AMÉRICA DO NORTEANÁLISES DE CONJUNTURAÁSIA

Países europeus se posicionam contra as sanções dos EUA ao Irã

Importantes países europeus, participantes do acordo de desnuclearização do Irã, mais a União Europeia (UE) apresentaram uma declaração conjunta demonstrando-se contrários à decisão dos Estados Unidos da América (EUA) de realizar as sanções previstas sobre o país persa em novembro deste ano (2018). O anúncio da UE com França, Alemanha e até o Reino Unido, que está em processo de saída da Organização, é a mais nova evidência do conflito de interesses dos Estados europeus diante da administração do presidente Donald Trump.

Manifestações em Nova York contra as sanções sobre o Irã

A principal preocupação desses países reside na sua perda de negócios com o Irã em função das novas sanções. Empresas europeias sofreriam o maior impacto, algo que não é interessante aos Estados que as sediam. A declaração evoca as tratativas existentes na resolução 2231 do Conselho de Segurança das Nações Unidas (CSNU), de 2015. Nesta última, ficou estabelecido o Plano de Ação Conjunta (JCPoA, na sigla em inglês) que seria o documento norteador para a garantia de que o Irã apenas faria uso de seu programa nuclear para fins pacíficos.

Apesar das críticas, o fato é que tanto a UE como os países europeus em questão perderam, e muito, acesso ao mercado iraniano desde que o CSNU passou a tratar o caso dos persas. Por outro lado, o mercado asiático tem crescido vertiginosamente na balança comercial do Irã, sobretudo a China, principal parceira econômica na atualidade.

A primeira resolução do Conselho de Segurança diretamente relacionada ao programa nuclear iraniano é a 1696, de 2006. Segundo dados da Universidade de Harvard, a China ultrapassou o Japão, em 2007, ou seja, logo depois se tornou o principal parceiro econômico do Irã. Em 2016, os chineses já eram responsáveis por cerca de 30% das exportações do país persa. Nesse quesito, tanto os europeus como os EUA vêm perdendo espaço na balança comercial desde então, sobretudo para o mercado asiático – mais próximo e com menores dificuldades de escoamento da produção.

Irã sob perspectiva asiática

No que diz respeito às importações, pela mesma fonte, os países europeus detinham grande parte da fatia de produtos enviados para o Irã. Os persas importavam, em 2006, quase a metade dos bens oriundos da Europa e pouco mais de 12% da China. Dez anos depois, em 2016, o quadro se inverteu: 25% das importações iranianas vêm de países europeus, enquanto que pouco mais de 35% corresponde à China. Tanto em importações como em exportações, os EUA não têm relevância na balança comercial iraniana.

Quanto ao petróleo, o mercado consumidor basicamente se resume para China, Índia, Coreia do Sul e Japão, que dominam mais de 80% das exportações iranianas desse produto que representou, em 2016, quase 60% das exportações do país. O mercado asiático é sólido e confiável, portanto, as sanções do Ocidente apenas excluem o acesso deste último aos produtos iranianos.

Nesse sentido, a tentativa do discurso europeu de amenizar as sanções previstas no JCPoA e dar mais tempo ao Irã para que cumpra o acordo faz muito sentido em uma ordem prática de balança comercial. Por outro lado, os EUA, principalmente na figura de Trump, não aparentam estar interessados, apesar de os norte-americanos estarem em declarada guerra comercial com os chineses. Ainda não é certa a manutenção do acordo do programa nuclear iraniano, mas ficou clara a divergência entre os aliados ocidentais, sobretudo acerca de seus interesses em política externa.

———————————————————————————————–

Fontes das Imagens:

Imagem 1Sanções sobre o Irã” (Fonte):

https://www.flickr.com/photos/[email protected]/43412621802

Imagem 2Manifestações em Nova York contra as sanções sobre o Irã” (Fonte):

https://www.flickr.com/photos/worldcantwait/6844732543

Imagem 3Irã sob perspectiva asiática” (Fonte):

https://uk.m.wikipedia.org/wiki/%D0%A4%D0%B0%D0%B9%D0%BB:Iran_in_Asia.svg

AMÉRICA DO NORTEANÁLISES DE CONJUNTURA

Do NAFTA para o USMCA, entenda as mudanças

Depois de mais de um ano de negociações e poucas horas antes do prazo de 1o de outubro, o governo Trump e o governo do primeiro-ministro canadense, Justin Trudeau, conseguiram chegar a um acordo trilateral de livre comércio com o México para substituir o Acordo de Livre Comércio da América do Norte (NAFTA), após 25 anos. O novo tratado trilateral, denominado Acordo EUA-México-Canadá (USMCA), trouxe algumas mudanças em diversas áreas, como as regras de origem automotiva, a solução de controvérsias, o mercado de produtos agrícolas e laticínios, o comércio digital e o imposto sobre importação.

