ANÁLISES DE CONJUNTURAEUROPA

Eleições em Andaluzia e o avanço da extrema direita na Espanha

A Espanha era a última das grandes democracias da União Europeia onde não havia um partido representante do crescente discurso de extrema direita, presente em países como França, Itália, Áustria, Hungria, Polônia, entre outros, que está modificando o cenário político do Bloco e questionando a existência do mesmo.

Essa situação mudou após os resultados das eleições em Andaluzia, onde o partido Vox elegeu pela primeira vez a 12 deputados autonômicos e acendeu um alerta em toda a nação Ibérica. Embora ainda distante de ganhar as eleições (o Partido ficou em quinto lugar), o fato de que o mesmo tenha conseguido representação na maior região da Espanha é visto como um sinal do avanço da extrema direita na Europa.

O VOX foi criado em 2013 como resultado da crise financeira, política e social que enfrentava a Espanha e das tensões territoriais com a Catalunha e Gibraltar. Desde então, se considera um partido nacionalista, conservador, anti-imigração e eurocético; seu lema é “fazer a Espanha grande de novo”; e seu discurso está alinhado ao de líderes famosos, tais como: Salvini (da Itália), Strache (da Áustria), ou Marine Le Pen (da França). Ressalte-se que sua defesa da Monarquia é uma das poucas discrepâncias existentes.

Resultados eleições Andaluzia

Apesar do crescimento do Partido nas eleições autonômicas, este ainda é uma força política minoritária, isto se deve à própria composição política da Espanha, onde historicamente houve uma grande concentração em duas grandes agremiações partidárias (PP – Partido Popular, de direita, e PSOE – Partido Socialista Operário Espanhol, de esquerda) e somente após a Crise Financeira houve um florescimento de novos partidos, sendo os casos mais relevantes o Podemos, à esquerda, e o Ciudadanos, de direita.

Por outro lado, embora a Andaluzia seja a maior região da Espanha em termos de território e população, a mesma possui pouco peso político e econômico para o país (em detrimento de outras regiões, tais como Catalunha, Madrid ou País Vasco) e também é a mais exposta aos processos de migração, devido a sua proximidade do continente africano, além de ser uma das regiões mais afetadas pelo desemprego, o que gerou as condições perfeitas para o enraizamento do discurso populista do VOX.

Imigrantes chegando em pleno dia de Praia nas costas da Andaluzia

Embora os partidos de extrema direita avancem pela União Europeia e tenham convergências em grande parte de seu discurso, principalmente no que tange a migração, políticas sociais e nacionalismo, é necessário observar que em cada nação e região existe uma adaptação desse discurso a um tema de relevância atual. Em Andaluzia, o discurso contra imigrantes foi utilizado devido às centenas de barcos que chegam diariamente nas costas da região; já na Catalunha os expoentes da extrema direita usam o nacionalismo espanhol como forma de contrabalançar o movimento nacionalista catalão; em outras regiões o discurso anti-islã ganha força devido a um histórico de atentados.

Discursos incendiários, seja de um lado ou do outro, parecem avançar pelo mundo, o único posicionamento que parece permanecer estático ou até mesmo regredir é o do discurso da humanidade, que em lugar de enfrentar em conjunto seus problemas e desafios, continua buscando víboras para culpar pela perda do sonhado paraíso.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Manifestação de Extrema direita na Espanha” (Fonte): https://www.lainformacion.com/files/article_main/uploads/2017/09/04/59ad07eb5ca80.jpeg

Imagem 2Resultados eleições Andaluzia” (Fonte): https://diariodeavisos.elespanol.com/wp-content/uploads/2018/12/elecciones-andalucia-resultados-2018.jpg

Imagem 3Imigrantes chegando em pleno dia de Praia nas costas da Andaluzia” (Fonte): https://www.europasur.es/2018/07/28/provincia/patera-llega-playa-Zahora_1267693222_87484349_640x480.jpg

ANÁLISE - FÓRUNS INTERNACIONAISANÁLISES DE CONJUNTURAEUROPA

Nacionalismo catalão continua e vira tema em Davos

Um mês após as eleições na Catalunha convocadas pelo Governo Central de Madri, a crise política e territorial continua e ganha novos episódios que vão além de suas fronteiras, mesmo depois da destituição do governo catalão e a dissolução do Parlamento regional, graças à aplicação do Artigo 155 da Constituição espanhola.

