AMÉRICA DO NORTEANÁLISES DE CONJUNTURAÁSIA

A China na Estratégia Nacional de Defesa de Donald Trump

No dia 18 de dezembro de 2017, o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou a publicação da Estratégia Nacional de Segurança (ENS) de seu governo. A ENS é um documento que sintetiza as percepções e diretrizes que nortearão a política externa estadunidense pelos próximos anos. Nesse contexto, a publicação de 2017 explicita que, do ponto de vista da administração Trump, a República Popular da China se constitui como a maior fonte de ameaças aos interesses nacionais dos EUA na política internacional contemporânea.

O Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump

A nação asiática é mencionada trinta e três vezes ao longo das cinquenta e seis páginas do documento. Logo na primeira referência, a ENS se refere à China e à Rússia como nações que “estão desafiando o poder e a influência dos Estados Unidos, bem como buscando erodir a segurança e a prosperidade estadunidense”. Em seguida, são realizadas graves acusações às práticas internacionais do Governo chinês. Por exemplo, Beijing é acusada de “roubar propriedade intelectual dos EUA”, “expandir práticas comerciais abusivas”, “explorar tecnologias de informação para ampliar seu sistema político autoritário”, bem como “avançar sobre a soberania de outros países”. Por fim, o documento sugere que está em curso uma divisão político-ideológica na região Indo-Pacífica. Isto é: “uma competição geopolítica entre concepções autoritárias e liberais acerca da ordem internacional”.

Percebe-se que tal abordagem representa um brusco ponto de inflexão em relação à ENS publicada em 2015 pela administração do ex-Presidente Barack Obama. Nessa ocasião, as poucas referências à República Popular da China destacavam os avanços que ambos os países haviam alcançado no âmbito das políticas de combate à mudança climática. Além disso, o documento de 2015 ressaltava que “os EUA acolheriam a ascensão de uma China estável, pacífica e prospera”, bem como a busca pelo desenvolvimento de uma relação construtiva que promovesse segurança e prosperidade para a Ásia e o restante do mundo. 

As acusações presentes na Estratégia Nacional de Segurança de Donald Trump foram prontamente respondidas pelas autoridades chinesas. Hua Chunying, Porta-Voz do Ministério de Relações Exteriores do país, declarou que “nós estimulamos que o governo dos EUA pare de distorcer deliberadamente as intenções estratégicas da China e abandone conceitos ultrapassados da Guerra Fria”. Por sua vez, o periódico do Partido Comunista Chinês, Global Times, assumiu tom mais severo em seu editorial: “a ENS é uma manifestação da postura da administração de Trump, a qual se baseia mais no poder americano no que nas regras internacionais. Demonstra a indisputável insistência de Washington na hegemonia global. Beijing e Moscou não aceitarão.  

É cedo para se avaliar o resultado prático da inflexão no âmbito discursivo da política externa estadunidense em relação à China. Isso porque a Estratégia Nacional de Segurança não delimita um conjunto específico de ações no âmbito internacional, mas apenas apresenta percepções e diretrizes gerais.

Nesse sentido, especialistas questionam até que ponto Donald Trump não teria utilizado o documento como forma de responder ao eleitorado estadunidense que o elegeu. Além disso, na medida em que manifestações contraditórias e declarações presidenciais via Twitter se tornaram uma prática recorrente do atual Chefe de Estado dos Estados Unidos, ficou mais complexa a compreensão acerca da real estratégia de longo prazo perseguida pelo país norte-americano. 

Ainda assim, nota-se que a mudança apresentada na ENS estadunidense ocorre em uma conjuntura de acirramento da competição entre China e EUA, bem como de alteração no posicionamento externo do país asiático. Por exemplo, o presidente Xi Jinping, em seu discurso a nação realizado no dia 31 de dezembro de 2017, declarou que a China será uma ativa construtora da paz e guardiã da ordem internacional. Em outras palavras, Beijing assume definitivamente uma atitude de liderança na comunidade internacional. Logo, percebe-se que o ano de 2018 se inicia com a incorporação de rivalidade recíproca no discurso oficial da política externa das duas maiores potências do sistema interestatal contemporâneo.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Xi Jinping e Peng Liyuan, Presidente e Primeira Dama da República Popular da China, ao lado de Donald Trump e Melanie Trump, Presidente e Primeira Dama dos Estados Unidos” (Fonte):

https://commons.wikimedia.org/wiki/File:President_Trump_with_President_Xi,_April_2017_Cropped.jpg

Imagem 2O Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump” (Fonte):

https://eml.wikipedia.org/wiki/Donald_Trump

AMÉRICA DO NORTEANÁLISES DE CONJUNTURAORIENTE MÉDIO

Visita de Vice-Presidente dos EUA a Israel reduz perspectivas para processo de paz

O Vice-Presidente Norte-Americano, Mike Pence, encerrou seu tour pelo Oriente Médio em 23 de janeiro de 2018 com uma visita de dois dias a Israel. Pence já havia visitado anteriormente Jordânia e Egito, mas foi recebido com entusiasmo particular pelos líderes israelenses, que, nos últimos anos, haviam feito uso de uma abordagem mais crítica ao governo de Obama. O Vice-Presidente declarou ao Parlamento de Israel (Knesset) que a embaixada dos Estados Unidos será inaugurada em Jerusalém até o final de 2019, enfrentando protestos de membros palestinos do Parlamento e boicote através de uma greve geral na Cisjordânia ocupada.

