AMÉRICA LATINAANÁLISES DE CONJUNTURA

Campanha eleitoral venezuelana se desenvolve com expressiva vantagem para Moreno e com a mitificação de Chávez

De acordo com pesquisa eleitoral realizada na Venezuela pela empresa local Datanalisis, publicada pelo “Banco Barclays” e divulgada na segunda-feira, dia 18 de março, o atual presidente venezuelano interino Nicolás Maduro, escolhido por Hugo Chávez como seu herdeiro político, seria eleito hoje com 49,2% dos votos. De acordo com a sondagem apresentada, o candidato opositor, Henrique Caprilles, obteria apenas 34,8% da preferência eleitoral[1].

A situação no país continua tensa devido ao clima de perplexidade e vazio produzido pela morte do ex-presidente Hugo Chávez, bem como pela forma como os membros do Governo trataram a investidura do vice-presidente Nicolás Maduro comoPresidente Interino”, apesar de a Constituição prescrever que o cargo fosse ocupado peloPresidente da Assembléia Nacional”, no caso Diosdado Cabello, para conduzir o processo eleitoral que agora está ocorrendo.

As estratégias eleitorais estão sendo apresentadas e os observadores não acreditam que Caprilles possa conseguir uma vitória, sendo apontado que, provavelmente, a conquista de Maduro tende a ser maior que a de Chávez no ano passado (2012), principalmente pelo efeito que a morte do ex-mandatário está causando aos seus seguidores.

No entanto, os dados apresentados até o momento configuram apenas uma transferência de votos, mas não um avanço do candidato governista, razão pela qual o opositor tem explorado em seu planejamento eleitoral a comparação de Chávez com o seu herdeiro, mostrando que este não se compara com o Ex-Mandatário morto e não tem competência para substituí-lo, menos ainda para conduzir o país diante da atual crise em que este vive, que se expressa desde a esfera política (graças ao vácuo de liderança deixado por Chávez), até a econômica, que passa pelo desabastecimento, por problemas de infra-estrutura, de energia, fuga de capital do país, pouco dinamismo na produção etc., além da insegurança pública que, segundo aponta, o cidadão venezuelano vem sofrendo.

Caprilles tem ressaltado o fato de o governista estar se anulando em relação à imagem do Ex-Presidente, o que denota fraqueza. Vem afirmando: “Nicolás não chega ao tornozelo do presidente Chávez. (…). A maior fraqueza de Nicolás é que parece que ele nem existe, que a campanha é só a imagem do presidente (Chávez) … Nicolás não está à altura. (…). Eu estava lutando boxe contra Cassius Clay! Agora estou enfrentando um outro boxeador, é um jogo diferente… (…). Gostaria de voltar a enfrentar o mesmo atleta. Infelizmente, por decisão de Deus, o presidente morreu” [2].

Além dessas comparações, tem referido ao que não foi feito nestes dias em que Maduro está no poder, com o objetivo de gerar no eleitor um exercício prospectivo sobre que poderá ocorrer ao longo dos próximos seis anos. Vem tentando mostrar ao povo que Maduro não tem plataforma de governo e, por isso, vem apenas usando de artifícios para desviar a atenção do cidadão. Declarou: “Nicolás tem 100 dias de governo. Foram os piores 100 dias desses 14 anos. (…). Para os seguidores do presidente, os ministros que eram os corruptos, ineficientes e incompetentes que fizeram todos os danos. Bem, esse é o grupo que quer governar [2].

Como, em sua interpretação, o governista não tem proposta e não pode falar dos problemas venezuelanos, reduz sua campanha em falar de outra coisa, como o suposto complô para matar o candidato da Oposição, bem como do alegado assassinato de Chávez e, principalmente, de sua apoteose. Em suas palavras: “Maduro quer falar disso? De um complô. Quer falemos sobre (o ex-funcionário norte-americano Otto) Reich, de todas essas coisas. Ele não quer que falemos sobre o que é mais importante nas ruas. É por isso que eu não dou atenção. São cortinas de fumaça [2].

O recurso mais usado é chamar Maduro para um debate público sobre propostas governamentais, algo que pode surtir efeito, caso ele consiga forçar o debate, pois os seguidores de Chávez não precisavam de exposições do Ex-Presidente para afiançar-lhe credibilidade e depositar suas esperanças, mas podem querer ouvir seu herdeiro para acreditar que ele é merecedor de tanta confiança como a dada ao seu antecessor.