Os partidos nacionalistas voltaram a formar maioria no Parlamento regional, embora o partido centralista Ciudadanos tenha saído vitorioso nas urnas de forma individual, com a candidatura de Inés Arrimades. Sem embargo, não alcançou a maioria necessária para ocupar à Presidência, pois o modelo parlamentarista usado na Catalunha possibilita que a indicação e investidura de um Presidente seja apresentada e aprovada pela maioria dos parlamentares, neste caso, os nacionalistas.

Carles Puigdemont e Roger Torrent em Bruxelas, negociando a posse o presidente da Catalunha

No dia 17 de janeiro, Roger Torrent, do partido nacionalista Esquerra Republicana de Catalunya (Esquerda Republicana da Catalunha, em tradução livre) foi nomeado Presidente de Parlamento, viabilizando a nomeação do ex-presidente Carles Puigdemont – o mesmo que declarou a independência da região e depois se refugiou na Bélgica – como novo Presidente da Catalunha.

A tentativa do Governo da Espanha de minar o nacionalismo colocou em evidência o futuro da própria democracia espanhola, já que foi o próprio Governo Central que convocou as eleições e, neste momento, declara abertamente sua oposição à investidura de líder nacionalista, após a aprovação do Parlamento da Catalunha, tanto que o presidente espanhol Mariano Rajoy afirmou que, caso Carles Puigdemont seja investido como Presidente catalão, o Artigo 155 continuará ativo.

Rei Felipe VI em Davos

O grande paradoxo da futura Presidência da Catalunha é o fato de que Carles Puigdemont está fora do território espanhol e seu possível regresso deve resultar em sua prisão por crime de sedição, sendo estudada a possibilidade de que o mesmo assuma cargo estando fora da Espanha, constituindo-se na primeira investidura telemática da história.

Por outro lado, surgem novos movimentos políticos na região, tais como os defensores da Tabarnia, uma região formada por Tarragona e Barcelona, favoráveis à união com a Espanha e separados da Catalunha.

É um panorama cada vez mais complexo que foi levado até Davos pelo Rei Felipe VI, uma vez que a situação não afeta somente a política da região, mas também o desempenho econômico da Espanha, que está em plena recuperação após uma década de crise.

Carles Puigdemont não esteve em Davos mas participou de um seminário na Dinamarca, país onde defendeu a autonomia da Catalunha e pressionou tanto a Espanha como a União Europeia a reconhecerem os resultados e o parecer do Parlamento catalão. Diante do quadro, os nacionalistas da Catalunha pretendem dar continuidade em sua agenda separatista, embora a resolução do conflito pareça ainda estar longe de ser visualizada.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Região da Tabarnia” (Fonte):

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Imagem 2 Carles Puigdemont e Roger Torrent em Bruxelas, negociando a posse o presidente da Catalunha” (Fonte):

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Imagem 3 Rei Felipe VI em Davos” (Fonte):

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EUROPANOTAS ANALÍTICASPOLÍTICA INTERNACIONAL

Catalunha volta às urnas

Após um ano intenso, repleto de tensões e reviravoltas, a região da Catalunha e seus habitantes ainda não emitiram sua última palavra sobre o futuro da região. No dia 1o de outubro, a Catalunha organizou um Referendum programado pelo Parlamento local, porém proibido pelo Governo Central de Madri. A votação foi acompanhada pela comunidade internacional que se impressionou com a ação rígida das autoridades espanholas durante sua tentativa de impedir a realização do mesmo, ainda assim, a votação aconteceu e uma ampla maioria foi a favor da cisão. No dia 27 de dezembro, o Parlamento da Catalunha declarou a independência, apesar de que a mesma tenha durado poucas horas, já que o Governo espanhol ativou o Artigo 155, que dissolveu o Governo catalão e o Parlamento da Catalunha.

