ÁFRICAANÁLISES DE CONJUNTURA

Importação de cacau marfinense poderá aprofundar desigualdades sociais e ambientais

Embora nas últimas décadas as relações econômicas do Brasil com a África tenham crescido gradativamente, a sua magnitude ainda permanece muito baixa. No ano de 2016, por exemplo, as importações vindas deste continente representaram somente 3,4% do volume total importado.

Entre os inúmeros fatores que podem despontar como razões para um volume tão reduzido, pode-se posicionar as barreiras fitossanitárias impostas pelo Governo brasileiro como uma importante variável explicativa. Estas medidas protecionistas, para além de mitigar a contaminação agropecuária com produtos vindos do estrangeiro, também exercem importante função no controle do volume total importado, com vistas a resguardar os produtores internos dos produtos externos.

A legislação do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) que impedia a importação de cacau da Costa do Marfim seguia esta mesma linha de raciocínio. Em primeiro lugar, a sua razão de ser encontrava-se sustentada no argumento de resguardar os produtores nacionais de cacau das pragas e plantas daninhas como o “cocoa swollen-shoot vírus” (CSSV) e a invasora Striga spp. Em segundo lugar, a sua manutenção ocorria com o objetivo de protegê-los de competidores internacionais.

No entanto, a Instrução Normativa 47/2017, promulgada no final do ano passado (2017), modificou as regras do jogo, permitindo a importação de amêndoas de cacau vindos da Costa do Marfim. Isto posto, vale compreendermos o que impulsionou a liberação da importação e quais as principais consequências envolvendo este fato.

Plantações de cacau na Bahia sofreram quebra na produção nos últimos anos

Quebra de safra e mudanças climáticas. O Brasil configura atualmente como um dos maiores produtores de cacau do mundo, ocupando, em 2016, a sexta posição no ranking de maiores produtores mundiais da commodity, segundo dados da Organização das Nações Unidades para a Alimentação e a Agricultura (FAO). Entre os estados com os maiores volumes de produção estão o Pará, o Espírito Santo e, principalmente, a Bahia.

Historicamente, a economia do sul baiano esteve intimamente pautada na produção de cacau nas grandes fazendas, cujas dinâmicas sociais e econômicas estiveram imortalizadas nos romances de Jorge Amado. Entretanto, com as mudanças climáticas em curso, os produtores baianos e as indústrias processadoras de cacau têm encontrado dificuldades para a manutenção dos níveis de produção e de moagem assinalados no passado.

O ritmo de chuvas ao longo da região sul do estado vem diminuindo expressivamente nas últimas décadas, principalmente devido às intensas taxas de desmatamento para a implementação de sistemas de produção agrícola e de silvicultura. De acordo com a Fundação SOS Mata Atlântica, a Bahia desmatou, para os anos de 2015 e 2016, cerca de 12.300 hectares – montante 207% superior ao registro para o ano de 2014.

A redução das chuvas pode ser entendida como uma “externalidade”* advinda do sistema econômico o qual sustenta a região. A agricultura extensiva reduz as áreas de mata virgem, diminuindo o volume de evapotranspiração das plantas e o montante de água atirado à atmosfera, alterando drasticamente a dinâmica do ciclo da água na região. Pesquisadores afirmam que, como consequência, os estresses climáticos serão cada vez mais intensos, com períodos de estiagem cada vez mais secos.

Como resultado direto das alterações climáticas, o volume produzido pelos produtores baianos de cacau é instável, com eventuais expressivas quebras de safra. Segundo dados da Associação Nacional das Indústrias Processadoras de Cacau (AIPC), em 2016, a produção da commodity no estado foi 34% menor (cerca de 77 mil toneladas a menos) do que o volume total produzido em 2015. Além disso, a AIPC declarou que a indústria processadora, também em 2016, teve o quarto ano seguido de queda no volume de moagem das amêndoas de cacau.

Com a diminuta safra brasileira e, especificamente, baiana, a indústria processadora passou a demandar do Governo Federal a liberação da importação de amêndoas da Costa do Marfim. Este país é, de acordo com a FAO, o maior produtor mundial e o preço de aquisição é consideravelmente menor se comparado a países vizinhos, como Gana e Camarões.

