NOTAS ANALÍTICAS

Brasil recebe estudos sobre a vacina russa Sputnik V

Na corrida contra o tempo no combate a COVID-19, a Federação Russa se tornou o primeiro país do mundo a registrar uma vacina contra o coronavírus, que foi batizada de Sputnik V, alegadamente em alusão ao lançamento bem-sucedido do primeiro satélite espacial realizado pela União Soviética, em 1957, e que foi o gatilho para a intensificação da pesquisa espacial em todo o mundo.

Registrada em 11 de agosto (2020) pelo Ministério da Saúde da Rússia e, posteriormente, apresentada à comunidade global pelo presidente russo Vladimir Putin, a vacina foi alvo de desconfiança por vários países devido ao imunizante, pois, segundo especialistas, não obedecia aos padrões farmacêuticos internacionais, tendo o seu registro efetivado antes da conclusão da terceira e última etapa de testes, que é considerada pela comunidade científica como a mais importante para poder ser liberada massivamente.

Logotipo do RDIF

Paralelamente a isso, o Fundo de Investimento Direto da Rússia (RDIF, na sigla em inglês) vê um grande interesse pela vacina no mundo e planeja realizar a terceira fase de testes clínicos em vários países, incluindo Arábia Saudita, EAU, Brasil e Filipinas, bem como iniciar a produção em larga escala com parceria dos fundos soberanos desses países, inclusive na Índia e Coreia do Sul. Além disso, estão sendo estudadas as possibilidades de produção na Arábia Saudita, Turquia e Cuba.

Logotipo do Tecpar

O Brasil, por sua vez, já recebeu, através do Instituto Tecnológico do Paraná (Tecpar), todas as informações sobre o desenvolvimento da imunização, além das pesquisas clínicas já realizadas pelo Instituto Gamaleya*, da Rússia. O estudo, com mais de 600 páginas, será verificado pelo Comitê Técnico Interinstitucional de Cooperação para Pesquisa, Desenvolvimento, Testagem, Fabricação e Distribuição de Vacina contra Sars-CoV-2 (COVID-19), instituído pelo governador paranaense, Carlos Massa Ratinho Junior (PSD), e coordenado pela Casa Civil, que será responsável por desenvolver a pesquisa com a Sputnik V, mas, momentaneamente, não divulgará dados para a comunidade científica brasileira devido a um memorando de intenções de parceria entre a Tecpar e Gamaleya, onde foi acertado um termo de confidencialidade, a partir do qual todas as informações foram compartilhadas para que o Tecpar elabore seu protocolo de validação para a realização da fase 3 da pesquisa clínica no estado brasileiro.

De acordo com o diretor-presidente do Tecpar, Jorge Callado, o estudo tem indicativos bastante positivos com os quais se permitiu iniciar a elaboração do protocolo de validação para a fase 3 de estudos clínicos da vacina russa no país, onde o Governo do Paraná deverá submetê-lo à Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) dentro dos próximos trinta dias, além de também submetê-lo à Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep).

Só depois da aprovação dos protocolos por parte da Anvisa é que poderão ser iniciados os processos de importação das doses provindas do Instituto Gamaleya e, paralelamente, começará a triagem dos voluntários para os testes. Segundo Callado, os testes serão realizados nos hospitais universitários da rede pública. Num primeiro momento serão selecionados voluntários dentro dos profissionais de saúde que estão atuando diretamente no enfrentamento da pandemia. Na sequência, será expandido para outras pessoas no grupo de risco, sendo que a amostragem inicial envolverá cerca de 10 mil voluntários.

Caso a efetividade da vacina na fase 3 seja comprovada, se buscará o registro do medicamento em território brasileiro e a distribuição possivelmente será realizada pelo Ministério da Saúde do Brasil. O estado do Paraná, como pioneiro nos testes, poderá estruturar um processo produtivo local, tanto com investimento federal como também com investimento por parte do Fundo de Investimento Direto da Rússia, além do compromisso da transferência de tecnologia.

Atualmente, segundo fontes de pesquisa, existem cerca de 165 vacinas diferentes que estão sendo desenvolvidas em todo o mundo contra a COVID-19. Os principais tipos incluem: as baseadas em vetores virais; as baseadas em vírus; as baseadas em ácidos nucleicos e proteínas. A princípio, mesmo com a confidencialidade dos dados da Sputnik V, o que se tem conhecimento é que a vacina russa se baseia em vetor de adenovírus, que essencialmente são portadores que podem “entregar” material genético de um outro vírus para uma célula.

Esquema de vacina de dois vetores de coronavírus

As vacinas de vetores de adenovírus funcionam da seguinte forma:

–  O material genético do adenovírus que causa a infecção é removido e o material com um código de proteína de outro vírus, neste caso de um coronavírus, é inserido;

– O elemento inserido ajuda o sistema imunológico a responder e produzir anticorpos que protegem contra infecções;

A plataforma tecnológica de vetores baseados em adenovírus torna mais fácil e rápido criar novas vacinas por meio da modificação do vetor transportador inicial com material genético de novos vírus emergentes. Os adenovírus humanos são considerados os mais fáceis de modificar, razão pela qual se tornaram muito populares como vetores.

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Nota:

* O Centro Nacional de Pesquisa em Epidemiologia e Microbiologia, nomeado em homenagem ao acadêmico honorário N.F. Gamaleya, é uma instituição de pesquisa líder no mundo em seu campo. O centro foi fundado em 1891 como um laboratório privado. Em 1949 recebeu o nome de Nikolai Gamaleya, pioneiro da pesquisa russa em microbiologia. Nikolai Gamaleya estudou no laboratório do biólogo francês Louis Pasteur em Paris e abriu a segunda estação de vacinação contra a raiva do mundo, na Rússia, em 1886. No século 20, Gamaleya, tornando-se um dos líderes do centro, lutou contra epidemias de cólera, difteria e febre tifóide e foi um dos organizadores de campanhas de vacinação em massa na URSS.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Vacina Sputnik V” (Fonte):

https://sputnikvaccine.com/upload/iblock/8bd/8bd2349d736c14accd649abe0ec84ba8.jpg

Imagem 2Logotipo do RDIF” (Fonte):

https://rdif.ru/Eng_Index/

Imagem 3 Logotipo do Tecpar” (Fonte):

http://www.tecpar.br/

Imagem 4 Esquema de vacina de dois vetores de coronavírus” (Fonte):

https://sputnikvaccine.com/ajax/get-webp.php?path=/local/templates/sputnik/img/infographics/prt.png&crc=f2ef65439f4460ba1c846fbaede75dc0

About author

Mestrando no programa de Governança Global e Formulação de Políticas Internacionais (PUC-SP) na linha de pesquisa em Cooperação Internacional. Especialista em Política e Relações Internacionais (FESPSP) e habilitado em Iniciação Científica em Defesa, pela Escola Superior de Guerra (ESG-RJ). Cursou MBA em Economia de Empresas (FEA-USP) e graduou-se como Bacharel em Ciências Econômicas (CUFSA). Especialista em Docência no Ensino Superior (SENAC) atuou durante 7 anos como educador voluntário no Projeto Formare da Fundação Iochpe, ministrando aulas sobre Ética, Sociedade, Política e Democracia. Como articulista no Centro de Estratégia, Inteligência e Relações Internacionais (CEIRI) escreve sobre política e economia da Eurásia.
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