ANÁLISES DE CONJUNTURAEUROPA

A Europa pós-pandemia

Depois de um longo período de quarentena, a Europa volta aos poucos a retomar suas atividades. A chamada ‘nova normalidade’ se estabelece em um cenário econômico e contexto social adverso, com 500 mil habitantes a menos, vítimas da doença, e seu impacto no cotidiano do continente”.

Foram mais de 60 dias de quarentena na maioria dos países europeus, que, neste mês (junho), voltam à normalidade, de forma gradual e controlada. Porém, muita coisa mudou no dia a dia dos europeus. O desemprego retorna a assolar as economias e antigos problemas de alinhamento político, migração e circulação de pessoas adquirem novas expressões.

Cartaz para entrar em local comercial em Madri – Canal: RTVE.es

Se, por um lado, a Europa luta por estabelecer um determinado patamar de normalidade, por outro, os efeitos colaterais da pandemia são cada vez mais visíveis. Diversos setores econômicos afetados pela crise instam as autoridades a buscar soluções. Grandes multinacionais abandonam o espaço europeu ou reduzem ao máximo sua produção, assim mesmo, setores como o agrícola e o turismo sofrem com a oscilação de oferta e demanda, buscando novas vias de financiamento sem alternativas internacionais, devido à situação em muitos países emergentes e no próprio Estados Unidos.

O gasto público ultrapassou os limites impostos pela União Europeia, e países tais como a Espanha, França e até mesmo a Alemanha buscam auxiliar uma população ameaçada pela pobreza e afetada pelo desemprego.

O medo de uma nova onda de contágios no final do ano é conhecido, porém minimizado pelas autoridades em uma tentativa de restabelecer o funcionamento das instituições e da sociedade. Assim mesmo, as dúvidas em relação ao conturbado cenário internacional diminuíram a circulação de investimentos e fluxos externos.

A “nova normalidade”, como é chamada em diversos países da Europa, de fato reflete que a realidade já não é a mesma que existia antes da pandemia e que será necessário um sobre-esforço, tanto das autoridades como da população, em se adaptar a este novo mundo.

A ocupação do espaço urbano, o uso dos serviços públicos, as relações laborais, a circulação de pessoas e todos os aspectos da cidadania foram moldados nos últimos dias. Assim como o papel do Estado na alocação e distribuição de recursos e como ele atua perante as evoluções do mercado.

Margrethe Vestager Wikicommons

Na Comissão Europeia ecoa o discurso da vice-presidente Margrethe Vestager sobre um novo capitalismo e uma nova relação entre os atores públicos e multinacionais, da mesma forma que Angela Merkel mudou seu discurso, até então austero e neoliberal, para um maior envolvimento do Estado na busca do bem-estar social, porém sem abdicar do livre mercado.

Conceitos pós-capitalistas, tais como a economia circular, economia verde ou pós-capitalismo global, ganham força e até mesmo exemplos reais, a exemplo da mudança estrutural que vem acontecendo na Holanda.

Temas externos ao Bloco, tais como as manifestações raciais ou o aumento do conservadorismo, ressoam nessa nova Europa, pese as restrições ainda vigentes, adquirindo tonalidades locais e regionais, sendo a questão da imigração e o avanço dos grupos extremistas uma preocupação paralela a esse estado de anomia que se expande pelo globo.

Não se pode desprezar aspectos em relação às mudanças que ocorrem na Europa e posicionar a mesma dentro de um espectro político ou ideológico, mas, sim, entender o processo como o fruto de uma reflexão e experiência sobre o sistema internacional e o capitalismo que não é exclusivo do bloco europeu, mas defendido por diversos economistas, políticos e especialistas em relação a um novo capitalismo ou reformulação do sistema financeiro internacional, cuja semente surgiu após a disseminação da Crise Financeira de 2008 por todo o globo.

