NOTAS ANALÍTICASPARADIPLOMACIA

Na Europa ocorre a guerra contra o turismo, mas, para o Brasil, pode ser a salvação

O turismo representa um importante setor econômico para os países da União Europeia. A título de exemplo, Espanha, França e Itália estão entre os países mais visitados do planeta. Cidades como Barcelona, Roma, Madrid, Paris, Veneza são ícones do turismo mundial, exemplos de como a promoção econômica e políticas de atração de visitantes geram o enriquecimento de todos os setores, já que são criados hotéis, restaurantes, salas de exposição, serviços dedicados ao turista, serviços de saúde, museus etc., que demandam produtos locais e nacionais, gerando um fluxo positivo para a economia.

Ainda assim, nos últimos anos, o turismo e principalmente os turistas já não são vistos em muitas cidades como um setor sustentável e de interesse público. Isso se deve a dois grandes fenômenos: o primeiro é o aumento do turismo de massas, ou “Low Cost”, que modificou o perfil dos visitantes; o segundo é o surgimento de aplicativos e portais de contratação de serviços de pessoas físicas, tais como transporte, alimentação e estadia.

A turismofobia foi abordada em outros artigos do CEIRI Newspaper, pois existem fatores que também estão ligados aos processos de migração que ocorrem na Europa, assim como a instabilidade política da região. Mas, o que parecia ser um fenômeno isolado contra a atividade turística, tem se diversificado e estendido por várias cidades, forçando as autoridades locais a buscar soluções e a discutir com a população.

Em Barcelona houve uma grande mobilização social para a proibição dos aplicativos de estadia, já que eles impactam no preço do aluguel e também aumentam o déficit habitacional da cidade. Em Palma de Mallorca, o Governo estuda aprovar uma lei que obrigue aos proprietários de imóveis vazios a alugar seu imóvel com contratos de longa duração.  Em Madrid e outras cidades alguns aplicativos de transporte foram proibidos, ou tiveram algumas de suas modalidades eliminadas e, em quase todas as cidades, existe uma taxa para turistas que vai de 1 a 15 Euros.

No Brasil, o turismo, por outro lado, é visto pelos especialistas do setor como a salvação para a arrecadação de diversos municípios, embora faltem planejamento das pequenas prefeituras, capacitação, infraestrutura, dentre várias necessidades. Existem cidades que são exemplos, tais como Campos do Jordão, Balneário Camboriú, Gramado, Ilha Bela, ou Capitólio. Ainda assim, existe muito a ser feito.

A paradiplomacia pode ser uma forma interessante de gerar sinergia entre cidades brasileiras e cidades estrangeiras similares que tenham superado esses desafios. Mais de 80% do turismo brasileiro é doméstico e apenas 6 milhões de turistas estrangeiros visitam o território nacional (a Espanha, que tem o tamanho do Estado de Minas Gerais, recebeu 50 milhões de turistas em 2016). O maior desafio do país é a falta de infraestrutura e promoção.

O turismo no Brasil – conforme a opinião dos operadores europeus –  é excessivamente caro em comparação até mesmo com destinos na Europa ou Estados Unidos; além disso, tem a infraestrutura limitada; a oferta, embora diversificada, é pouco explorada; o patrimônio histórico é pouco conservado; e a cultura tradicional de determinadas regiões são infra valorizadas por outras. Diante do quadro e dos exemplos mundiais, estimular o setor no caso do Brasil ajudaria na arrecadação dos municípios, porém a cidade deve ser competitiva e produzir recursos por volume e não apenas por um aumento dos preços.

Em relação a visão dos turistas, existem fatores culturais que influenciaram o cidadão brasileiro a ser mais acolhedor. Como as cidades possuem uma série de deficiências, o turismo poderia ser a causa de melhorias e não de degradação, ao menos em alguns municípios.

