NOTAS ANALÍTICASORIENTE MÉDIOPOLÍTICA INTERNACIONAL

Morte de jornalista americano sequestrado pelo ISIS reacende polêmica sobre pagamento de resgate à terroristas

Na semana passada, uma imagem chocou o mundo: o correspondente de guerra americano James Foleysendo executado por um militante do ISIS de forma brutal no meio de um deserto do Oriente Médio.

O jornalista do GlobalPosthavia sido sequestrado em 22 de novembro de 2012, na Síria, e estava, desde então, sob a custódia dos jihadistas. Segundo a mensagem no vídeo publicado pelos sequestradores, o ato foi um aviso para que os Estados Unidos parem os ataques aéreos realizados recentemente contra o grupo no Iraque, sob a ameaça de que outros reféns sejam executados.

Uma semana antes do ocorrido, a família de Foley foi avisada por e-mail de que ele seria assassinado, já que o Governo americano não havia aceitado nem liberar prisioneiros em troca da vida do jornalista, nem entregar 132 milhões de dólares, quase 300 milhões de reais, aos sequestradores[1].

Desde então, a morte do jornalista reacendeu o debate sobre o procedimento correto a seguir quando a vida de reféns está em jogo: negociar ou não com terroristas? Pagar ou não o resgaste? No último ano (2013), a família de Foley tentou arrecadar o dinheiro pedido pelo ISIS e liberar o jornalista por conta própria, sem o aval do FBI, já que o Governo americano tem uma política clara de não negociar, não pagar e não ceder à pedidos de grupos terroristas. A ação é considerada como um financiamento ilegal de tais grupos e um incentivo para que eles façam novos reféns[2].

No entanto, nem tudo é tão preto no branco. A recente liberação do sargento americano Bowe Bergdahi em troca de 5 líderes do Taliban prisioneiros em Guantánamo demonstra inconsistência na política de sequestro americana, levantando-se a questão de porquê negociar a liberação de um soldado e não de um jornalista[3]

O especialista em segurança Bruce Hoffman, do Centro de Estudos de Segurança da Universidade de Georgetown, afirma: “Nós temos que negociar com terroristas. Virtualmente todos os outros países no mundo negociaram com terroristas apesar de promessas de nunca o fazer. Nós devemos ser duros com terroristas, mas não com os nossos compatriotas que são seus prisioneiros, o que significa ter que fazer um acordo com o diabo quando não temos outra alternativa[4].

Especialmente se outros países do mundo estão negociando. De acordo com uma investigação realizada pelo The New York Times, a Al Qaeda e suas afiliadas receberam pelo menos 125 milhões de dólares em resgates de sequestros desde 2008, 66 milhões pagos apenas no ano passado, a maioria de Governos europeus que usam os mais diversos disfarces para encobrir os pagamentos, mesmo depois de terem assinado um Acordo em 2013 que os proíbe de pagar.Hoje, sequestros são a maior fonte de renda de terroristas pelo mundo e, acredita-se, foi um grande fator na consolidação do braço da Al Qaeda no Maghreb Islâmico (AQMI)[5].

O problema é que, se uns Governos pagam e outros não, são criadas duas classes de reféns, uns mais em perigo que outros. Depois de grande pressão da opinião pública americana e da família de Foley, que recentemente expressou tristeza com o pouco que seu Governo fez para recuperar o jornalista[6], oficiais americanos revelaram que no início do verão uma missão do Exército fez uma incursão na Síria para recuperar Foley e outros reféns sem, no entanto, ter sucesso[7].

A morte de James Foley pode ter sido a gota necessária para a escalada de mais um envolvimento americano no Oriente Médio. Depois da morte do jornalista, ainda que continue com a política de não pagamento de resgates, o Governo americano está mais duro e afirmou que está considerando que tipo de ação será necessária para lidar com a ameaça imposta pelo ISIS, sem se limitar a fronteiras geográficas, já que o grupo age tanto na Síria quanto no Iraque[8].

—————————————————————————

Imagem (Fonte):

http://www.globalpost.com/dispatch/news/regions/middle-east/syria/140821/text-last-email-islamic-state-sent-foley-family

—————————————————————————

Fontes consultadas:

[1] Ver:

http://www.globalpost.com/dispatch/news/regions/middle-east/syria/140821/text-last-email-islamic-state-sent-foley-family

[2] Ver:

http://online.wsj.com/news/article_email/journalists-killing-highlights-debate-over-ransom-1408661566-lMyQjAxMTA0MDIwMjEyNDIyWj?utm_source=Sailthru&utm_medium=email&utm_term=%2ASituation%20Report&utm_campaign=AUG%2022%202014%20SITREP

[3] Ver:

http://www.ibtimes.com/james-foleys-kidnapping-death-reveal-inconsistencies-us-european-policies-1666868