O cidadão europeu aos poucos recupera sua rotina, volta às ruas e revê sua família e amigos, porém, sabe que o mundo já não é o mesmo e que “a nova realidade” não é apenas uma nomenclatura citada pelo governo, mas uma realidade cristalizada em seu dia a dia.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Coronavírus EU” (Fonte):

https://elglobal.es/wp-content/uploads/2020/04/Coronavirus-Europa-scaled.jpg

Imagem 2 Cartaz para entrar em local comercial em Madri – Canal: RTVE.es” (Fonte):

https://img2.rtve.es/v/5590540?w=800&preview=1591451975187.jpg

Imagem 3 Margrethe Vestager Wikicommons” (Fonte):

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/1/17/Hearings_of_Margrethe_Vestager_DK%2C_vice_president-designate_for_a_Europe_fit_for_the_digital_age_%2848865071413%29.jpg

ANÁLISES DE CONJUNTURACNP In Loco

Europa se prepara para sair da quarentena

Quase 4 meses depois do primeiro caso de Covid-19 diagnosticado em Paris, no dia 25 de janeiro de 2020, e após uma rápida expansão pelos países do Bloco, especialmente Itália e Espanha, a União Europeia (UE) aos poucos acorda de um pesadelo que manteve em letargia praticamente toda atividade na região, despertando em um cenário conturbado, cheio de divisões e indecisões.

O pior já passou” – ao menos é a mensagem que as autoridades tratam de transmitir à população que aos poucos se prepara para retomar a normalidade. A tão temível curva de contágio finalmente foi superada e o número de casos positivos é inferior as altas médicas e recuperados. Os hospitais aos poucos voltam a ter leitos disponíveis nas UTIs e os testes realizados confirmam essa redução.

Mas, a volta à normalidade será lenta e gradual, dividida em 3 ou 4 fases, conforme a situação de cada país e região afetada, levando em consideração não somente as taxas de contágio, mas também fatores demográficos, produtivos e sociais. Sem embargo, o Estado de Alarme promulgado em diversos países, e que deve ser aprovado pelos respectivos Congressos, deixou de estar ativado entre maio e junho deste ano (2020), sem outras renovações.

Fases do fim da quarentena Espanha – Fonte: Lavoz.es

Em localidades cujo índice de contágio é inferior a 1 (ou seja, cada pessoa contagiada transmite em média a somente outra pessoa), e conforme suas dinâmicas locais, o processo pode ser agilizado. Ilhas, comunidades rurais e pequenas cidades são as primeiras da lista. Nas grandes cidades, tudo vai depender do número de casos, da taxa de contágio e da evolução da epidemia.

As medidas tomadas a nível nacional são referentes à geração de um cronograma e à cessão de competências, e se concentram principalmente no ambiente político e econômico. Os países do Bloco devem agora enfrentar os efeitos da paralisação econômica que assolou a Europa, eliminou diversos empregos e afetou setores inteiros. Um cenário semelhante ao da Crise Financeira Internacional, porém com o agravante da Guerra Comercial Sino-Americana e dos efeitos do pós-Brexit.

O fundo econômico para a recuperação da União Europeia é uma das muitas ferramentas que os Estados estão litigando na tentativa de minimizar o cenário, assim como políticas de ajuda ao campo, subvenções e programas de distribuição de renda, embora todo esforço, quando colocado na prática, deva levar os países a uma delicada situação financeira, devido à elevada dívida pública, à desvalorização das moedas emergentes, à redução dos preços das commodities e à demanda de produtos industrializados.

Detalhe Plano de Recuperação Econômica da EU – Fonte: Comissão Europeia

Cientes desse panorama desafiador, a União Europeia preferiu se manter a uma certa distância das tensões entre Estados Unidos e China, principalmente no que se refere a pandemia provocada pela Covid-19. Uma “neutralidade” já questionada pela gestão Trump, que busca no populismo e no nacionalismo sua reeleição, ainda que o país americano tenha superado 1 milhão de contagiados.

O europeu aos poucos se sente livre da monotonia da quarentena, mas preso no pesado fardo que deverá levar em suas costas na tentativa de recuperar a economia e a estabilidade da região.

