NOTAS ANALÍTICASPARADIPLOMACIA

Paradiplomacia nos EUA, cada estrela tem seu próprio brilho

Após o final da Guerra Fria, houve uma intensificação da globalização e o surgimento de novos atores no cenário internacional, assim como novos temas na agenda mundial que permitiram uma maior flexibilidade e menor concentração na figura do Estado como único ator das relações internacionais.

Durante os anos 80 a paradiplomacia se fortaleceu como área na qual os atores subnacionais e regionais atuam no cenário internacional, ora em sintonia com a diplomacia exercida pelo Estado, ora defendendo seus interesses próprios, expandindo-se rapidamente pelo mundo.

Nos Estados Unidos, a paradiplomacia é usada como ferramenta complementar à diplomacia oficial e a legislação americana permite a atuação internacional das unidades que compõe a federação dentro dos limites estabelecidos pela constituição no Art.1, Seção 10, parágrafo 3[1], não sendo possível realizar Tratados ou Acordos Internacionais e havendo a necessidade de alinhar as atividades paradiplomáticas às realizadas pelo Congresso e pelo Presidente.

Dessa forma, mais de 42 estados americanos atualmente possui cerca de 300 representações e escritórios em diversos países do mundo[2], no intuito de reforçar as políticas implementadas pela diplomacia oficial e aumentar a representação de suas economias em polos estratégicos.

O aumento das atividades paradiplomáticas no Estados Unidos se justifica por duas razões: A primeira é aumentar a representação da economia dos estados frente a crescente competitividade mundial e atuar de forma localizada em polos onde existe uma sinergia devido à natureza das atividades políticas, culturais e econômicas de uma região. Dessa forma, é possível entender como um estado americano produtor de tecnologia amplia suas relações com outras regiões no mundo que se dedicam a mesma atividade, ou com potenciais mercados consumidores. O outro motivo é que a paradiplomacia permite diluir os gastos da dispendiosa diplomacia oficial, permitindo uma atuação rápida, efetiva e menos custosa que a exercida pelo Estado central, evitando ainda o conflito de interesses internos dentro do país, que tende a aumentar com a própria dinâmica econômica e com a globalização.

A atual agenda internacional está permeada por assuntos de diversas naturezas e a paradiplomacia pode ser usada como uma importante ferramenta pelos países na consecução de seus objetivos. Dentro de um mesmo país, uma metrópole de milhões de habitantes como Nova York pode negociar com outras metrópoles sobre temas de transporte e energia, e regiões agrícolas como os estados do interior dos Estados Unidos podem negociar por outro lado uma agenda de desenvolvimento agrário ou ambientalista, sem interferir uma na outra e inviabilizar o projeto devido ao conflito de interesses que podem surgir pela divergência de pautas.

A ramificação das atividades diplomáticas e sua distribuição mediante a paradiplomacia e pela atuação de outros atores do cenário global é uma realidade que pode aumentar a competitividade de uma nação em tempos como os atuais, em que as grandes negociações estão engessadas devido ao conflito de interesse dos grandes players mundiais e devido às mudanças na dinâmica global que enfrenta a humanidade, aumentando, assim, a capacidade de resposta de um país.

Nesse sentido, a paradiplomacia dos Estados Unidos parece avançar mais rapidamente que a diplomacia oficial permitindo com que muitos estados consigam consolidar seus projetos e suas metas, como no caso da Califórnia, que já se transformou em uma das maiores economias do continente[3], dando exemplo a outras regiões do mundo de como atuar, somando ao vigor da conhecida diplomacia americana o brilho individual de cada um dos seus estados.

