ANÁLISES DE CONJUNTURANOTAS ANALÍTICAS

COMUNICADO CEIRI NEWS DE 12 DE OUTUBRO

Caros Leitores do CEIRI NEWS (CNP)

Informamos que devido ao feriado nacional de “Nossa Senhora Aparecida” (dia 12 de Outubro) haverá recesso e não serão publicados artigos na próxima segunda-feira, dia 12. Voltaremos às atividades no dia 13, terça-feira, com postagem agendada para esta data, e com os demais artigos para o resto da semana.

Como é nosso padrão, ao longo do dia 12 outubro de 2020 manteremos as consultas e caso ocorram eventos que exijam acompanhamento mais intenso, assim o faremos, postando texto sobre os acontecimentos.   

Agradecemos à gentileza de todos os que têm contribuído direta e indiretamente com a reflexão e o estudo dos Colaboradores do Jornal, bem como com a avaliação dos acontecimentos e a disseminação da informação, de maneira a cooperar com o esclarecimento da sociedade e o seu desenvolvimento.

Um grande abraço e antecipadamente desejamos a todos um feriado tranquilo e harmonioso.

Conselho Editorial do CEIRI NEWS

ANÁLISES DE CONJUNTURAEURÁSIA

O papel geopolítico russo no conflito entre Armênia e Azerbaijão

Localizadas numa região transcontinental entre Europa e Ásia, mais conhecida como Cáucaso, as ex-Repúblicas Socialistas Soviéticas Armênia e Azerbaijão vêm nas últimas semanas potencializando um conflito de longa data devido a disputas territoriais pelo domínio do enclave de Nagorno-Karabakh, e que poderá evoluir para uma guerra que ameace a estabilidade regional.

Durante anos, a Armênia e o Azerbaijão têm estado em desacordo sobre essa faixa de terra, tendo, um pouco antes do colapso da União Soviética, travado uma sangrenta guerra, que durou seis anos, no intuito de controlar o enclave que fazia parte do Azerbaijão de maioria muçulmana, mas que era povoado principalmente por cristãos armênios étnicos.

Mapa da região do Cáucaso

O conflito terminou em 1994, baseado num acordo de cessar-fogo, com aproximadamente 30.000 mortos, mais de um milhão de deslocados e uma frágil trégua que deixou Nagorno-Karabakh como um Estado independente de fato, reconhecido e apoiado pela Armênia, mas não pela maioria dos outros países, incluindo o Azerbaijão. Confrontos de baixo impacto persistem desde então, incluindo escaramuças mortais em 2016, e ambos os governos, segundo analistas, frequentemente usam o conflito para acender chamas nacionalistas dentro de suas fronteiras.

Em julho (2020), em plena pandemia da COVID-19, os atritos militares retomaram forma com diversos bombardeios pesados nas regiões setentrionais de Tovuz e Tavush, causando a morte de dezenas de militares e civis de ambos os lados. Um escalonamento do conflito se intensificou quando autoridades do Azerbaijão ameaçaram atacar uma central nuclear da Armênia, responsável pela produção de energia elétrica consumida em grande parte da área, caso ela investisse em ataques a centros estratégicos azeris.

Artilharia armênia no conflito Nagorno-Karabakh

Com o agravamento das hostilidades, um segundo ato, de maiores proporções, vem tomando corpo com uma provável escalada de tensões entre nações que têm interesses geopolíticos regionais e que estão dispostas em lados divergentes. Rússia, Turquia, Irã e Israel, cada um com seus interesses específicos, visualizam no conflito uma forma de maior influência geopolítica regional, impulsionando suas hegemonias numa região desbalanceada pelos embates étnico-territoriais.

Segundo especialistas, a defesa declarada da Turquia ao colega Azerbaijão é parcialmente impulsionada pelo desejo de recuperar seu papel passado como principal patrono militar do país, algo que a Rússia e Israel agora fazem, atuando como fornecedores de equipamentos militares. A resposta turca à última erupção da violência foi imediata e dura, endossando a versão azeri dos acontecimentos bem antes do estado das coisas no terreno ser determinado, demonstrando um comportamento inadequado de um agente que está envolvido em guerras por procuração tão distantes quanto Líbia e Síria e, segundo informações, supostamente está direcionando mercenários jihadistas sírios para atuar ao lado de tropas militares azerbaijanas.