Justin Trudeau (esquerda) e Donald Trump (direita)

No que tange as regras de origem automotiva, o USMCA exigirá que 75% do conteúdo automotivo seja fabricado na América do Norte para que os automóveis se qualifiquem para o tratamento preferencial, isento de impostos. Em comparação, a regra de origem automática do NAFTA era de 62,5%. Do limite de 75% exigido pelo USMCA, entre 40% e 45% devem ser feitos por trabalhadores que ganham pelo menos 16 dólares americanos por hora. O requisito de salário será implementado ao longo de cinco anos. É essencialmente um requisito de conteúdo dos EUA ou Canadá, pois os salários dos trabalhadores mexicanos não estão próximos a esse nível.

Contudo, especialistas alertam que as regras do USMCA podem restringir a atividade de compra das montadoras, o que poderia aumentar os custos de fabricação, e a exigência de salário pode atrapalhar as cadeias de suprimento existentes projetadas em torno da regra de origem do NAFTA.

Enrique Peña Nieto (esquerda) e Donald Trump

Sobre a solução de controvérsias entre investidores e Estados (ISDS), o mecanismo de arbitragem especial contido no NAFTA, que permitiu aos investidores processar países do NAFTA por ações discriminatórias, será eliminado entre os Estados Unidos e o Canadá, e sua cobertura será significativamente reduzida para investidores no México. No caso mexicano, tal ferramenta cobrirá os investimentos apenas nas áreas do petróleo e gás, serviços de geração de energia, serviços de telecomunicações, serviços de transporte e gerenciamento da propriedade da infraestrutura.

A redução do ISDS é uma grande vitória do representante de Comércio dos EUA, Robert Lighthizer, que o vê como um meio para as corporações reduzirem a soberania do país e incentivar a terceirização.

No que tange ao acesso aos mercados de produtos lácteos e agrícolas, os Estados Unidos conseguiram obter acesso aos mercados de laticínios, ovos e frango fortemente protegidos pelo mercado canadense, permitindo que o Canadá exportasse mais produtos lácteos, amendoins e açúcar para os Estados Unidos. O USMCA fornecerá aos norte-americanos acesso a cerca de 3,6% do comércio de laticínios canadense. O Canadá também se comprometeu a eliminar seu programa de leite “classe 7”, que incentivou os fabricantes de queijo do país e de alimentos processados a usarem proteína láctea produzida em seu território em vez de importações estrangeiras.

A indústria de laticínios canadense condenou a USMCA por colocar a indústria “em risco”, enquanto o Conselho de Exportação de Laticínios dos EUA expressou apoio indiferente a ela. Os Estados Unidos também conseguiram resolver práticas canadenses que discriminavam o vinho e o grão dos EUA.

Em relação ao comércio digital, o USMCA contém disposições semelhantes às negociadas no TPP. Uma melhoria significativa é a proibição geral dos requisitos de localização de dados que não oferece uma exceção para as empresas de serviços financeiros.

No que tange o valor mínimo de impostos sobre importação, o novo Acordo aumentará o limite no qual as importações do Canadá e do México estarão sujeitas a direitos alfandegários, uma prioridade para muitos na comunidade empresarial dos EUA. Para o Canadá, o nível de imposto mínimo aumentará de 20 dólares canadenses para 40 e permitirá embarques com isenção de impostos de até 150 dólares canadenses. O México permitirá embarques livres de impostos de até 117 dólares americanos. E o limite mínimo de imposto pago pelos EUA será de 800 dólares americanos.

Por fim, a última novidade é que pela primeira vez os Estados Unidos conseguiram incluir regras sobre manipulação de moeda e política monetária no texto principal de um acordo comercial. Os requisitos relacionados à transparência na atividade cambial estarão sujeitos ao mecanismo de solução de controvérsias de Estado para Estado do USMCA.

