AMÉRICA DO NORTEANÁLISES DE CONJUNTURAORIENTE MÉDIO

Mike Pompeo no Oriente Médio: tentativa de estimular mais países árabes a normalizarem relações com Israel

O Secretário de Estado norte-americano, Mike Pompeo, iniciou seu tour de cinco dias pelo Oriente Médio. A viagem teve como objetivo exortar mais Estados árabes a assinarem tratados de paz com Israel, normalizando as relações. A visita do Secretário teve início em 24 de agosto, e teve Tel Aviv como primeiro destino.

Em Jerusalém, Pompeo se reuniu com o Primeiro-Ministro israelense, Benjamin Netanyahu, e afirmou que esperava ver outros países árabes seguindo o exemplo dos Emirados Árabes Unidos, assinando acordos de paz com Israel.

O Secretário disse que a normalização “não somente aumentaria a estabilidade no Oriente Médio, como melhoraria a vida das pessoas nos seus próprios países”, mas assegurou que os Estados Unidos garantirão que Israel retenha uma “vantagem militar qualitativa”, reportou o Al Monitor. Simbolicamente, a visita também serviu como apoio a Netanyahu, que enfrenta crises políticas domésticas, além de protestos e alto desemprego. O Premier será julgado por corrupção a partir de janeiro de 2021.

O Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anuncia à mídia o acordo com os Emirados Árabes Unidos do Salão Oval na Casa Branca, em 13 de agosto de 2020

No último 13 de agosto de 2020, com mediação dos Estados Unidos, os Emirados Árabes Unidos e Israel assinaram um acordo de paz histórico, o Tratado de Abraão, que prometeu “avanço significativo nas relações árabe-israelenses e redução das tensões”. O anúncio também inauguraria um “desbloqueio de grande potencial no Oriente Médio”, promovendo desenvolvimento econômico e tecnológico, já que os três países “enfrentam muitos desafios em comum na região”.

Mapa do chamado ‘Visão para Paz’, plano de paz para o conflito Israel-Palestina apresentado por Donald Trump em 28 de janeiro de 2020

A contrapartida do acordo seria o comprometimento israelense com a suspensão da declaração de soberania sobre os 30% adicionais da Cisjordânia, áreas delineadas no plano “Paz para Prosperidade” de Donald Trump, anunciado em janeiro de 2020.

Em 25 de agosto, ainda em Israel, Mike Pompeo se pronunciou na Convenção Nacional do Partido Republicano, defendendo a política de Donald Trump de “America First”, bem como sua agenda externa. Ao endereçar os norte-americanos diretamente de Jerusalém ocupada,  o enviado é acusado de apaziguar os sionistas cristãos e evangélicos com seu discurso, reportou o Middle East Monitor. O pronunciamento está sob investigação oficial de Washington por denúncias de graves violações éticas.

O Secretário seguiu para Cartoum, capital do Sudão, para onde fez o primeiro voo oficial direto de Israel. A correspondente do New York Times descreveu a inédita permissão do trajeto como “outro salto no caminho para a normalização com Israel”. No Sudão, o enviado discutiu a possibilidade de os Estados Unidos retirarem o país da lista de nações patrocinadoras do terrorismo. O governo interino sudanês, contudo, além de ter informado que não possui mandato para negociar questões fora da sua agenda de transição, exortou que a retirada do Sudão da lista norte-americana de terroristas estivesse desvinculada de quaisquer acordos de paz com Israel.

O Secretário de Estado Michael Pompeo em encontro com o Sultão de Omã, Haitham bin Tariq Al Said, em Muscat, Omã, em 21 de fevereiro de 2020

Em 27 de agosto de 2020, Pompeo chegou a Omã, e reuniu-se em Muscat com o Sultão Haitham bin Tarik Al Said para promover unidade entre o Conselho de Cooperação do Golfo.

No dia anterior, no Bahrein, a proposta de normalização havia sido rejeitada. O rei Hamad bin Isa al-Khalifa afirmou que permanecia comprometido com a Iniciativa de Paz Árabe de 2002, que pede a normalização apenas em troca da retirada completa de Israel dos territórios palestinos ocupados, reportou a Al Jazeera. Após parada no Bahrein, o destino seguinte são os Emirados Árabes Unidos, onde Pompeo também deverá promover o aquecimento das relações com o Estado israelense.

Bandeiras de Israel e Estados Unidos
ao lado do slogan ‘Trump é
amigo do Zion’, por ocasião dos
preparativos da cerimônia de realocação da
Embaixada norte-americana em Israel de
Tel Aviv para Jerusalém, em 2018

Até o Acordo de Abraão com o país do Golfo, os únicos países árabes a acertarem relações com Israel foram Egito, em 1979, e Jordânia, em 1994. Os destinos do tour de Pompeo seriam os Estados cotados a serem os próximos a regularizarem as relações com os israelenses. Apresentado como “inovador” e como “grande avanço”, o acordo foi fortemente criticado pela população e pelas lideranças palestinas, que se sentiram traídas pelo tratado. A Autoridade Nacional Palestina rejeitou o pacto e solicitou uma reunião de emergência da Liga Árabe.

Analistas apontam que o acordo tem cunho tecnológico e estratégico, viabilizando a venda de jatos F-35 dos Estados Unidos aos Emirados – o que Israel nega ter permitido – e de fortalecimento dos laços pró-ocidentais na região. Além de representar “o golpe mais recente dos Estados árabes à causa Palestina”, a normalização é acusada de ser feita às custas do legítimo direito nacional palestino, vez que ignora as violações israelenses ao Direito Internacional, sobretudo a ocupação de facto nos territórios para além da linha verde de 1967. O acordo, argumentam analistas, mira o Irã e deve ser compreendido dentro da campanha de recrudescimento de sanções e de pressão máxima de Trump contra o chamado eixo da resistência, composto, além do Irã, por Síria, Hezbollah, Hashd ash-Shabi no Iraque e Ansar Allah no Iêmen.