A Rússia, por sua vez, é vista como um ator externo chave que tem um interesse legítimo no conflito, por conta, principalmente, do seu engajamento diplomático e iniciativa como uma nação coordenadora, juntamente com a França e os EUA, no Grupo Minsk* da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE), a única entidade diplomática habilitada a mediar tal desbalanceamento. Outro ponto crucial nesse interesse é que a Armênia é um grande aliado, que cedeu área para implantação da 102ª Base Militar russa na região armênia de Gyumri, com aproximadamente 3 mil soldados, e é membro ativo da Organização do Tratado de Segurança Coletiva (CSTO, do inglês Collective Security Treaty Organization), um bloco político-militar sob os auspícios russos na região do Cáucaso.

A Rússia tem vantagens distintas que superam a influência turca, pois tem envolvimento direto com os dois lados do conflito e essa percepção decorre de vários fatores. Primeiro, o Azerbaijão reconhece que Moscou tomou a iniciativa diplomática no processo de paz de Nagorno-Karabakh, em que os mediadores França e EUA cederam a liderança diplomática ao país eslavo. Uma segunda vantagem para a Rússia remete ao aumento de sua influência protetora sobre a Armênia, que não tem uma alternativa real de segurança, fazendo com que a natureza transacional das relações entre Yerevan** e Moscou se fortaleçam a partir do aspecto do protecionismo da segurança internacional.

Em terceiro lugar, como demonstrado em rodadas anteriores de combate, a mais notável em abril de 2016, apenas a Rússia respondeu a novas hostilidades de forma rápida e eficaz. Isso também é evidente na realidade de que os únicos acordos de cessar-fogo alcançados no conflito Nagorno-Karabakh foram intermediados com o envolvimento russo.

Reunião de mediação do então Presidente russo, Dmitri Medvedev, com o Presidente armênio Serzh Sargsyan e o Presidente azerbaijano Ilham Aliyev, em 2008

Para o restabelecimento das amenidades, a Federação Russa não só demostra suas habilidades diplomáticas, como também seu poder bélico, caso essa necessidade se apresente. Entre 17 e 21 de julho (2020), época de novos conflitos armênio-azeris, o Ministério da Defesa russo lançou, de forma repentina, exercícios militares, quando foram mobilizados cerca de 150 mil militares, 414 aeronaves e mais de 100 navios de guerra (divididos entre o Mar Negro e o Mar Cáspio), que participaram de um evento operacional para avaliar a capacidade dos centros de comando militar na garantia da segurança do sudoeste do país, o qual foi também uma preparação para o “Cáucaso-2020”, uma série de exercícios bélicos realizados em 25 de setembro (2020), com as tropas da China, Irã, Paquistão e Mianmar, juntamente com as ex-repúblicas soviéticas Armênia, Azerbaijão e Bielorrússia.

Com o agravamento dos conflitos na região caucasiana, a Rússia será essencial para qualquer eventual resolução negociada para Nagorno-Karabakh, sendo, provavelmente, o único ator regional capaz de impor um cessar-fogo e ajudar a garantir um durável acordo de paz.

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Nota:

* O Grupo de Minsk foi criado em 1992 pela Conferência sobre a Segurança e a Cooperação na Europa (CSCE), agora Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE), para encorajar a negociação entre o Azerbaijão e a Armênia no sentido de resolverem pacificamente o conflito de Nagorno-Karabakh.

** Yerevan é a capital da Armênia, significando aqui o Estado armênio.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Artilharia azeri em ataque a posições armênias” (Fonte):

https://southfront.org/wp-content/uploads/2020/10/dfgdfgdfgdf.jpg

Imagem 2 Mapa da região do Cáucaso” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/C%C3%A1ucaso#/media/Ficheiro:Caucasus-political_pt.svg

Imagem 3 Artilharia armênia no conflito NagornoKarabakh” (Fonte):

https://southfront.org/wp-content/uploads/2020/10/0000464164-article2.jpg

Imagem 4 Reunião de mediação do então Presidente russo, Dmitri Medvedev, com o Presidente armênio Serzh Sargsyan e o Presidente azerbaijano Ilham Aliyev, em 2008” (Fonte):

https://i1.wp.com/www.defesa.tv.br/wp-content/uploads/2020/09/OAs8aiAdSOMRDGollWzNhrewB6ClKweB.jpeg?resize=768%2C474&ssl=1

