ANÁLISE - Sociedade InternacionalANÁLISES DE CONJUNTURA

Smart Region: o desafio das metrópoles brasileiras

Embora o conceito de Smartcity (cidade inteligente) seja aos poucos implementado nas cidades brasileiras, ainda existem muitas dúvidas em relação aos processos que envolvem esses projetos e seus resultados.

Para transformar uma cidade em uma Smartcity é necessário identificar as dinâmicas econômicas, sociais e produtivas, e promover a integração das mesmas mediante processos inteligentes capazes de gerar competitividade, aumentar a qualidade da vida e fomentar o desenvolvimento econômico, social e tecnológico da urbe a longo prazo, respeitando o meio ambiente e a sustentabilidade de todas as atividades.

Sem embargo, não somente os fatores internos são os que integram os projetos de Smartcity. Os fatores externos, tais como as condições geográficas e regionais, também são de vital importância para esses projetos.

É fato que em grandes regiões metropolitanas do Brasil e do mundo as divisas entre municípios são muitas vezes imperceptíveis e os cidadãos constroem suas vidas em uma realidade intermunicipal. Muitos moram em uma cidade e trabalham ou estudam em outra. Por esse motivo, é de vital importância que as políticas e os projetos sejam harmonizados, gerando um equilíbrio de interesses entre os diversos municípios ou cidades vizinhas.

SmartCatalonia. Integração de toda região da Catalunha

O conceito de Smart Region ou Região Inteligente surgiu em Barcelona, com o objetivo de integrar a área metropolitana da cidade catalã e posteriormente toda a região, reduzindo as assimetrias decorrentes do avanço do projeto de cidade inteligente da mesma, já que de nada serve concentrar o desenvolvimento em um ponto específico da geografia. Este conceito se estendeu por diversas áreas metropolitanas da Europa, Ásia e América.

No Brasil, embora as áreas metropolitanas sejam constituídas e reconhecidas pelas diferentes esferas de poder, a integração dos serviços está longe de ser uma realidade. O aumento da passagem dos ônibus é um caso recente da falta dessa integração, já que, ainda que haja uma conexão entre os diferentes modais de transporte, a diferença de tarifas gera assimetrias perceptíveis na realidade das pessoas e até mesmo dificulta a implementação de novos projetos, ou a expansão da rede metropolitana de transportes.

Em São Paulo, por exemplo, existe uma grande divergência entre as tarifas do transporte público e apesar de existir uma interconexão com outros municípios a mesma não é completa. Por um lado, existe o Bilhete Único (cartão de transporte que integra os ônibus municipais, trens e metrô) e, por outro, o BOM (cartão de transporte que integra os ônibus metropolitanos, trem e metrô, porém sem a integração com as linhas de transporte municipal). Dessa forma, um passageiro pode ir até Jundiaí, que fica a aproximadamente 50 km da capital, pagando apenas uma passagem de trem (R$ 4,00), porém o passageiro que mora em Guarulhos (segunda maior cidade do estado de São Paulo, cujo centro dista a 23 km da capital, havendo uma conturbação entre ambas) deve pagar um preço superior, utilizando o transporte intermunicipal, cuja tarifa varia entre R$ 4,50 e R$ 5,50.

Rede de transporte metropolitano de São Paulo

Essa falta de integração também existe em outros serviços, pois algumas cidades da área metropolitana da capital paulista possuem diferentes empresas de transmissão elétrica ou de saneamento básico, o que gera não somente assimetrias em relação as tarifas como também uma burocracia desnecessária que força o cidadão a se dividir entre a realidade do município no qual reside e a do município no qual trabalha.

O exemplo de São Paulo se repete em praticamente todas as capitais brasileiras, dificultando dessa forma a concretização dos projetos de Smartcity, já que essas diferenças municipais alimentam a desigualdade e promovem a concentração de serviços, algo contrário ao próprio conceito de cidade inteligente e de processos inteligentes. 

Uma região metropolitana deve conformar uma área inteligente e integrada e, dessa forma, evitar problemas na prestação de serviços, na divergência que existe entre a população de uma cidade e a sua demanda em determinados setores (tais como a saúde ou educação). Somente assim será possível fomentar o desenvolvimento desejado.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Principais áreas metropolitanas do Estado de São Paulo” (Fonte):

http://www.emtu.sp.gov.br/emtu/images/mapa-regioes.jpg

Imagem 2 SmartCatalonia.  Integração de toda região da Catalunha” (Fonte):

https://image.slidesharecdn.com/sergifiguerola-smartcityacitywhichappliestechnologiesmakingthecitymoreusableforcitizens-150722144949-lva1-app6891/95/smart-city-a-city-which-applies-technologies-making-the-city-more-usable-for-citizens-10-638.jpg?cb=1437576634

