ANÁLISES DE CONJUNTURAEURÁSIA

Mudanças constitucionais na Rússia revelam o poder de agência de Putin

A Federação Russa tem sido destaque na mídia internacional desde o impasse da Crimeia em 2014, por muitos motivos. Contudo, em 2019, o país virou objeto de análise intelectual de especialistas em áreas diversas como ciência, economia, tecnologia, militarização e inteligência. Em meados de 2020, a mente que se considera que engendra a exponencialidade russa no mundo, Vladimir Putin, tornou-se o centro das atenções no palco político mundial ao ser o estopim da demissão voluntária de todo o seu próprio gabinete presidencial.

Em vinte anos de governo, o ex-agente da KGB foi visto como fonte de bravura e genialidade, sobretudo nas condições em que assumiu após Gorbachev, com os conflitos da Chechênia (1999), onde atuou primeiramente como líder da ofensiva e finalmente como apaziguador das rebeliões em 2009. Em seu mandato, traçou relações diplomáticas positivas com o Ocidente, integrou o G8 e foi recebido pessoalmente pela rainha Elizabeth II da Inglaterra, um feito inédito para um líder russo desde 1874.

Apesar de todo esforço para tornar a Rússia relevante no contexto geopolítico da primeira década do século XXI, a Constituição não permitia a Putin assumir um terceiro mandato consecutivo na Presidência do país. Para contornar a situação, em 2008, o atual Presidente da Rússia ocupou posição de prestígio durante o tempo em que serviu como Primeiro-Ministro, suscitando ideias de que o então presidente Dimitri Medvedev era mero aprendiz, quiçá títere de suas vontades e ambições. Em 2012, Putin reassumiu seu posto de Presidente da Federação Russa e uma manobra peculiar encenada no Discurso do Estado da Nação de 2019 revelou que a vontade do ex-agente de permanecer no controle geral do Estado é real e fundamentada.

Vladimir Putin em Discurso à Assembleia Federal

Em seu discurso, Vladimir Putin abordou assuntos como a demografia decrescente na Rússia e a necessidade de inverter essa situação, falou sobre a possível potencialização do Conselho de Estado (State Council – órgão interno criado por Putin em 1991 para aconselhar o Chefe de Governo), dos requisitos para ser elegível à Presidência e ao Parlamento (conhecido como State Duma), inclusive colocando em xeque questões de dupla-cidadania. Mais precisamente, uma série de mudanças em termos de balanço de poder foram expostas pelo Presidente. O site The Moscow Times elencou algumas das propostas de Emendas Constitucionais, a citar, entre outras:

Edição Presidencial da Constituição Russa

1.             Restrições aos candidatos presidenciais, incluindo o banimento de dupla-cidadania ou residência permanente no exterior, e requerer que tenham vivido na Rússia por 25 anos;

2.             Priorizar a Constituição Russa acima dos Tratados Internacionais;

3.             Tornar o Conselho de Estado um órgão oficial de governança;

4.             Proibir o Legislativo, Ministros de Gabinete, Juízes e oficiais federais de possuírem dupla-cidadania ou residência fora do país;

5.             Garantir ao Legislativo autoridade para apontar o Primeiro-Ministro, Deputados e Gabinetes e barrar o Presidente de rejeitar essas nominações;

6.             Garantir aos Senadores a autoridade para consultar o Presidente no apontamento de chefes das agências de segurança;

7.             Garantir aos Senadores a capacidade de rejeitar Juízes Constitucionais e da Suprema Corte com base em proposta presidencial.

Pouco após o anúncio das reformas propostas por Putin, o primeiro-ministro Dmitry Medvedev pediu demissão, seguido dos outros chefes de Gabinete da Rússia, em um movimento concebido para facilitar a revisão constitucional. De fato, a casa legislativa onde o presidente Putin possui maioria representativa, a Duma, aprovou unanimemente as mudanças constitucionais propostas, no dia 23 de janeiro de 2020, fortalecendo posições que o atual presidente Putin poderá vir a assumir, caso seu mandato de presidência expire em 2024.

Regina Smyth, professora associada de Ciências Políticas da Universidade de Indiana, afirmou que essa atitude de Putin não veio como surpresa para estudiosos e observadores das eleições no Kremlin nos últimos 30 anos. A acadêmica assinalou que o Presidente russo já havia revelado suas intenções na conferência anual de imprensa, em dezembro de 2019, quando mencionou potenciais mudanças constitucionais.

Mikhail Mishustin

Críticos das mudanças e testemunhas dos vinte anos de controle de Putin sobre a Rússia alegam se tratar de um “golpe constitucional”, devido ao aparente repentino deslocamento do centro de poder do Executivo para o Legislativo, algo raro na Federação. O político Dmitry Gudkov pronunciou que “Golpes constitucionais como esse ocorrem e são completamente legais”. O professor de Políticas Russas e Europeias da Universidade de Kent, Richard Sakwa, discorda dessa ideia, e diz que esta é apenas uma maneira de garantir a continuidade da atual elite que preside o país.

