento Amal” e outros partidos da coalizão “8 de Março”. O Hezbollah e seus aliados concorreram em 80 municípios, dentre 143 no Vale do Bekaa, tendo recebido quase todos os assentos, e tendo vencido nas cidades de Hawsh Sneid no Bekaa, Hawsh al-Nabi, Miqraq, Qarha, Hlabta, al-Labweh e Majdaloun. Em Beirute, o Hezbollah somente apoiou prefeitos de bairros, não tendo apoiado nenhum candidato às eleições municipais na cidade.

Apesar da popularidade do Hezbollah na cidade de Baalbek, famílias notáveis formaram a lista “Baalbek Madinati” para desafiar a lista “Desenvolvimento e Lealdade, apoiada pelo Hezbollah e seu aliado Amal, os dois principais partidos xiitas do país. Listas semelhantes foram formadas não somente no Bekaa, mas em outras áreas também predominantemente xiitas, como os subúrbios de Beirute e o Sul do Líbano – em meio à crescente insatisfação com a governança local. Residentes locais têm formado suas próprias listas, alheias à partidos políticos. Ainda que o Hezbollah e o Amal devam ser vitoriosos na maioria dos municípios em que estão concorrendo, o Hezbollah pela primeira vez na história pediu aos seus apoiadores que votassem em suas listas. “Não podemos deixar a questão das eleições municipais para as famílias”, disse Nasrallah, no último 6 de maio de 2016, em referência a um número de listas eleitorais em todo o Bekaa, compostas por candidatos de notáveis em suas respectivas cidades, insatisfeitos com os conselhos locais regidos pelo Hezbollah e pelo Amal, eleitos na votação de 2000.

Com respeito ao comparecimento às urnas, em Beirute foi reduzido, com 20,14% de participação relatada. Contudo, este não é um número historicamente baixo. Em 2010, 18% dos moradores de Beirute votaram; em 1998, pouco mais de 30%. Números ligeiramente superiores são registrados nas votações parlamentares na cidade: 33%, em 2009. O comparecimento às urnas em outras regiões foi maior para votação nos novos Conselhos Municipais e Mukhtars, ou funcionários do governo local, tendo atingido 52,6% em Zahle, 43,5% em Rashaya, 42% no Oeste do Bekaa, 62% em Baalbek, e 45% em Hermel.

A Associação Libanesa para Eleições Democráticas (LADE), grupo de monitoramento eleitoral, relatou grande aumento das irregularidades em comparação com a última eleição, incluindo a compra de votos, violência e relatório de um funcionário interferindo na votação para beneficiar um grupo. O grupo de observação disse que 647 irregularidades foram registradas em Beirute e no vale do Bekaa, em comparação com 314 nas mesmas duas áreas, em 2010. O monitoramento observou um declínio significativo no padrão do processo eleitoral, com locais de votação mal preparados e caos na triagem e transporte das cédulas de voto.

Os resultados eleitorais em Beirute mostraram, de acordo com o editorial do l’Orient le Jour Daily, que “membros da sociedade civil não podem explodir um establishment político, não importa o quão degenerado ele seja”. Mas completou: “o que Beirute Madinati fez é fundamental: ele semeou um grão que irá contribuir grandemente para uma mudança inevitável de mentalidades”. Hilal Khashan, Chefe do Departamento de Ciência Política na Universidade Americana de Beirute, disse ao Middle East Eye que a sociedade civil ainda é fraca no Líbano. “Ela se eleva contra o sistema político sectário do país. É desligada do processo político”, disse. E acrescentou que o movimento Beirute Madinati reflete uma elite cultural que ainda não conseguiu atingir o público em geral.

Ainda assim, especialistas saudaram os resultados do Beirute Madinati como uma vitória, apesar de não ter ganho nenhum dos 24 assentos do Conselho da cidade. O analista Rabee al-Haber disse que os resultados da lista da sociedade civil “não foram um fracasso, porque seis partidos se aliaram contra ela”. Além disso, o “Beirut Madinatiobteve mais do que 60% dos votos no distrito de maioria cristã de Achrafieh, sendo cerca de 30% dos votos sunitas na cidade – um número surpreendentemente elevado, tendo em conta o apoio generalizado a Hariri, entre a comunidade sunita.

Com um sistema proporcional, os independentes estariam representados no novo Conselho Municipal com, ao menos, 10 lugaresafirmou o chefe da Estatística Libanesa. Sob o atual sistema de votação, os eleitores têm tantos votos quantos sejam os lugares – em listas diferentes, se assim escolherem – e os candidatos que ganham o maior número de votos ganham as eleições. Caso se tratasse de um sistema de representação proporcional, os eleitores teriam escolhido uma lista e cada uma teria recebido assentos na proporção da sua quota global de votos obtidos, explicou. 

