ÁFRICAECONOMIA INTERNACIONALNOTAS ANALÍTICASORIENTE MÉDIO

Etiópia e Emirados Árabes Unidos aprofundam laços econômicos

Na última sexta-feira (15 de junho), o primeiro-ministro Abiy Ahmed recebeu, em Addis Ababa, o Chefe de Estado dos Emirados Árabes Unidos (EAU), Sheikh Mohammed bin Zayed. A visita representa o primeiro encontro oficial entre os principais líderes das duas nações desde a posse de Ahmed, em abril deste ano (2018).

A pauta de discussão entre as lideranças esteve focada, principalmente, no apoio financeiro a ser concedido pelos EAU à Etiópia. Ao final da visita, foi anunciado um plano de empréstimo de três bilhões de dólares ao país africano. Deste montante, cerca de um terço será utilizado para mitigar a escassez de divisas, enquanto que o valor restante será aplicado em investimentos na área do turismo e da infraestrutura.

Eu estive muito contente em chegar a Addis Ababa, uma cidade de história, civilização e diversidade cultural. Eu estou ainda mais satisfeito por fortalecer os laços de amizade e cooperação entre as nossas duas nações”, declarou Mohammed bin Zayed, em sua conta pessoal no Twitter.

Com constantes déficits na balança de pagamentos ao longo dos últimos anos, a Etiópia sofre com um acentuado desequilíbrio de divisas. Em certa medida, isto ocorre devido ao fato dela exportar, majoritariamente, produtos de baixo valor agregado e de importar bens manufaturados e bens de capital, cuja aquisição é mais custosa. Em 2016, por exemplo, o principal produto vendido por esse país foi o café, representando 24% do valor total exportado, ao passo que maquinários representaram cerca de 30% das importações.

Soma-se a esta conjuntura a gradativa desvalorização da moeda nacional – o Birr – frente ao dólar. Este processo agrava o desequilíbrio nas contas externas, à medida que os produtos importados se tornam mais caros. A depreciação de aproximadamente 17%, se comparado ao câmbio de setembro do ano passado (2017), gera também pressões inflacionárias na economia, o que prejudica a parcela mais pobre da população. Nesse sentido, a concessão de um bilhão de dólares por parte dos EAU poderá mitigar os efeitos negativos da atual escassez de divisas no país.

No que diz respeito ao restante financeiro previsto no acordo, este poderá servir para dar continuidade aos investimentos em infraestrutura que o Governo etíope tem levado a cabo nos últimos anos. Em verdade, o acordo selado reforça a dependência da Etiópia no capital internacional para a implementação das reformas econômicas previstas, as quais buscam instaurar um processo de industrialização. Este padrão tem sido observado em outros episódios, os quais sinalizam uma entrada cada vez maior de investidores estrangeiros na economia nacional.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Pin de Lapela com as bandeiras de Etiópia e Emirados Árabes Unido Etiópia busca nos EAU os recursos necessários para implementar suas reformas econômicas planejadas” (Fonte):

https://www.crossed-flag-pins.com/shop/Flags-E/Friendship-Pins-Ethiopia-XXX/Pins-Ethiopia-United-Arab-Emirates.html

Imagem 2Sheikh Mohammed bin Zayed fez visita oficial a Etiópia, importante parceiro do país árabe no continente africano” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Mohammed_bin_Zayed_Al_Nahyan

                                                                                              

NOTA ANALÍTICA 2 – Wilson (11:00)

POLÍTICA INTERNACIONAL – Coreias do Sul e do Norte acordam em mesclar times para os Jogos Asiáticos 2018

Em consonância com o fato histórico que marcou a Olimpíada de Inverno 2018 em PyeongChang – quando, em fevereiro, os atletas de Coreia do Sul e do Norte marcharam juntos sob bandeira unificada nas cerimônias de abertura e encerramento, além de disputar uma partida com equipe mista –, autoridades dos dois países comunicaram nesta segunda-feira, 18 de junto de 2018, que irão repetir a atitude nos Jogos Asiáticos deste ano (2018) .

Após o declínio da candidatura da cidade de Hanói, no Vietnã, ao alegar falta de preparo e incapacidade econômica, a execução da décima oitava edição dos Jogos Asiáticos será realizada na Indonésia, entre a capital Jakarta e Palembang, no período de agosto e setembro. A competição contará com 484 disputas, divididas em 42 modalidades esportivas.