O chefe do Serviço de Impostos do governo, Mikhail Mishustin, foi apontado por Putin para substituir Medvedev. Apesar de desconhecido do público, Mishustin é um popular tecnocrata em seu meio e famoso por cumprir bem sua função de cobrar impostos, o que pode ser o primeiro passo para conciliar a estabilidade de Putin no poder e alavancar a estagnada economia russa.

Há vinte anos Vladimir Putin está atrelado à imagem da Rússia, e não há sinais de que um novo proeminente líder surgirá tão cedo no país.

———————————————————————————————–

Fontes das Imagens:

Imagem 1Vladimir Putin em Discurso à Nação, 2020” (Fonte): http://en.kremlin.ru/events/president/news/62582/photos/62934

Imagem 2Vladimir Putin em Discurso à Assembleia Federal” (Fonte): http://en.kremlin.ru/events/president/news/62582/photos/62925

Imagem 3Edição Presidencial da Constituição Russa” (Fonte): http://www.kremlin.ru/https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Red_copy_of_the_Russian_constitution.jpg

Imagem 4Mikhail Mishustin” (Fonte): http://www.kremlin.ru/events/president/news/57848/photos

ANÁLISES DE CONJUNTURACooperação Internacional

Estruturas institucionais ainda são necessárias para o avanço do investimento de impacto

O financiamento necessário para atingir os dezessete Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) aparece constantemente como item de debate entre formuladores de políticas públicas e membros da sociedade civil. A partir de uma série de estimativas conduzidas especialmente pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), muito tem se discutido sobre quais mecanismos financeiros poderiam suprir o aproximado montante de 2,5 trilhões de dólares[1] necessários aos países em desenvolvimento para atingir os diferentes ODSs.

Há uma notável descrença de que os investimentos estrangeiros diretos (IEDs) se posicionarão como veículo financeiro capaz de suprir esse déficit, principalmente por duas razões estruturais. Em primeiro lugar, o volume de IED destinado às nações emergentes está praticamente estagnado desde 2009, em um montante anual que circunda os 600/700 bilhões de dólares[2], segundo dados da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD).

Em segundo lugar, esta categoria de investimentos não necessariamente está alocada em empreendimentos com impacto social e/ou ambiental iminente, isto é, não contribuindo diretamente para a redução das desigualdades econômicas, mitigação dos efeitos das mudanças climáticas, promoção da igualdade racial e de gênero ou conservação da biodiversidade. Em última instância, risco e retorno são as variáveis únicas e essenciais na alocação do capital externo que se direciona aos países em forma de IEDs.

Em estado similar de insuficiência, as doações internacionais, em especial aquelas advindas de agências internacionais de cooperação, estão muito distantes de equivalerem-se com o montante dimensionado de 2,5 trilhões de dólares[1]. De acordo com a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), para o ano de 2018, cerca de 153 bilhões de dólares[3] foram doados dos países membros para as nações em desenvolvimento sob a forma de Assistência Oficial de Desenvolvimento (ODA).

Em uma análise temporal sobre o volume transferido de ODA em relação proporcional com a renda anual bruta de cada país membro, observa-se que o patamar executado nos anos 2010 (cerca de 0,30%) está muito distante do nível de execução da década de 1960 (aproximadamente 0,40%), bem como aquém do que foi praticado nas décadas de 1970 e 80 (algo em torno de 0,35%). Tais proporções inclusive situam-se abaixo do recomendado pela Organização das Nações Unidas (ONU): de acordo com o organismo, é essencial que remessas anuais de ODA representem, no mínimo, 0,70% da renda anual bruta. Em 2018, das trinta nações membros da OCDE, somente quatro delas – Suécia, Luxemburgo, Noruega e Dinamarca – executaram o mínimo recomendado pela ONU.

Devido à ineficácia de dois dos mais tradicionais veículos de transferência internacional de recursos, analistas e formuladores de políticas públicas têm olhado com entusiasmo o investimento de impacto como instrumento capaz de suprir o déficit de capital observado entre as nações em desenvolvimento. Ao passo que os agentes de IEDs observam, essencialmente, risco e retorno como variáveis centrais na análise de alocação, os investidores de impacto adicionam a contribuição socioambiental como uma terceira instância decisória para o direcionamento de recursos ou não. Esta modalidade se diferencia da filantropia ou de doações de valores não-reembolsáveis, uma vez que os agentes financeiros também se interessam na rentabilidade do capital investido.

Diferentemente da filantropia, o investimento de impacto busca não somente o retorno socioambiental do aporte de capital, mas também os rendimentos financeiros advindos com a alocação, posicionando-o como um incentivo a mais para investidores alocarem seus recursos em iniciativas que promovem o desenvolvimento

Observa-se, ao longo dos últimos anos, a formação de uma extensa rede de investidores, empreendedores, analistas, instituições de apoio, organizações não-governamentais e interessados no tema e em sua promoção na esfera global. Há um gradativo engajamento de grandes fundos de investimento e de pensão nos países desenvolvidos, os quais gerenciam um conjunto expressivo de ativos com potencial de alocação em atividades de impacto socioambiental positivo nas nações do Sul Global. Segundo dados da Global Impact Investment Network (GIIN – Rede Global de Investimento de Impacto) – uma das primeiras redes de discussão e fomento do tema –, investidores de impacto gerenciaram, em 2019, cerca de 502 bilhões de dólares[4] em ativos, demonstrando o crescente potencial de alocação deste setor.