Caprilles afirmou: “O país quer que debatamos. Coloco hoje a Nicolás na mesa (…). Temos um mês. Vamos debater Nicolás e Capriles. (…). Vamos debater a insegurança, a economia, a energia elétrica, a água, emprego, expropriações[3]. Como Maduro havia dito no dia 13 (quarta-feira) que só aceitaria debater caso o opositor se desculpasse da família de Chávez sobre os questionamentos acerca da verdadeira data da morte do Ex-Presidente, rapidamente ele se desculpou para conseguir o intento de debater antes das eleições (dia 14 de abril), proeza que não conseguiu com Chávez no ano passado (2012). Declarou no dia seguinte: “Se alguma palavra minha ofendeu o presidente vai minha desculpa pública[3].

Os estrategistas eleitorais, no entanto, não crêem que isto surtirá efeito, preferem apontar que as constantes declarações de Caprilles tenderão a produzir um resultado contrário, levando a que os chavistas moderados e alguns cidadãos indiferentes possam afiançar seus votos ao “Presidente Interino” em função do sentimento que foi despertado e de uma possível irritação contra o opositor, gerada pelas declarações que vem fazendo (“farpas lançadas contra o Governo”) [4].

Do lado oposto, Maduro e seus apoiadores tem centrado foco em mostrar o herdeiro escolhido por Chávez como alguém à altura, mas eles vêm adotando estratégia também arriscada, uma vez que está colocando o Ex-Presidente na condição de Santo e Profeta, quando não, próximo a uma entidade divina.

O ministro venezuelano de Planejamento e Finanças, Jorge Giordani, por exemplo, afirmou queo presidente Chávez se imolou. Estes últimos foram difíceis do ponto de vista de sua saúde (…) Ele se imolou pelo povo venezuelano. (…). Hoje, já que (Chávez) não está presente, devemos continuar a luta que ele empreendeu, a luta pela qual praticamente se imolou [5]. Outra personalidade importante, o general Jesús Rafael Suárez Chourio, declarou: “Deus pôs a mão em Chávez e disse: ‘você vai liderar um povo’. Deus deu a Chávez uma missão na Terra. Deus lhe deu a missão de liderar o povo pobre, seu povo, de guiá-lo para a independência [6],

Nicolas Maduro, por sua vez, está indo mais adiante em suas afirmações e vem declarando Chávez como o “Cristo Redentor dos pobres [7] e, a reboque, tem se autoproclamado como seu apóstolo. Afirmou: “Se o nosso comandante Chávez foi chamado o Cristo Redentor do pobre da América, nós somos os apóstolos e nos tornaremos os protetores e salvadores também daqueles pobres [7].

Além disso, vem produzindo afirmações que, de acordo com analistas, podem levá-lo a baixas considerações por parte dos cidadãos, como a de que Chávez influenciou ao lado de Cristo a escolha do Papa argentino. Segundo informações do “Huffington Post.”, apresentadas no jornal online “noticias.gospelmais.com.br”, Maduro declarou: “Pela primeira vez na história um sul-americano foi eleito como papa, um argentino. Cardeal Jorge Mario Bergoglio será o Papa 266. O debate foi entre um africano e um sul-americano para papa. Eu não sei, nós sabemos que o nosso ‘comandante’ subiu às alturas e está face a face com Cristo. Ele deve ter influenciado de alguma forma a convocar um papa sul-americano. Com uma nova mão a seu lado, Cristo deve ter tido: ‘Bem, é o momento para a América do Sul[6]. No entanto, ele não atentou para o fato de que o atual “Papa Franciscose apresentou enquanto Cardeal como opositor de Cristina Kirchner e representante da ala conservadora da Igreja Católica, algo que poderá pesar contra essas declarações de Maduro no futuro

Os analistas afirmam que ainda há um certo tempo a percorrer, embora muito curto, e, neste, há fatores que podem beneficiar e  prejudicar tanto um como outro candidato. No caso de Maduro, corre-se o risco de que o seu discurso se torne cansativo e sem inovações além de ele vir a ser mal interpretado em declarações como estas que divinizam Hugo Chávez. No caso de Caprilles, ele poderá gerar uma união em torno de Maduro, caso continue usando como estratégia de discurso diminuir a personalidade de seu antagonista, tornando-o uma vítima capaz de capitalizar em cima dessa condição que Caprilles lhe impõe.

De qualquer, forma os cenários apontam para um vitória do Presidente Interino, pois há fatores estruturais que impedem que o voto migre para a oposição, como a grande massa de dependentes do Estado, os beneficiários das políticas assistencialistas e o grande número de funcionários públicos que temem uma política de austeridade imposta pelo candidato daMesa de Unidade Democrática” (MUD), Henrique Caprilles.