Imagem 3 Rede de transporte metropolitano de São Paulo” (Fonte):

https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Mapa-Rede-Transporte-Metropolitano-SP.png

                                                                                               

EUROPANOTAS ANALÍTICASPOLÍTICA INTERNACIONAL

Catalunha volta às urnas

Após um ano intenso, repleto de tensões e reviravoltas, a região da Catalunha e seus habitantes ainda não emitiram sua última palavra sobre o futuro da região. No dia 1o de outubro, a Catalunha organizou um Referendum programado pelo Parlamento local, porém proibido pelo Governo Central de Madri. A votação foi acompanhada pela comunidade internacional que se impressionou com a ação rígida das autoridades espanholas durante sua tentativa de impedir a realização do mesmo, ainda assim, a votação aconteceu e uma ampla maioria foi a favor da cisão. No dia 27 de dezembro, o Parlamento da Catalunha declarou a independência, apesar de que a mesma tenha durado poucas horas, já que o Governo espanhol ativou o Artigo 155, que dissolveu o Governo catalão e o Parlamento da Catalunha.

Intenções de voto 21D. De um lado: Esquerda Republicana, Juntos por Catalunha e CUP (Nacionalistas). Por outro lado: Em comum Podemos, Cidadãos, Partido Socialista Catalunha e Partido Popular

A Governo central pretendia usar o Artigo 155 para destituir a administração nacionalista e aos poucos restabelecer a ordem constitucional do país, porém as prisões dos líderes da região e a ida do presidente deposto Carles Puigdement a Bruxelas trouxe novos elementos para a discussão e transportou a mesma para o seio da União Europeia.

O Governo espanhol solicitou a extradição do ex-Presidente catalão, interditou as principais instituições e convocou uma nova eleição para a Catalunha a ser realizada no dia 21 de dezembro deste ano (2017), na próxima quinta-feira, daqui a três dias. Porém o futuro segue incerto.

As intenções de voto são complexas, já que, a cada dia, novos eventos pressionam a sociedade catalã e elevam as paixões em ambos os lados, tanto dos que desejam se separar, como dos que preferem manter a união no Estado espanhol. Ainda assim, tudo indica que haverá uma nova vitória dos nacionalistas, embora sem uma maioria no Parlamento, o que aumenta a atenção em relação a pequenos partidos que podem se transformar nos aliados capazes de mudar a balança de poder, seja para o lado da união com a Espanha, seja para o lado da separação.

Os nacionalistas não irão se apresentar com uma lista única como fizeram da primeira vez, embora afirmem que vão trabalhar no mesmo sentido que nas eleições de 2016.

Manifestante pede libertação dos presos políticos

O atual presidente da Espanha, Mariano Rajoy, afirmou que em caso de uma vitória dos nacionalistas, a Espanha voltará a aplicar o Artigo 155, já os representantes do Governo da Catalunha pressionam o governo central para reconhecer os resultados de uma eleição convocada desde Madri.

Certo é que ambos os lados estão bastante convalescidos. A Catalunha já perdeu a sede de 3.000 empresas, e o Governo central mantém preso os líderes civis do nacionalismo catalão. As pesquisas refletem essa contínua sístole (contração) e diástole (dilatação) em cada um dos lados na questão territorial espanhola.

A União Europeia ainda considera que o assunto deve ser resolvido de forma interna, porém não extraditou o líder deposto da Catalunha, o que gerou mal-estar em Madri. Por outro lado, as regiões nacionalistas como a Córsega começam a ganhar força, o que influencia muito para que haja movimentos cautelosos por parte do Bloco europeu.

O cidadão catalão novamente irá votar, mas dessa vez em uma eleição convocada desde Madri e que fará uso de todo os dispositivos do Estado, permitindo, inclusive, que residentes no exterior possam votar, mas as perguntas cujas respostas ainda estão abertas são por quem irão optar e qual será o impacto desse resultado, tanto para o Governo da Catalunha como o da Espanha.

