EUROPANOTAS ANALÍTICASPOLÍTICA INTERNACIONAL

A batalha jurídica entre Espanha e Catalunha

Conforme se aproxima a data do Referendum convocado pelo Governo da Catalunha, as tensões entre a região e o Governo da Espanha vão aumentando. A Espanha não reconhece a legalidade da consulta popular aprovada pelo Parlamento catalão, nem a chamada Lei de Cisão promulgada pelas autoridades da região.

Mapa dos Municípios a favor do Referendum

O Tribunal Constitucional suspendeu a Lei assim com o Referendum, embora o Governo catalão tenha decidido manter o mesmo, alegando a capacidade jurídica que possui a Catalunha para convocar eleições e realizar consultas populares, conforme a própria lei espanhola.

Este é um dos maiores paradoxos jurídicos da questão catalã, já que, por um lado, a região possui certas autonomias, tais como promulgar leis e realizar consultas, mas, por outro, estão limitados pela Constituição espanhola, e mesmo que o Referendum não seja inconstitucional em si, sua finalidade pode ser enquadrada pelo artigo 155, dentre outros, referentes à unidade territorial do Estado espanhol.

A Fiscalía da Espanha – órgão equivalente a Procuradoria Geral da República – Ordenou a requisição das urnas e a convocação de todos os Prefeitos da Catalunha que apoiam a realização da consulta popular (mais de 80%), ameaçando dar ordem de prisão a todos aqueles que não se apresentarem.

O site oficial do Referendum que explicava aos cidadãos como funcionaria a votação foi retirado do ar por ordem da Fiscalía, mas, poucos minutos depois, o Governador da Catalunha mandou ativar o mesmo site, hospedado no exterior e com o domínio da União Europeia. A tensão foi levada à Comissão Europeia tanto pela Espanha como pela Catalunha, que teve o apoio do País Basco.

A Espanha pediu para que a União Europeia inste as autoridades catalãs a respeitar a unidade e a Constituição espanhola; já a Catalunha pede para a União Europeia que seja respeitado o direito de que seus cidadãos expressem seus anseios.

O Presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, em seu discurso perante o Parlamento Europeu, evitou se dirigir diretamente à questão da Catalunha fazendo apenas algumas alusões, porém posteriormente afirmou que a Comissão Europeia apoia as autoridades da Espanha, mas também que respeitaria a decisão do povo catalão e até mesmo sua adesão à União Europeia, sempre e quando a região realizasse o processo habitual.

Dia da Catalunha por Ferran Sendra – Milhares de pessoas se manifestam a favor do referendum

A Catalunha decidiu manter o Referendum mesmo com as urnas requisitadas e com a polícia nacional espanhola vigiando e até mesmo lacrando imprensas e empresas gráficas.

Em Madrid, o Governo insta os cidadãos a não participarem e pressiona a região através do Tribunal de Contas e do Ministério da Fazenda, que aprovou no dia 15 de setembro manter o controle total das contas do Governo Catalão, sendo o Ministério o responsável até mesmo por pagar os funcionários públicos da Catalunha e não mais o Governo regional. Dessa forma, a Espanha tenta desarticular o movimento separatista desde a estrutura do Governo.

A população está dividida, embora as medidas de Madrid comecem a ser questionadas e essas ações estejam trazendo ao processo separatista e aos resultados nas urnas uma grande probabilidade de que a balança se posicione, sem dúvidas, para um dos lados, que ainda não se sabe qual será, mas a lógica leva a entender que, em decisões dessa natureza, a pêndulo tente para o lado daquele que se torna vítima da violência contra um direto legítimo de expressar a sua posição.

No dia 11 de setembro – dia nacional da Catalunha – a cidade de Barcelona parou e milhares de pessoas com bandeiras separatistas se manifestavam a favor do Referendum e uma grande urna com votos vindos de todas as regiões da cidade coroava a principal praça.

Independentemente da realização da consulta popular e de seu resultado, este é um tema complexo que a Espanha não deve ignorar, se realmente deseja que a região não se separe, algo que certamente só poderá ser resolvido mediando o diálogo entre as partes.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Manifestações a favor da independência no dia Nacional da Catalunha” (Fonte):

https://www.shbarcelona.com/blog/en/wp-content/uploads/2016/03/Independence-protest-810×486.jpg

Imagem 2Mapa dos Municípios a favor do Referendum” (Fonte):

http://www.lavanguardia.com/politica/20170913/431209097235/mapa-municipios-catalanes-referendum-1-o.html

Imagem 3Dia da Catalunha por Ferran Sendra Milhares de pessoas se manifestam a favor do referendum” (Fonte):

http://www.elperiodico.com/es/politica/20170911/diada-catalunya-2017-en-imagenes-6277719/f/4161099   

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UE sobe o tom e começa a se impor sobre seus membros na crise migratória

Em 2015 os países da União Europeia assinaram um Acordo de recolocação dos refugiados que solicitavam asilo na Itália e na Grécia, buscando distribuir mais de 120.000 pessoas nos diferentes países do Bloco e evitar o colapso dos serviços de assistência dos dois países mediterrâneos.

