ECONOMIA INTERNACIONALEUROPANOTAS ANALÍTICASORGANIZAÇÃO INTERNACIONAL

UE questiona a Rússia na OMC

A “União Europeia” (UE) entrou nesta última terça-feira, dia 8 de abril, com uma ação na “Organização Mundial do Comércio” (OMC) questionando a resolução da “Federação Russa” em suspender as importações de carne de porcos e produtos derivados, oriundos de países europeus, de acordo com comunicado oficial publicado no site da “Comissão Europeia” (CE)[1].

Para Karel De Gucht, “Comissário Europeu para o Comércio”, a incapacidade de uma solução diplomática por meios bilaterais acarretou na necessidade de levar a disputa à OMC. Nas palavras do Comissário, “a proibição russa à carne de porco [e derivados] europeia é claramente desproporcional e vai contra as normas da OMC. (…) Depois de semanas de conversações com os nossos colegas russos, para tentar resolver este problema, percebemos que não houve absolutamente nenhum progresso. A Europa vai defender seus produtores de carne de porco e, neste aspecto, não tem mais escolha se não prosseguir com este caso na OMC[1].

A suspensão das importações por parte da Rússia ocorreu em janeiro deste ano, após quatro casos detectados de “Peste Suína Africana” (PSA) na Polônia e na Lituânia. A CE alega que tais eventos foram casos isolados que ocorreram na proximidade da fronteira com a Bielorússia. Para o “Comissário Europeu para a Saúde”, Tonio Borg, é bem provável que o vírus da PSA tenha origem na própria Bielorússia.

Em comunicado, a “Comissão Europeia” afirmou que casos semelhantes ocorreram na Ucrânia e, inclusive, na Bielorússia, o que não acabou por gerar uma suspensão da compra de carnes de porcos e derivados por parte da Rússia. Assim, concluiu a CE que, “ao recusar-se a importar de regiões da UE que não foram afetadas pelo vírus, a Rússia parece estar aplicando padrões duplos, tratando os produtos da UE de forma diferente de outros parceiros comerciais e daqueles produzidos domesticamente[1], o que fere diretamente as normas da OMC.

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Imagem Fronteira da Bielorússia (Belarus) com a Polônia e Lituânia (Fonte):

http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/8/8c/Belarus_-_Location_Map_(2013)_-_BLR_-_UNOCHA.svg/280px-Belarus_-_Location_Map_(2013)_-_BLR_-_UNOCHA.svg.png

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Fontes consultadas:

[1] Ver:

http://europa.eu/rapid/press-release_IP-14-389_en.htm

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Ver também:

http://www.foxnews.com/world/2014/04/08/highlighting-worsening-relations-eu-challenges-russia-at-wto-over-pork-import/

Ver também:

http://abcnews.go.com/International/wireStory/eu-opens-case-russia-pork-import-ban-23234552

        

EUROPANOTAS ANALÍTICASPOLÍTICA INTERNACIONAL

OTAN pretende fortalecer laços com ex-Repúblicas Soviéticas

A “Organização do Tratado do Atlântico Norte” (OTAN, ou NATO, na sigla em inglês) anunciou na última terça-feira, dia primeiro de abril, que, “de acordo com a nossa política, as portas da aliança [da OTAN] permanecem abertas a novos membros no futuro[1]. Deu, assim, continuidade ao seu processo de alargamento, com prioridade na “promoção da estabilidade na Europa do leste[2].

Nas palavras do “Secretário Geral” da Organização, o dinamarquês Anders Fogh Rasmussen, “qualquer Estado europeu em condições de promover os princípios da aliança e em condições de contribuir com a segurança da área do Atlântico Norte poderá aplicar para se juntar [a OTAN]”[1].

Na tentativa de promover aestabilidadeno leste europeu, a Organização tem por objetivo fortalecer cooperações militares com as ex-Repúblicas Soviéticas da Armênia, Azerbaijão e Geórgia[3]. Ademais, países como Moldávia, Bósnia e Montenegro estão nalistade possíveis novos membros da OTAN.