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Fontes das Imagens:

Imagem 165 mil catalães se manifestaram a favor do líder deposto, Carles Puigdemont, em Bruxelas” (Fonte):

https://pbs.twimg.com/media/DQcJzXiVoAAk1pu.jpg

Imagem 2Intenções de voto 21D. De um lado: Esquerda Republicana, Juntos por Catalunha e CUP (Nacionalistas). Por outro lado: Em comum Podemos, Cidadãos, Partido Socialista Catalunha e Partido Popular” (Fonte CIS):

http://statics.ccma.cat/multimedia/jpg/0/5/1512412390150.jpg

Imagem 3Manifestante pede libertação dos presos políticos” (Fonte):

http://www.resumenlatinoamericano.org/wp-content/uploads/2017/11/Catalunya-2-11.jpg

ANÁLISES DE CONJUNTURAParadiplomacia

Integração de serviços e criação de espaços inteligentes nas Smartcities

Um dos maiores desafios que enfrentam as cidades do Brasil e do mundo é a dificuldade de integrar as diferentes informações que compõe o cenário urbano e que ajudam no planejamento, gerenciamento e na tomada de decisões para a prestação de serviços. 

É bastante comum que pequenas ações e intervenções sejam atrasadas ou não realizadas devido ao desencontro de informações, ao número de instituições envolvidas e à dificuldade de definir prioridades e responsabilidades. Assim, um simples problema com um poste elétrico pode demorar mais do que o necessário por não haver um protocolo eficiente capaz de comunicar qual é a empresa ou órgão público responsável por resolver essa avaria.

Em 2017 o SUS desperdiçou mais de R$ 16 milhões em medicamentos de alto custo

A gestão eficiente das informações que circulam a cidade proporciona maior controle sobre as diferentes dinâmicas do espaço urbano, gerando uma integração entre os setores público, privado e a sociedade como um todo capaz de produzir um espaço inteligente que serve de guia para o próprio desenvolvimento econômico e social. Por isso, de nada serve possuir sistemas isolados de informação, incapazes de interagir com a informação de outros atores, ou possuir informação, mas que a mesma não seja amplamente divulgada. 

Nas cidades brasileiras temos centenas de exemplos de sistemas isolados de informações cujo único resultado na maioria das vezes é o desperdício de recursos por um lado, ou a falta do mesmo pelo outro. De nada serve possuir um centro de distribuição de remédios comum sistema de controle de estoque se o mesmo não está integrado com outros centros, hospitais e postos de saúde da rede pública.

Por outro lado, também não tem serventia alguma possuir todo esse sistema quando as informações que ele gera não são utilizadas nas tomadas de decisão da Secretaria de Saúde durante a compra e distribuição de insumos, ou durante a elaboração do orçamento do próprio município.

Outra situação muito comum nas cidades brasileiras é a divisão das responsabilidades e obrigações, principalmente devido aos diferentes atores e níveis de poder público e também ao incremento da participação do setor privado em projetos de Parceria Público-Privado (PPP), dificultando, assim, a transmissão de informações. 

A Integração pode utilizar informações da IoT

Por esse motivo, muitos projetos nos quais intervém esses diferentes atores, tais como obras de infraestrutura ou intervenções em zeladoria, sofrem diversas alterações que impactam na própria prestação do serviço, no tempo de entrega e na qualidade do mesmo. Muitas dessas alterações seriam desnecessárias caso houvesse uma melhor gestão na etapa de criação do projeto.

É necessário promover uma maior integração dessas informações, gerando cadeias lógicas de comandos e protocolos de funcionamento interligados. Assim, quando houver uma intervenção em uma rua por exemplo, é necessário saber qual é o prazo de cada empresa, a função de cada uma, a origem dos recursos, do material, da mão de obra, quando deve ser feita a interdição do trânsito ou desligar a rede elétrica e, após finalizar a intervenção, quando devem ser restaurados os serviços. Cada processo é importante e todos geram uma dinâmica que deve ser assimilada pela cidade junto a outros processos.

Todos os setores urbanos podem e devem ser integrados de modo a formar um grande mecanismo logístico onde a informação é o principal elemento, agindo como a “inteligência” deste grande ente urbano que forma a cidade.

O tratamento das informações é o principal fator para gerar um espaço inteligente em uma Smartcity, já que não adianta realizar grandes investimentos, implementar novas tecnologias, contratar diversos funcionários ou diversificar a economia utilizando de modo isolado ou setorial as informações que circulam em cada uma dessas dinâmicas. Por exemplo, se uma cidade implementou um sistema de iluminação a led, ela deve recompilar não somente as informações referentes ao consumo de energia, como também saber o impacto no valor do m² da região, na redução dos crimes e violência noturna, no bem-estar das pessoas etc., e também deve ter que essas informações sejam divididas com outros setores implicados, formando uma base de conhecimentos desde um projeto simples. 

Setores SmartCity

Somente o conjunto de informações interligados fornece uma visão integrada de como funciona a cidade por inteiro, e fornece também a imagem de como fazer com que projetos de Smartcity não sejam apenas intervenções locais e setoriais, mas processos que modificam a dinâmica de uma cidade, promovendo o desenvolvimento da mesma de forma mais homogênea e equilibrada.