Tradicionais instituições, como o Goldman Sachs e a Black Rock, já trabalham com produtos financeiros (especificamente títulos de participação em fundos) focados no fomento às iniciativas de impacto, demonstrando o emergente processo de acumulação e direcionamento de capital à esta frente. Na América Latina, por exemplo, nos anos de 2016 e 2017, foram registradas 860 alocações financeiras em iniciativas de impacto, totalizando uma movimentação de, aproximadamente, 1,4 bilhão de dólares[5].

No entanto, tendo em vista que o tripé risco, retorno e impacto direcionam o funcionamento desta indústria, duas questões emergem como principal entrave à aplicação volumosa de capital, em proporção que se aproxime do déficit estimado pelo PNUD para o cumprimento dos ODSs.

A primeira delas refere-se às metodologias existentes para a mensuração de impacto. Embora existam uma série de instrumentos analíticos concebidos para o dimensionamento – talvez a mais conhecida delas seja a métrica IRIS[6], concebida pela GIIN[7] –, em geral registra-se um ritmo escasso implementação efetiva das mesmas em campo para a identificação do nível de agregação de valor econômico, social e ambiental de uma determinada iniciativa em seu território de atuação. Analistas também argumentam a dificuldade de mensuração do impacto em si, uma vez que é difícil avaliar o tamanho da contribuição exclusivamente agregada pelo empreendimento analisado, isolando as demais variáveis externas que podem ter algum tipo de influência na promoção socioeconômica e ambiental.

Sem um conjunto claro de metodologias de avaliação e mensuração do impacto, instituições financeiras encontram dificuldade de determinar a alocação de seus ativos, uma vez que não se tem claro qual será o retorno social e ambiental de um determinado investimento. Neste sentido, um dos principais desafios consiste, justamente, na implementação de práticas difusas e correntes de dimensionamento do nível de contribuição às comunidades e territórios em que empreendimentos estão inseridos, em uma tentativa de dar visibilidade pública ao impacto gerado, o qual apresenta-se como ativo importante para a negociação do investimento desejado.

Como segunda questão elementar ao setor está a dimensão de cálculo entre risco e retorno do investimento a ser alocado nos países emergentes. Embora esta relação matemática sempre configurou como ponto central no fluxo de outros veículos de investimento externo, uma característica única referente aos negócios de impacto é que geralmente tratam-se de iniciativas de porte muito menor se comparadas àquelas que recebem algum tipo de IED, por exemplo. Uma vez assentadas em um nível de maturidade organizacional mais baixo, tais atividades possuem um longo caminho a percorrer até se converterem em iniciativas significativamente lucrativas, capazes de remunerar adequadamente seus associados e seus possíveis investidores.

Não à toa, um dos principais mecanismos para facilitar o fluxo de capital para empreendimentos de impacto, com menor grau de maturidade, é o investimento híbrido. De acordo com definição concedida pelo Fórum Econômico Mundial, tal categoria refere-se a uma combinação entre recursos reembolsáveis e não-reembolsáveis, a fim de facilitar a transição de estágios de um negócio de impacto, tomando como base uma trajetória crescente e linear de desenvolvimento organizacional. A primeira leva de recursos doados, denominado comumente como “capital semente” ou “capital anjo”, opera como um valor necessário para fundamentação do modelo de negócio, definição dos processos internos de gestão e consolidação do potencial de geração de receitas.

Olhando a partir de uma perspectiva econômica e analítica, poderia ser afirmado que uma das principais vantagens de uma abordagem híbrida em torno do investimento de impacto é que os recursos não reembolsáveis diminuem os custos de transação de um determinado negócio, posicionando-o de maneira mais competitiva nas cadeias de valor em que está inserido, ao mesmo tempo em que, com isso, aumenta gradativamente o seu potencial de geração de receitas futuras. Uma vez consolidado, o capital reembolsável opera como instrumento de alavancagem do modelo de negócio já testado e validado, retornando o recurso concedido pelo investidor, acrescida a rentabilidade da alocação.

Embora a problemática em torno da expansão do investimento de impacto possa aparentar ser meramente uma questão de gerenciamento inteligente dos recursos disponíveis, a fim de maximizar retorno e mitigar risco, outras questões – e não necessariamente de teor financeiro – emergem como fundamentais para ampliar o nível de atuação do setor no financiamento dos ODSs nos países emergentes. Tratam-se, na verdade, de desafios à consolidação de uma rede efetiva de apoio aos negócios de impacto, capazes de gerar inovações, trocas de experiência e representatividade na reivindicação de políticas públicas no mesmo nível de efetividade que setores convencionais das economias industriais – e não vinculados necessariamente com impacto – usufruem há décadas. Em relatório recentemente divulgado pelo PNUD sobre investimento de impacto no continente africano, o organismo narra a necessária formação de um “ecossistema de apoio” aos empreendimentos de impacto, isto é, ambiente formado por organizações e atores que provenham assistência técnica, ações de desenvolvimento de negócios, pesquisa e desenvolvimento e consolidação de redes de inovação com foco específico à comunidade de negócios de impacto. Ou seja, este público, em menor ou maior grau segundo o país, ainda carece de uma estrutura institucional efetiva para evolução.