[4] Ver:

http://www.usatoday.com/story/news/world/2014/06/01/bergdahl-release-taliban-prisoner-trade/9835759/

[5] Ver:

http://www.nytimes.com/2014/07/30/world/africa/ransoming-citizens-europe-becomes-al-qaedas-patron.html

[6] Ver:

https://news.yahoo.com/katie-couric-interviews-siblings-of-slain-journalist-james-foley-070857840.html

[7] Ver:

http://www.reuters.com/article/2014/08/21/us-iraq-security-usa-hostages-idUSKBN0GK2EZ20140821?utm_source=Sailthru&utm_medium=email&utm_term=%2AMideast%20Brief&utm_campaign=2014_The%20Middle%20East%20Daily_8.21.14

[8] Ver:

http://www.telegraph.co.uk/news/worldnews/middleeast/syria/11052892/US-considers-air-strikes-in-Syria-after-murder-of-James-Foley.html

—————————————————————————

Ver também:

http://www.dailystar.com.lb/News/Middle-East/2014/Aug-21/267997-qatar-foley-beheading-crime-against-islam.ashx#axzz3BE74Ikpv

Ver também:

http://english.alarabiya.net/en/News/middle-east/2014/08/21/Former-ISIS-hostage-identifies-Foley-executioner.html

EUROPANOTAS ANALÍTICASORIENTE MÉDIOPOLÍTICA INTERNACIONAL

UE decide ajudar Curdos a lutar contra o avanço do Estado Islâmico no Iraque

Em uma reunião de emergência em Bruxelas para discutir a situação do Iraque e da Ucrânia na última sexta-feira, dia 15 de agosto, ministros europeus decidiram que os países do Bloco podem enviar armas aos curdos que lutam contra os avanços dos militantes do Estado Islâmico (ISIS, na sigla em inglês) no norte iraquiano[1]. A resolução foi discutida em resposta a um apelo do presidente curdo Masoud Barzani, mas a entrega das armas deve ser aprovada pelo governo central do Iraque.

A decisão, no entanto, é mais um endosso regional às ações de países individuais, como a França e o Reino Unido, que já enviaram equipamentos aos curdos, do que um esforço comum, já que o Bloco não tem um Exército conjunto, e, mais ainda, significa que a Europa não subestima a ameaça representada pelo ISIS[2].

Até mesmo a Alemanha, que tem uma política clara de não envio de armas a zonas de conflito está considerando se envolver. De acordo com o Ministro do Exterior do país, Frank-Walter Steinmeier, “as ações assassinas  e o avanço militar do ISIS precisam ser parados[2], “o Iraque está à beira de uma verdadeira catástrofe. Um milhão de pessoas estão fugindo de suas casas. No norte do país, na parte Curda, Yazidis e Cristãos estão sendo perseguidos e massacrados[3].

A declaração oficial da reunião também pede “investigações urgentes das atrocidades e abusos dos direitos humanos básicos que podem ser considerados crimes contra a humanidade[4].

A situação de tais minorias no Iraque chegou a tal ponto que há apenas alguns dias a Organização das Nações Unidas classificou a crise como nível três, o mesmo número que receberam as crises na Síria, Republica Centro-Africana e Sudão do Sul. A situação é especialmente alarmante no Monte Sinjar, onde milhares de Yazidis, uma minoria étnico-religiosa, foram perseguidos e cercados por militantes do ISIS.

Muitos conseguiram fugir com a ajuda das forças curdas e de ataques aéreos americanos ao redor do monte. Turquia, França, Austrália e Reino Unido também ajudaram enviando água e alimentos à região. No entanto, muitas pessoas continuam isoladas e ainda correm risco[5].

No total, diz-se que cerca de 1,2 milhão de refugiados foram para território curdo desde o início do conflito e, segundo relatórios, cerca de 50.000 Yazidisainda não encontraram abrigo, duas semanas após terem deixado suas casas. Se contarmos que a infra-estrutura do Iraque já foi debilitada por mais de 210.000 sírios vivendo em campos de refugiados ao norte do país, observa-se que a situação é claramente difícil[6].

O que a reunião de emergência europeia mostra, além de empatia com tal situação dos refugiados, é uma preocupação com o futuro do conflito. O problema é se a guerra no Iraque, bem como aconteceu na Síria, começar a atrair militantes e radicais europeus que representariam um perigo para o Bloco ao voltar da luta[7].

Mesmo assim, a Europa demonstrou certa resistência em se envolver, demorando a tomar decisões. A sua nova política de ajudar os Curdos a lutar contra o ISIS sem, no entanto, estar in locu, é reflexo do aprendizado das últimas guerras no Afeganistão e no próprio Iraque e uma certa oposição da população a se envolver em novas guerras.