Fazer com que a dinâmica de cada setor de uma cidade se transforme em um processo dentro de um espaço inteligente promove a inovação de todos os setores implicados, tanto públicos como privados e dos segmentos sociais. Ou seja, não se trata somente de inovar em um setor, mas fazer com que graças a integração gerada, a inovação em um determinado setor seja perceptível em todo o sistema.

Por esse motivo, muitas das Smartcities estão implementando novas tecnologias com o intuito de gerar sistemas integrados de informação. Entre elas podemos destacar:

– Telecomunicações (WIFI, 3G, Digital TV)

– E-Government

– E-Health

– Economia criativa

– Smartgrids

– BIGData

– IoT (Internet das coisas)

– IA inteligência Artificial

A implementação dessas tecnologias varia conforme a cidade e o próprio projeto de Smartcity, não havendo um padrão a seguir, nem a necessidade de utilização de todas, porém são ferramentas importantes na integração das dinâmicas urbanas e na consolidação de uma cidade inteligente e de uma rede de informações integradas.

Uma boa gestão das informações de um espaço urbano é o que possibilita os projetos de Smartcity, dessa forma, tanto grandes cidades quanto pequenos municípios podem gerar espaços inteligentes, somente o volume das informações e suas dinâmicas serão diferentes.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1O Mundo em Conexão” (Fonte):

https://marketingland.com/wp-content/ml-loads/2017/10/social-media-1920-ss-800×450.jpg

Imagem 2Em 2017 o SUS desperdiçou mais de R$ 16 milhões em medicamentos de alto custo” (Fonte):

https://leismunicipais.com.br/noticias/wp-content/uploads/2014/11/201411171-1.jpg

Imagem 3A Integração pode utilizar informações da IoT” (Fonte):

http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2017/09/cidades-monitoradas.jpg

Imagem 4Setores SmartCity” (Fonte):

https://smartcitiesworld.net/AcuCustom/Sitename/DAM/007/news-gov-apr17-Frost_Sull_smart.jpg

ANÁLISES DE CONJUNTURAParadiplomacia

O processo produtivo, criativo e o desenvolvimento social das Smartcities

Criar um espaço inteligente em um meio urbano não se trata apenas de implementar uma nova tecnologia, serviço básico, público ou realizar ações locais determinadas, incapazes de promover um real benefício para toda a cidade.

Projeto [email protected] – Distrito Inteligente de Barcelona

Um processo inteligente, conforme foi abordado ao longo deste ciclo de artigos sobre Smartcities, deve levar em consideração as dinâmicas intrínsecas das cidades e atuar como vetor da mudança e inovação dessas dinâmicas, promovendo uma sinergia entre os diferentes atores e fatores implicados, sendo este um processo inclusivo no qual a cidade atua como um grande ente vivo onde cada dinâmica é fundamental para seu funcionamento.

O projeto de Smartcity de uma cidade é a própria inteligência desse ente urbano, de modo que se afasta dos típicos programas eleitorais e ações governamentais limitadas cronologicamente, para ter um caráter próprio e único que perdura ao longo do tempo e serve de guia real para as ações públicas. A cidade deixa de estar à mercê de uma visão política determinada e passa a impor sua realidade e suas dinâmicas como um roteiro ao qual as forças políticas e privadas devem se adaptar.

Um exemplo visível disso são as próprias dinâmicas produtivas de uma cidade. A distribuição de fábricas, a força de trabalho e a segmentação econômica dos bairros vão continuar as mesmas – salvo grande intervenções – independentes do partido que ocupe o poder, de modo que uma política implementada em um bairro de alto padrão durante uma determinada gestão, em nada irá afetar a produtividade ou realidade das regiões industriais que normalmente ficam mais afastadas, ao menos não a curto prazo ou de forma controlada.

Um processo inteligente, por outro lado, tem como objetivo harmonizar o impacto de projetos na própria dinâmica populacional, levando em consideração onde moram os trabalhadores, a oferta de transporte para os centros de produção, onde se localiza o consumo de maior volume na cidade, a distância dos centros financeiros etc., tudo funcionando de forma esquematizada para gerar um fluxo inteligente e sustentável, pois uma ação gera impacto e ecoa em vários setores.

A utilização de processos inteligentes, ajudou a muitas cidades europeias a transformarem o setor produtivo de suas grandes capitais, mas antes foi necessário compreender os processos e dinâmicas que moldavam a realidade dessas cidades.