A importação do cacau marfinense é objeto de disputa há muitos anos no Brasil. Por um lado, indústrias processadores vinham lutando para a liberação das compras, com vistas a reduzir a capacidade ociosa, bem como diminuir os custos de produção. Do outro, produtores nacionais temiam o início das importações, devido ao alto risco de contaminação por pragas que a vinda das amêndoas representava.

Externalidades globais. A promulgação da Instrução Normativa 47/2017, no entanto, encerra a disputa e sinaliza clara vitória à indústria processadora, a qual daqui em diante terá à disposição uma das amêndoas de cacau mais baratas do mundo. Em contrapartida, a importação deste produto está também envolvida em uma série de “externalidades globais”, atreladas diretamente a acusações de trabalho infantil e escravo no país africano.

Estima-se que 40% da população marfinense dependa economicamente da produção de cacau, trabalhando direta ou indiretamente na cadeia produtiva desta commodity. Porém, o trabalho nas fazendas é pouco rentável, com salários que se aproximam de dois dólares por dia – montante abaixo do valor que define a linha de pobreza, segundo os parâmetros estabelecidos pelo Banco Mundial.

Para além dos baixos salários pago aos adultos, o reduzido custo de aquisição das amêndoas marfinenses é explicado pelo contínuo uso da mão de obra infantil. Segundo dados da Slave Free Chocolate, há mais de 2 milhões de crianças trabalhando em plantações de cacau na Costa do Marfim e em Gana, sob condições análogas à escravidão.

Predomina o trabalho em condições profundamente precárias nas plantações de cacau na África Ocidental

O emprego da mão de obra infantil nas plantações está integrado a uma longa cadeia de tráfico de crianças. Mergulhadas em um dos países com os piores indicadores de desenvolvimento humano do mundo, algumas famílias vendem seus filhos e filhas a traficantes, os quais os comercializam para fazendeiros de cacau. Em piores casos, parte das crianças também são sequestradas, tanto no interior da Costa do Marfim, quanto em países vizinhos, como a Burkina Faso.

A profunda precarização dos trabalhadores marfinenses nas fazendas de cacau também se dá no âmbito das iminentes condições de insalubridade da atividade. O ínfimo controle sanitário por parte das agências estatais traz como consequência o uso de pesticidas e herbicidas em proporções que trazem sérios riscos à saúde humana, especialmente se o uso destes produtos químicos se faz sem o emprego devido de equipamentos de proteção individual – tal como ocorre, de fato.

Ainda no que diz respeito aos impactos ambientais do cultivo de cacau na Costa do Marfim, semelhante ao que ocorreu no sul baiano com o avanço da agricultura extensiva, o país africano tem presenciado intensas taxas de desmatamento nas últimas décadas. Operando sob uma lógica de derrubada de novas áreas uma vez exaurida a fertilidade dos solos, fazendeiros marfinenses desmatam áreas virgens para implementar novas áreas produtivas. Dado que há poucos inputs químicos para a recuperação das terras, o cacau pode ser vendido a um custo muito baixo. Os reduzidos preços de comercialização, porém, possuem altos impactos ambientais: desde 1960, mais de 80% das florestas tropicais na Costa do Marfim foram desmatadas.

Com o aumento da demanda das amêndoas originadas deste país, a tendência é reforçar um ciclo vicioso e predatório. Analistas e observadores internacionais trouxeram essas questões a público há algum tempo. Em 2015, por exemplo, muito se discutiu sobre como fornecedores de cacau marfinense à Nestlé contavam com trabalho infantil em suas respectivas propriedades. Apesar de cada vez mais escancarada, a precarização do trabalho nesta atividade nos países da África Ocidental ainda não recebeu o devido espaço na esfera pública global.

Cadeias globais e responsabilidades. Em um sistema capitalista global de produção, as próprias externalidades também são alocadas segundo critérios de estratificação. No caso específico da cadeia mundial de cacau, as externalidades ambientais e sociais são cabíveis exclusivamente aos países produtores das amêndoas.