ANÁLISES DE CONJUNTURAEUROPA

Guerra na periferia da Europa e da Rússia

Azerbaijão e Armênia são duas pequenas nações no leste europeu, já no limite do continente e no começo da área geográfica da Ásia, situados em pleno Cáucaso. A região, ao longo da história, serviu de passo para diversas culturas, sendo a mesma habitada desde o começo do neolítico e disputada centímetro a centímetro. Atualmente, é dívida principalmente por Geórgia, Azerbaijão e Armênia, os quais atuam como um tapume para o mundo asiático e fronteira entre o mundo ocidental e oriental, embora amplamente influenciadas por ambos e se decantando ora por um ora pelo outro. Ressalte-se que, além desses três países, fazem parte da região: Inguchétia, Adiguésia, Cabárdia-Balcária, Carachai-Circássia, Ossétia do Norte, Krai de Krasnodar e Krai de Stavropol – repúblicas russas.

As disputas de poder marcaram de forma diferente cada um dos três Estados. A expansão da União Soviética, as pressões da Turquia e do Irã fizeram da região um ponto de tensão constante, que embora mantivesse nos últimos anos uma certa calma, jamais deixou a latente pressão característica da região.

Assim mesmo, seus valiosos recursos e oleodutos, uma fonte de riqueza, principalmente para o Azerbaijão, sempre foram cobiçados pela expansão do Bloco europeu, que já negociava com cada uma das nações sua futura adesão. Porém, divergências culturais, históricas e políticas sempre dificultaram a adesão desses Estados ao cenário internacional sem permanecer na sombra dos interesses das potências da região.

Conflito de Nagorno-Karabakh: 1988–1994 (Guerra de Nagorno-Karabakh); 1994–presente (violência esporádica, especialmente confrontos fronteiriços)

A tensão entre Armênia e Azerbaijão, cuja disputas territoriais foram sempre complexas, chegaram ao seu auge no domingo passado, dia 27 de setembro de 2020, quando ambos países declararam lei marcial e entraram em conflito direto, havendo acusações dos dois lados em relação a quem começou a contenda.

A Rússia, principal player regional, decretou o cessar imediato das agressões, já a União Europeia instou à convocação do grupo de Minsk (Rússia, Estados Unidos, França e OSCE – Organização para a Segurança e Cooperação na Europa*) a instaurar o diálogo.  A Turquia, cuja tensa relação com a Armênia ficou conhecida no mundo inteiro devido ao holocausto por ela realizado, decretou total apoio ao Azerbaijão.

Embora longe dos centros de decisão da União Europeia e mais próximos a Moscou, uma guerra na região poderia se alastrar facilmente a outras áreas tensas no espaço de influência russo e colidentes com o Bloco europeu, tais como Belarus, cujo presidente Lukashenko não foi reconhecido por Bruxelas.

Imagens da Guerra de Nagorno-Karabakh (1988–1994)

Os atritos nessa região, na atual conjuntura que enfrenta a Europa, pode reacender ou fortalecer a instabilidade em toda periferia leste, fazendo com que seja mais difícil uma recuperação do Bloco. Assim, mesmo para a Rússia o conflito supõe uma nova amostra de que sua influência na região, embora importante, pode se ver sobressaltada à cada momento, ou levar indiretamente a uma escalada de tensões entre as grandes potências.

Além disso, o começo do inverno no hemisfério norte aumenta o eco de qualquer evento nessa área, pela forte dependência das grandes nações, lembrando que Azerbaijão é um grande produtor de gás, entre outros recursos energéticos.

Com relação ao embate entre Armênia e Azerbaijão, o território disputado é o passo fronteiriço de Nagorno Karabaj, uma região foco de tensões contínuas entre os dois países. Ao problema gerado pelo conflito na área se acrescentam outros, tais como a instabilidade em outros países da Europa do Leste, os fluxos migratórios de inverno, a tensão entre Grécia e Turquia, fora a Covid-19 que avança com força por todo o Bloco europeu, que já atua em sua segunda onda.

Acrescente-se ainda que as eleições em novembro, nos Estados Unidos, podem produzir um vácuo de poder, cujo impacto, caso se produza, resultaria em uma tempestade perfeita em plena periferia europeia, por isso, mostra-se como fundamental controlar as tensões o quanto antes possível. Ao que tudo indica, 2020 definitivamente pode ainda demorar a se encerrar, apesar de já estarmos em outubro.