Setores em Barcelona

Madrid, Barcelona, Milão, Londres, Paris, Berlim e Bilbao, por exemplo, sofreram um grande processo de desindustrialização entre os anos 80-90, assim como um aumento considerável dos custos da mão de obra, a falta de trabalhadores, o aumento desproporcional do valor dos imóveis, o crescente fluxo migratório e informalidade de vários setores, a globalização das economias e a concorrência das economias emergentes (China, Brasil, Índia, Rússia). As cidades europeias cresciam em economia, mas perdiam em competitividade e em qualidade de vida, até que as cidades inteligentes floresceram por todo o continente.

Os projetos urbanos mudaram essa realidade. A cidade de Barcelona foi uma das primeiras com o projeto olímpico Barcelona 92, que logo se transformou no projeto Barcelona Smartcity, e muitas cidades da Espanha e da Europa seguiram o exemplo, promovendo uma grande onda de transformações só antes vista no século XIX.

O processo produtivo e as dinâmicas sociais serviram de guia para essas cidades localizarem onde se reúnem os principais contingentes populacionais, a dinâmica econômica entre eles, a flexibilização e mobilização social prevista, o potencial inovador a mobilidade e formação disponível sendo as bases de uma grande revolução.

A criação de distritos da criatividade e inovação em regiões deterioradas da cidade, o aumento da oferta de transporte público e um rígido controle dos imóveis desocupados, promoveram um enorme impacto nas dinâmicas sociais e uma redução considerável da desigualdade, pois as classes sociais já não se agrupavam de uma forma tão visível, mas se distribuíram melhor pela cidade, gerando novas dinâmicas econômicas.

O setor produtivo foi levado a setores industriais ou a zonas francas (normalmente posicionadas, ou próximas aos portos ou aeroportos) reduzindo os custos logísticos de curto e longo prazo, promovendo a criação de clusters ou polos especializados, gerando uma força única de indução – se o governo precisa levar o metrô até o aeroporto, ele deve passar obrigatoriamente por esses setores –, aproveitando a dinâmica do próprio espaço urbano para gerar impulsos de inovação.

Ou seja, não se trata de investir e trazer uma tecnologia cara que funcione em um país desenvolvido. Isso não é ser “inteligente”, é simplesmente “colar na prova” e quase nunca dá resultados. Trata-se de conhecer como funciona uma cidade para justamente saber como racionalizar um processo inerente desse espaço e de como modificá-lo.

Os setores produtivo e criativo são geradores e ao mesmo tempo beneficiários desses projetos e é nessa dimensão que o setor privado participa do processo de desenvolvimento da urbe. Já que a evolução de uma cidade não é algo bom somente para o cidadão, ou para o político que a governa, mas para todos os que ocupam e exercem suas atividades nesse espaço, e deve ser contemplado dessa forma.

O desenvolvimento é a força motriz que fornece energia a todo o processo e quanto mais avança uma cidade em seu projeto inteligente, maior é a performance e o resultado do desenvolvimento, seja este econômico, produtivo, criativo ou social.

Em países como o Brasil este processo é de vital importância, pois mais de 80% da população é urbana, tem uma grande taxa de desigualdade, concentração econômica e produtiva no eixo “São Paulo–Rio de Janeiro–Belo Horizonte” e falta de serviços básicos e de infraestrutura. É necessário conhecer bem a realidade das cidades para implementar estes projetos, não somente nas grandes cidades, mas também nos pequenos e médios municípios.

De nada serve gerar um complexo inteligente de última geração na Zona Sul do Rio de Janeiro, quando a mão de obra se concentra na baixada, acrescentando-se que o parque Tecnológico do Rio de Janeiro também está na baixada e o CBD (Central Business District – centro de negócios de uma cidade) na região central. Ou seja, isto seria uma intervenção exclusiva e não inclusiva. O mesmo se aplica a praticamente todas as capitais do Brasil.

Já no caso das pequenas e médias cidades, de nada vale tentar criar uma região de inovação tecnológica copiando o Vale do Silício na Califórnia, se não existem bons acessos, infraestrutura, mão de obra e uma economia capaz de estimular startups, ou, pior ainda, aqueles municípios que se destacam em agrobusiness e desejam implementar soluções para a indústria que não é do seu know how, sendo que a geração de valor dentro de um setor onde o município é competitivo, sem dúvidas, é mais viável.