O Acordo possui um prazo renovável de 16 anos, considerada uma grande melhoria para o Canadá e o México ao longo da cláusula de caducidade de cinco anos originalmente imposta pela administração Trump. Os três países se reunirão seis anos após a entrada em vigor para decidir se renovarão o pacto por mais 16 anos.

O texto da USMCA foi publicado pelo governo Trump on-line em 1º de outubro, mas ainda não foi assinado pelos líderes de cada país. Espera-se que o texto seja assinado na Cúpula dos Líderes do G20 em Buenos Aires, no final de novembro (2018). Isso permitiria que a saída da administração mexicana de Peña Nieto assinasse o Acordo antes da entrada do novo governo de Andres Manuel Lopez Obrador, no dia 1º de dezembro.

———————————————————————————————–

Fontes das Imagens:

Imagem 1Estados Membros do USMCA” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/United_States%E2%80%93Mexico%E2%80%93Canada_Agreement

Imagem 2Justin Trudeau (esquerda) e Donald Trump (direita)” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/File:Donald_Trump_Justin_Trudeau_2017-02-13_02.jpg

Imagem 3Enrique Peña Nieto (esquerda) e Donald Trump” (Fonte):

https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Enrique_Pe%C3%B1a_Nieto_meets_with_Donald_Trump,_G-20_Hamburg_summit,_July_2017_(1).jpg

AMÉRICA DO NORTEAMÉRICA LATINAANÁLISES DE CONJUNTURAÁSIA

China e EUA: competição crescente na América Latina

No dia 1o de fevereiro, quinta-feira passada, o Secretário de Estados dos EUA, Rex Tillerson, realizou um discurso na Universidade do Texas, no qual abordou as relações diplomáticas com os países da América Latina. Sua fala não foi casual, mas introduziu a visão do país sobre o tema e precedeu o início de uma viagem oficial de sete dias pela região, incluindo visitas ao México, Panamá, Colômbia, Peru, Argentina e Jamaica. Na ocasião, Tillerson ressaltou a convergência de valores no continente americano e a importância da região na estratégia internacional estadunidense.

Tillerson participa de evento na Universidade do Texas

Além disso, expressou o objetivo de seu país em promover a liberdade política e as reformas econômicas pró-mercado, assim como fortalecer a governança democrática, as medidas anticorrupção e a luta contra o crime organizado transnacional.

Contudo, como destacado pelos periódicos El País e New York Times, o que mais chamou atenção foi a ênfase atribuída por Tillerson ao aumento da presença chinesa nas Américas. O Secretário ressaltou que o investimento e o comércio chinês com a região vêm aumentado, sendo que tal país se tornou o principal parceiro comercial de Argentina, Brasil, Chile e Peru, e alertou que a parceria com a potência asiática sempre vem com um custo. Segundo o representante estadunidense, o modelo de desenvolvimento e a atuação internacional chinesa têm como consequências benefícios no curto prazo e dependência no longo prazo. Além disso, em sua visão, trata-se de um modelo extrativo e predatório, que beneficia apenas a população chinesa e atua na contramão da promoção dos direitos humanos ou da democracia. Nas palavras de Tillerson, “a América Latina não precisa de novos poderes imperiais que buscam beneficiar apenas sua própria população”.

Segundo noticiado pela Reuters, o discurso do Secretário de Estado foi seguido de um comunicado do Ministério de Relações Exteriores chinês. O documento afirmava que o discurso de Tillerson era desrespeitoso em relação aos países latino-americanos e que a cooperação entre a China e a América Latina baseia-se na igualdade, liberdade e em ganhos mútuos. O comunicado destacava ainda que o comércio chinês com a região não afeta nenhuma terceira parte e não deve ser visto como um jogo de soma zero.

O ministro de relações exteriores chinês Wang Yi

Cabe ressaltar que o discurso de Tillerson ocorreu pouco tempo depois de a uma reunião que congregou a China e os trinta e três países da Comunidade dos Estados Latinos Americanos e Caribenhos (CELAC). Durante a reunião ocorrida em 22 de janeiro, o ministro das Relações Exteriores chinês, Wang Yi, ressaltou que a China tem praticado na América Latina uma diplomacia de benefícios e ganhos conjuntos. Na oportunidade, Yi buscou aproximar e incluir a região na principal iniciativa diplomática contemporânea chinesa, a chamada Nova Rota da Seda.