———————————————————————————————–

Fontes das Imagens:

Imagem 1 Michael Richard Pompeo, Secretário de Estado norteamericano(Fonte): 

https://pt.wikipedia.org/wiki/Mike_Pompeo

Imagem 2 O Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anuncia à mídia o acordo com os Emirados Árabes Unidos do Salão Oval na Casa Branca, em 13 de agosto de 2020 (Fonte): 

https://en.wikipedia.org/wiki/Israel%E2%80%93United_Arab_Emirates_peace_agreement#/media/File:President_Trump_Delivers_a_Statement_from_the_Oval_Office_01.jpg

Imagem 3 Mapa do chamado Visão para Paz’, plano de paz para o conflito IsraelPalestina apresentado por Donald Trump em 28 de janeiro de 2020 (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Trump_peace_plan#/media/File:Trump_Peace_Plan_(cropped).jpg

Imagem 4 O Secretário de Estado Michael Pompeo em encontro com o Sultão de Omã, Haitham bin Tariq Al Said, em Muscat, Omã, em 21 de fevereiro de 2020 (Fonte): 

https://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Secretary_Pompeo_Meets_with_the_Sultan_of_Oman_Haitham_bin_Tariq_Al_Said_(49565463757)_(cropped).jpg#/media/Ficheiro:Secretary_Pompeo_Meets_with_the_Sultan_of_Oman_Haitham_bin_Tariq_Al_Said_(49565463757).jpg

Imagem 5 Bandeiras de Israel e Estados Unidos ao lado do slogan Trump é amigo do Zion’, por ocasião dos preparativos da cerimônia de realocação da Embaixada norteamericana em Israel de Tel Aviv para Jerusalém, em 2018 (Fonte):

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/5/58/Relocation_of_US_Embassy_in_Israel_from_Tel_Aviv_to_Jerusalem_The_ceremony_preparations_2018_%2842112610461%29.jpg

AMÉRICA DO NORTEANÁLISES DE CONJUNTURAORIENTE MÉDIO

Consequências da política externa do Irã para os Estados Unidos

O Irã enfrenta uma série de desafios atualmente, a começar pela sua situação doméstica. O país é um dos mais afetados pela pandemia causada pela Covid-19, com mais de 296 mil casos confirmados e de 16 mil mortes registradas, em 28 de julho. Das 31 províncias do país, 25 se encontram em observação pelos efeitos da doença, 13 das quais são consideradas em perigo pelo risco que há desequilíbrio do sistema de saúde. O presente cenário indicava que o governo iraniano pode se ver obrigado ainda a aplicar medidas mais restritivas de quarentena e enfrentar um longo período da crise que já afeta profundamente sua economia.

A emergência sanitária também se soma à instabilidade política do país. Nas últimas semanas, protestos voltaram a ocorrer em distintas regiões, manifestantes expressavam insatisfação com o governo, bem como com a inflação e desemprego, aprofundados pela pandemia. O governo tenta evitar uma repetição dos protestos ocorridos em novembro de 2019, que deixaram mais de 300 mortos e centenas de feridos, segundo a Anistia Internacional.

Imagens compartilhadas recentemente em redes sociais indicam alta presença das forças de segurança nos protestos, e a organização Netblocks relatou que os serviços de internet vêm sendo desligados por certos períodos do dia no Cuzistão, província do sudoeste do país, onde há relatos de protestos. Não há informações de mortos ou feridos pela repressão ainda.

Desde sua campanha durante eleições presidenciais de 2016, o presidente Trump vem elevando a retórica contra o Irã. Em maio de 2018, o Presidente estadunidense retirou o país do Plano de Ação Integrado Conjunto (popularmente conhecido como “Acordo Nuclear do Irã”), desde então, a relação dos Estados é marcada por uma série de medidas restritivas por parte dos Estados Unidos e mesmo de ofensivas diretas, como o ataque militar que vitimou o general Qassem Suleimani, antigo Comandante das Forças Quds (forças especiais da Guarda Revolucionária Iraniana).

O chanceler iraniano, Mohammad Javad Zarif, cumprimenta o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, durante encontro em Moscou / Página oficial do chanceler iraniano Mohammad Javad Zarif, no Twitter @Jzarif

Existe a impressão de que as demonstrações de força por parte dos Estados Unidos esperavam levar o governo iraniano a renegociar o Acordo Nuclear e a relação de uma maneira que parecesse mais favorável aos tomadores de decisão em Washington, ou mesmo a um colapso do atual regime no país.

Segundo o presidente do Banco Central iraniano, Abdolnasser Hemmati, o país apresentou crescimento da receita em outros setores econômicos, diminuindo a dependência do petróleo. De acordo com relatório apresentado pela entidade, o Produto Interno Bruto do país cresceu 1,1% entre 2018 e 2019. Durante o período, o setor agrícola apresentou 8,8% de crescimento, a indústria 1,2% e a mineração 3,2%. Ainda assim, o Banco Mundial estima uma retração de 8,7% do PIB iraniano entre 2019 e 2020 devido a queda dos preços do petróleo.

O endurecimento do discurso também não aparenta produzir efeitos políticos morais. Uma pesquisa de opinião pública conduzida com o apoio do Centro de Estudos Internacionais e de Segurança da Universidade de Maryland, em agosto de 2019, indicou que para 63% da população as sanções impostas pelos Estados Unidos já haviam prejudicado ao máximo o país, e não poderiam causar ainda mais dano. Questionados se o país deveria buscar autossuficiência ou tentar se reintegrar ao comércio com outros países para voltar a crescer, 69% dos entrevistados optaram pela primeira opção

Tampouco há indicativos de que o Irã vá abrandar a retórica. Em um exercício militar realizado recentemente no Estreito de Ormuz pela Guarda Revolucionária do Irã, aeronaves de combate atiravam contra uma réplica de um porta-aviões da classe Nimitz, utilizado pela Marinha dos Estados Unidos.

Ainda que houvesse decidido continuar cumprindo as medidas do Acordo Nuclear durante os primeiros meses após a saída dos Estados Unidos, o Irã anunciou em julho e novembro de 2019 que aumentaria suas reservas de urânio para além dos limites estabelecidos. A aberta retomada de atividades nucleares não desejadas foi considerada um grave contratempo por distintos atores diplomáticos.

É em meio a este cenário que o Estado iraniano negocia acordos que podem aproximar ainda mais o país da Rússia e da China, aumentando a influência de dois grandes rivais dos Estados Unidos sobre o Oriente Médio.

O renovado interesse de associação entre Teerã tanto com Moscou quanto com Beijing envolve uma série de acordos para venda de material bélico, cessão de atividades econômicos e fontes de energia.

O chanceler iraniano, Mohammad Javad Zarif, cumprimenta o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, durante encontro em Moscou / Página oficial do chanceler iraniano Mohammad Javad Zarif, no Twitter – @Jzarif

Em visita ocorrida no dia 16 de junho à Rússia, o ministro das Relações Exteriores do Irã, Mohammad Zarif, manteve diálogo com sua contraparte russa, o chanceler Sergei Lavrov. Os diplomatas discutiram o apoio de Moscou para que o Irã mantenha seu programa nuclear operante e para evitar a renovação da Resolução 2231 do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Emitida em 2015, a medida impõe uma série de restrições para a aquisição de armas e material bélico por parte do Irã. Lavrov afirmou que a Rússia faria “tudo” para manter o Acordo Nuclear com o Irã e que “Washington não tem nenhum direito de punir o Irã”.