Na outra ponta desta cadeia estão as indústrias processadoras e os consumidores finais dos países ricos e de renda média, que gozam dos preços baixos pago pela amêndoa marfinense, colhida, segundo é afirmado por pesquisadores e observadores internacionais, sob uso extensivo de pesticidas, de herbicidas e de mão de obra infantil e escrava. A grande distância entre os centros de produção e de consumo legitima as formas de trabalho precárias, pois aprofunda a alienação do consumidor frente às condições de trabalho que subjazem a atividade produtiva daquilo que ele adquire.

Ao redor do mundo, há uma série de exemplos de projetos que tentaram aumentar a responsabilidade socioambiental das grandes traders e indústrias de commodities. No caso estadunidense, por exemplo, a Lei Dodd-Frank impôs uma série de demandas às empresas de tecnologia dos Estados Unidos em traçar as origens de suas matérias-primas, com vistas a erradicar a compra de minerais comercializados por grupos envolvidos na guerra civil da República Democrática do Congo.

No caso do cacau marfinense, uma vez liberada a sua importação, o consumidor brasileiro também se faz sujeito a participar diretamente de uma cadeia produtiva permeada por externalidades. Alguns movimentos nacionais visam combater essas questões, atentando-se especialmente à questão do trabalho infantil dentro e fora do Brasil. Porém, a mitigação total dos efeitos colaterais acarretados com a promulgação da Instrução Normativa 47/2017 passa, principalmente, pela implementação de futuras normativas que aumentam a responsabilidade socioambiental das indústrias processadoras de cacau.

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Nota:

* Externalidades é um conceito cunhado entre economistas para dimensionar as consequências diretamente atreladas a um modo específico de produção, distribuição e consumo de mercadorias e serviços. Usualmente, as externalidades são entendidas como consequências não contabilizadas pelos agentes econômicos em seus preços de comercialização, fato que impede a futura alocação financeira necessária para a mitigação das externalidades. A sua mensuração, por sua vez, vai além da quantificação financeira, podendo também ser dimensionada em termos sociais, culturais e físicos.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Importação brasileira de cacau marfinense poderá estar associada a trabalho infantil e escravo” (Fonte):

https://actions.sumofus.org/a/ferrero-stop-profiting-from-the-exploitation-of-millions-of-children-in-cocoa-plantations

Imagem 2Plantações de cacau na Bahia sofreram quebra na produção nos últimos anos” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Cacauicultura

Imagem 3Predomina o trabalho em condições profundamente precárias nas plantações de cacau na África Ocidental” (Fonte):

https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Cocoa_farmer_David_Kebu_Jnr_holding_the_finished_product,_dried_cocoa_beans_ready_for_export._(10687070725).jpg

ÁFRICANOTAS ANALÍTICASPOLÍTICA INTERNACIONAL

Na Etiópia, novo Primeiro-Ministro inicia articulação política com vozes opositoras

Ao longo da semana passada, o primeiro-ministro Abiy Ahmed participou de uma série de reuniões e eventos com membros de partidos opositores e da sociedade civil. As conversas fazem parte de um planejado processo de estabilização política e social na Etiópia, em face dos inúmeros protestos e conflitos sociais que assolam o país nos últimos anos.

Na quinta-feira passada (12 de abril de 2018), Ahmed esteve presente na cidade de Ambo, localizada na província de Oromo e centro das manifestações que ocorrem na região desde 2015. Na ocasião, o Primeiro-Ministro conferiu um discurso aos moradores locais, no qual declarou que o país vivencia um gradativo processo de abertura política e de crescente transparência às demandas de grupos étnicos tradicionalmente marginalizados do jogo político.

Ahmed inicia articulação política com vozes opositoras

Nós queremos trabalhar de mãos dadas com vocês. O que nós dizemos e o que nós fazemos devem estar em perfeita combinação”, declarou Ahmed. Desde o início do ano, a Frente Democrática Revolucionária do Povo Etíope (FDRPE) – o partido governista – libertou mais de 6 mil presos políticos, com o intuito de atenuar os conflitos entre manifestantes e as forças policiais.

