ANÁLISES DE CONJUNTURAEUROPA

A ambiguidade do processo catalão

Após uma controversa declaração de independência, revogada segundos depois pelo próprio presidente do Governo da Catalunha, a situação da região separatista ficou ainda mais ambígua, gerando diversas reações tanto na Espanha como no resto da União Europeia.

O Governo Central de Madri rapidamente se pronunciou sobre a declaração realizada por Carles Puigdemont no dia 10 de outubro e lhe concedeu um prazo de até 5 dias para que pudesse esclarecer se havia ou não proclamado a independência da região.

Declaração do Presidente do Governo Catalão foi acompanhada por centenas de manifestantes a favor da separação

Embora existam diversas interpretações sobre a atuação do Governo catalão e a dinâmica entre a região e o resto da Espanha, o certo é que não existe um precedente capaz de esclarecer todos os paradoxos que o processo gera, tanto na jurisprudência espanhola como na da União Europeia.

De fato, existe uma contraposição, seja ela política, jurídica, econômica de interesses e normativa, além de pressões, que são interpretadas de diversas formas, conforme os interesses dos participantes, sejam eles os Estados, a sociedade, as organizações, ou as empresas.

Porém, em muitas das análises o fator político e econômico centraliza toda a questão, deixando para um segundo plano o fator jurídico, sendo este talvez a principal estratégia usada pelo Governo da Catalunha.

Atuar de forma ambígua gera por um lado precedentes jurídicos e, por outro, a impossibilidade de ações mais enérgicas, exceto se a Espanha desejar novamente reforçar a imagem autoritária, fruto da atuação policial durante o Referendum. Sem dúvidas, este é um jogo perigoso, mas que pode render algumas vantagens para a Catalunha em sua tentativa de conseguir a mediação de algum player internacional.

Embora existam diversas teorias de qual seria a situação política e econômica da Catalunha dentro da União Europeia, e até mesmo o posicionamento expresso de importantes players, tais como França e Alemanha, o certo é que o marco jurídico da União Europeia não fornece todas as respostas, já que pontos essenciais como a própria condição dos cidadãos estariam sem resposta.

Tribunal de Justiça da União Europeia em Luxemburgo

Ressalte-se que o Tribunal de Luxemburgo é o único responsável pela interpretação dos diferentes Tratados da União Europeia e não o Conselho Europeu, em Bruxelas, levando o assunto à esfera jurídica e não somente à política.

Outro ponto relevante seria a aplicação do Tratado de Viena no processo de cisão da Espanha, o que abre um leque de oportunidades para a Catalunha, uma vez que a cláusula de continuidade seja respeitada pelas duas partes que contraíram uma responsabilidade internacional no passado e devem mantê-la. Além, é claro, das diversas possibilidades de colaboração com a União Europeia sem a opção de veto da Espanha, conforme a própria legislação europeia.

Não é possível afirmar que exista um parecer totalmente favorável à Catalunha, principalmente devido às pressões políticas e econômicas. Porém, mobilizar o processo para o complexo sistema de direito internacional explica a ambiguidade na qual se comporta o Governo da Catalunha, cujo maior objetivo é garantir a mediação internacional e, consequentemente, um futuro reconhecimento global, tanto que alguns países da região já começam a manifestar apoio para a Catalunha, como foi o caso da Eslovênia, e algumas nações já demonstraram interesse em mediar a questão.

A Catalunha tem uma economia maior que a de Portugal e também supera diversos países da Europa do Leste, e se trata de um relevante polo logístico e industrial, de modo que é importante para o equilíbrio da região. 

De momento, a movimentação do domicílio social de diversas empresas para outras áreas da Espanha não teve impacto na produção da região, já que todas as empresas mantiveram suas atividades. 

Tanto a União Europeia como a Espanha e a Catalunha reconhecem a importância do fator econômico, assim como a impossibilidade de que exista apenas um perdedor.  Por outro lado, o fator político reflete diversos elementos, sejam eles sociais, internos, ou externo, sendo o fator jurídico o mais ambíguo de todos.