O acordo com a China pode gerar o investimento de uma quantia estimada em 400 bilhões de dólares (2,07 trilhões de reais, de acordo com a cotação do Banco Central em 28 de julho) no Irã durante os próximos 25 anos. Segundo uma versão preliminar, ambos países encaminham uma agenda de desenvolvimento de uma robusta infraestrutura portuária e de produção de energia. Com isso, o Irã ganharia um comprador preferencial de seu petróleo e gás, garantindo ao menos estabilidade nestas receitas. Além de aumentar a presença chinesa em um ponto geopoliticamente crítico, Teerã espera apoio político e estratégico chinês.

Os chanceleres do Irã, Mohammad Javad Zarif, e da Rússia, Sergei Lavrov, realizam a troca de documentos durante declaração conjunta em Moscou / Página oficial do chanceler iraniano Mohammad Javad Zarif, no Twitter – @Jzarif

No último dia 5 de junho, Trump chegou a afirmar que o Irã não deveria esperar uma mudança na administração dos Estados Unidos para “fazer o acordo”, mas que deveria “buscar um melhor acordo” com ele. Não importa quem seja o próximo residente da Casa Branca, haverá um desafio em equilibrar ou minimizar os efeitos da crescente rivalidade com o Irã e na relação com os demais países do Oriente Médio.

Os iranianos buscam estabilidade interna e manter a projeção de seus interesses para a região. Caso avancem ainda mais as alianças com a China e a Rússia, o país poderá garantir estabilidade comercial, apoio político, bem como o suprimento de material e tecnologia para sua indústria militar.

A Rússia possui claros interesses estratégicos no Oriente Médio, como é observado após anos de presença militar na Síria e um renovado interesse na Líbia. A China possui interesse em aumentar sua presença globalmente e o Oriente Médio é ponto central para estabelecer a Iniciativa do Cinturão e Rota.

Apesar do alto impacto causado pelas sanções, o Irã manteve firme posição ao negar a possibilidade renegociar os termos do Acordo Nuclear. Um cenário de renovada estabilidade do país e uma aliança com dois dos maiores competidores globais pode se apresentar com um dos principais desafios para a diplomacia dos Estados Unidos durante o próximo mandato presidencial.

———————————————————————————————–

Fontes das Imagens:

Imagem 1O presidente do Irã, Hassan Rouhani, realiza videoconferência com os presidentes da Rússia, Vladmir Putin, e da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, sobre conflito na Síria / Página oficial do chanceler iraniano Mohammad Javad Zarif, no Twitter @Jzarif” (Fonte):

https://twitter.com/JZarif/status/1278310053402083328/photo/2

Imagem 2Visão da videoconferência entre os presidentes do Irã, Rússia e Turquia / Página oficial do chanceler iraniano Mohammad Javad Zarif, no Twitter @Jzarif” (Fonte):

https://twitter.com/JZarif/status/1278310053402083328/photo/2

Imagem 3O chanceler iraniano, Mohammad Javad Zarif, cumprimenta o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, durante encontro em Moscou / Página oficial do chanceler iraniano Mohammad Javad Zarif, no Twitter @Jzarif” (Fonte):

https://twitter.com/JZarif/status/1285635000025731072/photo/1

Imagem 4Os chanceleres do Irã, Mohammad Javad Zarif, e da Rússia, Sergei Lavrov, realizam a troca de documentos durante declaração conjunta em Moscou / Página oficial do chanceler iraniano Mohammad Javad Zarif, no Twitter – @Jzarif” (Fonte):

https://twitter.com/JZarif/status/1272910391803346949/photo/1

AMÉRICA DO NORTEANÁLISES DE CONJUNTURAÁSIA

O retorno da geopolítica: cenários sobre a ascensão chinesa

A política internacional está passando por uma conjuntura de intensas mudanças e instabilidade. Vários fatores contribuem para isto: 1) regimes democráticos vêm sofrendo críticas em diversos países ao redor do mundo; 2) as tecnologias, como a inteligência artificial e o big data ainda provocarão mudanças que não são completamente dimensionadas pelas sociedades; 3) desafios sistêmicos de médio e longo prazo, tal como o avanço do aquecimento global; 4) maior espaço para a atuação no Sistema internacional, destacando a proeminência da China e a crescente importância da Ásia enquanto polo de dinamismo econômico.

Os Estados Unidos ainda são a principal potência global. No entanto, um maior foco nas suas questões domésticas, aliado à ascensão de atores como a China estão contribuindo para este cenário dinâmico e aberto a mudanças. Especialistas apontam que o ordenamento internacional surgido no pós-Segunda Guerra Mundial, que teve os seus valores reforçados ao final da Guerra Fria, tem sofrido rupturas e novas ideias estão emergindo, vindas de centros de poder localizados em outros espaços, fora da visão de mundo estritamente Ocidental.

Mapa Físico da Ásia

Nesta conjuntura de múltiplas narrativas e diferentes atores buscando os seus interesses e vantagens estratégicas, a geopolítica ressurge com força. A geopolítica designa a análise da interação entre, por um lado, os ambientes geográficos e, por outro lado, os processos políticos. Portanto, a geopolítica consiste no uso de recursos ou elementos geográficos para atingir objetivos políticos. A geopolítica pode ainda constituir uma série de lentes de análise para verificar de que forma os fatores geográficos influenciam as ações políticas, assim como a concentração ou dispersão do poder. O desenvolvimento de tecnologias de ponta está historicamente ligado à disrupções geopolíticas. Portanto, a expansão da geopolítica permeia as relações, seja nas áreas política, ambiental, econômica e tecnológica.

Tradicionalmente, o campo das Relações Internacionais aponta três posturas possíveis no âmbito da política internacional: competir, cooperar ou entrar em conflito*. Tendo como foco as relações entre os Estados Unidos e a China e as dinâmicas de competição, cooperação e conflito no âmbito da tecnologia, observa-se que a resposta norte-americana à maior proeminência chinesa provocará diferentes mudanças para o ordenamento global. A Guerra Comercial e a crescente disputa pelo domínio e desenvolvimento das tecnologias que guiarão a expansão das cadeias globais de valor nas próximas décadas são os dois principais campos de disputa que aparecem de forma mais proeminente na mídia nacional e internacional.

No âmbito do domínio e desenvolvimento de tecnologia, existem três cenários possíveis acerca da ascensão chinesa: 1) competição, no qual as principais potências globais podem se desconectar, cada uma buscando formar a sua próprias redes e zonas de influência; 2) cooperação, neste ponto veríamos a concorrência, onde as diferentes capacidades dos Estados e de suas empresas definiriam o espaço ocupado por determinado ator no sistema internacional; 3) o cenário do conflito poderia envolver o aprofundamento de disputas como a guerra comercial, além do aprofundamento da diplomacia bilateral.