Já na última sexta-feira (13 de abril), foi a vez de membros de partidos políticos da oposição se encontrarem com o novo Chefe de Governo. De acordo com a rede de televisão estatal FBC, Ahmed se reuniu com autoridades políticas nacionais para “ampliar o espaço político”, com vistas a “convocar os partidos para preparar um diálogo pacífico e futuras negociações”. Participaram também da reunião Merera Gudina e Bekele Gerba: ambos haviam sido presos sob acusações de terem promovido manifestações contra o Governo, porém foram libertados no início deste ano.

Em termos estratégicos, a Etiópia ocupa um papel central para os países ricos. Localizada no chifre da África, o Governo etíope sempre se apresentou como importante aliado no combate a grupos terroristas radicados nas nações adjacentes, como a Somália. No entanto, a instabilidade social instaurada com as manifestações civis pôs em xeque a posição da Etiópia enquanto porto-seguro em uma região conturbada por conflitos.

Ahmed, por ser o primeiro Chefe de Governo advindo da etnia Oromo, é visto com esperança tanto por observadores internacionais quanto pela classe política dominante na Etiópia. A sua aproximação com a população pode devolver a estabilidade e, com isso, a capacidade de o país em atuar no combate a grupos terroristas vizinhos. Além disso, ao atender as reivindicações populares e ampliar em alguma medida o espaço político a vozes opositoras, o FDRPE caminha rumo à estabilização política, fato que auxilia na sua manutenção como partido dominante no médio e longo prazo.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Etiópia à espera de uma solução política com o novo Primeiro-Ministro” (Fonte):

https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Flag_of_Ethiopia.svg

Imagem 2Ahmed inicia articulação política com vozes opositoras” (Fonte):

https://twitter.com/pm_abiyahmed/media

ÁFRICANOTAS ANALÍTICASPOLÍTICA INTERNACIONAL

Em meio a um Estado de Emergência, Etiópia define o seu novo Primeiro-Ministro

Na semana passada, a Etiópia escolheu o seu novo Primeiro-Ministro. Trata-se de Abiy Ahmed, o qual ocupará o posto mais alto do Governo, após a renúncia de Hailemariam Desalegn. Entre as expectativas e as demandas que circundam o novo líder, a principal está diretamente relacionada a sua capacidade em gerir os conflitos sociais que desestabilizam significativa parte da nação.

A Etiópia vivencia um estado de emergência desde a renúncia de Desalegn, fato que ilustra a conjuntura social que aguarda o novo Primeiro-Ministro

A Etiópia vivencia um Estado de Emergência, declarado logo após a renúncia de Desalegn. Segundo dados liberados por fontes locais, mais de mil pessoas foram aprisionadas desde a sua declaração. Este é o segundo Estado de Emergência nos últimos dois anos, fato que ilustra a alta temperatura dos conflitos sociais no país e o delicado cenário que aguarda a posse do novo líder governamental etíope.

Ahmed pertence à etnia Oromo, um dos principais grupos que estiveram envolvidos na intensa onda de manifestações civis iniciadas em 2016. Sua nomeação pode ser entendida como decisão estratégica por parte da Frente Democrática Revolucionária dos Povos Etíopes (FDRPE) perante a iminente demanda de maior representatividade política por parte dos Oromo. O novo Primeiro-Ministro tem 42 anos de idade e foi eleito no mês passado como líder da Organização Democrática dos Povos Oromo (ODPO) – partido que integra a FDRPE. Antes de sua nomeação, ele ocupava o cargo de Ministro da Ciência e Tecnologia.

No que diz respeito à economia nacional, espera-se que Ahmed dê continuidade ao processo de crescimento econômico que a Etiópia vivencia nos últimos anos. Liderado pelo Growth Transformation Plan (GTP II), a política econômica etíope tem como objetivo primordial transformar a economia para alcançar nível de renda média até 2025. Para tanto, almeja-se dar amplo incentivo para o desenvolvimento das atividades industriais, substituindo a agropecuária como principal setor econômico.