Favela em Angra dos Reis, um dos maiores destinos do Brasil

Na Europa existe uma guerra contra o turismo. No Brasil talvez ele seja a salvação de pequenos municípios com baixa arrecadação, pouca capacidade de articulação para obter mais recursos do governo do Estado e do governo Federal, e que acabam sendo centros de desigualdade, onde turistas com grande poder de compra se alojam em pensões improvisadas ou em resorts exclusivos em cidades sem nenhuma infraestrutura adequada, nem benefícios para a população local, mas somente para os turistas. A situação é parecida com a reclamação dos europeus, porém sem a infraestrutura existente por lá, o que indica que o equilíbrio entre as demandas da população, dos turistas e dos atores envolvidos, podem ser as chaves para o sucesso.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1mensagens turismofóbica em Barcelona” (Fonte):

Https://i1.wp.com/www.carlosgarciaweb.com/wpcontent/uploads/2014/12/turismofobia6.jpg

Imagem 2Favela em Angra dos Reis, um dos maiores destinos do Brasil” (Fonte Banco de imagens: Luciana Whitacker):

http://www.pulsarimagens.com.br/listing/detail/1000?tombo=02LW019&strTipo=image

EUROPANOTAS ANALÍTICASPOLÍTICA INTERNACIONAL

Mediterrâneo e as águas do medo e do racismo

Há pouco mais de 70 anos, mais de 20 milhões de europeus buscaram refúgio durante a II Guerra Mundial e durante as temíveis guerras civis que sacudiram a Europa e região ao longo do século XX. Se incluirmos a esse número os refugiados da I Guerra Mundial e os emigrantes que fugiam dos conflitos sociais e das crises econômicas do final do século XIX e início do século XX, esse número supera facilmente as 50 milhões de pessoas, segundo historiadores.

Parte dessa geração continua viva e hoje constitui um elemento importante na formação da identidade dos países que acolheram esse grande contingente e que absorveram elementos de seus costumes tais como o Brasil, Estados Unidos, Canadá, Argentina, Chile, México, dentre outros.

Barco com imigrantes espanhóis com destino América Latina

Para essas pessoas, as águas do Oceano Atlântico representavam uma nova esperança, liberdade para começar de novo, nostalgia e também temor a um horizonte desconhecido, alimentado pela visão perene de uma América indomada, porém próspera, construída desde a colonização. O ciclo das grandes migrações durou até metade do século XX e voltou com força durante a crise europeia.

Na América, cada país apresentou seu próprio processo de absorção dos imigrantes, sendo este mais fácil em algumas nações com políticas mais abertas e até mesmo programas de incentivo à migração e em outros mais complexo, devido ao elevado volume de migrantes, ou até mesmo devido as diferenças culturais presentes.

Essa experiência humana, social e política derivada dos grandes fluxos migratórios e da movimentação global de refugiados deu origem a diversos protocolos e tratados internacionais, porém, nos últimos anos, tem sido visto um retrocesso importante e que afeta a milhões de pessoas, colocando em risco o futuro da mobilidade internacional.

Os processos migratórios são observados como uma questão de Estado, seja no Estados Unidos de Donald Trump, na Venezuela de Nicolás Maduro ou na União Europeia e seus múltiplos players.

O famoso muro entre Estados Unidos e México possui suas réplicas na Europa, Oriente Médio, África e até mesmo na América Latina.  A xenofobia aumenta conforme o atrito das nações e a espetacularização de um processo tão humano quanto respirar, pois toda humanidade é fruto dessas dispersões geográficas promovidas pela migração.

Barco fretado e símbolo dos Identitários

Recentemente, na Europa, um grupo de jovens entre 18 e 25 anos, autodenominados Identitários, decidiram alugar um barco com o objetivo de impedir o salvamento de refugiados e imigrantes nas aguas do mediterrâneo. Segundo esses jovens, eles estão salvando a identidade europeia e evitando uma invasão migratória. Apoiam-se nos ideais conservadores de extrema direita europeia e cada dia aumenta seu reforço entre os europeus.

O Mediterrâneo é palco diário da chegada de barcos com centenas de imigrantes e refugiados, que se lançam em suas águas buscando melhores condições de vida e, alguns casos, apenas sobreviver. Muitos morrem pelo caminho.

Várias questões podem ser levantadas em relação às ideias que levam esses jovens a se mobilizarem para impedir a ajuda humanitária realizada pelas autoridades europeias, em lugar de reivindicar a geração de políticas de integração ou lutar por melhorias e maior intervenção das potências europeias nos países emissores de emigrantes.

Além do paradoxal de sua ação política o seu discurso também possui argumentos tênues, ao defender uma identidade europeia que está constantemente sendo questionada pelos processos políticos e sociais dentro da própria União Europeia e que está em constante construção.