No cenário competitivo, desenvolvimentos como as tensões ligadas à expansão da empresa chinesa Huawei na área da telecomunicação 5G e os pedidos do governo Norte-americano pelo banimento desta empresa em diversos países sinaliza a possibilidade de uma desconexão. Ou seja, as cadeias de produção de bens tecnológicos poderiam se tornar mais nacionalizadas e/ou concentradas em aliados específicos. Outras evidências que apontam para esta possibilidade incluem a declaração do mandatário chinês Xi Jinping de que o país vai tentar depender menos das indústrias de tecnologia advindas dos Estados Unidos. Este seria um cenário com posturas de balanceamento e formação de alianças entre os grandes atores do sistema, porém onde ainda existam eficientes canais de diálogo para promover a cooperação em algumas áreas, mesmo que se mantenha certo grau de tensão.

Mandatários dos Estados Unidos e da República Popular da China, Donald Trump e Xi Jinping

No cenário cooperativo a concorrência, as diferentes capacidades e vantagens competitivas dos Estados e de suas principais empresas ditam o espaço ocupado por determinado ator nos diversos mercados e cenários regionais. Ou seja, este seria um cenário no qual a dispersão ou concentração de poder ocorreriam de forma organizada, possivelmente pautados pelo diálogo, pela diplomacia multilateral e pela ação de instituições como a ONU, o Banco Mundial, o Banco Asiático de Infraestrutura e Investimento, o G20, entre outras.

O cenário de conflito poderia envolver o aprofundamento de disputas como a guerra comercial e talvez mesmo as guerras por procuração (proxy), onde dois ou mais agentes realizam a difusão de suas tensões, terceirizando determinado conflito para outros territórios, não diretamente envolvidos na disputa original. Além disto, um cenário com posturas mais conflitivas produziria o aprofundamento da crise da diplomacia e das instituições multilaterais, a exacerbação do uso político de narrativas nacionalistas e/ou extremistas e a preferência pela condução de diplomacia pelas vias bilaterais.

Fluxo Líquido de Investimento Estrangeiro Direto por país (1985-2018)

É provável que a ascensão chinesa produza uma combinação de diferentes respostas por parte dos atores tradicionais do Sistema internacional. Além das possibilidades apontadas nos cenários traçados, é importante relembrar que, por vezes, ocorrem os cisnes negros**, como costuma se denominar em análises de risco. Por fim, até 2040 a Ásia deverá representar mais de 50% do PIB mundial e 40% do consumo, ressaltando a tendência de mudança do eixo econômico global rumo às regiões fora do Ocidente.

———————————————————————————————–

Notas:

* Na análise do construtivismo wendtiano, denominam-se estas atitudes sob três perspectivas: 1) Lockeano (competir),2) Hobbesiano (conflito), 3) Rousseauniano (cooperar). A perspectiva acerca dos outros atores alteraria, portanto, as ações dos Estados no Sistema Internacional. Um exemplo claro, diz respeito à diferente maneira com a qual os Estados Unidos lidam com o poderio nuclear do Reino Unidos e da Coreia do Norte. Apesar do arsenal nuclear do Reino Unido ser muito mais numeroso, este ator não é visto como uma ameaça, ao contrário da Coreia do Norte.

** Denomina-se de cisne negro, os fatos que possuem uma possibilidade muito reduzida de ocorrer e grande impacto. Ou seja, são fatos muito difíceis de serem previstos e que quando ocorrem têm efeitos devastadores para os agentes envolvidos na matriz analítica.

———————————————————————————————–

Fontes das Imagens:

Imagem 1 Bandeira e mapa da China sobrepostos sobre o mapa mundi” (Fonte): https://pixabay.com/pt/china-mapa-china-mapa-%C3%A1sia-pa%C3%ADs-2965333/

Imagem 2 Mapa Físico da Ásia” (Fonte): https://mapswire.com/asia/physical-maps/

Imagem 3 Mandatários dos Estados Unidos e da República Popular da China, Donald Trump e Xi Jinping” (Fonte): https://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:President_Trump_at_the_G20_(48162296741).jpg

Imagem 4 Fluxo Líquido de Investimento Estrangeiro Direto por país (19852018)” (Fonte): https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Foreign_Direct_Investment_by_Country.png

AMÉRICA DO NORTEANÁLISES DE CONJUNTURAEURÁSIA

O escândalo da Ucrânia e o impeachment de Trump

O Presidente dos Estados Unidos da América, Donald J. Trump, está atravessando o momento mais crítico de seu mandato. A Câmara dos Representantes (correspondente à Câmara dos Deputados, no Brasil), controlada pelos Democratas, o Partido de oposição, entrou com um pedido de Impeachment ao seu mandato presidencial. Na história do país, nunca um Presidente foi impichado, e quando isto teve início o próprio Presidente em exercício renunciou antes, caso de Richard Nixon, ou tiveram seus processos anulados em uma segunda etapa[1].

Tentativas de tirar o Donald Trump do cargo presidencial não são novidade, mas, o escândalo envolvendo o Presidente da Ucrânia, Vladimir Zelenski, apresenta indícios que fizeram o assunto ressurgir com força. Denúncia interna da Casa Branca feita em setembro cita uma conversa que teria ocorrido em julho (2019), na qual Trump teria pedido à Zelenski para investigar Hunter Biden, o filho de seu principal rival político à eleição de 2020, Joe Biden, por corrupção, quando ele fazia parte do conselho de uma empresa de gás da Ucrânia. Joe Biden foi vice-presidente dos Estados Unidos no governo de Barack Obama, entre janeiro de 2009 a janeiro de 2017, e, até antes desse caso, já considerado como escândalo por alguns analistas, era o candidato com mais chances de derrotar Donald Trump nas eleições presidenciais de 2020.

Dias antes da conversa ter ocorrido, Trump reteve a verba destinada à Defesa da Ucrânia, país envolvido em grave conflito interno na região de Donbass. Na conversa, o mandatário estadunidense acusa a União Europeia de não ajudar a Ucrânia como poderia e, implicitamente, condiciona a liberação de fundos para Defesa do país, cerca de 1,635 bilhão de reais[2] (que já haviam sido acertados anteriormente) à investigação do filho de Joe Biden, Hunter Biden, por enriquecimento quando conselheiro de uma empresa de gás naquele país. Embora a questão da ajuda militar e econômica não estivesse mencionada explicitamente na conversa entre os dois Chefes de Estado, a oposição entende que isto se encontrava nas entrelinhas, ao passo que o Presidente dos Estados Unidos nega enfaticamente.

Joe Biden e Barack Obama, 2008

Para o Juiz Andrew Napolitano, o fato de Trump ter assumido que ligou ao Presidente da Ucrânia pedindo ajuda é uma confissão de culpa, e o Presidente norte-americano teria cometido um crime. Ou seja, independentemente de ter havido chantagem ou não neste caso, o simples pedido de ajuda em uma investigação para prejuízo de um rival político por um Presidente dos Estados Unidos a um líder estrangeiro é ilegal. Mesmo Trump tendo anunciado que revelaria a transcrição do diálogo, os Democratas consideraram insuficiente, ao que a Presidente da Câmara dos Representantes, Nancy Pelosi, do Partido Democrata, deu início ao processo de Impeachment. Em suas palavras, “as ações tomadas pelo Presidente violaram seriamente a Constituição”.

