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Recentemente, o Brasil rejeitou a indicação de Dani Dayan para Embaixador de Israel em Brasília. Dayan é de origem argentina, tendo emigrado para Israel em 1971, aos 15 anos de idade. Defensor dos assentamentos na Cisjordânia, o empresário e político israelense enfrenta a oposição da esquerda de seu país, o que, segundo informações, influenciou na decisão do Governo brasileiro ao rejeitar o seu nome para chefiar a representação diplomática israelense no Brasil.

De acordo com várias fontes, a recusa de Dayan, pelo Brasil, não foi imparcial. Para além da ausência de análise sobre as suas qualificações para o posto de diplomata, a atuação de três Embaixadores veteranos de IsraelAlon Liel, Ilan Baruch e Elie Bernavi[1] –, somada à inquietação de movimentos sociais brasileiros relativamente ao nome do novo diplomata e ao fato de ele viver em um assentamento[2], foram as condicionantes que determinaram o veto brasileiro para a indigitação do PrimeiroMinistro de Israel, Benjamin Netanyhau. Embora a mensagem rechaçando a nomeação do novo Embaixador tenha ocorrido através dos canais diplomáticos, a imprensa brasileira tem dado ênfase ao incômodo da presidente Dilma Rousseff, ao saber que Dani Dayan reside nos Territórios Ocupados[3].

A atuação dos três diplomatas israelenses junto ao Governo brasileiro gerou contestação por parte de lideranças políticas de Israel. O Ministro da Defesa, Moshe Yaalon, escreveu em sua página do Facebook: “Esses cidadãos israelenses (os três ex-Embaixadores e militantes de esquerda) perderam toda a vergonha (…). É por causa de atitudes assim que Israel vive sob ataque do mundo e sujeito a tentativas de deslegitimá-lo[4]. A deputada social-democrata, Shelly Yachimovich, militante do Partido Trabalhista, mostrou-se indignada com a atitude tomada por pessoas de seu campo político, tendo declarado: “por que vocês não moveram montanhas aqui? É inadmissível fazer isso através de um governo estrangeiro[5].

Em contrapartida, Alon Liel, um dos envolvidos na campanha contra Dani Dayan, em entrevista à Rádio das Forças Armadas de Israel, justificou-se ante o fato de ter optado por apresentar a sua objeção a Dayan ao Brasil e não diretamente a Israel, afirmando que, “se eu considerasse que meu campo político pudesse chegar ao poder, agiria aqui. Mas minha ideologia não tem chances em eleições num futuro próximo. Daí a decisão tomada. A solução de dois Estados (um palestino, outro israelense) só será salva se apelarmos à comunidade internacional[6].

O fato de Dayan ser o líder dos colonos israelenses justifica a desaprovação por parte do Governo brasileiro, que considera que, se o aceitasse, tal gesto poderia significar apoio aos assentamentos de Israel. Esta situação acaba por colocar Netanyhau numa situação delicada pois, se ocorrer uma rejeição formal por parte do Brasil, as relações diplomáticas entre os dois países poderão vir a ser danificadas, o que Israel não pretende, na medida em que aquele país considera o Brasil como o parceiro estratégico e econômico mais importante da América do Sul[7].

O foco da negativa brasileira a Dayan está centrada na posição do Governo em relação ao conflito israelo-palestino que, por sua vez, envolve questões complexas e necessita de imparcialidade e de abertura para sua resolução a partir de novos projetos. Ao contrário do que se supõe, e conforme análises, Dani Dayan não é um extremista. Ele não é um religioso, mas um secular, sendo um homem pragmático, contrário à violência de colonos e de soldados israelenses contra os palestinos[8]. Defensor de um Estado binacional, para israelenses e palestinos, Dayan tem apresentado em artigos publicados em diversos jornais, de âmbito nacional e internacional, a necessidade de acolhimento e de reconhecimento, dentre outros, dos talentos e profissionais palestinos por Israel.

De acordo com um artigo publicado no jornal The New York Times, em 2014, Dayan traçou uma proposta de paz para os dois povos, na qual defendeu melhorias nas condições de vida e a inclusão dos palestinos no mercado de trabalho em Israel, tal como o fim das barreiras e restrições aos palestinos, para que possam circular livremente em território israelense. Para Dayan, “Israel, em conjunto com a comunidade internacional, deve tomar medidas para se melhorar a infraestrutura de água, esgotos, transporte, educação e saúde, com o objetivo de reduzir as enormes lacunas existentes entre as sociedades israelense e palestina[9].

A ideia de reconciliação pacífica entre israelenses e palestinos é uma iniciativa plausível para um futuro de paz entre as duas sociedades e merece ser levada em consideração pela comunidade internacional, independentemente das apropriações ideológicas. Neste contexto, cabe ao Governo brasileiro reavaliar a sua posição de modo independente e, assim, fortalecer as relações diplomáticas com Israel, com base no respeito mútuo e de acordo com o Direito Internacional, sem interferências internas ou externas, de modo a manter-se autônomo e forte o suficiente para resistir às pressões sem perder a capacidade de diálogo e a fidelidade aos princípios democráticos inscritos na Constituição Brasileira.

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Imagem Dani Dayan, o Embaixador israelense que o governo brasileiro rejeitou por oposição ideológica” (Fonte):

http://static01.nyt.com/images/2012/08/18/world/dayan/dayan-superJumbo.jpg

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Fontes Consultadas:

[1] Ver:

http://correiodobrasil.com.br/dilma-veta-novo-embaixador-de-israel/

[2] Ver:

http://noticias.terra.com.br/brasil/politica/brasil-rejeita-nomeacao-de-ex-dirigente-colono-como-embaixador-de-israel,cc613aefb1623b33715ed120c6974bbbd4248772.html

[3] Ver:

http://noticias.terra.com.br/brasil/politica/brasil-rejeita-nomeacao-de-ex-dirigente-colono-como-embaixador-de-israel,cc613aefb1623b33715ed120c6974bbbd4248772.html

[4] Ver:

http://correiodobrasil.com.br/dilma-veta-novo-embaixador-de-israel/

[5] Ver:

http://correiodobrasil.com.br/dilma-veta-novo-embaixador-de-israel/

[6] Ver:

http://correiodobrasil.com.br/dilma-veta-novo-embaixador-de-israel/

[7] Ver:

http://www.jpost.com/Israel-News/Politics-And-Diplomacy/Settler-leader-Dani-Dayan-appointed-ambassador-to-Brazil-411283

[8] Ver:

http://www1.folha.uol.com.br/mundo/2015/08/1664895-defensor-de-assentamentos-sera-novo-embaixador-de-israel-no-brasil.shtml

[9] Ver:

http://www.nytimes.com/2014/06/09/opinion/peaceful-nonreconciliation-now.html

About author

Possui graduação em Filosofia (bacharelado e licenciatura) pela Universidade Federal do Paraná (1999), com revalidação pela Universidade de Évora (2007), e mestrado em Sociologia (Poder e Sistemas Políticos) pela Universidade de Évora (2010). É doutoranda em Teoria Jurídico-Política e Relações Internacionais (Universidade de Évora). É professora da Faculdade São Braz (Curitiba), pesquisadora especialista do CEFi – Centro de Estudos de Filosofia da Universidade Católica Portuguesa (Lisboa), e pareceirista do CEIRI Newspaper (São Paulo).
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