Além disso, a Polônia e os três países bálticos (Lituânia, Letônia e Estônia), participantes da OTAN e da “União Europeia”, estão preocupados com uma suposta política expansionista arquitetada pelo atual “Presidente da Federação Russa”, Vladimir Putin. Com isso, tiveram início debates acerca da possibilidade da criação de ações preventivas, com apoio, principalmente, do “Reino Unido”, da Dinamarca e da Alemanha.

Em discurso, o “Primeiro-Ministro do Reino Unido”, David Cameron, afirmou que “devemos fazer de tudo o que pudermos para tranquilizar os nossos amigos e colegas na Letônia, Lituânia, Estônia e Polônia, que realmente acreditam em suas adesões à OTAN e às garantias que temos dados a eles[2].

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Imagem (Fonte):

http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/0/06/North_Atlantic_Treaty_Organization_(orthographic_projection).svg/550px-North_Atlantic_Treaty_Organization_(orthographic_projection).svg.png

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Fontes consultadas:

[1] Ver:

http://euobserver.com/defence/123713

[2] Ver:

http://www.theguardian.com/world/2014/apr/01/nato-plans-stronger-military-ties-armenia-azerbaijan-moldova

[3] Ver:

http://www.theguardian.com/world/2014/apr/01/nato-eastern-europe-defences-russia-putin-crimea

 

ÁSIAEUROPANOTAS ANALÍTICASPOLÍTICA INTERNACIONAL

O (neo) Eurasianismo e a Política Externa Russa

Os recentes acontecimentos envolvendo a Política Externa russa na Ucrânia, mas especificamente na “Península da Criméia”, têm atraído a atenção massiva da mídia internacional nas últimas semanas. Desde o início dos protestos na “Praça de Maidan” (ou “Praça da Independência”), localizada em Kiev, capital ucraniana, a situação do país permanece incerta – as manifestações tiveram início após o anúncio do rompimento das negociações para um “Acordo de Associação” com a “União Europeia” (UE)[1].

A adoção de políticas mais duras pelo “Presidente da Rússia”, Vladimir Putin, tem suscitado grandes preocupações entre os observadores internacionais. Muitos se questionam sobre o que estaria se passando pela cabeça do governante russo ao mandar tropas para a Criméia e, aparentemente, aprofundar a instabilidade na Ucrânia. Certamente, uma análise da psique de Putin torna-se impraticável e impossível, contudo, podemos analisar uma ideia que vêm demonstrando destacada influência entre a elite política russa e grande importância para o entendimento da atual “Política Externa” do país.

O Eurasianismo fora uma concepção teórica geopolítica concebida no início do século XX, mas cujas origens podem ser remetidas ao “Império Russo” – fundado em 1721 e dissolvido com a “Revolução Bolchevique”, em 1917. O desenvolvimento desta escola russa de pensamento ajuda-nos a compreender as pretensões de hoje e de outrora. Para estes teóricos, a (re) existência do “Império Russo” depende da realização plena do domínio territorial ao centro do continente euroasiático.

Após o término da “União Soviética”, em 1991, a projeção de poder e o território garantidos à Rússia pelo então regime soviético, de extrema vitalidade para pretensões eurasianas, foram dissolvidos. Desde então, uma revitalização da escola russa de geopolítica teve início, encabeçada principalmente pelo professor de sociologia das relações internacionais do “Departamento de Sociologia da Universidade de Moscou”, Aleksandr Dugin.

Para Dugin, e para os defensores do neo-Eurasianismo, torna-se impensável conceber uma ideia de Rússia sem a existência de um “Império [‘Euroasiático’]”. Ademais, a Rússia deveria se distanciar de um modelo europeu de desenvolvimento, rejeitando a identidade europeia, e defender um modelo próprio russo.