Como contraponto a essa necessidade de gerar uma coesão e ação conjunta dentro do Bloco, o discurso eurocético e de extrema direita ganha força novamente, apelando para o sensacionalismo, sem estabelecer o equilíbrio necessário entre direito e obrigação dos Estados dentro da União Europeia. Aproveitam-se da situação de anomia para estimular uma forte rejeição à globalização, à migração, à integração econômica e à cooperação econômica, como se os países da Europa fossem os antigos senhorios e pudessem ajudar somente àqueles vassalos oriundos do local, ainda que, por outro lado, muito sejam os setores que sentem a falta dos estrangeiros, sejam eles como turistas, ou como trabalhadores do campo, cuja ausência ameaça as colheitas.

Talvez, não somente o cidadão deva acordar após a hibernação da quarentena, mas também os Estados e a própria União Europeia, que devem aproveitar a saída desta trágica situação para fortalecer tanto a integração como a conscientização social e os chamados valores europeus.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Mapa Coronavirus” (Fonte): https://who.maps.arcgis.com/apps/opsdashboard/index.html#/ead3c6475654481ca51c248d52ab9c61

Imagem 2 Fases do fim da quarentena Espanha Fonte: Lavoz.es” (Fonte): https://www.lavozdegalicia.es/default/2020/04/29/00121588115121646896457/Foto/CalendarioDesescalada-01.jpg

Imagem 3 Detalhe Plano de Recuperação Econômica da EU Fonte: Comissão Europeia” (Fonte): https://ec.europa.eu/info/sites/info/files/2020-03-30_economy_response.png

ANÁLISES DE CONJUNTURACNP In Loco

Europa dividida entre o impacto social e o econômico

Com mais de 550 mil casos e milhares de falecidos, a Europa continua sob o flagelo do Convid-19, ainda assim, as últimas notícias são encorajadoras. Após sucessivos relatórios nefastos das autoridades locais, a tão temível curva de contágio parece, ao fim, estar sendo controlada, e as medidas de quarentena parecem mostrar seus efeitos.

Os países mais afetados pela pandemia, Itália e Espanha, começam a registrar uma redução do número de contágios e falecidos diários, no entanto, o medo de um novo pico de infecções faz com que as autoridades sejam cautelosas em relação às políticas de quarentena e ao estado de emergência decretado em diversos países do Bloco europeu.

Diante de todas as adversidades produzidas pelo vírus e de uma possível vitória, um fantasma temível se alça na região, trazendo com eles recordações recentes da Crise Financeira Internacional. A recessão econômica avança na União Europeia, concretizando-se nos dados econômicos de duas de suas duas maiores potências: França e Alemanha.

A reunião do Bloco econômico foi infrutífera e não alcançou os objetivos desejados, e os países mais afetados enfrentam a paralisação de sua economia e o acúmulo das dívidas públicas das últimas décadas, que, em muitos casos, supera 80% do PIB.

Reativar a economia europeia resultará em um esforço titânico, seja pela situação financeira dos países do Bloco, seja pelo impacto da pandemia na economia mundial, com a redução de demanda de grandes economias como a dos EUA e da China, ou com a redução dos fluxos de investimentos realizados nos países emergentes da América Latina.

Bandeira para o Brexit

O Brexit, que antes ocupava todas as capas dos principais jornais europeus, foi praticamente esquecido, porém, seus efeitos financeiros não podem ser negligenciados. E mesmo que diversos processos eleitorais tenham sido cancelados ou postergados, grandes players, como a Alemanha, estão em plena corrida presidencial, se preparando para o próximo ano (2021), da mesma forma que o eco da corrida eleitoral americana deste ano (2020) afeta diretamente ao Bloco europeu.

A solidariedade estatal, que é um princípio básico para a manutenção da União Europeia, cada dia encontra maiores barreiras e uma competição eterna ecoa e ganha força. Interesses conflitantes tanto dentro do grupo como entre os membros da OTAN fragilizam a União Europeia. E as medidas financeiras anunciadas parecem não serem suficientes para conter uma forte retração da economia.

O Estado ganhou uma nova importância ao pactuar com o setor produtivo para a manutenção do sistema econômico, porém, existem fortes limitações devido à própria condição dos países europeus e à falta de grandes reservas internacionais, que a Europa não poupou.

