ÁFRICANOTAS ANALÍTICASPOLÍTICA INTERNACIONAL

Em meio a protestos contra a conjuntura econômica e política, sul-africanos vão às urnas

As respostas de uma enquete feita pelo portal de notícias sul-africano News 24 diz muito sobre o cenário atual às vésperas das eleições desta quarta-feira (7 de maio): 91% dos sul-africanos dizem não confiar no Governo[1]. Entretanto, torna-se ainda mais preocupante quando a insatisfação é tamanha a ponto de converter-se em protestos e, em alguns casos, em atos violentos: na mesma pesquisa, mais de 85% responderam ser contra qualquer regulação governamental que impeça a transmissão de propagandas políticas que incitem a violência[1].

Há pouco mais de 20 anos, o Congresso Nacional Africano (CNA)partido do presidente Jacob Zuma– era uma das principais frentes revolucionarias na África do Sul. Este partido exerceu papel crucial na reivindicação de maiores direitos civis aos negros, sendo que, para isso, não faltaram confrontos sangrentos, mortes e prisões, como a de Nelson Mandela. A segregação racial deveria ser derrubada.

Atualmente, o inimigo é outro. Se outrora se cantava “shoot the boer[2] (“atire no boer”, onde boer é uma expressão utilizada para referir-se aos fazendeiros brancos, detentores dos diretos civis naquela época), agora muitos negros proclamam que “black boers cause us worries” (“boers negros nos causam preocupação”)[2].

Em uma democracia ampla – tanto na esfera política, através do sufrágio universal, como na esfera econômica, através de um livre mercado – o mérito exerce papel fundamental na manutenção da ordem. Em teoria, todos devem obter chances iguais de crescer e se desenvolver, ocupando posições correspondentes à habilidade individual.

Entretanto, na prática, a África do Sul vivencia um momento onde brancos e alguns negros da classe média continuam a ocupar os cargos mais importantes – como foi relatado no CEIRI NEWSPAPER mês passado[3] –, renegando à maioria da população liberdades substantivas que lhe garantiriam oportunidades iguais no mercado de trabalho e na sociedade civil.

Por isso, “black boers” – referência clara ao presidente negro Jacob Zuma – também geram preocupações à população, pois eles foram ineficazes na promoção de uma sociedade de direitos amplos. A ausência de oportunidades, evidenciada por uma das maiores desigualdades sociais do planeta[4], é um dos principais fatores de descontentamento.

Em meio às escassas e precárias condições de trabalho, a conquista dos direitos civis é claramente posta em segundo plano pelas gerações mais novas: somente um terço das pessoas de 18 e 19 anos – indivíduos que não participaram diretamente do fim do apartheid – irão votar nas eleições de hoje[5].

Para um cidadão negro sul-africano é difícil distinguir se a condição de vida era pior antes do apartheid ou nos dias de hoje. Em 1994, a expectativa de vida na África do Sul era de 62 anos; atualmente ela é de 56 anos[5][6]. O baixo crescimento econômico evidencia a falta de dinamismo da economia sul-africana: desde 1994 o Produto Interno Bruto (PIB) cresceu, em média, 3,3% ao ano, ao passo que a economia africana como um todo cresceu 4,8% anualmente. Assim, a empregabilidade é baixa, o que faz com que cerca de 25% dos sul-africanos estejam desempregados[5], sendo que 33,6% dos jovens entre 18 e 25 anos também estão desocupados[7][8].

A corrupção é outra clara fonte de insatisfação. Recentemente, veio a público que foram gastos mais de 22 milhões de dólares na reforma da casa do presidente Zuma, que incluía a construção de uma piscina e de um anfiteatro. Segundo autoridades, tal reforma foi feita com o intuito de aumentar a segurança da casa do Presidente[9].