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Nota:

* A OSCE é formada nos dias atuais por 57 países, em sua totalidade da Europa (inclui a Federação Russa e os Estados da União Europeia), da Ásia Central e da América do Norte (Canadá e Estados Unidos). É um organismo regional, disposto de acordo com o Capítulo VIII da Carta das Nações Unidas.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Localização da área em conflito” (Fonte):

https://eurasianet.org/sites/default/files/media/image/NK%20map.png

Imagem 2 Conflito de Nagorno-Karabakh: 19881994 (Guerra de NagornoKarabakh);

1994presente (violência esporádica, especialmente confrontos fronteiriços)” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Conflito_de_Nagorno-Karabakh#/media/Ficheiro:AZ-qa-location-en.svg

Imagem 3 Imagens da Guerra de NagornoKarabakh (19881994)” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Guerra_de_Nagorno-Karabakh#/media/Ficheiro:Karabakhwar01.jpg

AMÉRICA LATINAANÁLISES DE CONJUNTURA

O recrutamento de menores por grupos ilegais na Colômbia

O Governo da Colômbia anunciou em 25 de setembro de 2020 que atendeu a mais de 6 mil menores de idade que foram recuperados depois de terem sido recrutados por grupos ilegais. Essa conquista não significa, entretanto, que a guerra contra tal prática de recrutamento esteja vencida.

Lina Arbeláez, Diretora da agência governamental Instituto Colombiano de Bienestar Familiar (ICBF), informou que o Programa “Desvinculados, do ICBF, atua no sentido de assegurar condições necessárias para evitar que os menores sejam cooptados novamente, realizando aplicação de psicoterapia para superação do trauma e buscando a reconstrução da rede familiar de apoio para que a criança ou adolescente tenha uma reintegração sustentável em um meio distinto ao da guerrilha.

Este trabalho do Instituto teve início em 1999, tendo atendido jovens das diversas regiões do país e egressos das FARC (mais de 50%); do Ejército de Liberación  Nacional (ELN); da Autodefensas Unidas de Colombia (AUC); do Ejército Popular de Liberación  (EPL) e de grupos criminosos, apelidados de bandas criminales ou BACRIM.

Uma semana antes do anúncio do ICBF, em 18 de setembro, o Senador Julián Gallo confirmou, perante um tribunal de paz, ter havido recrutamento e assédio sexual de menores pela guerrilha. Gallo, conhecido como Carlos Lozada, era comandante das Fuerzas Armadas Revolucionarias de Colombia (FARC) e hoje integra o partido Fuerza Alternativa Revolucionaria del Común (FARC), fundado após a conversão da guerrilha em agremiação política, por meio de um acordo de paz assinado em 2016.

Segundo o Senador, jovens com idade mínima de 15 anos foram cooptados para a luta armada e, com o aumento da presença de membros do sexo feminino, ocorreram casos de assédio sexual. A declaração de Gallo deu-se na primeira audiência pública, de uma série iniciada há cerca de um mês, na qual os ex-guerrilheiros confessam os crimes para reduzir a pena.

Capa do manual do programa Desvinculados do ICBF

A ação do Governo colombiano, por meio do ICBF, e o isolamento social demandado pela pandemia não inibiram o aliciamento de menores pelos grupos. Segundo matéria do Estado de Minas, oportunidades foram criadas porque a falta de renda das famílias, causada pela pandemia, favorece o recrutamento, e o medo de retaliações inibe os pais de fazerem denúncias.

Nas zonas rurais, os grupos estão literalmente “batendo nas portas das casas” para cooptarem crianças que estão ociosas pela falta de equipamentos para acessarem aulas virtuais. Nas zonas urbanas, o alvo dos grupos são os bolsões de miséria. Os números apresentados pela matéria estimam um aumento de mais de 100% no recrutamento de janeiro a maio de 2020, em relação ao mesmo período de 2019.

Estima-se que o número de crianças-soldado na Colômbia seja de 18 mil indivíduos. A estimativa está contida em uma Dissertação de Mestrado de Patrícia Martuscelli, na qual a autora afirma que os grupos admitem a presença de menores nos seus quadros, a despeito de terem normas contrárias. Para a Doutora em Ciência Política, três variáveis explicam o fenômeno das crianças-soldado: fome, pobreza, falta de oportunidades e outros fatores sociais; alistamento voluntário como resultado de análise custo-benefício, por parte dos jovens; e a mesma análise por parte dos recrutadores.

