AMÉRICA LATINAECONOMIA INTERNACIONALNOTAS ANALÍTICAS

O fechamento da fábrica da Goodyear na Venezuela

Faz duas semanas, a empresa norte-americana Goodyear Tire and Rubber Company decidiu fechar sua filial em território venezuelano, a CA Goodyear Venezuela, encerrando as atividades da única fábrica que tinha no país, com capacidade de produção de até 10.500 unidades diárias, mas que estava reduzida à tiragem entre 1.000 e 1.900 unidades por dia, ou seja, a aproximadamente 10% de seu potencial.

A empresa declarou não ter mais condições de permanecer na Venezuela, ou de manter qualquer atividade, devido à crise econômica que se vivencia, graças também às sanções que os EUA impuseram, as quais aumentaram o problema, bem como por culpa das dificuldades impostas pelo Governo, que inibiram ainda mais a possibilidade de a empresa se manter.  Devido a essas medidas governamentais, os empresários de vários segmentos se viram na situação de não suportar as exigências que há muito tempo tentam compensar as ações administrativas do Regime bolivariano, as quais são consideradas inadequadas por expressiva gama de economistas no país e no exterior.

A título de exemplo, com a crise econômica instalada, principalmente depois da queda das receitas geradas pela extração de petróleo, quando o valor do barril despencou no mercado internacional, o governo venezuelano passou a pagar as contas públicas imprimindo moeda, gerando a inflação que hoje chega a casa de 1.000.000% ao ano, segundo cálculo apresentado pela Assembleia Nacional. A inflação atingiu diretamente as camadas populares e os governantes buscaram corrigir a perda do poder de compra desses segmentos da população obrigando os empresários a aumentarem os salários dos funcionários de suas empresas, criando um ciclo que certamente resultaria em falências, tal qual resultou.

Paul Litchfield, inventor do pneu para carros sem câmara que promoveu a parceria com o Zeppelin e mais tarde tornou-se presidente da Goodyear e presidente do Conselho

A Goodyear é apenas mais uma das recentes empresas a fechar as portas. Antes dela saíram muitas outras, a destacar a empresa de alimentos Kellogg, e a fabricante de produtos de higiene pessoal Kimberley Clark.

Para cumprir com as obrigações trabalhistas, os funcionários foram pagos com pneus, cada um recebendo 10 unidades, e, segundo noticiado, aceitaram porque é mais vantajoso ter este produto de alta qualidade para vender no mercado negro do que receber dinheiro que se desvalorizaria rapidamente.  

O governo Maduro reagiu acusando a empresa de ter realizado tal ação como parte da guerra econômica contra a recuperação da crise e ordenou ao Ministério Público que realizasse uma investigação penal contra os seus proprietários, pois considerou que isso foi um ato de “sabotagem e boicote”.

Decidiu também encampar a fábrica para restaurar as operações, visando, de acordo com declaração governamental, dar “…proteção necessária conforme o estabelecido na Constituição e na Lei Orgânica do Trabalho, das Trabalhadoras e Trabalhadores, em vigor”. Contudo, passadas essas duas semanas dos anúncios e declarações, ainda se espera a definição das medidas concretas que poderão manter a estrutura, diante de intenções que são contrárias à lógica econômica.

Acredita-se que os acordos econômicos, técnicos e militares assinados recentemente pelo presidente venezuelano Nicolás Maduro com a Federação Russa poderão dar fôlego ao seu governo para preservar estruturas corporativas e empresas dessa natureza, que foram encampadas, mas a Goodyear é apenas uma das muitas que deixaram o país, acrescentando-se a isso o êxodo populacional que está ocorrendo, algo que vem reduzindo a capacidade produtiva venezuelana, bem como minando sua mão de obra e o mercado consumidor.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Pneu furado” (Fonte): https://dinamicarpneus.com.br/wp-content/uploads/2018/08/agosto6-pneu-furado.jpg

Imagem 2 Paul Litchfield, inventor do pneu para carros sem câmara que promoveu a parceria com o Zeppelin e mais tarde tornou-se presidente da Goodyear e presidente do Conselho” (Fonte): https://en.wikipedia.org/wiki/Goodyear_Tire_and_Rubber_Company#/media/File:PaulLitchfield.jpg

AMÉRICA DO NORTENOTAS ANALÍTICASPOLÍTICA INTERNACIONAL

Discurso de Donald Trump na ONU consolida Realismo na atualidade das Relações Internacionais

Conforme vem sendo visto na mídia, o discurso proferido pelo presidente norte-americano Donald Trump na 73a Assembleia Geral das Nações Unidas, ontem, dia 25 de setembro (2018), consolida a postura de retorno ao comportamento realista nas relações internacionais[1], mostrando que as posturas baseadas nos interesses nacionais e na busca pelo poder tenderão a influenciar os comportamentos dos demais Estados pelo mundo, por serem os procedimentos que norteiam concretamente as formulações das políticas públicas nos EUA, em especial a sua política externa.

Bolsa de Valores de Nova York, símbolo do poder econômico dos EUA

Donald Trump foi eleito com o argumento do “America First” (ou, “Estados Unidos em Primeiro Lugar”), mostrando que privilegia as decisões que digam respeito ao reposicionamento estadunidense como ponto de partida das ações mundiais, bem como aquelas que mantenham seu país como foco prioritário para a economia internacional e o coloquem sempre como o condutor nas negociações pelo mundo, priorizando os acordos bilaterais em relação aos coletivos, uma vez que, neste caso, se deve antever uma renúncia a parcelas de ganhos, algo que ele desconsidera em seu posicionamento. No entanto, ao longo do primeiro momento de governo, Trump fez o processo de adaptação do discurso à realidade, uma vez que teve de acomodar as demandas de aliados, os quais, em alguns sentidos, divergiam e ainda divergem dos posicionamentos do Mandatário dos EUA.

No discurso pronunciado ontem, Trump foi claro, em todos os aspectos, de que a lógica da “política do poder[2] é o componente que deve orientar a conduta mundial, uma vez que os Estados Unidos representam o maior peso para gerar equilíbrio ou desequilíbrio na política internacional, interferindo nas decisões dos demais atores.

Seu discurso se concentrou em mostrar o que considera serem conquistas econômicas internas e o posicionamento que deve manter globalmente. O foco principal foi: o combate ao multilateralismo e que as ações voltadas para os interesses dos EUA prevalecerão, afastando qualquer ideia de governança global[3], uma vez que os interesses são o comércio bilateral e os acordos bilaterais. Como declarou no discurso: “É por isso que os EUA sempre escolherão a independência e a cooperação sobre a governança global, e eu honro o direito de todas as nações nesta sala de buscar seus próprios costumes, crenças e tradições. Os Estados Unidos não lhe dirão como viver, trabalhar ou adorar. Nós só pedimos que você honre a nossa soberania em troca[4].