As eleições municipais no Líbano demonstraram a possibilidade de canalizar as energias dos protestos espontâneos e as legítimas frustrações populares na forma de uma oposição formal e institucional à elite dominante. Em um país onde o discurso sectário muitas vezes domina tanto as campanhas políticas quanto a análise política, a campanha popular de base e secular do “Beiruti Madinadi” é um lembrete poderoso de que a mudança, ainda que lenta e incremental, é possível. Neste sentido, as votações para as eleições municipais no Líbano prometem dar fôlego a esta democracia tão debilitada por instabilidades internas e turbulências externas.

No atual contexto, estas eleições são especialmente relevantes, já que manifestantes e membros da sociedade civil apelam por mais recursos fiscais e maior descentralização para os conselhos municipais. Os municípios tornaram-se a linha de frente de facto na gestão tanto da crise do lixo quanto da situação do enorme influxo de refugiados que entram no Líbano diariamente. A segunda etapa de eleições ocorreram na região do Monte Líbano, em 15 de maio de 2016. Os resultados oficiais ainda não foram disponibilizados ao público.

———————————————————————————————–

ImagemMulher libanesa após votação no último Domingo 8 de Maio de 2016” (FonteAFP/Anwar Amro):

https://now.mmedia.me/lb/en/NewsReports/566962-lebanon-votes

EUROPANOTAS ANALÍTICASPOLÍTICA INTERNACIONAL

Armênios rememoram 101 anos do Genocídio e ainda aguardam reconhecimento turco

Ao redor de todo o mundo, foram rememorados no último 24 de Abril de 2016 os 101 anos do Genocídio do povo armênio, perpetrado pelo Império Otomano. Manifestações foram registradas em Yerevan, Jerusalém, Beirute, IrãTurquia, Moscou, Grécia, Buenos Aires, Itália e inúmeros outros países para homenagear as vítimas do massacre de 1,5 milhão de armênios, entre os anos 1915 e 1923, e exigir que o Governo turco reconheça a atrocidade como Genocídio.

O Presidente armênio, Serzh Sargsyan e a primeira-dama Rita Sargsyan depositaram flores no Memorial do Genocídio Armênio de Tsitsernakaberd, na capital do país, Yerevan. Representantes de diversos países e organizações internacionais foram para a Armênia para prestarem suas homenagens. A segunda edição do Fórum Global “Contra o Crime de Genocídio” foi realizado em Yerevan, contando com a presença de parlamentares de todo o mundo, juristas, especialistas em genocídio e intelectuais. O evento em memória das vítimas também contou com a presença do renomado cantor francês Charles Aznavour, de ascendência armênia, e do astro de Hollywood George Clooney. Clooney faz parte do Comitê do Prêmio Aurora, criado pelo governo local em tributo aos sobreviventes. Para ele, a data marca um fato que “é parte da história da Armênia e também parte da história mundial, não é apenas a dor de uma nação”.

Sargsyan usou o 101º aniversário do primeiro genocídio do século XX para chamar a atenção internacional para um surto recente de hostilidades na disputada região de Nagorno-Karabakh. O enclave multiétnico, povoado por armênios e azeris, tem estado em um limbo político desde que o conflito entre os grupos, que resultou em dezenas de milhares de vítimas, terminou em 1994 com a independência autodeclarada da região. O Azerbaijão, aliado Turco, no entanto, ainda declara a região como sob seu domínio, não recuando em sua intenção de retomar o controle do território. “Declaro para que todo o mundo ouça: não haverá purga ou deportação dos armênios de Artsakh (Nagorno-Karabakh). Nós não permitiremos outro genocídio armênio. Nós – significa a nação armênia, todos os seus segmentos, nós – significa a nossa consolidação armênia”, disse o presidente em comunicado.