Vice-presidente Michael Pence posa em retrato oficial na Casa Branca, Washington DC., em outubro de 2017

Pence é a figura norte-americana mais importante a visitar a cidade desde que Washington anunciou que moveria sua embaixada em Israel. Em 6 de dezembro de 2017, o presidente Donald Trump declarou que considerava Jerusalém como a capital israelense, cumprindo uma promessa de sua campanha presidencial e atendendo à pressão doméstica antiga de políticos pró-israelenses. Na data, ele qualificou o movimento como “um passo há muito atrasado para avançar o processo de paz e trabalhar para um acordo duradouro” entre Israel e os palestinos.

Na ocasião, o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu elogiou o anúncio de Trump como um “marco histórico”, já o presidente palestino Mahmoud Abbas afirmou que Jerusalém “é a eterna capital do Estado da Palestina”. Segundo Abbas, a transferência era uma “declaração de retirada”, e equivaleria “aos EUA abandonarem seu papel como mediador do processo de paz”.

Neste mês de janeiro (2018), Pence declarou no Knesset queJerusalém é a capital de Israel e, como tal, o presidente Trump ordenou ao Departamento de Estado que inicie imediatamente os preparativos para mover a embaixada dos Estados Unidos de Tel Aviv para Jerusalém”. E acrescentou: “Nas próximas semanas, nossa administração avançará seu plano para abrir a embaixada dos EUA em Jerusalém – e a embaixada dos Estados Unidos abrirá antes do final do próximo ano”.

Além disso, afirmou que estava agradecido por representar o Presidente dos Estados Unidos e que sua decisão de designar Jerusalém como tal “criaria uma oportunidade para avançar de boa fé nas negociações entre Israel e a Autoridade Palestina”, e que estaríamos “no início de uma nova era de discussões renovadas para alcançar uma resolução pacífica de um conflito de décadas”. De acordo com oficiais norte-americanos, ele teria procurado encorajar os líderes do Egito e da Jordânia a pressionarem os palestinos para que retornassem às negociações de paz.

Analistas acreditam que Mike Pence, por ser cristão evangélico e conservador, tenha sido o responsável por ter pressionado tanto pelo reconhecimento de Jerusalém como a capital de Israel, como também pela realocação da embaixada dos EUA para a cidade, pois a decisão foi popular entre muitos cristãos conservadores e evangélicos que votaram em Trump e nele para o atual mandato.

Nesse sentido, sua visita a Israel é vista como mais um movimento caloroso à comunidade de eleitores que, ao lado de republicados conservadores, serve como base de poder e apoio pró-israelense à presidência de Trump.

Presidente norte-americano Donald Trump no Muro das Lamentações em Jerusalém, em 22 de maio de 2017

Após o reconhecimento de Jerusalém como capital do país, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu agradeceu em 17 de dezembro ao governo Trump por “defender a verdade de Israel”, e declarou que o Vice-Presidente americano era “um grande amigo de Israel e um grande amigo de Jerusalém”.

Netanyahu, que se dirigiu ao seu gabinete no domingo, 21 de janeiro de 2018, descreveu Pence novamente como um “grande amigo do Estado de Israel” e disse que discutiria os esforços dos EUA “para frear a agressão do Irã, o programa nuclear iraniano e maneiras de promover a paz e a segurança na região”. Ele também elogiou a atual aliança americano-israelense, afirmando que esta “nunca foi tão forte”.

Em protesto, líderes palestinos boicotaram a sua visita e residentes palestinos lançaram uma greve geral na Cisjordânia ocupada, em todas as suas organizações e lojas, com participação de 99% do transporte e também de escolas. Os parlamentares árabes-israelenses protestaram contra o discurso de Pence, segurando cartazes em árabe e inglês dizendo: “Jerusalém é a capital da Palestina”, antes de serem rapidamente expulsos da sessão.

Além disso, o negociador chefe da Autoridade Palestina e secretário-geral da Organização para Libertação da Palestina, Saeb Erekat, declarou no Twitter que o discurso do norte-americano “provou que a administração dos EUA é parte do problema, e não a solução”. Erekat escreveu ainda que “o discurso messiânico de Pence é um presente para os extremistas” e que “sua mensagem para o resto do mundo é clara: viole o direito internacional e as resoluções, e os EUA vão te recompensar”.

O Governo de Israel, que anexou Jerusalém Oriental em 1967, considera a cidade, em sua totalidade, como a capital eterna e indivisível do país, embora não seja reconhecida internacionalmente. Os palestinos, por sua vez, afirmam que Jerusalém Oriental deve ser a capital de um futuro Estado palestino.