A maior aposta da Catalunha é que aos poucos convença a União Europeia perante uma Espanha que busca resolver a questão dentro do seu marco constitucional, mas que nem mesmo os atores políticos e jurídicos do país Ibérico conseguem chegar a um consenso.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Bandeira Independentista da juntamente com a bandeira da União Europeia, durante manifestação” (Fonte):

http://www.elconfidencialautonomico.com/cataluna/Bandera-independentista-Union-Europea-Diada_ECDIMA20141106_0013_3.jpg

Imagem 2 Declaração do Presidente do Governo Catalão foi acompanhada por centenas de manifestantes a favor da separação” (Fonte):

https://i.ytimg.com/vi/1QCb1VPgvC8/hqdefault.jpg

Imagem 3 Tribunal de Justiça da União Europeia em Luxemburgo” (Fonte):

http://2.bp.blogspot.com/-X_-EWcaRsYA/VUOY-8CHrLI/AAAAAAAABMA/cgC4KdWGfSg/s1600/tribunal_europeu_justica_1_0.jpg

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Catalunha e o preço da separação

Uma semana após o Referendum realizado pelo Governo da Catalunha, que foi proibido pelo Governo espanhol, a situação da região continua sendo foco de tensões. A União Europeia apoia a Espanha, mas ao mesmo tempo estabelece como único caminho o diálogo e a não intervenção do Bloco, já as Nações Unidas solicitam um estudo humanitário sobre a ação das forças nacionais da Espanha no dia da votação.

Presidente da Generalitat da Catalunha – Carles Puigdemont em discurso ao vivo

O Rei Felipe VI ressaltou em pronunciamento a Constituição espanhola e a divisão do povo catalão, mantendo o mesmo discurso do presidente Mariano Rajoy. Como resposta, o Presidente da Catalunha, Carles Puigdemont, publicou nova declaração onde reiterava sua disposição para o diálogo com a Espanha, mas sem ignorar o desejo expresso de grande parte dos catalães, e também mencionou a mediação internacional como forma de solução.

Embora a Suíça tenha se oferecido para mediar a situação, a Espanha rejeitou a oferta por considerar que a Catalunha não é um ator de pleno direito, de modo que a discussão deve ser amparada na Constituição espanhola.

O Presidente da Generalitat de Catalunha iria discursar nesta segunda-feira no Parlamento catalão, mas a sessão foi proibida por ordem do Tribunal Constitucional da Espanha, pois havia uma grande possibilidade de que a Catalunha realizasse a chamada DUI (Declaração Unilateral de Independência). Uma nova sessão está marcada para amanhã, terça-feira, dia 10 de outubro, e segundo informações do Palácio de Saint Jaume (sede do Governo Catalão), o Presidente irá apresentar os resultados finais do Referendum e possivelmente irá declarar a independência.

As tensões entre a Espanha e a Catalunha também repercutiram na economia de ambas as regiões. O índice da Bolsa de Madrid teve uma queda histórica; já na Catalunha muitas multinacionais da região decidiram mudar sua sede para outras províncias da Espanha. Empresas como o Banc de Sabadell (5º maior da Espanha), a empresa Gás Natural (que também atua no Brasil), a Klockner (empresa distribuidora de material clínico) são alguns exemplos. Outras empresas ainda não decidiram, mas estão em pleno debate com os acionistas, tais como o CaixaBank (3º maior Banco), a Catalana Ocidente (Seguradora) e a Freixenet (Vinícola da região reconhecida no mundo inteiro). A Espanha criou uma lei para facilitar essa movimentação de empresas e dessa forma debilitar a Catalunha.

O Governo espanhol e economistas de diferentes países alertam para uma contração de 30% da economia catalã caso haja uma Declaração Unilateral de Independência. O Governo da Catalunha não fala em porcentagens, mas apenas em prazos de impacto e de recuperação a médio prazo. Por outro lado, grande parte da população continua apoiando os governantes e o Referendum, e ao longo de toda a semana passada houve manifestações por toda a Catalunha, mas também houve manifestações da parcela que é contrária a separação. Diversos ônibus vindos de todas as partes da Espanha se somaram aos manifestantes neste último domingo.

