AMÉRICA DO NORTEANÁLISES DE CONJUNTURA

[:pt]Congresso dos EUA revoga proibição à venda de armas a pessoas com transtornos mentais[:]

[:pt]

Na última quarta-feira, 15 de fevereiro, o Congresso dos Estados Unidos da América (EUA) derrubou medida articulada durante o governo do ex-presidente Barack Obama, que proibia pessoas com transtornos psicológicos de comprar armas. A revogação da Lei foi aprovada por 57 votos a favor e 43 contra no Senado. No início de fevereiro, a Câmara dos Representantes havia aprovado a matéria por 235 votos a favor contra 180.  Nos próximos dias, a medida deverá ser ratificada por Donald Trump, atual Presidente dos EUA, que defendia ainda durante a campanha presidencial o direito constitucional dos estadunidenses ao porte de armas.

Nos Estados Unidos, o direito de portar armas é garantido pela Segunda Emenda da Constituição, aprovada em 1791, sob contexto da Guerra de Independência contra Grã-Bretanha, entre o período de 1775 e 1783. Naquela época, um dos argumentos para aprovação da Emenda foi o confisco de armamentos promovido pelos britânicos, a fim de sufocar as forças rebeldes que lutavam pela independência. A Segunda Emenda assumiu uma posição intocável no decorrer dos séculos seguintes, em grande parte alimentado pelo lobby da indústria armamentista, tornando, assim, difícil a promoção de qualquer debate sob o controle de armas no país. Segundo um estudo realizado pelo Pew Research Center, em 2016, cerca de 52% dos entrevistados acreditavam ser mais importante proteger a Segunda Emenda, enquanto que apenas 46% viam como essencial o controle à posse de armas.

Frequentemente nos deparamos com notícias de tragédias envolvendo armas de fogo empregadas por civis nos Estados Unidos. Em junho do ano passado (2016), por exemplo, 49 pessoas morreram e outras 53 ficaram feridas em uma boate da comunidade LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros), em Orlando.  Em novembro de 2015, um homem matou três pessoas em uma clínica que presta serviços para saúde a mulheres, incluindo abortos, no Estado do Colorado. Um mês antes, um atirador matou 10 estudantes em uma faculdade na cidade de Roseburg, no Oregon. Antes disso, em dezembro de 2012, em uma escola primária, em Connecticut, a morte de 20 crianças e seis professores ganhou apelo internacional. As razões que levaram a essas e outras tragédias por vezes são distintas, mas, conforme ressalva o ex-presidente Obama, os instrumentos usados são similares, promovidas pela facilidade ao porte de armas. Estima-se que mais de 300 milhões de armas estão em mãos de civis, entretanto não se sabe ao certo quantas trocam de proprietário, haja vista que em muitos casos não é necessário fazer qualquer registro legal.

Massacres e tragédias se tornaram rotina no país. Entre o período de 2004 e 2013 ocorreram cerca de 316.545 mortes em virtude da violência, deixando o país com o maior índice de mortes por armas de fogo entre os países desenvolvidos. Já Carolyn Maloney, democrata do Estado Nova York, argumentou que a violência armada é uma verdadeira epidemia nos Estados Unidos.

O Governo de Barack Obama procurou durante seus oito anos de mandato endurecer as leis de controle de armas, no entanto, poucos avanços foram conquistados, como lamentou o próprio Obama durante seu discurso de despedida na Casa Branca em janeiro deste ano (2017). No entanto, cabe destacar que, em 2015, ele promoveu uma série de medidas que tinham como finalidade controlar a escalada da violência provocada pelas armas de fogo. Entre essas medidas estava a revisão do Sistema Nacional Instantâneo de Controle de Antecedentes Criminais (NICS, na sigla em inglês). Em virtude disso, aproximadamente 750 mil pessoas com transtornos estavam impossibilitadas de adquirir armas. Essas pessoas eram impedidas de comprar armas caso se enquadrassem em um dos dois casos: fossem incapazes de trabalhar, devido a um transtorno mental grave; ou não fossem capazes de gerir seus próprios benefícios de segurança social.

Tendo em vista que nem sempre os registros médicos eram adicionados ao banco de dados federais, o então Governo criou uma regra de Segurança Social com a Direção de Seguridade Social sendo responsável por comunicar ao Governo Federal os nomes de pessoas beneficiadas que tinham histórico de doenças mentais. Dessa forma, ao serem verificadas pelo sistema, a compra seria automaticamente barrada. Para alguns analistas, a Lei foi derrubada pelos congressistas republicanos e alguns democratas que já estão pensando na eleição do próximo ano, uma vez que a Segunda Emenda tem forte apelo na sociedade americana. Para esses congressistas a garantia da Segunda Emenda dessas pessoas deve ser respeitada. A medida proposta por Obama foi fortemente criticada pela Associação Nacional de Rifles (NRA, na sigla em inglês), por congressistas republicanos e grupos de direitos dos deficientes, que assinalam o aspecto discriminatório da lei. Nesse âmbito, representantes do Partido Democrata argumentam que pessoas com transtornos mentais que não são capazes de assegurar sua vida financeira, elas também não seriam capazes de garantir uso responsável dessas armas. Em resposta a isso, o Conselho Nacional para a Deficiência, uma agência federal independente, criticou os democratas, pontuando que não existe nenhum nexo entre a incapacidade de administrar o dinheiro e a capacidade de possuir ou usar uma arma de fogo com segurança e responsabilidade. Esse também foi o principal aspecto defendido por Charles Grassley, senador republicano de Iowa, que ficou responsável por liderar a revogação dentro do Senado.