Entretanto, significativa parte desta transformação se deu às custas de grandes empreendimentos que pouco contaram com a participação da população local na sua concepção – tal qual foi o caso da barragem Grand Renaissance e do projeto de expansão urbana da capital Addis Ababa. Nesse sentido, pode-se entender a implementação destes empreendimentos como ingrediente crucial para o surgimento das manifestações civis.

Por essa razão, Ahmed deverá proporcionar um projeto de desenvolvimento econômico mais inclusivo, participativo e transparente, para poder mitigar os conflitos entre alguns grupos étnicos e as forças policiais.

Analistas apontam que desde o novo período democrático no país, iniciado em 1991, pouco espaço tem sido dado à participação coletiva na construção de políticas públicas. Assim, mais além do que uma consequência direta das lutas envolvendo a representatividade política, a atual conjuntura social da Etiópia demonstra como políticas econômicas pouco inclusivas irrompem em convulsões sociais no médio e longo prazo – fato que prejudica a sustentação do crescimento econômico e do desenvolvimento social como um todo.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Abiy Ahmed será o novo PrimeiroMinistro etíope” (Fonte):

http://www.africanews.com/2018/03/27/ethiopia-s-new-prime-minister-is-abiy-ahmed-head-of-eprdf-s-oromo-bloc/

Imagem 2 A Etiópia vivencia um estado de emergência desde a renúncia de Desalegn, fato que ilustra a conjuntura social que aguarda o novo PrimeiroMinistro” (Fonte):

https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Hailemariam_Desalegn_in_Viena_Nov_4_2014_(1).jpg

                                                                                       

ÁfricaCOOPERAÇÃO INTERNACIONALNOTAS ANALÍTICAS

Clima e conflitos sociais impulsionam ajuda humanitária na Etiópia

Mediante a severa crise hídrica que assola a Etiópia nos últimos três anos, cresceu vertiginosamente o número de refugiados internos no país. Estima-se que ao longo deste ano (2018) cerca de 1,7 milhão de pessoas precisarão de ajuda humanitária para poder satisfazer as condições mínimas de sobrevivência.

OIM pediu quase 90 milhões de dólares para ajuda humanitária na Etiópia

Em face deste contexto, a Organização Internacional para as Migrações (OIM) anunciou na semana passada um plano para levantar 88,5 milhões de dólares para os projetos de assistência humanitária na Etiópia. Entre as principais iniciativas a serem desenvolvidas está a estruturação de campos de refugiados e a oferta de insumos básicos, como abrigo, água potável, comida e saneamento. Até o momento, somente 11% de todo este montante foi atingido, o que indica a necessidade de maiores esforços para futuras doações.

Estima-se que há mais de 500 mil migrantes associados com os deslocamentos ocorridos devido às perdas na agropecuária após as sucessivas secas. Do outro lado, pouco mais de 1,1 milhão dos migrantes dizem respeito àqueles que se deslocaram devido a conflitos sociais, tais como os embates ocorridos ao longo da fronteira entre as regiões de Oromo e Somali. Este território, enquanto local de disputa pelas terras férteis para o desenvolvimento da pecuária pastoril, abriga um conflito histórico envolvendo a apropriação e exploração de escassos recursos naturais.

Soma-se ao contingente total de migrantes aqueles que regressarão da Arábia Saudita, após este país anunciar, em março do ano passado (2017), que todos os migrantes ilegais deveriam voltar impreterivelmente aos seus locais de origem. Muitos cidadãos etíopes trabalham nesse país e, atualmente, estima-se que mais de 140 mil já regressaram após o anúncio.

Por fim, há um expressivo contingente advindo das nações adjacentes. A Etiópia é envolvida por alguns Estados que vivenciam instáveis condições, seja por causa de conflitos entre grupos sociais ou por crises políticas. São os casos da Somália e do Sudão do Sul, os quais estão mergulhados, respectivamente, em conflitos envolvendo a disputa pelo poder central e em um sangrento processo de independência. Há, aproximadamente, pouco menos de 90 mil sudaneses e somalis vivendo na Etiópia.