A ampliação na concessão de recursos por parte do setor demanda, prioritariamente, a consolidação de uma extensa rede de instituições capazes de assessorar adequadamente a transição organizacional dos negócios de impacto. Por outro lado, relatórios técnicos também apontam a necessidade de consolidação de diferentes fundos de investimento de impacto, especialmente no que diz respeito à diversificação dos níveis de apetite de risco e retorno. Isso facilitaria a consolidação de inúmeros instrumentos financeiros à disposição dos empreendimentos segundo os seus níveis de maturidade, setor de atuação e contexto institucional de cada nação.

———————————————————————————————–

Notas (Todos os valores seguem a cotação do dia 7 de fevereiro de 2020):

[1] Aproximadamente, 10,79 trilhões de reais.

[2] Algo entre 2,59 e 3,02 trilhões de reais.

[3] Em torno de 660,53 bilhões de reais.

[4] Próximos de 2,17 trilhões de dólares.

[5] Equivalente a 6,05 bilhões de reais.

[6] IRIS é o catálogo de métricas de performance que tem grande aceitação e são usadas por investidores de impacto com o objetivo de mensurar sucesso social, ambiental e financeiro de organizações, bem como fazer avaliação de acordos e para aumentar a credibilidade da ação de investimento de impacto.

[7] GIIN – Global Impact Investing Network:  A Rede Global de Investimentos de Impacto (GIIN) é a campeã global de investimentos de impacto, dedicada a aumentar sua escala e eficácia em todo o mundo.

———————————————————————————————–

Fontes das Imagens:

Imagem 1 A conservação dos recursos hídricos, da biodiversidade, a mitigação das mudanças climáticas e a redução das desigualdades estão entre os temas centrais dos investidores de impacto” (Fonte): https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Water_drop_impact_on_a_water-surface_-_(5).jpg

Imagem 1 Diferentemente da filantropia, o investimento de impacto busca não somente o retorno socioambiental do aporte de capital, mas também os rendimentos financeiros advindos com a alocação, posicionandoo como um incentivo a mais para investidores alocarem seus recursos em iniciativas que promovem o desenvolvimento” (Fonte): https://thegiin.org/impact-investing/need-to-know/

ANÁLISES DE CONJUNTURAÁSIA

China: O que esperar do gigante asiático nessa década

No dia 25 de janeiro a China entrou no ano de 4718 do seu calendário lunar. As comemorações do “Ano novo Chinês” em seu território e pelas colônias chinesas pelo mundo enalteceram o espetáculo de suas festividades e os avanços da República Popular da China nesses 70 anos de sua fundação.

Falar e dimensionar possíveis cenários que incluam os chineses é complexo, graças à sensibilidade de temas internos, bem como sua participação como potência militar e econômica. Para entender a China moderna, seu crescimento, desafios e uma fração de seus problemas internos, mostra-se necessário observar o avanço de sua tecnologia, sendo este um caminho adequado.

O país quase sempre é destaque no cenário internacional quando o tema é tecnologia e inovação, da mesma forma, o investimento no campo militar é sempre visto como preocupante por boa parte dos países vizinhos e por grandes potências ocidentais, mas, quando se trata de uso civil e em comunicações, o país ganha muitos admiradores, apesar de também “haters”* globais.

A tecnologia militar chinesa sempre é questionada quanto à sua razão e objetivos. Desde o ano de 2013, o presidente chinês Xi Jinping vem impulsionando a reestruturação das Forças Armadas e o seu foco continua sendo a modernização e desenvolvimento de novos itens de ponta, para fazerem frente às tradicionais potências europeias: Rússia e Estados Unidos.

Em 2019, especialistas da BBC comunicaram que o país está no caminho de ultrapassar estadunidenses e russos em determinados campos militares. No mesmo ano, o país já anunciava que novos equipamentos de última geração seriam apresentados ao mundo em curto e médio prazo, como o seu caça de 5ª geração, o J-31.

Conforme o relatório da Agência de Inteligência de Defesa dos EUA, um estudo intitulado “O poder militar da China”, publicado em janeiro passado (2020), indica que “O resultado da estratégia multidimensional de aquisição de tecnologia é um ELP (Exército de Libertação Popular da China) prestes a colocar em campo alguns dos sistemas mais modernos do mundo (…) Em algumas áreas, (o país) já é líder”.

Tabela de poder

Embora apresente dados de desenvolvimento tecnológico e crescimento de aparelhos e efetivo de suas forças militares, a China ainda está comparável a Forças Armadas da extinta União Soviética, tendo maior parte de seu efetivo dentro de seu país e focadas na defesa territorial, diferente dos estadunidenses que têm suas forças militares com prospecção global e um orçamento até 4 vezes maior que o chinês.