Sala usada pelo Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas no Palácio das Nações, em Genebra, Suíça

O principal inimigo estatal citado foi o Irã, ao qual atribuiu a responsabilidade de desestabilização do Oriente Médio, poupando a Rússia de críticas diretas, excetuando-se quando elogiou a Polônia pelo investimento na criação de rede alternativa de gasoduto, e alertou a Alemanha sobre sua dependência do gás russo. Da mesma forma, a Coreia do Norte, que no ano passado (2017) foi ameaçada com a guerra, recebeu elogios pelos avanços no diálogo. A China foi citada quando tratou das perdas comerciais dos norte-americanos e acusou países de desrespeitarem a regras do comércio internacional estabelecidas pela OMC, e também, indiretamente, pelo desrespeito à propriedade intelectual. Além disso, deixou clara a posição de combate ao regime venezuelano, ao qual prescreve que se deve enfrentar diretamente com sanções, deixando no ar a questão da interferência coletiva no país para solucionar a crise que este vive.

O ponto principal, contudo, foi mostrar que o posicionamento realista deverá ser o motor das relações internacionais, afirmando que não apoiará as instituições, organismos e fóruns internacionais. Foi claro: “A política americana de realismo de princípios significa que não seremos reféns de ideologias antigas e desacreditadas e de especialistas que se mostraram errados ao longo dos anos. Isto é verdade, não apenas em questões de paz, mas em questões de prosperidade[5].

Seguindo tal linha: reforçou a abandono do Conselho dos Direitos Humanos da ONU (“Eu falei antes deste órgão no ano passado e avisei que o Conselho de Direitos Humanos da ONU havia se tornado um grave constrangimento para essa instituição. Protegendo abusivos direitos humanos ao atacar a América e seus muitos amigos. Nossa embaixadora nas Nações Unidas, Nikki Haley, apresentou uma agenda clara para a reforma, mas apesar das repetidas advertências, nenhuma ação foi tomada. Assim, os Estados Unidos tomaram o único caminho responsável: nós nos retiramos do Conselho de Direitos Humanos e não voltaremos até que a verdadeira reforma seja promulgada”)[6]; condenou o Tribunal Penal Internacional (“Por razões semelhantes, os Estados Unidos não darão apoio e reconhecimento ao Tribunal Penal Internacional. No que nos diz respeito, o TPI não tem legitimidade ou autoridade. O TPI reivindica jurisdição quase universal sobre os cidadãos de todos os países, violando todos os princípios de justiça, equidade e devido processo. Jamais renderemos a soberania da América a um corpo não eleito e inexplicável. A América é governada por americanos. Rejeitamos a ideologia do globalismo e aceitamos a ideologia do patriotismo”)[7]; e, indiretamente, mostrou que a ONU não tem eficiência, o que poderia levar um observador a interpretar que, por essa razão, ela não deve ser seguida integralmente em suas deliberações, enfraquecendo-a. Nesse sentido, estará fragilizada principalmente se o financiamento estadunidense ao Organismo, no que tange as questões de Segurança, forem retirados, tal qual declarou: “Os EUA estão comprometidos em tornar a ONU mais eficaz e responsável. Eu já disse muitas vezes que a ONU tem um potencial ilimitado. Como parte do nosso esforço de reforma, eu disse aos nossos negociadores que os Estados Unidos não pagariam mais de 25% do orçamento de manutenção da paz da ONU. Isso incentivará outros países a se envolverem, envolverem-se e também compartilharem esse grande fardo. Estamos trabalhando para transferir mais do nosso financiamento de contribuições fixas para voluntárias, para que possamos direcionar recursos americanos para programas com o melhor registro de sucesso[8].

Xi Jinping, Presidente da China, principal potência econômica a defender o multilateralismo

As declarações de Trump não trouxeram novidades em relação a sua postura política, mas reforçaram que o mundo está mergulhado diretamente no realismo, apesar de dividido discursivamente entre unilateralista(s) e multilateralistas, que tem na França, na Rússia e China os principais expoentes, embora, curiosamente, o multilateralismo professado possa, “em realidade”, estar a serviço dos interesses nacionais desses países, logo também caminhando de acordo com o realismo, mas adaptado à atualidade, e não voltado para o estabelecimento de uma nova ordem mundial.

Como apontam os especialistas, esta nova ordem que se imagina, para abandonar definitivamente o século XX, teria de seguir no sentido da Governança Global, que se imagina ser a realidade do século XXI, algo possível graças aos avanços tecnológicos que permitiram maior comunicação, produtividade e avanço das sociedades civis em relação aos Estados, gerando também maior interação internacional. Pelo que vem sendo descrito por observadores, concretamente, o mundo está “realista” e ainda no século XX.

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Notas:

[1] Os autores realistas em relações internacionais afirmam que esta escola tem como ponto de partida observar o mundo tal qual é, e não como se desejaria que fosse, de forma a apregoar que, concretamente, as relações entre os povos se dão em termos do poder, ou na sua busca, sendo esta conduta o que há de essencial na realidade humana. Nesse sentido, o ator que recebe o foco das atenções nas relações internacionais é o Estado, ou seja, são as unidades Políticas. O Estado trabalha em busca dos próprios interesses nacionais, visando sobreviver e expandir, algo que se consegue apenas por meio da busca, manutenção e aumento de poder, pois este é o meio pelo qual se consegue garantir a soberania e consolidar os interesses, sobrevivendo no meio internacional, que é anárquico, no sentido de não haver poder superior, um governo mundial, que organize as relações entre os povos. Ao longo do tempo, o poder foi avaliado de várias formas, mas sempre recebeu destaque a capacidade de fazer a guerra, por ser o poder militar o que define as principais condições de imposição da vontade de um Estado sobre outro. As mudanças nas relações internacionais no final do século XX trouxeram novas formas de entender o poder.

[2] A “política do poder” é uma maneira de apresentar ou entender as relações internacionais a partir da lógica realista, onde, numa realidade anárquica, os Estados competem por recursos limitados, de maneira que os ganhos de um ator estatal representam as perdas para outro, fazendo com que a competição leve à busca constante por mais poder para que haja ganhos reais nesta competição. Neste sentido, variadas formas de constrangimento ao concorrente são admitidas, sendo dado muito destaque aos elementos bélicos.

