ANÁLISES DE CONJUNTURAParadiplomacia

O processo produtivo, criativo e o desenvolvimento social das Smartcities

Criar um espaço inteligente em um meio urbano não se trata apenas de implementar uma nova tecnologia, serviço básico, público ou realizar ações locais determinadas, incapazes de promover um real benefício para toda a cidade.

Projeto [email protected] – Distrito Inteligente de Barcelona

Um processo inteligente, conforme foi abordado ao longo deste ciclo de artigos sobre Smartcities, deve levar em consideração as dinâmicas intrínsecas das cidades e atuar como vetor da mudança e inovação dessas dinâmicas, promovendo uma sinergia entre os diferentes atores e fatores implicados, sendo este um processo inclusivo no qual a cidade atua como um grande ente vivo onde cada dinâmica é fundamental para seu funcionamento.

O projeto de Smartcity de uma cidade é a própria inteligência desse ente urbano, de modo que se afasta dos típicos programas eleitorais e ações governamentais limitadas cronologicamente, para ter um caráter próprio e único que perdura ao longo do tempo e serve de guia real para as ações públicas. A cidade deixa de estar à mercê de uma visão política determinada e passa a impor sua realidade e suas dinâmicas como um roteiro ao qual as forças políticas e privadas devem se adaptar.

Um exemplo visível disso são as próprias dinâmicas produtivas de uma cidade. A distribuição de fábricas, a força de trabalho e a segmentação econômica dos bairros vão continuar as mesmas – salvo grande intervenções – independentes do partido que ocupe o poder, de modo que uma política implementada em um bairro de alto padrão durante uma determinada gestão, em nada irá afetar a produtividade ou realidade das regiões industriais que normalmente ficam mais afastadas, ao menos não a curto prazo ou de forma controlada.

Um processo inteligente, por outro lado, tem como objetivo harmonizar o impacto de projetos na própria dinâmica populacional, levando em consideração onde moram os trabalhadores, a oferta de transporte para os centros de produção, onde se localiza o consumo de maior volume na cidade, a distância dos centros financeiros etc., tudo funcionando de forma esquematizada para gerar um fluxo inteligente e sustentável, pois uma ação gera impacto e ecoa em vários setores.

A utilização de processos inteligentes, ajudou a muitas cidades europeias a transformarem o setor produtivo de suas grandes capitais, mas antes foi necessário compreender os processos e dinâmicas que moldavam a realidade dessas cidades.

Setores em Barcelona

Madrid, Barcelona, Milão, Londres, Paris, Berlim e Bilbao, por exemplo, sofreram um grande processo de desindustrialização entre os anos 80-90, assim como um aumento considerável dos custos da mão de obra, a falta de trabalhadores, o aumento desproporcional do valor dos imóveis, o crescente fluxo migratório e informalidade de vários setores, a globalização das economias e a concorrência das economias emergentes (China, Brasil, Índia, Rússia). As cidades europeias cresciam em economia, mas perdiam em competitividade e em qualidade de vida, até que as cidades inteligentes floresceram por todo o continente.

Os projetos urbanos mudaram essa realidade. A cidade de Barcelona foi uma das primeiras com o projeto olímpico Barcelona 92, que logo se transformou no projeto Barcelona Smartcity, e muitas cidades da Espanha e da Europa seguiram o exemplo, promovendo uma grande onda de transformações só antes vista no século XIX.

O processo produtivo e as dinâmicas sociais serviram de guia para essas cidades localizarem onde se reúnem os principais contingentes populacionais, a dinâmica econômica entre eles, a flexibilização e mobilização social prevista, o potencial inovador a mobilidade e formação disponível sendo as bases de uma grande revolução.

A criação de distritos da criatividade e inovação em regiões deterioradas da cidade, o aumento da oferta de transporte público e um rígido controle dos imóveis desocupados, promoveram um enorme impacto nas dinâmicas sociais e uma redução considerável da desigualdade, pois as classes sociais já não se agrupavam de uma forma tão visível, mas se distribuíram melhor pela cidade, gerando novas dinâmicas econômicas.

O setor produtivo foi levado a setores industriais ou a zonas francas (normalmente posicionadas, ou próximas aos portos ou aeroportos) reduzindo os custos logísticos de curto e longo prazo, promovendo a criação de clusters ou polos especializados, gerando uma força única de indução – se o governo precisa levar o metrô até o aeroporto, ele deve passar obrigatoriamente por esses setores –, aproveitando a dinâmica do próprio espaço urbano para gerar impulsos de inovação.