Vladimir Zelenski também não sai ileso deste caso. Na referida conversa com Trump, ele responde afirmativamente que nomearia um novo Promotor “100% de minha confiança [que] investigaria a situação”. Na conversa, após Zelenski expressar seu desejo de comprar mísseis antitanque, produzidos pela Raytheon[3], que são ideais para repelir ataques dos blindados russos utilizados pelos rebeldes na guerra do Donbass, Trump respondeu: “gostaria que você fizesse um favor”.

Burisma Holdings

Em maio de 2014, Hunter Biden era nomeado conselheiro da empresa de gás ucraniana Burisma. Fundada em 2002, a maior produtora privada de gás do país se apresentava como uma empresa de energia em expansão para além das fronteiras da Ucrânia. Seu fundador, Mykola Zlochevsky, foi responsável pela expansão da corporação, ao mesmo tempo em que era Ministro da Ecologia e Recursos Naturais da Ucrânia, entre julho de 2010 e abril de 2012. Dentre suas atribuições estavam emissões de licenças de perfuração de gás durante o governo de Viktor Yanukovych, até este demiti-lo[4].

Mykola Zlochevsky, 2014

A conjuntura internacional em que Hunter Biden foi admitido no conselho era da anexação da Crimeia pela Rússia e da insurgência de rebeldes apoiados por Moscou no Leste. Ainda assim, havia esperanças de que o novo governo de Petro Poroshenko adotasse reformas que combatessem a corrupção endêmica. Nesse contexto, a Burisma foi alvo de uma investigação de lavagem de dinheiro e questionamentos sobre como havia obtido certas licenças para extração de gás natural. A partir daí é que a empresa nomeia Hunter Biden para seu conselho, e também a Aleksander Kwasniewski, ex-presidente polonês, e a Cofer Black, ex-funcionário da CIA e consultor de política externa na campanha presidencial de Mitt Romney, em uma tentativa de melhorar sua imagem.

Acusações como as feitas por Trump, de que Joe Biden pressionou pela demissão do antigo promotor que investigava as ações da Burisma não foram confirmadas até então pelo governo da Ucrânia. As investigações sobre a corrupção na empresa envolvendo o nome de Hunter Biden datam de 2016 e dois promotores já passaram por ela sem apontar qualquer indício de corrupção. O assunto gerou polêmica e o recém nomeado Promotor-Chefe da Ucrânia, Ruslan Ryaboshapka, afirmou que vai retomar as investigações, desde antes da posse de Biden, em 2014.

Mesmo que não haja indícios, há quem alegue conflito de interesses, especialmente quando o filho de um político influente no governo dos Estados Unidos à época recebe um cargo em uma das maiores empresas de outro país. Tudo que se sabe de concreto sobre ganhos de Hunter Biden, até o momento, segundo o The Wall Street Journal, é de que recebia aproximadamente 205,7 mil reais mensais (em valores atualizados)[5] como diretor da empresa. Ao que tudo indica, a sua contratação fazia parte de uma estratégia comercial da empresa para expandi-la, a fim de angariar credibilidade em um governo estrangeiro, que, à época, prestava apoio internacional à Ucrânia contra a Rússia.

Em termos políticos, ao divulgar as conversações por inteiro, analistas consideram que Trump cometeu um erro político, pois, mesmo que o filho de Biden pudesse ter algum envolvimento com a corrupção em outro país e se beneficiasse dela, investigá-lo não caberia ao Presidente em exercício dos Estados Unidos, ou seja, ao Poder Executivo, e, sim, ao Departamento de Justiça daquele país.

Se o processo de Impeachment passar na Câmara dos Representantes, onde os Democratas são maioria, Trump seria o terceiro Presidente da história dos Estados Unidos a sofrer um processo deste tipo[6]. Caso o processo seja aprovado neste estágio, ele passa a ser avaliado pelo Senado, onde os Republicanos, Partido do atual mandatário, são maioria. Neste momento, enquanto os Senadores agem como jurados, os deputados servem como fiscais do processo. Para Trump perder seu cargo não basta que a maioria simples do Senado (50% mais um) vote pelo impeachment, mas, sim, dois terços da casa.

Mesmo que, porventura, Trump seja destituído do cargo isto não significa que não possa se candidatar novamente para as eleições em 2020. Como se trata de um político com altos índices de aprovação (e de rejeição), é possível que a polarização política já existente se acentue e torne o apoio a sua reeleição ainda maior, sem que, no entanto, haja um nome proporcionalmente forte para disputar o cargo pela oposição. O governo de Vladimir Zelenski, por sua vez, pode sofrer algum revés dessa situação política nos Estados Unidos até que tudo seja esclarecido, o que também pode ser um prejuízo à sua estratégia de defesa territorial, particularmente no Donbass, para onde o Crédito de Defesa dos Estados Unidos se destinava.

Por outro lado, as consequências desta crise para a Ucrânia podem ser positivas. Vijai Maheshwari, escritor e empresário baseado em Moscou, considera que novos acordos podem surgir entre Kiev e Moscou, com a articulação de outras lideranças, como o francês Emmanuel Macron, p.ex., ou ainda, numa tentativa de reverter seu prejuízo político, Donald Trump pode se dedicar mais enfaticamente a um acordo de paz entre os dois países: Rússia e Ucrânia. E, por fim, mas não finalmente, Kiev poderia jogar com estratégia para se alinhar politicamente com mais centros decisórios, em uma ordem verdadeiramente multipolar, reduzindo sua dependência de Washington.

———————————————————————————————–

Fontes das Imagens:

[1] Andrew Johnson e Bill Clinton foram cassados pela Câmara dos Representantes ou Câmara Baixa, mas absolvidos pelo Senado, também chamado de Câmara Alta. Richard Nixon teve seu processo suspenso, uma vez que acabou renunciando antes de o Congresso votar o caso.

[2] 400 milhões de dólares, na cotação de 8 de outubro de 2019, de acordo com o Banco Central do Brasil.

[3] Raytheon Company, a maior produtora de mísseis guiados do mundo, é um conglomerado de empresas dos Estados Unidos que atua na área de armamentos e equipamentos eletrônicos para uso militar e civil.

[4] Cabe observar que Mykola Zlochevsky não foi demitido do governo, mas do cargo, sendo nomeado como Secretário Adjunto do Conselho de Segurança e Defesa Nacional em 20 de abril de 2012.Viktor Yanukovych foi o Presidente ucraniano expulso do país durante o processo revolucionário conhecido como “Euromaidan”, que afasta a Ucrânia da política externa de Moscou.

[5] 50.000 dólares por mês, segundo o WSJ.

[6] Conferir a primeira nota [1], dois presidentes americanos sofreram o processo, mas nenhum acabou por sofrer o impeachment.