Christopher Murphy, senador democrata de Connecticut, é um dos apoiadores das medidas após o massacre na escola primária, onde um indivíduo com transtornos psicológicos utilizou uma arma legalmente comprada para realizar o massacre. Para Murphy, segundo destacou o NY Times, a lei foi uma resposta ao massacre Newtown, após o Congresso ter se recusado a enrijecer as leis de acesso às armas de fogo. Já Dan Gross, presidente da Brady Campaign, organização a favor do controle de armas, pontua que essa medida tem apenas por objetivo aumentar o número de possíveis clientes, às custas daqueles que podem provocar danos a si mesmos ou a outros.

A NRA, principal grupo pró-armas no país, que conta com mais de 5 milhões de membros, exaltou o resultado da votação no Senado. De acordo com Chris W. Cox, diretor-executivo da NRA, conforme destacou o jornal alemão DW, a aprovação do Senado representa um passo adiante para colocar fim ao excessivo controle do Governo anterior. Anteriormente, Cox havia afirmado, segundo The Guardian, que a NRA vinha lutando contra as medidas inconstitucionais do Governo Obama, desde quando foram inicialmente discutidas. Já Carolyn Maloney, democrata do Estado de Nova York, argumentou que a violência armada é uma epidemia nos EUA.

Conforme anteriormente pontuado, nos Estados Unidos o direito ao porte de armas é entendido como um direito básico. Esse sentimento está fortemente enraizado na sociedade. Portanto, o debate em torno do controle de armas e de restrições à compra dessas é compreendido como uma violação a esse direito. Uma pesquisa feita pelo instituto Gallup, aponta que, embora mais da metade dos entrevistados desejem leis mais severas ao acesso de armas, leis mais rigorosas exigem mais vistorias, o que é defendido por grupos de apoio ao controle, mas os grupos pró-armas afirmam que mais vistorias infringem o direito constitucional de portá-las. A revogação da medida suprime novamente o debate sobre posse de armas no país. Por fim, cabe pontuar que Trump vem promovendo uma série de Decretos que estão sendo rapidamente aprovados pelo Congresso. Ao que tudo indica, a ratificação dessa medida é apenas mais uma das revogações firmadas pelo Presidente estadunidense que darão fim ao legado deixado por Obama.

———————————————————————————————–                    

Imagem 1 Frente Ocidental do Capitólio dos Estados Unidos” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Congresso_dos_Estados_Unidos#/media/File:United_States_Capitol_west_front_edit2.jpg

Imagem 2 Massacre de Orlando Boate Pulse em 2006” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Massacre_de_Orlando

Imagem 3 Emblema do NICS” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/National_Instant_Criminal_Background_Check_System

Imagem 4 Selo da Associação Nacional de Rifles” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/National_Rifle_Association

Imagem 5 Chris Murphy, em abril de 2011” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Chris_Murphy#/media/File:Chris_murphy_official_photo_govtrends_version_cropped.jpg

Imagem 6 Diversas armas de fogo com silenciadores. Na imagem, de cima para baixo: IWI UZI; Colt AR-15; Hecker & Koch USP; Beretta 92 FS e uma SIG Sauer Mosquito” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Arma_de_fogo#/media/File:Suppressors.jpg

 [:]

AMÉRICA DO NORTEANÁLISE - Sociedade InternacionalANÁLISES DE CONJUNTURA

[:pt]Os alinhamentos políticos para 2017 e os ambientes críticos para os interesses estadunidenses[:]

[:pt]

Nestes primeiros dias da Presidência de Donald Trump, observadores internacionais apontam que resultados obtidos com a sua ascensão à Presidência dos Estados Unidos trazem para o ambiente internacional a confirmação de uma tendência crescente do fenômeno nacionalista pelo mundo (que alguns especialista preferem apontar como populista), e uma guinada alheia à globalização, algo que poderá levar ao fim da Pax Americana, ou seja, ao fim da ordem internacional de livre troca e segurança compartilhada que os EUA e seus aliados construíram após a Segunda Guerra Mundial.