Ou seja, não se trata de investir e trazer uma tecnologia cara que funcione em um país desenvolvido. Isso não é ser “inteligente”, é simplesmente “colar na prova” e quase nunca dá resultados. Trata-se de conhecer como funciona uma cidade para justamente saber como racionalizar um processo inerente desse espaço e de como modificá-lo.

Os setores produtivo e criativo são geradores e ao mesmo tempo beneficiários desses projetos e é nessa dimensão que o setor privado participa do processo de desenvolvimento da urbe. Já que a evolução de uma cidade não é algo bom somente para o cidadão, ou para o político que a governa, mas para todos os que ocupam e exercem suas atividades nesse espaço, e deve ser contemplado dessa forma.

O desenvolvimento é a força motriz que fornece energia a todo o processo e quanto mais avança uma cidade em seu projeto inteligente, maior é a performance e o resultado do desenvolvimento, seja este econômico, produtivo, criativo ou social.

Em países como o Brasil este processo é de vital importância, pois mais de 80% da população é urbana, tem uma grande taxa de desigualdade, concentração econômica e produtiva no eixo “São Paulo–Rio de Janeiro–Belo Horizonte” e falta de serviços básicos e de infraestrutura. É necessário conhecer bem a realidade das cidades para implementar estes projetos, não somente nas grandes cidades, mas também nos pequenos e médios municípios.

De nada serve gerar um complexo inteligente de última geração na Zona Sul do Rio de Janeiro, quando a mão de obra se concentra na baixada, acrescentando-se que o parque Tecnológico do Rio de Janeiro também está na baixada e o CBD (Central Business District – centro de negócios de uma cidade) na região central. Ou seja, isto seria uma intervenção exclusiva e não inclusiva. O mesmo se aplica a praticamente todas as capitais do Brasil.

Já no caso das pequenas e médias cidades, de nada vale tentar criar uma região de inovação tecnológica copiando o Vale do Silício na Califórnia, se não existem bons acessos, infraestrutura, mão de obra e uma economia capaz de estimular startups, ou, pior ainda, aqueles municípios que se destacam em agrobusiness e desejam implementar soluções para a indústria que não é do seu know how, sendo que a geração de valor dentro de um setor onde o município é competitivo, sem dúvidas, é mais viável.

A produtividade, a criatividade e o desenvolvimento não são ciclos que começam de forma anacrônica. Os fatores locais, sua história e o seu funcionamento vão determinar o caminho que é preciso trilhar. Isso, sim, é ser uma cidade inteligente, sendo cada projeto único.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Global Cities Connection” (Fonte):

http://www.corrs.com.au/assets/expertise/secondary/jd-global-laying-foundations.jpg

Imagem 2Plano ampliação de Madri 1857 (Em vermelho nova área urbana ao redor do centro histórico)” (Fonte):

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/7/7d/Plano_del_Ensanche_de_Madrid-1861.jpg

Imagem 3Setores em Barcelona” (Fonte):

https://image.slidesharecdn.com/22barcelona-versin-castellana-etre-20073112/95/22barcelona-versin-castellana-etre-2007-14-728.jpg?cb=1191231709

ANÁLISES DE CONJUNTURAParadiplomacia

O Papel da Tecnologia nas Smartcities

Os projetos de Smarcities (Cidades Inteligentes) têm como seu principal objetivo estimular a criação de um ambiente inteligente no qual as dinâmicas e processos intrínsecos do espaço urbano são raciocinados e direcionados para promover o desenvolvimento sustentável da cidade e de sua população. 

Segmentos Smartcity

A tecnologia é sem dúvidas um dos principais vetores no desenvolvimento deste tipo de projeto, atuando como integradora das diversas dimensões que abrangem este processo, possibilitando a inovação e também a geração, integração ou modificação de novas dinâmicas dentro das cidades.

Mas existem desafios importantes no uso da tecnologia em projetos de Smartcity. O principal é a falta de integração dos próprios atores implicados. De nada serve instalar um processo informático de controle dos estoques de materiais para obras públicas se não existir uma rede interligada capaz de harmonizar essas informações e transformar a mesma em um processo lógico ou comando; da mesma forma, não é eficiente um sistema de controle de ocorrências na rede elétrica que não esteja interligado às diferentes prestadoras de serviço. Dispor de uma tecnologia não necessariamente significa gerar um processo inteligente. Essa realidade é perceptível em diversas cidades do Brasil.