Intenções de voto 21D. De um lado: Esquerda Republicana, Juntos por Catalunha e CUP (Nacionalistas). Por outro lado: Em comum Podemos, Cidadãos, Partido Socialista Catalunha e Partido Popular

A Governo central pretendia usar o Artigo 155 para destituir a administração nacionalista e aos poucos restabelecer a ordem constitucional do país, porém as prisões dos líderes da região e a ida do presidente deposto Carles Puigdement a Bruxelas trouxe novos elementos para a discussão e transportou a mesma para o seio da União Europeia.

O Governo espanhol solicitou a extradição do ex-Presidente catalão, interditou as principais instituições e convocou uma nova eleição para a Catalunha a ser realizada no dia 21 de dezembro deste ano (2017), na próxima quinta-feira, daqui a três dias. Porém o futuro segue incerto.

As intenções de voto são complexas, já que, a cada dia, novos eventos pressionam a sociedade catalã e elevam as paixões em ambos os lados, tanto dos que desejam se separar, como dos que preferem manter a união no Estado espanhol. Ainda assim, tudo indica que haverá uma nova vitória dos nacionalistas, embora sem uma maioria no Parlamento, o que aumenta a atenção em relação a pequenos partidos que podem se transformar nos aliados capazes de mudar a balança de poder, seja para o lado da união com a Espanha, seja para o lado da separação.

Os nacionalistas não irão se apresentar com uma lista única como fizeram da primeira vez, embora afirmem que vão trabalhar no mesmo sentido que nas eleições de 2016.

Manifestante pede libertação dos presos políticos

O atual presidente da Espanha, Mariano Rajoy, afirmou que em caso de uma vitória dos nacionalistas, a Espanha voltará a aplicar o Artigo 155, já os representantes do Governo da Catalunha pressionam o governo central para reconhecer os resultados de uma eleição convocada desde Madri.

Certo é que ambos os lados estão bastante convalescidos. A Catalunha já perdeu a sede de 3.000 empresas, e o Governo central mantém preso os líderes civis do nacionalismo catalão. As pesquisas refletem essa contínua sístole (contração) e diástole (dilatação) em cada um dos lados na questão territorial espanhola.

A União Europeia ainda considera que o assunto deve ser resolvido de forma interna, porém não extraditou o líder deposto da Catalunha, o que gerou mal-estar em Madri. Por outro lado, as regiões nacionalistas como a Córsega começam a ganhar força, o que influencia muito para que haja movimentos cautelosos por parte do Bloco europeu.

O cidadão catalão novamente irá votar, mas dessa vez em uma eleição convocada desde Madri e que fará uso de todo os dispositivos do Estado, permitindo, inclusive, que residentes no exterior possam votar, mas as perguntas cujas respostas ainda estão abertas são por quem irão optar e qual será o impacto desse resultado, tanto para o Governo da Catalunha como o da Espanha.

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Fontes das Imagens:

Imagem 165 mil catalães se manifestaram a favor do líder deposto, Carles Puigdemont, em Bruxelas” (Fonte):

https://pbs.twimg.com/media/DQcJzXiVoAAk1pu.jpg

Imagem 2Intenções de voto 21D. De um lado: Esquerda Republicana, Juntos por Catalunha e CUP (Nacionalistas). Por outro lado: Em comum Podemos, Cidadãos, Partido Socialista Catalunha e Partido Popular” (Fonte CIS):

http://statics.ccma.cat/multimedia/jpg/0/5/1512412390150.jpg

Imagem 3Manifestante pede libertação dos presos políticos” (Fonte):

http://www.resumenlatinoamericano.org/wp-content/uploads/2017/11/Catalunya-2-11.jpg

ANÁLISES DE CONJUNTURAParadiplomacia

O papel das dinâmicas sociais nas Smartcities

Muito além dos prédios, serviços, empresas e governo, a população é o coração e a mente do espaço urbano, afinal, “são as pessoas que fazem uma cidade”.