Embora ele tenha sido assinado no dia 22 de setembro de 2015, por quase todos os membros da União, nem todos os países concordaram com as medidas indicadas pelo mesmo, havendo diversas modificações na sua internalização e vários descumprimentos, sendo que alguns derivaram em tensões entre os países membros e o próprio Conselho Europeu, como foram os casos de Polônia, República Checa e Hungria, assim como da Espanha, Croácia e Eslovênia, países que atuam como rota de acesso dos refugiados em sua migração para os países mais ricos.

Barreira entre Hungria e Sérvia

Algumas nações na região do Bálcãs construíram uma série de barreiras para conter o avanço dos refugiados e suas autoridades dificultaram ao máximo as solicitações de asilo, deportando-os na maioria dos casos para o último país pelo qual haviam passado, ou simplesmente abandonando os mesmos a sua sorte. 

A Hungria e a Eslováquia foram os países mais reticentes em aceitar a distribuição dos refugiados e trabalharam em conjunto para selar a chamada Rota Balcânica, obrigando os migrantes a se aventurarem por outros caminhos, muitas vezes compostos por perigosas travessias, ou simplesmente sem a possibilidade de avançar, e se negando a receber os refugiados recolocados.

No passado dia 6 de setembro, o Tribunal de Justiça da União Europeia (TJUE) decidiu impor o Acordo de Migração na Hungria e Eslováquia, decretando que caso não cumpram com o estabelecido a União poderá multar a ambos pela desobediência. A mesma medida se aplicará aos demais países do Bloco sob as mesmas condições.

Rotas de entrada e pedidos de asilo

A crise migratória tem sido um tema de debate e gerador de tensões dentro da União Europeia e na política interna dos Estados membros.  O discurso de integração regional chegou a ser discutido e questionado na Cúpula de Bratislava – realizada um ano após o acordo migratório – sendo a crise econômica e a dos refugiados os principais temas, além da possibilidade de saída de alguns países.

A União Europeia trata de restabelecer o discurso de integração e fortalecer o vínculo entre os Estados membros. As derrotas dos partidos de extrema direita em lugares como Áustria e França, além da possível reeleição de Angela Merkel, proporcionaram novo fôlego para o Bloco, porém, questões como o terrorismo, o desemprego, a migração e a instabilidade política ainda pairam sob diversos países, principalmente sobre aqueles localizados no mediterrâneo.

A situação geopolítica da Europa e as modificações no panorama global também levaram a União Europeia a tentar fortalecer seu posicionamento e alinhamento, embora sejam muitos os desafios que ela ainda deve vencer para a Europa voltar a sua condição de antes da crise.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Bandeira União Europeia” (Fonte):

https://static.euronews.com/articles/320688/684x384_320688.jpg

Imagem 2 Barreira entre Hungria e Sérvia” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Crise_migrat%C3%B3ria_na_Europa#/media/File:Hungarian-Serbian_border_barrier_1.jpg

Imagem 3 Rotas de entrada e pedidos de asilo” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Crise_migrat%C3%B3ria_na_Europa#/media/File:Map_of_the_European_Migrant_Crisis_2015.png

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A Nova Cara do Terrorismo

Younes Abouyaaqoub, autor do atentado que matou 15 pessoas em Barcelona e deixou mais de 100 feridos, era um jovem de 22 anos, de origem marroquina, criado na cidade de Ripoll, a poucos quilômetros de Barcelona, uma das cidades mais multiculturais do mundo.

Os vizinhos diziam que se tratava de um rapaz educado, que ajudava sempre sua mãe e outras pessoas idosas e que era um apaixonado pelo futebol. Era possível encontrar Younes e seus amigos jogando na quadra de esportes da cidade, dividindo time com outros imigrantes e espanhóis. Era um jovem com os outros, ou ao menos isso aparentava ser.