Indignados com a conjuntura econômica e política atual, os sul-africanos foram às ruas[10]. A África do Sul tem, em média, 32 protestos por dia[9]. Todos, em sua maioria, pacíficos, mas não é raro que alguns destes terminem em repressões por parte da polícia, como foi o caso do protesto de Marikana. Nesta situação, 34 operários de uma mineradora foram mortos por policiais[11].

As pesquisas de opinião também apontam para uma queda significativa na taxa de aprovação desde o início do mandato de Zuma. Em 2009, 77% da população aprovava o Governo atual, ao passo que na última pesquisa, em 2014, essa taxa caiu para 46%. No que diz respeito às políticas adotadas, 54% dos sul-africanos em 2009 acreditavam que o país estava indo na direção correta; atualmente, essa taxa caiu para 34%[9].

Dessa forma, muitos especialistas esperam pela primeira vez um resultado não favorável ao CNA nas eleições de hoje[5][9]. Coube aos partidos de oposição durante o período de campanha transformar a insatisfação geral em mais votos aos seus representantes. A Aliança Democrática (AD) – que governa atualmente a Província de Cabo Ocidental[12] – espera aumentar a sua representatividade política, ao passo que o partido de extrema-esquerda, Guerreiros da Liberdade Econômica, participa das eleições gerais pela primeira vez e tenta se firmar como uma alternativa ao CNA e à AD.

A verdade é que pela primeira vez a África do Sul vai às urnas depois da morte de Nelson Mandela. Conforme apontam os observadores, se este foi fundamental para o fim do apartheid e para a conquista do sufrágio universal, cabe agora ao cidadão sul-africano utilizar deste seu direito civil conquistado e eleger representantes que sejam, da mesma forma que foi Mandela, eficazes em atender as reivindicações populares para construir um futuro de liberdade ampla à África do Sul.

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Imagem (FonteVoice of America):

http://www.voanews.com/content/tough-election-test-ahead-for-south-african-government–120859259/160876.html

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Fontes consultadas:

[1] VerNews 24”:

http://www.news24.com/Elections/Vote

[2] VerThought Leader”:

http://www.thoughtleader.co.za/chrisrodrigues/2010/04/05/on-revolutionary-songs/

[3] VerCEIRI NEWSPAPER”:

https://ceiri.news/relatorio-aponta-que-os-negros-ocupam-menos-de-20-de-cargos-de-direcao-na-africa-sul/

[4] VerCIA: World Factbook”:

https://www.cia.gov/library/publications/the-world-factbook/geos/sf.html

[5] VerThe Economist”:

http://www.economist.com/news/middle-east-and-africa/21601533-south-africa-better-place-1994-it-going-wrong

[6] VerWorld Bank data per country”:

http://data.worldbank.org/country/south-africa

[7] VerOECD, Employment and Inequality outcomes in South Africa”:

http://www.oecd.org/employment/emp/45282868.pdf

[8] VerFinancial Times”:

http://www.ft.com/intl/cms/s/2/be6cf4d4-ca7e-11e3-8a31-00144feabdc0.html#axzz3035TrpBs

[9] VerThe Telegraph”:

http://www.telegraph.co.uk/news/worldnews/africaandindianocean/southafrica/10637531/South-Africas-unpopular-Jacob-Zuma-makes-a-final-plea-for-power.html

[10] VerAl Jazeera”:

http://www.aljazeera.com/indepth/features/2014/03/south-africa-wave-discontentment-2014312131838235849.html

[11] VerThe New York Times”:

http://www.nytimes.com/2014/02/14/world/africa/south-african-protests-target-broken-promises.html?_r=1

[12] VerNews 24”:

http://www.news24.com/Elections/Results

ÁFRICAANÁLISES DE CONJUNTURA

Política de crescimento econômico no Malawi é esperança para poucos e desastre para muitos

A paisagem que o contador Clement Simfukwe antes admirava ao caminho do trabalho tornou-se agora motivo de profundo lamento: nas ruas de Blantyre, no Malawi, é comum deparar-se com filas quilométricas nos postos de gasolina, inúmeras obras públicas abandonadas e um mar de pessoas a pé, desde que as tarifas do transporte público aumentaram mais de 150% nos últimos dois anos[1].