Não é possível gerir de forma eficiente ou promover o desenvolvimento de projetos inteligentes sem levar em consideração as dinâmicas populacionais e a formação social de uma cidade. Caso contrário, um projeto sempre será incompleto ou irá gerar maiores assimetrias e desigualdades do que resultados ao longo do tempo.

Trânsito Florianópolis. A mobilidade tem como origem problemas estruturais e dinâmicas sociais

Contemplar o município como um grande empreendimento ou uma grande organização, embora possa ser positivo para determinados setores, colide com a própria natureza desses espaços, já que nem todos os cidadãos estão incluídos socialmente, nem todos estão no mercado de trabalho formal, nem todos são legalizados (como no caso de alguns estrangeiros), nem todos tem possibilidades ou poder aquisitivo para acessar determinados serviços, existindo uma parcela dependente a longo prazo do Estado (órfãos, idosos sem recursos, pessoas incapacitadas) e, principalmente, o povo nem sempre responde como um grande rebanho às determinações  de alguns grupos, seja de forma consciente ou inconsciente.

Existem dinâmicas sociais oriundas da própria evolução do espaço urbano que, quando negligenciadas em um determinado projeto, afloram como uma forma de resistência ou de não aderência a um específico plano. O famoso “rolezinho”* que tomou conta das grandes cidades nos últimos anos é um exemplo desse processo.

O Bairro do Brás gera um volume superior ao de muitas cidades no Brasil, porém é um espaço degradado e com elevadas taxas de violência

Para consolidar uma Smartcity é fundamental conhecer as dinâmicas sociais de uma cidade e como as mesmas influenciam no próprio funcionamento do espaço urbano. No Brasil, por exemplo, existem bairros como o Brás e o Bom Retiro que concentram um grande número de trabalhadores estrangeiros e trabalhadores informais, essa dinâmica funciona há décadas, o que transformou ambos bairros em grandes polos têxteis. Um projeto para transformar esses bairros, hoje degradados, em novos espaços deve integrar essas pessoas, caso contrário aumentará a desigualdade e a marginalidade já existentes.

Nessa linha, podemos salientar que a comunidade estrangeira pode se transformar em um vetor importante da economia, quando são integradas às dinâmicas urbanas. Os estrangeiros podem gerar mão de obra, valor agregado e até mesmo competitividade. Mas a sua marginalização gera problemas de inclusão, informalidade e demais problemas. Uma cidade como São Paulo, pode fazer uso de suas comunidades de imigrantes para gerar sinergias com outras regiões do mundo e, através da paradiplomacia, transformar essa realidade em um fator competitivo – certo que isso já ocorre com as comunidades mais antigas – mas deve ser um processo contínuo.

Fluxo de trabalhadores na Grande São Paulo

Outro exemplo importante sobre o impacto da dinâmica social é a divisão populacional e os movimentos realizados dentro do espaço urbano, pois é um problema que vai além da simples mobilidade e que denuncia outros fatores, tais como a distribuição dos serviços, opções de lazer, trabalho, representações públicas, preço do metro quadrado, segurança etc. Muitas das cidades do Brasil sofrem com esse problema, a cidade de Florianópolis por exemplo, com menos de um milhão de habitantes, possui problemas de trânsito equivalentes aos da grandes cidades; o entorno de Brasília também enfrenta problemas de mobilidade e de concentração dos serviços e emprego na região central.

Uma cidade inteligente, precisa funcionar como um ente inteligente, formado por diversos processos e dinâmicas internas inerentes a esse espaço urbano. Caso os problemas sejam isolados e tratados mediante intervenções localizadas e pontuais, não haverá uma real repercussão na realidade da cidade, somente a solução temporária de uma deficiência. É necessário pensar a cidade como um espaço integrado, onde o fechamento de uma determinada avenida afetará o trânsito em uma região ao outro lado da cidade, onde o fechamento de espaços públicos na periferia aumentará o fluxo para a região central etc.