[3] Ao longo das últimas décadas do século XX, em função dos avanços tecnológicos e da democracia, novos tipos de atores passaram a ter voz nas relações internacionais, sendo eles, além dos Estados: as Instituições Transnacionais, os Organismos Internacionais, as Organizações Não-Governamentais Internacionais, as Corporações Multinacionais, e os denominados atores difusos, tais como os narcotráfico, terrorismo e organizações criminosas. Com a emergência desses novos tipos de atores e a redução da capacidade dos Estados de tomarem decisões unilateralmente, estes cederam parte dessa capacidade para a tomadas de decisões coletivas, a serem negociadas em fóruns e/ou em organismos internacionais criados para gerenciar os compromissos assumidos coletivamente, aos quais se dá o nome de Regimes Internacionais. A Organização Internacional do Comércio, por exemplo, é um organismo gerado como regime internacional. Nesse sentido, a Governança Global consistiria na imposição das decisões tomadas coletivamente e assumidas pelos Estados, ressaltando-se ainda que os atores difusos, apesar de novos tipos de atores, são excrecências do processo, e não entram nas negociações, pois são os criminosos, que devem ser levados em conta por estarem atuando nas relações internacionais de forma simulada e travestidos dos corpos dos demais atores, e trazem problemas a serem resolvidos em busca de uma ordem mundial.

[4] That is why America will always choose independence and cooperation over global governance, and I honor the right of every nation in this room to pursue its own customs, beliefs and traditions. The United States will not tell you how to live, work, or worship. We only ask that you honor our sovereignty in return”.

[5] America’s policy of principled realism means that we will not be held hostage to old, discredited ideology and experts that have been proven wrong over the years. This is true, not only in matters of peace, but in matters of prosperity”.

[6] I spoke before this body last year and warned that the UN’s Human Rights Council had become a grave embarrassment to this institution. Shielding egregious human rights abusers while bashing America and its many friends. Our ambassador to the United Nations, Nikki Haley, laid out a clear agenda for reform, but despite repeated warnings, no action at all was taken. So the United States took the only responsible course: we withdrew from the Human Rights Council and we will not return until real reform is enacted”.

[7] For similar reasons, the United States will provide no support and recognition for the International Criminal Court. As far as we are concerned the ICC has no legitimacy or authority. The ICC claims near universal jurisdiction over the citizens of every country, violating all principles of justice, fairness and due process. We will never surrender America’s sovereignty to an unelected, unaccountable body. America is governed by Americans. We reject the ideology of globalism and accept the ideology of patriotism”.

[8] The US is committed to making the UN more effective and accountable. I have said many times that the UN has unlimited potential. As part of our reform effort, I have told our negotiators that the United States will not pay more than 25 percent of the UN peacekeeping budget. This will encourage other countries to step up, get involved, and also share in this large burden. We are working to shift more of our funding from assessed contributions to voluntary so that we can target American resources to programs with the best record of success”.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Donald Trump” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Donald_Trump#/media/File:Donald_Trump_official_portrait.jpg

Imagem 2 Bolsa de Valores de Nova York, símbolo do poder econômico dos EUA” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Economia_dos_Estados_Unidos#/media/File:NYC_NYSE.jpg

Imagem 3 Sala usada pelo Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas no Palácio das Nações, em Genebra, Suíça” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Conselho_de_Direitos_Humanos_das_Nações_Unidas#/media/File:UN_Geneva_Human_Rights_and_Alliance_of_Civilizations_Room.jpg

Imagem 4 Xi Jinping, Presidente da China, principal potência econômica a defender o multilateralismo” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Xi_Jinping#/media/File:Prime_Minister_Narendra_Modi_with_Chinese_President_Xi_Jinping_(cropped).jpg

                                                                                             

AMÉRICA LATINANOTAS ANALÍTICASPOLÍTICA INTERNACIONAL

Nicolás Maduro assina acordos na China, em busca de saídas para crise na Venezuela

Acompanhado de equipe, o presidente venezuelano Nicolás Maduro viajou à China na semana passada, tendo, na sexta-feira, dia 14 de setembro (2018), realizado encontro com o presidente chinês Xi Jinping, com o primeiro-ministro Li Keqiang e com o conselheiro de Estado e Ministro das Relações Exteriores, Wang Yi. Os venezuelanos assinaram quase três dezenas de acordos de cooperação e buscaram apoio financeiro, além de terem conversado para abrir perspectivas positivas às empresas chinesas, com o intuito de receber investimentos. Também buscou-se articular ações coletivas dos dois governos em vários setores, dentre eles petróleo, gás, mineração, tecnologia, segurança e finanças, ressaltando-se que o setor de petróleo e gás está submetido às sanções dos EUA.

Logo da Corte Penal Internacional

Analistas apontam que a viagem representou uma esperança do mandatário venezuelano para garantir formas de preservar seu governo, uma vez que a crise econômica chegou a um patamar no qual são poucas saídas disponíveis para que o país consiga se recuperar economicamente e volte a ter estabilidade.

Conforme está sendo disseminado na mídia, Maduro detém neste momento baixo índice de popularidade, tendo sido apresentada uma pesquisa de opinião em que mais de 80% do povo deseja que o Presidente e o bolivarianismo deixem o poder.

O cerco ao regime venezuelano tem aumentado. Tem sido vários os anúncios de que Maduro e o Governo da Venezuela foram ou serão denunciados perante o Tribunal Penal Internacional e, nesta semana, foi declarado que Argentina, Chile, Colômbia, Paraguai e Peru assinaram uma carta acusando o mandatário bolivariano perante a Corte Penal Internacional, por violação dos Direitos Humanos de forma sistemática e, especificamente, por crimes de lesa humanidade.

Nesse sentido, a ida à China se apresentou como um alento ao governante, pois a situação interna na Venezuela tem levado cada vez mais ao ponto de ruptura, já que a oposição interna e externa tem sido cada vez intensa e poucos Estados têm dado apoio a Maduro, e por razões diferentes da concordância com suas políticas, sendo especialmente para recuperar investimentos que foram feitos e representam perdas para esses países investidores. Esses são os casos dos chineses e dos russos, que precisam garantir o retorno do que foi aportado de recursos no país.

Maduro em Restaurante na Turquia” (Fonte – Print Screen do vídeo divulgado no YouTube)

Acreditam também os observadores internacionais que a política externa norte-americana tem sido uma das principias razões para que essas grandes potências acabem apoiando o regime venezuelano, uma vez que se trataria de mais um aliado para enfrentar as pressões estadunidenses feitas contra China, com a guerra comercial iniciada, e contra a Federação Russa, devido aos enfrentamentos por razões geoestratégicas e geopolíticas, principalmente no Oriente Médio e na Europa Oriental.