Blantyre, e o Malawi como um todo, retratam a consequência de uma política econômica de austeridade posta em prática desde o início do mandato da atual presidente Joyce Banda. Insatisfeito, Clement lidera um grupo de jovens economistas compromissados com os problemas sociais de sua nação. Membro também do grupo de estudos em economia heterodoxa “The Institute for New Economic Thinking” – fundado por expoentes economistas e empresários, entre eles George Soros –, Clement bebe direto da fonte daquela que é considerada por muitos como a morada das ciências econômicas pós-crise de 2008[2]. Seu objetivo final é “preparar um artigo a ser circulado entre o parlamento malauiano, nas Nações Unidas e no Fundo Monetário Internacional (FMI)[1], a fim de que sejam desenvolvidas, em primeiro lugar, políticas públicas que promovam a justiça social.

De fato, a queda na qualidade de vida tornou-se alvo de preocupações mais intensas desde o início do governo de Banda, em maio de 2012. Ao assumir, a Presidente instituiu imediatamente um novo marco da economia do Malawi: a mudança para o regime de câmbio flutuante[3]. Desde o início de 2011, o câmbio era cotado a uma média de 155 kwacha para um dólar. Porém, em menos de duas semanas após a sua posse, a economia malauiana vivenciou significativa desvalorização cambial de 49,5%[4].

A mudança da política cambial foi vista pelo governo de Joyce Banda como etapa crucial para resolver os principais problemas macroeconômicos que seu antecessor, Bingu wa Mutharika, encontrou: escassez de combustível e de divisas, além do fraco relacionamento com entidades financeiras internacionais, como o “Fundo Monetário Internacional” (FMI) e o “Banco Mundial[5].

Para resolver tais problemas, o regime de câmbio flexível foi posto em prática com o intuito de aumentar as exportações e as reservas internacionais. De fato, o momento é propício para o acúmulo de divisas, já que o preço do tabaco, principal produto de exportação, atinge o maior nível da história[6].

A dependência excessiva do tabaco retrata a baixa diversificação da economia malauiana. Cerca de 80% da população vive na zona rural[7] e o cultivo de folhas de tabaco é visto como a principal fonte de renda do país. Por isso, o “Produto Interno Bruto” (PIB) e o nível de exportações dependem diretamente das condições climáticas para o cultivo da folha, bem como do preço pago pelos importadores deste bem. Outros setores, como a indústria, possuem baixa participação na composição do PIB, em partes devido ao aparato técnico e estrutural precário. Aproximadamente 95% das estradas estão em mal estado de conservação[5] e o Malawi, em comparação aos países vizinhos, é o último colocado no “Índice de Competitividade Global” (ICG), medido pelo FMI[8].

Isso demonstra que a entrada de divisas é crucial para a importação de bens manufaturados e de bens de capital, já que o setor industrial não atende à demanda nacional. Entretanto, a recente desvalorização cambial acentuou ainda mais a séria escassez de combustível e de outros bens de consumo, pois a perda de valor do kwacha diminuiu o poder de compra dos importadores locais.

Com isso, a presidente Banda procurou, desde o início de seu mandato, reconciliar as relações entre o Malawi e o FMI, a fim de aumentar as doações internacionais. No entanto, para que aconteça, será necessária a adesão ao plano econômico traçado por este órgão. Para alguns, o câmbio flexível foi a primeira dessas medidas[7].

O plano traçado em conjunto entre ambas as instituições começam a gerar os resultados esperados. Segundo fontes locais[9], as indústrias de tabaco apresentam os maiores ganhos dos últimos anos. Também segundo recente relatório do FMI, a entrada de dólares na economia malauiana e o aumento de reservas detidas pelo “Banco Central” vêm crescendo desde o final de 2012[8].

