ANÁLISES DE CONJUNTURAEUROPA

Campanhas populares na Inglaterra contra possíveis contratações de jogadores de futebol: o caso de Ched Evans

O ano desportivo de 2015 apenas começou e, na Inglaterra, teve início com polêmicas, dentre as quais mostra-se necessário destacar a recusa de dois times profissionais contratarem um jogador de futebol que foi preso por dois anos e meio, após grande pressão popular, além da pressão realizada por parte de torcedores e  membros das diretorias desses clubes.

Emerge à pergunta sobre a relação que pode ter com a sociedade brasileira este caso do jogador inglês que foi preso, pois algo parecido foi discutido ao longo dos últimos anos no Brasil, envolvendo a vontade de alguns clubes brasileiros contratarem o goleiro Bruno, preso pelo assassinato de sua ex-amante. Além deste caso, há também a questão envolvendo à contratação pelo São Paulo do zagueiro Breno, que foi preso na Alemanha por ter incendiado a sua casa[1].

Neste caso inglês, em 2010, o atacante Ched Evans foi acusado e sentenciado a cinco anos de prisão pelo estupro de uma garota num hotel na Inglaterra. A posição do jogador e de seus defensores foi de que, como a garota estava alcoolizada, não ocorreu o estupro, tendo a relação sexual sido, por isso, consensual. Tal consideração traz, porém, uma posição extremamente controversa, uma vez que esta perspectiva é aceita por parte da sociedade inglesa[2]. Isto, no entanto, não impediu que ele cumprisse a metade de sua pena (pois, obteve a redução da sentença devido a considerada boa conduta na prisão), mas também não impediu que jogador continuasse com sua posição de inocente, bem como continuasse à procura de trabalho em sua profissão, o futebol.

Quando foi noticiado pela imprensa inglesa que o seu antigo clube, o Sheffield United, aceitou que ele participasse de treinos para voltar à forma física, o que levaria talvez a ser contratado pelo mesmo, diversos movimentos sociais, organizações de torcedores e inclusive membros da equipe dirigente do time, tal como Jessica Ennis, medalhista de ouro nos jogos de Londres, em 2012, iniciaram uma campanha para que o clube não contratasse o jogador.

Porém, após a recusa do Sheffield em efetivar a assinatura, um outro clube demonstrou interesse em contratar o atacante: o time de Oldham, que luta para não cair na League Two (Quarta Divisão Inglesa)[3]. Novamente, torcedores e diversos movimentos sociais iniciaram uma campanha para que ele não fosse contratado e, ao que parece, este clube também vai desistir de efetivar o negócio com o jogador[4].

A questão sobre se todo ser humano merece uma segunda chance, tratada no âmbito filosófico, não cabe neste texto, mas somente levantar a discussão sobre o assunto, pois, conforme apresentam estudiosos no tema, a tese deste merecimento traz como necessário o arrependimento sobre o crime por parte daquele que o comete, algo que, conforme tem sido noticiado, não é o caso deste jogador que continua defendendo a perspectiva de sua inocência, apesar da sua condenação e cumprimento da pena. Ademais, como apontam especialistas, o fator “arrependimento” é também um elemento importante para a reinserção, a qual só pode estar disponível no caso de o “arrependimento” também estar presente.

Outro ponto a ser considerado diz respeito à posição por parte da sociedade sobre a possibilidade de se conceder a todos uma oportunidade para um recomeço. Parte expressiva e importante dos posicionamentos é de que, neste caso, não deve ser dado, ressaltando-se que tal postura tem de ser considerada sem discriminações de classe, pertencimento étnico, ou religioso. No episódio de Ched Evans, destaca-se que foi importante a posição dos torcedores, os quais decidiram protestar contra a possível contratação do jogador.

Conforme é visto por alguns analistas, situações como essas na Inglaterra podem, principalmente, gerar falsos inocentes, os quais são encobertos pela sociedade inglesa que ainda caminha para entender e resolver os seus problemas relacionados às questões do alcoolismo.