Martuscelli levanta a questão de que é polêmico considerar-se o alistamento como voluntário, mas aponta a perspectiva de que “a criança deve ser considerada como um ator das Relações Internacionais, visto que essa impacta diretamente na política internacional”. E, sobretudo, ela afirma que esta informação precisa ser obrigatoriamente considerada pelos programas de governo que visam a desmobilização, o desarmamento e a reintegração destes jovens.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Criança soldado na Colômbia” (Fonte):

https://d2lo9qrcc42lm4.cloudfront.net/Images/News/_contentLarge/Child-soldier-in-Colombia-origin-unknown-but-used-extensively-on-reports-and-blogs.jpg?mtime=20170112124050

Imagem 2 Capa do manual do programa Desvinculados do ICBF” (Fonte):

ANÁLISES DE CONJUNTURASaúde

A ascensão da vacina russa na luta contra a COVID-19

Desde que a organização Mundial de Saúde (OMS) decretou estado de pandemia global, em 11 de março (2020), não só tiveram início os protocolos internacionais de segurança, como, também, o início de vários trabalhos de pesquisa fármaco-laboratoriais na busca de um antiviral para a COVID-19 e, segundo dados mais recentes, a quantidade de vacinas em testes apresentam o seguinte quadro:

– 139 vacinas em estudos pré-clínicos (testes estão sendo realizados em animais);

– 28 vacinas entraram na fase de testes em humanos (Fase 1);

– 6 vacinas entraram na Fase 3 de experimento, ou seja, estão no estágio avançado da pesquisa, devendo posteriormente serem registradas e distribuídas massivamente, sendo que, por traz desses trabalhos de desenvolvimento encontram-se os principais nomes pertencentes ao mundo das Big Pharma.

Bandeira da OMS

Nesse pódio da fase 3, parcerias de peso foram instituídas para acelerar os processos de pesquisa numa corrida global para descobrir uma vacina eficaz, envolvendo nomes como:

– Universidade de Oxford e o conglomerado farmacêutico AstraZeneca (vacina AZD1222). Apesar de seus trabalhos serem momentaneamente suspensos, por conta de reações adversas em pacientes voluntários, essas instituições do Reino Unido ainda continuam trabalhando em conjunto com a FIOCRUZ (Fundação Oswado Cruz – RJ), tendo também participação da UNIFESP (Universidade Federal de São Paulo) em testes realizados;

– Sinovac Biotech Ltd. (vacina CoronaVac), empresa biofarmacêutica chinesa, que atualmente está trabalhando em parceria com o Instituto Butantan do Governo do Estado de São Paulo;

– Sinopharm Group e Wuhan Institute of Biological Products, empresa farmacêutica estatal chinesa aliada ao centro nacional de microbiologia médica, imunologia, engenharia celular e engenharia genética de Wuhan;

– Beijing Institute of Biological Products, dedicado à pesquisa, desenvolvimento, produção e fornecimento de produtos biológicos. Tem participação do Fundo de Investimento Estratégico da Fundação Bill & Melinda Gates para fabricar uma vacina oral de poliomielite de baixo custo, sob a pré-qualificação da OMS, para uso em países em desenvolvimento;

– Moderna/NIAD (vacina mRNA-1273), empresa de biotecnologia norte-americana aliada ao Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas (NIAD, na sigla em inglês);

– BioNTech/Pfizer (vacina BNT162), empresa de biotecnologia alemã aliada a empresa farmacêutica norte-americana.

Apesar de terem seus nomes citados como possíveis favoritos nessa “disputa”, essas entidades, nas últimas semanas, começaram a compartilhar espaço com um protagonista que causou certa desconfiança pela comunidade científica internacional, devido a rapidez com que apresentou uma possível vacina contra a COVID-19.

Logotipo do Instituto Gamaleya

A vacina Sputnik V, elaborada pelo Instituto Gamaleya e financiada pelo Fundo de Investimento Direto da Rússia (RDIF, na sigla em inglês), foi registrada em 11 de agosto (2020) pelo Ministério da Saúde da Rússia e, posteriormente, apresentada à comunidade global pelo presidente russo Vladimir Putin. Desde então, o Governo russo busca parcerias com vários países para desenvolver estudos da Fase 3, a mais importante no processo de desenvolvimento, pois envolve ensaios em larga escala (com milhares de indivíduos), quando é preciso fornecer uma avaliação definitiva da sua eficácia e segurança em maiores populações. Além disso, ela é feita para prever eventos adversos e garantir a durabilidade da proteção.