A produtividade, a criatividade e o desenvolvimento não são ciclos que começam de forma anacrônica. Os fatores locais, sua história e o seu funcionamento vão determinar o caminho que é preciso trilhar. Isso, sim, é ser uma cidade inteligente, sendo cada projeto único.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Global Cities Connection” (Fonte):

http://www.corrs.com.au/assets/expertise/secondary/jd-global-laying-foundations.jpg

Imagem 2Plano ampliação de Madri 1857 (Em vermelho nova área urbana ao redor do centro histórico)” (Fonte):

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/7/7d/Plano_del_Ensanche_de_Madrid-1861.jpg

Imagem 3Setores em Barcelona” (Fonte):

https://image.slidesharecdn.com/22barcelona-versin-castellana-etre-20073112/95/22barcelona-versin-castellana-etre-2007-14-728.jpg?cb=1191231709

ANÁLISES DE CONJUNTURAParadiplomacia

Das SmartCities a cidades globais no declínio dos atores internacionais

Milão, Paris, Xangai, Nova York, Hong Kong, Londres, Barcelona, Frankfurt, São Paulo, Zurique são cidades que dispensam apresentações, mesmo que algumas não sejam nem se quer a capital de seus respectivos países. Porém, são cidades cuja influência econômica, cultural, tecnológica e financeira transpassam os limites do território nacional e se projetam pelo globo como entidades com personalidades e dinâmicas próprias.

Algumas dessas cidades respondem por grande parte da economia de suas regiões ou até mesmo do país e podem chegar a concorrer com nações vizinhas em relação a sua influência internacional e ao PIB. Por esse motivo são conhecidas como cidades globais. São centros neurológicos que crescem de forma paralela ou até mesmo diferente do resto da nação.

Componentes de um projeto de Smartcity

O surgimento da cidade como ator internacional permitiu uma contínua expansão da influência da mesma no panorama global, levando ao constante desenvolvimento da Paradiplomacia.

Mas a expansão das grandes cidades, seja ela de forma interna desde o período pós-guerra, como externa, pelo efeito da globalização, gerou uma série de desafios que vão desde a ocupação do espaço urbano à mobilidade das pessoas até à distribuição das atividades e dinâmicas econômicas intrínsecas de cada local.

Neste contexto de grandes transformações surgem as chamadas “Cidades Inteligentes” ou, em inglês, SmartCities, centro urbanos cujas distintas dinâmicas são racionalizadas, repensadas e redesenhadas com o objetivo de promover o desenvolvimento sustentável das mesmas, a integração dos diferentes atores e setores que formam a vida social, econômica e cultural, assim como a correta ocupação do espaço urbano e proteção ao meio ambiente.

Embora seja importante ressaltar que não somente as cidades globais são a únicas passíveis de aplicar projetos inteligentes – havendo já pequenos e médios municípios com projetos em operação –, sem dúvidas elas foram as pioneiras do processo e atuam como indutoras dessas mudanças.

Atualmente, existem diferentes rankings que tratam de classificar as cidades inteligentes ao redor do planeta, assim como diversos projetos governamentais que buscam estimular o setor, porém ainda são muitas as dúvidas que suscitam o tema, pois nem todo projeto urbanístico pode ser considerado um processo inteligente e dinâmico, já que este deve ser benéfico não somente para um setor ou dimensão da cidade, mas para sua dinâmica como um todo. De modo que, para entender melhor, é preciso definir em poucas linhas o que é uma cidade inteligente.

Uma Smartcity é um espaço urbano (independentemente do tamanho) onde se aplica um processo de racionalização das dinâmicas inerentes dessa área, promovendo a geração de um espaço inteligente, onde os diferentes elementos que formam a cidade (cidadãos, governo, empresas, serviços, meio ambiente etc.) são integrados mediante a racionalização do próprio espaço, fazendo uso de novas tecnológicas e inovando processos já existentes ou criando novos.

SmartCity Expo World Congress, evento realizado em Barcelona, a cidade é considerada a maior Smartcity da Europa

A cidade passa atuar como um organismo onde cada elemento possui uma importância fundamental para o bom funcionamento geral e onde cada dinâmica – seja esta social, econômica ou produtiva – tem sua importância e gera conhecimento. Este “conhecimento” é a essência das SmartCities, é a inteligência que move todo o ciclo, transformando o projeto em algo duradouro. Independentemente da visão ideológica de uma determinada política, a cidade passa a ter seu próprio caráter e seu próprio projeto. 

Existe uma série de componentes presentes nos projetos de Smartcity, entre eles podemos destacar a utilização das telecomunicações e tecnologia da informação, geração e distribuição inteligente de energia, automatização e inovação de processos produtivos, modernização de serviços públicos, integração de setores econômicos, cuidado do meio ambiente e integração social e cidadã.