Ressalte-se que a ONU não reconhece a anexação de Jerusalém Oriental em 1967, e a considera como território ocupado e uma violação do direito internacional. Desde então, o Conselho de Segurança e a Assembleia Geral das Nações Unidas passaram dezenas de resoluções pedindo que o Estado israelense acabe com a ocupação de Jerusalém Oriental. Atualmente, 86 nações têm suas embaixadas em Tel Aviv e nenhum país tem uma embaixada em Jerusalém, uma vez que a capital reconhecida internacionalmente de Israel é Tel Aviv. 

Foi em 1995 que o então presidente Bill Clinton aprovou uma lei que estabelecia que a embaixada norte-americana deveria ser transferida. Contudo, a lei permitia que, a cada seis meses, por questões de segurança, a mudança fosse adiada por mais um semestre. Desde então, todos os Presidentes norte-americanos, incluindo Donald Trump, em junho de 2017, emitiram ordem impedindo a mudança, mas, no dia 4 de dezembro, tendo vencido a última determinação, Trump confirmou a transferência. Na ocasião, sua declaração desencadeou a condenação universal dos líderes árabes e críticas generalizadas, além de advertências de diversas lideranças regionais e internacionais.

Analistas tem apontado que o anúncio unilateral de Trump e a visita de Mike Pence à Jerusalém é uma vitória para a extrema-direita israelense, abertamente hostil à chamada “solução de dois Estados”, podendo comprometer o processo de paz, talvez definitivamente.

Da mesma forma, tem sido um consenso que esta decisão também parece perto de sepultar o papel dos Estados Unidos como mediador de confiança entre palestinos e israelenses, bem como que este movimento combinado e contínuo dos mandatários norte-americanos, além de apenas fortalecer os laços entre Estados Unidos e Israel, oferece poucas oportunidades para a construção de esforços em direção a qualquer processo de paz, um processo já congelado e, para muitos, natimorto. Da mesma forma, as análises que vem sendo disseminadas na mídia têm convergido para a observação de que, na prática, a visita de Pence e os pronunciamentos subsequentes fortalecem os laços entre os evangélicos norte-americanos e a direita israelense, algo que acaba empurrando os palestinos a reforçarem sua anterior rejeição a Washington como um mediador em futuras negociações com Israel.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Presidente norteamericano Donald Trump reconhece oficialmente Jerusalém como capital de Israel, em 6 de dezembro de 2017” (FonteFoto Casa oficial da Casa Branca por Shealah Craighead):

https://www.flickr.com/photos/whitehouse/39187769654/in/photolist-22GTyCW

Imagem 2Vicepresidente Michael Pence posa em retrato oficial na Casa Branca, Washington DC., em outubro de 2017” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Mike_Pence

Imagem 3Presidente norteamericano Donald Trump no Muro das Lamentações em Jerusalém, em 22 de maio de 2017” (Fonte):

https://www.flickr.com/photos/whitehouse/34678041502/in/photolist-UT7KDa-TRUDNy-UQo3k5-V2jqK1-TRUDS1-TRfiNZ-UQo2zh-TRfjhp-V5Nx9P-22GTyCW-V2jqAo-EgS4YL-UwWf97-CkGFnf-21MqtpS-oeKPqS-orb1v9-osv4vy-oeEoUr

AMÉRICA DO NORTEAMÉRICA LATINAANÁLISES DE CONJUNTURA

O governo Donald Trump e a América Latina

A posse de Donald Trump como Presidente dos Estados Unidos, em 20 de janeiro de 2017, gerou maior complexidade e imprevisibilidade às relações interamericanas, desfazendo o cenário que se desenhava ao final do mandato de Barack Obama. Naquele momento, as relações hemisféricas caminhavam para a reaproximação, revertendo a tendência de afastamento e fricções que predominaram nos anos 2000.

As dificuldades que haviam sido experimentadas pelos EUA em suas relações com o continente decorriam de diversos fatores, como a ascensão de governos de tendências à esquerda e economicamente nacionalistas na América do Sul, a ampliação do comércio e dos investimentos chineses na região e a baixa prioridade estratégica atribuída pela potência norte-americana, que se voltava para o Oriente Médio e para a Ásia. As relações bilaterais com o México e a Colômbia mantinham-se como as principais exceções e como pontos de entrada dos EUA na região.

Trump e o presidente mexicano Enrique Peña Nieto

Esse contexto de desconfiança e tensões entre América Latina e EUA apresentou sinais de reversão a partir de meados da década de 2010. A política de reaproximação entre EUA e Cuba, iniciada pelo governo de Barack Obama, atendia às demandas latino-americanas e mostrava-se como fator de aproximação regional. Por outro lado, a América do Sul vivenciou o esgotamento do “giro à esquerda”, a partir da derrota do chavismo nas eleições legislativas venezuelanas em 2015, da eleição do presidente argentino Maurício Macri, também em 2015, e da queda do governo de Dilma Rousseff, em 2016, no Brasil.

Assim, a tendência no continente era de reaproximação e busca de cooperação hemisférica. Contudo, a retórica de Trump é vista como significativamente agressiva em relação a temas caros aos governos latino-americanos, minando a agenda positiva implementada por Obama. Sua ênfase nos interesses nacionais estadunidenses, representada pelo slogan America First, deixa subentendida a priorização do unilateralismo e a diminuição da ênfase na cooperação hemisférica.