Interessante notar a semelhança dos discursos dos representantes de ambas as potências, que argumentam que as suas relações com a região trazem benefícios para ambas as partes. Yi ressalta que a atuação chinesa tem como resultado o desenvolvimento conjunto e baseia-se em valores comuns, especialmente o multilateralismo. Apesar de afirmar que não atinge terceiras partes, a diplomacia chinesa tem consciência de que sua aproximação com a América Latina, tradicional área de influência norte-americana, pode gerar reações por parte desta potência mundial.

Tillerson, por sua vez, argumenta que os Estados Unidos são um ator que se preocupa com a prosperidade regional, com a promoção da liberdade e segurança na América Latina, atuando em favor do hemisfério e com base em valores comuns, especialmente a democracia e os direitos humanos. Contudo, ironicamente, essa narrativa contradiz o slogan America First sustentado pelo presidente Donald Trump desde o início de sua campanha eleitoral. O Mandatário defende a necessidade de atribuir maior ênfase aos interesses nacionais estadunidenses e colocá-los em primeiro lugar. Nesse sentido, a crítica estadunidense sobre a China priorizar as necessidades de seus nacionais também poderia ser aplicada aos Estados Unidos, conforme o próprio discurso sustentado por Donald Trump.

O discurso de Tillerson, por outro lado, reconhece um cenário que se desenha desde o início dos anos 2000, marcado pelo aumento da presença chinesa e a relativa diminuição da presença econômica dos Estados Unidos na região. A China tornou-se o primeiro parceiro comercial de países da região em detrimento da potência norte-americana. Os investimentos e empréstimos chineses ocupam um espaço que anteriormente era dominado pelos Estados Unidos. Nesse contexto, configura-se um cenário de aumento da competição entre a potência estabelecida e a emergente sobre a influência na América do Sul. Há que se ressaltar que se trata de uma rivalidade de baixa intensidade e baixo perfil, essencialmente econômica. Embora tenha um fundo geopolítico, trata-se de uma dinâmica essencialmente diferente daquela que existe atualmente na Ásia, onde os traços de competição militar apresentam-se de forma cada vez mais ressaltada.

———————————————————————————————–                    

Fontes das Imagens:

Imagem 1Tillerson participa em conferência de imprensa conjunta com o Ministro de Relações Exteriores Argentino, Jorge Faurie” (Fonte: Departamento de Estado):

https://www.flickr.com/photos/statephotos/28303995829/in/photostream/

Imagem 2Tillerson participa de evento na Universidade do Texas” (Fonte: Departamento de Estado):

https://www.flickr.com/photos/statephotos/39132507725/

Imagem 3O ministro de relações exteriores chinês Wang Yi” (Fonte: Wikimedia Commons):

https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Wang_Yi_(2016-03-11)_02.jpg

AMÉRICA DO NORTEANÁLISES DE CONJUNTURAÁSIA

A China na Estratégia Nacional de Defesa de Donald Trump

No dia 18 de dezembro de 2017, o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou a publicação da Estratégia Nacional de Segurança (ENS) de seu governo. A ENS é um documento que sintetiza as percepções e diretrizes que nortearão a política externa estadunidense pelos próximos anos. Nesse contexto, a publicação de 2017 explicita que, do ponto de vista da administração Trump, a República Popular da China se constitui como a maior fonte de ameaças aos interesses nacionais dos EUA na política internacional contemporânea.

O Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump

A nação asiática é mencionada trinta e três vezes ao longo das cinquenta e seis páginas do documento. Logo na primeira referência, a ENS se refere à China e à Rússia como nações que “estão desafiando o poder e a influência dos Estados Unidos, bem como buscando erodir a segurança e a prosperidade estadunidense”. Em seguida, são realizadas graves acusações às práticas internacionais do Governo chinês. Por exemplo, Beijing é acusada de “roubar propriedade intelectual dos EUA”, “expandir práticas comerciais abusivas”, “explorar tecnologias de informação para ampliar seu sistema político autoritário”, bem como “avançar sobre a soberania de outros países”. Por fim, o documento sugere que está em curso uma divisão político-ideológica na região Indo-Pacífica. Isto é: “uma competição geopolítica entre concepções autoritárias e liberais acerca da ordem internacional”.