Com vistas a esta atribulada conjuntura, a OIM busca adotar uma política de apoio sistêmico à Etiópia na questão migratória, bem como tornar o país mais “resiliente” a crises naturais. Conforme afirmou Mohammed Abdiker, diretor de Operações e Emergências da OIM: “Nós queremos que este pedido ponha fim ao método ‘Band-Aid’* e que comecemos com um pensamento de longo prazo. Milhões de pessoas estão em urgente necessidade na Etiópia, mas nós esperamos que as medidas deste ano para salvar vidas signifiquem que para o próximo ano as comunidades serão mais resilientes aos estresses climáticos como a seca”.

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Nota:

* O método ‘Band-Aid’ pode ser compreendido, no excerto selecionado, como uma forma de assistência humanitária paliativa. Nesses moldes, a ajuda se foca no atendimento das necessidades mais iminentes sem, contudo, estruturar um plano de longo prazo de adaptação das comunidades frente aos riscos climáticos existentes (fato que iria prevenir novas crises humanitárias).

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Ajuda humanitária na Etiópia deverá abordar questões envolvendo crise hídrica e conflitos sociais” (Fonte):

http://www.circleofblue.org/2016/world/ethiopia-hunger-reaches-emergency-levels/

Imagem 2 OIM pediu quase 90 milhões de dólares para ajuda humanitária na Etiópia” (Fonte):

https://nacoesunidas.org/agencia/oim/

                                                                            

ÁFRICANOTAS ANALÍTICASPOLÍTICA INTERNACIONAL

Permanecem as disputas para o cargo de Primeiro-Ministro da Etiópia

Com a renúncia do antigo Primeiro-Ministro, Hailemariam Desalegn, a Etiópia vivencia um vácuo político à espera de um novo Chefe de Governo. A conjuntura se faz ainda mais agravada com a intensa onda de protestos que assola o país há mais de dois anos, onde os grupos étnicos Oromo e Amhara pedem por maior representatividade política.

Neste sentido, o anúncio do novo Primeiro-Ministro pela Frente Democrática Revolucionária dos Povos Etíopes (FDRPE) está envolto de expectativas, tanto por parte dos cidadãos locais quanto por parte dos observadores internacionais. Espera-se que a próxima liderança venha a contemplar as reivindicações dos Oromo e dos Amhara, arrefecendo a onda de protestos e manifestações ao redor do país.

A FDRPE é uma coalizão política formada por quatro partidos diferentes: o Movimento Democrático do Povo Sul-Etíope (MDPSE), o Movimento Democrático Nacional Amárico (MDNA), a Organização Democrática dos Povos Oromo (ODPO) e a Frente de Libertação do Povo Tigré (FLPT). Atualmente, a FDRPE controla todos os 547 assentos do Parlamento, o que implica que o próximo líder deverá sair, necessariamente, de algum destes quatro partidos.

A renúncia de Desalegn abriu um vácuo político, porém uma nova oportunidade para a estabilização social no país

Com papel central na deposição do antigo ditador Mengistu, em 1991, o FLPT é visto como o principal partido da FDRPE, ocupando os principais postos governamentais desde então. O seu protagonismo tem sido um dos principais fatores de motivação às atuais manifestações civis. Dessa maneira, será pouco provável que o novo Primeiro-Ministro venha do FLPT.

Da mesma forma, pode-se esperar uma reduzida probabilidade de que a nova liderança venha do MDPSE, uma vez que se trata do partido de Desalegn. Isto não despertaria entre a população a ideia de uma efetiva mudança nos rumos políticos da Etiópia, fato que poderia inclusive aprofundar os conflitos entre a população e as forças policiais. Atualmente, vigora no país o “estado de emergência” – condição proclamada pelo Governo um dia após a renúncia do antigo Primeiro-Ministro – e um aprofundamento no número de protestos e mobilizações poderia aumentar o número de feridos e mortos, tendo em vista o maior controle policial nesta conjuntura.