Durante sua campanha e seu primeiro ano de governo, Trump apresentou um tom mais duro frente ao tema da imigração e às relações com México e com Cuba. O Presidente enfatizou a construção de um muro na fronteira com o México, afirmando que o país ao sul da fronteira iria pagar pela construção da barreira. Embora ele não tenha logrado que seu homólogo mexicano retrocedesse em sua explícita divergência sobre o financiamento,  os protótipos do muro estão sendo construídos, mostrando que o mandatário estadunidense pretende seguir com sua promessa de campanha. Trump também qualificou o Nafta, o tratado de livre comércio com México e Canadá, como “o pior acordo existente” e movimenta-se para promover sua renegociação.

Ele também apresentou uma retórica agressiva frente a Cuba e prometeu durante campanha rever a aproximação com a ilha. Em 16 de junho de 2017, durante discurso em Miami dirigido à comunidade de migrantes cubanos, o Presidente anunciou a imposição de restrições comerciais e de viagens ao país caribenho. Em setembro, uma situação peculiar agravou ainda mais o relacionamento bilateral. Diplomatas estadunidenses alocados em Havana foram afetados por desconfortos, perdas cognitivas e auditivas. Os EUA não conseguiram identificar a causa dos incidentes, porém passaram a suspeitar de um ataque sônico. Na ocasião, os diplomatas norte-americanos voltaram a seu país de origem e Trump expulsou diplomatas cubanos de Washington, para garantir a paridade no número de funcionários das embaixadas. Assim, houve um forte retrocesso no processo de aproximação bilateral.

Trump e o presidente argentino Maurício Macri

Outro tema de destaque refere-se à questão da Venezuela, marcada pela acentuação dos protestos e pelas dificuldades de diálogo entre o Governo venezuelano e oposição durante o ano de 2017. Diante do agravamento da repressão promovida pelo governo de Nicolás Maduro, Trump afirmou não descartar a opção militar para conter a instabilidade no país sul-americano. Em seguida, o vice-presidente Mike Pence realizou um tour, passando por Argentina, Colômbia, Chile e Panamá com o objetivo principal de discutir a questão venezuelana. Também impôs sanções à líderes políticos venezuelanos, congelando suas finanças que passam por Washington, e classificou o regime como uma ditadura. No campo econômico, foram impostas sanções financeiras, que buscam dificultar a venda de títulos pelo Governo venezuelano no mercado americano.

Assim, o foco principal da sua política para a América Latina foram temas específicos, que geram maior preocupação estratégica e repercussão doméstica nos EUA. Em tais temas, há uma retórica e uma postura considerada agressiva, na qual não são enfatizadas as possibilidades de cooperação ou as instituições hemisféricas. Por outro lado, a agenda das relações com a América do Sul manteve-se low profile (discreta) o que não significa a inexistência de movimentações importantes. Os presidentes peruano, colombiano e argentino encontraram-se com Donald Trump em Washington. No caso argentino, houve compromisso de que o Governo estadunidense abriria seu mercado de limões para o país platino.

No caso brasileiro, cabe ressaltar a inexistência de visitas presidenciais. Em um ano de poucas viagens internacionais, o presidente brasileiro Michel Temer viajou à Rússia, mas não foi recebido na Casa Branca. O Brasil também não foi incluído nas viagens realizadas por Pence à América Latina. Por outro lado, de forma mais discreta, houve indícios de aproximação bilateral, como representado pela realização do primeiro exercício militar multilateral com presença dos Estados Unidos na Amazônia, o denominado Amazonlog.

Tendo em vista esse contexto, e as diferenças políticas e ideológicas entre os governos do continente, pode-se esperar uma continuidade da agenda prioritariamente unilateral liderada por Trump em relação à América Latina, especialmente em relação a países marcados por crises, governos antiamericanos, ou que sejam origem de fluxos migratórios relevantes. Tal postura tende a ser percebida pelos latino-americanos com certa desconfiança e contribui para não reverter a situação de aumento da presença chinesa no continente, seja por meio de ampliação do comércio, dos investimentos diretos, de financiamento ou discreto apoio político, como ocorre o caso venezuelano.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Trump assinando ordens executivas” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/List_of_executive_actions_by_Donald_Trump#/media/File:U.S._President_Donald_Trump_signed_executive_orders_in_White_House_Orval_Office_on_January_23,_2017.jpg

Imagem 2Trump e o presidente mexicano Enrique Peña Nieto” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Foreign_policy_of_the_Donald_Trump_administration#/media/File:Enrique_Pe%C3%B1a_Nieto_meets_with_Donald_Trump,_G-20_Hamburg_summit,_July_2017_(1).jpg

Imagem 3Trump e o presidente argentino Maurício Macri” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Foreign_policy_of_the_Donald_Trump_administration

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Desafios da Ascensão Chinesa na Era Trump

A dinâmica política internacional do ano de 2017 foi marcada pela consolidação da República Popular da China enquanto nação disposta a liderar economicamente a globalização contemporânea. Embora ainda seja cedo para avaliar o sucesso da estratégia chinesa, considera-se que a solidificação da autoridade do Presidente Xi Jinping durante 19º Congresso do Partido Comunista Chinês (PCC), a aproximação diplomática com a Rússia de Vladmir Putin, bem como a realização dos investimentos em infraestrutura previstos na Iniciativa do Cinturão e da Rota indicam que o futuro do sistema internacional será cada vez mais influenciado por decisões políticas tomadas em Beijing. Além disso, essa tendência foi reforçada pela orientação isolacionista assumida pelo Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em seu primeiro ano de mandato.