É de vital importância compreender que os projetos de Smartcity, mesmo liderados pelo poder público, não atendem a uma visão ideológica ou partidária, mas à própria natureza da cidade, aos seus desafios e as suas potencialidades, as suas mazelas e as suas conquistas. Cada projeto é algo único, já que cada cidade é um universo, sendo necessário ter a maturidade de aceitar que se trata de um projeto em benefício de todos, capaz de integrar e melhorar a qualidade de vida de todos, não somente por um período, mas a longo prazo.

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Nota:

* O termo “rolezinho” é uma gíria brasileira para designar um pequeno passeio com amigos para algum lugar, especialmente para Shoppings Centers.  

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Fases de uma cidade em uma cidade emergente e sustentável” (Fonte):

http://servicesaws.iadb.org/wmsfiles/images/0x0/-40249.png

Imagem 2 Trânsito Florianópolis. A mobilidade tem como origem problemas estruturais e dinâmicas sociais” (Fonte):

http://www.mobfloripa.com.br/imagens/noticia002688.jpg

Imagem 3 O Bairro do Brás gera um volume superior ao de muitas cidades no Brasil, porém é um espaço degradado e com elevadas taxas de violência” (Fonte):

https://media-cdn.tripadvisor.com/media/photo-s/0f/13/d6/a6/atacado-e-varejo.jpg

Imagem 4 Fluxo de trabalhadores na Grande São Paulo” (Fonte):

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ANÁLISES DE CONJUNTURAParadiplomacia

O processo produtivo, criativo e o desenvolvimento social das Smartcities

Criar um espaço inteligente em um meio urbano não se trata apenas de implementar uma nova tecnologia, serviço básico, público ou realizar ações locais determinadas, incapazes de promover um real benefício para toda a cidade.

Projeto [email protected] – Distrito Inteligente de Barcelona

Um processo inteligente, conforme foi abordado ao longo deste ciclo de artigos sobre Smartcities, deve levar em consideração as dinâmicas intrínsecas das cidades e atuar como vetor da mudança e inovação dessas dinâmicas, promovendo uma sinergia entre os diferentes atores e fatores implicados, sendo este um processo inclusivo no qual a cidade atua como um grande ente vivo onde cada dinâmica é fundamental para seu funcionamento.

O projeto de Smartcity de uma cidade é a própria inteligência desse ente urbano, de modo que se afasta dos típicos programas eleitorais e ações governamentais limitadas cronologicamente, para ter um caráter próprio e único que perdura ao longo do tempo e serve de guia real para as ações públicas. A cidade deixa de estar à mercê de uma visão política determinada e passa a impor sua realidade e suas dinâmicas como um roteiro ao qual as forças políticas e privadas devem se adaptar.

Um exemplo visível disso são as próprias dinâmicas produtivas de uma cidade. A distribuição de fábricas, a força de trabalho e a segmentação econômica dos bairros vão continuar as mesmas – salvo grande intervenções – independentes do partido que ocupe o poder, de modo que uma política implementada em um bairro de alto padrão durante uma determinada gestão, em nada irá afetar a produtividade ou realidade das regiões industriais que normalmente ficam mais afastadas, ao menos não a curto prazo ou de forma controlada.

Um processo inteligente, por outro lado, tem como objetivo harmonizar o impacto de projetos na própria dinâmica populacional, levando em consideração onde moram os trabalhadores, a oferta de transporte para os centros de produção, onde se localiza o consumo de maior volume na cidade, a distância dos centros financeiros etc., tudo funcionando de forma esquematizada para gerar um fluxo inteligente e sustentável, pois uma ação gera impacto e ecoa em vários setores.

A utilização de processos inteligentes, ajudou a muitas cidades europeias a transformarem o setor produtivo de suas grandes capitais, mas antes foi necessário compreender os processos e dinâmicas que moldavam a realidade dessas cidades.