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Imagem “American Flag” (Fonte Timeslive.co)

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Fontes Consultadas:

[1] Ver:

http://constitutionus.com/

[2] Ver Social Science Network:

http://poseidon01.ssrn.com/delivery.php?ID=289004112008114088018126110096021099025007057017006013098023074026017102009087091105005060043107058047118069064091087001001116019059007023093124001069075013097110011091032002072106083011115008101008123030098070118024016005119073119009093087115096000&EXT=pdf&TYPE=2

[3]  Ver:

http://www.infomoney.com.br/bloomberg/mercados/noticia/3811721/california-supera-brasil-como-economia-mundial

EUROPANOTAS ANALÍTICASPOLÍTICA INTERNACIONAL

Não é só a Grécia... Paradoxos da Europa

A União Europeia enfrenta a maior crise desde sua fundação, gerando uma série de questionamentos sobre a possível ruptura do bloco ou a continuidade do mesmo e os reflexos que isso teria no já delicado equilíbrio do sistema internacional. A crise econômica parece ter sido o detonante da situação atual da Europa. O problema da Grécia ameaça se alastrar pelo Bloco e afetar a estabilidade da Zona Euro que luta por dar continuidade ao projeto europeu. Por outro lado, a situação com a Rússia devido à Crise da Ucrânia parece estar longe de ser resolvida e, embora o fornecimento de gás tenha sido garantido em um novo acordo[1], a União deve por um lado defender seus interesses na região mantendo parte das sanções contra a Rússia e, por outro, enfrentar sua dependência energética.

Outro problema encarado pela União Europeia é a expansão do terrorismo em território europeu e a adesão de jovens e imigrantes residentes na Europa a essas células terroristas. Os ataques recentes na França parecem ter sido articulados com ataques no norte da África e a internet parece ser o meio de comunicação dessas células, o que gera a necessidade de maior controle da rede. Mas, por outro lado, tanto a Alemanha como a França foram alvos da espionagem americana, havendo um movimento, do qual faz parte o Brasil, de gerar maior privacidade nas comunicações. Ainda assim, neste mês, a União Europeia criou um espaço único para a telefonia celular[2], eliminando o roaming dentro da União, tratando principalmente de manter o discurso da integração, mas abrindo outro paradoxo a ser confrontado. A essa situação devemos somar a dos refugiados e imigrantes do norte da África que pressiona o Bloco e a comunidade internacional solicita respostas, assim como uma maior atuação em problemas regionais próximos à União Europeia, como é o caso da situação na Síria.

Por último, as negociações da União estão engessadas dentro do próprio discurso europeu, as negociações com os Estados Unidos para criar uma área de livre comércio sofrem diversas barreiras e resistências internas e os países membros carecem de autonomia para buscar alternativas. As negociações com o Mercosul seguem na mesma linha e os avanços são maiores no campo das intenções que nas realizações.

Dessa forma, mesmo a Grécia centralizando as atenções da comunidade internacional, o certo é que a Europa não enfrenta somente este problema, mas uma série de paradoxos e questões, relativas não somente à saúde financeira de Bloco e do euro, mas também à segurança de região e suas relações com países vizinhos, principalmente com a Rússia

O discurso de integração persiste, porém os reflexos da mesma parecem ressaltar somente os aspectos negativos, seja a Crise Grega, seja o problema na tentativa de fazer a Ucrânia aderir ao Bloco e expandir a união ou as pressões migratórias internas e externas à União. O destino europeu é incerto e cheio de dúvidas e o mundo assiste absorto aos resultados da integração e a continuidade de um discurso cuja plateia já não consegue se convencer.

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Imagem (Fonte):

http://www.diarioliberdade.org/archivos/Administradores/Maur%C3%ADcio/2012-08/230812_crise_grega.jpg

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Fontes Consultadas:

[1] Ver:

http://actualidad.rt.com/actualidad/view/145346-rusia-ucrania-acuerdo-suministro-gas/

[2] Ver:

http://www.consilium.europa.eu/en/press/press-releases/2015/06/30-roaming-charges/

NOTAS ANALÍTICASPOLÍTICA INTERNACIONALSociedade Internacional

A questão dos Estados Tampões no mundo contemporâneo

O conceito de Estado Tampão surgiu nos meios diplomáticos da Europa por volta do século XVII, sendo utilizado para definir territórios normalmente neutros localizados entre as fronteiras de duas potências que competiam entre si, atuando como uma garantia contra a expansão territorial ou até mesmo fazendo o contrário e impedindo a anexação de dois reinos capazes de competir com outras potências.