Destaca-se também, que é importante acatar a consideração que a direção do clube teve com os seus torcedores, podendo ser este caso um modelo para outros times profissionais ao redor do mundo, incluindo no Brasil, já que há situações em solo brasileiro para as quais a situação e postura inglesa pode ser replicada.  

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ImagemChed Evans, quando ainda jogava pelo Sheffield United” (Fonte):

http://www.ibtimes.co.uk/nine-people-arrested-relation-ched-evans-twitter-335590

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Fontes Consultadas:

[1] Notícias sobre os casos Bruno, ver:

http://g1.globo.com/minas-gerais/julgamento-do-caso-eliza-samudio/noticia/2013/03/bruno-e-condenado-prisao-por-morte-de-eliza-ex-mulher-e-absolvida.html

Sobre o caso Breno, ver:

http://globoesporte.globo.com/futebol/futebol-internacional/futebol-alemao/noticia/2011/09/breno-do-bayern-e-preso-por-suspeita-de-incendiar-propria-casa.html

[2] Sobre o caso Ched Evans, ver:

http://www.lancenet.com.br/minuto/Ched-Evans-condenado-prisao_0_686331501.html;

Ver Também:

http://www.mirror.co.uk/all-about/ched-evans;

Ver Também:

http://www.bbc.com/news/uk-wales-17781842

[3] Sobre a possível contratação de Ched Evans pelo Oldham Athletic, ver: http://www.dailymail.co.uk/sport/football/article-2896468/Ched-Evans-facing-setback-Oldham-reconsidering-furious-backlash.html

[4] Sobre o depoimento do clube no dia 5 de janeiro, acerca da possível contratação do jogador, ver:

http://www.oldhamathletic.co.uk/news/article/club-statement-ched-evans-2184275.aspx

ESPORTENOTAS ANALÍTICAS

Nelson Mandela e a utilização do esporte para unir uma nação

No dia 5 de dezembro, através de diversos eventos pelo mundo, foi celebrado o aniversário da morte de Nelson Mandela, que faleceu ano passado (2013) aos 95 anos de idade. A história de Mandela é ligada a luta histórica contra o Apartheid na África do Sul e com o período posterior, quando ele se tornou o primeiro Presidente negro do país, além do seu engajamento político através de filantropia*. A importância de Mandela para o século XX não necessita de introdução, podendo-se selecionar algumas partes de sua longa vida regada de luta contra as desigualdades sociais e raciais. É importante focar o período em que ele esteve como Presidente da África do Sul, como o seu Governo lidou com o período de transição, quando a parcela que estava no poder durante o Apartheid temia pela sua segurança, e qual foi a maneira que este Governo liderado por Mandela conseguiu apaziguar os ânimos e criar uma nação multicolor**.

A grande vitória de Mandela durante o seu mandado ocorreu quando da Copa do Mundo de Rúgbi de 1995, que foi organizada e vencida pela África do Sul. Durante os seus anos de prisão, ele observou a paixão dos africâneres pelo Rúgbi, esporte que é praticado em massa pela minoria e também pela elite que controlava o Estado e suas instituições. Com o fim do Apartheid, diversas lideranças do partido de Mandela, o African National Congress (ANC) / Congresso Nacional Africano (CNA), queriam eliminar o grande orgulho dos africâneres, a Seleção de Rúgbi e suas cores que, aos olhos destas lideranças, eram representativas do regime que acabava de ser deposto. A visão de Mandela que compreendeu a importância deste esporte para esta parcela da população que ainda controlava muitas instituições no país, se opôs a eliminação do time que é mundialmente chamado de Springbokes***. A sua justificativa foi que para uma parcela da população que já tinha perdido o poder, perder este símbolo seria a possível gota d’água que poderia levar o país a uma guerra civil.

A Copa do Mundo de 1995 foi sediada na África do Sul no período posterior a estas discussões dentro do CNA e, nela, o país manteve os símbolos que perduram até hoje, a cor verde e a gazela. O acompanhamento por parte de Mandela dos jogos e a final onde mais de 65.000 pessoas de diferentes etnias cantaram o nome do Presidente após a vitória da seleção sobre a Nova Zelândia, a grande potência deste esporte, fez com que a jogada de Mandela tenha conseguido um grande sucesso e tornou possível a produção de uma união através do esporte, não só para o seu país, mas também para outros locais que passaram por problemas similares e tomaram-no como exemplo.