O quadro que se desenha é que esses Estados percebem o governo venezuelano como um aliado para proporcionar outro ponto de resistência aos norte-americanos, uma vez que eles estão submetidos a embates com os EUA. Sendo assim, as análises convergem para a interpretação de que essas alianças e acordos feitas por Nicolás Maduro, acabam oxigenando o seu governo, pois lhes garantem recursos para preservar a sua base política e manter o braço armado que lhe dá garantias de manutenção da ordem, uma vez que a queda da popularidade tem sido expressiva e vários atos do governante tem aumentado a oposição, mesmo quando eles tem mais valor simbólico que efetivo, como foi o caso de ter ido ao restaurante na Turquia onde se deixou filmar e fotografar, degustando charuto cubano e refeição de alto padrão e elevado valor. Por essa razão, mesmo com atos como o do restaurante na Turquia, se forem garantidos aportes de recursos chineses acredita-se que a tendência de resistência de Nicolás Maduro no poder ainda será alta.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Nicolás Maduro homenageando Mao Tse Tung” (Fonte Print Screen do vídeo divulgado no YouTube):

https://www.msn.com/pt-br/video/noticias/maduro-assina-acordos-na-china-e-homenageia-mao/vp-BBNkwKx

Imagem 2 Logo da Corte Penal Internacional” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Corte_Penal_Internacional#/media/File:International_Criminal_Court_logo.svg

Imagem 3 Maduro em Restaurante na Turquia” (Fonte Print Screen do vídeo divulgado no YouTube):

https://www.youtube.com/watch?v=CR23TCnxflo

ANÁLISES DE CONJUNTURAORIENTE MÉDIO

Russia, Irã, Iraque e Síria acordam cooperação para possível ação militar em Idlib

No sábado passado, dia 1o de setembro, comandantes militares da Federação Russa, do Irã, Iraque e Síria acordaram aumentar a cooperação e realizar mais trocas e auxílios nos setores de segurança e inteligência, para garantirem que as vitórias do governo Assad contra a resistência sejam mantidas. Assim, desejam encerrar a Guerra Civil no país, pois apontam que o bastião dos rebeldes ao Governo está localizado na região de Idlib, e esta encontra-se cercada e suscetível de ser derrotada por uma ação intensa e coordenada desses atores, além de haver probabilidade de contarem com o amparo da Turquia, ou ao menos a sua anuência.

Fotografia aérea do Kremlin, referindo-se ao Governo da Rússia

Os representantes acertaram que manterão o apoio mútuo, já que estão combatendo com sucesso o que denominam como terrorismo, havendo ainda concordância de que foram os suportes dados por esses países que permitiu a vitória dos sírios sobre os grupos que, como o Estado Islâmico, usam da violência e do terror contra os demais muçulmanos (takfiris*), sendo identificados como terroristas. Nesse sentido, os quatro Estados desejam que tais ações precisam ser mantidas até a derrota final dos rebeldes.

Conforme vem sendo disseminado, os membros do Estado Islâmico foram vencidos quase que totalmente, apesar de continuarem espalhados por áreas na Síria e Iraque, no entanto, há outros grupos da mesma natureza infiltrados entre os que fazem a resistência ao governo Assad, ou compondo-os integralmente, e, como foi dito, tem como o seu reduto exatamente Idlib, que usam como base para realizar os ataques ao Governo da Síria e, alegadamente, recebem apoio internacional para tanto.

Ministro das Relações Exteriores da Síria, Walid al-Muallem

O raciocínio estratégico adotado pelos russos, ao fazerem as denúncias na semana passada de que os ocidentais estão preparando uma encenação de ataque químico proveniente do Governo sírio, segue esta linha de que se deve aproveitar a oportunidade de acabar definitivamente com os focos rebeldes, pois é alta a probabilidade de sucesso, o que obrigará a sociedade internacional a reconhecer o governo Assad como o único de fato no país. Dessa forma, os russos consideram que a suposta encenação visa justificar bombardeios e demais atividades bélicas dos ocidentais contra a infraestrutura e bases sírias, com o intuito de impedir o avanço do Exército governamental.

Pelo que vem sendo informado na imprensa, os preparativos para a ação contra a resistência nesta região se dá apenas com armas convencionais, dada a superioridade estratégica, tática, de efetivos e de equipamentos, algo que só poderá ser enfrentado com interferência direta do ocidente, o qual, para legitimar uma ação desta natureza, necessita de justificativa que lhe possibilite receber apoio da comunidade internacional, daí a suposta encenação de ataque químico, conforme vem declarando os russos.

Os sírios alegam que não detém mais armamentos químicos, que não usaram no denunciado ataque realizado no primeiro semestre deste ano (2018) e não precisam desse tipo de armas para obterem uma vitória na região, por isso não recuarão no intento de avançar sobre esta área.  

Nas palavras do ministro sírio Walid Muallem, “Tudo o que está sendo feito pelos Estados Unidos não afetará a determinação do povo sírio e do Exército sírio de libertar o Idlib e pôr fim ao terrorismo na Síria. (…). Nós, o povo e o governo da Síria, gostaríamos de acabar com o conflito, mas a interferência dos países ocidentais está atrapalhando isso”.

As convicções de observadores e personalidades globais são de que poderá haver mais uma catástrofe humanitária se houver combates na região, rompendo a trégua que foi estabelecida, a qual sírios e russos apontam que já foi rompida pela resistência. O Papa Francisco, por exemplo, declarou: “Os ventos da guerra ainda estão soprando e as inquietantes notícias sobre o risco de uma possível catástrofe humanitária na província de Idlib estão chegando. Peço mais uma vez [a] toda a comunidade internacional e todas as partes envolvidas a fazer uso dos instrumentos da diplomacia, diálogo e negociações, em conformidade com o direito internacional humanitário e para salvaguardar a vida dos civis”.

A tendência de alta probabilidade de vitória de Assad foi assumida indiretamente pelo Ministro de Relações Exteriores da França, Jean-Yves Le Drian, o qual declarou sobre o Presidente sírio que este “venceu a guerra, mas não venceu a paz”. Tal afirmação decorre de considerar que ele terá derrotado, ou está prestes a vencer estes grupos rebeldes, mas que continuariam presentes as razões que levaram aos seus surgimentos, produzindo novos grupos e mantendo a situação no país, conforme é possível interpretar de suas palavras.