Uma das grandes influências de Dugin fora o geopolítico inglês Halford John Mackinder (1861-1947) e a sua teoria do Heartland. Para o pensador, a emergência de uma potência terrestre faria contraponto aos grandes poderes marítimos consolidados à sua época. Assim, o domínio terrestre da região da Eurásia, estrategicamente superior, constituiria um “coração continental”, ou Heartland, permitindo o deslocamento de forças terrestres para todas as direções do globo. A inexistência de um poder com as mesmas condições geopolíticas faria com que aquele Estado que dominasse a Heartland tivesse condições de expandir seus poderes, até níveis globais, sem grandes forças contrárias.

Durante muitos anos, a condução da “Política Externa” de grandes potências,como o “Reino Unido” fora feita tendo em consideração a necessidade de impedir o controle pleno da região do Heartland, impossibilitando assim um “domínio mundial”.

Desde o início de 2000, a concepção de Eurasianismo retornou à “Política Externa Russa”. Fato que comprova isso foi o presidente Vladimir Putin, ainda em seu primeiro mandato (2000-2004), ter declarado na “Cúpula Asiática” realizada em Brunei, em novembro de 2001, que “A Rússia sempre se sentiu como um país euroasiático. Nós nunca nos esquecemos de que grande parte do seu território está na Ásia. Mas deve ser dito, com total honestidade, que nós nunca fizemos uso desta vantagem. Acho que chegou a hora de acasalar palavras com ações, em conjunto com os países da região da Ásia e Pacífico e construir laços econômicos, políticos, entre outros. Hoje, a Rússia tem tudo que é necessário para fazê-lo[2].

As concepções teóricas do Eurasianismo fundamentaram, em grande medida, o atual conceito de “Política Externa” adotado no terceiro mandato de Putin (2012- atual). Um pouco antes das eleições presidenciais, o candidato Putin escreveu um artigo intitulado “A Rússia e o mundo em mudança”, no qual aponta a necessidade da criação de um conceito de política externa compatível com as mudanças ocorridas no sistema internacional, marcado pela crescente instabilidade.

Ao tomar posse do cargo, em 7 de maio de 2012, ele solicitou ao “Ministério das Relações Exteriores” que montasse um Comitê que seria responsável por sistematizar as novas diretrizes da “Política Externa Russa”, fazendo do país “uma espécie de foco de estabilidade capaz de atrair parceiros para traçar um caminho coletivo em um mundo turbulento[3].

No documento apresentado pelo Ministério responsável, a reconstrução do espaço soviético torna-se uma das primordiais prioridades do Governo de Putin. A, assim chamada, “União Euroasiática”. O projeto russo tem por objetivo unir os Estados que outrora pertenceram a “União Soviética” – com exceção, por ora, dos países bálticos – em um processo de integração, culminando, em 2015, em uma união política entre as partes.

O território da “União Euroasiática” assemelha-se ao da “União Soviética” que, por sua vez, possui fortes paralelos aos domínios terrestres do “Império Russo”. Este, como apontado por Mackinder, correspondeu historicamente ao Heartland.

A “Guerra da Geórgia”, em 2008, pode ser compreendida dentro da estrutura do neo-Eurasianismo, após o reconhecimento, por parte da Rússia, da independência da “Ossétia do Sul” e da Abkhazia.

A Ucrânia é um país chave na realização da “União Euroasiática” e a proximidade desta com a “União Europeia” (UE) pôs em risco uma das principais prioridades da política externa russa, se não a maior. Além disso, o Eurasianismo não consiste, apenas, de argumentos geopolíticos. A existência do “Império Russo”, que compreendia o atual território da Ucrânia, gerou laços históricos que dificilmente serão rompidos. Conforme apontado por um professor britânico, devemos olhar para a relação Rússia-Ucrânia e a consequência do rompimento, ou não, de suas relações e o impacto disto para a identidade dos países, da mesma forma que olhamos para a relação existente entre a Inglaterra e a Escócia e as consequências de uma possível independência do país escocês[5].