A política externa norte-coreana tem se mostrado flexível e aberta ao diálogo com rivais ideológicos, a se destacar a vizinha do sul e os Estados Unidos da América, notadamente após o encontro inédito dos Chefes de Estado, Kim Jong-Un e Donald Trump, realizado em Cingapura.

Estas conversas de reconciliação corroboram para o alívio do conflito na península coreana ao utilizar-se do esporte, pela segunda vez apenas neste ano, como importante instrumento catalizador para alcançar o objetivo maior: a paz na região.

Jeon Choong-ryul, secretário-geral do Comitê Esportivo e Olímpico Coreano, que participou das negociações, em uma coletiva de imprensa reitera este pensamento ao dizer que “nós compartilhamos da visão que o esporte iniciou a reaproximação e cooperação entre as Coreias”.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Representantes dos 45 países participantes dos Jogos Asiáticos 2018” (Fonte):

https://asiangames2018.id/assets/gallery/img/800_6c9f10461da9add7e5c5f74c6559bca5.jpeg

Imagem 2 “Logo oficial da 18ª edição dos Jogos Asiáticos” (Fonte):

https://asiangames2018.id/assets/noimg/sosmed-home-bottom.jpg

Imagem 3 “Entrevista do presidente da INASGOC à Revista Tempo” (Fonte):

https://asiangames2018.id/assets/gallery/img/800_fa5dd386a8747856ca1005ab0d29cc93.jpeg

ÁFRICAECONOMIA INTERNACIONALNOTAS ANALÍTICAS

Reformas econômicas e políticas prosseguem na Etiópia

A fim de dar continuidade à entrada de Investimento Estrangeiro Direto (IED) e com o intuito de reduzir os confrontos civis com as forças policiais, o Estado etíope promulgou novas reformas econômicas e políticas. O primeiro-ministro Abiy Ahmed, empossado como Chefe de Governo em abril deste ano (2018), tem levado a cabo algumas medidas para devolver a estabilidade, ampliar o espaço de atuação das corporações estrangeiras na economia nacional e incrementar as receitas com exportações de produtos manufaturados.

Entre as principais medidas adotadas na semana passada, está a nomeação de novas autoridades aos cargos militares mais altos do país. Seare Mekonnen e Adem Mohamed foram apontados, respectivamente, como chefe das Forças Armadas e diretor do Serviço Nacional de Segurança e Inteligência. Entretanto, ambos os nomes não foram recebidos com ânimo por parte da população, uma vez que esta pede por maior representatividade política das etnias Oromo e Amhara nos principais organismos do Estado.

Fronteira entre Etiópia e Eritreia sempre esteve envolvida em conflitos

Mekonnen e Mohamed são filiados à Frente de Libertação do Povo Tigré (FLPT), um dos partidos que compõem a Frente Democrática Revolucionária do Povo Etíope (FDRPE) – o partido governista, desde 1995. As manifestações civis que assolam o país desde 2015 clamam por maior participação de outras etnias nas principais agências estatais, argumentando que a FLPT goza de maior poder decisório dentro da FDRPE.

Em contrapartida, Ahmed sustenta as nomeações a partir das atuais intenções do Governo em resolver os problemas diplomáticos com a Eritreia. Após este país declarar independência em 1993, severos conflitos assolaram a fronteira por sete anos, até que um acordo de paz fora selado. Entretanto, a Etiópia nunca reconheceu, efetivamente, a autonomia do país vizinho.

Com o intuito de pôr fim a este imbróglio, fontes locais afirmam que um dos principais objetivos da política externa de Ahmed é implementar, de fato, o acordo de paz, reconhecendo a independência do país vizinho e caminhar rumo ao fortalecimento dos laços diplomáticos. Para tanto, a nomeação de Mekonnen é vista como fator chave, tendo em vista a sua longa experiência em questões políticas, econômicas e sociais envolvendo a Eritreia.