Se por um lado a nova política econômica traz esperança, é na economia real, no dia-dia de um cidadão comum, que se sentem os seus efeitos colaterais[10]. Ao passo que as indústrias de tabaco apresentam rendimentos cada vez maiores, o preço pago ao produtor está estagnado, mesmo agora na temporada das vendas: no último leilão, no dia 18 de março, o preço inicial do tabaco foi de 0,85 dólares o quilo, enquanto no ano passado, na mesma época, o preço inicial foi de 1,05 dólares[9].

Também se comparado às nações adjacentes, o preço pago ao produtor é menor. No Malawi, o preço médio é de 1,27 dólares o quilo, ao passo que na Zâmbia e no Zimbábue paga-se, em média, 2,40 e 3,82 dólares o quilo, respectivamente[9]. Especialistas afirmam que o preço pago ao produtor no Malawi é menor devido à baixa qualidade da folha de tabaco. Entretanto, está mais difícil o manejo eficiente deste cultivo, já que a compra de fertilizantes importados é economicamente inviável dada à considerável perda de valor da moeda nacional.

A desvalorização cambial também aumentou significativamente a inflação. Entre maio de 2012 e abril de 2014 a inflação situou-se sempre entre 25% e 37,5% ao ano[5]. Com isso, o número de pessoas que vivem abaixo da linha da pobreza aumentou: atualmente, cerca de 11,9 milhões de pessoas (aproximadamente 68% da população) recebe menos de 1 dólar por dia[7]. O FMI, junto ao Governo nacional, implementou 5 programas de proteção social em resposta ao aumento da pobreza e às reivindicações feitas pelos cidadãos. Entre eles, destaca-se o programa de alimentação de crianças, que visa destinar aproximadamente 1,2 milhão de dólares a crianças famintas. Entretanto, estima-se que outras 4,5 milhões de crianças e adultos não serão contemplados por estes 5 programas de proteção social[5].

A inflação a níveis alarmantes despertou a necessidade no governo atual em redefinir a política monetária e fiscal. Junto com o FMI, o governo atual institui significativas reformas fiscais e redução dos gastos do Governo, com o intuito de diminuir uma possível espiral inflacionária e de desvalorização cambial[8]. A não intervenção governamental é vista como fundamental para o não agravamento dos efeitos colaterais da reestruturação posta em prática, por mais que tal ausência traga poucas esperanças para os 11,9 milhões de malauianos abaixo da linha da pobreza, que clamam por programas governamentais de ajuda.

A não intervenção governamental se dá por completo no que diz respeito à política econômica e social, mas não no campo político: o caso de corrupção recente apelidado de “cashgate” trouxe expectativas negativas quanto à confiança de órgãos internacionais às práticas políticas no Malawie desencadeou a suspensão do envio de donativos de muitos órgãos internacionais[10][11]. A política nacional tradicionalmente é vista como corrupta, algo evidenciado no “Relatório Mundial de Corrupção e Democracia de 2013”, onde o Malawié listado como um dos 10 países mais corruptos da África[12].

Estima-se que 32 milhões de dólares foram desviados em 6 meses – aproximadamente 2% do PIB em 2013.  Cerca de 6 milhões de dólares foram pagos a firmas para prestarem serviços que na realidade nunca existiram; outros 4 milhões de pagamentos suspeitos foram realizados sem a presença de nenhum documento oficial sequer[11]. Com isso, em novembro de 2013, a Grã-Bretanha suspendeu suas doações[13] e em outubro foi a vez do FMI[11].

Com o intuito de recuperar as doações – cruciais para a manutenção do plano econômico desenhado por Joyce Banda no início de seu mandato – o governo começou as investigações, que apontam para uma série de ex-políticos envolvidos no caso[11]. Foram mantidas também as medidas de austeridade fiscal e monetária, a fim de reiterar o compromisso do Governo atual com as recomendações traçadas junto às organizações internacionais.