A Gran Vía de Madri em 22 de março – o vazio na rua esboça o efeito do isolamento

O único consenso que existe de fato é que, se atualmente o Convid-19 castiga a Europa, amanhã será a crise econômica, o desemprego e o endividamento público. Em alguns países, como no caso de Portugal, o Presidente fez um apelo ao setor financeiro, solicitou a este o mesmo apoio que lhe foi concedido durante a Crise Financeira Internacional. Espanha, França e Itália atuam na mesma linha, pois a grande dúvida que paira é como socializar os prejuízos com uma população inativa ou parcialmente paralisada. O acúmulo do capital na Europa nunca foi tão questionado, e os Estados, independentemente de sua identidade partidária, voltam a abraçar o keynesianismo que fundamentou o continente.

Aqui, da Espanha, a situação, que antes parecia irremediável, aos poucos parece mostrar uma luz no fim do túnel, e todos os esforços do governo para salvaguardar a economia serão colocados à prova após o dia 26 de abril, data limite do Decreto Presidencial do Estado de Alarme, quando, aos poucos, tentarão reativar a atividade.

O governo aprovou a renda mínima, postergou as cobranças, eliminou temporariamente os impostos para as pequenas e médias empresas, porém, a pergunta que paira é se isso foi o bastante. Da mesma forma, questiona-se quais serão os resultados desta pandemia que já contabiliza mais de 16 mil falecidos, em um país que estava aos poucos se recuperando dos efeitos da Crise Internacional, considerada até antes como a maior crise do Bloco. A vida transcorre e as pessoas tentam se adaptar com muitas dúvidas, mas a maior delas é aquela não pronunciada, porém tácita: como sair dessa situação.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Partículas de SARSCoV2 (a amarelo) a emergir de uma célula humana. Imagem obtida por microscópio eletrônico de varrimento com coloração digital” (Fonte): https://pt.wikipedia.org/wiki/COVID-19#/media/Ficheiro:SARS-CoV-2_scanning_electron_microscope_image.jpg

Imagem 2 Bandeira para o Brexit” (Fonte): https://en.wikipedia.org/wiki/Brexit#/media/File:EU-Austritt_(47521165961).svg

Imagem 3 A Gran Vía de Madri em 22 de março o vazio na rua esboça o efeito do isolamento” (Fonte): https://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:22_de_marzo_2020-Gran_Via-Madrid.jpg

ANÁLISES DE CONJUNTURACNP In Loco

Smartcity e Coronavírus, lições de uma pandemia

A pandemia causada pelo Covid-19 já soma mais de 1 milhão de contagiados e milhares de falecidos em todo o planeta. Um episódio trágico na história da humanidade que sem dúvidas marcará as próximas décadas, seja pelo impacto social, seja pelo impacto político ou econômico.

Diante de cenas como vistas na Itália, com caminhões de féretros desfilando em uma macabra marcha fúnebre, ou de convalescidos em plenas ruas do Equador, aparece o contraste, com imagens de animais silvestres circulando por cidades vazias, águas transparentes em grandes urbes e a visão no horizonte do Himalaia, a centenas de quilômetros, após esta montanha estar oculta nos últimos 30 anos devido à contaminação atmosférica. Lições de um mundo dignas de um filme post-apocalíptico ou da gênese de um novo episódio na nossa história.

Mesmo com o negacionismo presente em líderes tais como Boris Johnson, Donald Trump, Shinzo Abe e Jair Bolsonaro, que aos poucos foram cedendo, seja por fruto das pressões sociais e políticas, ou graças ao reflexo da própria realidade, vemos como a civilização e todas as construções sociais advindas dos diferentes modelos de pacto social e sistemas culturais são um frágil castelo de areia, assim como o sistema logístico e econômico internacional.

A mão invisível do mercado precisou em muitos cenários do pulso firme do Estado, pois, conforme vem sendo observado internacionalmente por vários analistas, a tragédia não entende de sistemas bancários nem modelos financeiros, também não se decanta por ideologias ou lados partidários, e nem por fronteiras desenhadas em um mapa.

Em um mundo onde mais de 80% da população se concentra nas cidades, o papel da gestão local ganhou destaque, seja aplicando medidas de confinamento e controle da epidemia, seja realizando campanhas a favor da atividade econômica, ainda com a contrapartida social e moral perante as possíveis perdas humanas.