Já que o Exército oficial iraquiano, patrocinado pelos Estados Unidos, foi derrotado pelo ISIS, que inclusive se apropriou de todo o equipamento e das armas providos pelos americanos, o Ocidente decidiu fazer do Curdistão e seus combatentes seu novo bastião contra os jihadistas[8]. Os Curdos, ao contrário do que vemos na Síria, representam para a Europa um grupo confiável em quem se apoiar na luta contra o terrorismo e o radicalismo[9].

O que deve ser considerado, no entanto, é que se pode estar de fato ajudando a desmantelar o Iraque e a concretizar as ambições curdas de independência. Se isso será um problema ou não para o Ocidente não é possível dizer agora, mas o fato é que analistas afirmam que o que estamos vendo no Iraque e na Síria é uma total reescrita das fronteiras desenhadas pelo Acordo Sykes-Picot, de 1916, em novas regiões ditadas por afinidades religiosas e não mais segundo o que era conveniente para os colonizadores (no caso, França e Reino Unido)[8].

—————————————————————————

Imagem (Fonte):

http://news.sky.com/story/1319364/foreign-ministers-agree-to-arm-kurds-in-iraq

—————————————————————————

Fontes consultadas:

[1] Ver:

http://www.reuters.com/article/2014/08/15/iraq-security-arms-idUSL6N0QL2UI20140815

[2] Ver:

http://www.nytimes.com/2014/08/16/world/europe/european-union-iraq.html?_r=1

[3] Ver:

http://news.sky.com/story/1319364/foreign-ministers-agree-to-arm-kurds-in-iraq

[4] Ver:

http://www.theguardian.com/world/2014/aug/15/eu-backs-arms-kurdish-fighters-iraq

[5] Ver:

http://www.theguardian.com/world/2014/aug/14/thousands-iraqi-refugees-still-risk-siege-mount-sinjar

[6] Ver:

http://data.unhcr.org/syrianrefugees/country.php?id=103

[7] Ver:

http://www.nytimes.com/2014/08/16/world/europe/european-union-iraq.html?_r=1

[8] Ver:

http://www.theguardian.com/commentisfree/2014/aug/14/western-intervention-isis-iraq-muslim

[9] Ver:

http://www.ecfr.eu/content/entry/commentary_europe_desperately_seeking_answers_on_iraq

—————————————————————————

Ver também:

http://www.theguardian.com/world/middle-east-live/live/2014/aug/15/iraq-crisis-britain-ready-to-arm-kurds-as-eu-meets-live-updates

Ver também:

http://www.dailymail.co.uk/news/article-2725654/Arm-Kurds-prepare-religious-war-Cameron-urged-join-dots-convulsion-tearing-apart-Middle-East.html

Ver também:

http://english.alarabiya.net/en/News/middle-east/2014/08/16/Iraqi-Kurdish-leader-appeals-to-Germany-for-weapons.html

AMÉRICA DO NORTENOTAS ANALÍTICASPOLÍTICA INTERNACIONAL

Imigrantes processam Governo dos EUA por terem cidadania negada

Cinco residentes de longa data nos Estados Unidos decidiram processar o Governo após terem o processo de naturalização atrasado em meses e a cidadania negada por razões de Segurança Nacional. Os cinco imigrantes são muçulmanos praticantes ou de países de maioria muçulmana: Ahmad e Reem Muhanna são palestinos e tentam cidadania desde 2007, Ahmed Hassan é refugiado da Somália e seu processo começou em 2006, já Neda Behmanesh e Abrahim Mosavi são iranianos[1].

Eles foram barrados sob o Programa de Revisão e Resolução Controlada de Solicitação (CARRP, na sigla em inglês). Segundo a União dos Americanos pelos Direitos Civis (ACLU, na sigla em inglês), grupo que está defendendo os imigrantes, o Programa permite que o Governo negue e atrase pedidos de cidadania de milhares de árabes, muçulmanos, asiáticos etc.,sem nenhuma outra justificativa além da Segurança Nacional, o que é considerado no mínimo vago, da sua perspectiva. Os critérios para criar a lista negra da imigração incluem automaticamente, por exemplo, toda e qualquer pessoa remotamente ligada à lista de terroristas do Governo americano, que tem mais de 1 milhão de nomes[2].

Segundo a ACLU, o CARRP foi criado com pouca supervisão do Congresso, quase nenhum debate público e em contradição com o Ato Nacional de Imigração. Além disso, as pessoas que tem o processo negado não recebem explicações suficientes para exercer seu “direito a um processo justo”, garantido pela Constituição. Há apenas um mês, o mesmo raciocínio foi usado pela Corte Suprema de Justiça para considerar inconstitucional uma lista negra de pessoas proibidas de pegar voos nacionais.