Setores em Barcelona

Madrid, Barcelona, Milão, Londres, Paris, Berlim e Bilbao, por exemplo, sofreram um grande processo de desindustrialização entre os anos 80-90, assim como um aumento considerável dos custos da mão de obra, a falta de trabalhadores, o aumento desproporcional do valor dos imóveis, o crescente fluxo migratório e informalidade de vários setores, a globalização das economias e a concorrência das economias emergentes (China, Brasil, Índia, Rússia). As cidades europeias cresciam em economia, mas perdiam em competitividade e em qualidade de vida, até que as cidades inteligentes floresceram por todo o continente.

Os projetos urbanos mudaram essa realidade. A cidade de Barcelona foi uma das primeiras com o projeto olímpico Barcelona 92, que logo se transformou no projeto Barcelona Smartcity, e muitas cidades da Espanha e da Europa seguiram o exemplo, promovendo uma grande onda de transformações só antes vista no século XIX.

O processo produtivo e as dinâmicas sociais serviram de guia para essas cidades localizarem onde se reúnem os principais contingentes populacionais, a dinâmica econômica entre eles, a flexibilização e mobilização social prevista, o potencial inovador a mobilidade e formação disponível sendo as bases de uma grande revolução.

A criação de distritos da criatividade e inovação em regiões deterioradas da cidade, o aumento da oferta de transporte público e um rígido controle dos imóveis desocupados, promoveram um enorme impacto nas dinâmicas sociais e uma redução considerável da desigualdade, pois as classes sociais já não se agrupavam de uma forma tão visível, mas se distribuíram melhor pela cidade, gerando novas dinâmicas econômicas.

O setor produtivo foi levado a setores industriais ou a zonas francas (normalmente posicionadas, ou próximas aos portos ou aeroportos) reduzindo os custos logísticos de curto e longo prazo, promovendo a criação de clusters ou polos especializados, gerando uma força única de indução – se o governo precisa levar o metrô até o aeroporto, ele deve passar obrigatoriamente por esses setores –, aproveitando a dinâmica do próprio espaço urbano para gerar impulsos de inovação.

Ou seja, não se trata de investir e trazer uma tecnologia cara que funcione em um país desenvolvido. Isso não é ser “inteligente”, é simplesmente “colar na prova” e quase nunca dá resultados. Trata-se de conhecer como funciona uma cidade para justamente saber como racionalizar um processo inerente desse espaço e de como modificá-lo.

Os setores produtivo e criativo são geradores e ao mesmo tempo beneficiários desses projetos e é nessa dimensão que o setor privado participa do processo de desenvolvimento da urbe. Já que a evolução de uma cidade não é algo bom somente para o cidadão, ou para o político que a governa, mas para todos os que ocupam e exercem suas atividades nesse espaço, e deve ser contemplado dessa forma.

O desenvolvimento é a força motriz que fornece energia a todo o processo e quanto mais avança uma cidade em seu projeto inteligente, maior é a performance e o resultado do desenvolvimento, seja este econômico, produtivo, criativo ou social.

Em países como o Brasil este processo é de vital importância, pois mais de 80% da população é urbana, tem uma grande taxa de desigualdade, concentração econômica e produtiva no eixo “São Paulo–Rio de Janeiro–Belo Horizonte” e falta de serviços básicos e de infraestrutura. É necessário conhecer bem a realidade das cidades para implementar estes projetos, não somente nas grandes cidades, mas também nos pequenos e médios municípios.

De nada serve gerar um complexo inteligente de última geração na Zona Sul do Rio de Janeiro, quando a mão de obra se concentra na baixada, acrescentando-se que o parque Tecnológico do Rio de Janeiro também está na baixada e o CBD (Central Business District – centro de negócios de uma cidade) na região central. Ou seja, isto seria uma intervenção exclusiva e não inclusiva. O mesmo se aplica a praticamente todas as capitais do Brasil.