Nesse contexto, a inteligência das cidades e a racionalização de seus processos tiveram um papel fundamental no sucesso ou fracasso de suas gestões diante da crise, e deixaram em evidência a necessidade de estabelecer processos inteligentes no gerenciamento dos espaços urbanos. Assim mesmo, diversas são as lições que ficaram para a posterioridade.

Camiões transportando falecidos pelo Covid-19 na Itália

Em Madri por exemplo, antes mesmo da declaração oficial do Governo Espanhol do Estado de Alarme, a Prefeitura já havia ordenado o fechamento das escolas, cancelado eventos públicos, e começado a articular e preparar todo seu sistema sanitário, ainda assim, a medida não levou em consideração as movimentações dos habitantes e suas dinâmicas migratórias, fazendo com que diversos cidadãos levassem o vírus a outras cidades em sua fuga desde Madri. A inteligência da capital espanhola foi o suficiente para preparar o sistema de saúde e as atividades econômicas dentro da cidade, mas falhou no que se refere ao transporte e mobilidade dentro da área de influência da mesma.

Por outro lado, a capital financeira Italiana, Milão, fez uma campanha para manter a atividade econômica tomando medidas simples de distanciamento social, o que não se mostraram efetivas e, hoje, amarga um dos maiores números de contágios na Europa.

Em Nova York, as autoridades locais, em confronto aberto com o presidente Trump, não hesitaram em tomar medidas de distanciamento local e confinamento, porém, a falta de um sistema público de saúde eficiente e a elevada densidade populacional transformaram a “capital do mundo” em um dos principais focos da doença.

Estes e outros exemplos no mundo inteiro demonstram a importância de gerar espaços inteligentes e principalmente a necessidade de integrar as diferentes dimensões que compõem a realidade urbana.

De nada serve ter um sistema de gerenciamento sanitário eficiente sem uma integração com outros sistemas, tais como transporte público, política local, logística ou segurança. Assim mesmo, a centralização do comando derivada do Estado de Alarme ou Emergência decretado em diversos países, como acontece na Espanha, por um lado facilitou o gerenciamento da crise em âmbito nacional, porém gerou assimetrias em relação às implicações locais, produzindo a falta de equipamentos ou a concentração dos mesmos, fomentando, assim, um atendimento desigual perante diferentes cenários dentro da nação.

Hospital habilitado no centro de exposições de Madrid

Porém quais são as ferramentas dentro do âmbito das cidades inteligentes que fizeram ou poderiam fazer a diferença? Assim como o termo Smartcity (Cidade Inteligente) é amplo e composto de diferentes óticas e dimensões conforme a realidade local, suas aplicações são igualmente abrangentes. Sem embargo, uma série de preceitos comuns aos diversos projetos de Smartcity podem ser usados, sendo eles:

Interoperabilidade de sistemas: Para uma correta gestão do espaço urbano e os diferentes níveis de poder que o compõe, a integração dos sistemas de informação possibilita uma melhor comunicação e gestão dos recursos, assim como atende às necessidades locais, regionais, estaduais e até mesmo nacionais. Há um contínuo fluxo de informação referente a recursos, projetos, medidas e políticas que devem dialogar entre si.

Centro de Operações Integradas: Um centro capaz de gerir diversas informações, tal como existe no Rio de Janeiro, com maior capacidade, fomentando a colaboração e adequação à realidade local.

SmartHealth: ou Sistema de Saúde Inteligente, capaz de gerenciar não somente a evolução, mas de equilibrar o uso dos recursos de modo preditivo, evitando uma possível saturação.

Smartmobility: A mobilidade, embora reduzida, deve ser controlada, para reduzir o impacto ou o uso desnecessário de recursos em um lado da cidade enquanto o outro permanece negligenciado.

TIC: Soluções como trabalho ou educação à distância só são possíveis e aplicáveis mediante a integração digital da cidadania e a disponibilização de recursos, tais como o Wifi gratuito em cidades com esse dispositivo.