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* O Apartheid foi o regime que perdurou de 1948 até 1994, quando a minoria Africâner controlava a política e a liberdade na África do Sul.

** O termo nação multicolor se refere aqui a bandeira da África do Sul que representa as diversas etnias que estão presente no território do país. Mandela não acabou com todos os problemas desta “nova” nação, mas, sim, mostrou um caminho para ser seguido.

*** A Seleção de Rúgbi da África do Sul é conhecida pelo apelido de Gazela (Sprinbok) tal como a seleção brasileira de futebol era/é conhecida como os canarinhos.

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ImagemNelson Mandela entrega a taça de Campeão do Mundo a François Pienaar, em 1995” (Fonte):

http://www.dailymail.co.uk/sport/article-2520026/Nelson-Mandela-knew-sport-power-help-end-apartheid–PATRICK-COLLINS.html

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Fontes Consultadas:

Ver:

http://www.dailymail.co.uk/sport/article-2520026/Nelson-Mandela-knew-sport-power-help-end-apartheid–PATRICK-COLLINS.html

Ver:

http://news.bbc.co.uk/onthisday/hi/dates/stories/august/18/newsid_3547000/3547872.stm

Ver:

http://www.nydailynews.com/sports/more-sports/mandela-sports-unite-racially-divided-south-africa-article-1.1539151

Ver:

http://abcnews.go.com/International/nelson-mandela-1995-rugby-world-cup-south-africa/story?id=12789149

Ver:

http://www.telegraph.co.uk/news/worldnews/nelson-mandela/10140763/Nelson-Mandela-seized-the-opportunity-of-the-Rugby-World-Cup-1995.html

ESPORTENOTAS ANALÍTICAS

O Esporte como meio de promover a educação, saúde, desenvolvimento e paz

No dia 31 de outubro deste ano, durante a 69a Sessão da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), foi adotada a Resolução que reconhece o Esporte como um meio de promover a luta para alcançar as Metas de Desenvolvimento do Milênio (MDM)[1]. Existem duas grandes Assembleias nas quais os Estados-Membros da ONU votam em Resoluções, a Assembleia Geral da ONU, sediada em New York, e o Conselho dos Direitos Humanos da ONU, sediado em Genebra.

Desde a proclamação do ano de 1994 como Ano Internacional do Esporte e do Olimpismo, já foram votadas mais de 20 Resoluções na Assembleia Geral e cerca de 10 no Conselho dos Direitos Humanos[2]. Dentre os temas mais recorrentes estão a promoção dos direitos humanos através do esporte, a construção de um mundo melhor e mais pacifico através do Esporte e o Esporte como meio de promover a educação, a saúde, o desenvolvimento e a paz.

A Resolução votada no mês passado (outubro), reafirma o poder que tem o esporte para trazer mudanças sociais e também encoraja os países membros a utilizarem deste poder para promover o desenvolvimento e a inclusão social, além de diversas outras áreas nas quais a presença do esporte pode ajudar, como na saúde e na prevenção de doenças.

A importância do esporte como método de alcançar as metas estabelecidas no início do século XXI está crescendo cada vez mais, bem como o papel Departamento do Esporte para o Desenvolvimento e pela Paz da Organização das Nações Unidas (UNOSDP), sob a liderança de Wilfried Lemke, que se mostra como primordial, de acordo com a ONU. Uma das maneiras de constatar esta evolução é observando os diversos países pelo mundo implementarem o uso do esporte em suas políticas públicas.

O Esporte como meio de desenvolvimento não é uma ferramenta somente utilizada pela ONU, por Governos ou por Organizações não Governamentais (ONGs). Ele também é utilizado pelas diversas federações internacionais. A liderança do Comitê Olímpico Internacional (COI) também é reconhecida pela ONU desde a primeira Resolução, em 1994. Em abril deste ano (2014), o COI e a ONU assinaram um memorando de entendimento sobre o papel do esporte para o desenvolvimento e pela paz[3]. No texto da Resolução de outubro passado, a contribuição do COI é elogiada e é também reconhecido o Movimento Olímpico como meio de promover a paz e o desenvolvimento.