Assim como a lista de pessoas proibidas de voar, as pessoas não são avisadas que estão sujeitas ao CARRP, que elas foram rotuladas interesse de segurança nacional, e que são mantidas por esse processo. Elas precisam ser avisadas do porquê e dadas uma oportunidade de responder[3], afirmou Jennie Pasquarella, advogada do ACLU.

No entanto, alegam os observadores que essa não é a única esfera em que árabes e muçulmanos recebem tratamento diferenciado nos Estados Unidos. Segundo um relatório publicado na semana passada pela Al Jazeera, desde os atentados de “11 de Setembro de 2001” que o grupo é o alvo principal de medidas anti-terroristas, sofrendo com julgamentos injustos, truculência policial e sentenças mais duras que o necessário[4].

E o pior não é a justiça, é o apoio dado pelo resto da população a tais medidas vistas como preconceituosas. Segundo uma pesquisa do Instituto Árabe Americano, 42% dos 1.110 entrevistados acredita ser justo que a polícia e as leis mirem Árabes ou Muçulmanos americanos, enquanto apenas 27% dos respondentes tem uma opinião favorável ao grupo.

De acordo com analistas, esta é apenas mais uma pesquisa, dentre tantas, que mostra como a sociedade americana se comporta em relação à comunidade muçulmana após o “11 de Setembro”.

Nesse sentido, entendem que, enquanto a sociedade não entender que nem todo árabe é muçulmano, bem como que nem todo muçulmano é árabe, e, mais importante, que ambos não são necessariamente terroristas, as leis não vão mudar, tornando-se uma ameaça aos direitos civis, liberdades e inclusão de árabes e muçulmanos na sociedade.

—————————————————————————

Imagem (Fonte):

http://christianreadsquran.wordpress.com/2012/01/19/my-final-thoughts/arab-americans-hold-signs-as-they-demonstrate-outside-the-federal-court-building-in-detroit-michigan/

—————————————————————————

[1] Ver:

http://www.ibtimes.co.uk/us-muslim-residents-sue-government-over-citizenship-denials-1459383

[2] Ver:

http://rt.com/usa/177340-us-muslims-immigration-lawsuit/

[3] Ver:

http://www.worldbulletin.net/todays-news/141709/us-residents-sue-over-immigration-denials-targeting-muslims

[4] Ver:

http://www.aljazeera.com/indepth/features/2014/07/report-us-unfairly-targeted-arabs-muslims-201472711538316390.html

[5] Ver:

http://blogs.reuters.com/faithworld/2014/07/31/american-opinion-of-arabs-and-muslims-is-getting-worse-poll/

—————————————————————————

Ver também:

http://www.huffingtonpost.com/james-zogby/arab-americans-and-americ_b_5644041.html

NOTAS ANALÍTICASORIENTE MÉDIOPOLÍTICA INTERNACIONAL

Patriarca Maronita pede diálogo com ISIS após expulsão de cristãos de cidade no Iraque

Na última semana, o Patriarca Maronita da Antióquia, Bishara al-Rai, expressou interesse em dialogar com o grupo terrorista Estado Islâmico (IS,na sigla em inglês)*, para tentar resolver a situação de cerca de 10.000 cristãos, expulsos de Mosul, segunda maior cidade do Iraque[1].

Al-Rai pediu que muçulmanos moderados condenem as ações do IS e apelou para a humanidade do grupo jihadista, que há pouco mais de uma semana deu quatro opções para os católicos: pagar impostos religiosos; se converter ao Islã; sair da cidade ou morrer. “Humanidade é a única coisa que compartilhamos com vocês. Venham, vamos conversar e chegar a um entendimento nestes termos. Vocês se apoiam na linguagem de armas, terrorismo, violência e influência, mas nós confiamos na linguagem do diálogo, entendimento e respeito por outros. O que os cristãos em Mosul e no Iraque fizeram para merecerem ser tratados com tanto ódio e abuso?[2], questionou al-Rai.

A cidade de Mosulfoi tomada pelo IS em junho e, desde então, o grupo radical sunita instaurou na região um Califado Islâmico que segue as leis da Sharia. O objetivo é unificar as terras muçulmanas sob um único Imam, acabando com as fronteiras idealizadas pelo Acordo de Sykes-Picot, de 1916. Sob este estandarte todos os povos que não compartilham da mesma visão, sejam cristãos, muçulmanos xiitas ou de outras religiões devem ser expulsos ou mortos[3]

A perseguição feita pelo IS aos Cristãos não é novidade. Na Síria, o grupo já queimou igrejas, sequestrou, matou religiosos e ocupou cidades cristãs. Já ocupando cerca de um terço do território sírio, e com os olhos do mundo voltados para o conflito árabe-israelense, o grupo está, cada vez mais, mostrando suas garras no Iraque. Segundo o povo local, para identificar os infiéis o IS pintou em vermelho nas casas de Mosula letra N, que significa Nasrani, ou Cristão,em árabe[4], e confiscou as propriedades.