A ascensão chinesa é objeto de controvérsia entre os analistas das Relações Internacionais há pelo menos duas décadas. Após o término das especulações sobre a unipolaridade estadunidense e o “Fim da História derivados do colapso da União Soviética em 1991, as elevadas taxas de crescimento econômico da nação asiática se tornaram o principal elemento perturbador do status quo da política internacional.

Presidente da Rússia, Vladmir Putin, e o Presidente da China, Xi Jinping

Apesar disso, a perspectiva de uma “China Grande Potência” foi percebida com ceticismo por especialistas ocidentais. Economicamente, argumentava-se que o PCC seria incapaz de sustentar o desenvolvimento das forças produtivas do país em um contexto de forte controle estatal na economia. No âmbito estratégico, por sua vez, destacava-se a falta de legitimidade de um sistema político não fundamentado no modelo de democracia liberal, bem como o contexto regional conflituoso do sudeste asiático como fatores que limitariam a influência internacional chinesa.   

No entanto, passados 29 anos desde o início das reformas estruturais de Deng Xiaoping, a centralidade da China no sistema internacional deixou de ser uma probabilidade futura para ser uma realidade presente. Em outras palavras, conforme destacou Dominic Ziegler em artigo no periódico britânico The Economist: “A China está indisputavelmente de volta. Ela quer e merece um papel de destaque não só na Ásia, mas também na ordem global”.    

Considera-se que a ascensão chinesa pode ser explicitada a partir de três dimensões. Primeiro, do ponto de vista econômico, o país asiático foi capaz de orientar a transformação estrutural de seu sistema produtivo para atividades de alta tecnologia e, consequentemente, assegurar a continuidade das altas taxas de crescimento até o momento. Segundo, Beijing está utilizando seus recursos econômicos como instrumento para forjar parcerias e alianças em todos os continentes. Nesse sentido, a atração da China deriva não só da densidade de seu comércio internacional, mas também por sua disposição em exportar capital produtivo de longo prazo para países em desenvolvimento. Por fim, destaca-se o sucesso da modernização das Forças Armadas chinesas, especialmente no que tange a manutenção de sua capacidade de retaliação nuclear e ao desenvolvimento de uma Marinha preparada para impedir a penetração e movimentação de embarcações inimigas próximas ao seu território. 

Donald Trump, Presidente dos Estados Unidos, e Salman bin Abdulaziz Al Saud, Monarca da Arábia Saudita

Mediante isso, é fundamental ressaltar que o aumento da influência da China na política internacional é catalisado por dois elementos alheios ao controle de Beijing: a crescente instabilidade social nos Estados Unidos e o comportamento errático da política externa norte-americana na última década. Em relação ao âmbito doméstico, as causas e os resultados da Crise de 2008 explicitaram as contradições de um sistema econômico capturado pelos interesses de um setor financeiro cada vez mais poderoso. Ou seja, embora a economia estadunidense tenha sido capaz de superar a recessão, são crescentes os indicadores de concentração de renda, bem como de pauperização de boa parte da população. Nesse contexto de acirramento do conflito distributivo, exacerbam-se também tensões ideológicas e raciais históricas, as quais mitigam a coesão interna e a possibilidade de formação de projetos estratégicos nacionais de longo prazo.  

Do ponto de vista externo, a incapacidade estadunidenses de promover um grau mínimo de estabilidade no Oriente Médio após sucessivas intervenções militares colocaram em cheque o perfil da liderança do país no sistema internacional contemporâneo. Nesse sentido, a postura isolacionista do atual presidente Donald Trump, exemplificada recentemente pela retirada dos Estados Unidos do Acordo Transpacífico e pelo reconhecimento de Jerusalém como capital do Estado de Israel apenas reforçaram essa tendência. Por fim, nota-se que o desinteresse por parte de Washington em construir bases mínimas de coexistência com Moscou serviu para aproximar a Rússia de Vladmir Putin da China de Xi Jinping

Por conta disso, é plausível que a dinâmica de fortalecimento chinês e enfraquecimento estadunidense seja o plano de fundo no qual as tensões e conflitos regionais específicos ocorrerão no próximo ano (2018). Conjunturalmente, indica-se que tal rivalidade se manifestará de maneira acentuada na interação entre a estratégia de internacionalização da moeda chinesa (Yuan) e os esforços perseguidos pelos Estados Unidos para manter o dólar como meio de troca dominante no sistema monetário internacional. Nesse cenário, a postura da Arábia Saudita será elemento definidor. Caso a China seja capaz de convencer a monarquia islâmica a comercializar sua produção de petróleo também em Yuan, o pilar financeiro da hegemonia norte-americana estará seriamente ameaçado. 