A Europa, sem dúvidas, foi o continente que contou com o maior número de Estados nesta condição, seja como uma tentativa de garantir a estabilidade territorial, seja como uma forma de impedir a expansão territorial das potências conflitantes após a queda de um monarca ou a união de duas dinastias.

Áustria, Andorra, Armênia, Transilvânia, Bélgica, Mongólia, o Tibete, as nações do sudeste asiático foram todos considerados Estados Tampões em algum período de sua existência, havendo pouca autonomia geopolítica e diplomática para essas nações.

A América latina também teve algumas regiões consideradas Estados Tampão, sendo o caso do Uruguai o mais reconhecido, por atuar como barreira entre o império lusobrasileiro e a Argentina.

Com a evolução do cenário político internacional após o fim da Guerra Fria, houve um constante aumento da integração entre as nações. O surgimento dos blocos econômicos e o incremento das dinâmicas inerentes as diferentes etapas da globalização, as grandes migrações internacionais e o aumento do comércio exterior fizeram com que o conceito de Estado Tampão caísse praticamente no esquecimento.  Tanto que a União Europeia negligenciou o papel realizado por grande parte das nações do leste europeu ao longo da história em relação ao avanço da OTAN[1] na área de interesse da antiga União Soviética e foi aos poucos expandindo o Blocomediante a adesão de países como Bulgária, Romênia, Estônia, Letônia, Lituânia, Hungria, até chegar à Ucrânia.

A reação da Rússia foi exatamente à mesma que se produz ao retirar um tampão de um barril cheio de pólvora. A OTAN foi se aproximando aos poucos do território da potência que um dia foi usada como justificativa para sua criação, sendo considerado para muitos um enorme erro o avanço do bloco europeu para a zona de influência da Rússia e ainda continuar com a intenção de expandir a mesma para outras nações, como Armênia, Geórgia e Azerbaijão[2], sem estabelecer uma linha de diálogo clara e precisa com Moscou e se aproximando de outras regiões conflitivas como o Irã.

Sombras de uma esquecida Guerra Fria começaram rapidamente a se projetar no horizonte e a adesão da região da Crimeia para o território russo só aumentou as tensões. Tanques voltaram a marchar pelo continente europeu e tropas foram mobilizadas.

Apesar da situação, a Europa não demonstra querer voltar a definir Estados Tampão ou estabelecer regiões limítrofes para sua expansão. Não fala em uma área neutral, muito menos tenta voltar atrás em suas decisões. A Rússia, por outro lado, defende sua posição e volta a se armar, anunciando a instalação de 40 mísseis de longo alcance novos e letais

Voltou-se a uma era instável no panorama internacional, onde ecoam termos tais como heartland e rimland, sem saber ao certo, devido às novas linhas que cobrem o mapa, onde começa um e termina o outro.

Enquanto a situação não se define, parte da Europa sucumbe perante a crise financeira, a crise dos refugiados e imigrantes, a falta de liquidez e a redução da economia mundial. A outra parte, considerada “mais rica”, não consegue avançar nas negociações com osEUA no Acordo de Livre Comércio, nem com o MERCOSUL, seja pelo ônus econômico com  qual devem arcar devido a parte empobrecida, ou pela própria falta de direcionamento claro da União.

Do outro lado do mundo, a “nova grande potência”, a China, se mantém estrategicamente neutra no referente às tensões entre a Rússia e a União Europeia, embora as tensões locais ao sul do país com países vizinhos aliados da OTAN comecem a incomodar, principalmente a questão marítima entre China, Malásia, Indonésia e Filipinas.