Percebe-se que tal abordagem representa um brusco ponto de inflexão em relação à ENS publicada em 2015 pela administração do ex-Presidente Barack Obama. Nessa ocasião, as poucas referências à República Popular da China destacavam os avanços que ambos os países haviam alcançado no âmbito das políticas de combate à mudança climática. Além disso, o documento de 2015 ressaltava que “os EUA acolheriam a ascensão de uma China estável, pacífica e prospera”, bem como a busca pelo desenvolvimento de uma relação construtiva que promovesse segurança e prosperidade para a Ásia e o restante do mundo. 

As acusações presentes na Estratégia Nacional de Segurança de Donald Trump foram prontamente respondidas pelas autoridades chinesas. Hua Chunying, Porta-Voz do Ministério de Relações Exteriores do país, declarou que “nós estimulamos que o governo dos EUA pare de distorcer deliberadamente as intenções estratégicas da China e abandone conceitos ultrapassados da Guerra Fria”. Por sua vez, o periódico do Partido Comunista Chinês, Global Times, assumiu tom mais severo em seu editorial: “a ENS é uma manifestação da postura da administração de Trump, a qual se baseia mais no poder americano no que nas regras internacionais. Demonstra a indisputável insistência de Washington na hegemonia global. Beijing e Moscou não aceitarão.  

É cedo para se avaliar o resultado prático da inflexão no âmbito discursivo da política externa estadunidense em relação à China. Isso porque a Estratégia Nacional de Segurança não delimita um conjunto específico de ações no âmbito internacional, mas apenas apresenta percepções e diretrizes gerais.

Nesse sentido, especialistas questionam até que ponto Donald Trump não teria utilizado o documento como forma de responder ao eleitorado estadunidense que o elegeu. Além disso, na medida em que manifestações contraditórias e declarações presidenciais via Twitter se tornaram uma prática recorrente do atual Chefe de Estado dos Estados Unidos, ficou mais complexa a compreensão acerca da real estratégia de longo prazo perseguida pelo país norte-americano. 

Ainda assim, nota-se que a mudança apresentada na ENS estadunidense ocorre em uma conjuntura de acirramento da competição entre China e EUA, bem como de alteração no posicionamento externo do país asiático. Por exemplo, o presidente Xi Jinping, em seu discurso a nação realizado no dia 31 de dezembro de 2017, declarou que a China será uma ativa construtora da paz e guardiã da ordem internacional. Em outras palavras, Beijing assume definitivamente uma atitude de liderança na comunidade internacional. Logo, percebe-se que o ano de 2018 se inicia com a incorporação de rivalidade recíproca no discurso oficial da política externa das duas maiores potências do sistema interestatal contemporâneo.

———————————————————————————————–

Fontes das Imagens:

Imagem 1Xi Jinping e Peng Liyuan, Presidente e Primeira Dama da República Popular da China, ao lado de Donald Trump e Melanie Trump, Presidente e Primeira Dama dos Estados Unidos” (Fonte):

https://commons.wikimedia.org/wiki/File:President_Trump_with_President_Xi,_April_2017_Cropped.jpg

Imagem 2O Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump” (Fonte):

https://eml.wikipedia.org/wiki/Donald_Trump

AMÉRICA DO NORTEANÁLISE - TecnologiaANÁLISES DE CONJUNTURA

O papel do ciberespaço na nova Estratégia de Segurança Nacional Norte-Americana

A primeira Estratégia de Segurança Nacional do governo Trump, publicada em dezembro de 2017, parte da priorização dos interesses norte-americanos ao redor do mundo, sendo caracterizada, em sua introdução, como uma “Estratégia de Segurança Nacional para americanos primeiro”. Em suas páginas iniciais, o documento deixa claro que a manutenção dos interesses e posicionamento dos EUA como uma nação forte são uma questão de segurança nacional e beneficiária não só aos Estados Unidos, mas a todos países que desejam se aliar a eles.