A transformação do Younes reflete uma nova cara do terrorismo, uma nova realidade que envenena jovens criados ou nascidos na Europa e que os transforma em soldados de uma causa radical e fundamentalista, longe de toda realidade com a qual conviveram.

Diferente daquela visão formada ao longo dos últimos anos, de fundamentalistas barbudos e de vestes tradicionais, os novos terroristas são como lobos vestidos de ovelhas. Ou talvez ovelhas cooptadas por um exército de lobos. É difícil definir de onde surge esse fundamentalismo que cresce no coração de alguns jovens, muitos deles sem grande intimidade com sua cultura ou religião, tendo apenas visões parciais.

Jovens Terroristas

No caso de Younes e seus amigos, tudo começou com a chegada do imã Abdelbaki Es Satty na Mesquita da cidade. O líder religioso era seguido de perto por autoridades da Bélgica – lugar onde possivelmente teve sua formação como fundamentalista – e aos poucos foi convencendo os jovens a seguirem por esse tenebroso caminho, criando uma célula terrorista.

A polícia da Bélgica já havia notificado suas suspeitas em relação Abdelbaki Es Satty, mas não houve uma investigação profunda por parte das autoridades espanholas. O seu desejo era se imolar em algum ponto importante da cidade, possivelmente no Templo Expiatório da Sagrada Família (mais conhecido como Catedral da Sagrada Família) e produzir o maior número de baixas possíveis. Segundo ele, todos os integrantes da célula eram soldados de Alá e deveriam lutar para recuperar o Al-Andalus* dos corruptores e invasores, convencendo os jovens a prepararem diversos explosivos que só não conseguiram seu objetivo graças a uma explosão acidental na base da célula terrorista.

Desde que aconteceu o atentado a sociedade espanhola se divide. Alguns buscam defender medidas mais severas e maiores restrições aos imigrantes, principalmente os de origem islâmica. Outros advogam por uma sociedade mais tolerante e capaz de integrar todos.

A realidade de Younes revela o desafio que a Europa deve enfrentar nos próximos anos.  O continente possui uma considerável colônia de origem muçulmana que já faz parte da realidade demográfica, mas cuja integração é ainda um processo complicado e em evolução, sendo um dos grupos mais ameaçados pela pobreza e pelo retrocesso social, ao mesmo tempo em que é o que oferece maior resistência de assimilação por parte da população local.

A Europa deve entender quais são as motivações e ferramentas usadas pelos terroristas na cooptação da juventude – sendo que alguns dos cooptados nesse segmento demográfico  nem mesmo são estrangeiros ou islâmicos – e desenvolver políticas e programas capazes de reverter o quadro, pois não se trata de uma guerra civilizatória, nem religiosa, por mais que ambos os lados extremados tentem declarar que seja dessa forma, mas sim uma questão intimamente ligada ao próprio progresso social e aos paradoxos da globalização.

Convergindo com o posicionamento de vários analistas, as migrações, o atrito intercultural, as pressões sociais não vão desaparecer apenas com lei ou proibição, tanto quanto o fundamentalismo religioso ou político não deixará de existir apenas por uma restrição territorial. São processos que devem ser estudados, analisados e combatidos em diferentes dimensões e direções, caso contrário haverá sempre aqueles que, como Younes, serão atraídos pelo veneno do fundamentalismo por fatores não identificados, ou não equacionados adequadamente.

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Nota:

* A Espanha foi durante 800 anos domínio muçulmano e o território era conhecido como Al-Andalus.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Younes Foto publicada pela Policia a todos os meios de comunicação” (Fonte):

http://scd.br.rfi.fr/sites/brasil.filesrfi/imagecache/rfi_16x9_1024_578/sites/images.rfi.fr/files/aef_image/younes.jpg

Imagem 2 Jovenes y terroristas” (Fonte):

https://bestmonkeyhosting.com/ghostproject/media/2017/08/la-policia-catalana-identifico-al-conductor-de-la-furgoneta-del-atentado-en-barcelona.jpg

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Terror em Barcelona

Barcelona é uma das cidades mais visitadas do mundo. A cada ano mais de 10 milhões de turistas visitam seus monumentos, museus e praias. A cidade é reconhecida mundialmente pelo colorido de seus artistas, pela cultura do seu povo, seu idioma peculiar e por aquele ambiente típico de cidade litorânea que vive de braços abertos.

Rambla em Barcelona – Mural do artista Miró, onde o furgão parou sua letal trajetória

Mas todo seu colorido foi coberto por um véu cinza e pesaroso no passado dia 17 de agosto, quinta-feira, quando um furgão invadiu o calçadão mais famoso da cidade – As Ramblas – e atropelou 13 pessoas, deixando a mais 80 feridos.