Inteligência e integração são conceitos chaves para as Smartcities e esta crise revelou não somente as vantagens de racionalizar os espaços urbanos, mas, também, o longo trabalho que ainda precisa ser feito, pois esta pandemia com o tempo passará, assim como outras ao longo da história e, como esta, várias ainda podem surgir.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 SmartHealth” (Fonte): https://www.gradiant.org/wp-content/uploads/2019/03/eSalud_02_cabecera.jpg

Imagem 2 Caminhões transportando falecidos pelo Covid19 na Itália” (Fonte): https://mk0ultimasnoticeq5hf.kinstacdn.com/wp-content/uploads/2020/03/5e7382a759bf5b2f295451c9.jpg

Imagem 3 Hospital habilitado no centro de exposições de Madrid” (Fonte): https://www.que.es/wp-content/uploads/2020/03/ifema-coronavirus-640×480.jpeg

ANÁLISES DE CONJUNTURAEUROPA

2020 e a Europa após o Brexit

Após a separação oficial do Reino Unido da União Europeia, celebrada por parte da população britânica e lamentada pela outra metade, além de diversos cidadãos do Bloco europeu que moram no Reino Unido e empresas que mantém negócios em ambas regiões, marcou-se um hiato no ano de 2020 e um novo ritmo para o continente.

A União Europeia precisa se reestruturar e consolidar o projeto europeu em pleno começo da corrida eleitoral da Alemanha, com eleições marcadas para 2021, e mudança de poder nos Estados Unidos, assim como diluir a sombra projetada pelo Brexit nos países da União Europeia e no discurso crescente da extrema direita na região.

Acrescente-se ainda o ambiente político conturbado em diversos países, devido à polarização cada vez mais perceptível e presente na dificuldade de muitas nações em constituir governo, como ocorre na Bélgica, e que manteve a Espanha durante 4 anos em um ciclo contínuo de múltiplas eleições.  Além desses fatores e dos impactos das políticas de austeridade aplicadas após a Crise Financeira Internacional e seus reflexos na área mediterrânea, somam-se aos efeitos do Brexit as novas políticas migratórias do Reino Unido e a desaceleração da economia mundial, com uma temível redução da demanda de produtos europeus em diversos países, principalmente nas economias emergentes. Tais elementos fazem de 2020 um ano definitivo para a União Europeia.

A redução progressiva do poder de compra e a volatilidade do mercado laboral fizeram com que o mercado interno seja incapaz de absorver e manter o crescimento econômico em diversos países da União Europeia, e a desvalorização das moedas em países emergentes como o Brasil e a Argentina dificultam a venda de produtos para o mercado externo. Acrescente-se mais ainda que a incapacidade de controlar os gastos públicos, mas manter o estado de bem estar, faz com que os discursos nacionalistas e eurocéticos ganhem cada vez mais força, debilitando o projeto europeu.

Merkel nas últimas eleições

Porém, uma dissolução da União Europeia resultaria em uma catástrofe econômica a nível mundial, abalando à interdependência política, econômica, jurídica e social, à diferença do que acontecia com o Reino Unido, provocando um efeito em cadeia que afetaria todo o globo, já que a configuração do mercado europeu responde como único, e são as dinâmicas internas que dificultam o progresso do projeto europeu, gerando enormes assimetrias e uma crescente desigualdade entre os integrantes que, em lugar de conferir competitividade ao Bloco, minam internamente suas bases.

Entre as possíveis soluções que a União Europeia pode adotar existem diversos conflitos de interesse que deveriam ser esclarecidos. A criação de um sistema europeu de previdência social reduziria o impacto das movimentações na mão de obra entre países do grupo, estabelecer um salário mínimo comum também poderia reduzir a movimentação de empresas e deslocamento de ofertas de emprego e, por último, e como medida mais drástica, permitir que os países com maiores dificuldades voltem a adotar suas moedas, utilizando o Euro somente como moeda de troca internacional, isso debilitaria a moeda europeia, mas aumentaria a competitividade do produto europeu.

Sem embargo, a estratégia adotada pela União Europeia foi a adotada desde sua fundação: o endividamento dos Estados, a manutenção das subvenções, a expansão do Bloco e a diversificar exportações, sendo cada vez mais difícil aprovar orçamentos. Isso coloca todo o Bloco à mercê da evolução do mercado internacional, ainda que conferindo maior força ao conjunto de países, sem dar espaço às individualidades que existem.