O panorama mais interessante de se analisar a China é do seu investimento e adaptação de itens tecnológicos militares para o campo da comunicação, doméstico e empresarial, os quais impactam diretamente na economia global, desestabilizando alguns mercados e também criando oportunidades e demandas em regiões antes muito carentes de bens de alto valor agregado. Os produtos “Made in China” são os grandes atores da guerra comercial em escala global e também responsáveis pela mudança do pensamento de Relações Internacionais no país. Comparando ao seu pensamento até a década de 1970, o país hoje não tem por objetivo conquistar territórios com sua influência bélica e ideologias, mas, sim, dominar mercados e garantir parceiros que lhes forneçam energia para ser o líder global.

Drone da empresa chinesa DJI

Atualmente, os chineses são os maiores parceiros comerciais de muitas nações, como é o caso do Brasil, sendo eles tão importantes para manter a economia de Estados aliados quanto de nações antes vista como inimigas. Seus recursos, especializações e produtos ainda são temas de debates entre especialistas, internacionalistas e ONGs de direitos humanos por inúmeros motivos, mas, hoje, a economia mundial é tão dependente da China quanto um dia já foi dos Estados Unidos.

Para se entender o quão grande se tornou a marca “Made in China”, o campo de tecnologia de comunicações e bens de consumo é suficiente para entender sua atual posição. O país e a Coreia do Sul são os maiores investidores na tecnologia 5G no mundo, estão à frente das demais nações no quesito de desenvolvimento, fabricação de hardwares e já estão aptos a implementar o sistema em seus mercados internos.

Empresas como a Huawei e ZTE já possuem equipamentos para transformar o 5G em realidade funcional, junto com a Samsung, Media Tek (Taiwan), Qualcomm e a HiSilicon, sendo as principais fabricantes de chips, memória e outros hardwares de alta tecnologia para computação e comunicação em geral, bem como as principais líderes em produção e fornecimento de componentes para Smartphones de todo o mundo. Possuindo maior escala global na produção destes itens, os chineses e sul-coreanos estão em posição dominante e longe de ter concorrentes diretos.

As empresas chinesas já estão bem consolidadas no mercado global, como são os casos da Xiaomi e da Dji. Essas marcas se consolidaram quebrando velhos preconceitos sobre a confiabilidade e durabilidade de produtos fabricados no país.

A DJI é a grande referência no mercado de drones domésticos e só possui concorrentes diretos de empresas da própria China. A empresa hoje é a líder mundial em quadricópteros para consumidor final, empresas, cinema e segurança pública. A Xiaomi é uma corporação mais versátil, produz itens de alta tecnologia, de computadores e drones até eletrodomésticos, mas é globalmente reconhecida pela sua linha de smartphones. Segundo a última atualização da International Data Corporation (IDC – sigla em inglês), a empresa ocupa a quarta posição no mercado internacional, atrás da Samsung, Huawei e Apple.

No mundo da tecnologia afirma-se que poucos apresentam novidades, tudo se copia e se aprimora. Como exemplo, cita-se o Japão na segunda metade do século XX, que atualizava e melhorava a tecnologia de estadunidenses e europeus. Os sul-coreanos melhoravam a tecnologia japonesa a partir da segunda metade dos anos 1990 e a China copiava o que seus vizinhos faziam. Observadores apontam que, entre tropeços e acertos, essas nações chegaram a ser referência em determinados campos e temas específicos e os investimentos que os chineses vem fazendo a partir da década de 2000 vem elevando cada vez mais o status do país. Em 2018, foi incluído na lista dos 20 países mais inovadores do Mundo, ocupando a 17ª posição, e em 2019 subiu para a 14ª posição no ranking do Índice Global de Inovação (IGI).

Com tantos avanços e se tornando uma das principais referências econômicas e tecnológicas globais, surge a questão do que esperar dos chineses nessa década de 2020.

Nos próximos anos eles deverão ocupar uma das três posições no topo do ranking de inovação global, e isso não se espelha apenas nas tecnologias de comunicação, mas, também, no seu processo de substituição de fontes de energia poluente para energia limpa e desenvolvimento sustentável.

Durante a reunião anual do Fórum Econômico Mundial, que teve seu início no dia 21 de janeiro passado, em Davos, o presidente do fórum, Borge Brende, e o presidente chinês Xi Jinping disseram que o país está no caminho certo para combater as mudanças climáticas e acelerar o desenvolvimento mundial sustentável.

Durante anos a China foi acusada de ser o maior poluidor do mundo, sua população sempre sofreu com o ar poluído em certas regiões bem industrializadas, mas o quadro atual é diferente. Hoje, é o país que mais produz energias renováveis. Também existe muito investimento em tecnologia para aumentar a eficiência e eficácia de painéis solares e geradores de energia eólica, além de possuir a maior fabricante mundial de veículos elétricos, a chinesa BYD.

O governo vem incentivando o desenvolvimento de novas tecnologias e a busca pela sustentabilidade, com as oito principais startups chinesas, como a Xiaomi, Alibaba, Tencent, Baidu e Tencent, apontando que este será o caminho: aumentar o investimento em inovação. Em 2019 foram mais de R$ 200 bilhões investidos por essas empresas e os CEOs chineses estão confiantes e otimistas para ampliar seus negócios já em 2020. 