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Imagem Os limites territoriais do Império Russo (1721-1917)” (Fonte):

http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/6/6d/Russian_Empire_(orthographic_projection).svg/541px-Russian_Empire_(orthographic_projection).svg.png

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Fontes consultadas:

[1] Ver:

http://www.jornal.ceiri.com.br/ucrania-rejeita-acordo-de-associacao-com-a-ue/

[2] Ver:

Laruelle, Marlène (2008) Russian Eurasianism. Na Ideology of Empire. Baltimore: The Johns Hopinkins University Press, pg. 7.

[3] Ver:

http://www.jornal.ceiri.com.br/breves-apontamentos-acerca-da-nova-politica-externa-russa/

[4] Ver:

http://euobserver.com/foreign/121304

[5] Ver:

http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,o-que-esta-em-jogo-na-ucrania,1133443,0.htm

 

ECONOMIA INTERNACIONALEUROPANOTAS ANALÍTICAS

A dependência alemã ao gás russo poderia limitar, efetivamente, a soberania europeia

Em entrevista concedida à imprensa, na última segunda-feira, o Primeiro-Ministro da Polônia, Donald Tusk, afirmou que a Alemanha, assim como outros países europeus, deveria reduzir sua alta dependência de fontes energéticas russas, caso contrário aPolítica Externa Comum da União Europeia (UE)” continuará fortemente prejudicada.

Para Tusk, “nós [UE] não seremos capazes de resistir com sucesso, no futuro, contra as medidas agressivas ou expansionistas da Rússia, se tantos países europeus continuarem dependentes do gás [russo] (…)”[1].

Nesta quarta-feira (12 de março), a “Chanceler da Alemanha”, Angela Merkel, visitou o Primeiro-Ministro polonês para discutir questões relativas à crise na Ucrânia. Na opinião de Tusk, a forte dependência alemã à energia russa* atrapalhou uma resposta rápida e eficaz aos problemas políticos e sociais enfrentados na Ucrânia e embora a situação alemã não seja a única** ela representa o exemplo mais emblemático.

Em tom alarmante, Tusk afirmou antes do encontro que “a dependência alemã ao gás russo poderia limitar, efetivamente, a soberania europeia. (…) O crescimento do custo da energia na Europa, devido as exorbitantes ambições climáticas e ambientais, também pode significar uma maior dependência em fontes energéticas russas. Por isso, irei falar [para Merkel], acima de tudo, de que forma a Alemanha poderia corrigir o seu comportamento econômico, de modo que a dependência do gás russo não paralise a Europa quando precisarmos agir rapidamente e de forma inequívoca[2].

Além do gás, a Rússia exporta altas quantias de petróleo e carvão para a Europa. Conforme apontam especialistas, uma mudança de fornecedor destas duas matrizes energéticas é relativamente fácil de ocorrer na Europa, contudo, devido a necessidade de gasodutos fixos, para o transporte do gás, é impossível que a Europa possa conseguir um novo fornecedor em um curto período de tempo.

A Polônia é um dos países da UE que atuam, com maior veemência, na tentativa de obter gás através dos Estados Unidos da América”, diminuindo a dependência em relação aos vizinhos russos. Entretanto, o alto preço demandado pelos americanos é ainda um grande entrave para a concretização do negócio.

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* 40% do gás consumido no país tem essa origem.

** Já que países como a Finlândia, Bulgária e Lituânia apresentam uma maior dependência ao gás russo.

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Imagem (Fonte):

http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/c/c9/Premier_RP_D_Tusk.jpg

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Fontes consultadas:

[1] Ver:

http://euobserver.com/foreign/123410

[2] Ver:

http://www.reuters.com/article/2014/03/10/poland-germany-ukraine-idUSL6N0M71JA20140310

EUROPANOTAS ANALÍTICASPOLÍTICA INTERNACIONAL

Renzi é liberado para negociar a formação de um novo Governo na Itália

Nesta última segunda-feira (dia 18), o Presidente da Itália”, Giorgio Napolitano, solicitou ao atual governador da cidade de Firenze e novo líder do Partido Democrático”*, Matteo Renzi, que desse início às negociações interpartidárias com o objetivo de formar um novo Governo na Itália.