O caos tomou conta de uma das principais artérias da cidade, turistas corriam desesperados e as autoridades perseguiam o responsável, que abandonou o local sem fazer nenhum tipo de reivindicação jihadista.

Barcelona entrou em estado de alerta. Metrô, trens, ônibus e demais serviços foram afetados e bloqueios foram instalados em diversos pontos da Catalunha. O terror, aos poucos, foi aprofundando suas raízes. Em poucas horas o Estado Islâmico reivindicou o atentado. A Espanha já havia sido ameaçada pelo ISIS e sofreu em 2004 o maior ataque realizado pela Al-Qaeda na Europa.

O país com um longo histórico de atentados terroristas de diferentes origens, mostrou estar preparado para agir rapidamente. Em pouco tempo os “Mossos d’esquadra”, em cooperação com a Guarda Civil, conseguiram localizar os autores graças a chamada “Operação Jaula”, pela qual todas as saídas da cidade são fechadas.

Relação dos acontecimentos na Catalunha após atentados em Barcelona

Um dos terroristas furou um desses bloqueios e atropelou um dos guardas dando início a perseguição que terminou em localidade próxima de Barcelona. Outro grupo foi localizado nas cercanias de Barcelona e houve intenso tiroteio na cidade de Cambrils, provocando a morte de 5 terroristas.

Dentre os fatos que ajudaram as autoridades, destacasse ter detectado a propriedade dos carros usados tanto no atentado como na fuga. Eram veículos alugados pelo grupo, formado por cidadãos de origem marroquina e espanhola.

O Governo da Espanha e o Governo da Catalunha se reuniram para trabalhar a questão em conjunto, e ambos receberam apoio de toda comunidade internacional e da União Europeia. O impacto que esse tipo de evento provoca em uma cidade é difícil de quantificar, pois existem fatores políticos, sociais e culturais cuja reação pode ser imediata ou de logo prazo. A Espanha já decretou estado de alerta e aumentou o nível de segurança em todo o país; a Catalunha, por outro lado, busca manter os serviços operativos e ajudar no controle.

Os catalães mostraram ao mundo sua união, com vários hospitais ficando colapsados devido a pessoas que foram doar sangue; com hotéis da região oferecendo quartos gratuitos para as famílias dos afetados; além disso, psicólogos e profissionais da saúde se apresentaram voluntariamente para auxiliar o povo. Uma onda de solidariedade e compaixão invadiu Barcelona, sendo talvez estes sentimentos os únicos capazes de frear o avanço do terror no mundo.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Save Barcelona” (Fonte):

http://www.pressdigital.es/imagenes/SAVEBARCELONA.jpg

Imagem 2 Rambla em Barcelona Mural do artista Miró, onde o furgão parou sua letal trajetória” (Fonte):

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/c/cb/98_Paviment_de_Mir%C3%B3%2C_pla_de_la_Boqueria.jpg/1024px-98_Paviment_de_Mir%C3%B3%2C_pla_de_la_Boqueria.jpg

Imagem 3 Relação dos acontecimentos na Catalunha após atentados em Barcelona” (Fonte – La Vanguardia.com):

http://www.lavanguardia.com/r/GODO/LV/p4/WebSite/2017/08/17/Recortada/img_avived_20170818-111856_imagenes_lv_terceros_sucesos_en-torno-atentado-992×558-2-ka7G-U43615086952XPF-992×[email protected]

NOTAS ANALÍTICASPARADIPLOMACIA

Na Europa ocorre a guerra contra o turismo, mas, para o Brasil, pode ser a salvação

O turismo representa um importante setor econômico para os países da União Europeia. A título de exemplo, Espanha, França e Itália estão entre os países mais visitados do planeta. Cidades como Barcelona, Roma, Madrid, Paris, Veneza são ícones do turismo mundial, exemplos de como a promoção econômica e políticas de atração de visitantes geram o enriquecimento de todos os setores, já que são criados hotéis, restaurantes, salas de exposição, serviços dedicados ao turista, serviços de saúde, museus etc., que demandam produtos locais e nacionais, gerando um fluxo positivo para a economia.

Ainda assim, nos últimos anos, o turismo e principalmente os turistas já não são vistos em muitas cidades como um setor sustentável e de interesse público. Isso se deve a dois grandes fenômenos: o primeiro é o aumento do turismo de massas, ou “Low Cost”, que modificou o perfil dos visitantes; o segundo é o surgimento de aplicativos e portais de contratação de serviços de pessoas físicas, tais como transporte, alimentação e estadia.