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ImagemAssembleia Geral da ONU, no dia 31 de outubro, durante a votação” (Fonte):

http://www.un.org/wcm/content/site/sport/home/template/news_item.jsp?cid=42201

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Fontes Consultadas:

[1] Ver  “Press release da UNOSDP”:

http://www.un.org/wcm/content/site/sport/home/template/news_item.jsp?cid=42201

[2] VerLista de resoluções na Assembleia Geral”:

http://www.un.org/wcm/content/site/sport/home/resourcecenter/resolutions/pid/19431;

Ver tambémlista de resoluções no Conselho de Direitos Humanos”:

http://www.un.org/wcm/content/site/sport/home/resourcecenter/resolutions/pid/19433

[3] VerPress release da ONU em Abril”:

http://www.un.org/apps/news/story.asp?NewsID=47671#.VHIsN_msWSo

ESPORTENOTAS ANALÍTICAS

Falta de treinadores provenientes de minorias na Inglaterra: o racismo institucional

Em meados da semana passada, a Sport People’s Think Thank (SPTT), em associação com a FARE Network publicou um estudo sobre a situação das minorias étnicas com relação a posições de treinadores na Inglaterra[1]. Esta pesquisa, feita em conjunto com a Universidade de Loughborough, demonstra que das 552 posições de técnicos no Reino Unido, apenas 19 são preenchidas por profissionais que provêm de alguma minoria étnica, levando a concluir que o esporte popular nas ilhas britânicas está sendo elitizado por parte das suas autoridades organizadoras.

Estes números podem demonstrar duas coisas, que os técnicos provenientes de minorias étnicas não detêm as qualificações necessárias; ou que existe racismo nas instituições do Futebol inglês. Pelos dados disponíveis, pode-se desconsiderar a primeira opção, devido a presença de diversos candidatos provenientes destas minorias em cursos profissionalizantes realizados por parte da Federação Inglesa (FA) e da União Europeia de Futebol Associada (UEFA)[2].

O Futebol moderno surgiu no século XIX com a criação da FA, em 1863, e com a delimitação desse esporte com regras próprias. Com o passar do tempo, ele começou a ser mais associado à classe operária, que crescia com a industrialização do país. Ao longo do tempo, o esporte se espalhou pelas diferentes classes sociais e se tornou um dos esportes mais populares da Inglaterra e do mundo. Na segunda parte do século XX, a expansão da mídia esportiva e o advento do profissionalismo trouxe um fluxo de dinheiro enorme para o Futebol e para os clubes.

Em termos raciais, no Reino Unido, se o primeiro futebolista negro jogou profissionalmente já no final do século XIX, o primeiro a representar internacionalmente a Inglaterra, no entanto,  foi Viv Anderson, em 1978. Comparativamente com Brasil,  isso ocorreu mais de 60 anos depois de jogadores brasileiros negros representarem o país, como foram os casos de Arthur Friedenreich, que era filho de um comerciante alemão com uma senhora negra e estreou na Seleção Brasileira em 1914, e de Leônidas da Silva[3], que estreou na Seleção em 1932.

O resultado desta pesquisa efetuada pela SPTT demonstra que por mais que 25% dos jogadores no Reino Unido sejam provenientes de Minorias Étnicas, menos de 4% dos seus treinadores se originam destas minorias, induzindo a concluir que os diversos clubes do Reino Unido possam não estar oferecendo oportunidades a treinadores que não sejam provenientes das maiorias étnicas.

Ao longo dos séculos, sempre que se falava em racismo com relação a jogadores negros e de minorias étnicas as explicações que davam (não aptas tanto moralmente quanto cientificamente a serem consideradas justificativas) eram de que estes jogadores não tinham capacidade de liderança e lhes faltava concentração (entre outros atributos)[4]. De forma surpreendente, a mensagem que é passada por parte dos clubes na atualidade pode ser considerada como equivalente a esta questão da capacidade quando eles não oferecem a mesma oportunidade para os treinadores. Eles afirmam que não olham para a cor da pele ou para a etnia a qual pertencem os candidatos a treinadores, mas, sim, apenas para as suas qualificações[5].