Cruzador de Mísseis Marechal Ustinov

Para enfrentar as medidas ocidentais, a Rússia está fazendo exercícios militares no  Mediterrâneo, iniciados no sábado, dia 1o de setembro, com duração até o dia 8 de setembro, e ocupando posições estratégicas. Segundo declaração do Ministério da Defesa da Rússia, “o grupo vai praticar um conjunto de tarefas de defesa aérea, anti-submarino e anti-sabotagem e também apoiar as contramedidas de minas”. O grupo a que se refere são 25 navios de guerra liderados pelo cruzador de mísseis Marechal Ustinov e 30 aeronaves, incluindo os bombardeiros guiados por mísseis Tu-160, os aviões de combate anti-submarino Tu-142MK e Il-38, os caças Su-33 e as aeronaves Su-30SM da aviação naval, conforme foi disseminado na mídia. Além disso, declarou que os Estados Unidos têm atualmente 70 veículos de entrega com cerca de 380 mísseis de cruzeiro no Oriente Médio e são capazes de preparar um grupo de ataque de mísseis para uma ação contra a Síria em apenas 24 horas.

Como as vitórias contra os remanescentes do Estado Islâmico estão acontecendo constantemente, observadores convergem para a certeza de que haverá a ofensiva contra os focos de resistência ao governo, por essa razão, a tendência é de que combates sejam realizados em futuro breve em Idlib. Nesse sentido, Rússia, Irã, o Governo Assad e demais aliados deram um passo estratégico mais seguro ao fazerem a denúncia, pois colocaram os ocidentais na reativa, sendo obrigados a provar que a acusação feita contra eles é falsa (invertendo o ônus da prova) e, neste momento, ocorre uma batalha entre os Serviços de Inteligência dos dois lados para acharem formas de anular a narrativa um do outro, tanto que ocorreu esta reunião entre os representantes da Federação Russa, Irã, Iraque e Síria.

Ressalte-se que também está ocorrendo embate entre estratégias de comunicação para tentar desqualificar o discurso um do outro. Até o momento, especialistas e a mídia internacional tem repercutido mais as declarações, acusações e denúncias feitas pela Rússia, podendo significar que esta vem tendo um ganho significativo.

Além disso, também é preciso lembrar que no caso do suposto ataque químico ocorrido em abril deste ano (2018), os russos tinham como principal interesse impedir que qualquer fato atrapalhasse a realização da Copa do Mundo de Futebol, já que o evento poderia ser, tal qual especialistas hoje dizem que foi, um excelente meio de apresentar à comunidade internacional uma outra Rússia e afastar as imagens negativas que vinham sendo disseminadas sobre o país e seu governo. Por isso, naquela ocasião, os russos recuaram. Sendo assim, o risco de uma tragédia neste momento é muito maior do que o existente no início do ano.

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Nota:

* Takfiri: O termo é usado para se referir a um muçulmano que acusa o outro de apostasia, ou seja, acusa-o de ter-se desligado, renunciado ou abandonado a religião da qual fazia parte, ou passou a adotar uma opinião contrária a ela. Sendo assim, são takifiris o Estado Islâmico e demais grupos que se posicionaram como inimigos dos outros muçulmanos que não seguem os preceitos por eles considerados como sendo os fundamentais.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Print Screen da Região de Idlib  destacada em rosa retirado do Google Maps” (Fonte):

https://www.google.com.br/maps/place/Idlib,+S%C3%ADria/@35.9334051,36.6421011,7z/data=!4m5!3m4!1s0x152500e6cc6ed27b:0xe59a7e2f651fc24c!8m2!3d35.8268798!4d36.6957216

Imagem 2 Fotografia aérea do Kremlin, referindose ao Governo da Rússia” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Kremlin_de_Moscovo#/media/File:Kremlin_birds_eye_view-1.jpg

Imagem 3 Ministro das Relações Exteriores da Síria, Walid alMuallem” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Walid_Muallem#/media/File:Walid_Muallem.jpg

Imagem 4 Cruzador de Mísseis Marechal Ustinov” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Marechal_Ustinov#/media/File:Cruiser_Marshal_Ustinov_leaving_Norfolk_1989.jpg

AMÉRICA LATINAANÁLISES DE CONJUNTURA

Fornecimento de energia venezuelana à Roraima mostra cenário do planejamento estratégico brasileiro no setor

Em face aos debates entre Governo Federal brasileiro e o Governo do Estado brasileiro de Roraima que vem sendo disseminado na mídia, as dúvidas sobre uma solução planejada para crise envolvendo imigrantes venezuelanos no Brasil têm sido mantidas. Conforme apontam especialistas, as respostas dadas pelo Governo Federal apresentam características de serem paliativos, diante de problemas que adquiriram força ao ponto de poder extrapolar o limite suportável pelo Governo regional. Um dos problemas que envolve indiretamente a população venezuelana no Brasil acaba sendo a dependência de Roraima da energia elétrica vinda do vizinho que tem gerado esta onda de migrantes em território roraimense.

Linha de Transmissão

A situação do fornecimento de energia é um dos tópicos que tem sido debatidos, criando na imprensa questionamentos acerca de um provável erro de planejamento brasileiro que se estende por muitos anos, apesar dos diálogos momentâneos em que se objetiva mostrar que não há riscos para o Estado de Roraima, especialmente neste segmento da energia elétrica.

Na sexta-feira da semana passada, dia 24 de agosto, o presidente da Eletrobrás, Anselmo Brasil, declarou que o país espera o corte de fornecimento da Venezuela, dando efeito a ofício enviado em junho deste ano (2018), graças a uma dívida que o Brasil tem com o vizinho, mas que isso não significará apagões, pois as 5 usinas termoelétricas estão prontas para abastecer os 15 municípios de Roraima.

Conforme afirmou: “Estamos esperando a qualquer momento que isso possa ocorrer [desligamento da Venezuela] e estaremos aqui com as nossas usinas de prontidão. Sempre que a Venezuela sai, a gente entra com as nossas térmicas. Então elas vão simplesmente trabalhar de forma contínua. (..). Caso seja deflagrada a situação, o combustível deve chegar em Boa Vista no prazo de 20h a 24h. O combustível será subsidiado, como ocorre atualmente, e não terá aumento da tarifa de energia por conta desse tipo de operação mais intensa”. Além disso, declarou que, em relação à dívida, “Não é que o Brasil não queira pagar, é que a Venezuela não consegue receber”, não deixando claro o que tal afirmação significa.

Seguindo este caminho, o Governo estadual tem estocado óleo diesel, já faz algum tempo, pois se calcula que, com o fim do fornecimento venezuelano, haverá acervo para apenas 4 dias para as usinas, desejando-se que seja elevado para 8, até chegar a 15, tal qual declarou Fábio Lopes Alves, Secretário de Energia Elétrica do Ministério de Minas e Energia (MME) do Brasil, já em março deste ano (2018): “Realmente tínhamos de buscar uma alternativa, uma ação de backup mesmo. Como a situação na Venezuela está cada vez mais precária, não nos resta outro caminho senão adotar essa medida emergencial”.