Paralelamente às referentes nomeações, o Governo também manifestou interesse em ceder espaço a investidores internacionais nas corporações estatais, principalmente através da venda de ações. Entre as principais empresas contidas no plano de privatização estão a Ethiopian Arilines e a Ethio-Telecom. Essa medida, na verdade, faz parte de um consolidado projeto de abertura da economia nacional ao capital estrangeiro, com vistas a mobilizá-lo como fonte de financiamento ao processo de industrialização.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Crescimento econômico na Etiópia depende, principalmente, da estabilidade política e dos investimentos estrangeiros” (Fonte):

https://financialtribune.com/articles/world-economy/65898/ethiopia-to-become-economic-giant-of-east-africa-in-2017

Imagem 2Fronteira entre Etiópia e Eritreia sempre esteve envolvida em conflitos” (Fonte):

https://www.infoescola.com/africa/eritreia/

ÁFRICAANÁLISES DE CONJUNTURA

A gênese política da industrialização etíope

A declaração de Belachew Mekuria, vice-diretor da Comissão Etíope de Investimentos (CEI), ressoa como um mantra entre os formuladores de políticas públicas. Ao longo dos últimos anos, a palavra de ordem na Frente Democrática Revolucionária do Povo Etíope (FDRPE), o partido governista, tem sido o termo “industrialização”.

Embora os produtos manufaturados representem somente 5% da pauta de exportações do país, o valor adicionado pelo setor industrial cresceu 11% ao ano, entre 2004 e 2014. Neste âmbito, a CEI exerce papel central, pois atua como organismo responsável em atrair o capital estrangeiro para a Etiópia, bem como em regularizar e definir os parâmetros para o Investimento Estrangeiro Direto (IED).

Em um sistema capitalista global, a circulação das finanças entre as nações se faz cada vez mais um fato plausível, permitindo às grandes corporações a alocação de etapas de seu processo produtivo onde são ofertadas as maiores vantagens relativas. Com isso, mercados estabilizados, de ampla concorrência e de decréscimos gradativos nas taxas de lucro podem ser facilmente superados a partir da simples mobilização do capital para regiões economicamente mais favoráveis.

Trabalhadores etíope estão sujeitos a um dos piores salários em comparação mundial

Este é o caso, por exemplo, dos investimentos estrangeiros na Etiópia. Nos últimos anos, corporações têxteis e de vestimentas deslocam-se a um elevado ritmo para o país africano. A crescente concorrência e o aumento dos salários pagos aos trabalhadores chineses, por exemplo, impulsionam as multinacionais a buscarem espaços onde os rendimentos do capital sejam positivos, encontrando no território etíope um espaço profícuo para o desenvolvimento das atividades industriais de suas filiais.

Neste sentido, a Etiópia se associa a uma série de outras regiões no chamado mundo “em desenvolvimento” que podem ser entendidas como “fronteiras do capital”: locais que presenciam profunda mudança econômica a partir de um gradativo processo de acumulação de riqueza, aumento nos níveis de produtividade, intensificação da divisão social do trabalho e utilização extensiva dos recursos naturais. A atual transformação neste país é resultado direto de uma série de fatores gerenciados em conjunto pelo Estado. Com isso, torna-se necessário observar aspectos da gênese política da industrialização.

A institucionalização de salários reduzidos. A consolidação de um processo crescente de participação dos produtos manufaturados sobre o total de valor adicionado na economia depende de uma série de fatores em conjunto.  Trabalho, capital e terra – os principais fatores de produção – devem ser ofertados e manipulados em condições que permitam rendimentos futuros positivos ao capital estrangeiro. Para tanto, a instauração de estruturas de poder político que possibilitem a consolidação dessa conjuntura se faz um fato intrinsecamente necessário.

Um dos principais atrativos aos IEDs destinados à Etiópia tem sido a sua mão de obra relativamente barata. O baixo preço da força de trabalho local não encontra sua razão de ser exclusivamente no amplo contingente populacional – o qual, segundo os últimos dados, se aproxima dos 100 milhões de habitantes. Para além deste fator, o intenso processo de êxodo rural no país libera grandes quantidades de trabalhadores nos centros urbanos, reduzindo o custo de aquisição (salários) da mão de obra no mercado de trabalho.

Estima-se que pouco mais de 1.200 pessoas cheguem diariamente à capital Addis Ababa, vindas diretamente do interior do país. Se por um lado, as mudanças climáticas, exemplificadas na profunda seca que assola o país há mais de dois anos, podem ser destacadas como uma importante causa do êxodo, do outro lado, a própria ação do Estado a partir de suas grandes obras de infraestrutura tem deslocado milhões de pessoas.