Na Grécia, centenas de armênios e simpatizantes marcharam por Atenas para denunciar a Turquia e condenar o Azerbaijão por supostamente escalar o conflito em torno da região de Artsakh. Em Moscou, milhares de pessoas se reuniram carregando bandeiras armênias e russas para marcar o aniversário.  Cerca de 300 pessoas se reuniram no Monastério de St. James no bairro armênio em Jerusalém e realizaram uma cerimônia rememorando os 101 anos do início do genocídio. A cerimônia foi realizada após uma missa celebrada pelo Patriarca Armênio de Jerusalém, Nourhan Manougian. Centenas de armênios iranianos se reuniram na Catedral de St. Sarkis, em Teerã, para marcar o aniversário e condenar o recente incremento nas hostilidades na região de Nagorno-Karabakh. Os que se reuniam dentro e fora da igreja pediam ao Governo turco de Ancara que reconhecesse o massacre como genocídio. No domingo, membros da comunidade armênia e ativistas sociais protestaram em frente ao Consulado turco em Jerusalém e da Embaixada da Turquia em Tel Aviv.

Cerca 700 pessoas, convocadas pela comunidade armênia na Argentina, marcharam em Buenos Aires até a residência do embaixador turco reclamando por justiça. No Brasil, os 101 anos do Genocídio Armênio também foram recordados pela Casa Legislativa da Cidade de São Paulo, por iniciativa do vereador Gilberto Natalini e do Conselho Nacional Armênio do Brasil (CNA – Brasil). A Câmara Municipal também rendeu importante homenagem aos Mártires Armênios de 1915 e à cultura do país.

De acordo com sobreviventes, familiares e estudiosos do acontecimento, em 1914, no início da Primeira Guerra Mundial, cerca de 2 milhões de armênios viviam sob o Império Otomano, mas esse número diminuiu para menos de 500.000 ao longo dos oito anos seguintes. Os assassinatos em massa teriam iniciado em 24 de abril de 1915, quando 250 intelectuais armênios foram detidos pelas autoridades otomanas e mais tarde executados na então capital Constantinopla, atual Istambul.

A maioria dos armênios restantes sob o Império Otomano foi posteriormente deslocada, deportada, islamizada ou colocada em campos de concentração, sobretudo por se rebelar contra os otomanos e aliar-se aos russos durante a Primeira Guerra Mundial. Os massacres, em 4 fases, argumentam, foram planejados e perpetrados pelo Governo dos Jovens Turcos nas diferentes regiões do Império. Sua ideologia pan-turca entrou em frontal colisão com as aspirações por maior autonomia pelas minorias dentro do império, que, já em decadência, desde finais do século XIX, recrudescia suas políticas.  Cerca de 500 mil grego-ortodoxos foram obrigados a ir para a Grécia e minorias curdas também foram perseguidas.

A Turquia – sucessora do Império Otomano – admite oficialmente que muitos armênios foram “maltratados” na ocasião, mas afirma que o número de vítimas tem sido “grosseiramente exagerado” e que não houve “genocídio” ou esforço sistemático oficial para eliminar a minoria armênia. Ankara estima o número de armênios mortos entre 1915 e 1917 esteja entre 300.000 e 500.000, o mesmo número de vítimas turcas, e considera o massacre como “fatalidades” da Primeira Guerra Mundial; em oposição aos 1,5 milhão de mortos reivindicados pelos armênios.

Segundo analistas, o reconhecimento das deportações e massacres como crimes contra a humanidade não somente prejudicaria a reputação internacional de Ancara, como também tornaria o país legalmente obrigado a conceder reparações. Alguns grupos armênios de direitos humanos estimam que tais reparações valham trilhões de dólares.

França, Rússia, Alemanha, Argentina, Uruguai, Suíça, Parlamento Europeu e, recentemente, o Brasil, estão entre os 28 países que reconhecem o massacre de armênios em 1915 como genocídio. Inúmeras organizações como o Conselho da Europa, o Parlamento Europeu, diversas comissões das Nações Unidas, União Nacional das Igrejas e Parlamento do MERCOSUL reconhecem o genocídio por estar consubstanciado por relatos de vítimas oculares, relatórios de deportações, imagens, documentos, leis e resoluções internacionais.

O primeiro país do mundo a oficialmente criticar e reconhecer o genocídio armênio baseado na lei internacional foi o Uruguai, em 1965. Seguiram o exemplo, entre outros, os Parlamentos da Rússia (1994), Polônia, Lituânia, Eslováquia, Holanda (1994), Grécia (1996), França (2001), Itália (2001), Vaticano, Bélgica, Suíça (2003), Suécia (2010), Austrália, Luxemburgo, Áustria, Chipre, Líbano, Canadá (2004), 44 estados dos Estados Unidos, Uruguai, Argentina (2005, duas leis e 5 resoluções), Venezuela, Chile e Bolívia (2014). Atualmente, 3,2 milhões de armênios vivem na Armênia, e a diáspora é calculada em mais de oito milhões de pessoas, que residem agora nos Estados Unidos, Oriente Médio, França, Canadá e América Latina.