Partindo do princípio da priorização de interesses norte-americanos, a Estratégia de Segurança Nacional (NSS, na sigla em inglês) é organizada em quatro pilares fundamentais:

  1. O primeiro é “proteger o povo americano, a pátria e o modo de vida americano”, através da securitização de fronteiras; da neutralização de fontes de ameaças; da proteção do ciberespaço, por meio da defesa de infraestrutura crítica, que pode vir a ser alvo de ataque cibernéticos; e da promoção da resiliência estadunidense.
  2. O segundo pilar fundamental é a “promoção da prosperidade norte-americana”, por meio do rejuvenescimento da economia doméstica, da promoção de relacionamentos econômicos, da liderança em pesquisa e tecnologia, do desenvolvimento de uma base de inovação de segurança nacional, e do domínio energético.
  3. A “Preservação da paz através da força” corresponde ao terceiro pilar fundamental da NSS. Busca-se atingir esse objetivo através da renovação das vantagens competitivas americanas e da atualização de capacidades e diplomacia.
  4. O quarto e último pilar corresponde ao “avanço da influência americana”, por meio do encorajamento de parcerias, melhores resultados em fóruns multilaterais e patrocínio de valores americanos.

Selo da Presidência norte-americana

Nessa estrutura, o ciberespaço aparece nos primeiro e terceiro pilares. Inicialmente, é abordado como palco para novas ameaças que podem vir a ameaçar a infraestrutura crítica e as instituições dos Estados Unidos, conforme a sociedade se torna intrinsecamente dependente dos serviços interconectados da Internet e do espaço cibernético como um todo. Nesse sentido, a NSS reconhece que o ciberespaço possibilita que agentes estatais ou não estatais realizem campanhas contra os EUA, sem necessariamente cruzarem qualquer fronteira física.

A crescente interconectividade da sociedade, das cidades, dos serviços e da infraestrutura básica americana no ciberespaço permite que os mesmos sejam alvos de ataques cibernéticos por atores que não necessariamente possuem forte presença ou capacidades militares tradicionais, como armamentos pesados, pessoal ou mísseis.

As ações prioritárias da NSS a respeito do ciberespaço são a identificação de riscos em seis áreas chave: segurança nacional; energia; bancos e finanças; saúde e segurança; comunicações; transportes. Ataques cibernéticos contra essas áreas podem possuir consequências catastróficas, portanto são o principal foco das capacidades defensivas norte-americanas.

Outros objetivos prioritários a serem perseguidos são a atualização e modernização das tecnologias informacionais federais, tornando-as mais seguras e defensáveis, para deter atores cibernéticos maliciosos, dotando autoridades e membros do governo federal de capacidades e autonomia para atuar na prevenção de ataques cibernéticos, trabalhando em conjunto com aliados para o desenvolvimento de infraestrutura de rede mais seguras, e aplicando consequências drásticas à governos, criminosos e atores que realizem atividades cibernéticas contra os EUA. Também estão: promover a obtenção e compartilhamento de informações através da redução de barreiras, classificação de material sensível e expansão da interação com o setor privado. Por fim, aplicar uma defesa de rede em camadas, desenvolvida com atores privados, a fim de impedir a livre circulação de atores maliciosos pela rede.

O presidente Donald J. Trump

No quesito “renovação de capacidades”, do terceiro pilar, o ciberespaço aparece em paralelo com as áreas a serem atualizadas, nominalmente: militar, base industrial de defesa, nuclear, espacial e inteligência. Para a renovação de capacidades cibernéticas, a NSS determina como ações essenciais o aprimoramento da capacidade de reconhecer e identificar ataques cibernéticos e seus responsáveis. Além disso, melhorar a expertise e capacidade do Governo federal, através do recrutamento de pessoal capaz de operar de maneira mais eficiente no domínio cibernético, bem como facilitar a integração e agilidade no compartilhamento de inteligência a respeito de adversários e ações no ciberespaço.

A abordagem do ciberespaço dada na NSS é uma evolução dos outros documentos de defesa que o antecederam, no entanto, a mais recente NSS é convicta em reconhecer o ciberespaço não só como o palco de novas ameaças não necessariamente dotadas de capacidade militar efetiva. Devido à dependência da sociedade norte-americana de serviços integrados ao ciberespaço, o mesmo pode vir a ser alvo da ação de atores estatais e não estatais capazes de causar danos significativos aos EUA, sem necessariamente estarem presentes fisicamente no país. A Estratégia de Segurança Nacional ainda reconhece o desafio e a necessidade de aprimorar a identificação e responsabilização de eventuais atores contrários aos interesses norte-americanos neste domínio.