———————————————————————————————–

Fontes das Imagens:

Imagem 1 Donald Trump e Vladimir Zelenski, 25 setembro de 2019” (Fonte): https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Volodymyr_Zelensky_and_Donald_Trump_2019-09-25_01.jpg

Imagem 2 “Joe Biden e Barack Obama, 2008 (Fonte): https://en.wikipedia.org/wiki/Barack_Obama_2008_presidential_campaign

Imagem 3 “Mykola Zlochevsky, 2014” (Fonte): https://uk.m.wikipedia.org/wiki/%D0%A4%D0%B0%D0%B9%D0%BB:ZlochevskiyN.jpg

AMÉRICA DO NORTEANÁLISES DE CONJUNTURAEUROPA

EUA e Rússia à beira de uma nova corrida armamentista

O mundo assiste novamente à escalada de tensões entre EUA e Rússia por conta da decisão do Governo norte-americano de se retirar do Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermediário (INF, sigla em inglês*). Esse Acordo previa a eliminação e a proibição do desenvolvimento e implantação de mísseis balísticos e de cruzeiro, sejam eles nucleares ou não, em que o alcance estaria entre 500 e 5.500 quilômetros. O INF foi firmado ainda na época da Guerra Fria pelos antigos líderes Ronald Reagan – dos EUA – e Mikhail Gorbachev – da extinta União Soviética, em 1987. Desde então, o Tratado foi responsável pelo desmantelamento de mais de 2.500 mísseis e manteve aqueles com ponta nuclear longe do continente europeu.

Em outubro do ano passado (2018), a Administração Trump surpreendeu os seus aliados e a própria Rússia ao anunciar que iria se retirar do INF, visto que haveria provas de que os russos não estariam cumprindo o Tratado. Por cinco anos, os EUA exigiram transparência acerca de um míssil que supostamente violaria as regras do Acordo e não obtiveram retorno. Ressalta-se, no entanto, que no governo Obama não ocorreu uma ameaça definitiva quanto à saída do Acordo, apesar de ter ocorrido pressão para que informações desse míssil russo fossem divulgadas.

O Secretário Geral da União Soviética, Mikhail Gorbachev, e o presidente dos Estados Unidos, Ronald Reagan, assinam o Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermediário na Casa Branca, em 1987

Após o anúncio em outubro passado (2018), aliados dos EUA, em especial a Alemanha de Angela Merkel, destacaram a relevância do Acordo. Eles pediram para que o Governo norte-americano reconsiderasse sua decisão e que primeiro tentasse resolver a situação pela diplomacia. Foi determinado um prazo de 2 meses para que delegações americanas e russas tentassem resolver a situação através do diálogo em ambientes de negociação internacional.

O combinado ocorreu, mas não trouxe os resultados esperados. Em um encontro em Genebra entre as duas partes em janeiro deste ano (2019), os russos ofereceram a possibilidade da realização de uma inspeção por especialistas americanos ao suposto míssil que estaria infringindo os regulamentos do INF. Entretanto, os representantes do Governo dos EUA não aceitaram a proposta da inspeção, taxando-a como insuficiente e exigiram a destruição do sistema do míssil conhecido como 9M729. A Subsecretária de Estado para Controle de Armas e Segurança Internacional dos EUA, Andrea Thompson, afirmou que “ver o míssil não confirmaria a distância que ele pode viajar e, no final do dia, isso é uma violação do tratado”. Por outro lado, o Ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, acusou os EUA de serem intransigentes e destacou que “os representantes americanos chegaram com uma posição baseada em um ultimato e centrada em uma demanda de destruição daquele foguete, seus lançadores e tudo relacionado ao seu equipamento sob a supervisão dos EUA”.

Estoques de armas nucleares dos Estados Unidos e da União Soviética/Rússia no período da Guerra Fria e após esse conflito ideológico

Visto que a via diplomática não surtiu os efeitos desejados, o governo Trump anunciou efetivamente a retirada do país do Tratado. A partir de fevereiro (2019), os EUA começaram a suspender suas obrigações ditadas pelo INF e em 6 meses, portanto, em agosto (2019), sairão por completo do Acordo. Conforme declarou Mike Pompeo, Secretário de Estado dos EUA, a situação só se reverteria se a Rússia honrasse com sua parte. Entretanto, o Governo russo segue afirmando que suas ações seguem os trâmites estabelecidos pelo INF.

O Presidente da Federação Russa, Vladimir Putin, destacou que a saída dos EUA permitiria que houvesse a implantação de armas nucleares de curto e médio alcance em territórios da OTAN na Europa. Segundo Putin, “isso é uma ameaça muito séria para nós e, neste caso, seremos obrigados a tomar medidas drásticas nas mesmas proporções”. O líder continuou seu discurso afirmando que “há problemas, os EUA criam cada vez mais esses problemas, mas também existem mecanismos e ferramentas para trabalharmos juntos nesses problemas. Espero que eles sejam usados para prevenir novas crises no mundo como a Crise do Caribe**. Não há razão para que exista uma outra crise dessas”.

Ainda conforme Putin, a Rússia, então, seria obrigada a colocar sistemas de mísseis que podem ser usados tanto contra territórios de onde a ameaça direta está vindo como também contra territórios onde centros de decisão estão localizados, ou seja, os locais da onde vêm as ordens para o disparo dessas armas. Em conjunto com a Rússia, o Presidente da Bielorrússia, Alexander Lukashenko, destacou: “nós precisaremos pensar em meio de retaliação. Se acontecer, não há como fugir. E será pior se esses mísseis americanos forem colocados (Deus nos livre, hipoteticamente) no território da Ucrânia”.

Em vista desse cenário, a escalada de tensões é evidente. Segundo um legislador russo, Peter Tolstoy, a decisão dos EUA de retirar-se do INF coloca a segurança dos países europeus em risco. Muitos especialistas apontam que uma nova era de corrida armamentista está para começar. Essas mesmas autoridades apontam que os EUA se retiraram do Tratado não só por acreditar que a Rússia o está violando, mas também por não estar equiparando seu arsenal ao da China, país que não está incluído no INF. Dessa forma, os EUA têm a intenção de desenvolver novas armas e talvez instalá-las em suas bases pela Europa. Mas, assim como os americanos, a Rússia também está se preparando para o novo cenário. Putin, no dia 22 de fevereiro, declarou que novas armas estão sendo desenvolvidas e que esses tipos de armamentos são diferentes de tudo o que há pelo mundo.

A OTAN está em alerta. Toda a Europa está em alerta. Muitas autoridades estão avisando que uma era de tensões envolvendo potências nucleares está para recomeçar. Cabe aos EUA e à Rússia continuarem tentando por vias diplomáticas a manter o INF e outros Acordos de armas nucleares. Afinal, são os dois países que detêm o maior arsenal de armas nucleares do mundo: os EUA possuem 6.550 armamentos nucleares, ao passo que a Rússia tem 6.800. Analistas apontam que os números hoje já são grandes, têm capacidade de destruição inimaginável e uma nova corrida armamentista resultaria em muitas incertezas e inseguranças.