A potencialidade da vacina tomou desenvoltura quando a revista The Lancet* publicou ponto positivo em um artigo específico para a Sputnik V, declarando que suas formulações eram “seguras e bem toleradas” e que na aplicação em indivíduos voluntários  “a maioria dos eventos adversos foram leves e nenhum evento adverso grave foi detectado”, além de todos os participantes produzirem anticorpos para a SARS-Cov-2.

Apesar de a revista também citar que é necessária a obtenção de mais dados científicos, a Federação Russa, através de suas instituições, já iniciou processo de compartilhamento de informações científicas, sob termos de confidencialidade, com núcleos de pesquisa interessados em desenvolver sua vacina.

Reunião entre o presidente russo, Vladimir Putin, e o CEO do RDIF, Kirill Dmitriev

Segundo informações, a Rússia já recebeu consultas de mais de 40 países interessados na possível efetividade imunológica que a Sputinik V vem apresentando. Acordos bilaterais vem sendo estruturados, tais como o realizado entre o RDIF russo e a companhia farmacêutica mexicana Landsteiner Scientific, onde haverá o direcionamento de 32 milhões de doses no intuito de atender 25% da população do país. A Dr. Reddy’s, uma das principais empresas farmacêuticas da Índia, já sinalizou que realizará testes clínicos de Fase 3 da vacina russa em seu território e que posteriormente deverá produzir, junto com outros fabricantes indianos, um total inicial de 300 milhões de doses, sendo que, após essa declaração, o valor de suas ações no mercado mundial subiu em torno de 4,2%.

No Brasil, o RDIF já fechou acordo com o Instituto de Tecnologia do Paraná (TECPAR), enviando todas as informações sobre o desenvolvimento da imunização pela vacina, além das pesquisas clínicas já realizadas pelo Instituto Gamaleya da Rússia. O estudo, com mais de 600 páginas, está sendo verificado pelo Comitê Técnico Interinstitucional de Cooperação para Pesquisa, Desenvolvimento, Testagem, Fabricação e Distribuição de Vacina contra Sars-CoV-2 (COVID-19), e o Governo do Paraná deverá submetê-lo à Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) dentro dos próximos trinta dias, além de também submetê-lo à Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep). O Governo do estado brasileiro da Bahia também assinou acordo para conduzir testes clínicos da Fase 3 da vacina russa e planeja comprar 50 milhões de doses para distribuição em território nacional, sendo que o governador Rui Costa (PT) declarou que um acordo de confidencialidade foi assinado em 8 de setembro (2020) para formalizar os testes, e a Bahia irá receber 500 doses iniciais assim que a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovar o protocolo para a testagem.

Países da Ásia, Oriente Médio e América do Sul vêm paulatinamente potencializando a disseminação do medicamento russo devido a seus interesses em ter uma resposta rápida contra a COVID-19, e já foram requisitados suprimentos na ordem de 1,2 bilhão de doses, que, através de acordos estruturados, poderiam indiretamente ajudar Moscou a ter uma valiosa influência econômica e política de âmbito global.

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Nota:

* Fundada em 1823, por Thomas Wakley (cirurgião e membro do parlamento inglês), The Lancet é uma revista científica sobre medicina e publicada pela Elsevier no Reino Unido pelo Lancet Publishing Group. Publica os artigos originais de pesquisa primária e revisão do mais alto padrão, sendo rigorosamente editada e revisada por pares para garantir o mérito científico e a relevância clínica de seus diversos conteúdos.  A partir de uma rede internacional de conselheiros e colaboradores, a The Lancet atende às necessidades dos médicos, adicionando ao seu conhecimento clínico e alertando-os para questões atuais que afetam a prática da medicina em todo o mundo.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Linha de produção de vacina” (Fonte):

https://rdif.ru/Eng_Portfolio/r-pharm/

Imagem 2 Bandeira da OMS” (Fonte):

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/8/89/Flag_of_WHO.svg/800px-Flag_of_WHO.svg.png

Imagem 3 Logotipo do Instituto Gamaleya” (Fonte):

https://gamaleya.org/en/

Imagem 4 Reunião entre o presidente russo, Vladimir Putin, e o CEO do RDIF, Kirill Dmitriev” (Fonte):

https://media.rdif.ru/photogallery/150828/1024/150828-1.jpg

ANÁLISES DE CONJUNTURAEUROPA

Islândia e Conselho Nórdico emitem declaração conjunta contra a Bielorrússia

O termo Bielorrússia ou Belarus possui diferentes origens e geralmente tem associação com a “Rússia Branca”. A expressão pode ter derivação da área coberta por neve, no Leste Europeu, a qual, no passado, era habitada por eslavos, os quais opunham-se à população que vivia na região denominada de Rutênia Negra, que era controlada pelos lituanos.

