ANÁLISES DE CONJUNTURACooperação Internacional

BRICS e a recuperação econômica pós-pandemia

Segundo especialistas, atualmente o mundo enfrenta um déficit de governança global onde é apresentado um cenário em que os EUA e muitos países da União Europeia (UE) querem manter certo nível de rivalidade com a China e a Rússia, reproduzindo, assim, certa semelhança de comportamento estruturado na época da Guerra Fria.

Este tipo de ambiente é contrário ao que deveria estar se realizando no intuito de elaborar trabalhos em direção a uma ordem internacional comum, e enfrentar conjuntamente desafios comuns, como o que se está sendo configurado com o evento da COVID-19. Relatórios de instituições internacionais descrevem como as atividades das principais instituições de governança global, como o Conselho de Segurança da ONU ou o G20, foram quase completamente obstruídas. Além disso, no contexto do confronto dos EUA com a China e a Rússia, as sanções unilaterais e as guerras comerciais tornaram-se uma realidade duradoura das relações internacionais.

Chefes de Estado do BRICS

A governança global mais fraca e a rivalidade global intensificada tornaram a coordenação de políticas externas e econômicas uma necessidade para países que já se apresentam como alvos de políticas agressivas dos EUA, ou podem no futuro se tornar. Isso é principalmente verdade para a Rússia e a China, mas poderia potencialmente se aplicar à Índia, Brasil e África do Sul.

A COVID-19 se apresentou não só como um desafio mundial contra os preceitos de segurança internacional, principalmente na área da saúde, mas, também, se apresentou como um palco para a rivalidade política que reforçou algumas disputas internacionais e conflitos de ordem econômica, onde, nesse cenário sistemicamente desbalanceado, o BRICS* desponta, segundo analistas, como uma importante instituição de governança global com uma visão comum para intensificar a cooperação. Atualmente, em relação ao mundo, o grupo representa cerca de 42% da população, 23% do PIB, 30% do território e 18% do comércio global.

A nova crise global tornou ainda mais importante a expansão da cooperação econômica entre os países do BRICS. É imperativo acelerar o desenvolvimento de ferramentas econômico-financeiras inovadoras para reduzir a eficácia de eventos de ordem negativa, tais como sanções, crises econômicas ou pandemias.

Logotipo do novo Banco de Desenvolvimento do BRICS

Um primeiro passo foi dado para a manutenção do equilíbrio do grupo com a alocação de 15 bilhões de dólares (cerca de R$ 81,57 bilhões**) pelo novo Banco de Desenvolvimento do BRICS (criado em 2014 em alternativa ao Fundo Monetário Internacional e ao Banco Mundial), no intuito de criar um instrumento de crédito especial para projetos de recuperação econômica pós-pandemia.

Sob um aspecto analítico, o surto de coronavírus teve um impacto fundamental na importância da cooperação dos países do BRICS devido à sua natureza global, tendo como pressuposto a não possibilidade de enfrentar esses desafios como um grupo de apenas cinco membros. Para analistas que estudam o grupo, parcerias ampliadas devem estar entre as prioridades do BRICS, fazendo parte do esforço para os anos futuros com uma maior cooperação como parte do formato de um BRICS+, devendo manter um diálogo com os países mais comprometidos com o objetivo de formar uma ordem mundial policêntrica, buscar uma política econômica independente e ajudar a resolver os problemas globais e regionais.

Como líder rotativo do grupo a partir desse ano, o Presidente russo, Vladimir Putin, terá em mãos um grande desafio em convencer seus parceiros do BRICS a superar a falta de visão comum, especialmente no domínio político, e liderar o grupo para preencher o vazio de governança e combater crises econômicas.

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Notas:

* BRICS é um termo utilizado para designar o grupo de países de economias emergentes formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. “BRICS” é um acrônimo, ou seja, a junção das iniciais de palavras que formam o termo. Seu criador é o economista britânico Jim O’Neill, do grupo financeiro Goldman Sachs, que, em 2001, tentava encontrar uma forma de traduzir o crescimento econômico que seria protagonizado naquela década por Brasil, Rússia, Índia e China. Por conseguinte, empregou a expressão “BRIC”.

Naquele momento, o crescimento brasileiro ainda suscitava dúvidas, bem como a Rússia, que estava estagnada. Já a China apresentava taxas de crescimento elevadíssimas entre os demais e se destacava no cenário econômico mundial.

O estudo realizado por Jim O’Neil foi recebido com imensa satisfação nos países que protagonizam o BRIC. Assim, diante das perspectivas de crescimento e das notas das agências internacionais, os governos do BRIC impulsionaram oficialmente a possibilidade de constituição de um bloco entre esses países emergentes.

O BRIC se constituiu em bloco em 2009 e, desde então, vários encontros periódicos entre esses países foram realizados. Em 2011, mais um Estado foi agregado: a África do Sul. Assim, o BRIC virou BRICS. Contudo, a inclusão da África do Sul gerou críticas da comunidade econômica mundial, pois ela não estaria no mesmo nível de crescimento que os demais membros.

** Cotação do dólar em 30/04/20 >> 1US$ = R$ 5,438.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Bandeiras dos países membros do BRICS” (Fonte): https://brics.ibge.gov.br/

Imagem 2 Chefes de Estado do BRICS” (Fonte): http://brics2019.itamaraty.gov.br/espaco-multimidia/galeria

Imagem 3 Logotipo do novo Banco de Desenvolvimento do BRICS” (Fonte): https://www.ndb.int/

About author

Bacharel em Ciências Econômicas pelo Centro Universitário da Fundação Santo André (CUFSA) e pós-graduado em Economia pela FEA-USP (MBA). Habilitado em Iniciação Científica em Defesa, pela Escola Superior de Guerra (ESG-RJ), e Especialista em Docência no Ensino Superior (SENAC). Atuou durante 7 anos como educador no Projeto Formare da Fundação Iochpe, ministrando aulas sobre Ética, Sociedade, Política e Democracia. Atualmente, é pós-graduando em Política e Relações Internacionais pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP). Tem grande interesse nas áreas de Geopolítica, Relações Internacionais e Economia Política Internacional
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