A cada ano que passa o tema Smartcity ganha importância no cenário acadêmico, econômico e político, muitos são os projetos que se desenvolvem ao longo do globo, porém também são muitos os equívocos. Existem cidades que ainda estão implementando projetos de infraestrutura básica que podem ser considerados apenas como um embrião de uma Smartcity; outras geram espaços isolados (condomínios) que, salvo raras exceções, são incapazes de impactar em toda a dinâmica da cidade. Ainda assim, cada projeto que surge, gera um conhecimento que pode ser transferido, emulado ou adaptado para uma cidade diferente, por isso, todo ano, em Barcelona, durante as últimas semanas de novembro, se organizada o Smartcity Expo World Congress, considerada a maior feira do setor e ponto de encontro para empresas, autoridades, organizações e sociedade civil para discutir o futuro das cidades e sua atuação no mundo.

Com a crescente instabilidade política internacional, decorrentes de mudanças importantes, tais como o isolacionismo proferido pelo atual Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, aumento de tensões na Ásia, instabilidade no Oriente Médio e Norte da África, mudanças políticas e instabilidade no processo de integração da União Europeia, novas diretrizes de desenvolvimento da China etc., a ação dos Estados se concentra principalmente na manutenção de sua estrutura e na proteção de seus interesses, dificultando as negociações internacionais.

Mapa cidades globais mundo

E, mesmo quando existem tais negociações (como, por exemplo, o avanço das negociações entre Mercosul e União Europeia), a própria composição dos Blocos negociantes dificulta sua concretização e morosidade, tomando conta do processo. Já por outro lado, as negociações e projetos realizados através da cooperação internacional promovidos pela paradiplomacia e aplicados pelas cidades inteligentes são capazes de gerar respostas à realidade dos cidadãos, gerando movimentos internos que acabam por influenciar a própria formulação política de um país. Neste sentido, a mudança dessa forma de atuar vem de baixo para cima e alguns países já conseguem vislumbrar as potencialidades que se ocultam nessas negociações.

A Cidades Inteligentes, lideradas pelas cidades globais e cidades Alphas, estão ganhando maior protagonismo devido a esse declínio dos atores internacionais, sejam os Estados ou as Organizações internacionais – hoje sendo questionadas e algumas como a Unesco e o Tribunal Internacional já com baixas – e também graças às ações das próprias multinacionais que buscam manter suas atividades se movimentando de forma mais rápida que a capacidade de resposta dos próprios Governos.

As SmartCities geram dinâmicas inteligentes que oferecem um entorno mais sustentável tanto para seus cidadãos como para instituições e organizações, gerando uma espécie de porto seguro em um mundo onde é cada vez mais difícil desenvolver uma estratégia global sem ser afetado pelas constantes mudanças geopolíticas. Algumas cidades, tais como Cingapura, Amsterdam, Toronto, entre outras, lideram a atração de investimentos e mobilização de capital para inovação e desenvolvimento, justamente por oferecer um entorno equilibrado para as empresas.

Talvez as palavras “entorno equilibrado” sejam as mais adequadas para quantificar ou avaliar um processo de Smartcity na conjuntura atual. Uma Smartcity não necessariamente deve ser como as cidades Alfas da Europa ou polos de inovação da Ásia, mas, sim, deve oferecer, dentro de suas singularidades, um entorno equilibrado onde se concentram fatores que façam dessa localidade um polo sustentável, competitivo e criativo, em outras palavras, um polo inteligente, mesmo que este seja um grande centro financeiro ou um grande produtor agrícola.

É neste contexto onde o cenário internacional e a própria globalização são questionados que as cidades inteligentes representam uma nova dimensão, muito mais próxima das pessoas e de seus interesses, sem gerar os atritos das pressões geopolíticas. E, neste mês de novembro, o CEIRI NEWSPAPER fará uma série de reportagens sobre o assunto, abordando cada um dos setores: mobilidade, tecnologia da informação, inovação e indústria 4.0, integração de serviços etc.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Previsão de participação na economia das maiores áreas urbanas. Em bilhões de dólares” (Fonte):

http://infographic.statista.com/normal/chartoftheday_3886_the_cities_contributing_most_to_global_gdp_n.jpg

Imagem 2Componentes de um projeto de Smartcity” (Fonte):

http://cdn.ttgtmedia.com/rms/onlineImages/iota-smart_city_components_desktop.jpg

Imagem 3SmartCity Expo World Congress, evento realizado em Barcelona, a cidade é considerada a maior Smartcity da Europa” (Fonte):

https://www.electronicsmedia.info/wp-content/uploads/2017/04/Smart-city-expo-world-congress.png

Imagem 4Mapa cidades globais mundo” (Fonte):

http://mundoeducacao.bol.uol.com.br/upload/conteudo/mapa-das-cidades-globais.jpg 

EUROPANOTAS ANALÍTICASPOLÍTICA INTERNACIONAL

A breve independência da Catalunha

Após a declaração de independência realizada pelo parlamento da Catalunha, no dia 27 de outubro, seguida da ativação do Artigo 155, feita pelo Senado espanhol, as celebrações por parte da população catalã a favor do separatismo duraram poucas horas e as tensões na região foram seguidas por toda a comunidade internacional. O presidente Mariano Rajoy destituiu ao Governo catalão e colocou a vice-presidente da Espanha, Soraya Santamaria, como responsável pelo Executivo da região.