Estes, dificilmente migrarão, mas a diferença aproximada de 10 pontos percentuais mostra que a sociedade continua dividida e mesmo dentro do chavismo poderá ocorrer a emergência de um grupo que deseje apostar numa inovação sugerida e declarada pela Oposição, desde que ele entenda a sua proposta e de que estes opositores consigam demonstrar que não haverá mudanças bruscas e, de alguma forma, continuará caminhando na direção da inclusão social e da aplicação de políticas de solução rápida para os problemas das camadas mais pobres da população, tais como as propostas por Chávez e realizada principalmente nos primeiros anos de seu governo, como foram os casos das “Missões Bolivarianas 2000”.

Nesse sentido, será fundamental para Caprilles que consiga o debate com Maduro para jogar todas as suas fichas neste momento, inclusive para tentar convencer o povo que é de centro com laivos à esquerda, pois, conforme vem declarando, tem como modelo político e econômico o Brasil e, segundo se pode inferir de suas afirmações, o modelo imposto por Chávez não tinha.

Ainda assim, caso consiga fazê-lo, suas chances são baixas, mas os observadores apontam que talvez sua principal meta seja apenas reduzir a diferença percentual entre os dois espectros ao máximo possível para se que possa se consolidar como o principal líder opositor e apostar num futuro breve quando as prováveis divergências internas do chavismo levarem-no a perder força e a permitir que um líder de outro segmento político se apresente como o carreador das esperanças dos segmentos mais pobre da população venezuelana.

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Fontes Consultadas:

[1] Ver:

http://g1.globo.com/mundo/hugo-chavez/noticia/2013/03/pesquisa-mostra-vitoria-ao-interino-maduro-na-eleicao-na-venezuela.html 

[2] Ver:

http://g1.globo.com/mundo/hugo-chavez/noticia/2013/03/opositor-capriles-ironiza-herdeiro-de-chavez-na-venezuela.html 

[3] Ver:

http://g1.globo.com/mundo/hugo-chavez/noticia/2013/03/capriles-desafia-maduro-debate-antes-das-eleicoes-presidenciais.html  

[4] Ver:

http://g1.globo.com/mundo/hugo-chavez/noticia/2013/03/farpas-de-capriles-unem-chavistas-na-venezuela-avalia-estrategista.html 

[5] Ver:

http://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/mundo/2013/03/17/interna_mundo,355196/ministro-venezuelano-assegura-que-hugo-chavez-se-imolou-pelo-povo.shtml 

[6] Ver:

http://noticias.gospelmais.com.br/chavez-ceu-influenciou-jesus-escolha-papa-francisco-51287.html 

[7] Ver:

http://noticias.gospelmais.com.br/presidente-venezuela-diz-chavez-cristo-redentor-pobres-51643.html

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Ver também:

http://jornaldeangola.sapo.ao/13/0/venezuela_condecora_medicos_que_atenderam_hugo_chavez 

Ver também:

http://g1.globo.com/mundo/hugo-chavez/noticia/2013/03/governo-venezuelano-descarta-embalsar-corpo-de-hugo-chavez.html 

About author

É Fundador do CEIRI NEWSPAPER. Doutor e Mestre em Ciência Política pela Universidade em São Paulo e Bacharel em Filosofia pela USP, tendo se dedicado à Filosofia da Ciência. É Sócio-Fundador do CEIRI. Foi professor universitário por mais de 15 anos, tendo ministrado aulas de várias disciplinas de humanas, especialmente da área de Relações Internacionais. Exerceu cargos de professor, assessor de diretoria, coordenador de cursos e de projetos, e diretor de cursos em várias Faculdades. Foi fundador do Grupo de Estudos de Paz da PUC/RS, do qual foi pesquisador até o final de 2006. É palestrante da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG-RS), tendo exercido também os cargos de Diretor de Cursos e Diretor do CEPE/CEPEG da ADESG de Porto Alegre. Foi Articulista do Broadcast da Agência Estado e do AE Mercado (Política Internacional), tendo dado assessoria para várias redes de jornal e TV pelo Brasil, destacando-se as atuações semanais realizadas a BAND/RS, na RBS/RS e TVCOM (Globo); na Guaíba (Record), Rádioweb; Cultura RS; dentre vários jornais, revistas e Tvs pelo Brasil. Trabalhou com assessoria e consultoria no Congresso Nacional entre 2011 e 2017. É autor de livros sobre o Pensamento Militar Brasileiro, de artigos em Teoria das Relações Internacionais e em Política Internacional. Ministra cursos e palestra pelo Brasil e no exterior sobre temas das relações internacionais e sobre o sistema político brasileiro.
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