A sensação que paira é que no auge da globalização e da multipolaridade internacional a assimetria existente entre as nações foi negligenciada, e ao retirar o primeiro tampão, o vazamento foi drenando o sistema internacional por inteiro.

Agora, cabe aos líderes mundiais restaurar o equilíbrio e buscar alternativas viáveis para evitar o conflito, ou que o mesmo seja terceirizado para outras regiões externas ao foco do problema, como aconteceu na primeira Guerra Fria.

Para isso, a participação das nações e Estados localizados em regiões de tensão é de vital importância. Nesse sentido, os Estados Tampões não somente parecem ser necessários como também devem ser bem articulados e, de certa forma, mantida sua condição neutra, ainda dentro da dinâmica globalizada, pois a vazão provocada ao retirar um desses Estados não somente desequilibra a região, como também nos indica profundas mudanças no panorama internacional, onde não existe uma definição de lados como na Era Bipolar, mas sim uma série de pequenas peças que suportam o equilíbrio de todo o sistema, uma tênue linha que separa as influências territoriais, culturais, as negociações sul-sul, as norte-sul.

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Imagem Heartland and Rimland” (Fonte):

https://wikispooks.com/wiki/Document:Full_Spectrum_Dominance

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Fontes Consultadas:

[1] Ver OTAN:

http://www.nato.int/

[2] Ver:

http://www.europarl.europa.eu/delegations/es/dsca/home.html

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Ver Também:

Cohen, “The New Great Game’: Oil Politics in the Caucasus and Central Asia”.  The Heritage Foundation.

Ver Também:

Michael Greenfield Partem. The Buffer System in International Relations, The Journal of Conflict Resolution, 1983

Ver Também:

BARMAN, Roderick. Citizen Emperor: Pedro II and the making of Brazil182591. Universidade de Stanford, 1999.

NOTAS ANALÍTICASPARADIPLOMACIA

Paradiplomacia na China: “A Força de um Titã e de seus Soldados”

A China se transformou nas ultimas décadas em um dos grandes protagonistas do panorama internacional, assim como objeto de estudos e teorias ao redor de todo o mundo. Apesar de possuir mais de 4.000 mil anos de cultura, a China continua sendo uma grande desconhecida para a maioria das pessoas. Existe um consenso global em relação ao país, mas que não necessariamente é capaz de refletir a sua realidade, o que acaba interferindo no relacionamento que a comunidade global e alguns países podem ter com ela e mina as possibilidades e oportunidades.

Como é dito, “Conhecimento é poder”, de modo que quanto mais um país sabe sobre a China e a entende, maiores serão suas chances de aproveitar ao máximo a relação com esse player internacional que atua na esfera global com a força de um titã.

Desde longe, os países contemplamna como um país milenar, de grandes proporções, hiperpovoado, rígido tanto no aspecto social quanto político, cuja economia se diversificou ao ponto de se transformar no maior polo industrial do planeta, mas que também avança no setor financeiro, sempre pincelado por matizes que fazem de seu modelo algo único, híbrido entre o mundo ocidental e oriental, algo que só poderia ser considerado chinês”.

Mas, a China não é um país homogênio, como acredita grande parte da comunidade internacional. Ao contrário, a realidade chinesa lembra mais um dos seus belos tecidos de seda, formado por milhões de padrões e formas sob o rígido controle do Partido Comunista.

A China[1] possui 56 grupos étnicos distribuídos pelo seu território e muitos deles com idioma próprio, além de contar com importantes comunidades de diversas religiões, entre elas muçulmanas e cristãs. A divisão política é bastante curiosa. O país esta formado por 22 províncias, 5 regiões autônomas, 4 cidades administrativas e 2 regiões administrativas especiais.