A decisão veio depois que os cristãos decidiram não comparecer a uma reunião arranjada pelo IS para discutir seu status na cidade apenas alguns dias antes[5]. Após o ultimato, a maior parte dos alvos, se não todos, fugiu para as Planícies de Nineveh, para o Curdistão,  Síria, Líbano e Jordânia, tornando este o maior deslocamento forçado na região desde que o Império Otomano expulsou os armênios da Turquia, há 100 anos[6].

No entanto, alguns dias após a expulsão, algumas vozes de protesto começaram a ser ouvidas. Grafites apareceram em casas cristãs usando o símbolo vermelho marcado pelo IS para escrever “Somos todos cristãos[7]. Diversos usuários de redes sociais também mostraram apoio à minoria trocando suas imagens de perfil por uma letra N, em amarelo, sob um fundo preto[8]

Na semana passada, o Patriarca Ortodoxo da Síria e de todo o Oriente, Aphrem II, organizou em Atchanah, no Líbano, uma reunião eclesiástica com representantes de cinco igrejas de Mosul para discutir o que chamou de um “crime de guerra[9]. O Patriarca afirmou que pretende enviar uma queixa formal à ONU, mas pediu que a comunidade cristã não deposite todas as suas fichas nos países ocidentais, já que, nos últimos anos, eles falharam em proteger os cristãos ou mesmo, na presente situação, em se pronunciar contra o acontecido[10].

A Associação de Estudiosos Muçulmanos também condenou os deslocamentos forçados considerando ser “um ato de injustiça contra pessoas inocentes e um desvio do caminho recomendado pelo profeta do Islam e os estudiosos muçulmanos quanto ao tratamento oferecido aos não-muçulmanos[11].

Segundo depoimentos publicados pelo jornal Asharq Al-Awsat, muitos cristãos foram denunciados por seus próprios vizinhos e roubados, tanto em casa quanto em postos de inspeção do IS em estradas, e, portanto, afirmam que não voltarão para uma cidade que os traiu, mesmo que a ordem seja reestabelecida. “Como podemos voltar para uma sociedade que nos entregou ao ISIS?”, pergunta Sara Youssef, cristã refugiada no Curdistão[12]

Com as perseguições, torturas, sequestros e assassinatos de minorias[13], no entanto, não é só um povo que é prejudicado e amedrontado, mas toda a cultura de uma cidade que conta com quase 2.000 anos de presença cristã e é colocada em perigo[14]. A história é a mesma para outras minorias que coexistiam em Mosul, como os Yazidis e osMandeístas, religiões também perseguidas na cidade. Sem contar que os anos de guerra que os Estados Unidos travaram contra Saddam Hussein para reorganizar o país e instituir um bom governo podem ser considerados um desperdício diante do caos reinante e subsequente enfraquecimento do poder central[15].

O apelo do patriarca Libanês resiste até o momento como um grito distante de socorro ainda não ouvido pelo resto do mundo. E o medo de al-Rai não é infundado, pois, se não for escutado, o risco é que o evento passe ao esquecimento, como tantos outros, e seja repetido, não só em Mosul, mas em outras cidades do Iraque, da Síria e do mundo.

—————————————————————————

* Antes chamado de Estado Islâmico do Iraque e do Levante (ISIS, na sigla em inglês).

—————————————————————————

ImagemA foto com o N vermelho em árabe” (FonteTwitter)

http://www.breitbart.com/Big-Peace/2014/07/21/We-are-All-Christians-Anti-ISIS-Graffiti-Appears-in-Mosul-after-Terrorists-Expel-Christians

—————————————————————————

Fontes consultadas:

[1] Ver:

http://english.al-akhbar.com/content/christian-leaders-express-shock-world-silence-after-isis-expels-iraqi-christians

[2] Ver:

http://www.dailystar.com.lb/News/Lebanon-News/2014/Jul-24/264950-rai-calls-for-dialogue-with-isis.ashx#axzz38ZbPfTXT

[3] Ver:

https://azelin.files.wordpress.com/2014/06/islamic-state-of-iraq-and-al-shc481m-e2809cislamic-state-report-422.pdf

[4] Ver:

http://theorthodoxchurch.info/blog/news/2014/07/in-lebanon-a-mark-of-solidarity-with-mosul-christians/

[5] Ver:

http://www.nytimes.com/2014/07/19/world/middleeast/isis-forces-last-iraqi-christians-to-flee-mosul.html?_r=0