Ao falar de identidade europeia não fica muito claro ao que se refere o grupo dos identitários, pois, ao final, o Bloco europeu possui cidadão brancos e morenos ao sul da Europa, católicos, protestantes, ortodoxos, além de um importante número de cidadãos muçulmanos e de estar negociando a adesão de países onde o islã é a religião oficial. O Bloco detém mais de 20 línguas oficiais, diferentes identidades nacionais e inclusive muitos países se caracterizam pelo multinacionalismo, como é o caso da Espanha, de modo que, analisando a própria construção da União Europeia e os próprios fatores de integração e formação social, pode-se inferir que o grupo dos identitários não é movido pelos ideais de uma Europa global e  integradora, nem por uma identidade europeia consolidada, mas pela xenofobia, pelo ufanismo e pelo racismo.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Pequeno Aylan, cuja foto comoveu o mundo, mas que se soma a de várias crianças” (Fonte):

http://periodicoespacio.com/wp-content/uploads/2015/09/CN74GoKUEAAF-bq_opt.jpg

Imagem 2  “Barco com imigrantes espanhóis com destino América Latina” (Fonte):

http://www.jaberni-coleccionismo-vitolas.com/images/Grandes_Tabaqueros/Barco-Inmigrantes.jpg

Imagem 2  “Barco fretado e símbolo dos Identitários” (Fonte):

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EUROPANOTAS ANALÍTICASPOLÍTICA INTERNACIONAL

O Rei da Espanha visita o Reino Unido

Desde 1986 não havia uma visita oficial do Chefe de Estado espanhol ao Reino Unido.  Após 30 anos, ambas as casas reais voltaram a se encontrar na semana passada, com o objetivo de estreitar laços entre as duas nações, após o início do Brexit (processo de saída do Reino Unido da União Europeia). A Espanha foi representada pelo Rei Felipe VI e a Rainha Consorte, Dona Letizia Ortiz; já o Reino Unido foi representado pela Rainha Elizabet II e toda a família real britânica. As duas coroas – concorrentes em um passado já distante – possuem pontos de interesse e de atrito.

O Reino Unido é o maior destino dos investimentos espanhóis dentro da Europa, já a Espanha é o segundo país que mais recebe divisas britânicas. O maior grupo de visitantes do país ibérico são os britânicos. A título de exemplo, somente no ano passado (2016) mais de 17,8 milhões visitaram a Espanha. A balança comercial entre estes países supera os 30 bilhões de euros, sendo a mesma positiva para Espanha, com uma pauta de produtos bastante diversificada. Por último, o Reino Unido é um dos principais destinos para jovens profissionais e estudantes espanhóis.

Sendo assim, a relação entre os dois Estados vai além dos interesses da União Europeia e ela é importante para as duas nações, mesmo após uma ruptura do Reino Unido com o Bloco europeu.

Enclave de Gibraltar (Reino Unido) ao sul da Espanha

Por outro lado, a situação de Gibraltar – Um pequeno enclave britânico em território espanhol – além da situação dos imigrantes espanhóis no Reino Unido, e vice-versa, são os pontos de atrito que ambas Coroas tratam de suavizar como se de um problema familiar se tratasse. Enquanto isso, na Espanha, o processo de independência da Catalunha continua em discussão e o Governo da região autônoma já convocou um plebiscito de caráter oficial para a cisão definitiva do território. No Reino Unido, as tensões com a Escócia também são crescentes, embora, de momento, sem a mesma expressão política que existe na Espanha.

Durante a visita oficial, a mídia de ambos os países deixou em segundo plano os acontecimentos nacionais e internacionais e se focaram nos eventos organizados pela família real, tais como os desfiles de carruagens, os bailes e as festas para nobreza e para um grupo de empresários das maiores empresas da Espanha.

Foi uma visita que aconteceu em plena época de mudanças na União Europeia e no mundo, mas que ao mesmo tempo nos remete a um passado perene da própria região, quando o povo discutia os acontecimentos da nação, mas as decisões eram tomadas nas altas esferas da realeza. E, mesmo que, hoje, as famílias reais sejam mais simbólicas e tenham menos poder, ainda assim são um importante ingrediente no softpower das nações e revelam uma Europa em mudança, mas que não renega do seu passado, e onde os símbolos antigos se chocam com as novas instituições, gerando no subconsciente coletivo o que Europa sempre foi e o que será.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Desfile em Londres do Rei Felipe VI, na carruagem com a Rainha Elizabet II” (Fonte):

http://www.eliberico.com/cientos-de-personas-reciben-a-los-reyes-de-espana-a-las-puertas-de-buckingham.html#prettyPhoto/0/

Imagem 2Enclave de Gibraltar (Reino Unido) ao sul da Espanha” (Fonte):