Em meio a turbulências e inovações, desconfianças e otimismo, a China continua caminhando para estar no topo dos países mais inovadores e ser a líder no mercado de tecnologia de ponta.

———————————————————————————————–

Nota:

* Hates: Gíria utilizada por amantes de tecnologia, que significa “odiar”, mas também utilizada como “invejosos” e “inimigos.

———————————————————————————————–

Fontes das Imagens:

Imagem 1 Vista da estação de energia solar na vila de Zhaoyu, na cidade de Handan Foto: Reprodução Xinhuanet/wang xiao/arquivo 2018” (Fonte Divulgação / news.cn): http://portuguese.xinhuanet.com/2019-12/02/c_138599950.htm

Imagem 2 Tabela de poder” (Fonte): https://www.bbc.com/portuguese/internacional-43101604

Imagem 3 Drone da empresa chinesa DJI” (Fonte Divulgação DJI): https://www.dji.com/br/newsroom?site=brandsite&from=nav

ANÁLISES DE CONJUNTURAEUROPA

Rússia torna-se o maior comprador de ouro do mundo em 2019

À medida que as nações buscam a diversificação de seus ativos e menos dependência do dólar, o desejo de comprar ouro foi impulsionado, também nos últimos anos, pela incerteza econômica causada por tensões comerciais, crescimento econômico mundial lento e um ambiente de baixa taxa de juros.

O motivo para essa corrida entre as nações do mundo pelo aumento de suas reservas de ouro em seus Bancos Centrais é baseado principalmente pelas características específicas que o nobre metal apresenta. O ouro é um ativo altamente líquido, mas escasso. É comprado como um bem de luxo, tanto quanto um investimento, e, como tal, pode desempenhar quatro papéis fundamentais em uma carteira:

 • Uma fonte de retornos de longo prazo;

 • Um diversificador que pode mitigar perdas em tempos de estresse de mercado;

 • Um ativo líquido sem risco de crédito, que superou moedas fiduciárias;

 • Um meio de melhorar o portfólio global da performance econômica de um país.

Logotipo do World Gold Council

Desde 2001, a demanda de investimentos por ouro mundial cresceu, em média, 15% ao ano, de acordo com dados do World Gold Council (WGC). Isso tem sido impulsionado, em parte, pelo advento de novas formas de acesso ao mercado, como fundos negociados em bolsa (ETFs – Exchanged Trade Funds*) apoiados por ouro físico, mas, também, pela expansão da classe média na Ásia e um foco renovado na gestão efetiva de riscos após os ETFs de 2008-2009 (crise financeira nos EUA e na Europa).

Histórico das reservas de ouro da Rússia – em toneladas

Hoje, o ouro é mais relevante do que nunca para investidores institucionais atraídos pelo papel do metal como diversificador, devido à sua baixa correlação com a maioria dos ativos tradicionais (principalmente moedas fiduciárias que não apresentam lastro), e como um hedge contra o risco sistêmico e fortes recuos do mercado de ações. Como ativo estratégico, historicamente melhorou o retorno ajustado ao risco das carteiras, proporcionando retornos ao mesmo tempo em que reduz perdas e fornece liquidez para atender passivos em tempos de estresse no mercado.

Ranking dos países produtores de ouro

Posto isso, ao longo da última década, o aumento das incertezas econômica e geopolítica têm sido as forças motrizes que impulsionaram a compra de ouro pelos principais Bancos Centrais do planeta, particularmente a dos mercados emergentes. A década foi cercada por políticas monetárias não convencionais (como taxas de juros baixas ou negativas), a fim de restaurar a estabilidade econômica e o crescimento, bem como o aumento do nacionalismo/populismo, guerras comerciais e riscos de conflitos armados. Em resposta, os Bancos Centrais aumentaram sua alocação para o ouro, como foi o caso da Federação Russa que, em 2019, comprou 159 toneladas, elevando as reservas do metal a 2.271,2 toneladas. Graças a esse volume, o país eslavo se tornou o maior comprador de ouro monetário do ano, acumulando 20% das transações globais, além da terceira posição mundial como produtor.  

Ranking dos países com maiores reservas de ouro

A Rússia superou a China ainda em 2018, e a diferença entre os dois países só cresce. Pequim adquiriu cerca de 100 toneladas de ouro em 2019, atingindo 1.948 toneladas. O ranking global de reservas de ouro é liderado pelos EUA (8.133,5 toneladas), Alemanha (3.366,5), Itália (2.451,8) e França (2.436,0); em quinto lugar vem a Rússia.

Como as reservas dos países líderes permanecem inalteradas há anos, não se pode descartar que a Federação Russa venha a subir novas posições a partir de 2020.