Já no caso das pequenas e médias cidades, de nada vale tentar criar uma região de inovação tecnológica copiando o Vale do Silício na Califórnia, se não existem bons acessos, infraestrutura, mão de obra e uma economia capaz de estimular startups, ou, pior ainda, aqueles municípios que se destacam em agrobusiness e desejam implementar soluções para a indústria que não é do seu know how, sendo que a geração de valor dentro de um setor onde o município é competitivo, sem dúvidas, é mais viável.

A produtividade, a criatividade e o desenvolvimento não são ciclos que começam de forma anacrônica. Os fatores locais, sua história e o seu funcionamento vão determinar o caminho que é preciso trilhar. Isso, sim, é ser uma cidade inteligente, sendo cada projeto único.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Global Cities Connection” (Fonte):

http://www.corrs.com.au/assets/expertise/secondary/jd-global-laying-foundations.jpg

Imagem 2Plano ampliação de Madri 1857 (Em vermelho nova área urbana ao redor do centro histórico)” (Fonte):

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/7/7d/Plano_del_Ensanche_de_Madrid-1861.jpg

Imagem 3Setores em Barcelona” (Fonte):

https://image.slidesharecdn.com/22barcelona-versin-castellana-etre-20073112/95/22barcelona-versin-castellana-etre-2007-14-728.jpg?cb=1191231709

ANÁLISES DE CONJUNTURAParadiplomacia

O Papel da Tecnologia nas Smartcities

Os projetos de Smarcities (Cidades Inteligentes) têm como seu principal objetivo estimular a criação de um ambiente inteligente no qual as dinâmicas e processos intrínsecos do espaço urbano são raciocinados e direcionados para promover o desenvolvimento sustentável da cidade e de sua população. 

Segmentos Smartcity

A tecnologia é sem dúvidas um dos principais vetores no desenvolvimento deste tipo de projeto, atuando como integradora das diversas dimensões que abrangem este processo, possibilitando a inovação e também a geração, integração ou modificação de novas dinâmicas dentro das cidades.

Mas existem desafios importantes no uso da tecnologia em projetos de Smartcity. O principal é a falta de integração dos próprios atores implicados. De nada serve instalar um processo informático de controle dos estoques de materiais para obras públicas se não existir uma rede interligada capaz de harmonizar essas informações e transformar a mesma em um processo lógico ou comando; da mesma forma, não é eficiente um sistema de controle de ocorrências na rede elétrica que não esteja interligado às diferentes prestadoras de serviço. Dispor de uma tecnologia não necessariamente significa gerar um processo inteligente. Essa realidade é perceptível em diversas cidades do Brasil.

A tecnologia oferece a possibilidade de reduzir as assimetrias típicas das cidades brasileiras. A criação de um ambiente digital oferece uma homogeneidade que permite visualizar a cidade como um grande ente formado por diferentes dinâmicas, sejam estas sociais, políticas, econômica ou produtivas.

Ao contemplar a cidade como um espaço inteligente, as intervenções passam a ser interligadas e não apenas projetos isolados, gerando um efeito em cadeia. Mas, para isso, é necessário uma correta implementação e o uso das ferramentas tecnológicas disponíveis.

Outro aspecto relevante da tecnologia é o seu potencial inovador e sua capacidade de estimular e gerar novos projetos. Para as cidades inteligentes, ela é a principal ferramenta para a evolução do processo, havendo diferentes tipos que podem ser implementados conforme as próprias características dos polos urbanos. Entre as principais podemos destacar:

– Tecnologia da informação, usada para integrar os diferentes atores que compõem o espaço urbano e redesenhar processos existentes, buscando um maior resultado e maior eficiência. Mediante a tecnologia da informação é possível digitalizar o espaço urbano e fazer uso de novas ferramentas, tais como a Internet das coisas, o e-government, o e-health etc.

– Tecnologia da produção, usada para aumentar a competitividade do sistema produtivo de uma cidade ou região, permitindo o desenvolvimento de uma economia cíclica, estimulando o setor criativo e inserindo novas técnicas produtivas tais como a robótica.