A tecnologia oferece a possibilidade de reduzir as assimetrias típicas das cidades brasileiras. A criação de um ambiente digital oferece uma homogeneidade que permite visualizar a cidade como um grande ente formado por diferentes dinâmicas, sejam estas sociais, políticas, econômica ou produtivas.

Ao contemplar a cidade como um espaço inteligente, as intervenções passam a ser interligadas e não apenas projetos isolados, gerando um efeito em cadeia. Mas, para isso, é necessário uma correta implementação e o uso das ferramentas tecnológicas disponíveis.

Outro aspecto relevante da tecnologia é o seu potencial inovador e sua capacidade de estimular e gerar novos projetos. Para as cidades inteligentes, ela é a principal ferramenta para a evolução do processo, havendo diferentes tipos que podem ser implementados conforme as próprias características dos polos urbanos. Entre as principais podemos destacar:

– Tecnologia da informação, usada para integrar os diferentes atores que compõem o espaço urbano e redesenhar processos existentes, buscando um maior resultado e maior eficiência. Mediante a tecnologia da informação é possível digitalizar o espaço urbano e fazer uso de novas ferramentas, tais como a Internet das coisas, o e-government, o e-health etc.

– Tecnologia da produção, usada para aumentar a competitividade do sistema produtivo de uma cidade ou região, permitindo o desenvolvimento de uma economia cíclica, estimulando o setor criativo e inserindo novas técnicas produtivas tais como a robótica.

– Tecnologia verde, usada com o objetivo de melhorar a relação das pessoas com o meio ambiente e a sustentabilidade, promovendo o uso mais eficiente dos recursos além da correta preservação ambiental necessária para garantir o futuro das próximas gerações.

– Inovação, não se trata de uma tecnologia determinada, mas sim, da capacidade de transformação e melhoria contínua dos processos que existem ou que venham a existir em uma região urbana.

Cada tecnologia possuí serviços e ferramentas disponíveis de forma desigual, não sendo todas aplicáveis a todas as cidades, embora exista uma série de setores nos quais se fundamentam as Smartcities, que são:

– Open Data

– Mobilidade

– Plataforma participativa e E-government

– Smart grids

– Coleta Seletiva

– Serviços inteligentes

– Conectividade

– Educação

– AgroSmart

Cada projeto de Smartcity é único, pois cada cidade  possui características próprias e mesmo que existam polos urbanos semelhantes, e que compartem desafios parecidos, não há um guia padrão que explique como deve ser realizado o uso da tecnologia e sua aplicação, além do mais, é necessário levar em consideração que todas as cidades são passíveis de se transformar em polos inteligentes dentro de suas próprias características, mas nem todas possuem capacidade financeira ou estrutural para seguir um roteiro pré-estabelecido pelas grandes metrópoles.

Ao redor do mundo existem exemplos de diferentes cidades inteligentes que aplicaram a tecnologia conforme suas próprias características. A cidade de Madrid, por exemplo, utiliza uma rede integrada de transporte que permite uma melhor ocupação e distribuição da população na cidade; por outro lado, a pequena cidade francesa de Dijon criou um espaço urbano integrado gerenciado pela Prefeitura onde o cidadão tem acesso a todos os serviços públicos desde uma plataforma digital.

Centro de Operações do Rio de Janeiro

No Brasil já existe um número considerável de projetos de Smartcity, as capitais estaduais e capitais regionais lideram esses projetos, embora cada uma esteja em uma etapa diferente. No Rio de janeiro, o Centro de Operações atua como uma plataforma integrada dos serviços de emergência pública; já em Florianópolis o setor criativo é estimulado graças ao estabelecimento de parques tecnológicos e centros de pesquisa.

Existem redes formadas por essas cidades com o objetivo de fomentar o intercâmbio de conhecimento e experiências, sendo crescente o interesse tanto na área pública quanto na privada. Neste aspecto, a tecnologia se transforma em um ponto fundamental ao reduzir as distâncias e ao permitir uma maior interação entre os diferentes atores.

É certo que o país ainda apresenta deficiências na infraestrutura que podem afetar a evolução de alguns projetos de Smartcity, mas, por outro lado, essas cidades podem atuar como polos indutores e transformadores da região, além de atrair um novo fluxo de investimentos e uma distribuição mais equitativa no país.