———————————————————————————————–

Nota:

* Exchange-Traded Fund (ETF) é um fundo de investimento negociado na Bolsa de Valores como se fosse uma ação. Um ETF detém ativos como ações, commodities ou títulos e, geralmente, opera com um mecanismo de arbitragem projetado para mantê-lo negociando próximo do seu valor patrimonial líquido, embora ocasionalmente possam ocorrer desvios. A maioria dos ETFs acompanham um índice, como um índice de ações ou índice de títulos, como, por exemplo, o Ibovespa Fundo de Índice (BOVA11). Neste caso, se o Ibovespa subir 10% em um mês, o ETF do Ibovespa vai ter um desempenho muito parecido, já descontando a taxa de administração. Caso o índice se desvalorize, o mesmo vai acontecer com a cota do ETF. Os ETFs podem ser atraentes como investimentos por causa de seus baixos custos, eficiência tributária e recursos semelhantes a ações.

———————————————————————————————–

Fontes das Imagens:

Imagem 1 Barras de ouro” (Fonte): https://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:400-oz-Gold-Bars-AB-01.jpg

Imagem 2 Logotipo do World Gold Council” (Fonte): https://www.gold.org/

Imagem 3 Histórico das reservas de ouro da Rússia em toneladas” (Fonte): https://tradingeconomics.com/russia/gold-reserves

Imagem 4 Ranking dos países produtores de ouro” (Fonte): https://www.gold.org/goldhub/data/historical-mine-production

Imagem 5 Ranking dos países com maiores reservas de ouro” (Fonte): https://www.gold.org/goldhub/research/gold-demand-trends/gold-demand-trends-full-year-2019

AMÉRICA LATINAANÁLISES DE CONJUNTURA

Desafios dos aplicativos de transporte de passageiros na América Latina

Com a chegada da Easy Taxi em 2011 e da Uber, em 2013, a América Latina (AL) passou a contar com um meio alternativo de mobilidade. Principal concorrente do táxi tradicional, os serviços de transporte por aplicativo estão prestes a completar 10 anos na região, com alguns desafios pela frente.

A entrada do serviço, sobretudo do Uber, causou desconforto, rejeição e conflito com taxistas, a exemplo dos registrados no Brasil, no Chile, na Colômbia e no México.  Desde críticas moderadas a agressões físicas, os taxistas se manifestaram contra o que alegavam ser um serviço ilegal e não sujeito às mesmas exigências, taxas e impostos que eles. Os motoristas de Uber se defendiam dizendo se tratar de um serviço de transporte particular e não público, e não beneficiado pelas isenções e facilidades desfrutadas pelos taxistas.

Essa disputa deu sequência à discussão sobre a regulamentação do serviço por parte do governo. Passaram a ser uma preocupação das autoridades as questões relativas à segurança, os impactos na economia e os efeitos na arrecadação tributária. Nesse aspecto, a Cidade do México é tida como a primeira capital latino-americana a implantar um arcabouço regulatório.

A região passou a ser percebida como um mercado promissor com enorme potencial de crescimento, até mesmo por pequenas empresas. A grega Beat, depois de começar pelo Peru e Chile, agora opera também na Colômbia, México e Argentina. Fundada em Toronto, a Nekso, antes mesmo de explorar o Canadá, fez sua estreia na Venezuela, em 2016, e em seguida chegou ao Equador, Panamá e República Dominicana. Atualmente, a empresa atua também na Argentina, Chile, Colômbia, Costa Rica, Guatemala, México e Peru.

Desde então o mercado vem se ampliando e apresentando mudanças decorrentes da livre concorrência. A espanhola Cabify e a brasileira Easy (que era Easy Taxi) se uniram na AL formando uma holding, em meados de 2017. Atualmente, ambas as empresas são propriedade da Maxi Mobility, presente em diversos mercados latino-americanos, tais como Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, México, Panamá e Peru.

Protesto contra a chegada do Uber na cidade do Rio de Janeiro em 2014

Em janeiro de 2018 a chinesa Didi Chuxing investiu US$ 100 milhões na 99 (ex 99 Taxi),  adquirindo-a meses depois  por cerca de US$ 1 bilhão de dólares.  A Uber já alcançou mais de 16 países da AL, sendo o México o seu maior mercado na região. Sua principal concorrente, a Didi, adquiriu ativos e ações da ordem de US$ 1 bilhão da Uber na China, mas disputa palmo a palmo o restante do mundo.

Entre as duas empresas, o campo de batalha” mais acirrado na América Latina é o México, onde a Didi tem sua maior participação fora da China. Depois de se instalar no Brasil e no México, a Didi anunciou no segundo semestre de 2019 que passaria a operar também na Colômbia e no Chile.

Voltando às questões regulatórias, o Chile se tornou o primeiro país, em janeiro de 2020, a ter acesso ao segredo bancário da Uber. Na mesma semana, a empresa anunciou o encerramento de suas operações na Colômbia, depois de ter sido proibida de atuar sob acusação de práticas comerciais ilegais por parte do Governo colombiano.

Em março de 2018 foi lançado no Brasil o Ubus, primeiro aplicativo para transporte coletivo da AL. Tal iniciativa, ao melhorar as condições de uso do transporte coletivo, pode se tornar um concorrente dos serviços prestados pela Uber e Didi, por exemplo. Em que pese os “aplicativos de táxi” estarem há quase 10 anos no mercado, os fatos recentes indicam um cenário ainda instável, sujeito a oscilações e ameaças que dificultam se fazer prognósticos precisos para o futuro.