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Fontes das Imagens:

Imagem 118o Congresso do Partido Comunista da China” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Communist_Party_of_China#/media/File:18th_National_Congress_of_the_Communist_Party_of_China.jpg

Imagem 2Forças Armadas chinesas durante parada militar” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/People%27s_Liberation_Army#/media/File

Imagem 3Presidente da Rússia, Vladmir Putin, e o Presidente da China, Xi Jinping” (Fonte):

http://en.kremlin.ru/events/president/news/50228

Imagem 4Donald Trump, Presidente dos Estados Unidos, e Salman bin Abdulaziz Al Saud, Monarca da Arábia Saudita” (Fonte):

https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Donald_Trump_and_King_Salman_bin_Abdulaziz_Al_Saud_sign_a_Joint_Strategic_Vision_Statement,_May_2017.jpg

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Fim do DACA pode forçar milhares de mexicanos a deixarem os EUA

De acordo com o Jornal The New York Times, na terça-feira da semana passada (dia 5 de setembro), o Presidente norte-americano, Donald Trump, por meio do Procurador-Geral, Jeff Sessions, anunciou a rescisão do Programa de imigração, conhecido como DACA (Deferred Action for Childhood Arrivals), que anistia os jovens imigrantes indocumentados da deportação.

DACA é um programa do Governo federal, criado em 2012, sob a administração do ex-presidente Barack Obama para conceder aos jovens imigrantes ilegais (trazidos por suas famílias) o direito temporário de viver, estudar e trabalhar legalmente nos Estados Unidos.

De acordo com o Programa, os candidatos a esse benefício devem ser menores de 31 anos (até 15 de junho de 2012), e não possuir status legal de imigração.

Erick Marquez, protesta em apoio ao DACA, em 10 de setembro de 2017, em Los Angeles, Califórnia

Devem ter chegado aos EUA antes de completar 16 anos e ter vivido continuamente no país desde junho de 2007. A maioria desse contingente, conhecidos como “sonhadores”, é do México, El Salvador, Guatemala e Honduras. Eles se concentram em Estados como Califórnia, Texas, Flórida e Nova York e a faixa etária varia entre 15 e 36 anos, ​​de acordo com a Casa Branca. Só de origem mexicana, são aproximadamente 600 mil pessoas que vivem nos EUA e se encontram nesta condição.

Todos que se inscrevem no Programa são examinados pelo Departamento de Segurança Interna (DHS) para que se faça uma avaliação do histórico pessoal de cada indivíduo. Antecedentes criminais ou ameaça à segurança nacional são as maiores preocupações do Governo estadunidense. Os candidatos também devem ser estudantes ou ter completado o serviço escolar ou militar. Caso aprovado pela fase de avaliação, a ação para deportá-los é deferida por dois anos, com a chance de ser renovada. A partir daí, o indivíduo aprovado pode ter acesso a direitos básicos, como uma autorização de trabalho ou de ingresso em uma Universidade.

Entretanto, com a nova decisão tomada pela administração Trump, de acordo com o Serviço de Imigração norte-americano, não serão mais aceitos novos pedidos, nem aprovados pedidos de liberdade condicional antecipado associado ao DACA. Apenas serão julgados os pedidos admitidos até o dia 5 de setembro de 2017. Consequentemente, aqueles que atualmente contam com os benefícios do Programa, começarão a perder seus direitos em março de 2018, a menos que o Congresso adote alguma legislação que permita uma nova aplicação para o status de imigrante legal temporário ou permanente. Caso o Congresso não legisle a favor dos “sonhadores”, todos perderão o benefício até março de 2020 e poderão ser deportados ou expulsos dos EUA.

A rescisão do DACA não foi bem recebida pela população, políticos e por diversas figuras influentes. Em seu FaceBook, o ex-presidente Barack Obama comentou que os americanos não poderiam culpar nem acabar com o futuro dos imigrantes por algo que nunca cometeram, pois eles não representam nenhuma ameaça ao país. Já o Papa Francisco, durante sua viagem à Colômbia, pediu a Donald Trump para repensar sua decisão de acabar com um programa que protege os jovens imigrantes da deportação, o que chamou de “pró-vida” que mantém as famílias unidas.

Além dos defensores da imigração e da maioria dos políticos democratas, grande parte dos políticos do Partido republicano não queria que Trump se envolvesse com a temática do DACA, incluindo personagens proeminentes como o Presidente da Câmara, Paul Ryan, e o senador do Estado de Arizona, John McCain.

Democratas participam de coletiva de imprensa sobre a decisão do presidente Donald Trump de encerrar o DACA, em 6 de setembro de 2017, em Washington, DC.

Para se defender da crítica, Trump argumentou que sua decisão foi tomada pela preocupação que tem com os milhões de americanos, vítimas de um mercado de trabalho que acaba contratando mais estrangeiros do que nacionais, pelo fato de os estrangeiros trabalharem por salários menores. Além disso, ele criticou a política adotada por Obama, pois ajudou a provocar uma onda maciça de imigrantes da América Central, alguns dos quais integram gangues violentas.

