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Após uma acirrada disputa, o Reino Unido votou por sair da União Europeia em seu Referendum, realizado ontem, dia 23 de junho. Longe de ser uma decisão amplamente favorável, o resultado foi disputado voto a voto, havendo 51,9% dos votantes a favor da saída, frente a 48,1% que desejavam permanecer no Bloco Europeu.

Os efeitos da saída do Reino Unido foram amplamente debatidos dentro e fora da Europa, embora alguns resultados já são visíveis, como a queda do índice das principais bolsas de valores e a reação de outros partidos eurocépticos que já solicitam a realização de um Referendum semelhante na França, Holanda e Itália. Somente após um período maior de tempo, será possível avaliar o impacto total, tanto no Reino Unido como na União Europeia.

Ainda que desconhecido para muitos, a União Europeia possui um mecanismo estabelecido desde sua constituição que contempla a saída de um país membro do grupo. O Artigo 50 do Tratado da União Europeia estabelece que um país dissidente deva notificar ao Conselho Europeu sua decisão soberana de abandonar a União, havendo um período de até 2 anos de negociações, onde são analisados os deveres contraídos através de Tratados e Acordos, as relações futuras com o Bloco e seus integrantes, além de outras questões econômicas e jurídicas.

Dois fatores foram decisivos na discussão britânica, a questão econômica e as políticas migratórias.

O Reino Unido desde sua entrada na União Europeia manteve um status diferenciado em relação à circulação de pessoas – O país não participava no Tratado de Schegen – fato que durante muito tempo sofreu críticas dos demais países do Bloco por dificultar a sonhada integração total do continente. Nos últimos anos, transformou-se no destino de diversos jovens europeus vindos de economias em crise do resto do Bloco, tais como Espanha e Portugal, pressionando o já delicado equilíbrio fiscal e os serviços sociais. Por último, a União Europeia pressionava o Reino Unido em relação aos refugiados, tema que proporcionou força aos partidos de extrema direita.

Na área econômica o Reino Unido não integrava a Zona do Euro. A flexibilização dessa política ficou conhecida como “Europe a la carte, havendo outros Estados que também optaram por esse modelo. Além disso, o elevado grau de financeirização da economia britânica sempre lhe outorgou uma maior autonomia econômica em relação à Europa, o que por um lado pode ajudar o Reino Unido a se recuperar economicamente, mas, por outro, pode afetar suas empresas que se beneficiavam das vantagens de participar do Mercado Comum.

Outro tema discutido durante os debates prévios ao Referendum foi a segurança internacional e o combate anti-terrorismo. Perante essas duas questões não existe consenso, já que o Reino Unido participa da OTAN e possui um histórico considerável de participação no sistema global de segurança, mas por outro lado, ao não integrar a União Europeia, deverá negociar com a mesma as políticas usadas no combate ao terrorismo.

Não somente a União Europeia e o Reino Unido serão afetados pela separação. A economia europeia passa por um momento delicado e o alto grau de internacionalização da mesma, fará com que o impacto financeiro seja distribuído pelo globo. O fluxo produtivo de grandes multinacionais serão afetados, assim como o equilíbrio do mercado de consumo europeu e de países que dependiam da demanda britânica e vice-versa.

Perante esse panorama, e admitindo sua derrota, o primeiro-ministro David Cameron anunciou sua demissão e líderes de toda Europa temem um efeito cascada que leve o Bloco a uma total desintegração.

A União Europeia alcançou o auge da integração regional, nenhum outro Bloco conseguiu desenvolver um projeto semelhante, porém as assimetrias existentes no continente e outros fatores não contemplados durante sua criação, frutos da própria evolução do projeto, levaram-na a um ponto decisivo, onde ou a União Europeia se reformula, ou, aos poucos, os membros que buscam maior autonomia vão abandonar o barco.

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Imagem (Fonte):

http://image.posta.com.mx/sites/default/files/shutterstock_130660901-gedblog-study-brexit.jpg

About author

Pesquisador de Paradiplomacia do IGADI - Instituto Galego de Análise e Documentação Internacional e do OGALUS - Observatório Galego da Lusofonia. Atuou como consultor internacional na área de Paradiplomacia para o Escritório Exterior de Comércio e Investimentos do Governo da Catalunha (ACCIÓ). Formado em Negociações e Marketing Internacional pelo Centro de Promoção Econômica de Barcelona, Bacharel em Administração pela Universidade Católica de Brasília, especialista pós-graduado em Ciências Políticas e Relações Internacionais pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo – FESPSP, MBA em Novas Parcerias Globais pelo Instituto Latino-americano para o Desenvolvimento da Educação, Ciência e Cultura e Mestrando em Políticas Sociais com especialidade em Migrações na Universidad de La Coruña (España), Mestrado em Gestão e Desenvolvimento de Cidades Inteligentes (Smartcities) da Universitat Carlemany do Principado de Andorra e doutorando em Sociologia e Mudanças da Sociedade Global. Fundador do thinktank CERES – Centro de Estudos das Relações Internacionais. Membro da Associação Internacional IAPSS para Estudantes de Ciências Políticas, do Smartcity Council, da aliança Eurolatina para Cooperação de Cidades, ECPR Consório Europeo de Pesquisa Política e da rede Bee Smartcities. Especialista em paradiplomacia, acordos de cooperação e transferência acadêmica e tecnológica, smartcities e desenvolvimento econômico e social. Morou na Espanha, Itália, França e Suíça e atualmente reside na região da Galícia (Espanha).
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