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/a/a9/The_Port_of_Gibraltar_%28Aerial_View_from_the_North_West%29.jpg

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União Europeia: Intolerância e xenofobia versus integração e inserção

Nos últimos anos a União Europeia foi testemunha da eclosão de uma série de processos sociais e culturais que são frutos da tensão acumulada ao longo do tempo e que foram negligenciados pelo Bloco, bem como sepultados pelos discursos de integração. A radicalização da sociedade é o pior reflexo dessa negligência, gerando uma divisão da mesma e dando espaço para o surgimento de movimentos extremistas ou a adesão de vários jovens europeus a causas fundamentalistas, tais como o Estado Islâmico (EI).

Mesmo que esteja presente desde a sua fundação, a multiculturalidade da União Europeia não levou em consideração a própria formação demográfica dos países membros e os efeitos da ampliação do Bloco, assim como outros processos humanos, tais como a migração e a mobilidade internacional.

Policiais franceses obrigam mulher a tirar seu véu na praia

Atualmente, a região é um mosaico de culturas, povos, etnias e religiões, com fortes avanços em algumas áreas e grandes retrocessos em outras, principalmente no que tange as minorias.

Se por um lado a Alemanha aprovou o casamento LGBT, por outro, países como a França proíbem o uso de algumas das vestimentas típicas da cultura islâmica (ainda que o país possua uma considerável comunidade muçulmana). No entanto, o atrito entre culturas não afeta somente a convivência na União Europeia, mas também se reflete em setores cuja principal característica é justamente essa confluência de pessoas diferentes e o turismo é um deles. A turismofobia é crescente em cidades com um elevado fluxo de turistas. Cidades como Barcelona, cujo turismo representa mais de 15% do PIB e recebe mais de 11 milhões de turistas ao ano, consideram paradoxalmente que a atividade turística é um dos seus principais problemas. A inflação dos preços é um dos essenciais motivos para esse repúdio crescente, mas também a vinda de turistas não tradicionais como indianos, russos e até mesmo cidadãos de outros países da União, que são acusados de deteriorar o patrimônio público e afetam a rotina da cidade.

Manifestações contra os turistas em Barcelona

A sociedade europeia, talvez pelo fato de ser testemunha de diversos processos sociais e centro de mudanças e revoluções importantes, é uma das regiões do mundo onde se refletem as principiais questões globais, desde os benefícios do processo de globalização como também dos paradigmas mundiais. E mesmo com um discurso de construção de uma identidade europeia desde a concepção do Tratado de Roma, observa-se que, na prática, ainda existem pontos conflitivos e que alguns casos chegam a evidenciar essa multipolaridade cultural, como atualmente o fez o processo de cisão entre o Reino Unido e a União Europeia (Brexit), sendo um dos principais argumentos a situação da migração interna. A mesma situação se dá também em outros países da União que recebem migrantes de nações do Bloco.

No caso das minorias, todo avanço ou recesso é potencializado pelos holofotes da mídia e rapidamente ganha as redes sociais, porém não existe um movimento da própria União Europeia de analisar esses processos como parte integrante de uma contínua mudança pela qual ela passa e que, sem dúvidas, irá refletir na criação de uma identidade europeia.

Da mesma forma que a microeconomia reflete processos macroeconômicos e vice-versa, tal vez seja interessante tomar esse exemplo como parâmetro e analisar como as mudanças em pequenos grupos impactam em toda a sociedade, seja para aumentar a equidade e igualdade, seja para gerar maiores cisões.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Espaço Schegem” (Fonte):

https://urbanismoguerra.files.wordpress.com/2015/09/rotas_migratorias_europa.jpg

Imagem 2Policiais franceses obrigam mulher a tirar seu véu na praia” (Fonte):

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Imagem 3Manifestações contra os turistas em Barcelona” (Fonte):

https://static.hosteltur.com/web/uploads_c/2016/04/B_1a8a090c67464a4cef512393faab7b42.jpg

EUROPANOTAS ANALÍTICASPOLÍTICA INTERNACIONAL

Brexit e União Europeia: novos desafios e dúvidas

Existem mais de 3,3 milhões de cidadãos europeus que vivem no Reino Unido, sendo sua situação jurídica uma preocupação, após a ativação do Artigo 50 do Tratado da União Europeia*.