Manifestações civis pressionam Governo contra avanço de empreendimentos sobre suas terras, clamando por maior representatividade política

Ao longo dos últimos anos, muito se discutiu na mídia internacional sobre como os empreendimentos de “modernização” do país tem prejudicado, principalmente, as etnias Oromo e Amhara. Destacam-se as obras de expansão urbana da capital e a construção de parques industriais sobre zonas agrícolas, dando um uso econômico destas terras em modos diferentes daquele comumente desenvolvido pelas populações até então ali instaladas.

Recorrentemente, as famílias deslocadas por tais empreendimentos tornaram-se mão de obra das próprias empresas instaladas nos locais ocupados. De acordo com fontes locais, despontam inúmeros casos onde o ressarcimento não ocorre de maneira adequada, deixando estes grupos sociais com a promessa de uma quantia monetária por suas terras jamais recebida.

A intensa liberação da força de trabalho causada por estas obras reduz os níveis salariais da economia. Conforme foi relatado em nota analítica publicada neste jornal, enquanto o salário médio de um trabalhador chinês da indústria têxtil é de 500 dólares mensais, o valor para o trabalhador etíope não ultrapassa os 40 dólares por mês. Soma-se a essa conjuntura o reduzido valor geral dos salários mínimos: se em outros países africanos, como no Quênia, por exemplo, o salário mínimo mensal é de 148 dólares, na Etiópia o valor é de somente 17 dólares mensais.

O Estado etíope apoia e reproduz deliberadamente os baixos salários, tendo-o como uma clara política de estímulo à vinda do capital estrangeiro. Na página oficial da CEI, uma série de itens são listados na seção “por que investir na Etiópia?”. Em um destes itens, discute-se, sem eufemismos e com louvor, como “a Etiópia tem um dos menores salários mínimos da África, tendo somente cinco países com menores níveis salariais: Burundi, Uganda, Egito, Gâmbia e Malawi”.

A criminalização dos movimentos sociais. Notoriamente, a aquisição e ocupação, por vezes forçada, de terras para a implementação de empreendimentos agrícolas e/ou industriais, somado aos exíguos salários, estão por trás da crescente onda de manifestações que assola o país nos últimos três anos.

Significativa parte dos protestos tiveram como alvo empreendimentos estrangeiros erguidos sobre propriedades tradicionalmente ocupadas pelos grupos étnicos locais. Este foi o caso, por exemplo, das inúmeras fazendas queimadas pela população Oromo em 2016. Segundo dados do observatório internacional sobre transações fundiárias, Land Matrix, desde 2001, 48 compradores internacionais adquiriram terras na Etiópia, totalizando um pouco mais de um milhão de hectares comercializados – cerca de 0,9% do tamanho total do território etíope.

A retaliação do Estado ao levante popular tem sido intensa. As restrições às liberdades civis e políticas ocorrem de maneira ostensiva, à medida que não somente manifestantes sofrem recorrentemente do uso excessivo da força policial, mas também uma série de lideranças nacionais foram presas por suas palavras e posicionamentos contrários às políticas governamentais. Os dois estados de sítio declarados nos últimos anos, a prisão do maratonista Feyisa Lilela por seu gesto de crítica ao Governo durante a Olimpíada do Rio de Janeiro e a condenação dos blogueiros da Zona 9 – veículo digital conhecido por suas críticas à gestão do ex-primeiro-ministro Hailemariam Desalegn –, aparecem como exemplos da prática de criminalização dos movimentos sociais.

No modelo de desenvolvimento adotado, as restrições às liberdades individuais exercem papel central em sua sustentação, pois permite o controle social necessário para a construção das obras de infraestrutura, a aquisição de terras para a implementação de parques industriais e a manutenção dos salários reais em valores irrisórios. As reivindicações populares contra este modelo almejam reformas trabalhistas e institucionais que prejudicariam a sua reprodução no longo prazo.

Neste sentido, não é surpresa o fato de que canais midiáticos focados em investimentos internacionais demonstraram profunda preocupação com as manifestações civis dos últimos dois anos, ressaltando o risco que estas representavam aos IEDs na Etiópia. À medida que os protestos não cessaram mesmo com o crescente uso da força policial, Desalegn se viu forçado a se resignar em fevereiro deste ano (2018) e o FDRPE teve que escolher uma liderança que propiciasse um maior diálogo com a população Oromo. Não à toa, o partido escolheu Abiy Ahmed como o novo líder, sendo ele o único Primeiro-Ministro desta etnia na história do país.