A turismofobia foi abordada em outros artigos do CEIRI Newspaper, pois existem fatores que também estão ligados aos processos de migração que ocorrem na Europa, assim como a instabilidade política da região. Mas, o que parecia ser um fenômeno isolado contra a atividade turística, tem se diversificado e estendido por várias cidades, forçando as autoridades locais a buscar soluções e a discutir com a população.

Em Barcelona houve uma grande mobilização social para a proibição dos aplicativos de estadia, já que eles impactam no preço do aluguel e também aumentam o déficit habitacional da cidade. Em Palma de Mallorca, o Governo estuda aprovar uma lei que obrigue aos proprietários de imóveis vazios a alugar seu imóvel com contratos de longa duração.  Em Madrid e outras cidades alguns aplicativos de transporte foram proibidos, ou tiveram algumas de suas modalidades eliminadas e, em quase todas as cidades, existe uma taxa para turistas que vai de 1 a 15 Euros.

No Brasil, o turismo, por outro lado, é visto pelos especialistas do setor como a salvação para a arrecadação de diversos municípios, embora faltem planejamento das pequenas prefeituras, capacitação, infraestrutura, dentre várias necessidades. Existem cidades que são exemplos, tais como Campos do Jordão, Balneário Camboriú, Gramado, Ilha Bela, ou Capitólio. Ainda assim, existe muito a ser feito.

A paradiplomacia pode ser uma forma interessante de gerar sinergia entre cidades brasileiras e cidades estrangeiras similares que tenham superado esses desafios. Mais de 80% do turismo brasileiro é doméstico e apenas 6 milhões de turistas estrangeiros visitam o território nacional (a Espanha, que tem o tamanho do Estado de Minas Gerais, recebeu 50 milhões de turistas em 2016). O maior desafio do país é a falta de infraestrutura e promoção.

O turismo no Brasil – conforme a opinião dos operadores europeus –  é excessivamente caro em comparação até mesmo com destinos na Europa ou Estados Unidos; além disso, tem a infraestrutura limitada; a oferta, embora diversificada, é pouco explorada; o patrimônio histórico é pouco conservado; e a cultura tradicional de determinadas regiões são infra valorizadas por outras. Diante do quadro e dos exemplos mundiais, estimular o setor no caso do Brasil ajudaria na arrecadação dos municípios, porém a cidade deve ser competitiva e produzir recursos por volume e não apenas por um aumento dos preços.

Em relação a visão dos turistas, existem fatores culturais que influenciaram o cidadão brasileiro a ser mais acolhedor. Como as cidades possuem uma série de deficiências, o turismo poderia ser a causa de melhorias e não de degradação, ao menos em alguns municípios.

Favela em Angra dos Reis, um dos maiores destinos do Brasil

Na Europa existe uma guerra contra o turismo. No Brasil talvez ele seja a salvação de pequenos municípios com baixa arrecadação, pouca capacidade de articulação para obter mais recursos do governo do Estado e do governo Federal, e que acabam sendo centros de desigualdade, onde turistas com grande poder de compra se alojam em pensões improvisadas ou em resorts exclusivos em cidades sem nenhuma infraestrutura adequada, nem benefícios para a população local, mas somente para os turistas. A situação é parecida com a reclamação dos europeus, porém sem a infraestrutura existente por lá, o que indica que o equilíbrio entre as demandas da população, dos turistas e dos atores envolvidos, podem ser as chaves para o sucesso.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1mensagens turismofóbica em Barcelona” (Fonte):

Https://i1.wp.com/www.carlosgarciaweb.com/wpcontent/uploads/2014/12/turismofobia6.jpg

Imagem 2Favela em Angra dos Reis, um dos maiores destinos do Brasil” (Fonte Banco de imagens: Luciana Whitacker):

http://www.pulsarimagens.com.br/listing/detail/1000?tombo=02LW019&strTipo=image

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Mediterrâneo e as águas do medo e do racismo

Há pouco mais de 70 anos, mais de 20 milhões de europeus buscaram refúgio durante a II Guerra Mundial e durante as temíveis guerras civis que sacudiram a Europa e região ao longo do século XX. Se incluirmos a esse número os refugiados da I Guerra Mundial e os emigrantes que fugiam dos conflitos sociais e das crises econômicas do final do século XIX e início do século XX, esse número supera facilmente as 50 milhões de pessoas, segundo historiadores.