À primeira vista tais medidas parecem ter reconciliado o Governode Banda com os órgãos internacionais. Em janeiro deste ano (2014), em visita oficial ao Malawi, a “Diretora-Gerente do FMI”, Christine Lagarde, anunciou a liberação de 20 milhões de dólares em doações[14]. Em relatório oficial[15], a “Missão do FMI no Malawi” afirmou que está satisfeita com o Governo local, o qual, mesmo em meio a protestos da população contra a política de austeridade, manteve-se fiel às recomendações.

Pouco se sabe, entretanto, do prestígio deste Governo entre os cidadãos malauianos. Em maio deste ano ocorrerão as eleições e descobrir-se-á qual a avaliação do povo em relação ao projeto que os governantes desenharam para o Malawi, bem como se os efeitos colaterais – corrupção generalizada e aumento da pobreza – passarão despercebidos.

Clement Simfukwe e sua equipe já possuem o seu próprio veredicto: o plano econômico desenhado por Banda e pelo FMI foi imposto em detrimento à liberdade econômica e política do Malawi[1]. Com isso, Clement espera que seu projeto de pesquisa desperte em seus compatriotas a necessidade de políticas públicas alternativas, “baseadas em uma perspectiva africana[5], para que, assim, durante as manhãs em que ele vai ao trabalho, as ruas de Blantyre não sejam mais, da sua perspectiva, um cenário de desilusão.

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ImagemThe Guardian” (Fonte):

http://www.theguardian.com/global-development/2011/jul/21/malawi-anti-government-protests

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Fontes consultadas:

[1] Ver: “Entrevista com Sr. Clement Simfukwe

[2] VerThe Wall Street Journal”:

http://online.wsj.com/news/articles/SB10001424052702303891804575576523458637864?mod=WSJ_hpp_sections_news&mg=reno64-wsj&url=http%3A%2F%2Fonline.wsj.com%2Farticle%2FSB10001424052702303891804575576523458637864.html%3Fmod%3DWSJ_hpp_sections_news#articleTabs%3Darticle

[3] VerBBC News”:

http://www.bbc.com/news/world-africa-17982062

[4] VerXE Currency”:

http://www.xe.com/currencycharts/?from=USD&to=MWK&view=5Y

[5] Ver: “Relatório de Atualização da Pobreza Malauiana 2014

[6] VerInvesting”:

http://br.investing.com/indices/dj-tobacco

[7] VerCIA World Factbook”:

https://www.cia.gov/library/publications/the-world-factbook/geos/mi.html

[8] VerFundo Monetário Internacional”:

http://www.imf.org/external/pubs/ft/scr/2013/cr13131.pdf

[9] VerThe Nation”:

http://mwnation.com/malawi-tobacco-pricess-getting-wrong/

[10] VerThe Guardian”:

http://www.theguardian.com/global-development/poverty-matters/2014/feb/28/malawi-cashgate-corruption-scandal-accountability

[11] VerThe Economist”:

http://www.economist.com/blogs/baobab/2014/02/malawi-s-cashgate-scandal?zid=304&ah=e5690753dc78ce91909083042ad12e30

[12] VerWorld Audit”:

http://www.worldaudit.org/corruption.htm

[13] VerThe Telegraph”:

http://www.telegraph.co.uk/news/worldnews/africaandindianocean/malawi/10457574/Britain-suspends-aid-to-Malawi-over-corruption-claims-and-attempted-murder-of-whistleblower.html

[14] VerVoa News”:

http://www.voanews.com/content/imf-lifts-suspension-funds-malawi/1833524.html

[15] VerFundo Monetário Internacional”:

http://www.imf.org/external/np/sec/pr/2014/pr14154.htm#P15_356a

ÁFRICANOTAS ANALÍTICASPOLÍTICA INTERNACIONAL

Reeleição de Abdelaziz Bouteflika gera revolta nas ruas e preocupações sobre a autonomia do sistema eleitoral argeliano

O atual “presidente da Argélia”, Abdelaziz Bouteflika, foi reeleito, nesta última sexta-feira (18 de Abril), para o seu 4° mandato. Com mais de 81% dos votos válidos, Bouteflika é o Presidente eleito com o maior mandato na história da Argélia, exercendo o cargo desde 1999[1].