Logo da Transnorte Energia

Ressalte-se, contudo, que também faz tempo que estão previstas medidas para acabar com a dependência da energia vinda da Venezuela, com um pacote de construção de usinas solares, eólicas, biomassa e biogás (investimentos previstos de 2,5 bilhões de reais), visando reduzir a dependência das usinas térmicas a óleo, que, além de serem mais poluentes, são mais caras. As novas usinas serão leiloadas, mas a previsão de operação é para 3 anos após o leilão, e se forem cumpridos os prazos. Em relação aos custos envolvidos nas termoelétricas, a título de exemplo, excluindo-se totalmente a importação que está sendo feita, a geração de energia elétrica seria de 160 milhões de reais por mês, ou 1,95 bilhão de reais por ano.

A alternativa adequada, que traria libertação desse problema, a construção da linha que sairia de Manaus (Estado do Amazonas) até Boa Vista (Estado de Roraima), passa por problemas judiciais envolvendo a concessionária Transnorte Energia, da Alupar e Eletronorte, que tenta devolver a concessão e obter indenização, pois está há seis anos sem obter a licença ambiental para executar o projeto, e o governo nega fazê-lo, bem como ainda não deu solução para as licenças. O problema é que a linha projetada atravessa as terras indígenas Waimiri Atroari, com 31 aldeias e 1,6 mil índios. A indenização que a Transnorte Energia cobra é de 534 milhões de reais, a preços nos valores de 2016, devido aos gastos que teve, desde a infraestrutura construída até pessoal especializado.

Diante das queixas que a governadora roraimense Suely Campos vinha fazendo, o presidente brasileiro Michel Temer fez reunião no dia 31 de julho passado (2018) com equipe de Ministros e com o presidente da Funai, Wallace Moreira Bastos, mas não chegou a um termo e outra reunião foi marcada para o passado dia 20 de agosto, na segunda-feira passada, na qual foram respaldadas as medidas adotadas no domingo, dia 19, em que se garantiu o que havia sido feito antes e foi aumentado o efetivo da Força Nacional em 120 membros. Ou seja, a reunião de emergência foi a de domingo, já a de segunda tinha sido agendada desde o final de julho.

Conforme apontam os observadores, a situação demonstra que o planejamento sofreu perdas e isto não é recente, envolvendo vários governos ao longo dos anos. É possível citar, a título de ilustração, que já em 2009 houve a discussão se ocorreria ou não apagão no Estado de Roraima, pois, na época, a Venezuela, já a sua fornecedora de energia*, vivia a crise de abastecimento de água e eletricidade. No mesmo momento, Cláudio Alípio Santos, gerente regional da Eletronorte, declarou que o que ocorreria no país vizinho não trazia riscos para o Brasil, pois, conforme afirmou, “a falta de energia não tem nada a ver com o Linhão de Guri e nem com o Brasil. Temos um contrato de relacionamento que será cumprido. A Venezuela tem reserva técnica, e não houve nenhuma conversa no sentido de existir algum desligamento”.

Capa do Relatório Final da CPI destinada a investigar a formação dos valores das tarifas de energia elétrica no Brasil

Tal afirmação, no entanto, não retirou o questionamento ocorrido e traz indagações para os dias atuais. Naquele ano, em Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Câmara dos Deputados, tratando da “formação de valores na formação das tarifas da elétrica no Brasil…”, foi produzido Relatório Final, no qual afirmou-se o seguinte sobre o fornecimento para Roraima (Os destaques negritados são acréscimos feitos à citação original para aumentar os esclarecimentos):

  1. O estado roraimense pagou cerca de US$ 90 milhões (quase de R$ 153 milhões, na cotação da época, sendo hoje cerca de 369,2 milhões de reais), devido à construção da rede de energia na Venezuela;
  2. Pagou US$ 100 milhões (ou R$ 170 milhões, na época, sendo hoje cerca de 697,4 milhões de reais), para à rede entre Pacaraima, cidade de Roraima na fronteira com a Venezuela, até Boa Vista, capital do Estado, e subestações.
  3. Pagava por ano cerca de US$ 1 milhão (hoje, aproximadamente, 4,1 milhões de reais, na cotação de 24 de agosto de 2018) ao Governo venezuelano para a conservação da rede de energia.

Ou seja, conforme mostram os analistas na mídia, os dados obtidos e divulgados apresentam que a dependência do fornecimento energético venezuelano decorre de descompasso, falta de execução e planejamento incompleto para que os investimentos adequados fossem feitos em território brasileiro, pois chegaram a ser realizados na Venezuela para a garantir o fornecimento ao Brasil.

Além disso, aponta-se que os recursos que poderiam ter sido aplicados no país não ocorreram devido aos problemas burocráticos, envolvendo principalmente as licenças ambientais e os desentendimentos entre as esferas governamentais e demais instâncias políticas, jurídicas e burocráticas do Estado brasileiro, situação que perdura, levando à construção de cenários não favoráveis à resolução da crise no segmento.

Ressalte-se que esta crise no setor de energia é um dos pontos que afetam o problema de ter meios que contemplem as exigências mínimas para receber adequadamente a migração venezuelana no Brasil, além de envolver as relações bilaterais entre os dois países, sabendo-se que os imigrantes estão saindo do seu país para fugir da crise econômica, política e humanitária na Venezuela, cujo governo, neste momento, tem relações mais tensas com o governo brasileiro, diferentemente do que ocorria antes, quando recebia apoio.

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Nota:

* A fase número um do Complexo Hidrelétrico de Guri/Macaguá foi inaugurada em 2001, na fronteira da Venezuela com Brasil, logo na fronteira brasileira pertencente ao Estado de Roraima, iniciando o fornecimento venezuelano.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 A Interligação de linhas elétricas VenezuelaBrasil” (Fonte):

http://www.eletronorte.gov.br/opencms/opencms/pilares/transmissao/estados/roraima

Imagem 2 Linha de Transmissão” (Fonte):

http://www.eletronorte.gov.br/opencms/opencms/pilares/transmissao/estados/roraima

Imagem 3 Logo da Transnorte Energia” (Fonte):

http://www.tnesa.com.br

Imagem 4 Capa do Relatório Final da CPI destinada a investigar a formação dos valores das tarifas de energia elétrica no Brasil…” (Fonte):

http://www2.camara.leg.br/atividade-legislativa/comissoes/comissoes-temporarias/parlamentar-de-inquerito/53a-legislatura-encerradas/cpitaele/relatorio-final-aprovado/Relatorio%20Final%20-%20CPITAELE.pdf

AMÉRICA LATINAANÁLISES DE CONJUNTURA

Reação contra imigrantes venezuelanos no norte do Brasil gera crítica nacional e internacional ao Governo brasileiro

A recente reação contra imigrantes venezuelanos na cidade brasileira de Paracaima (fronteira do Estado brasileiro de Roraima com a Venezuela) tem gerado manifestações no Brasil e no exterior, porém, conforme vem sendo visto na mídia, o evento e as reações não interferem na situação do êxodo venezuelano para o Brasil e mantém sem modificação o posicionamento regional acerca da questão venezuelana, mas produziu críticas crescentes ao atual governo brasileiro.