A necessidade de um novo Governo surgiu após a renúncia do ex-primeiro-ministro Enrico Letta, na semana que passou. Letta, até então líder do “Partido Democrático”, fora abatido por uma considerável pressão de seu Partido, favorável a sua renúncia. Em votação interna, a queda do então Primeiro-Ministro fora apoiada por uma maioria considerável de 136 votos[1], contra 16, favoráveis a sua  permanência.

A oposição interna à Letta, liderada por Renzi, argumentou que a incapacidade do governante em aprovar no Parlamento as reformas políticas necessárias justifica sua renúncia ao cargo. Ademais, a estagnação da economia italiana, terceira maior da “Zona do Euro”, e o insucesso das políticas econômicas de Letta também foram creditadas como motivos favoráveis à renúncia. Ressalte-se que a Itália vive a pior recessão econômica desde o término da “II Guerra Mundial” e, em dado recente, cerca de 41% dos jovens italianos estão desempregados[2].

Após uma conversa com o presidente Napolitano, Renzi afirmou que irá divulgar em poucos dias sua lista de ministros e seu programa de governo, para avaliação do Parlamento italiano. Seus objetivos iniciais concentram-se na aprovação de uma novaLei Eleitoral”; no início do processo de reforma da Constituição; no incentivo à geração de novos empregos; na reorganização do setor público e na revisão doSistema Tributário[3].

Caso obtenha uma coalizão no Parlamento, Renzi irá se tornar o mais novo “Primeiro-Ministro da Itália”, aos 39 anos.

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* O “Partido Democrático” obteve o maior número de votos nas últimas eleições parlamentares, que ocorreram no primeiro semestre de 2013.

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Imagem (Fonte):

http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/f/f7/Matteo_Renzi_crop_new.png

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Fontes consultadas:

[1] Ver:

http://euobserver.com/political/123145

[2] Ver:

http://www.theguardian.com/world/2014/feb/14/enrico-letta-steps-down-italy-pm-matteo-renzi

[3] Ver:

http://www.theguardian.com/world/2014/feb/17/italian-president-matteo-renzi-mayor-florence-new-government

 

ANÁLISES DE CONJUNTURAEUROPA

O discurso de Cameron e uma alternativa nórdica para a Escócia

Em meados de setembro próximo, os cidadãos escoceses deverão decidir através de um Referendo o futuro de seu país como parte integrante do Reino Unido” (composto, atualmente, pela Inglaterra, “País de Gales”, “Irlanda do Norte” e pela própria Escócia). A campanha a favor da independência da Escócia, liderada peloScottish National Party” (SNP), acaba de ganhar uma resposta do Primeiro-Ministro do Reino Unido”, David Cameron.

Em discurso proferido no último dia 7 de fevereiro (2014), Cameron apresentou seus argumentos a favor da manutenção dos escoceses no Reino Unido”, mas, ao invés de destacar os argumentos econômicos e políticos favoráveis à sua posição, o Primeiro-Ministro preferiu recorrer a laços sentimentais e históricos. O jornal inglês “The Guardian” caracterizou a fala de Cameron como um “apelo apaixonado e pessoal[1].

O local escolhido para a realização de seu discurso já fora bastante significativo. Cameron falou diretamente do velódromo olímpico, localizada na capital da Inglaterra, Londres. Durante as “Olimpíadas de 2012”, o “Team GB”, como fora chamado os atletas que disputavam pelo “Reino Unido” (diferentemente de outros eventos esportivos, como a “Copa do Mundo”, nas Olimpíadas as quatro nações britânicas disputam os jogos no mesmo “Time”) conquistou sete medalhas, das dez em disputa no velódromo. As habilidades dos ciclistas britânicos entusiasmaram, com grande êxito, a torcida local[2].