———————————————————————————————–

Notas:

* Tratado INF do inglês: Intermediate-Range Nuclear Forces.

** A Crise do Caribe mencionada por Vladimir Putin em seu discurso refere-se à Crise dos Mísseis em Cuba em 1962. Ela foi causada pela implantação de mísseis balísticos soviéticos em Cuba. Foi o auge da Guerra Fria, quando, por 13 dias, o mundo assistiu aflito à possibilidade real de o escalonamento das tensões entre EUA e União Soviética (URSS) resultar numa guerra nuclear. Em razão da diplomacia, foi acordado que em troca da retirada dos mísseis da URSS de Cuba, os EUA garantiriam que nunca invadiriam a ilha do Caribe e que retirariam os seus mísseis da Turquia.

———————————————————————————————–

Fontes das Imagens:

Imagem 1Teste nuclear realizado em 18 de abril de 1953, nos Estados Unidos” (Fonte): https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/7/79/Operation_Upshot-Knothole_-Badger_001.jpg/800px-Operation_Upshot-Knothole-_Badger_001.jpg

Imagem 2O Secretário Geral da União Soviética, Mikhail Gorbachev, e o presidente dos Estados Unidos, Ronald Reagan, assinam o Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermediário na Casa Branca, em 1987” (Fonte): https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/8/8d/Reagan_and_Gorbachev_signing.jpg/300px-Reagan_and_Gorbachev_signing.jpg

Imagem 3Estoques de armas nucleares dos Estados Unidos e da União Soviética/Rússia no período da Guerra Fria e após esse conflito ideológico” (Fonte): https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/b/bb/US_and_USSR_nuclear_stockpiles.svg/1024px-US_and_USSR_nuclear_stockpiles.svg.png

AMÉRICA DO NORTEANÁLISES DE CONJUNTURA

2020: o cenário eleitoral dos EUA

A eleição presidencial em 2020 nos Estados Unidos pode ser considerada como uma conjuntura longeva, porém, a movimentação social em torno do futuro pleito, o acirramento da oposição democrata na Casa dos Representantes, após o bom resultado nas eleições de meio de mandato (Midterm, como é conhecido nos EUA), inspirou uma série de postulantes ao cargo máximo a anunciar intenção em se tornar o próximo ou a próxima Presidente dos EUA pelo Partido Democrata. Esse panorama aparentemente favorável ao Partido Democrata surgiu, segundo recente pesquisa do PEW Research, da condução do país pelo presidente Donald J. Trump.

Em charge, Trump se mostra preocupado com as mudanças na Casa dos Representantes, agora de maioria democrata

De acordo com a pesquisa, no segundo aniversário da posse do atual Mandatário, as opiniões públicas sobre o desempenho, bem como sua ética, honestidade e condução na administração pública são decididamente negativas.

O Presidente inicia seu terceiro ano com um índice de aprovação de 37%, e 59% o desaprovam. Dos cinco Presidentes anteriores, apenas Ronald Reagan tinha índice de aprovação tão baixo nesse mesmo estágio do mandato, com 54%.

Em contrapartida, mais americanos interpretam que as políticas econômicas adotadas pela atual administração tornaram as condições melhores (40%), do que piores (28%), enquanto 29% disseram que não tiveram muito efeito.

Ao adotar uma comparação com a administração de Barack Obama, nas mesmas condições da atual pesquisa, em janeiro de 2011, portanto, no terceiro ano de seu primeiro mandato, a opinião pública expressou visões mistas do impacto de suas políticas econômicas, com aproximadamente 31% dizendo que pioraram, contra 28% dizendo que resultaram em melhores condições.

Outros dois aspectos muito específicos de sua administração também foram analisados. No que tange à questão de tornar pública sua declaração de impostos, como no passado, a maioria, ou seja, 64%, dizem que Trump tem a responsabilidade de publicar sua declaração de impostos, e apenas 32% entendem que ele não tem responsabilidade de fazer tal movimento. Quase todos os democratas, ou 91%, e 32% dos republicanos afirmam que o presidente estadunidense deveria liberar suas declarações de impostos.

Em relação à investigação promovida pelo Procurador Especial, Robert Muller, sobre a influência da Rússia nas eleições de 2016, bem como o papel do Presidente na trama, conhecido como Russiagate, a confiança do público na investigação se mostra estável. A maioria, ou 55%, continua confiante no trabalho do Procurador e classificam como um trabalho justo.

Outra pesquisa de relevância sobre o desempenho de Donald Trump feita pelo site Real Clear Polítics reforça o aprofundamento da posição negativa do mandatário estadunidense, os 42,2% que aprovam seu governo, contra 54,4% que não aprovam, criaram as bases para o Partido Democrata já iniciar seu processo de escolha do futuro candidato a ocupar a Casa Branca.

No destacado hall dos presidenciáveis do partido opositor se destacada a Senadora por Massachussets, Elisabeth Warren, de 69 anos e membro da ala esquerda do partido. A Senadora se tornou a primeira democrata a declarar sua pré-candidatura para as eleições de 2020.

Elisabeth Warren com Hillary Clinton em Manchester, New Hampshire, 2016

Em seu vídeo de anúncio, além de apresentar suas credenciais, destaca: “Hoje, a corrupção está envenenando nossa democracia… Os políticos olham para o outro lado, enquanto as companhias de seguro negam aos pacientes a cobertura que salva vidas, enquanto os grandes bancos arrancam os consumidores, enquanto as grandes companhias petrolíferas destroem este planeta”.

Outro nome de alcance nacional a anunciar sua pré-candidatura é a congressista do Havaí, Tulsi Gabbard, de 37 anos. O anúncio ocorreu no último dia 12 de janeiro, no programa da CNN, “Van Jones Show”. Julián Castro, ex-prefeito de San Antonio, e Secretário de Habitação e desenvolvimento Urbano na administração Obama, também anunciou oficialmente, em 12 de janeiro, durante uma manifestação em San Antonio, Texas, que estará concorrendo a Presidência.

Kirsten Gilliard em evento em prol dos militares estadunidenses

A também Senadora, Kirsten Gillibrand, do Estado de Nova Iorque, foi a próxima figura importante do Partido a anunciar sua candidatura durante uma entrevista ao programa “The Late Show with Stephen Colbert”. A senadora Gilliard, de 52 anos, ao longo da entrevista sinalizou para a classe média, bem como para o rotineiro problema do sistema de saúde estadunidense. Ela disse: “Como jovem mãe, eu vou lutar pelos filhos de outras pessoas tão duro quanto vou lutar por mim mesma, e é por isso que acredito que a saúde deve ser um direito e não um privilégio”.