O reconhecimento dado ao espaço cibernético nesta nova Política, em conjunto com o tratamento dado nos documentos estratégicos de países como Alemanha, Brasil e França, legitimam o domínio cibernético como um espaço paralelo aos tradicionais domínios de terra, ar, mar e espaço. No entanto, é importante ressaltar que ao mesmo tempo em que é paralelo, o ciberespaço, paradoxalmente, também perpassa os demais domínios, integrando comunicações pessoais, sistemas industriais, redes energéticas, armamentos e diversas tecnologias que não só os EUA, mas todos tomam como cotidianas e podem ser eventuais alvos. Ataques cibernéticos recentes contra centrais energéticas, ou os casos de ransomware que se espalharam pelo globo, ilustram a vulnerabilidade de serviços cruciais para a sociedade moderna.     

———————————————————————————————–                    

Fontes das Imagens:

Imagem 1Capa da Estratégia de Segurança Nacional” (Fonte):

http://nssarchive.us/wp-content/uploads/2017/12/2017.pdf

Imagem 2Selo da Presidência norteamericana” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Presidente_dos_Estados_Unidos 

Imagem 3O presidente Donald J. Trump” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Donald_Trump#/media/File:Official_Portrait_of_President_Donald_Trump.jpg

                                                                              

AMÉRICA DO NORTEAMÉRICA LATINAANÁLISES DE CONJUNTURA

O governo Donald Trump e a América Latina

A posse de Donald Trump como Presidente dos Estados Unidos, em 20 de janeiro de 2017, gerou maior complexidade e imprevisibilidade às relações interamericanas, desfazendo o cenário que se desenhava ao final do mandato de Barack Obama. Naquele momento, as relações hemisféricas caminhavam para a reaproximação, revertendo a tendência de afastamento e fricções que predominaram nos anos 2000.

As dificuldades que haviam sido experimentadas pelos EUA em suas relações com o continente decorriam de diversos fatores, como a ascensão de governos de tendências à esquerda e economicamente nacionalistas na América do Sul, a ampliação do comércio e dos investimentos chineses na região e a baixa prioridade estratégica atribuída pela potência norte-americana, que se voltava para o Oriente Médio e para a Ásia. As relações bilaterais com o México e a Colômbia mantinham-se como as principais exceções e como pontos de entrada dos EUA na região.

Trump e o presidente mexicano Enrique Peña Nieto

Esse contexto de desconfiança e tensões entre América Latina e EUA apresentou sinais de reversão a partir de meados da década de 2010. A política de reaproximação entre EUA e Cuba, iniciada pelo governo de Barack Obama, atendia às demandas latino-americanas e mostrava-se como fator de aproximação regional. Por outro lado, a América do Sul vivenciou o esgotamento do “giro à esquerda”, a partir da derrota do chavismo nas eleições legislativas venezuelanas em 2015, da eleição do presidente argentino Maurício Macri, também em 2015, e da queda do governo de Dilma Rousseff, em 2016, no Brasil.

Assim, a tendência no continente era de reaproximação e busca de cooperação hemisférica. Contudo, a retórica de Trump é vista como significativamente agressiva em relação a temas caros aos governos latino-americanos, minando a agenda positiva implementada por Obama. Sua ênfase nos interesses nacionais estadunidenses, representada pelo slogan America First, deixa subentendida a priorização do unilateralismo e a diminuição da ênfase na cooperação hemisférica.

Durante sua campanha e seu primeiro ano de governo, Trump apresentou um tom mais duro frente ao tema da imigração e às relações com México e com Cuba. O Presidente enfatizou a construção de um muro na fronteira com o México, afirmando que o país ao sul da fronteira iria pagar pela construção da barreira. Embora ele não tenha logrado que seu homólogo mexicano retrocedesse em sua explícita divergência sobre o financiamento,  os protótipos do muro estão sendo construídos, mostrando que o mandatário estadunidense pretende seguir com sua promessa de campanha. Trump também qualificou o Nafta, o tratado de livre comércio com México e Canadá, como “o pior acordo existente” e movimenta-se para promover sua renegociação.