O grau de autonomia de cada uma dessas divisões pode variar e, embora todas estejam sob a autoridade do Partido Comunista Chinês, é um erro acreditar que não existam movimentos descentralizados.

Das 5 regiões autônomas (Guangxi, Mongólia Interior, Ningxia, Sinquião e Tibete) muitas possuem órgãos que atuam na área da Paradiplomacia e realizam acordos com governo regionais e estaduais. Exemplo disso é o acordo entre a Mongólia Interior com o Estado de Califórnia[2] para promover a atividade comercial da região, ou a rede de acordos de Ningxia com mais de 60 governos regionais.

No caso das 4 cidades administrativas (Xunquim, Pequim, Tianjin e Xangai) elas possuem planos e projetos especiais, tais como sua participação em fóruns de smartcities, desenvolvimento sustentável, transporte, economia internacional etc., assinando Convênios e Acordos de Cooperação Técnica.

Por último, as 2 regiões administrativas (Hong Kong e Macau) são as que possuem maior flexibilidade diplomática, principalmente devido ao seu passado de excolônias, atuando como ponte entre o mundo ocidental e o oriental. Ambas estão representadas em diversas instituições internacionais como a Comitê Olímpico Internacional (COI) e a Organização Mundial de Comércio (OMC), no caso de Macau[3].

Essa flexibilidade usada pelo Governo chinês conseguiu promover uma maior competitividade do país, pois o difícil processo de formação do interesse nacional fica diluído entre as diferentes divisões e se adapta à realidade de cada região, cabendo ao Governo central orientar quanto às áreas estratégicas mais importantes.

A China aprendeu com Sun Tzu a importância de ter um Exército organizado e bem articulado para a consecução de seus planos. Dessa forma, o Governo chinês atua nas altas esferas com a força de um titã e suas regiões mantém a presença no campo das discussões regionais, como soldados bem treinados, dividindo e conquistando, como diria Maquiavel, as diferentes escalas do atual cenário global.

Uma dessas últimas incursões da paradiplomacia chinesa foi à realização no final de outubro de 2013, em Macau, do Fórum de Economia de Turismo Global[4], que teve como objetivo fortalecer os vínculos com os países latinos, havendo posteriormente o interesse da região em participar de eventos em toda América.

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ImagemCidade de MacauRegião administrativa espacial de origem portuguesa que atua em diferentes esferas da política internacional” (FonteEdreams Agency):

https://tourisminnovationlab.files.wordpress.com/2015/05/macau01.jpg

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Fontes Consultas:

[1] Ver:

http://english.gov.cn/

[2] Ver:

http://www.business.ca.gov/Portals/0/InternationalBiz/MOUs/MOU-Inner_Mongolia.pdf

[3] Ver:

https://www.wto.org/english/thewto_e/whatis_e/tif_e/org6_e.htm

[4] Ver:

http://www.gte-forum.com/en/default.aspx

EUROPANOTAS ANALÍTICASPOLÍTICA INTERNACIONAL

Os quatro motores da União Europeia

Atualmente, existe um consenso que estabelece a Alemanha como líder quase individual da União Europeia, embora a Presidência do Conselho Europeu seja rotativa e atualmente esteja ocupada pela Letônia[1]. O peso da maior economia do Bloco, e consequentemente da maior credora, acabou isolando a mesma na esfera das decisões e nem mesmo a França ou a Itália, conseguiram manter sua influência.

Poucos, contudo, se perguntam como realmente funciona a divisão de poder e o processo decisório dentro da União Europeia, generalizando e fazendo eco de expressões como PIGS (Portugal, Irlanda, Grécia e Espanha), Países do Leste, países do mediterrâneo etc., gerando divisões ou grupos conceituais carregados de preconceitos e pessimismo, que muitas vezes proporcionam uma visão distorcida da realidade europeia ou até mesmo tergiversada. Exemplo disso é o fato de que, mesmo com a crise, a Espanha ter se mantido como uma das 5 maiores economias do Bloco formado por 28 países e ser claro que sua estrutura econômica difere muito da grega. Já alguns países da Europa do Leste, como a Polônia, mantiveram taxas expressivas de crescimento e estabilidade, superiores a outros membros mais antigos da União. Essa realidade levanta a questão de se saber quais são, dentro desse panorama heterogêneo, os principais motores da União Europeia.