Kamala Harris como procuradora-geral anunciando em 2011 a prisão de líderes da Nuestra Familia

Kamala Harris, Senadora pelo estado da Califórnia é mais uma mulher que anunciou sua pré-candidatura, em 21 de janeiro, no dia de Martin Luther King Jr., durante uma entrevista ao programa “Good Morning America” da ABC. A Senadora californiana, de 54 anos, é ex-Procuradora-Geral do Estado e figura ascendente no Partido Democrata. No curso da entrevista sinalizou para a luta dos direitos civis, o que deve nortear sua campanha e atrair o voto das minorias.

Corey Booker, Senador por Nova Jersey, anunciou pelo twitter sua pré-candidatura democrata e se tornou o segundo afro-americano a disputar preliminarmente a Presidência. O Senador ficou conhecido nacionalmente como Prefeito de Newark, Nova Jersey. Aos 49 anos, é graduado na Escola de Direito de Yale e, segundo especialistas, nunca fez segredo de suas ambições de chegar à Casa Branca. Ainda segundo os mesmos especialistas, já dispõe de estrutura de campanha em alguns Estados importantes.

Corey Booker em evento de campanha para Barack Obama, em 2007

Booker se destacou pelo trabalho bipartidário, no fim de 2018, para aprovar um pacote de reforma da justiça criminal que reduziu as penas federais mínimas obrigatórias e trabalhou em conjunto com o senador Tim Scott, Republicano da Carolina do Sul. Ambos ainda discorrem sobre a criação de “Zonas de Oportunidades”, uma forma de isenção de impostos em bairros de baixa renda, tal como a Lei de Corte de Impostos de 2017.

Booker e a Senadora Kamala Harris (Califórnia) são co-patrocinadores do projeto Medicare for all do também presidenciável Bernie Sanders, que tem como objetivo eliminar o seguro de saúde privado. O Senador pelo Estado de Vermont, Bernie Sanders, a que anunciou sua entrada na disputa das primárias, é considerado por especialistas como um dos grandes nomes do Partido.

O Senador tem a seu favor um programa de governo conhecido e bastante difundido, tais como a generalização da cobertura de saúde, a educação gratuita nas universidades públicas, a reforma do sistema penal, a reforma da política de imigração, bem como programas de proteção ao emprego e melhoria do salário mínimo.

O ex-Vice-Presidente na administração de Barack Obama, Joe Biden, apesar de ainda não ter oficializado sua participação nas primárias democratas, deu a indicação mais forte sobre ser “a pessoa mais qualificada do país” para o trabalho.

O anúncio de Biden é de grande interesse para eleitores democratas e quase todos os principais doadores de campanha, pois, segundo analistas políticos em Washington, há maior interesse no ex-Vice-Presidente por ser um candidato que teria maiores condições de derrotar o atual Presidente.

No entanto, o ceticismo de Biden sobre a nomeação vai ao encontro da empolgação encontrada na sociedade com o número elevado de mulheres e afrodescendentes que devem concorrer, nichos da sociedade com o qual Biden não goza de muita empatia, e muitos consideram mais uma polarização a ser administrada em um país já dividido.

Antes do pleito Republicano Vs. Democrata em 2020, os oposicionistas terão que definir dentre os inúmeros pré-candidatos nas primárias. Contudo, a futura eleição, independentemente do resultado, poderá consolidar mudanças profundas na formulação social estadunidense, pois, tem sido observado por analistas e disseminado na mídia que a diversidade racial, étnica e sexual de candidatos em disputa aos cargos eleitorais não é um fato episódico e veio para ficar.

———————————————————————————————–

Fontes das Imagens:

Imagem 1Bandeira dos Estados Unidos” (Fonte): https://www.flickr.com/photos/[email protected]/46405725741/in/photolist-2dGHtvF-2enVB5S-a6issP-2dmtx8b-2eswvjD-2bQmoSx-26ZiKBV-2cY7eev-Vq8LNg-8MTAPn-je9vRm-SjppUN-8vUxVv-QBhE1p-2enVDHN-2dpAWSo-SjprFU-5JBP6T-8vUy5H-QGdbHH-NrzHqZ-5J1woo-2enVLHQ-2dmtyfb-2cieRGk-UGD7yw-dDWYHB-YbPsoH-StcsuA-dDWXHr-2bZouEa-dDWBhc-dE35tN-dE2ZQA-dDWDH8-2bQiJVP-2buGjGn-2cr1mj9-dE3oYW-2cMTxcF-NWRikc-Vr5Esz-2bBd2iP-dE34V7-PkSmfd-FJG7Ji-R57RWJ-dE34Bw-dE2Zx5-2d8NxUE

Imagem 2Em charge, Trump se mostra preocupado com as mudanças na Casa dos Representantes, agora de maioria democrata” (Fonte): https://www.flickr.com/photos/throughtheeyesofgeek/32440474285/in/photolist-Pi3cRm-JrH1mn-RqDUNa-27KnX9q-Mi6Z9Y-Hh7dm3-2aXYi6f-2dxteVB-WfcQif-2diPPeN

Imagem 3Elisabeth Warren com Hillary Clinton em Manchester, New Hampshire, 2016” (Fonte): https://en.wikipedia.org/wiki/Elizabeth_Warren#/media/File:Elizabeth_Warren_Manchester_NH_October_2016.jpg

Imagem 4Kirsten Gilliard em evento em prol dos militares estadunidenses” (Fonte): https://www.flickr.com/photos/emilyslist/5515993816/in/photolist-9pqUME-9pnTae-9pqUHC-6ohQx4-6ohQxz-8Pbry2-8Pexnb-8PexK5-TH9qZx-8Pexru-8Pbron-8PbrD6-8PexDY-8qaufu-9pnTba-23GBTsn-6c5v9u-2cVcXLx-2dd32NC-2eem66Y-23TtvsF-9H7nQB-bfRrb8-fg8icW-bXbMvm-9u4Vkh-9R16Vf-8r1btp-dxjH19-9R18QG-6RvS78-9nC2eh-5XXEYy-5XXEXQ-8q7kdT-peG2Zi-eR43Cp-cq8QKE-5UzJBc-eS575f-QxMuLV-2cVdQR8-2dcZENW-23GxzvD-SaTyYh-eG5mrS-SmMEQJ-eFYxP2-2ej1m6M-aRWxyD

Imagem 5Kamala Harris como procuradorageral anunciando em 2011 a prisão de líderes da Nuestra Familia” (Fonte): https://en.wikipedia.org/wiki/Kamala_Harris#/media/File:101_Gang_Members_Arrested_in_Central_Valley_04.jpg

Imagem 6Corey Booker em evento de campanha para Barack Obama, em 2007” (Fonte): https://en.wikipedia.org/wiki/Cory_Booker#/media/File:Booker1.jpg