Sede Banco Sabadell em Barcelona

Uma grande greve organizada no dia 2 de outubro paralisou 80% de todos os serviços e empresas da região e muitos movimentos sociais estão estudando a possibilidade de uma nova greve geral –  estima-se que cada dia de greve gere um déficit de 750 milhões de euros na economia catalã – embora a adesão social nas mesmas seja superior a 80%.

Ressalte-se que todas as nações que passaram por um processo de separação no século XX e XXI sofreram um impacto econômico nos primeiros anos, sendo esta uma etapa crucial na consolidação de um Estado com pretensões soberanas, e, caso este tenha negligenciado essas bases econômicas, ou mensurado de forma equivocada o processo separatista, o país pode afundar antes mesmo de sair do papel.

A grande pergunta que todos os políticos, analistas e cidadãos se fazem é se a Catalunha quantificou bem esse fator, pois, da mesma forma que conseguiram ocultar as urnas, os governantes catalães estão conseguindo nublar o próprio processo, bem como os seguintes passos que serão tomados. Amanhã ou ao longo dessa semana uma questão de mais de 300 anos pode chegar ao seu ápice, através da declaração de independência e começo da constituição de uma Republica Catalã.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Greve Geral paralisa Barcelona” (Fonte):

https://www.canarias7.es/documents/1/0/768×512/0c40/768d432/none/11314/MUPY/image_content_2384515_20171003133030.jpg

Imagem 2 Presidente da Generalitat da Catalunha Carles Puigdemont em discurso ao vivo” (Fonte):

https://www.ecestaticos.com/image/clipping/654/115c41bdc7e0920485d3251438303f02/carles-puigdemont-durante-su-discurso-institucional-tv3.jpg

Imagem 3 Sede Banco Sabadell em Barcelona” (Fonte):

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/5/50/La_sede_del_Banc_Sabadell.JPG/768px-La_sede_del_Banc_Sabadell.JPG

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Semana de tensão entre a Catalunha e a Espanha

As tensões entre o Governo da Espanha e da Catalunha alcançaram um novo patamar ao longo da semana passada, ocupando a capa de jornais de diferentes países da União Europeia, muitas delas com críticas dirigidas as ações tomadas por Madrid.

O Presidente da Espanha, o Sr. Mariano Rajoy, do Partido Popular, não ativou a Cláusula 155 da Constituição espanhola, que permite ao Governo central tomar uma série de medidas legais para impedir o avanço do Referendum e do projeto soberanista da Catalunha. 

Barco usado pela Guarda Civil para alojar os homens mobilizados para Barcelona

Dessa forma, o Governo acabou agindo sem o consentimento dos parlamentares, gerando fortes pressões contra o atual Presidente e até mesmo a possibilidade de um novo pedido de imputação do mesmo (processo semelhante ao impeachment).

No dia 19 de setembro, a Espanha bloqueou as contas da Generalitat da Catalunha e chamou a depor diversos prefeitos que apoiavam a realização da consulta popular em suas cidades, sob a ameaça de deter aqueles que não se apresentassem.

Também por mandado da Fiscalia (Procuradoria) o site do Governo da Catalunha que explicava aos cidadãos onde iram votar e o funcionamento do Referendum foi encerrado.

A Catalunha respondeu rapidamente a essas medidas tomadas por Madrid, entrou com recurso para recuperar o poder sobre as contas da região e ativou o site do Referendum hospedando-o em outro país, evitando dessa forma que a Espanha pudesse retirar o mesmo do ar.

Madrid não demorou em subir o tom e no dia 20 de setembro uma grande operação policial aprendeu todas as urnas, invadiu a sede de um dos maiores partidos da Catalunha (CUP – Candidatura de Unidade Popular), sem mandato judicial, e invadiu outras secretarias do governo da Catalunha.