Primeira Ministra do Reino Unido, Theresa May, e o Presidente dos EUA, Donald Trump

A imigração foi um dos temas chaves para a aprovação do Referendum e motivo de pressões internas e externas que dividiram a sociedade britânica. Porém, conforme avança o processo de separação da União Europeia (UE), muitas dúvidas vão surgindo, principalmente após o enfraquecimento da líder britânica Theresa May e o aumento das tensões com a Escócia.

A cisão britânica ocorre em um cenário de recuperação europeia e de um Reino Unido ameaçado pelo terrorismo e sem uma relação clara com seu histórico parceiro, os Estados Unidos, motivo que levou ao Governo britânico a buscar soluções mais diplomáticas com a União Europeia, oferecendo aos cidadãos europeus 5 anos para estarem em igualdade de direitos com os cidadãos britânicos.

A União Europeia, por outro lado, continua com o processo de separação, retirando de Londres a sede da Agência Europeia de Medicamentos e a Autoridade Bancaria Europeia, embora as opiniões dos países membros em relação ao Brexit sejam diversas.

A Cúpula dos Chefes de Estado e de Governo da União Europeia, realizada ao longo da semana passada, foi utilizada pelos britânicos como uma ponte para apresentar suas propostas, mesmo não participando do encontro como país membro. Autoridades da França e da Alemanha acolheram com cautela as propostas britânicas e preferem falar do futuro da União Europeia sem a participação do Reino Unido, mas o presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk, mostrou sua esperança de que o Brexit não chegue a se concretizar. Outras nações como a Holanda instaram o Reino Unido a se decidir de forma imediata sobre o que realmente deseja.

Tudo indica que o processo de separação será mais dilatado do que o planejado e apresentará novos desafios e dúvidas. Essa incerteza também paira sobre o Governo britânico, cuja formação após as eleições já começa a ser questionada, o que dificulta o avanço do processo e a internalização jurídica dos acordos realizados com a Europa.

Em azul os partidários do Brexit em amarelo os contrários

Em relação a possibilidade de uma desistência britânica, não seria um processo simples e deveria ser altamente legitimado, tanto pela população europeia quanto pela população britânica, assim como inserido em uma nova conjuntura jurídica que, de fato, não existe. Além disso, deveria analisar seu impacto no próprio projeto europeu e no discurso da União Europeia, sendo mais viável a formulação de uma parceria sem adesão ao Bloco, tal como fez a Suíça e outras nações vizinhas, ou inclusive gerar um novo modelo.

De qualquer forma, acredita-se que a decisão britânica de se separar da União Europeia talvez tenha sido precipitada e, assim como em um processo de divórcio, mesmo se houver uma reconciliação dificilmente ela poderá ocorrer em condição similar.

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Nota:

* TRATADO DA UNIÃO EUROPEIA (versão consolidada disponível no Parlamento)

ARTIGO 50o

  1. Qualquer Estado-Membro pode decidir, em conformidade com as respetivas normas constitucionais, retirar-se da União.
  2. Qualquer Estado-Membro que decida retirar-se da União notifica a sua intenção ao Conselho Europeu. Em função das orientações do Conselho Europeu, a União negocia e celebra com esse Estado um acordo que estabeleça as condições da sua saída, tendo em conta o quadro das suas futuras relações com a União. Esse acordo é negociado nos termos do no 3 do artigo 218o do Tratado sobre o Funcionamento da União Europeia. O acordo é celebrado em nome da União pelo Conselho, deliberando por maioria qualificada, após aprovação do Parlamento Europeu.
  3. Os Tratados deixam de ser aplicáveis ao Estado em causa a partir da data de entrada em vigor do acordo de saída ou, na falta deste, dois anos após a notificação referida no no 2, a menos que o Conselho Europeu, com o acordo do Estado-Membro em causa, decida, por unanimidade, prorrogar esse prazo.
  4. Para efeitos dos no 2 e 3, o membro do Conselho Europeu e do Conselho que representa o Estado-Membro que pretende retirar-se da União não participa nas deliberações nem nas decisões do Conselho Europeu e do Conselho que lhe digam respeito. A maioria qualificada é definida nos termos da alínea b) do no 3 do artigo 238.o do Tratado sobre o Funcionamento da União Europeia.
  5. Se um Estado que se tenha retirado da União voltar a pedir a adesão, é aplicável a esse pedido o processo referido no artigo 49o.