Entre as disputas políticas dentro da FDRPE, ganha espaço o nome de Abiye Ahmed, da ODPO. Ministro da Ciência e Tecnologia, Ahmed é visto como um possível candidato a ocupar o cargo em disputa, uma vez que sua nomeação poderia sinalizar um avanço rumo à contemplação das reivindicações dos grupos étnicos marginalizados do jogo político. Entretanto, alguns analistas duvidam que ele poderia de fato conduzir as reformas necessárias para trazer de volta a estabilidade social.

Portanto, pode-se aguardar para os próximos dias um intenso debate envolvendo o nome mais apropriado para o cargo mais alto do Governo etíope. Acima de tudo, a nomeação do novo Primeiro-Ministro terá como importante fator de influência a atual instabilidade social e política, sendo crucial se pensar em que medida o novo nome será capaz de estabilizar os ânimos, consolidando assim um cenário estável e propício à continuidade do crescimento econômico.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Bandeira da Etiópia / A próxima liderança política terá como grande desafio a estabilização do regime federalista étnico no qual a Etiópia se sustenta” (Fonte):

https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Flag_of_Ethiopia.svg

Imagem 2A renúncia de Desalegn abriu um vácuo político, porém uma nova oportunidade para a estabilização social no país” (Fonte):

https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Hailemariam_Desalegn_-_Closing_Plenary-_Africa%27s_Next_Chapter_-_World_Economic_Forum_on_Africa_2011.jpg

ÁfricaCOOPERAÇÃO INTERNACIONALNOTAS ANALÍTICAS

Banco Africano de Desenvolvimento vai incentivar a agricultura em Moçambique

Na semana passada, o Banco Africano de Desenvolvimento (BAD) assinou um acordo de empréstimo de aproximadamente 30 milhões de dólares ao Governo de Moçambique. Segundo os termos do contrato, o montante financeiro será direcionado para investimentos na agricultura, com o intuito de aumentar o patamar de produtividade e a participação dos produtos agropecuários na pauta de exportação moçambicana.

Banco Africano de Desenvolvimento será um dos principais incentivadores da agricultura em Moçambique

Expandir as atividades do primeiro setor se apresenta como uma iniciativa estratégica para o desenvolvimento sustentável neste país. Os produtos agropecuários representaram, em 2015, somente 19% do total valor exportado. Ampla maioria dos bens de exportação tratam-se de materiais como o alumínio, o gás natural e o carvão mineral. Uma maior diversificação da pauta produtiva permitiria o aumento no número de empregos formados, bem como tornaria a economia menos suscetível a variações nos preços internacionais das principais commodities de exportação.

O descobrimento de gás natural no norte moçambicano tende a transformar a economia nacional, mas com o intuito de aproveitarmos estes recursos, Moçambique necessita investir na diversificação econômica. É por isto que o BAD está investindo na agricultura e na capacitação pessoal, a fim de garantir que o país tenha uma sólida base econômica”, afirmou Pietro Toigo, representante de Moçambique no corpo diretor do BAD.

Para além da diversificação econômica, outro fator determinante na assinatura do contrato de empréstimo é a atual crise hídrica no sul do país. De acordo com a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), como resultado direto do El Niño no ano passado (2017), uma série de pequenos agricultores sofreram severamente com a queda drástica no ritmo de chuvas, o que impactou de maneira negativa no nível de produção agrícola e na renda auferida. Com efeito, pode-se esperar para os próximos meses um aumento gradativo no preço de alguns alimentos – fato que poderá trazer futuras pressões inflacionárias.

Entre as iniciativas previstas para receber o aporte financeiro do BAD, estão aquelas compromissadas a desenvolverem tecnologias de irrigação, com vistas a reduzir o impacto da seca e incrementar a resiliência dos pequenos produtores frente às mudanças climáticas em curso. Da mesma forma, estão previstos também investimentos na Universidade de Lusio, no norte do país, a fim de incentivar pesquisas e desenvolvimento de inovações agronômicas.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Agricultura é importante vetor do desenvolvimento sustentável em Moçambique” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Women_and_agriculture_in_Sub-Saharan_Africa

Imagem 2 Banco Africano de Desenvolvimento será um dos principais incentivadores da agricultura em Moçambique” (Fonte):

https://www.afdb.org/en/about-us/corporate-information/african-development-fund-adf/about-the-adf/