O problema não é só um caso especifico do Reino Unido. No Brasil, em 2014, somente 15% dos treinadores são negros, ressaltando-se que o Brasil é um país cuja população é majoritariamente negra ou de origem negra[6]. Nos Estados Unidos, no Futebol Americano existe uma regra chamada Rooney Rule, que requer por parte dos times uma entrevista de minorias étnicas para posições de técnicos[7]. Observadores refletem se uma possível implementação de tal regra poderia ser interessante para dar oportunidade a todos, olhando apenas as qualificações dos candidatos, porém a FA já recusou esta prática para o Futebol Inglês[8].

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ImagemJason Roberts, um dos criadores da Sports People’s Think Thank” (Fonte):

 http://www.footymatters.com/wp-content/uploads/2013/03/Jason-Roberts_AFCAR_Press-Conference.jpg

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Fontes Consultadas:

[1] O Estudo está disponível em:

http://www.farenet.org/wp-content/uploads/2014/11/We-speak-with-one-voice.pdf

[2] Ver entrevista com Tom Perez e Ed Bentsi-Enchill do Football Beyond Borders sobre o estudo:

http://www.arise.tv/sport/global-sports-report-10-11-9126 (A partir do minuto 6)

[3] Sobre a estreia Viv Anderson na seleção inglesa, ver:

http://www.bbc.co.uk/news/uk-england-manchester-16274369

[4] Sobre racismo no Futebol Inglês, ver no The Mirror”:

http://www.mirror.co.uk/sport/football/news/racism-in-football-premier-league-football-1417403

[5] Sobre o assunto no The Guardian”, ver:

http://www.theguardian.com/football/2014/nov/08/discrimination-minorities-rife-football-report-sports-peoples-think-tank

[6] Sobre Racismo no Brasil, ver:

http://placar.abril.com.br/materia/me-desculpe-voce-e-preto-tecnicos-negros-reclamam-de-racismo

Ver Também:

http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2014/11/141111_racismo_tecnicos_futebol_rm

Ver Também:

http://esporte.uol.com.br/futebol/ultimas-noticias/2013/05/10/roque-jr-ve-racismo-com-tecnicos-negros-no-brasil-e-vai-a-europa-se-qualificar.htm

[7] VerRooney Rule”:

http://www.bbc.co.uk/sport/0/football/29685485

[8] Sobre a regra daThe FA”:

http://www.bbc.co.uk/sport/0/football/30058199

ESPORTENOTAS ANALÍTICAS

Futebol na Revolução: o papel dos Ultras na queda de Mubarak

Desde o final de 2010, diversos movimentos populares surgiram no Oriente Médio e no Norte da África contra os regimes autoritários que estavam (e vários ainda estão) em vigência na região. Estes protestos foram interpretados como o acordar dos povos árabes, ganhando então a alcunha de Primavera Árabe, uma homenagem a Primavera de Praga, que durante parte  do ano de 1968, em plena época da União Soviética, produziu uma reforma na política e na economia da então Tchecoslováquia[1].

Além desta terminologia, outros fatores receberam atenção da mídia internacional para estes processos de emancipação, destacando-se a utilização de mídia sociais como Facebook e Twitter para organizar as manifestações.

Como é de conhecimento público, nem todos as manifestações foram bem sucedidas produzindo trocas de governos ou reformas governamentais, já que alguns povos ainda lutam pela sua liberdade, como continua ocorrendo na Síria[2]. Um dos casos mais estudados é o Egito, que foi um dos primeiros países onde a ditadura vigente foi deposta dando espaço a um Governo escolhido por sufrágio, o qual, por sua vez, foi deposto por um golpe militar um ano após o início de seu mandato.