– Tecnologia verde, usada com o objetivo de melhorar a relação das pessoas com o meio ambiente e a sustentabilidade, promovendo o uso mais eficiente dos recursos além da correta preservação ambiental necessária para garantir o futuro das próximas gerações.

– Inovação, não se trata de uma tecnologia determinada, mas sim, da capacidade de transformação e melhoria contínua dos processos que existem ou que venham a existir em uma região urbana.

Cada tecnologia possuí serviços e ferramentas disponíveis de forma desigual, não sendo todas aplicáveis a todas as cidades, embora exista uma série de setores nos quais se fundamentam as Smartcities, que são:

– Open Data

– Mobilidade

– Plataforma participativa e E-government

– Smart grids

– Coleta Seletiva

– Serviços inteligentes

– Conectividade

– Educação

– AgroSmart

Cada projeto de Smartcity é único, pois cada cidade  possui características próprias e mesmo que existam polos urbanos semelhantes, e que compartem desafios parecidos, não há um guia padrão que explique como deve ser realizado o uso da tecnologia e sua aplicação, além do mais, é necessário levar em consideração que todas as cidades são passíveis de se transformar em polos inteligentes dentro de suas próprias características, mas nem todas possuem capacidade financeira ou estrutural para seguir um roteiro pré-estabelecido pelas grandes metrópoles.

Ao redor do mundo existem exemplos de diferentes cidades inteligentes que aplicaram a tecnologia conforme suas próprias características. A cidade de Madrid, por exemplo, utiliza uma rede integrada de transporte que permite uma melhor ocupação e distribuição da população na cidade; por outro lado, a pequena cidade francesa de Dijon criou um espaço urbano integrado gerenciado pela Prefeitura onde o cidadão tem acesso a todos os serviços públicos desde uma plataforma digital.

Centro de Operações do Rio de Janeiro

No Brasil já existe um número considerável de projetos de Smartcity, as capitais estaduais e capitais regionais lideram esses projetos, embora cada uma esteja em uma etapa diferente. No Rio de janeiro, o Centro de Operações atua como uma plataforma integrada dos serviços de emergência pública; já em Florianópolis o setor criativo é estimulado graças ao estabelecimento de parques tecnológicos e centros de pesquisa.

Existem redes formadas por essas cidades com o objetivo de fomentar o intercâmbio de conhecimento e experiências, sendo crescente o interesse tanto na área pública quanto na privada. Neste aspecto, a tecnologia se transforma em um ponto fundamental ao reduzir as distâncias e ao permitir uma maior interação entre os diferentes atores.

É certo que o país ainda apresenta deficiências na infraestrutura que podem afetar a evolução de alguns projetos de Smartcity, mas, por outro lado, essas cidades podem atuar como polos indutores e transformadores da região, além de atrair um novo fluxo de investimentos e uma distribuição mais equitativa no país.

A integração tecnológica pode ser realizada em diferentes níveis e, aos poucos, gerar os processos necessários para a implementação de um projeto de Cidade Inteligente. No entanto, a mesma deve estar aliada a uma série de intervenções que permitam essa integração, tais como infraestrutura mínima, educação, participação pública e privada. Mas, sem dúvida, uma vez instalada esta passa a atuar como uma pedra fundamental no futuro da cidade.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Componentes de um projeto de Smartcity” (Fonte):

http://cdn.ttgtmedia.com/rms/onlineImages/iota-smart_city_components_desktop.jpg

Imagem 2 Segmentos Smartcity” (Fonte):

https://us.123rf.com/450wm/monicaodo/monicaodo1602/monicaodo160200011/52445942-conceito-de-cidade-inteligente-com-diferente-%EF%BF%BDcone-e-elementos.-design-de-cidade-moderna,-com-tecnolog.jpg?ver=6

Imagem 3 Centro de Operações do Rio de Janeiro” (Fonte):

http://www.simi.org.br/files/news/image/305/centro_de_operacoes_do_rio_de_janeiro.jpg