[6] Ver:

http://thinkprogress.org/world/2014/07/24/3463654/isis-iraq-christians/

[7] Ver:

http://www.breitbart.com/Big-Peace/2014/07/21/We-are-All-Christians-Anti-ISIS-Graffiti-Appears-in-Mosul-after-Terrorists-Expel-Christians

[8] Ver:

http://theorthodoxchurch.info/blog/news/2014/07/in-lebanon-a-mark-of-solidarity-with-mosul-christians/

[9] Ver:

http://english.al-akhbar.com/content/christian-leaders-express-shock-world-silence-after-isis-expels-iraqi-christians

[10] Ver:

http://thinkprogress.org/world/2014/07/24/3463654/isis-iraq-christians/

[11] Ver:

https://www.middleeastmonitor.com/news/middle-east/12942-muslim-scholars-condemn-deportation-of-christians-from-mosul

[12] Ver:

http://www.aawsat.net/2014/07/article55334657

[13] Ver:

http://www.hrw.org/news/2014/07/19/iraq-isis-abducting-killing-expelling-minorities

[14] Ver:

http://www.wnd.com/2014/07/christianity-as-we-know-it-in-iraq-is-being-wiped-out/

[15] Ver:

http://www.foreignpolicy.com/articles/2014/06/18/mosuls_christians_say_goodbye

—————————————————————————

Ver também:

http://carnegieeurope.eu/2014/07/10/do-not-belittle-islamic-state/hfj6

AMÉRICA DO NORTENOTAS ANALÍTICASORIENTE MÉDIOPOLÍTICA INTERNACIONAL

EUA oferecem mediar cessar-fogo entre israelenses e palestinos

O Presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, ofereceu ajuda na última sexta-feira, dia 11 de julho, para que israelenses e palestinos cheguem a um Acordo de Cessar-Fogo. A tensões, que começaram há quatro dias, surgiram apenas meses após o fracasso das negociações de paz mediadas pelo Secretário de Estado Americano, John Kerry. Apesar de afirmar que Israel tem o direito de se proteger, Obama demonstrou preocupação com uma possível escalada na violência, condenou o disparo de foguetes pelo Hamas e afirmou que todas as partes devem fazer o possível para proteger a vida dos civis[1].

Apenas nos quatro primeiros dias de hostilidades, cerca de 550 foguetes foram disparados a partir de Gaza em direção a Israel. Três foguetes que iam diretamente ao centro da capital Tel Aviv foram interceptados pelo sistema de escudo israelense “Domo de Ferro” na sexta-feira, fazendo disparar as sirenes de emergência na cidade. Já em Ashdod, cidade ao sul da capital, oito pessoas ficaram feridas, uma gravemente, quando um foguete atingiu um posto de gasolina. Em contrapartida, Israel têm respondido com ataques aéreos e navais à Faixa de Gaza que, de acordo com notícias divulgadas na mídia, chegou a 165 mortos palestinos e mais de 1.000 feridos[2].

Na sexta-feira, as Nações Unidas condenaram os ataques. Segundo a Alta Comissária da ONU para Direitos Humanos, Navi Pillay, a entidade tem recebido relatórios afirmando que muitas mortes palestinas decorreram de ataques aéreos a casas, o que colocaria em dúvida a legalidade da ação israelense perante a Lei Internacional Humanitária, que não permite ataques à civis[3]. A ONU afirmou ainda que, até o momento, 342 casas em Gaza foram destruídas ou danificadas, deixando 2.000 famílias sem teto[4].

No entanto, Israel afirma que seus alvos são instalações militares ou militantes com objetivo de autodefesa e não civis. Conforme manifestou Netanyahu, o país considera todas as possibilidades para acabar com os bombardeios palestinos e, durante a madrugada de ontem, domingo, dia 13, ocorreu uma incursão do Exército em Gaza[5], sabendo-se que anteriormente 20.000 homens teriam sido chamados da reserva do Exército.

Até o momento a batalha está progredindo como planejado, mas podemos esperar outros estágios no futuro[6], havia declarado o Primeiro-Ministro em entrevista coletiva na última sexta-feira, dia 11, complementando sua declaração afirmando que “Nenhuma pressão internacional vai nos impedir de agir com todo poder[7], algo que se confirmou na madrugada de sábado para domingo.

O líder do Hamas, Mahmoud Zahar, também manteve uma posição firme e afirmou que o grupo só concordaria com um cessar-fogo se certas condições fossem atendidas, como o fim do cerco e bloqueio israelense à Gaza e a liberação de prisioneiros palestinos. “Estamos prontos para continuar com essa batalha em uma escala ainda maior do que agora, durante meses[8], declarou Zahar em entrevista à rede de televisão do Hamas.