Certo é que desde a criação do Bloco existe um forte movimento de padronização na Europa que com o tempo se transformou em seu Calcanhar de Aquiles. Estabelecer políticas comuns para países tão divergentes acabou debilitando a Europa em lugar de fortalecer a mesma, já que até mesmo dentro dos países da União existem fortes contrastes, e não se pode comparar a região metropolitana de Paris com a Bretanha por exemplo.

Por outro lado, a crescente padronização sempre teve como objetivo ir aos poucos diluindo a figura dos Estados e formando uma supranação, a qual funcionaria de forma harmonizada, apesar das diferenças internas.

Por esse motivo, desde 1998 existe um grupo denominado Four Motors For Europe[2], ou Quatro Motores para Europa, formado pelas regiões com alto potencial industrial e diversidade econômica, representando as maiores economias da União: BadenWuttemberg (Alemanha); Rhône Alps (França); Lombardia (Itália) e Catalunha (Espanha).

A grande diferença desse grupo é que o mesmo atua na área da Paradiplomacia e não na diplomacia centralizada de seus respectivos países, o que agiliza grande parte das negociações e aumenta a flexibilidade dos processos. Desse modo, quem quer que seja dos integrantes pode negociar com outras entidades regionais, como por exemplo, o Governo de Estado de São Paulo (Brasil), fomentando a internacionalização de empresas, transferência tecnológica, cooperação técnica e outros, sem passar pela morosidade e burocracia da diplomacia estatal, já que toda ela está fortemente atrelada às normativas da União Europeia, a outros interesses internacionais e dos demais integrantes do Bloco.

O grupo possui Presidência Rotativa e está formado pelos governos regionais de cada um dos participantes e todas as regiões possuem deputados no Parlamento Europeu, representando os interesses de sua região e não necessariamente do seu Estado[3].

O fato dos Quatro Motores representarem regiões econômicas com perfis diferenciados ajuda também nas negociações internacionais, já que podem se aproximar de regiões com as quais mantém sinergia em lugar de realizar uma aproximação por via diplomática com todo um país, o que pode ser demorado e até mesmo bloqueado pela União Europeia ou por grupos de interesses locais.

Os Quatro Motores são um exemplo de como é importante defender os interesses regionais frente à competitividade do panorama internacional e a crescente padronização da política, sendo talvez uma solução para outras regiões que representam os interesses de outros grupos, tais como poderiam ser os dos produtores das regiões agrícolas da Europa.

Dessa forma, observa-se que as decisões políticas na Europa podem enfrentar problemas devido à heterogeneidade do território e que uma forma plausível de harmonizar o panorama é mediante o estímulo às organizações paradiplomáticas, as quais permeiam o processo decisório da própria União por participar da Câmara à medida que aumentam seu poder de influência.

A Paradiplomacia se transformou em uma importante ferramenta de inserção internacional de âmbito regional, fora da padronização criada pelos blocos econômicos. Certo é que alguns países podem fazer uso da paradiplomacia como uma fase anterior a diplomacia em seus objetivos de obter reconhecimento internacional. Mas seria um erro julgar todas as entidades que atuam nessa área como organizações movidas por fins nacionalistas. Ao final, o principal intuito dessas organizações é proteger os interesses regionais frente até mesmo aos projetos econômicos nacionais, motivo que explica o fato de grandes economias como a Americana possuírem uma infinidade de organizações que atuam na paradiplomacia, representando os interesses de regiões como o Vale do Silício, que podem algumas vezes contrariar os interesses internos de outras regiões e emperrar a diplomacia comercial  estatal de um país inteiro.