Isenção fiscal acima das taxas de depreciação. Como importante estímulo à entrada de capital estrangeiro, a CEI dispõe de inúmeros benefícios fiscais a corporações estrangeiras que decidam alocar seus investimentos na Etiópia. Em seu website, uma breve lista contendo as principais isenções é apresentada.

Entre as medidas aí contidas, pode-se destacar algumas de especial importância. Talvez a principal delas, tendo em vista o montante financeiro de economia que pode representar ao investidor externo, é a isenção fiscal de seis anos a qualquer empreendimento focado no segundo setor, bem como a isenção de nove anos para investimentos agrícolas. A estes benefícios, soma-se também um prolongamento de dois a quatro anos da dispensa fiscal, caso o empreendimento esteja localizado dentro de algum parque industrial.

Em termos de solvência fiscal do Estado, a concessão de expressivos incentivos ao capital estrangeiro somente é viável devido ao volume de crédito contraído junto a outras nações. Aproximadamente 10% do orçamento público de 2017, por exemplo, foi composto por empréstimos e doações internacionais. Somente a China concedeu, entre os anos de 2010 e 2015, cerca de 11 bilhões de dólares, posicionando-se como o principal financiador externo do Estado etíope.

O endividamento externo de longo prazo, em comparação ao PIB, cresce vertiginosamente desde 2009” (Fonte – elaborado pelo autor com dados do Banco Mundial)

Essa conjuntura tem gerado um gradativo endividamento das contas públicas. Ao analisar os dados disponibilizados pelo Banco Mundial, pode-se constatar que o estoque da dívida externa de longo prazo, em proporção ao Produto Interno Bruto (PIB), tem crescido vertiginosamente desde 2009. A este cenário, soma-se o fato de que, desde 2008, o orçamento público tem sido sempre deficitário: em 2016, por exemplo, o déficit nas contas do Governo foi de 1,9% do PIB.

As isenções se configuram como um dos principais fatores atrativos ao capital estrangeiro, pois aumentam a esperança de lucros crescentes no médio e longo prazo. Esta perspectiva vai na contramão da conjuntura econômica dos chamados “países desenvolvidos”, onde os lucros de empreendimentos do segundo setor têm decaído nas últimas décadas. Nos Estados Unidos, por exemplo, o “Retorno sobre Ativos” (ROA)* das principais empresas listadas no índice Dow Jones vem caindo consideravelmente desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Se, em 1965, o ROA médio entre essas companhias era de 4,1%, em 2012 este mesmo indicador foi de 0,9%.

A queda tendencial da taxa de lucro também é fato na China, onde o aumento dos salários e dos custos de produção reduzem os rendimentos das grandes corporações industriais. Despontam na mídia internacional diversos relatos sobre como a Nike, a Apple, a Jaguar Land Rover, a Alibaba e a Li & Fung, por exemplo, presenciam expressivas reduções na lucratividade de suas filiais chinesas. Em resposta a essa conjuntura, o Governo do país asiático declarou, no final do ano passado (2017), que irá suspender temporariamente a cobrança de tributos sobre as receitas de empresas estrangeiras.

A Etiópia, por sua vez, difere de nações como os Estados Unidos ou a China. Marcada por um segundo setor incipiente, suas estruturas econômicas consolidam um cenário favorável ao crescimento gradativo dos rendimentos do capital estrangeiro. Voltadas principalmente ao mercado externo e beneficiadas por uma política instituída de baixos salários, as filiais etíopes das multinacionais têm os seus rendimentos atrelados a três principais fatores: o ritmo de depreciação anual dos bens de capital, as flutuações no câmbio e o crescimento da economia mundial.

Para terem receitas crescentes sobre o capital investido, é crucial às empresas estrangeiras que a variação positiva dos ganhos com as isenções seja significativamente superior ao ritmo de depreciação do maquinário. Neste sentido, o montante de abatimento fiscal demonstra ser de crucial importância financeira e um dos principais fatores de atração ao IED.

Somada a esta política, o Governo etíope tem atuado sistematicamente na desvalorização deliberada da moeda local – o Birr –, com o intuito de aumentar os ganhos da indústria têxtil com a exportação. Em outubro do ano passado, a moeda sofreu uma desvalorização controlada de 15%. Ao todo, se no início desta década um dólar era cotado a 12,70 birrs, a cotação atual encontra-se em 27,50 birrs – uma desvalorização de, aproximadamente, 116%. Se, por um lado, a medida beneficia o capital estrangeiro por aumentar as receitas com as vendas externas, do outro prejudica a camada mais pobre da população, que sofre com as pressões inflacionárias geradas pela depreciação cambial.