Parte dessa geração continua viva e hoje constitui um elemento importante na formação da identidade dos países que acolheram esse grande contingente e que absorveram elementos de seus costumes tais como o Brasil, Estados Unidos, Canadá, Argentina, Chile, México, dentre outros.

Barco com imigrantes espanhóis com destino América Latina

Para essas pessoas, as águas do Oceano Atlântico representavam uma nova esperança, liberdade para começar de novo, nostalgia e também temor a um horizonte desconhecido, alimentado pela visão perene de uma América indomada, porém próspera, construída desde a colonização. O ciclo das grandes migrações durou até metade do século XX e voltou com força durante a crise europeia.

Na América, cada país apresentou seu próprio processo de absorção dos imigrantes, sendo este mais fácil em algumas nações com políticas mais abertas e até mesmo programas de incentivo à migração e em outros mais complexo, devido ao elevado volume de migrantes, ou até mesmo devido as diferenças culturais presentes.

Essa experiência humana, social e política derivada dos grandes fluxos migratórios e da movimentação global de refugiados deu origem a diversos protocolos e tratados internacionais, porém, nos últimos anos, tem sido visto um retrocesso importante e que afeta a milhões de pessoas, colocando em risco o futuro da mobilidade internacional.

Os processos migratórios são observados como uma questão de Estado, seja no Estados Unidos de Donald Trump, na Venezuela de Nicolás Maduro ou na União Europeia e seus múltiplos players.

O famoso muro entre Estados Unidos e México possui suas réplicas na Europa, Oriente Médio, África e até mesmo na América Latina.  A xenofobia aumenta conforme o atrito das nações e a espetacularização de um processo tão humano quanto respirar, pois toda humanidade é fruto dessas dispersões geográficas promovidas pela migração.

Barco fretado e símbolo dos Identitários

Recentemente, na Europa, um grupo de jovens entre 18 e 25 anos, autodenominados Identitários, decidiram alugar um barco com o objetivo de impedir o salvamento de refugiados e imigrantes nas aguas do mediterrâneo. Segundo esses jovens, eles estão salvando a identidade europeia e evitando uma invasão migratória. Apoiam-se nos ideais conservadores de extrema direita europeia e cada dia aumenta seu reforço entre os europeus.

O Mediterrâneo é palco diário da chegada de barcos com centenas de imigrantes e refugiados, que se lançam em suas águas buscando melhores condições de vida e, alguns casos, apenas sobreviver. Muitos morrem pelo caminho.

Várias questões podem ser levantadas em relação às ideias que levam esses jovens a se mobilizarem para impedir a ajuda humanitária realizada pelas autoridades europeias, em lugar de reivindicar a geração de políticas de integração ou lutar por melhorias e maior intervenção das potências europeias nos países emissores de emigrantes.

Além do paradoxal de sua ação política o seu discurso também possui argumentos tênues, ao defender uma identidade europeia que está constantemente sendo questionada pelos processos políticos e sociais dentro da própria União Europeia e que está em constante construção.

Ao falar de identidade europeia não fica muito claro ao que se refere o grupo dos identitários, pois, ao final, o Bloco europeu possui cidadão brancos e morenos ao sul da Europa, católicos, protestantes, ortodoxos, além de um importante número de cidadãos muçulmanos e de estar negociando a adesão de países onde o islã é a religião oficial. O Bloco detém mais de 20 línguas oficiais, diferentes identidades nacionais e inclusive muitos países se caracterizam pelo multinacionalismo, como é o caso da Espanha, de modo que, analisando a própria construção da União Europeia e os próprios fatores de integração e formação social, pode-se inferir que o grupo dos identitários não é movido pelos ideais de uma Europa global e  integradora, nem por uma identidade europeia consolidada, mas pela xenofobia, pelo ufanismo e pelo racismo.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Pequeno Aylan, cuja foto comoveu o mundo, mas que se soma a de várias crianças” (Fonte):

http://periodicoespacio.com/wp-content/uploads/2015/09/CN74GoKUEAAF-bq_opt.jpg

Imagem 2  “Barco com imigrantes espanhóis com destino América Latina” (Fonte):

http://www.jaberni-coleccionismo-vitolas.com/images/Grandes_Tabaqueros/Barco-Inmigrantes.jpg

Imagem 2  “Barco fretado e símbolo dos Identitários” (Fonte):

http://democracianacional.org/dn/wp-content/uploads/2017/07/Right-Wing-Yacht-Squad-777×397-680×365.png