Dessa forma, o ano de 2020 se apresenta como um ano definitivo para a reestruturação europeia, sendo o único questionamento se a mesma será liberal e conduzida pelo mercado e suas evoluções ou se o Bloco irá tratar de controlar o processo. Mas, sem dúvidas, será um momento que representará um marco, com um antes e um depois na história da organização supranacional.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Momento em que a bandeira do Reino Unido foi retirada na Comissão Europeia” (Fonte): https://static1.abc.es/media/opinion/2020/01/01/brexit-kdmD–620×[email protected]

Imagem 2Merkel nas últimas eleições” (Fonte): https://www.lavanguardia.com/r/GODO/LV/p4/WebSite/2017/09/24/Recortada/853039188_20170924191311-kivG-U431539795043QfC-992×[email protected]

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A expansão das Smartcities

O conceito de cidade inteligente (conhecido popularmente pela nomenclatura em inglês: Smart City) começou a se desenvolver nos anos 90, sendo hoje em dia uma poderosa ferramenta para o planejamento e execução das políticas e planos de desenvolvimento em diversas cidades, de diferentes dimensões, no mundo inteiro.

Embora não exista um modelo padrão de cidade inteligente, ou de projeto de smartcity, há um conjunto de questões inerentes ao desenvolvimento e gestão das dinâmicas e processos urbanos, dentro das especificidades de cada cidade, com a possibilidade de implementar projetos diferentes conforme a realidade local.

Sendo assim, um projeto implementado na Ásia dificilmente poderá ser reproduzido da mesma forma na América Latina, já que cada cidade possui suas próprias características e seu próprio modo de funcionar, o que configura a base do conceito de Smartcity, que é uma racionalização das dinâmicas intrínsecas dos espaços urbanos e a aplicação de tecnologia e processos para o bom funcionamento da cidade e aumento da qualidade de vida dos seus habitantes.

Certo é que existem cidades tais como Barcelona, Londres, Cingapura, Vancouver ou Dubai que servem como exemplo de cidades inteligentes, porém, é um erro acreditar que basta copiar os processos e as políticas aplicados nesses contextos urbanos para resolver os problemas locais, ou que os projetos de cidades inteligentes requerem grandes intervenções urbanas e investimentos tecnológicos.

Diversas questões impossibilitam que exista um modelo global para tanto. Fatores geográficos, sociais, culturais, políticos, econômicos e tecnológicos influenciam nas dinâmicas e dimensões de um espaço urbano, e mesmo dentro de um país, com um mesmo contexto jurídico e econômico, ainda restam fortes assimetrias entre as suas cidades.

Dessa forma, podemos dizer que não somente não existe um modelo de Smartcity, ou projeto global, como também não há uma meta ou conceito estático, pois a realidade dos espaços urbanos e aglomerações populacionais muda constantemente, gerando novas dinâmicas e novas demandas, fazendo com que o projeto de cidade inteligente seja um processo em contínua construção.

Certo é que existem dimensões que devem ser consideradas nos projetos de smartcities que são comuns a todos os projetos existentes no mundo, tais como a tecnologia, a sustentabilidade, as interações sociais e relações de poder, a produção, o consumo e os serviços. Sem embargo, a disposição e papel de cada uma dessas dimensões nas dinâmicas das cidades varia conforme a sua composição.

Dimensões das cidades inteligentes

Na última década houve uma proliferação de projetos de cidades inteligentes em todos países do mundo, embora alguns sejam apenas fruto da propaganda, ou discurso político, ou formas de nomear uma política de desenvolvimento público primária, onde, de fato, não existe a consolidação das dinâmicas urbanas e nem um projeto “inteligente”. No entanto, as tentativas de gerar Smartcities se transformou em uma tendência local e internacional, gerando um desgaste do termo.

Para que uma cidade possa implementar um projeto dessa natureza é necessário realizar um estudo criterioso dos fatores que compõem sua realidade e as interações inerentes dos atores que participam nos mesmos (dinâmica urbana), sendo a cidade o ponto focal para o planejamento eficiente.