A alusão do Primeiro-Ministro às conquistas olímpicas não se restringiram apenas ao local de seu discurso, afirmando que a melhor coisa que ocorreu nasOlimpíadas de Londres” “não foram as vitórias; mas sim o vermelho, o branco e o azul [referências as cores da bandeira do Reino Unido]. Foi o verão que o patriotismo [britânico] saiu das sombras e foi para o sol. Todo mundo torcendo como um para o Team GB[1].

As tentativas de Cameron de influenciar os cidadãos britânicos com alusões ao sentimento olímpico foram fortemente criticadas pelo SNP, que qualificou o ocorrido como lamentável e um nervosismo daqueles contrários à independência escocesa. Nicola Sturgeon, Primeira Vice-Ministra da Escócia, afirmou que “é um erro misturar política e esporte dessa maneira[1].

Durante o seu discurso, Cameron repetidamente defendeu a importância política, econômica, social e cultural, tanto no plano interno como nas relações internacionais, da manutenção da unidade do Reino Unido” – usando, ironicamente, argumentos semelhantes àqueles usados pelos defensores da “União Europeia[3] – , afirmando que “às vezes, podemos esquecer o quão grande é a nossa reputação; que, em todo mundo, as palavras ‘UK’ [sigla inglesa para “Reino Unido” – “United Kigdom”] significam único, brilhante, criativo, excêntrico, genial. Nós chegamos como uma marca – uma marca poderosa. (…) Se nós perdemos a Escócia, se o Reino Unido mudar, nós teríamos de rasgar o tapete sob a nossa própria reputação. O fato evidente é que nós somos mais importantes no mundo quando juntos. (…) Nosso alcance é muito mais do que o poderio militar – é sobre a nossa música, cinema, TV, moda. O Reino Unido é uma superpotência de soft power*. (…) Juntos, estas ilhas realmente representam algo mais do que a soma de nossas peças, elas representam ideias maiores, causas nobres, valores maiores[1].

Ao finalizar, Cameron realiza o apelo mais sentimental de seu discurso, referindo-se ao Reino Unido como uma grande família, e a necessidade desta se unir para combater aqueles que pretendem dividi-la: “É importante para a Escócia perceber que o resto da família vê isso [o referendo] como uma decisão de família muito importante[1]. (…) “Eu quero ser claro para que todos possam ouvir. Não pode haver complacência sobre o resultado deste referendo. O resultado ainda está no ar e temos apenas sete meses. Sete meses para fazer de tudo o que pudermos para manter o nosso Reino Unido como um só. Sete meses para salvar o país mais extraordinário da história. (…) E nós temos que fazer o que for preciso. Então, para todo mundo na Inglaterra, País de Gales e Irlanda do Norte; todos, como eu, que se preocupam com o Reino Unido, eu quero dizer o seguinte: você não tem um voto, mas você tem uma voz. Aqueles que irão votar são nossos amigos, vizinhos e familiares. (…) Você tem uma influência. Vá ao telefone, se reúnam, mandem e-mail’s, twitten, falem![1].

Contudo, não é apenas na Escócia que um sentimento britânico, de pertencimento ao Reino Unido”, está desaparecendo. De acordo com o “British Social Attitudes[4], cerca de um quarto dos ingleses ficariam satisfeitos com uma eventual independência da Escócia.

A posição do SNP perante o discurso de Cameron demonstrou grande similaridade ao editorial escrito pelo jornal The Guardian”. Ambos criticaram, ferozmente, a ausência e a relutância do Primeiro-Ministro Britânico em participar de um debate com o Primeiro-Ministro Escocês, defensor da independência de seu país.

Para o jornal, “a batalha iminente será travada na Escócia, e é aí que o Sr. Cameron tem de se envolver[4]. Nicola Sturgeon, pelo SNP, convidou todos os cidadãos britânicos a participarem do debate, mas criticou fortemente a postura de Cameron. Para ela, “ele não pode dizer ‘eu quero ser parte do debate’, mas, logo em seguida, dizer ‘não, eu não estou preparado para vir a Escócia e ter um debate frente-a-frente com o Primeiro-Ministro [da Escócia, Alex Salmond]”[1].