A integração tecnológica pode ser realizada em diferentes níveis e, aos poucos, gerar os processos necessários para a implementação de um projeto de Cidade Inteligente. No entanto, a mesma deve estar aliada a uma série de intervenções que permitam essa integração, tais como infraestrutura mínima, educação, participação pública e privada. Mas, sem dúvida, uma vez instalada esta passa a atuar como uma pedra fundamental no futuro da cidade.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Componentes de um projeto de Smartcity” (Fonte):

http://cdn.ttgtmedia.com/rms/onlineImages/iota-smart_city_components_desktop.jpg

Imagem 2 Segmentos Smartcity” (Fonte):

https://us.123rf.com/450wm/monicaodo/monicaodo1602/monicaodo160200011/52445942-conceito-de-cidade-inteligente-com-diferente-%EF%BF%BDcone-e-elementos.-design-de-cidade-moderna,-com-tecnolog.jpg?ver=6

Imagem 3 Centro de Operações do Rio de Janeiro” (Fonte):

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EUROPANOTAS ANALÍTICASPOLÍTICA INTERNACIONAL

A breve independência da Catalunha

Após a declaração de independência realizada pelo parlamento da Catalunha, no dia 27 de outubro, seguida da ativação do Artigo 155, feita pelo Senado espanhol, as celebrações por parte da população catalã a favor do separatismo duraram poucas horas e as tensões na região foram seguidas por toda a comunidade internacional. O presidente Mariano Rajoy destituiu ao Governo catalão e colocou a vice-presidente da Espanha, Soraya Santamaria, como responsável pelo Executivo da região.

Retrato oficial da Presidenta do Parlamento de Catalunha, Carme Forcadell

Mesmo com a destituição, o Presidente da Catalunha, Carles Puigdemont, não se considerava fora do cargo e pedia o apoio da população para dar continuidade ao processo, embora seus apelos tenham sido sufocados por uma massiva manifestação por parte da população contrária à separação, deixando evidente o fato de que a Catalunha está dividida e polarizada politicamente.

Além de substituir o Executivo catalão, o Governo central convocou eleições para o dia 21 de dezembro deste ano (2017). Em um primeiro momento, os separatistas haviam determinado que não participariam das eleições, mas a falta de apoio internacional à causa separatista e a divisão social, acabou forçando os partidos nacionalistas a repensarem suas estratégias. Por outro lado, a Presidenta do Parlamento catalão, Carme Forcadell, continua exercendo suas funções, após acatar as decisões de Madri e dissolver a formação parlamentar.

Com a dissolução do Legislativo, a destituição do Governo catalão e a mobilização social existente na região, é possível afirmar que a autodeclarada República da Catalunha durou apenas algumas horas e fora do marco jurídico espanhol, da mesma forma que já havia acontecido quando Lluís Campanys declarou o Estado Catalão, no dia 6 de outubro de 1934, sendo detido posteriormente e fuzilado pelo regime franquista em 1940, após uma temporada no exílio.

O Governo da Bélgica manifestou a possibilidade de oferecer asilo ao ex-presidente Carles Puigdemont, mas a Espanha rapidamente respondeu que tal decisão afetaria o pacto de solidariedade entre os países da União Europeia.

A situação parece estar a favor do Estado espanhol que fez uso de toda sua influência política, econômica e cultural para promover uma série declarações de diversos países do mundo que não reconheceriam ao novo Estado – entre eles o Brasil – deixando os partidos separatistas da Catalunha sem opções, salvo aceitarem as determinações do Governo central e tentarem restabelecer sua formação novamente, mediante as eleições de dezembro.

As forças de segurança da região estão também sobre o controle de Espanha, que não descarta a possibilidade de prender os responsáveis políticos pela tentativa de cisão devido ao crime de sedição, uma vez que as denúncias já foram encaminhadas para a Procuradoria. Poucas são as possibilidades de que o processo nacionalista continue dentro da pauta estabelecida pelos nacionalistas, o que, por outro lado, aumenta as tensões sociais entre setores radicais de ambos os lados. Os próximos dias são decisivos para que o Governo espanhol mostre sua capacidade de controlar a região e sufocar o movimento nacionalista, e também para que a comunidade internacional possa avaliar a resposta da sociedade catalã.