A Economia Política da industrialização. As práticas econômicas, quando entendidas a partir das estruturas de poder necessárias para a implementação e reprodução de seus moldes de funcionamento, passa a ser compreendida em sua totalidade. Nesta linha argumentativa, foi possível entender a gênese política da industrialização etíope como um processo de adoção de uma série de políticas sistêmicas que consolidam um cenário de rendimentos positivos ao capital estrangeiro no médio e longo prazo.

Observa-se, em especial, como a emergência do segundo setor na Etiópia é estimulada pelo controle social imposto pelo Estado sobre o preço da mão de obra, bem como no controle sobre reivindicações civis que põem em xeque o modelo de desenvolvimento econômico adotado. Além disso, também se percebe como o reduzido custo de aquisição da força de trabalho é explicado pelo intenso processo de êxodo rural, causado principalmente pela construção de grandes empreendimentos sobre áreas agrícolas e camponesas. Por fim, a industrialização é estimulada pelo Estado a partir das isenções fiscais, assim como através da deliberada desvalorização da moeda local frente ao dólar. Estas medidas, entretanto, influem, respectivamente, em crescente endividamento público e em perda do poder de compra da população.

Impulsionado por um instaurado cenário de queda dos lucros nos países ricos, o capital busca por “fronteiras”: cenários de reduzida competitividade, ampla oferta de recursos naturais e de recursos humanos, bem como de arcabouço legal favorável à implementação de suas atividades produtivas. A adoção de políticas públicas que estimulem o investimento externo define a participação do Estado etíope na industrialização. Esta, por sua vez, não somente suscita um intenso processo de transformação econômica, social e cultural, mas também desperta inúmeros conflitos socioambientais envolvendo as populações Oromo e Amhara, severamente impactadas por tais mudanças. Acima de tudo, o destino do capital é a fronteira – e o conflito.

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Nota:

O ROA é uma medida amplamente utilizada no mercado financeiro para verificar a lucratividade de um determinado investimento.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Gerenciada pelo Estado, a industrialização impulsiona uma revolução econômica na Etiópia a um expressivo custo socioambiental” (Fonte):

https://pixabay.com/pt/guindaste-guindaste-de-torre-170958/

Imagem 2Trabalhadores etíope estão sujeitos a um dos piores salários em comparação mundial” (Fonte):

https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Construction_site_workers_in_Ethiopia.jpg

Imagem 3Manifestações civis pressionam Governo contra avanço de empreendimentos sobre suas terras, clamando por maior representatividade política” (Fonte):

http://gucaravel.com/ethnic-clashes-oromia-somali-regions-ethiopia-displace-thousands/

Imagem 4Gráfico: O endividamento externo de longo prazo, em comparação ao PIB, cresce vertiginosamente desde 2009” (Fonte elaborado pelo autor com dados do Banco Mundial” (Fonte):

https://data.worldbank.org/country/ethiopia

ÁFRICAECONOMIA INTERNACIONALNOTAS ANALÍTICAS

Crescimento do PIB angolano é revisado após aumento nos preços do petróleo

Na quinta-feira da semana passada (24 de maio), o Fundo Monetário Internacional (FMI) apresentou, em Luanda, as suas avaliações sobre o panorama econômico de Angola. Na ocasião, o representante da instituição, Max Alier, discutiu sobre os últimos avanços na resolução da recessão econômica do país africano, bem como sobre o impacto dos preços internacionais do petróleo na economia nacional.

Para este ano (2018), o FMI projeta um crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) angolano de 2,2%, bem como uma expansão de 2,5% para o ano que vem. A projeção é significativamente menor daquela traçada pelo Governo, o qual espera uma taxa de 4,9%. Da mesma forma, a estimativa dessa instituição financeira também diverge da mantida pelo Banco Mundial, cujo entendimento é de que a economia angolana crescerá somente 1,6% neste ano.