A operação prendeu 14 altos funcionários que ocupam cargos do Governo catalão, destruiu 9 milhões de cédulas de eleição e apreendeu todo o material referente ao Referendum.

População se manifesta na frente dos edifícios públicos ocupados pela Guarda Civil espanhola

A Espanha também aumentou os efetivos da Guarda Civil e da Polícia Nacional nas principais capitais da Catalunha, em especial em Barcelona. Mais de 6.000 homens foram mobilizados para a região, ainda que a mesma possua sua própria estrutura de segurança e polícia local (os chamados Mossos de esquadra), que respondem diretamente ao Governo catalão.

Para alojar o efetivo extra, a Guarda Civil espanhola fretou um navio de cruzeiro que, por sua peculiar decoração, chamou a atenção de toda mídia internacional. A população catalã respondeu rapidamente à operação realizada pela Guarda Civil paralisando as ruas de Barcelona e de outras cidades. As manifestações contra as medidas tomadas por Madrid e consideradas como antidemocráticas e autoritárias ecoaram também em outras 22 cidades da Espanha, incluindo a própria Madrid.

O Governo da Espanha pressiona a Catalunha fazendo uso de toda sua força e soberania, já o Governo da Catalunha decidiu não voltar atrás, apelou à comunidade internacional para apoiar a vontade do povo, bem como o direito do povo catação de escolher seu destino, e a condenar o estado de “exceção” submetido pela Espanha.

O Referendum, marcado para o dia 1o de outubro – e que foi proibido por Madrid – foi novamente convocado pelo Governo da Catalunha, que já definiu os locais da votação e já informou aos eleitores.

A população segue se manifestando pelas cidades catalãs e vem ganhando mais adeptos após o choque estatal produzido pelo Governo Central e pela operação policial realizada pela guarda espanhola. O movimento passou a representar uma luta implícita pela liberdade de expressão e democracia (cabe lembrar que foi a gestão atual a que promulgou a famosa “Lei da Mordaça”), ganhando também apoio de outras comunidades da Espanha.

Uma Catalunha independente geraria uma nova jurisprudência na União Europeia e um precedente ansiado por muitas outras regiões que buscam sua independência (Flandres, Vêneto, País Basco etc.). Mas, somente a realização de um Referendum e seu resultado nos dirá se isso é algo para preocupação ou alívio para a União Europeia.

Em princípio, a União Europeia é uma convenção de Estados, de modo que uma Catalunha independente seria um novo Estado e, por esse motivo, deveria passar por todo o processo de adesão. Por outro lado, os cidadãos da Catalunha são pessoas de direito instituídos pelo fato de serem da União Europeia até o momento, gerando um paradoxo jurídico. Ao final, seria lícito retirar os direitos de um cidadão europeu quando não existe precedente jurídico em relação a cisão de um país membro. Por outro lado, segundo a lei espanhola, “todo cidadão que manifeste expressa vontade de obter a cidadania espanhola, sendo descendente de espanhóis, tem esse direito”. Ou seja, em princípio, grande parte dos catalães poderiam sim ser espanhóis e, logo, europeus.

Somente a Corte Europeia pode fazer frente a essa questão jurídica e gerar jurisprudência. Mas, para tanto, é necessário fazer o Referendum e talvez esse seja o grande medo de Madrid, que além de perder uma grande fatia de sua economia, veria a possibilidade de serem reforçados outros movimentos nacionalistas que existem no país (Canário, Vasco e Galego), os quais ganhariam força.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Manifestação em solidariedade com o povo catalão e a favor do referendum em Madrid” (FontePor Iolanda MarmólElperiodico.com):

http://estaticos.elperiodico.com/resources/jpg/5/6/1505934748865.jpg

Imagem 2 Barco usado pela Guarda Civil para alojar os homens mobilizados para Barcelona” (Fonte):

https://st.gonzoo.es/img/2017/09/23981_630_354.jpg?1506081626

Imagem 3 População se manifesta na frente dos edifícios públicos ocupados pela Guardia Civil espanhola” (Fonte):

https://zap.aeiou.pt/wp-content/uploads/2017/09/dc44c1cce63ec086f7a6a4fea1f945a6.jpg

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A batalha jurídica entre Espanha e Catalunha

Conforme se aproxima a data do Referendum convocado pelo Governo da Catalunha, as tensões entre a região e o Governo da Espanha vão aumentando. A Espanha não reconhece a legalidade da consulta popular aprovada pelo Parlamento catalão, nem a chamada Lei de Cisão promulgada pelas autoridades da região.