———————————————————————————————–

Fontes das Imagens:

Imagem 1 Motorista de aplicativo em Bogotá, Colômbia” (Fonte): https://en.wikipedia.org/wiki/Uber#/media/File:Uber_ride_Bogota_(10277864666).jpg

Imagem 2 Protesto contra a chegada do Uber na cidade do Rio de Janeiro em 2014” (Fonte): https://pt.wikipedia.org/wiki/Uber#/media/Ficheiro:Protesto_contra_o_Uber_no_Rio_02.jpg

ANÁLISES DE CONJUNTURAEURÁSIA

O futuro das relações entre Rússia e OPEP

Considerada um marco sem precedentes na história da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP), a Declaração de Cooperação entre as nações do grupo, que tem por objetivo o esforço conjunto para acelerar a estabilização do mercado global de petróleo por meio de ajustes voluntários de produção, adentrou o ano de 2020 com certas preocupações que podem determinar o futuro do referido pacto.

Bandeira da OPEP

Desde sua criação, em 10 de dezembro de 2016, a Declaração passou por uma série de reuniões ministeriais entre as nações da OPEP+ (14 países membros liderados pela Arábia Saudita, em conjunto com mais 10 nações não-membros, lideradas pela Federação Russa). Na última reunião realizada em 6 de dezembro de 2019, o grupo decidiu por uma redução adicional de produção voluntária de 500 mil bpd (barris por dia) sobre os níveis acordados na 175ª Reunião da Conferência da OPEP e na 5ª Reunião Ministerial da OPEP e não-OPEP, levando a um ajuste total de 1,7 milhão de bpd (1,7% da oferta global), considerado um dos mais profundos cortes de produção desta década.

Preço do barril de petróleo Brent

Esse último acordo visa a continuidade da estabilidade sustentável dos preços do barril, prevenindo o mercado de petróleo de um excesso de oferta e tentando contrabalançar a crescente produção proveniente dos campos de “Shale” (petróleo não convencional) dos EUA, que se tornou o maior produtor mundial da commodity, além de avanços em outros países que não fazem parte da OPEP, como Brasil e Noruega.

Segundo especialistas da área energética, o preço do barril Brent deverá se estabilizar entre os 60 e 65 dólares (entre R$251 e R$272*) durante o ano de 2020, mesmo tendo sofrido uma elevação de seu preço aos 71 dólares (R$297*) devido a escalada das tensões no Oriente Médio decorrentes de embates políticos entre EUA e Irã, e anotaram no dia 6 de janeiro novas máximas de oito meses com os receios de que a oferta da commodity na região fosse prejudicada. Passados os temores, os preços dos contratos Brent recuaram quase 8%, mais do que devolvendo os ganhos e acumulando agora perdas de cerca de 2,5% no ano.

A Rússia, maior produtora petrolífera entre os dez principais membros da aliança não pertencentes ao cartel, afirmou que realizará cortes na ordem de 70 mil bpd para contribuir com os objetivos da OPEP+ no primeiro trimestre de 2020, sob o argumento de evitar uma turbulência no mercado petrolífero durante o ano, mas, ao mesmo tempo, cogitou uma possível saída do grupo futuramente. Segundo declaração do Ministro de Energia da Rússia, Alexander Novak, os cortes de produção de petróleo não podem ser eternos e a Federação Russa deveria ir saindo aos poucos do pacto a fim de preservar participação de mercado e implementar projetos.

Para analistas internacionais, a questão é problemática, pois deixa claro o embate entre defender o preço do petróleo no mercado mundial ou garantir a participação nesse mesmo mercado. A OPEP+, no intuito de sustentar os preços, está beneficiando os produtores de petróleo norte-americanos que ganham vantagens ao poder continuar a extrair petróleo sem nenhuma restrição.

A possível saída da Rússia do acordo de cooperação poderia provocar uma redução no preço do barril Brent em aproximadamente 5 dólares (R$20,9*), segundo especulações de mercado, pois forçará a Arábia Saudita a aprofundar mais a sua redução de produção petrolífera, mas não se sabe se terá essa capacidade ou até mesmo disposição para tal processo. A OPEP+ se reunirá novamente em Viena nos dias 4 e 5 de março (2020), quando Moscou terá a oportunidade de tomar sua decisão.

———————————————————————————————–

Nota:

* Cotação de 25/01/20 >> US$ 1 = R$ 4,186.

———————————————————————————————–

Fontes das Imagens:

Imagem 1 Sede da OPEP em Viena, Áustria” (Fonte): https://pt.wikipedia.org/wiki/Organização_dos_Países_Exportadores_de_Petróleo#/media/Ficheiro:Opec_Gebäude_Wien_Helferstorferstraße_17.jpg

Imagem 2 Bandeira da OPEP” (Fonte): https://pt.wikipedia.org/wiki/Organização_dos_Países_Exportadores_de_Petróleo#/media/Ficheiro:Flag_of_OPEC.svg

Imagem 3 Preço do barril de petróleo Brent” (Fonte): https://br.investing.com/commodities/brent-oil-streaming-chart