Em relação ao  Governo da Catalunha, o presidente destituído e parte de seus secretários foram vistos hoje na Bélgica e, conforme fontes próximas à cúpula do poder, é provável que façam um pronunciamento conjunto ainda hoje e não se descarta a possibilidade de que solicitem asilo político no país, assim como outros líderes nacionalistas da região já fizeram no passado (Francesc Maciá, Lluis Campanys etc.), movimento que pode dificultar a situação, uma vez que a Procuradoria da Espanha já apresentou a denúncia por sedição contra os principais membros do Governo da região.

Seu exilio político poderia abrir a possiblidade de pleitear nas cortes internacionais algo que sem dúvidas a Espanha prefere evitar, sendo as eleições autonômicas uma forma mais equilibrada de restabelecer a região, porém, caso os nacionalistas se apresentem e ganhem o pleito a situação pode alcançar uma esfera humanitária com dois diretores de associações cíveis presos e políticos asilados no exterior. A quebra-de-braço entre Espanha e a Catalunha ainda está por se definir.

 

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Soraya Santamaria, presidente temporal da Generalitat da Catalunha” (Fonte):

http://oje-50ea.kxcdn.com/wp-content/uploads/2017/10/soraya-s%C3%A1enz-de-santamar%C3%ADa-925×578.jpg

Imagem 2 Retrato oficial da Presidenta do Parlamento de Catalunha, Carme Forcadell” (Fonte):

https://es.wikipedia.org/wiki/Carme_Forcadell

EUROPANOTAS ANALÍTICASPOLÍTICA INTERNACIONAL

BREAKING NEWS - Parlamento da Catalunha declara independência

Hoje, dia 27 de outubro de 2017, às 12h no horário de Brasília, o Parlamento da Região Autônoma da Catalunha, após intensa sessão e uma votação seguida por milhares de pessoas reunidas na Praça de Sant Jaume, declarou a Independência da Catalunha.

Simultaneamente, o Senado Espanhol discutia as medidas do Artigo 155 que confere ao poder central a capacidade de destituir ao Governo autônomo. Diante da declaração de independência, o Senado aprovou a ativação do Artigo 155 e o Governo central convocou um Conselho Extraordinário de Ministros esta tarde para aplicar de forma imediata o Artigo e restabelecer a ordem constitucional espanhola.

A declaração unilateral de independência dá início ao episódio mais tenso da história da democracia e coloca o país no centro das preocupações da União Europeia. De momento, o Governo espanhol está agindo com maior cautela e dentro do estipulado pela Constituição da Espanha, já o Governo da Catalunha sabe que precisa se articular rapidamente na busca de reconhecimento internacional e consolidação de sua soberania recém declarada.

O Governo central de Madrid pode fazer uso da força para tentar recuperar o controle da região, embora a euforia da população local possa ser um fator que dificulte medida dessa natureza ou que gere manifestações por todo o país. O diálogo apontado pela União Europeia como a única forma de resolver o problema parece ser uma solução cada vez mais difícil.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Manifestantes catalães dando adeus à Espanha” (Fonte):

http://dukepoliticalreview.org/wp-content/uploads/2015/10/article-photo.jpg

ANÁLISES DE CONJUNTURAEUROPA

A ambiguidade do processo catalão

Após uma controversa declaração de independência, revogada segundos depois pelo próprio presidente do Governo da Catalunha, a situação da região separatista ficou ainda mais ambígua, gerando diversas reações tanto na Espanha como no resto da União Europeia.

O Governo Central de Madri rapidamente se pronunciou sobre a declaração realizada por Carles Puigdemont no dia 10 de outubro e lhe concedeu um prazo de até 5 dias para que pudesse esclarecer se havia ou não proclamado a independência da região.

Declaração do Presidente do Governo Catalão foi acompanhada por centenas de manifestantes a favor da separação

Embora existam diversas interpretações sobre a atuação do Governo catalão e a dinâmica entre a região e o resto da Espanha, o certo é que não existe um precedente capaz de esclarecer todos os paradoxos que o processo gera, tanto na jurisprudência espanhola como na da União Europeia.

De fato, existe uma contraposição, seja ela política, jurídica, econômica de interesses e normativa, além de pressões, que são interpretadas de diversas formas, conforme os interesses dos participantes, sejam eles os Estados, a sociedade, as organizações, ou as empresas.

Porém, em muitas das análises o fator político e econômico centraliza toda a questão, deixando para um segundo plano o fator jurídico, sendo este talvez a principal estratégia usada pelo Governo da Catalunha.