A Bielorrússia atual constituiu-se a partir da unificação de porções dos territórios de seus antigos vizinhos polacos, lituanos e russos. Após a Revolução Russa de 1917, o Estado bielorrusso tornou-se parte da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), sob o nome de República Socialista Soviética Bielorrussa.

Com o advento da II Guerra Mundial os bielorrussos experimentaram uma grande destruição com a estimativa da morte de um terço de sua população e mais da metade dos recursos econômicos. Todavia, o Estado reestruturou-se com o auxílio soviético e, com o declínio da URSS, tornou-se independente em 25 de agosto de 1991.

A Constituição de 1994 estabeleceu que o Estado seria uma república chefiada por um Presidente, com mandato de 5 anos (posteriormente houve uma modificação em 1996 que permitiu a extensão do mandato para 7 anos) e uma Assembleia Bicameral, composta pela Casa dos Representantes (Câmara Baixa), a qual possui 110 assentos, e pelo Conselho da República (Câmara Alta), o qual contém 64 assentos.

O atual Presidente da Bielorrússia é Alexander Lukashenko, que governa o país desde 1994, e é tido como um ditador em um regime autoritário, de acordo com as diversas críticas internacionais que recebe. Tais críticas envolvem questões relacionadas à violação de direitos humanos, com ações contrárias a organizações não governamentais (ONGs), jornalistas independentes, minorias nacionais e políticos de oposição.

A crítica atual recai sobre a suspeita de fraude eleitoral no país, após a declaração de vitória para o presidente Lukashenko, cujo percentual de aprovação teria conquistado cerca de 80% do eleitorado contra os 10% dos votos de Svetlana Tijanovskaya, líder da oposição.

Soma-se a isso a acusação de repressão das forças de segurança contra manifestantes pacíficos que se mobilizam de diversos setores sociais e econômicos. O desejo dos manifestantes envolve a realização de novas eleições, a libertação dos detidos nos protestos, bem como dos presos políticos.  

Os protestos da população contra a política de Lukashenko e o caráter de estranhamento sobre a situação eleitoral em Belarus resultou em maior atenção internacional. Os Estados vizinhos, com exceção da Federação Russa, observam com preocupação a situação eleitoral do país, o qual já possuía um histórico de questionamento acerca da democracia por parte de seus críticos.

Em relação à pauta, a Islândia, juntamente com o Conselho Nórdico*, emitiram uma Declaração Conjunta sobre os fatos no Estado eslavo, a qual foi manifestada em reunião especial do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (CSNU), no dia 4 de setembro. A Reunião na ONU ocorreu virtualmente e foi liderada pelo Ministro das Relações Exteriores da Estônia, Urmas Reinsalu, cujo país ocupa assento na qualidade de membro não permanente no CS. Os países nórdicos preocupam-se com a questão dos direitos humanos na Bielorrúsia e reconhecem que as eleições recentes não são vistas como livres e nem justas.

Ministro dos Negócios Estrangeiros e da Cooperação Internacional da Islândia, Gudlaugur Thór Thórdarson

Em relação ao assunto, o site do Ministério dos Negócios Estrangeiros da Islândia comunicou a declaração do Ministro dos Negócios Estrangeiros e Cooperação Internacional da Islândia, Gudlaugur Thór Thórdarson, do Partido da Independência, o qual, representando os chanceleres nórdicos, afirmou: “O uso da violência generalizada contra manifestantes pacíficos, jornalistas e outros trabalhadores da mídia, após as eleições, foi profundamente preocupante. O desejo do povo da Bielorrússia de ser respeitado e ouvido em eleições livres e justas é uma exigência legítima. Não podemos ficar parados e hesitar em nossas críticas, quando confrontados com tão graves violações dos direitos humanos e restrições às liberdades”.