Mapa dos Municípios a favor do Referendum

O Tribunal Constitucional suspendeu a Lei assim com o Referendum, embora o Governo catalão tenha decidido manter o mesmo, alegando a capacidade jurídica que possui a Catalunha para convocar eleições e realizar consultas populares, conforme a própria lei espanhola.

Este é um dos maiores paradoxos jurídicos da questão catalã, já que, por um lado, a região possui certas autonomias, tais como promulgar leis e realizar consultas, mas, por outro, estão limitados pela Constituição espanhola, e mesmo que o Referendum não seja inconstitucional em si, sua finalidade pode ser enquadrada pelo artigo 155, dentre outros, referentes à unidade territorial do Estado espanhol.

A Fiscalía da Espanha – órgão equivalente a Procuradoria Geral da República – Ordenou a requisição das urnas e a convocação de todos os Prefeitos da Catalunha que apoiam a realização da consulta popular (mais de 80%), ameaçando dar ordem de prisão a todos aqueles que não se apresentarem.

O site oficial do Referendum que explicava aos cidadãos como funcionaria a votação foi retirado do ar por ordem da Fiscalía, mas, poucos minutos depois, o Governador da Catalunha mandou ativar o mesmo site, hospedado no exterior e com o domínio da União Europeia. A tensão foi levada à Comissão Europeia tanto pela Espanha como pela Catalunha, que teve o apoio do País Basco.

A Espanha pediu para que a União Europeia inste as autoridades catalãs a respeitar a unidade e a Constituição espanhola; já a Catalunha pede para a União Europeia que seja respeitado o direito de que seus cidadãos expressem seus anseios.

O Presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, em seu discurso perante o Parlamento Europeu, evitou se dirigir diretamente à questão da Catalunha fazendo apenas algumas alusões, porém posteriormente afirmou que a Comissão Europeia apoia as autoridades da Espanha, mas também que respeitaria a decisão do povo catalão e até mesmo sua adesão à União Europeia, sempre e quando a região realizasse o processo habitual.

Dia da Catalunha por Ferran Sendra – Milhares de pessoas se manifestam a favor do referendum

A Catalunha decidiu manter o Referendum mesmo com as urnas requisitadas e com a polícia nacional espanhola vigiando e até mesmo lacrando imprensas e empresas gráficas.

Em Madrid, o Governo insta os cidadãos a não participarem e pressiona a região através do Tribunal de Contas e do Ministério da Fazenda, que aprovou no dia 15 de setembro manter o controle total das contas do Governo Catalão, sendo o Ministério o responsável até mesmo por pagar os funcionários públicos da Catalunha e não mais o Governo regional. Dessa forma, a Espanha tenta desarticular o movimento separatista desde a estrutura do Governo.

A população está dividida, embora as medidas de Madrid comecem a ser questionadas e essas ações estejam trazendo ao processo separatista e aos resultados nas urnas uma grande probabilidade de que a balança se posicione, sem dúvidas, para um dos lados, que ainda não se sabe qual será, mas a lógica leva a entender que, em decisões dessa natureza, a pêndulo tente para o lado daquele que se torna vítima da violência contra um direto legítimo de expressar a sua posição.

No dia 11 de setembro – dia nacional da Catalunha – a cidade de Barcelona parou e milhares de pessoas com bandeiras separatistas se manifestavam a favor do Referendum e uma grande urna com votos vindos de todas as regiões da cidade coroava a principal praça.