De fato, alguns críticos de imigração afirmam que programas como o DACA, iniciados sob o comando de Obama, incentivaram os centro-americanos a entrar nos Estados Unidos, na esperança de permanecerem permanentemente. Dezenas de milhares de pessoas migraram pela fronteira sul dos Estados Unidos no verão de 2014, sendo muitas delas crianças e adolescentes que fogem da violência de seus países de origem.

Em resposta à decisão tomada pelo Presidente norte-americano, o Governo mexicano se disse preparado para receber seus nacionais. O Chanceler mexicano, Luis Videgaray, anunciou um pacote de ações que inclui defesa legal nos consulados e, caso os mexicanos sejam deportados, acesso ao mercado de trabalho, sistema educacional, seguro social e validação imediata dos cursos feitos nos EUA.

Alguns especialistas acreditam que é a chance de o México repatriar a melhor geração de migrantes da sua história. O perfil dos jovens mexicanos criados nos Estados Unidos representa a geração mais educada da história mexicana: 98% deles são bilíngues, 70% têm ensino superior, 16% compraram uma casa e 91% tiveram um emprego estável. Centenas deles trabalham em empresas como Facebook, Google ou Apple e podem ter que voltar para o México.

Esses caras são o melhor do sincretismo, não lhes deram nada e foram criados na cultura de esforço e luta combinada com o dinamismo e a condução dos EUA. Seus pais tiveram três ou quatro empregos para buscá-los e eles foram para as boas universidades porque sabiam que o treinamento era importante em uma sociedade preparada como a dos EUA”, explica Rendón, chefe da Agenda de Migrantes, uma iniciativa cidadã que trabalha para a integração de deportados.

Tradicionalmente, o México se preparou muito bem para facilitar a partida de seus cidadãos e muito mal para recebê-los quando quiseram retornar. No entanto, sua contribuição é vital para a economia local. Os mexicanos nos EUA enviaram cerca de 28,1 bilhões de dólares no ano passado (2016). Valor superior à renda gerada pelo turismo ou pelo investimento estrangeiro direto, de acordo com dados oficiais. Uma média mensal de 290 dólares que vai diretamente para as famílias mexicanas. Porém, agora eles podem perder tudo que conquistaram ao longo de anos de esforço. Por isso, a situação é vista como sendo a hora de o México integrá-los e deixar de tratá-los como estranhos, acrescenta Rendón.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Imigrantes e defensores da imigração marcham para opor-se à ordem do presidente dos EUA, Donald Trump, de encerrar a DACA em 10 de setembro de 2017, em Las Vegas, Nevada” (Fonte):

http://www.gettyimages.com/license/845465576

Imagem 2Erick Marquez, protesta em apoio ao DACA, em 10 de setembro de 2017, em Los Angeles, Califórnia” (Fonte):

http://www.gettyimages.com/license/845453698

Imagem 3Democratas participam de coletiva de imprensa sobre a decisão do presidente Donald Trump de encerrar o DACA, em 6 de setembro de 2017, em Washington, DC.” (Fonte):

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AMÉRICA DO NORTEANÁLISES DE CONJUNTURA

Trump define novo engajamento político-militar no Afeganistão

Nós não iremos construir uma nação novamente. Nós iremos matar terroristas”. Com este enfoque, o presidente Donald Trump anunciou na última segunda-feira, 21 de agosto, uma nova fase intervencionista no Afeganistão.

Ao defender sua política externa para a região, analistas políticos acreditam que Trump seguiu o conselho de seus principais assessores que entendem que a administração de Barack Obama, em 2011, permitiu o surgimento do autoproclamado Estado Islâmico (Islamic State of Iraq and Al-Sham na sigla em inglês), ao retirar uma parcela significativa das forças militares do Iraque.

Ex-presidente Hamid Karzai com Barack Obama na Cúpula da OTAN em 2010

Dentre as justificativas usadas por Trump, “uma retirada apressada criaria um vácuo” que grupos terroristas como o Estado Islâmico, também conhecido como Daesh, em árabe, e a Al-Qaeda preencheriam, tal como o ocorrido nos ataques de 11 de setembro de 2001.

No entanto, sem dar maiores detalhes sobre a nova empreitada militar na região em seu discurso, o Presidente, segundo a imprensa norte-americana especializada, considerou o uso de empresas privadas para executar a missão, através de uma proposta feita por Erick Prince, fundador da empresa de segurança Blackwater, com apoio do até então Estrategista-Chefe da Casa Branca, Steve Bannon.

Com a demissão de Bannon da administração, na última semana, o apoio a essa opção foi suprimido, por ora, pelas alternativas apresentadas pelo Assessor de Segurança Nacional, H.R. McMaster; o Secretário de Defesa, Jim Mattis; e pelo Chefe do Estado-Maior Conjunto, o General Joseph F. Dunford Jr; assim como por todos os generais envolvidos na Guerra ao Terror, em momentos distintos.

Como justificativa, apontaram que já existem muitos empreiteiros no Afeganistão, cerca de 26 mil, contra 10 mil homens das tropas dos EUA, com base no relatório intitulado “Department of Defense Contractor and Troop – Levels in Iraq and Afghanistan: 2007-2017”, do Serviço de Pesquisa do Congresso (Congressional Research Service, na denominação oficial, em inglês) e que, em virtude do histórico irregular dos contratados, há riscos diplomáticos para a Casa Branca, pela eventual necessidade de responder a condutas ilegais e resgates, uma vez estivessem ameaçados por ataques, ou mortes.