O respectivo site ministerial ainda divulgou o conteúdo da Declaração, no qual a Islândia, Dinamarca, Finlândia, Noruega e Suécia reiteram seus posicionamentos a favor do diálogo, dos direitos humanos e pela soltura de presos políticos, conforme o trecho destaca: “As autoridades bielorrussas devem libertar todas as pessoas detidas ilegalmente, incluindo as detidas por motivos políticos. Estamos profundamente alarmados com os processos criminais abertos contra o Conselho de Coordenação, bem como a intimidação e detenção de seus membros. Pedimos uma investigação completa, independente e transparente sobre as alegações de tortura e outros maus tratos de pessoas detidas. Todos os autores de violações de direitos humanos devem ser responsabilizados. Isso será crucial para enfrentar as queixas pós-eleitorais e alcançar a reconciliação. Exortamos as autoridades bielorrussas a se envolverem com a atual e que está chegando à Presidência da OSCE (Organização para a Segurança e Cooperação na Europa) para facilitar um diálogo inclusivo e nacional no país”.

Silja Dögg Gunnarsdóttir, parlamentar islandesa e líder do Conselho Nórdico

O atual Conselho Nórdico é presidido pela parlamentar islandesa Silja Dögg Gunnarsdóttir, do Partido Progressista, a qual também demonstrou preocupação com a situação em Belarus e expressou a defesa dos valores democráticos e do estado de direito, conforme indica o site do Conselho Nórdico: “Queremos expressar nosso maior apoio ao povo da Bielorrússia e a todas as forças democráticas do país. Todos devemos fazer tudo o que pudermos para apoiar uma transição pacífica para a democracia. No entanto, deve ficar claro que esse processo deve ser liderado pelo povo da Bielorrússia, e eles devem determinar seu próprio futuro”.O Conselho tem feito reuniões periódicas, desde 2007, com representantes da Bielorrússia, oposição e organizações não governamentais (ONGs), com o objetivo de promover o diálogo entre os atores.

Ainda no respectivo site do Conselho Nórdico, a líder da oposição Svetlana Tijanovskaya, que deixou o país rumo à Lituânia após o pleito, manifestou seus respeitos e consideração aos atores, e afirmou: “Espero que entendam o quão importante é o apoio dos países nórdicos e europeus para mim e para o nosso povo na Bielorrússia. Podemos ver que não estamos sozinhos em nossa luta pela liberdade. Isso é muito reconfortante. Muito obrigado pelo apoio. Também quero dizer que não somos mais a oposição, somos a maioria. O regime é a oposição”.

Os analistas observam com precaução e expectativa os acontecimentos, e compreendem as ações da Islândia e do Conselho Nórdico, sobretudo, a necessidade da não violência contra manifestações pacíficas, e a suspeita de fraude eleitoral.

Diante da questão sensível no país compreende-se a possibilidade de uma recontagem dos votos com o intuito de estimular a transparência, e de desestimular possíveis vozes de distorção política no Estado eslavo. Todavia, o grau de obscurantismo político nas ações das autoridades da Belarus, herdeira do comportamento político soviético, poderia ser revisto com o propósito de diminuir a rigidez existente no país, e contribuir para a consolidação de um regime político com maiores oportunidades.     

No tangente aos atores nórdicos, é relevante mencionar que os mesmos acompanham a política bielorrussa há anos, e buscam contribuir com soluções favoráveis ao consenso junto com as autoridades locais e com a sociedade civil daquele país. Ou seja, a voz nórdica deve ser entendida no âmbito da cooperação e da negociação e não pelo viés da intromissão em assuntos internos. Todavia, é importante frisar que os rumos políticos e sociais da Bielorrússia devem ser dirigidos pela própria vontade da população local, e não por conta de possíveis incentivos externos, os quais os Estados nórdicos ou quaisquer outros possam entender como válidos.

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Fontes das Imagens:

* Conselho Nórdico: é um organismo intergovernamental composto por representantes dos parlamentos da Dinamarca, Finlândia, Islândia, Noruega e Suécia, com o objetivo de promover a cooperação em assuntos específicos entre os Estados.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Praça da Vitória, em Minsk, capital da Bielorrússia” (Fonte):

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/9/9a/Victory-square.jpg

Imagem 2 Ministro dos Negócios Estrangeiros e da Cooperação Internacional da Islândia, Gudlaugur Thór Thórdarson” (Fonte):

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/5/58/V%C3%A4lisminister_Sven_Mikser_kohtus_Reykjavikis_Islandi_v%C3%A4lisministri_Gudlaugur_Th%C3%B3r_Th%C3%B3rdarsoniga_%2820.06%29_%2834618883043%29_%28cropped%29.jpg

Imagem 3 Silja Dögg Gunnarsdóttir, parlamentar islandesa e líder do Conselho Nórdico”(Fonte):

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/f/f5/Silja_D%C3%B6gg.jpg