Conferir:

http://eur-lex.europa.eu/resource.html?uri=cellar:9e8d52e1-2c70-11e6-b497-01aa75ed71a1.0019.01/DOC_2&format=PDF

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Brexit” (Fonte):

https://pixabay.com/p-2070857/?no_redirect

Imagem 2Theresa May e Donald Trump” (Fonte):

https://c1.staticflickr.com/5/4181/34617656122_05a96300ab_b.jpg

Imagem 3Em azul os partidários do Brexit em amarelo os contrários” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Referendo_sobre_a_perman%C3%AAncia_do_Reino_Unido_na_Uni%C3%A3o_Europeia_em_2016#/media/File:United_Kingdom_EU_referendum_2016_area_results_2-tone.svg

ANÁLISES DE CONJUNTURAEUROPA

As novas metas da União Europeia

A União Europeia (UE) continua seu projeto de integração e reformulação visando sair fortalecida e preparada para um novo posicionamento geopolítico. Tal postura está sendo mantida, mesmo após 10 anos de crise econômica e de enfrentar uma crescente instabilidade política e social, causada tanto pelos reflexos das políticas de austeridade como por assuntos sociais, tais como a imigração e o terrorismo. Além disso, deve-se acrescentar a crise provocada pela saída de uma das principais economias da região, bem como ter de enfrentar a ameaça de outras desistências, alimentadas por um crescente populismo.

A saída do Reino Unido, os atritos com a gestão Trump e com a Rússia, as novas tendências globais e as novas ameaças promoveram uma reflexão e reposicionamento da União. Atualmente, o Bloco voltou a negociar com o Mercosul e acredita que um acordo seja assinado até o final de 2017; as negociações com o Canadá também evoluem rapidamente; assim como a retomada das solicitações de adesão ao Bloco Europeu.

A retirada dos Estados Unidos do Acordo de Paris fortaleceu a posição da União Europeia como maior promotor de cooperação internacional para o desenvolvimento, sendo o grupo responsável por mais de 60% de todos os recursos dedicados a esta atuação.

Conselho Europeu

A Comissão Europeia e o Parlamento Europeu assinaram na semana passada o chamado Consenso Europeu sobre o desenvolvimento”, no qual os países membros do Bloco se comprometem em manter o fluxo de recursos e ações para a cooperação internacional e intensificar as atividades que promovem o desenvolvimento das regiões mais carentes. Dessa forma, grupo europeu deseja transmitir ao mundo uma mensagem de coesão e futuro, focados no desenvolvimento e preservação do meio ambiente.

Atualmente, a Europa oferece subvenções e financiamentos, além de projetos de investimento social para todas as regiões do planeta, destacando-se que empresas e instituições interessadas podem participar em seus editais disponíveis no site da Europeaid.

O discurso da UE surge na semana de aniversário do maior projeto de mobilidade acadêmica do planeta, o programa Erasmus, que, após 30 anos, teve mais de 9 milhões de participantes e 1 milhão de bebês que nasceram entre os participantes durante o programa, sendo o mesmo ampliado para terceiros países, tais como o Brasil.

O Erasmus, assim como os projetos de cooperação internacional compõem a agenda estratégica da União Europeia e os pontos chaves do Programa Horizon 2020, nos quais se planeja superar as metas e compromissos contraídos na comunidade internacional e na agenda internacional.

Mapa das áreas do EuropeAID. Confirmadas a cada 17 anos

A Europa, dessa forma, busca voltar à liderança, mas através do softpower de suas ações, tomando a iniciativa em setores promissores e inovadores que aos poucos estão ganhando notoriedade mundial e que, no futuro, podem pautar novamente a balança de poder, tais como a distribuição de recursos hídricos, o desenvolvimento agropecuário, o meio ambiente e as energias renováveis.

Embora o cenário político de alguns países continue instável, como no caso da Espanha, o crescimento econômico da região e os resultados das eleições na França ajudaram a retomada da agenda internacional do Bloco, e mesmo com as futuras eleições na Alemanha, a União Europeia aos poucos parece encontrar seu novo caminho no panorama mundial que se desenha, ou, ao menos indica que nas altas esferas do grupo europeu já existe um consenso.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Parlamento Europeu” (Fonte):

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/1/11/European-parliament-strasbourg-inside.jpg

Imagem 2Conselho Europeu” (Fonte):

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/8/84/European_Commission.svg/2000px-European_Commission.svg.png

Imagem 3Mapa das áreas do EuropeAID. Confirmadas a cada 17 anos” (Fonte):

https://ec.europa.eu/europeaid/sites/devco/files/blending-worldmap-2015_2285x1405_300dpi_v2.jpg