Retrato oficial da Presidenta do Parlamento de Catalunha, Carme Forcadell

Mesmo com a destituição, o Presidente da Catalunha, Carles Puigdemont, não se considerava fora do cargo e pedia o apoio da população para dar continuidade ao processo, embora seus apelos tenham sido sufocados por uma massiva manifestação por parte da população contrária à separação, deixando evidente o fato de que a Catalunha está dividida e polarizada politicamente.

Além de substituir o Executivo catalão, o Governo central convocou eleições para o dia 21 de dezembro deste ano (2017). Em um primeiro momento, os separatistas haviam determinado que não participariam das eleições, mas a falta de apoio internacional à causa separatista e a divisão social, acabou forçando os partidos nacionalistas a repensarem suas estratégias. Por outro lado, a Presidenta do Parlamento catalão, Carme Forcadell, continua exercendo suas funções, após acatar as decisões de Madri e dissolver a formação parlamentar.

Com a dissolução do Legislativo, a destituição do Governo catalão e a mobilização social existente na região, é possível afirmar que a autodeclarada República da Catalunha durou apenas algumas horas e fora do marco jurídico espanhol, da mesma forma que já havia acontecido quando Lluís Campanys declarou o Estado Catalão, no dia 6 de outubro de 1934, sendo detido posteriormente e fuzilado pelo regime franquista em 1940, após uma temporada no exílio.

O Governo da Bélgica manifestou a possibilidade de oferecer asilo ao ex-presidente Carles Puigdemont, mas a Espanha rapidamente respondeu que tal decisão afetaria o pacto de solidariedade entre os países da União Europeia.

A situação parece estar a favor do Estado espanhol que fez uso de toda sua influência política, econômica e cultural para promover uma série declarações de diversos países do mundo que não reconheceriam ao novo Estado – entre eles o Brasil – deixando os partidos separatistas da Catalunha sem opções, salvo aceitarem as determinações do Governo central e tentarem restabelecer sua formação novamente, mediante as eleições de dezembro.

As forças de segurança da região estão também sobre o controle de Espanha, que não descarta a possibilidade de prender os responsáveis políticos pela tentativa de cisão devido ao crime de sedição, uma vez que as denúncias já foram encaminhadas para a Procuradoria. Poucas são as possibilidades de que o processo nacionalista continue dentro da pauta estabelecida pelos nacionalistas, o que, por outro lado, aumenta as tensões sociais entre setores radicais de ambos os lados. Os próximos dias são decisivos para que o Governo espanhol mostre sua capacidade de controlar a região e sufocar o movimento nacionalista, e também para que a comunidade internacional possa avaliar a resposta da sociedade catalã.

Em relação ao  Governo da Catalunha, o presidente destituído e parte de seus secretários foram vistos hoje na Bélgica e, conforme fontes próximas à cúpula do poder, é provável que façam um pronunciamento conjunto ainda hoje e não se descarta a possibilidade de que solicitem asilo político no país, assim como outros líderes nacionalistas da região já fizeram no passado (Francesc Maciá, Lluis Campanys etc.), movimento que pode dificultar a situação, uma vez que a Procuradoria da Espanha já apresentou a denúncia por sedição contra os principais membros do Governo da região.

Seu exilio político poderia abrir a possiblidade de pleitear nas cortes internacionais algo que sem dúvidas a Espanha prefere evitar, sendo as eleições autonômicas uma forma mais equilibrada de restabelecer a região, porém, caso os nacionalistas se apresentem e ganhem o pleito a situação pode alcançar uma esfera humanitária com dois diretores de associações cíveis presos e políticos asilados no exterior. A quebra-de-braço entre Espanha e a Catalunha ainda está por se definir.

 

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Soraya Santamaria, presidente temporal da Generalitat da Catalunha” (Fonte):

http://oje-50ea.kxcdn.com/wp-content/uploads/2017/10/soraya-s%C3%A1enz-de-santamar%C3%ADa-925×578.jpg

Imagem 2 Retrato oficial da Presidenta do Parlamento de Catalunha, Carme Forcadell” (Fonte):

https://es.wikipedia.org/wiki/Carme_Forcadell