FMI e analistas reiteram a necessidade de Angola promover o segundo setor, a fim de reduzi a dependência econômica do petróleo

Nos últimos meses, os formuladores da política econômica angolana, bem como os investidores internacionais, demonstraram relativo alívio frente à gradativa recuperação nos preços do petróleo. A cotação desta commodity na bolsa de Nova Iorque está atualmente em 67 dólares, valor significativamente maior do que a cotação de setembro do ano passado, de 51 dólares. Acima de tudo, este aumento beneficia o país africano em termos de receitas com a exportação.

Similar às recomendações feitas por outros analistas, a missão do FMI em Angola também reiterou a necessidade de o país diversificar a sua economia, a fim de reduzir a sua dependência das rendas obtidas com a exploração de hidrocarbonetos. Conforme declarou Alier: “Falta muito a ser feito na parte estrutural para melhorar o ambiente de negócios, diminuir os custos no setor petrolífero e assim eventualmente criar condições para indústrias não petrolíferas emergirem em Angola”.

A industrialização angolana é tida como um dos principais objetivos do atual Presidente, João Lourenço. No entanto, a escassez de divisas e as iminentes limitações do orçamento público estatal têm impulsionado Lourenço e sua equipe, os quais buscam o capital internacional para a implementação desta política econômica. Na semana passada, por exemplo, o Governo adquiriu um empréstimo de 700 milhões de dólares junto ao banco Credit Suisse, com o objetivo de aplicá-lo na implementação de obras de infraestrutura.

Para atrair o capital externo, a taxa de câmbio passou a operar em regime flutuante desde o final do ano passado (2017). Com efeito, desde dezembro, o kwanza – a moeda local – desvalorizou-se mais de 40% frente ao dólar, concedendo maior poder de investimento a empresários internacionais. Além disso, a depreciação também beneficia as receitas de exportação: a título de ilustração, somente no caso das vendas externas de petróleo registrou-se em abril ganhos de, aproximadamente, 991 milhões de dólares – maior valor desde setembro de 2014.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1FMI prevê maior crescimento após retomada gradativa no preço do petróleo” (Fonte):

http://innovator.gsm.ucdavis.edu/big-data-offers-new-insights-into-financial-markets/

Imagem 2FMI e analistas reiteram a necessidade de Angola promover o segundo setor, a fim de reduzi a dependência econômica do petróleo” (Fonte):

https://www.opportunitiesforafricans.com/imf-internship-program-fip-2018-for-young-professionals/

ÁFRICANOTAS ANALÍTICASPOLÍTICA INTERNACIONAL

Morte de Afonso Dhlakama traz incertezas à política moçambicana

O falecimento de Afonso Dhlakama, líder da Resistência Nacional Moçambicana (RENAMO), remexeu com o cenário político moçambicano. Morto no início deste mês (maio de 2018), após um ataque cardíaco, a principal voz do partido de oposição participava na formulação de um acordo de paz em conjunto com o presidente Filipe Nyusi.

O acordo entre ambos vinha sendo discutido há pouco mais de um ano, com o objetivo primordial de pôr fim a divergências políticas, as quais acarretaram em severas instabilidades sociais em Moçambique. Em linhas gerais, Dhlakama reivindicava da Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO) uma maior representatividade de membros da RENAMO nos principais órgãos governamentais. Desde o término da guerra civil, em 1992, este partido nunca venceu as eleições para o Executivo, bem como jamais ocupou a maioria dos assentos no Parlamento moçambicano.

RENAMO deverá apresentar nova liderança, responsável por conduzir o partido nas próximas eleições municipais

O tratado de paz também visava a gradativa integração de membros das tropas da RENAMO no exército nacional, as quais recentemente participaram ativamente nos conflitos. Veteranos da guerra civil foram mobilizados por Dhlakama para a floresta de Gorongosa, na região central do país, entre os anos de 2013 e 2015. Nesta ocasião, presenciou-se inúmeros choques entre os braços armados de ambos os partidos, o que culminou na migração de mais de 15 mil moçambicanos ao Malawi.

No entanto, com a morte de Dhlakama, analistas têm discutido sobre como o acordo de paz avançará, atrelando a sua continuidade e o seu êxito à nova liderança que será apontada pela RENAMO em sua próxima convenção. De uma maneira provisória, Ossufo Momade foi apontado como líder partidário até as próximas eleições internas, sendo que este já se posicionou publicamente contra o acordo, caso suas prerrogativas não sejam implementadas em sua totalidade.