Mapa do Brasil com a localização de Paracaima para apresentar perspectiva de posicionamento geográfico

Conforme está apresentado em vários jornais, a população local se revoltou contra uma suposta tentativa de assalto seguida de violência contra um comerciante local e tomou a decisão de expulsar os imigrantes, com atos de violência, acusando-os de estarem trazendo desordem à cidade. Cidadãos apontam que a insegurança na região aumentou de forma desproporcional com os refugiados acampando em praças públicas e atuando de forma a gerar desordem nos bairros da cidade, sendo, alegadamente, reiterados os casos semelhantes ao que dizem ter ocorrido com pequeno empresário brasileiro.

De acordo com o que vem sendo divulgado, os moradores cansaram de pedir medidas das autoridades que, afirmam, nada fazem, ou não tem meios para tomar uma decisão, deixando a localidade sob a possibilidade de desordem, sendo esta a razão pela qual os populares decidiriam agir com força.

As declarações são de que há crime e violência dos dois lados, de forma que se considera que os fatos alegados pelos cidadãos de ambos os países estão confirmados, tal qual foi divulgado, embora se deva considerar que os depoimentos de populares a jornais apresentam mais a situação de falta de apoio e decisões governamentais concretas para resolver este problema, o qual começou a se desenhar faz alguns anos, não tendo surgido apenas agora.

Há o depoimento do venezuelano Jorge Idrogo, de 22 anos, afirmando: “Pagamos os justos pelos pecadores. Nós não temos culpa de que nosso governo esteja agindo mal. (…). Queremos viver em paz”. Da mesma forma, do outro lado, há declarações de que, independentemente desse infortúnio na Venezuela, “A cidade se transformou, ficou sem controle”, que desde que os imigrantes chegaram aumentaram os assaltos e outros crimes violentos, bem como que “Daqui não foram expulsos quem não estava atrapalhando, só vagabundo, porque a maioria que foram para lá, escarrados, era puro malandro, vagabundo! (…). …aqui não há xenofobia, apenas um povo cansado”, de acordo com afirmação de um jovem brasileiro chamado Sanchez, de 21 anos, em entrevista dada a um jornal.  

Imagem mostrando a região na Venezuela em que se encontra o Complexo Hidrelétrico de Guri, para verificação da distância relativa

Analistas apontam que o evento tem demonstrando a fragilidade do atual governo brasileiro, que vem agindo sem coordenação e carente de planejamento, sendo por isso incapaz de gerar segurança jurídica e apoio, tanto aos imigrantes, quanto ao cidadão nacional, bem como ao governo de Roraima, que tem denunciado a falta de condições, recursos e planeamento para receber a onda populacional, dar conta do real atendimento que os refugiados necessitam, além de poder cumprir com as determinações da Lei de Imigração brasileira.

Esta, por sua vez, é elogiada por ser uma das mais avançadas e humanas do mundo, mas também é acusada de ser irreal e incapaz de gerar equilíbrio, justiça e isonomia, pois, para dar ao imigrante tratamento igual ao que se deseja ao cidadão brasileiro, seria necessário que: as condições adequadas aos brasileiros estivessem realizadas; os serviços públicos em pleno funcionamento; a previdência atuante; a segurança pública efetiva e recebendo apoio; criadas as condições para a recepção adequada de imigrantes e refugiados, tal qual se exige para a efetivação de uma Lei dessa natureza, em acordo com os Direitos Humanos, que se configura com a garantia de que os direitos sejam cumpridos e não apenas que sejam afirmados em uma Lei sem condições de ser aplicada; e que o país esteja longe da crise que vive, com alta taxa de desemprego, falta de recursos para os setores básicos e incapacidade de prover os meios necessários à vida e à segurança ao seu cidadão, e, por isso, também aos imigrantes.

Ou seja, foi criada uma lei sem condições de ser cumprida, havendo especialistas que apontam ser improvável que aqueles que a criaram não tivessem condições de antever a impossibilidade de seu cumprimento, algo grave. Por essas razões, especialmente o governo de Roraima, mas também o Brasil como um todo, são vistos hoje como incapazes de encarar um aumento de contingente populacional, com as especificidades dos imigrantes e refugiados, de acordo com as exigências que a Lei estabelece, ainda mais em regiões carentes de recursos e dependentes do auxílio do Governo Federal, graças a um descompasso entre a Lei, à realidade e à fragilidade institucional que está sendo verificada no Brasil.

A situação neste período levou a que o governo roraimense pedisse e voltasse a pedir ao Supremo Tribunal Federal (STF) brasileiro que o país suspenda a entrada de imigrantes no Brasil, e que o Governo Federal apresente um planejamento com cotas para entrada, plano de interiorização, barreiras sanitárias na fronteira, atestado de vacinas obrigatórias, dentre outras mediadas que devem ser tomadas para Roraima poder suportar o impacto que está recebendo.

A título de exemplo da dificuldade do estado fronteiriço com a Venezuela, Roraima ainda é dependente em grande volume da energia elétrica produzida na Venezuela, de quem compra o fornecimento, já que parte importante do abastecimento é feito pelo Complexo Hidrelétrico de Guri, pois o fornecimento nacional está impedido tanto por falta de linhas de transmissão, quanto pela impossibilidade de construir usinas, já que as licenças ambientais não foram fornecidas, levando à paralisação de projetos e sem início das obras, graças a problemas com as comunidades indígenas locais. Para piorar a situação, as usinas venezuelanas sofrem com falta de manutenção e com períodos de secas que impactam no nível das represas usadas para a geração de energia, conforme relatório do Tribunal de Contas da União (TCU) brasileiro, trazendo o risco de apagão em Roraima, o que já vem ocorrendo em algumas cidades, configurando, conforme apontam os observadores da política brasileira, também em um exemplo de falha no planejamento das políticas públicas nacionais para o setor de energia.

Analistas ainda afirmam que a situação em Paracaima igualmente tem exemplificado uma fragilização das instituições do Estado brasileiro, tipificado no confronto entre elas, pois, recentemente, o juiz Helder Girão Barreto, da 1a Vara Federal, emitiu liminar no dia 5 de agosto para o fechamento da Fronteira entre os dois países, tomando decisão em resposta a um pedido da Defensoria Pública da União (DPU) e do Ministério Público Federal (MPF) que queria encerrar a restrição dos serviços aos imigrantes, impostas por um Decreto da Governadora de Roraima, Suely Campos (Partido Progressista – PP).