Entretanto, as eleições argelianas foram marcadas por muitas controvérsias que ilustram fielmente o agitado panorama político atual do país. A primeira delas é a taxa de ausência nestas eleições: 51,7% dos eleitores não compareceram às urnas. Apesar de certa evolução em relação às últimas eleições – onde a taxa foi de 75%[2] – a ausência de mais de metade dos eleitores é vista por alguns membros da Oposição como sinal claro da manipulação dos resultados[3].

Ali Benflis, Ex-Primeiro-Ministro e segundo colocado na eleição presidencial, duvida da legitimidade do resultado, acusando de manipulação na contagem dos votos. O opositor utiliza do histórico recente de casos de corrupção[4] para apontar como o Governo atual é capaz de alterar os resultados a fim de conceder ao Presidente um 4° mandato. Benflis afirmou que “não reconhece o resultado (…), pois reconhecê-lo seria ser cúmplice de uma fraude[5]. A oposição afirma também que Bouteflikaé incapaz de governar a Argélia devido a sua saúde frágil, desde que sofreu um derrame cerebral no ano passado.

A indignação de Benflis está em sintonia com as reivindicações que ocorreram nos últimos dias em Algiers. Mais de 70 se feriram numa situação onde jovens[1], em sua maioria, saíram às ruas para protestar contra a ausência do Presidente desde que teve o problema de saúde. Também reivindicaram políticas públicas para modernizar a economia: apesar do crescimento econômico significativo dos últimos anos – de acordo com os últimos dados oficiais, a Argélia cresceu 2,5% em 2011, contra a estagnação dos países do norte da África neste mesmo ano[6] – o desemprego entre os jovens é de, aproximadamente, 21%, uma das maiores taxas africanas[6].

Caso confirmada, a reeleição de Abdelaziz Bouteflika levanta incertezas sobre o futuro político e econômico da Argélia. Alguns especialistas conferem méritos ao seu governo, afirmando que, em 1999, exerceu papel significativo para acabar com a sangrenta guerra civil que se estendia desde 1992 e causou a morte de mais de 200 mil argelinos[7].

Também afirmam que o Governo atual soube acalmar os ânimos e manter um cenário político e social estável durante a onda de protestos nos países vizinhos durante a “Primavera Árabe[7]. Entretanto, economistas e cientistas políticos criticam o governo de Bouteflika pela corrupção generalizada e pela maciça presença estatal em uma economia claramente dependente da exploração de hidrocarbonetos[6].

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Imagem (Fonte: CITIFMOnline):

http://www.citifmonline.com/?p=14329

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Fontes consultadas:

[1] VerAlJazeera”:

http://www.aljazeera.com/news/middleeast/2014/04/algeria-bouteflika-poised-win-elections-2014417211739939504.html

[2] VerAlJazeera”:

http://www.aljazeera.com/news/africa/2014/04/algeria-ailing-president-wins-fourth-term-2014418154859606338.html

[3] VerNew York Times”:

http://www.nytimes.com/2014/04/19/world/africa/algerian-president-wins-a-fourth-term.html?ref=africa&_r=0

[4] VerThe Guardian”:

http://www.theguardian.com/world/2014/apr/04/algeria-election-bouteflika-palm-project

[5] VerEnca”:

http://www.enca.com/africa/benflis-refuses-recognise-bouteflikas-re-election

[6] VerAfrican Economic Outlook”:

http://www.africaneconomicoutlook.org/en/countries/north-africa/algeria/

[7] VerUSA Today”:

http://www.usatoday.com/story/news/world/2014/04/17/algeria-protests-elections/7814311/

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Em meio às recordações em Ruanda, alguns dizem “nunca mais”, mas outros são mais céticos

Na segunda-feira passada (7 de abril) celebrou-se em Ruanda os vinte anos do massacre de mais 800 mil pessoas que assolou o país em 1994. A celebração foi realizada em um estádio de futebol na cidade de Kigali e contou com a presença de autoridades, entre eles o “Secretário Geral das Nações Unidas”, Ban-Ki-moon, e o “Presidente de Ruanda”, Paul Kagamé[1].