As manifestações que ocorreram na Praça Tahrir no Cairo a partir de meados de 2011,  tiveram como inspiração as que ocorriam no mesmo período na Tunísia. Diversos setores populares foram às ruas, insatisfeitos com a situação política e econômica em que se encontrava o país e não respeitaram o toque de recolher imposto pelo Regime.  Entre os vários problemas sobre os quais a população protestava estavam a brutalidade policial, a alta taxa de desemprego, a corrupção e a falta de liberdade de expressão, necessidades básicas que o Governo não provia ou problemas que ele não enfrentava adequadamente.

No período de Mubarak, houve muito poucas chances para a oposição de vencer uma eleição, sendo ele reeleito durante 24 anos como candidato único. Emergiu, assim, na população que participava dos eventos, o sentimento de uma grande necessidade de mudança política para que houvesse a possibilidade de alcançar melhorias sociais.

A utilização de mídias sociais foi primordial para a organização destes protestos na Praça Tahrir e demais espaços públicos, mas, curiosamente, sem o apoio das torcidas organizadas dos dois maiores times de futebol do país não teria existido o desfecho positivo para a mudança que ocorreu, pois estas já tinham certa experiência com o Governo e com o aparato policial, conseguindo, com sua experiência, proteger a população durante diversos protestos.

Uma das batalhas travadas entre a população e os apoiadores do ditador, conhecida como a Batalha dos Camelos, é considerada como um ponto importante na queda de Mubarak. Nesta batalha, 100 ultras colocaram-se entre os manifestantes e os apoiadores de Mubarak, defendendo a população, aqueles manifestantes que estavam na Praça, durante mais de duas horas.

A presença de torcedores de futebol, representando os dois maiores rivais do Egito, Al Ahly e Zamalek, unidos com o mesmo objetivo de retirar o ditador do poder e pedir por mais liberdade para o povo Egípcio foi um momento único na Revolução Egípcia de 2011[3].

Alguns dias depois, Mubarak renunciou ao seu cargo de Presidente dando lugar a uma Junta Militar. Os protestos para eleições livres continuaram por mais de um ano, até as eleições de 2012, que ocorreram entre março e junho e elegeram o candidato da Irmandade Muçulmana, Mohamed Morsi[4].

A participação das torcidas organizadas conhecidas como Ultras na Revolução do Egito de 2011 foi muito importante para a defesa da liberdade de expressão, para o protesto e para conseguir a renúncia do presidente Mubarak, especialmente  devido a sua experiência no enfrentamento da policia[5].

Antes da eleição de Morsi, no entanto, ocorreu em Port Said um evento trágico que foi considerado uma retaliação contra os Ultras do Al Ahly e, conforme apontam os observadores internacionais, realmente foi. Durante uma partida do Al Ahly e Al Masry, ocorreu um confronto entre torcidas e a Polícia interveio fazendo com que o balanço de perdas humanas chegasse de 74 cidadãos do lado dos torcedores do Al Ahly, além de milhares de feridos[6]

Nesse sentido, passou a ser justificada e necessária a pesquisa sobre a politização dos torcedores de futebol, que se tornou um objeto de estudo, em especifico para compreender a função destas torcidas organizadas em protestos políticos[7].

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* A República Socialista da Tchecoslováquia deixou de existir em 1993, com a separação amigável em dois países: a República Tcheca e a Eslováquia.

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Glossário (Ultras): Os Ultras como fenômeno entre as torcidas organizadas de futebol surgiram na década de 1960, no Sul da Europa, mais especificamente na Itália. Woltering, no entanto, indica que o fenômeno dos Ultras europeus foi inspirado nas torcidas brasileiras, que emergiram inicialmente nos anos de 1930. Maiores informações, ver:

http://www.coe.int/t/dg4/sport/Source/T-RV/T-RV_2010_03_EN_background_doc_Prof_PILZ.pdf

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ImagemManifestação em 2012 no Cairo. Ultra com bandeira homenageando os 74 mortos em Port Said” (Fonte):

http://english.ahram.org.eg/UI/Front/MultimediaInner.aspx?NewsContentID=36843&newsportalname=Multimedia

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Fontes Consultadas:

[1] Sobre a comparação dos dois movimentos, ver:

http://seer.ufrgs.br/ConjunturaAustral/article/viewFile/34863/25324

[2] Sobre o conflito na Síria e a guerra contra o ISIS, ver:

http://www.theguardian.com/world/2014/nov/01/us-bombs-isis-positions-syria-iraq;

Ver também artigos relacionados na página:

https://ceiri.news/category/c33-analises-de-conjuntura/c229-oriente-medio/

[3] Sobre a união entre Zamalek e Al Ahly, ver:

http://www.aucegypt.edu/newsatauc/Pages/Story.aspx?storyID=927

Ver também o Blog do James Dorsey:

http://mideastsoccer.blogspot.com

[4] Ver o artigo de James Montague:

http://edition.cnn.com/2011/SPORT/football/06/29/football.ultras.zamalek.ahly/

[5] Idem.

[6] Notícia sobre o Massacre de Port Said, ver:

http://www.brasildefato.com.br/node/9142

[7] Sobre torcidas organizadas, ver:

https://www.academia.edu/2449139/Unusual_Suspects_Ultras_as_Political_Actors_in_the_Egyptian_Revolution

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Ver também:

http://www.alarabiya.net/articles/2012/02/10/193756.html

Ver também:

http://www.vice.com/pt_br/read/ultras-anarquistas-e-conflitos-nas-ruas-do-egito

Assistir também a palestra de James Dorsey sobre o impacto do futebol na politica do Oriente Médio:

https://www.youtube.com/watch?v=SUwwz4Ug8m0

Ver também o Blog do James Dorsey:

http://mideastsoccer.blogspot.co.uk/

Ver ainda (MONTAGUE, James  – Ultras: How Egyptian Football Fans toppled a Dictator). Disponível em:

http://www.amazon.co.uk/Ultras-Egyptian-Football-Toppled-Dictator-ebook/dp/B00EXUIZ0K

Ver ainda:

OLIVEIRA, Luciana G.; SILVA, Matheus C. Futebol e Política no Mundo Árabe: a revolução dos Ultras no Egito. In: II Simpósio internacional de estudos sobre o Futebol, 2014, Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo. Anais do II Simpósio internacional de estudos sobre o Futebol, 2014. p. 83.

ESPORTENOTAS ANALÍTICAS

A situação do Kosovo com relação ao Esporte e a reconhecimento internacional do país

Na última semana, o território de Kosovo conseguiu mais uma vitória para seu reconhecimento como Estado: foi admitido como membro provisório da família olímpica. O Comité Olímpico Internacional (COI) reconheceu na última quarta-feira Kosovo e isso permite uma possível participação nas próximas Olimpíadas, em 2016, que acontecerão no Rio de Janeiro. Para que isso aconteça efetivamente basta o “país” fazer o pedido durante a próxima sessão do COI, que acontecerá em dezembro desde ano (2014) e, certamente, será aceito como um membro do Comitê[1].

O território se tornou independente em 2008 e até hoje não é reconhecido pela Sérvia, que, inclusive, mostrou seu descontentamento com a decisão do Comitê e já bloqueou diversas vezes a possibilidade de o território majoritariamente albanês alcançar reconhecimento internacional[2].

Como visto em artigo publicado no CEIRI NEWSPAPER na semana passada[3], tal qual foi teorizado por Maria Todorova, os nacionalismos na região dos Bálcãs são comunidades imaginarias, algo que trouxe instabilidade após o período da Iugoslávia de Tito, quando existia uma aparente união entre os diferentes povos[4].

Durante os anos 1990s, a região foi palco de atrocidades que mudaram a geopolítica regional e criaram uma rede de refugiados nos países do oeste da Europa. No fim da década, um território que está dividido entre Albaneses e Sérvios foi palco de guerra e da intervenção da Organização das Nações Unidas (ONU)* para implementar uma paz duradoura e facilitar o processo de independência, o qual foi efetuado em 2008[5].

Um dos grandes problemas da Independência do Kosovo para os Sérvios é o fato de que, na sua narrativa nacionalista, Kosovo se encontra no centro da origem da Sérvia. Para os Albaneses, por sua vez, Kosovo faz parte da Grande Albânia, tal qual também foi mencionado no artigo do CEIRI NEWSPAPER[3].