Enquanto isso, um think-tank[5] escocês encabeça uma posição cada vez mais comum entre aqueles que defendem a independência da Escócia, principalmente o SNP. Caso o país consiga sua independência no próximo dia 18 de setembro, será natural uma maior aproximação com os países nórdicos**, e suas instituições de cooperação. Para o porta-voz do SNP, Angus Robertson, a inclusão da Escócia aoConselho Nórdicoé uma das coisas que só serão possíveis com a independência de seu país, cuja política externa, atualmente, encontra-se no controle doParlamento Britânico”.

Para o norueguês Arne Kruse, professor do “Centro de Estudos Escandinavos da Universidade de Edinburgh” (Escócia), “há tantas semelhanças, especialmente em termos de nossa relação com a natureza o petróleo, a pesca, a piscicultura, as energias renováveis. Há muitos paralelos[6].

A revitalização dos aspectos nórdicos na Escócia (cujo primeiro contato ocorreu com a colonização viking no século VIII) ganha grande respaldo na sociedade escocesatalvez, com a exceção da parte oeste do país, na região de Glasgow, onde ainda reina uma maior aproximação com a Irlanda.

Para o Professor da Universidade de Copenhagen”, Mikkel Vedby Rasmussen, a independência da Escócia seria de grande interesse à Dinamarca. De acordo com o professor, “se a Escócia se tornar independente, haveria então, de repente, um outro país nórdico. Um país com destaque para o estado de bem-estar e escolas públicas – assim como a Suécia, Noruega e Dinamarca. Seria mais um voto na União Europeia e em outras organizações onde nossos valores precisam de apoio[7].

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* Soft Power, ou poder brando, é um conceito desenvolvido pelo professor americano Joseph Nye Jr. para descrever a existência de mecanismos de poder, ou seja, da capacidade de um Estado (ou outra organização política) de influenciar o comportamento de outros atores políticos, que não sejam caracterizados pelo uso da força física (militar), mas sim pelo uso de mecanismos culturais e/ou ideológicos.

** Os países nórdicos são constituídos, atualmente, pela Dinamarca, Suécia, Noruega, Finlândia, Islândia, Groelândia e “Ilhas Faroé”. A expressão “países escandinavos” não pode ser qualificada como sinônimo, pois engloba somente a Dinamarca, Suécia e Noruega.

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Imagem Festividades do Up Helly Aa, em Shetland (Escócia) – referência ao passado viking do país (Fonte):

http://www.scotland.org/assets/2361/up_helly_aa_(30)__gallery.jpg

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Fontes consultadas:

[1] Ver:

http://www.theguardian.com/politics/2014/feb/07/david-cameron-scottish-independence-referendum-olympic-park

[2] Ver:

http://www.dailymail.co.uk/news/article-2185298/Team-GB-Olympics-velodrome-success-7-10-golds-10-10-excitement.html

[3] Ver:

http://www.jornal.ceiri.com.br/ever-closer-union-parte-ii-a-crise-da-familia-europeia/

[4] Ver:

http://www.theguardian.com/commentisfree/2014/feb/07/scottish-independence-referendum-david-cameron

[5] Ver:

http://www.nordichorizons.org/

[6] Ver:

http://www.bbc.co.uk/news/magazine-16050269

[7] Ver:

http://www.heraldscotland.com/politics/viewpoint/as-others-see-us-the-view-from-denmark.2012059452

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Ver também:

http://www.ft.com/cms/s/0/57664dc2-8bf8-11e3-bcf2-00144feab7de.html#axzz2ssZEBGFN

Ver também:

http://www.theguardian.com/uk-news/shortcuts/2014/jan/26/would-scandinavians-want-scotland