Atuar de forma ambígua gera por um lado precedentes jurídicos e, por outro, a impossibilidade de ações mais enérgicas, exceto se a Espanha desejar novamente reforçar a imagem autoritária, fruto da atuação policial durante o Referendum. Sem dúvidas, este é um jogo perigoso, mas que pode render algumas vantagens para a Catalunha em sua tentativa de conseguir a mediação de algum player internacional.

Embora existam diversas teorias de qual seria a situação política e econômica da Catalunha dentro da União Europeia, e até mesmo o posicionamento expresso de importantes players, tais como França e Alemanha, o certo é que o marco jurídico da União Europeia não fornece todas as respostas, já que pontos essenciais como a própria condição dos cidadãos estariam sem resposta.

Tribunal de Justiça da União Europeia em Luxemburgo

Ressalte-se que o Tribunal de Luxemburgo é o único responsável pela interpretação dos diferentes Tratados da União Europeia e não o Conselho Europeu, em Bruxelas, levando o assunto à esfera jurídica e não somente à política.

Outro ponto relevante seria a aplicação do Tratado de Viena no processo de cisão da Espanha, o que abre um leque de oportunidades para a Catalunha, uma vez que a cláusula de continuidade seja respeitada pelas duas partes que contraíram uma responsabilidade internacional no passado e devem mantê-la. Além, é claro, das diversas possibilidades de colaboração com a União Europeia sem a opção de veto da Espanha, conforme a própria legislação europeia.

Não é possível afirmar que exista um parecer totalmente favorável à Catalunha, principalmente devido às pressões políticas e econômicas. Porém, mobilizar o processo para o complexo sistema de direito internacional explica a ambiguidade na qual se comporta o Governo da Catalunha, cujo maior objetivo é garantir a mediação internacional e, consequentemente, um futuro reconhecimento global, tanto que alguns países da região já começam a manifestar apoio para a Catalunha, como foi o caso da Eslovênia, e algumas nações já demonstraram interesse em mediar a questão.

A Catalunha tem uma economia maior que a de Portugal e também supera diversos países da Europa do Leste, e se trata de um relevante polo logístico e industrial, de modo que é importante para o equilíbrio da região. 

De momento, a movimentação do domicílio social de diversas empresas para outras áreas da Espanha não teve impacto na produção da região, já que todas as empresas mantiveram suas atividades. 

Tanto a União Europeia como a Espanha e a Catalunha reconhecem a importância do fator econômico, assim como a impossibilidade de que exista apenas um perdedor.  Por outro lado, o fator político reflete diversos elementos, sejam eles sociais, internos, ou externo, sendo o fator jurídico o mais ambíguo de todos.

A maior aposta da Catalunha é que aos poucos convença a União Europeia perante uma Espanha que busca resolver a questão dentro do seu marco constitucional, mas que nem mesmo os atores políticos e jurídicos do país Ibérico conseguem chegar a um consenso.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Bandeira Independentista da juntamente com a bandeira da União Europeia, durante manifestação” (Fonte):

http://www.elconfidencialautonomico.com/cataluna/Bandera-independentista-Union-Europea-Diada_ECDIMA20141106_0013_3.jpg

Imagem 2 Declaração do Presidente do Governo Catalão foi acompanhada por centenas de manifestantes a favor da separação” (Fonte):

https://i.ytimg.com/vi/1QCb1VPgvC8/hqdefault.jpg

Imagem 3 Tribunal de Justiça da União Europeia em Luxemburgo” (Fonte):

http://2.bp.blogspot.com/-X_-EWcaRsYA/VUOY-8CHrLI/AAAAAAAABMA/cgC4KdWGfSg/s1600/tribunal_europeu_justica_1_0.jpg

EUROPANOTAS ANALÍTICASPOLÍTICA INTERNACIONAL

Catalunha e o preço da separação

Uma semana após o Referendum realizado pelo Governo da Catalunha, que foi proibido pelo Governo espanhol, a situação da região continua sendo foco de tensões. A União Europeia apoia a Espanha, mas ao mesmo tempo estabelece como único caminho o diálogo e a não intervenção do Bloco, já as Nações Unidas solicitam um estudo humanitário sobre a ação das forças nacionais da Espanha no dia da votação.