A participação deste “Estado” no cenário internacional ainda está bloqueada por parte dos aliados da Sérvia e, até o momento, Kosovo é membro apenas de organizações internacionais de esporte que não tem o peso financeiro e midiático, tal qual tem o Comitê Olímpico Internacional a Federação Internacional de Futebol Associada (FIFA) e os seus respectivos produtos, os Jogos Olímpicos e o Futebol.

Como já falado, as Guerras Iugoslavas do fim do século XX causaram um êxodo de refugiados para países como Suíça e França e os filhos destes acabaram se tornando esportistas de alto nível, tendo a opção de representar os seus países de adoção ou jogar pela Albânia.

Independente da opção que cada atleta fez, até março de 2014 não existia a chance de jogar oficialmente pela seleção do Kosovo. Com a aceitação por parte da FIFA da possiblidade de a seleção kosovar jogar suas primeiras partidas oficiais mesmo não sendo membro efetivo, houve uma reviravolta, pois tornou possível a escolha destes filhos do Kosovo de jogarem pelo seu “país de origem[6].

A presença do Kosovo em Federações Esportivas como a FIFA, o COI e a Federação Europeia de Futebol Associado (UEFA) depende ainda de sua aceitação política por parte da ONU e da ratificação da independência do Kosovo por parte da vizinha Sérvia e de seus aliados. Independente dessas exigências, alguns passos estão sendo dados para a presença do país em eventos internacionais, como ocorrido na semana passada com a entrada do Kosovo como membro provisório do COI e na decisão da FIFA de aceitar que ele possa jogar partidas amistosas oficiais.

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* Um pouco do trabalho da ONU no Kosovo e a utilização do Esporte para atingir a Paz pode ser visto em:

http://www.unmultimedia.org/radio/english/2014/07/link-between-sport-and-peace-highlighted-in-kosovo-by-un/#.VEz7ZfmsWSo

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ImagemParticipantes de manifestação do Comité Olímpico do Kosovo em 2013” (Fonte –  Reuters/Hazir Reka):

http://uk.reuters.com/article/2014/10/22/uk-olympics-kosovo-idUKKCN0IB14620141022

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Fontes Consultadas:

[1] Sobre a entrada do Kosovo no COI, ver:

http://www.reuters.com/article/2014/10/22/us-olympics-kosovo-membership-idUSKCN0IB29220141022;

Ver também:

http://www.olympic.org/news/ioc-grants-provisional-recognition-to-kosovo-olympic-committee/239827

[2] Importante lembrar que países como Rússia, China, Índia e Sérvia não reconhecem a Independência do Kosovo. Apenas 108 países da Organização das Nações Unidas reconhecem, dentre eles: EUA, França, GrãBretanha.

[3] Ver artigo publicada na semana passada no CEIRI NEWSPAPER:

https://ceiri.news/relacao-entre-o-esporte-e-nacionalismo-a-crise-nos-balcas/

[4] Sobre a Iugoslávia de Tito, ver:

http://www.foreignaffairs.com/articles/51216/aleksa-djilas/tito-s-last-secret-how-did-he-keep-the-yugoslavs-together

[5] Sobre os conflitos no Kosovo, ver:

http://www.historytoday.com/robert-bideleux/kosovos-conflict

[6] Alguns dos atletas de origem kosovar se posicionaram sobre a Independência do país e a possiblidade de jogar pelo Kosovo. Porém, a grande maioria já tem um certo histórico de partidas pela seleção do país de adoção e decidiu não mudar de seleçãoSobre futebol do Kosovo, ver:

http://www.nytimes.com/2012/09/20/sports/soccer/kosovo-wants-a-national-soccer-team-and-to-call-its-players-home.html?_r=0 (James Montague);

Ver também:

http://inbedwithmaradona.com/journal/2012/10/1/kosovo-sovereignty-and-football.html (Damiano Benzoni);

Ver também:

http://thinkfootball.co.uk/the-state-of-football-in-kosovo-and-geri-vranovcs-fight-for-footballing-freedom/  (Vinesh Parmar)