Na última sexta-feira, John Kerry, pediu que os primeiros-ministros do Egito e do Qatar utilizem sua influência com o Hamas para parar os ataques. Em 2012, o Egito teve um importante papel no Acordo de Paz que acabou com as hostilidades então presentes, mas, até o momento, o país não quis se envolver, já que o presidente Abdel Fattah al-Sisi é hostil ao grupo e seu possível envolvimento com militantes egípcios no Deserto do Sinai[8].

França e Rússia também pediram que os dois lados considerassem um Acordo. Já o Secretário Geral da ONU, Ban Ki Moon, exigiu moderação e um cessar-fogo imediato, pois o “Oriente Médio não poderia lidar com outra guerra de grandes proporções[9].

———————————————————-

Imagem (FonteSaid Khatib/ AFP / Getty Images):

http://www.theguardian.com/world/2014/jul/11/israeli-air-strikes-gaza-continue-us-barack-obama-offers-broker-ceasefire?utm_source=Sailthru&utm_medium=email&utm_term=%2AMideast%20Brief&utm_campaign=2014_The%20Middle%20East%20Daily_6.11.14

———————————————————-

Fontes consultadas:

[1] Ver:

http://www.bbc.com/news/world-middle-east-28258448

[2] Ver:

http://g1.globo.com/mundo/noticia/2014/07/israel-envia-unidade-a-gaza-e-anuncia-bombardeios.html

[3] Ver:

http://www.theguardian.com/world/2014/jul/11/israeli-air-strikes-gaza-continue-us-barack-obama-offers-broker-ceasefire?utm_source=Sailthru&utm_medium=email&utm_term=%2AMideast%20Brief&utm_campaign=2014_The%20Middle%20East%20Daily_6.11.14

[4] Ver:

http://www.ft.com/intl/cms/s/0/bd0c1cfa-08c2-11e4-8d27-00144feab7de.html?siteedition=uk&utm_source=Sailthru&utm_medium=email&utm_term=*Mideast%20Brief&utm_campaign=2014_The%20Middle%20East%20Daily_6.11.14#axzz37Gaqh5fL

[5] Ver:

http://english.alarabiya.net/en/News/middle-east/2014/07/13/Israeli-commandos-clash-with-Hamas-gunmen-in-Gaza-.html

[6] Ver:

http://www.bbc.com/news/world-middle-east-28258448

[7] Ver:

http://www.reuters.com/article/2014/07/11/us-palestinians-israel-idUSKBN0FC0JP20140711?utm_source=Sailthru&utm_medium=email&utm_term=%2AMideast%20Brief&utm_campaign=2014_The%20Middle%20East%20Daily_6.11.14

[8] Ver:

http://www.ft.com/intl/cms/s/0/bd0c1cfa-08c2-11e4-8d27-00144feab7de.html?siteedition=uk&utm_source=Sailthru&utm_medium=email&utm_term=*Mideast%20Brief&utm_campaign=2014_The%20Middle%20East%20Daily_6.11.14#axzz37Gaqh5fL

[9] Ver:

http://www.bbc.com/news/world-middle-east-28258448

NOTAS ANALÍTICASORIENTE MÉDIOPOLÍTICA INTERNACIONAL

Presidente Curdo quer organizar referendo para independência da região

O presidente da região do curdistão iraquiano Massoud Barzani pediu na última terça-feira, dia 1º de julho, durante uma reunião a portas fechadas, transmitida posteriormente na televisão, que o Parlamento comece a organizar um referendo para a independência da região Curda do resto do Iraque, a ser realizado dentro de poucos meses[1].

O Curdistão Iraquiano é uma área rica em petróleo que abriga cerca de cinco milhões de habitantes do país (17% da população de 32 milhões) e vem ganhando autonomia desde a década de 90, após a Guerra do Golfo[2]. Apesar disso, as brigas com o Governo central de Bagdad são constantes, principalmente no que diz respeito a negócios, como a assinatura de contratos internacionais e a venda de petróleo[3].

A decisão do Presidente mostra um sonho de longa data do povo curdo, ter seu próprio Estado, e uma tentativa de aproveitar o caos e as divisões que reinam no país para, finalmente, atingir seus objetivos. Recentemente, sunitas se aliaram a tribos locais para lutar contra o governo do primeiro ministro pró-xiita Nour al-Maliki, nomeado como o maior obstáculo à um governo inclusivo[4]. Até o momento, os “rebeldes” conseguiram dominar partes do norte e do oeste do país, inclusive ameaçando invadir Bagdad e declarar um Califato Islâmico que seguiria as leis da Sharia[5].

 “O Iraque está efetivamente dividido agora. Nós somos obrigados a ficar nessa situação trágica que o país está vivendo? Não sou eu quem vai decidir sobre a independência, é o povo [6] – afirmou o Presidente que disse não se sentir mais vinculado à Constituição do país e a sua promessa de unidade estatal[7].