Neste evento foram homenageadas as vítimas de um dos maiores conflitos étnicos da história. Em 1994, um avião que levava o então “Presidente de Ruanda”, Juvenal Habyarimana, foi abatido. Isto serviu de estopim para o início de um conflito étnico já antigo, entre a maioria Hutu e a minoria Tutsi.

Entretanto, desde o fim da guerra civil, Ruanda tem presenciado expressivo crescimento econômico, visto pelo “Presidente” atual como uma “Nova Era” para o país, em que há oportunidades e direitos[2]. “Se o genocídio revelou a chocante capacidade humana para a crueldade, as escolhas de Ruanda mostram a capacidade para a renovação[2], afirmou Paul Kagamé durante a celebração.

De acordo com dados do “Banco Mundial[3], em 1994 o “Produto Interno Bruto Per Capita era de, aproximadamente, 233 dólares. Em 2013 este valor mais do que triplicou em relação àquele, alcançando a marca de 725 dólares. Em termos de abertura comercial, Ruanda recebeu o triplo de investimento estrangeiro em 2010 se comparado aos níveis logo após 1994[4].

Entretanto, o período que Paul Kagamé nomeia de “Nova Era” é visto com ceticismo por alguns críticos[2][5]. Em relação à figura política do Presidente, ao longo de 14 anos de governo, ele é acusado por alguns órgãos[5] de levar a cabo políticas de repressão a exilados e a opositores. Recentemente, Kagamé proferiu, publicamente, sérias críticas à política internacional francesa, o que fez com que a “Ministra da Justiça da França”, Christiane Taubira, cancelasse a sua participação na celebração da última segunda-feira, dia 7 de abril[2].

Além do ceticismo em relação ao Governo atual, também há certa desconfiança em relação à efetividade de órgãos internacionais no combate a conflitos étnicos[6]. Durante a celebração, Ban-Kin moon afirmou que as “Nações Unidas” “poderiam ter feito muito mais[2]. Tal constatação vale de alerta aos órgãos internacionais em relação aos conflitos étnicos atuais, como o da “República Centro-Africana” – relatado pelo “CEIRI NEWSPAPER” na última quarta-feira (9 de abril)[7].

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Imagem (Fonte – “Agência Reuters”):

http://www.reuters.com/article/2014/04/07/us-rwanda-genocide-idUSBREA361C220140407

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Fontes consultadas:

[1] VerAgência Reuters”:

http://www.reuters.com/article/2014/04/07/us-rwanda-genocide-idUSBREA361C220140407

[2] VerNew York Times”:

http://www.nytimes.com/2014/04/08/world/africa/genocide-commemorations-begin-in-rwanda-with-curtailed-french-role.html?ref=africa

[3] VerBanco Mundial”:

http://data.worldbank.org/country/rwanda

[4] VerLe Monde”:

http://www.lemonde.fr/afrique/portfolio/2014/04/07/rwanda-miracle-ou-mirage_4397202_3212.html

[5] VerFolha de S. Paulo”: Ano 94, N° 31.050. Segunda-Feira, 07/04/2014Caderno Mundo, página A13.

[6] VerThe Guardian”:

http://www.theguardian.com/world/2014/apr/03/central-african-republic-are-we-ignoring-rwanda-all-over-again

[7] VerCEIRI NEWSPAPER”:

www.jornal.ceiri.com.br/governo-chade-anuncia-retirada-de-suas-tropas-da-republica-centro-africana/