No caso do Brasil, o Rio de Janeiro foi o primeiro Estado a ter uma estrutura pensada para a paradiplomacia, sendo este um movimento crescente no país, seja mediante as prefeituras, ou mediante a criação de secretarias estaduais de relações internacionais, justamente pela necessidade de defender os interesses diversos de cada Estado sem comprometer o planejamento nacional.

A situação atual da União Europeia serve como exemplo mundial sobre as pressões internas e externas exercidas em um panorama heterogêneo onde a paradiplomacia consegue flexibilizar a forte padronização e até mesmo oferecer uma alternativa às decisões tomadas, modificando o processo aos poucos e aumentando a capilaridade do poder dentro da União. Sendo essa, talvez, a alternativa para equilibrar o panorama europeu e quem saber garantir a sobrevivência de economias regionais.

Os Quatro Motores são a representação de algumas regiões com determinadas características. Talvez esse seja o momento de ampliar o escopo e não ter apenas os Quatro Motores, mas sim todas as partes do veículo e, dessa forma, em eventuais crises, será muito mais simples detectar o problema, assim como a possibilidade de resolver o mesmo. 

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Imagem Os quatro motores da União Europeia e suas capitais” (Fonte):

http://www.4motors.eu/IMG/pdf/4moteurs-12.pdf

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Fontes Consultadas:

[1] Ver:

http://www.consilium.europa.eu/es/european-council/ 

[2] Ver:

http://www.4motors.eu/

[3] Ver:

http://www.europarl.europa.eu/meps/es/search.html

EUROPANOTAS ANALÍTICASPOLÍTICA INTERNACIONAL

Eleições Municipais na Espanha e o reflexo nos processos separatistas

As eleições municipais na Espanha indicam uma nova rota política e econômica que pode afetar o processo separatista da Catalunha e reforçar o nacionalismo basco, pois, após o início da crise financeira em 2008, a Espanha enfrenta uma das maiores turbulências no panorama político desde sua redemocratização, em 1975, já que o país, como outros na área do Mediterrâneo, foi gravemente afetado pela crise financeira que começou nos Estados Unidos e se alastrou pela Europa, provocando a recessão econômica da região e uma série de implicações à longo prazo.

A Espanha teve que enfrentar as consequências da bolha imobiliária e a crise bancária espanhola, o que provocou um efeito dominó na economia, levando o país a alcançar taxas de desemprego superiores aos 20%, uma profunda recessão econômica e tensões sociais causadas principalmente pelas desapropriações e cortes nos serviços públicos.

O surgimento de movimentos sociais, tais como os Indignados do 15M, em 2011, deu origem a um novo partido alternativo de esquerda denominada Podemos, que cresceu alimentado pela frustração decorrente do bipartidarismo, quase perene, existente no país ibérico e representado pelos partidos PP (Partido Popular) e PSOE (Partido Socialista Operário Espanhol)[1].

Em 2011, o atual partido da Presidência, o PP, ganhou as eleições com a promessa de recuperar a economia, seguindo o receituário recomendado pela União Europeia e instituições internacionais, dando início a uma árdua tarefa de reestruturação.

Atualmente, mesmo com uma previsão de crescimento superior a 2% do PIB para 2015[2], o preço de implementar ditas medidas de austeridade foi maior do que o esperado para o presidente do governo espanhol  e líder do PP, o Sr. Mariano Rajoy.

A Espanha teve que sacrificar o estado de bem estar com o qual seus cidadãos estavam acostumados, produzindo uma redução perceptível na qualidade de vida e nos indicadores socioeconômicos.

Os escândalos de corrupção por outro lado permearam praticamente todos os Partidos existentes aumentando o abismo entre a sociedade e seus representantes e promovendo a necessidade de mudanças e correções de rumo.