———————————————————————————————–

ImagemCerimônia em Yerevan relembra o massacre dos armênios pelos turcos no Domingo 24 de Abril de 2016” (FonteKAREN MINASYAN/AFP):

http://g1.globo.com/mundo/noticia/2016/04/george-clooney-participa-de-ato-para-recordar-o-genocidio-armenio.html

AMÉRICA DO NORTENOTAS ANALÍTICASORIENTE MÉDIOPOLÍTICA INTERNACIONAL

Pentágono aumentará tropas americanas e ajuda financeira no combate ao ISIS no Iraque

Nesta última segunda-feira, 18 de abril de 2016, as autoridades americanas afirmaram que os Estados Unidos irão enviar mais 200 soldados e, pela primeira vez, diversos helicópteros Apache ao Iraque para auxiliar o país na luta contra o Estado Islâmico. De acordo com o Secretário de Defesa, Ash Carter, as novas forças seriam amplamente utilizadas para aconselhar as forças iraquianas, estando “mais perto da ação”.  Este anúncio reflete semanas de discussões com comandantes e líderes iraquianos e é o resultado da decisão de Barack Obama de aumentar o nível de tropas autorizadas no Iraque em 217 membros, subindo de 3.870 para 4.087. O comunicado também reflete o primeiro grande aumento das forças dos Estados Unidos em quase um ano. Adicionalmente, o Pentágono irá fornecer até US$ 415 milhões para unidades militares curdas do Exército Peshmerga, em auxílio ao seu combate ao ISIS.

Ash Carter fez o anúncio durante uma visita surpresa a Bagdá, onde se reuniu com autoridades militares norte-americanas e com o primeiro-ministro iraquiano Haider al-Abadi. Carter disse que os EUA “estão em consonância com o governo iraquiano” com respeito à sua estratégia contra grupos terroristas. A maior presença estadunidense significará um envolvimento de suas forças de forma mais próxima ao front iraquiano e lhes permitirá dar mais conselhos de combate tático às unidades do Iraque. De acordo com a agência de notícias Associated Press, a maioria dos 200 soldados norte-americanos adicionais será de forças especiais. O restante irá incluir treinadores, forças de segurança dos assessores e equipes de manutenção para os Apaches.

O auxílio às forças Peshmerge se dá em meio à luta do Governo curdo com um déficit orçamentário. A cooperação entre as duas forças se tornou ainda mais evidente esta semana, quando autoridades curdas disseram ter matado Salman Abu Shabib al-Jebouri, um alto comandante do Estado Islâmico, e dois adjuntos, em Hamam Alil, ao sul de Mosul, em uma operação conjunta com forças especiais norte-americanas.

O anúncio do Secretário de Defesa vem durante um esforço para retomada de Mosul, segunda maior cidade do Iraque, e a maior controlada pelo ISIS no país. É esperado dos helicópteros Apaches que ajudem as forças iraquianas a recapturar a cidade, a qual é vista como chave na guerra para expulsar o Estado Islâmico (EI) tanto do Iraque como da Síria, assim como a cidade de Raqqa, no país vizinho. Desde 2014, o EI detém controle de grandes áreas do Iraque, norte e oeste de Bagdá. Nos últimos meses, forças iraquianas recapturaram significativas parcelas territoriais dos jihadistas e o Exército assegurou sua primeira grande vitória sobre eles em dezembro de 2015, quando anunciou a retomada da cidade de Ramadi.

Desde agosto de 2014, os Estados Unidos lideram uma coalizão internacional de 15 países que tem bombardeado alvos do Estado Islâmico na Síria e no Iraque. O Iraque, por sua vez, tem sofrido com uma crise política envolvendo o fracasso dos esforços para derrubar o Presidente do Parlamento. Ao mesmo tempo, os custos da guerra contra o Estado Islâmico, juntamente com a queda do preço do petróleo – que responde por 95% das receitas do país – causaram uma crise econômica, aumentando a urgência de chamadas para reforma. Autoridades iraquianas preveem um déficit orçamentário de mais de US$ 30 bilhões este ano (2016).

———————————————————————————————–

ImagemO secretário de Defesa norteamericano, Ash Carter, e sua contraparte iraquiana, Khaled alObeidi, durante os hinos nacionais de seus respectivos países, no Ministério da Defesa em Bagdá, Iraque, no último 18 de abril de 2016”  (FonteAP)

http://abc7news.com/news/us-to-send-200-more-troops-apache-helicopters-to-iraq/1297365/