Ressalte-se que a competência de fechamento da fronteira é exclusiva do Presidente da República, tanto que foi revertida pelo Tribunal Regional Federal da 1a Região (TRF-1), ao ser atendido pelo desembargador Kassio Marques, vice-presidente do TRF-1, acatando determinação tanto da Defensoria Pública da União (DPU), quanto do Ministério Público Federal (MPF), que defendem a proteção dos venezuelanos, decisão que, apesar de retomar a ordem jurídica, foi efetivada concretamente apenas no dia 7, e gerou confusão e polêmica entre autoridades brasileiras e analistas internacionais.

Suely Campos em outubro de 2017, como Governadora de Roraima

Além disso, como visto, está ocorrendo embates entre a Governadora do Estado de Roraima, Suely Campos, que faz exigências de fechamento da fronteira e tem emitido Decretos, como aquele apresentado no dia 1o de agosto, solicitando apresentação de passaporte aos venezuelanos para terem acesso aos serviços públicos, bem como autorizando à Polícia que adote providencias de expulsão e deportação do país, algo que tem recebido respostas da Advocacia-Geral da União (AGU) e do Supremo Tribunal Federal (STF). Segundo alega, ela tem sido obrigada a adotar tais procedimentos para conseguir suportar o que está ocorrendo, já que foi jogado sobre o seu governo a responsabilidade de resolver o problema de receber o fluxo migratório, sem apoio real do Governo brasileiro e sem ter condições para tanto. Em síntese, os poderes estão se confrontado, gerando insegurança jurídica e desrespeito dos cidadãos, tanto que os populares decidiram agir por conta própria.

A OEA tem alertado para a necessidade de que uma resolução multilateral seja tomada imediatamente para enfrentar a crise migratória gerada pela crise humanitária na Venezuela. Aponta que aproximadamente 2,3 milhões de cidadãos venezuelanos já saíram de seu país, espalhando-se pela América Latina, apesar de EUA e Espanha estarem entre os principais destinos, uma vez que esses dois Estados, juntamente com a Colômbia, concentram 68% dos migrantes venezuelanos, sendo o território colombiano o lugar mais procurado, abrigando, até o momento, aproximados 870 mil emigrantes, conforme dados da Organização Internacional para Migrações (OIM).

Venezuelanos em um protesto contra a Revolução Bolivariana em São Paulo, Brasil

De acordo com o que vem sendo disseminado na mídia, o Brasil ainda está entre os que menos recebem esses refugiados, sofrendo, por isso, críticas sobre as reações aos imigrantes, porém, como explicam alguns observadores, o pequeno número, comparativamente falando, não reduz as dificuldades que os brasileiros enfrentam, apenas atesta o despreparo do país para recebe-los. Ademais, são várias as razões para os migrantes não virem definitivamente para o Brasil, explicando o menor volume de seu contingente no território brasileiro, ou usarem-no apenas para passagem em direção a outros lugares, como Argentina, Chile e Peru.

Dentre elas, podem ser citadas: a crise que vivencia o Brasil; as dificuldades do idioma, já que é um dos únicos países da região que não tem o espanhol como língua nacional (ao  lado da Guiana, que tem o inglês; do Suriname, que tem o holandês; e da Guiana Francesa / Território da França, que tem o francês); a pobreza da região fronteiriça brasileira com a Venezuela, que se torna apenas uma porta de entrada; e as dificuldades de deslocamento para os grandes centros brasileiros, algo que também não tem recebido do governo central do Brasil uma programação para sua execução, sendo esta, inclusive, uma das exigências da Governadora do Estado de Roraima, diante da crise dos serviços públicos e de segurança que seu Estado tem vivenciado, graças ao fluxo de refugiados ocorrido.

Polícia Nacional Colombiana acompanhando aos venezuelanos em direção à Cúcuta

Apesar de ser comparativamente pouco o volume de imigrantes no Brasil, a questão está gerando desconforto para o Estado brasileiro e críticas ao governo atual, bem como sofrimento aos imigrantes que relatam estarem se deslocando em fuga diante do que sofreram no dia 18 na cidade de Paracaima, mas não exclusivamente neste dia, contudo, eles também têm sido acusados de terem em seu meio um contingente de pessoas que estão gerando caos nas cidades onde estão acampados, realizando crimes e agressões contra os cidadãos brasileiros.

Nesse sentido, a posição adotada pelos observadores é de que, independentemente da razão que motivou o êxodo, ou seja, a crise humanitária e caos político que vive a Venezuela devido ao seu Governo, bem como independentemente dos embates entre a população local e os imigrantes, a falha, nesta situação em território brasileiro, deriva da falta de planejamento e de medidas do Governo Federal do Brasil, a quem vem convergindo as acusações e a responsabilização pela atual situação vivida no norte do país, bem como entre os imigrantes venezuelanos.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 O marco fronteiriço localizado na fronteira entre o Brasil e a Venezuela, em Pacaraima” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Pacaraima#/media/File:Frontera_Venezuela_Brasil.jpg

Imagem 2 Mapa do Brasil com a localização de Paracaima para apresentar perspectiva de posicionamento geográfico” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Pacaraima#/media/File:Brazil_location_map.svg

Imagem 3 Sessão do Plenário do Senado Federal Brasileiro, de 18 de abril, quando foi aprovado o projeto que deu origem à nova Lei da Migração” (Fonte):

https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2017/05/25/nova-lei-de-migracao-e-sancionada-com-vetos

Imagem 4 Imagem mostrando a região na Venezuela em que se encontra o Complexo Hidrelétrico de Guri, para verificação da distância relativa” (Fonte):

https://es.wikipedia.org/wiki/Embalse_de_Guri

Imagem 5 Suely Campos em outubro de 2017, como Governadora de Roraima” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Lista_de_governadores_de_Roraima#/media/File:Suely_Campos_em_outubro_de_2017.jpg

Imagem 6 Venezuelanos em um protesto contra a Revolução Bolivariana em São Paulo, Brasil” (Fonte):

https://es.wikipedia.org/wiki/Emigración_venezolana#/media/File:Bolivarian_diaspora_-_Colombia_2018.jpg

Imagem 7 Polícia Nacional Colombiana acompanhando aos venezuelanos em direção à Cúcuta” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Imigração_venezuelana_no_Brasil#/media/File:Protests_opposing_Venezuelan_Bolivarian_Revolution_in_São_Paulo,_Brazil_14.jpg