Depois de conhecer as dinâmicas de uma dada localidade, as disposições dos atores e as forças endógenas e externas podemos de fato gerar um projeto eficiente e eficaz, levando em consideração as dimensões que fazem ou promovem a geração de inteligência.

Conceitos tais como Smart Governance (governança inteligente), Smart Health (Saúde inteligente), Smart Mobility (mobilidade inteligente), Smart Industry (Indústria inteligente), entre outros, somente são viáveis após profundo conhecimento da cidade e avaliação da mesma, havendo atualmente ferramentas capazes de avaliar essas dimensões, como as recolhidas no livro Intelligent City Evaluation System, de Zhiaqiang Wu, e até mesmo o índice coeficiente de inteligência da cidade.

Sendo assim, ocorre um uso inadequado do conceito de Smartcity, já que nem todos os projetos são de fato inteligentes (mesmo quando aplicada uma tecnologia de ponta), sendo mais uma forma de iludir os atores locais implementando algo que não irá produzir uma melhoria substancial, ou mudança em uma dinâmica urbana, mas apenas um gasto desnecessário e um ônus para a cidade. 

Embora isso não signifique que todos os projetos em andamento de Smartcity estejam fadados ao fracasso, ou que não possa haver uma conversão entre uma política de desenvolvimento local para um projeto de Cidade Inteligente, é necessário implicar a sociedade nesses processos, gerar impacto real no espaço urbano e em suas dinâmicas, sem centralizar os resultados ou concentrar os mesmos, caso contrário teremos polos de concentração tecnológica e desenvolvimento frente a regiões degradadas ou afetadas pela gentrificação* e segregação social. Ter um condomínio ou bairro Smart não necessariamente implica em uma cidade inteligente.

É fundamental que exista uma rede capaz de integrar os diferentes atores das diferentes dimensões presentes no contexto local e gerar de fato processos inteligentes para a cidade. Caso contrário, não podemos falar em projeto de smartcity.

Na atualidade, praticamente todas as capitais do Brasil possuem algum projeto ou iniciativa de Smartcity, assim como nos demais países da América Latina, ressaltando-se que o último continente a aderir a essa tendência foi à África, porém, a mesma já conta com diversos projetos, como o novo departamento urbano sendo construído no Cairo (Egito), o polo tecnológico de Nairóbi (Quênia), passando pelos projetos aplicados na Cidade do Cabo (África do Sul), dentre muitos outros.

Segundo informe da Smartcities World, o setor aumentou significativamente em países emergentes, embora muitos projetos estejam ainda longe de se concretizar como um espaço inteligente.

Cartilha publicada pelo BNDES, que recolhe boas práticas e projetos de Smartcity no Brasil

No Brasil, o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) lançou uma cartilha para as cidades inteligentes, além de existirem diversos projetos nas diferentes esferas de poder com a implicação de atores privados, tais como a empresa IBM, além de outras.

O que marcará a diferença entre os projetos não será o capital aplicado, nem o excesso de tecnologia, mas, sim, o impacto real nos espaços urbanos e no dia a dia de seus habitantes, bem como a capacidade dos atores implicados de interpretar as dinâmicas de suas próprias cidades. Afinal, um processo só é smart quando gera soluções inteligentes para problemas reais da cidadania.

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Nota:

* Gentrificação é um processo de transformação de centros urbanos através da mudança dos grupos sociais ali existentes, onde sai a comunidade de baixa renda e entram moradores das camadas mais ricas.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Cingapura, referência mundial de Smartcity” (Fonte): https://www.theonlinecitizen.com/2019/10/03/imd-smart-cities-index-2019-singapore-tops-new-citizen-centric-global-smart-city-index/

Imagem 2Dimensões das cidades inteligentes” (FonteBy Universidad Deusto): https://blogs.deusto.es/master-informatica/wp-content/uploads/sites/22/2019/01/smart-cities-infrastructure-iot-wide.jpg

Imagem 3Cartilha publicada pelo BNDES, que recolhe boas práticas e projetos de Smartcity no Brasil” (Fonte): https://www.bndes.gov.br/wps/portal/site/home/imprensa/noticias/conteudo/bndes-lanca-cartilha-sobre-uso-da-internet-das-coisas-na-criacao-de-cidades-inteligentes