Em 2005, os Curdos já apoiaram uma possível independência em um referendo não vinculativo, bem como, ao longo dos anos, chegaram ao mesmo resultado em pesquisas de opinião. Agora, na atual situação do país, o sonho parece ter ficado ainda mais possível[8]. Desde o início da insurgência islâmica os Curdos aproveitaram para aumentar seu território em 40%, inclusive tomando a cidade de Kirkukhá pouco mais de duas semanas, considerada como capital histórica do Curdistão e economicamente estratégica para todos os lados do conflito por ser rica em petróleo[9].

Apesar de Bagdad ter considerado a anexação da cidade como inaceitável e oportunista[10], o presidente Barzani afirmou que não abrirá mão da posição. “E para aqueles que dizem que irão retornar à região, eu digo que estão enganados, porque o Peshmerga* não vai se retirar sob nenhuma circunstância [11], afirmou.

Se as tropas do Governo não retomarem os territórios perdidos e os Curdos votarem pela independência, não apenas a divisão pode acarretar ainda mais instabilidade à um lugar já frágil, como também países vizinhos que também possuem minorias Curdas como Turquia, Iran e Síria, podem se sentir ameaçados com uma possível tentativa de independência ou fragmentação dentro de seus próprios territórios. O presidente Barzani afirmou que o novo Estado não seria um perigo a ninguém, mas, após passar anos lutando contra o separatismo dentro de seus países, Turquia, Iran e Síria podem não estar prontos para aceitar um movimento similar no Iraque tão facilmente, mesmo que a Turquia, por exemplo, tenha ficado mais maleável nos últimos anos, após começar a comprar petróleo da região. Um possível apoio de outros países árabes se tornou mais difícil também depois que Benjamin Netanyahu, primeiro ministro israelense endossou a causa[13].

Nos Estados Unidos a recepção ao referendo não foi das melhores. Em um comunicado, a Casa Branca afirmou acreditar em um Iraque mais forte quando unido e pediu que Barzani apoie o Governo para que o país consiga vencer a insurgência liderada pelo “Estado Islâmico” e não tenha o mesmo destino que a Síria[14].

——————————————————————

* Nome dado às tropas Curdas, significaAqueles que encaram a morte[12].

——————————————————————

ImagemMassoud Barzani, presidente do Curdistão Iraquiano” (FonteWikipédia Commons):

http://en.wikipedia.org/wiki/Masoud_Barzani#mediaviewer/File:Mesud_Barzani.jpg

——————————————————————

Fontes consultadas:

[1] Ver:

http://english.alarabiya.net/en/News/middle-east/2014/07/03/Iraq-s-Kurd-chief-asks-MPs-to-organize-independence-vote.html

[2] Ver:

http://time.com/2945035/iraqi-kurds-to-vote-on-independence/?utm_source=feedburner&utm_medium=feed&utm_campaign=Feed:%20time/topstories%20(TIME:%20Top%20Stories)

[3] Ver:

https://english.al-akhbar.com/content/iraqs-kurdish-leader-calls-independence-vote

[4] Ver:

http://www.reuters.com/article/2014/07/04/us-iraq-security-idUSKBN0F81M220140704

[5] Ver:

http://www.aljazeera.com/news/middleeast/2014/07/islamic-state-caliph-lauds-iraq-rebellion-20147512574517772.html

[6] Ver:

http://time.com/2945035/iraqi-kurds-to-vote-on-independence/?utm_source=feedburner&utm_medium=feed&utm_campaign=Feed:%20time/topstories%20(TIME:%20Top%20Stories)

[7] Ver:

http://www.theguardian.com/world/2014/jul/03/kurds-independence-referendum-iraq-massoud-barzani

[8] Ver:

http://www.aljazeera.com/news/middleeast/2014/07/iraq-kurds-call-independence-referendum-201473125010428418.html

[9] Ver:

http://time.com/2945035/iraqi-kurds-to-vote-on-independence/?utm_source=feedburner&utm_medium=feed&utm_campaign=Feed:%20time/topstories%20(TIME:%20Top%20Stories)

[10] Ver:

https://english.al-akhbar.com/content/iraqs-kurdish-leader-calls-independence-vote

[11] Ver:

http://english.alarabiya.net/en/News/middle-east/2014/07/03/Iraq-s-Kurd-chief-asks-MPs-to-organize-independence-vote.html

[12] Ver:

http://time.com/2945035/iraqi-kurds-to-vote-on-independence/?utm_source=feedburner&utm_medium=feed&utm_campaign=Feed:%20time/topstories%20(TIME:%20Top%20Stories)

[13] Ver:

http://www.theguardian.com/world/2014/jul/03/kurds-independence-referendum-iraq-massoud-barzani

[14] Ver:

http://www.yourmiddleeast.com/news/kurds-seek-independence-vote-amid-iraq-chaos_24885