Independentemente da realização da consulta popular e de seu resultado, este é um tema complexo que a Espanha não deve ignorar, se realmente deseja que a região não se separe, algo que certamente só poderá ser resolvido mediando o diálogo entre as partes.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Manifestações a favor da independência no dia Nacional da Catalunha” (Fonte):

https://www.shbarcelona.com/blog/en/wp-content/uploads/2016/03/Independence-protest-810×486.jpg

Imagem 2Mapa dos Municípios a favor do Referendum” (Fonte):

http://www.lavanguardia.com/politica/20170913/431209097235/mapa-municipios-catalanes-referendum-1-o.html

Imagem 3Dia da Catalunha por Ferran Sendra Milhares de pessoas se manifestam a favor do referendum” (Fonte):

http://www.elperiodico.com/es/politica/20170911/diada-catalunya-2017-en-imagenes-6277719/f/4161099   

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Como funcionará o Referendum separatista da Catalunha

Mesmo com as pressões realizadas pelo governo central de Madri, a região da Catalunha continua com o processo de separação e criação de um novo Estado, embora ainda existam dúvidas tanto em relação a realização do Referendum como também sobre qual poderá ser seu resultado.

O Referendum foi convocado para ser realizado no dia 1o de outubro de 2017, época não muito distante do 11 de setembro, Dia Nacional da Catalunha (Diada, em Catalão), que nos últimos anos se transformou no símbolo do processo nacionalista e palco de diversas manifestações.

Transição Catalâ

A Espanha ainda tenta acionar o Artigo 155 da Constituição e impedir o avanço do processo, porém a situação do atual presidente Mariano Rajoy dificulta a formação de um consenso no Parlamento, já que grande parte da Oposição está pedindo sua renúncia.

Por outro lado, o Governo catalão afirma que a votação irá acontecer e os passos serão: 1) caso o NÃO vença, o processo nacionalista será interrompido e serão convocadas outras eleições para formar um novo governo da região da Catalunha, capaz de refletir os anseios do povo; 2) caso o Sim vença, começará uma batalha jurídica e política que envolva diferentes esferas e interesses, além de gerar um precedente jurídico jamais visto na Espanha e na União Europeia (algo que gera temor pelos efeitos e reflexos em outras regiões separatistas).

No segundo dia após as eleições, se for aprovado o desejo separatista, a Catalunha realizará uma declaração unilateral de Independência, dando início ao processo constituinte que tem como previsão durar aproximadamente 6 meses. Após seu término, mais uma Eleição será realizada para selecionar os responsáveis por redigir a Carta Magna, a qual, depois de elaborada, terá de passar por outro Referendum para sua aprovação. Esta etapa poderá levar também 6 meses e, por último, pretende-se nova eleição, que, neste caso, seria responsável por escolher o primeiro Presidente de fato da República da Catalunha.

Muitos são os fatores que podem influenciar o processo catalão e levar a repercussões imprevisíveis tanto na Espanha como na União Europeia, refletindo numa série de dinâmicas existentes no próprio continente que estão eclodindo em vários lugares.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Bandeiras catalãs em manifestação pedindo a independência” (Fonte):

http://s.libertaddigital.com/fotos/noticias/barcelona-independencia.jpg

Imagem 2Transição Catalâ” (Fonte Eduard Forrol / 1 milló de vus):

https://pbs.twimg.com/media/DIYj0rxW4AA1WvA.jpg

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A Nova Cara do Terrorismo

Younes Abouyaaqoub, autor do atentado que matou 15 pessoas em Barcelona e deixou mais de 100 feridos, era um jovem de 22 anos, de origem marroquina, criado na cidade de Ripoll, a poucos quilômetros de Barcelona, uma das cidades mais multiculturais do mundo.

Os vizinhos diziam que se tratava de um rapaz educado, que ajudava sempre sua mãe e outras pessoas idosas e que era um apaixonado pelo futebol. Era possível encontrar Younes e seus amigos jogando na quadra de esportes da cidade, dividindo time com outros imigrantes e espanhóis. Era um jovem com os outros, ou ao menos isso aparentava ser.