Outra incerteza que emerge com a atual conjuntura é a real possibilidade de a RENAMO angariar expressiva porção de votos nas eleições municipais, as quais ocorrerão em outubro deste ano (2018). Analistas apontam que a aprovação da FRELIMO se encontra expressivamente deteriorada, principalmente por causa da atual crise financeira e das pressões inflacionárias. Dhlakama, por sua representatividade histórica, seria um importante agente de mobilização para a RENAMO nas eleições que se aproximam.

Sua morte escancara a ausência de lideranças alternativas dentro do partido – fato que poderá beneficiar outros partidos, como o Movimento Democrático de Moçambique (MDM). Neste sentido, os próximos meses deverão ser de ampla expectativa quanto a nova liderança da RENAMO, sobre como esta levará a cabo o embrionário acordo de paz e de que maneira ela atuará ao longo da campanha para as eleições municipais de outubro.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 A morte de Dhlakama remexe com o cenário político moçambicano” (Fonte):

https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Afonso_Dhlakama.jpg

Imagem 2 RENAMO deverá apresentar nova liderança, responsável por conduzir o partido nas próximas eleições municipais” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Resist%C3%AAncia_Nacional_Mo%C3%A7ambicana

                                                                                              

ÁFRICANOTAS ANALÍTICASPOLÍTICA INTERNACIONAL

Egito, Etiópia e Sudão se reúnem para debater construção de usina no rio Nilo

Autoridades políticas do Egito, da Etiópia e do Sudão se encontraram na semana passada para discutir questões técnicas envolvendo a construção da usina hidrelétrica Grand Renaissance. Com um total construído de aproximadamente 64%, o empreendimento irá represar as águas do rio Nilo para a geração de energia elétrica aos três países, com uma capacidade de produção estimada de 6.000 Megawatts (MW) por ano.

Entretanto, esta grande obra de infraestrutura também está envolvida em uma série de contradições socioambientais, à medida que o Sudão e, principalmente, o Egito temem alterações drásticas no fluxo ao longo do rio. Estes câmbios hídricos poderiam prejudicar a pesca e a irrigação de plantações agrícolas locais, impactando o modo de vida de populações que dependem diretamente do nível de água do rio para a sua subsistência.

Com vistas a mitigar estas consequências, lideranças dos três países têm se encontrado recorrentemente ao longo dos últimos quatro anos (2014-2018). O encontro da semana passada foi pautado essencialmente pelos resultados de uma consultoria técnica realizada por duas empresas francesas, as quais avaliaram os riscos socioambientais envolvendo a construção da barragem.

Neste sentido, por pressão egípcia, a última conferência foi realizada às pressas, com o intuito de debater as questões técnicas envolvendo a capacidade da usina no que diz respeito à geração de energia elétrica e o volume de água a ser liberado pelas suas comportas. Ao longo do encontro, muito se argumentou – em especial por parte do Primeiro-Ministro Etíope, Abiy Ahmed – sobre como o represamento não gerará alterações drásticas no escoamento de água.

Lideranças etíopes e sudanesas discutiram aspectos técnicos envolvendo a implementação da Grand Renaissance e a delimitação de fronteiras entre ambos os países

Na ocasião, outras questões geopolíticas também foram discutidas, para além daquelas exclusivamente associadas à construção da Grand Renaissance. O Presidente sudanês, Omar al-Bashir, e o Primeiro-Ministro etíope, por exemplo, travaram uma longa discussão relacionada à demarcação de fronteiras entre os dois países, especialmente a divisa situada na região de Al-Fashaga.

Historicamente envolvida em longas disputas entre ambas as partes pelas terras férteis deste local, al-Bashir e Ahmed declararam que os limites estão claros e satisfatoriamente traçados pelos dois Estados, os quais irão prosseguir a partir de agora com a implementação de guardas de fronteiras e sinais de delimitação do território. “No que diz respeito à demarcação entre os nossos dois países, nós não temos nenhum tipo de divergências nos mapas. Nós somente precisamos acelerar o trabalho técnico para evitar futuras disputas”, declarou o Presidente do Sudão.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Rio Nilo receberá uma das principais usinas hidrelétricas de todo o continente africano” (Fonte):

https://commons.wikimedia.org/wiki/File:River-Nile-near-Aswan.jpg

Imagem 2Lideranças etíopes e sudanesas discutiram aspectos técnicos envolvendo a implementação da Grand Renaissance e a delimitação de fronteiras entre ambos os países” (Fonte):

http://www.sudantribune.com/spip.php?article65328