Ele também apresentou uma retórica agressiva frente a Cuba e prometeu durante campanha rever a aproximação com a ilha. Em 16 de junho de 2017, durante discurso em Miami dirigido à comunidade de migrantes cubanos, o Presidente anunciou a imposição de restrições comerciais e de viagens ao país caribenho. Em setembro, uma situação peculiar agravou ainda mais o relacionamento bilateral. Diplomatas estadunidenses alocados em Havana foram afetados por desconfortos, perdas cognitivas e auditivas. Os EUA não conseguiram identificar a causa dos incidentes, porém passaram a suspeitar de um ataque sônico. Na ocasião, os diplomatas norte-americanos voltaram a seu país de origem e Trump expulsou diplomatas cubanos de Washington, para garantir a paridade no número de funcionários das embaixadas. Assim, houve um forte retrocesso no processo de aproximação bilateral.

Trump e o presidente argentino Maurício Macri

Outro tema de destaque refere-se à questão da Venezuela, marcada pela acentuação dos protestos e pelas dificuldades de diálogo entre o Governo venezuelano e oposição durante o ano de 2017. Diante do agravamento da repressão promovida pelo governo de Nicolás Maduro, Trump afirmou não descartar a opção militar para conter a instabilidade no país sul-americano. Em seguida, o vice-presidente Mike Pence realizou um tour, passando por Argentina, Colômbia, Chile e Panamá com o objetivo principal de discutir a questão venezuelana. Também impôs sanções à líderes políticos venezuelanos, congelando suas finanças que passam por Washington, e classificou o regime como uma ditadura. No campo econômico, foram impostas sanções financeiras, que buscam dificultar a venda de títulos pelo Governo venezuelano no mercado americano.

Assim, o foco principal da sua política para a América Latina foram temas específicos, que geram maior preocupação estratégica e repercussão doméstica nos EUA. Em tais temas, há uma retórica e uma postura considerada agressiva, na qual não são enfatizadas as possibilidades de cooperação ou as instituições hemisféricas. Por outro lado, a agenda das relações com a América do Sul manteve-se low profile (discreta) o que não significa a inexistência de movimentações importantes. Os presidentes peruano, colombiano e argentino encontraram-se com Donald Trump em Washington. No caso argentino, houve compromisso de que o Governo estadunidense abriria seu mercado de limões para o país platino.

No caso brasileiro, cabe ressaltar a inexistência de visitas presidenciais. Em um ano de poucas viagens internacionais, o presidente brasileiro Michel Temer viajou à Rússia, mas não foi recebido na Casa Branca. O Brasil também não foi incluído nas viagens realizadas por Pence à América Latina. Por outro lado, de forma mais discreta, houve indícios de aproximação bilateral, como representado pela realização do primeiro exercício militar multilateral com presença dos Estados Unidos na Amazônia, o denominado Amazonlog.

Tendo em vista esse contexto, e as diferenças políticas e ideológicas entre os governos do continente, pode-se esperar uma continuidade da agenda prioritariamente unilateral liderada por Trump em relação à América Latina, especialmente em relação a países marcados por crises, governos antiamericanos, ou que sejam origem de fluxos migratórios relevantes. Tal postura tende a ser percebida pelos latino-americanos com certa desconfiança e contribui para não reverter a situação de aumento da presença chinesa no continente, seja por meio de ampliação do comércio, dos investimentos diretos, de financiamento ou discreto apoio político, como ocorre o caso venezuelano.

———————————————————————————————–

Fontes das Imagens:

Imagem 1Trump assinando ordens executivas” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/List_of_executive_actions_by_Donald_Trump#/media/File:U.S._President_Donald_Trump_signed_executive_orders_in_White_House_Orval_Office_on_January_23,_2017.jpg

Imagem 2Trump e o presidente mexicano Enrique Peña Nieto” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Foreign_policy_of_the_Donald_Trump_administration#/media/File:Enrique_Pe%C3%B1a_Nieto_meets_with_Donald_Trump,_G-20_Hamburg_summit,_July_2017_(1).jpg

Imagem 3Trump e o presidente argentino Maurício Macri” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Foreign_policy_of_the_Donald_Trump_administration