Presidente da Generalitat da Catalunha – Carles Puigdemont em discurso ao vivo

O Rei Felipe VI ressaltou em pronunciamento a Constituição espanhola e a divisão do povo catalão, mantendo o mesmo discurso do presidente Mariano Rajoy. Como resposta, o Presidente da Catalunha, Carles Puigdemont, publicou nova declaração onde reiterava sua disposição para o diálogo com a Espanha, mas sem ignorar o desejo expresso de grande parte dos catalães, e também mencionou a mediação internacional como forma de solução.

Embora a Suíça tenha se oferecido para mediar a situação, a Espanha rejeitou a oferta por considerar que a Catalunha não é um ator de pleno direito, de modo que a discussão deve ser amparada na Constituição espanhola.

O Presidente da Generalitat de Catalunha iria discursar nesta segunda-feira no Parlamento catalão, mas a sessão foi proibida por ordem do Tribunal Constitucional da Espanha, pois havia uma grande possibilidade de que a Catalunha realizasse a chamada DUI (Declaração Unilateral de Independência). Uma nova sessão está marcada para amanhã, terça-feira, dia 10 de outubro, e segundo informações do Palácio de Saint Jaume (sede do Governo Catalão), o Presidente irá apresentar os resultados finais do Referendum e possivelmente irá declarar a independência.

As tensões entre a Espanha e a Catalunha também repercutiram na economia de ambas as regiões. O índice da Bolsa de Madrid teve uma queda histórica; já na Catalunha muitas multinacionais da região decidiram mudar sua sede para outras províncias da Espanha. Empresas como o Banc de Sabadell (5º maior da Espanha), a empresa Gás Natural (que também atua no Brasil), a Klockner (empresa distribuidora de material clínico) são alguns exemplos. Outras empresas ainda não decidiram, mas estão em pleno debate com os acionistas, tais como o CaixaBank (3º maior Banco), a Catalana Ocidente (Seguradora) e a Freixenet (Vinícola da região reconhecida no mundo inteiro). A Espanha criou uma lei para facilitar essa movimentação de empresas e dessa forma debilitar a Catalunha.

O Governo espanhol e economistas de diferentes países alertam para uma contração de 30% da economia catalã caso haja uma Declaração Unilateral de Independência. O Governo da Catalunha não fala em porcentagens, mas apenas em prazos de impacto e de recuperação a médio prazo. Por outro lado, grande parte da população continua apoiando os governantes e o Referendum, e ao longo de toda a semana passada houve manifestações por toda a Catalunha, mas também houve manifestações da parcela que é contrária a separação. Diversos ônibus vindos de todas as partes da Espanha se somaram aos manifestantes neste último domingo.

Sede Banco Sabadell em Barcelona

Uma grande greve organizada no dia 2 de outubro paralisou 80% de todos os serviços e empresas da região e muitos movimentos sociais estão estudando a possibilidade de uma nova greve geral –  estima-se que cada dia de greve gere um déficit de 750 milhões de euros na economia catalã – embora a adesão social nas mesmas seja superior a 80%.

Ressalte-se que todas as nações que passaram por um processo de separação no século XX e XXI sofreram um impacto econômico nos primeiros anos, sendo esta uma etapa crucial na consolidação de um Estado com pretensões soberanas, e, caso este tenha negligenciado essas bases econômicas, ou mensurado de forma equivocada o processo separatista, o país pode afundar antes mesmo de sair do papel.

A grande pergunta que todos os políticos, analistas e cidadãos se fazem é se a Catalunha quantificou bem esse fator, pois, da mesma forma que conseguiram ocultar as urnas, os governantes catalães estão conseguindo nublar o próprio processo, bem como os seguintes passos que serão tomados. Amanhã ou ao longo dessa semana uma questão de mais de 300 anos pode chegar ao seu ápice, através da declaração de independência e começo da constituição de uma Republica Catalã.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Greve Geral paralisa Barcelona” (Fonte):

https://www.canarias7.es/documents/1/0/768×512/0c40/768d432/none/11314/MUPY/image_content_2384515_20171003133030.jpg

Imagem 2 Presidente da Generalitat da Catalunha Carles Puigdemont em discurso ao vivo” (Fonte):

https://www.ecestaticos.com/image/clipping/654/115c41bdc7e0920485d3251438303f02/carles-puigdemont-durante-su-discurso-institucional-tv3.jpg

Imagem 3 Sede Banco Sabadell em Barcelona” (Fonte):

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/5/50/La_sede_del_Banc_Sabadell.JPG/768px-La_sede_del_Banc_Sabadell.JPG