A crise espanhola produziu também o acirramento da competição entre as comunidades autônomas e o fortalecimento do nacionalismo em regiões como a Catalunha, que, graças ao expressivo apoio da sua população, começou a estabelecer uma agenda visando à cisão do território espanhol e a independência da região.

O novo partido político Podemos surgiu como movimento social liderado por professores universitários e lideres comunitários. Fonte: Reuters

O novo partido político Podemos surgiu como movimento social liderado por professores universitários e lideres comunitários. Fonte: Reuters

No domingo retrasado, dia 24 de maio, as eleições municipais evidenciaram a complexa situação da política interna do país. Houve um avanço perceptível dos novos partidos políticos entre eles Podemos* e Ciudadanos, assim como uma crescente onda pró-esquerda.

O que mais chamou a atenção foi o fato de que nas duas principais cidades, Madrid e Barcelona, a hegemonia dos Partidos tradicionais sucumbiu aos novos Partidos e ao clamor da população por mudanças, sendo necessárias, em ambas as cidades, a realização de uma série de pactos e acordos para garantir a governabilidade.

O Governo da Catalunha estuda o impacto que essa nova formatação irá produzir no processo separatista e nas eleições marcadas para o dia 27 de setembro de 2015. A presença de um novo ator pode afetar a agenda política que foi determinada previamente mediante um acordo realizado entre os principais Partidos da região em 2014, após os resultados da consulta popular realizada no dia 9 de novembro[3], não reconhecida pelo Governo Central de Madrid, sobre a possível separação da Catalunha.

No País Vasco, região também conhecida por suas aspirações nacionalistas, o fortalecimento do Partido Nacionalista Vasco (PNV) indica uma maior articulação entre as forças locais e uma tendência à cooperação na busca de um Governo cada dia mais afastado das influências de Madri. Embora a região não possua um projeto separatista oficial, existe um aumento dos atores que advogam por uma Espanha federal e uma maior articulação dentro da região.

Em outras comunidades onde havia uma hegemonia histórica, fosse ela do PP ou do PSOE, novos partidos conseguiram aumentar consideravelmente sua participação diversificando o panorama político espanhol e o processo decisório[4].

Sem dúvidas, o enfraquecimento do atual partido da Presidência, assim como de outros partidos consolidados, como o PSOE e o CIU, e o crescimento dos novos partidos, principalmente o Podemos, mostra uma vontade de mudança da população e um desafio para a governabilidade do país, seja ela em âmbito nacional ou no âmbito regional, e serve como alerta tanto para os interesses da União Europeia, como da Espanha ou das regiões nacionalistas.

O bipartidarismo deu lugar a uma maior diversidade partidária, sendo necessário articular os interesses dos diversos grupos que compõe a realidade espanhola e de suas regiões. O povo espanhol seja ele pró-europeu, pró-espanhol ou nacionalistas, expressou nas urnas sua insatisfação com a situação atual e sua vontade de mudanças, havendo um alinhamento com outras mudanças ocorridas em países igualmente afetados pela crise como a Grécia.

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Imagem 1 Manifestações a favor da independência da Catalunha vêm se repetindo e se intensificando desde 2012” (Fonte Afp / Lluis Gene):

http://www.lavanguardia.com/fotos/20120911/54349943129/la-manifestacion-independentista-de-barcelona-copa-las-calles-de-la-capital-catalana.html

Imagem 2O novo partido político Podemos surgiu como movimento social liderado por professores universitários e lideres comunitários” (FonteREUTERS):

http://cdn.larepublica.pe/sites/default/files/imagecache/img_noticia_640x384/imagen/2015/01/31/imagen-podemos.jpg

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Fontes Consultadas:

[1] Ver:

http://podemos.info/ 

[2] Ver:

http://www.datosmacro.com/pib/espana

[3] Ver:

http://www.cataloniavotes.eu/independence-referendum/

[4] Ver:

http://resultadoslocales2015.interior.es/ini99v.htm