A transformação do Younes reflete uma nova cara do terrorismo, uma nova realidade que envenena jovens criados ou nascidos na Europa e que os transforma em soldados de uma causa radical e fundamentalista, longe de toda realidade com a qual conviveram.

Diferente daquela visão formada ao longo dos últimos anos, de fundamentalistas barbudos e de vestes tradicionais, os novos terroristas são como lobos vestidos de ovelhas. Ou talvez ovelhas cooptadas por um exército de lobos. É difícil definir de onde surge esse fundamentalismo que cresce no coração de alguns jovens, muitos deles sem grande intimidade com sua cultura ou religião, tendo apenas visões parciais.

Jovens Terroristas

No caso de Younes e seus amigos, tudo começou com a chegada do imã Abdelbaki Es Satty na Mesquita da cidade. O líder religioso era seguido de perto por autoridades da Bélgica – lugar onde possivelmente teve sua formação como fundamentalista – e aos poucos foi convencendo os jovens a seguirem por esse tenebroso caminho, criando uma célula terrorista.

A polícia da Bélgica já havia notificado suas suspeitas em relação Abdelbaki Es Satty, mas não houve uma investigação profunda por parte das autoridades espanholas. O seu desejo era se imolar em algum ponto importante da cidade, possivelmente no Templo Expiatório da Sagrada Família (mais conhecido como Catedral da Sagrada Família) e produzir o maior número de baixas possíveis. Segundo ele, todos os integrantes da célula eram soldados de Alá e deveriam lutar para recuperar o Al-Andalus* dos corruptores e invasores, convencendo os jovens a prepararem diversos explosivos que só não conseguiram seu objetivo graças a uma explosão acidental na base da célula terrorista.

Desde que aconteceu o atentado a sociedade espanhola se divide. Alguns buscam defender medidas mais severas e maiores restrições aos imigrantes, principalmente os de origem islâmica. Outros advogam por uma sociedade mais tolerante e capaz de integrar todos.

A realidade de Younes revela o desafio que a Europa deve enfrentar nos próximos anos.  O continente possui uma considerável colônia de origem muçulmana que já faz parte da realidade demográfica, mas cuja integração é ainda um processo complicado e em evolução, sendo um dos grupos mais ameaçados pela pobreza e pelo retrocesso social, ao mesmo tempo em que é o que oferece maior resistência de assimilação por parte da população local.

A Europa deve entender quais são as motivações e ferramentas usadas pelos terroristas na cooptação da juventude – sendo que alguns dos cooptados nesse segmento demográfico  nem mesmo são estrangeiros ou islâmicos – e desenvolver políticas e programas capazes de reverter o quadro, pois não se trata de uma guerra civilizatória, nem religiosa, por mais que ambos os lados extremados tentem declarar que seja dessa forma, mas sim uma questão intimamente ligada ao próprio progresso social e aos paradoxos da globalização.

Convergindo com o posicionamento de vários analistas, as migrações, o atrito intercultural, as pressões sociais não vão desaparecer apenas com lei ou proibição, tanto quanto o fundamentalismo religioso ou político não deixará de existir apenas por uma restrição territorial. São processos que devem ser estudados, analisados e combatidos em diferentes dimensões e direções, caso contrário haverá sempre aqueles que, como Younes, serão atraídos pelo veneno do fundamentalismo por fatores não identificados, ou não equacionados adequadamente.

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Nota:

* A Espanha foi durante 800 anos domínio muçulmano e o território era conhecido como Al-Andalus.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Younes Foto publicada pela Policia a todos os meios de comunicação” (Fonte):

http://scd.br.rfi.fr/sites/brasil.filesrfi/imagecache/rfi_16x9_1024_578/sites/images.rfi.fr/files/aef_image/younes.jpg

Imagem 2 Jovenes y terroristas” (Fonte):

https://bestmonkeyhosting.com/ghostproject/media/2017/08/la-policia-catalana-identifico-al-conductor-de-la-furgoneta-del-atentado-en-barcelona.jpg