Ao endossar os planos do Pentágono, Trump deverá enviar 3.900 soldados, número solicitado pelo general John W. Nicholson Jr, Comandante Sênior da Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO, na sigla em inglês) em Cabul. Também é provável que outros aliados enviem reforços para participar da missão da OTAN, com o objetivo de assessorar e apoiar as Forças de Defesa e Segurança do Afeganistão (ANDSF, na sigla em inglês).

Para James Stavridis, Almirante de Quatro Estrelas da Marinha dos Estado Unidos e Comandante da OTAN em Cabul, de 2009 a 2013, as opções para o Afeganistão são ruins, dado o dispêndio de aproximadamente US$ 1 trilhão desde a invasão, além da perda de 2.400 homens.

Para o General, uma abordagem mais robusta, com a volta de 150 mil soldados seria parte de um engajamento direcionado mais adequado, com base no plano proposto pela Casa Branca, no entanto, o profundo desgaste político e econômico de mais de uma década de conflito sem resultados concretos inviabiliza essa alternativa.

Desse modo, ainda com base no General Stavridis, algumas medidas complementares devem ser avaliadas, dentre as quais:

  1. Envolver a OTAN e outros parceiros da coalizão, como Austrália, Nova Zelândia e Geórgia nos combates. Para isso, exigirá do Secretário de Defesa e de Estado pressão sobre os membros da coalizão;
  2. Desenvolver uma aliança com a Rússia, haja vista que Moscou não aceitará um Estado com governança descentralizada aumentando a produção de ópio ao sul de suas fronteiras, apesar dos indícios de que há comercialização de armas diretamente ao Teleban;
  3. Aprofundar as relações com a Índia, com intuito de pressionar o Paquistão a cooperar com os esforços estadunidenses na luta contra o terrorismo. A adição de Nova Deli na equação regional impõe a Islamabad o recrudescimento das tensões com o vizinho ao sul, em troca de tecnologia, treinamento e novos armamentos. Sem o apoio financeiro dos EUA, há um desequilíbrio de forças na região que favorece Nova Deli;
  4. Formação, organização e planejamento de um corpo de forças especiais afegãs se faz necessário, pois, uma vez aumentadas de tamanho, podem lidar com a ameaça Taleban, que não dispõe de um grande e organizado efetivo em suas fileiras.

Ex-Secretário de Estado, John Kerry, com Ashraf Ghani e Abdullah Abdullah, em 2014

Ao tratar especificamente a questão afegã pela perspectiva militar, os esforços em reconduzir o país sem a influência insurgente do Taleban resultou no declínio do poder governamental a partir de novembro de 2016, com Cabul controlando apenas 57% do país, o que em parte explicaria a incapacidade dos EUA em estabilizar a região.

Nesse sentido, outros fatores também são observados. Para especialistas consultados, o Governo é parte integrante do recrudescimento do papel do Estado, pois sua composição privilegia as elites, em detrimento de líderes que permeiam apoio em massa. Nenhuma ideologia, partido político, ou líder carismático une os afegãos.

Conforme vem sendo disseminado, as fileiras do governo são notavelmente corruptas e violentas, com registros de abuso, extorsão e estupro, fatores que conectam com a falta de lealdade, independentemente do líder, impondo um problema estrutural.

Em complemento, os fracassos governamentais geram falhas e a incapacidade dos oficiais de controlar a corrupção, estabelecer regras na forma de lei, providenciar segurança, ou desempenhar funções de governança leva os afegãos a recorrerem a governantes locais, milícias e ao Talibã, o que deslegitima a influência governamental.

Nesse sentido, o compromisso e a perseverança do Taleban justificam o reconhecimento. Após anos da invasão ocidental, em contraste com o Governo afegão, os Talibãs oferecem uma forma de justiça com menos corrupção, o que também leva os habitantes locais a confiar mais nos insurgentes do que propriamente no governo central, em Cabul.

Diante desse quadro, o reforço de tropas não dará aos EUA uma vitória. Na melhor das hipóteses, apontam especialistas, essas tropas podem ajudar a fortalecer as forças da coalizão e ajudar os aliados afegãos a preservar o impasse, fazendo com que a guerra continue sem um fim.

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Fontes das Imagens:

Imagem 115º Unidade Expedicionária da Marinha dos EUA” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/United_States_invasion_of_Afghanistan#/media/File:Marineshumping2001.jpg

Imagem 2Expresidente Hamid Karzai com Barack Obama na Cúpula da OTAN em 2010” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Afghanistan%E2%80%93United_States_relations#/media/File:Obama_and_Karzai_at_2010_NATO_summit.jpg

Imagem 3ExSecretário de Estado, John Kerry, com Ashraf Ghani e Abdullah Abdullah, em 2014”. (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Ashraf_Ghani#/media/File:Secretary_Kerry_meets_Abdullah_and_Ghani_2014.jpg