De acordo com especialistas consultados, diante das incertezas que a possível política externa prevista para o atual mandato tem trazido, o novo Governo estadunidense deverá alinhar os interesses do país a esta doutrina de Relações Exteriores adotada pela administração Trump: mais isolacionista, unilateral, protecionista no âmbito geopolítico e excludente à liberalização comercial, à mobilidade do capital e às políticas de bem-estar social que resultem em gastos públicos que sobrecarreguem o orçamento, ou que extrapolem a disposição orçamentária, obrigando a endividamentos comprometedores do Estado.

Neste quadro, atores cujas ações dos últimos oitos anos foram bastante estratégicas deverão ter acompanhamento próximo para estar em concordância com os novos preceitos das Relações Exteriores dos EUA.

Dentro desse panorama, as atenções e preocupações políticas, diplomáticas e militares poderão estar centradas em:

  1. Síria e Iraque: Os Estados Unidos e a coalizão internacional buscam afrouxar o controle do Estado Islâmico e estabelecer um Iraque estável. Contudo, a preocupação é de que o conflito conduza à dissolução do Iraque e que a tensão sectária aflija a região nos próximos anos, ao passo de expandir para um conflito de poder entre os vários grupos internacionais que contemplam interesse nos dois atores (Rússia, Turquia, Irã, Arábia Saudita, por exemplo). Atualmente, estima-se que a região tem seis mil homens das forças norte-americanas estacionados no Iraque, que já produziram, em média, 7.248 ataques aéreos a alvos do Estado Islâmico, os quais acarretaram, desde 2014, em 3,2 milhões de deslocados;
  2. Turquia: Sob tensão econômica e com alianças fracas, a Turquia enfrenta o agravamento dos conflitos na vizinha Síria e no Iraque, bem como o aprofundamento nas questões envoltas ao Partidos dos Trabalhadores do Curdistão (PKK – Parti Karkerani Kurdistan);
  3. Iêmen: Considerado um dos países mais pobres do mundo árabe, o conflito com a Arábia Saudita e seus aliados já contabiliza 4.000 civis mortos, com milhares de pessoas à beira da fome e sofrendo com o bloqueio econômico. Um cessar-fogo abrangente e um acordo político é apontado como sendo de extrema urgência para frear a crise humanitária que assola o país;
  4. Afeganistão: As forças militares dos Estados Unidos mantêm aproximadamente 8.400 homens estacionados em bases pelo país, com apoio de outros 12.930 soldados da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), porém, mesmo com esse efetivo, a instabilidade ameaça à paz e a segurança internacional. Para a nova administração em Washington é vital preservar a segurança e os muitos ganhos políticos e econômicos conquistados desde 2001, pois, com um eventual ressurgimento do Taleban, isso poderia fazer com que o país se torne novamente um “porto seguro” para insurgentes e terroristas. Em complemento a instabilidade interna, poderiam surgir ramificações regionais maiores, uma vez que Paquistão, Índia, Irã e Rússia competem por influência em Cabul;
  5. Líbia: Há uma preocupação com a fratura permanente da Líbia, já que os vários grupos rebeldes e milícias insurgentes, que de acordo com fontes de inteligência são estimados entre 5.000 a 8.000 mil combatentes, tentaram dividir o país entre linhas políticas e tribais. Dentro desse quadro é incerto se o novo Governo de Unidade será capaz de reunir as facções em conflito e restabelecer a unidade na Líbia e reconduzir os aproximados 450 mil deslocados que fugiram das áreas de conflito desde a queda de Muammar Gadaffi;
  6. Myanmar: Naypyidaw era parte do plano de política externa do ex-presidente Barack Obama denominado “Pivot para Ásia. Contudo, não se sabe ao certo qual será o modelo de diplomacia adotado por Trump para a nação asiática. Por enquanto, o novo governo civil, liderado pelo prêmio Nobel da Paz, Aung San Suu Kyi, não consegue estabilizar os surtos de violência ocorridos em centros urbanos e comerciais próximos da fronteira com a China, resultando em uma nova escalada militar. Um processo de paz está em curso para a próxima Conferência Panglong, prevista para fevereiro, próximo, cujo enfoque será dado com todos os principais grupos étnicos armados do país;
  7. México: Um alto nível de tensão entre Estados Unidos e México pode se estabelecer. As promessas de construção de um muro na fronteira e a deportação de milhões de imigrantes indocumentados, bem como renegociação dos termos do Acordo de Livre Comércio da América do Norte (NAFTA, na sigla em inglês) conjectura o fim de uma cooperação tradicional entre os dois vizinhos;
  8. República Popular Democrática da Coréia do Norte: A Coréia do Norte é uma potência nuclear com uma relação complexa com a China, sendo assim, impedir uma guerra na Península Coreana e um colapso interno da Coréia do Norte são interesses de segurança nacional dos EUA, que mantém 28.500 soldados em bases na vizinha Coréia do Sul. Pequenas provocações militares e cibernéticas por parte de Pyongyang representam riscos significativos, pois cada incidente traz consigo o potencial de escalada das tensões;
  9. Mar da China Oriental: O aumento dos sentimentos nacionalistas e a crescente desconfiança política aumentam o potencial de conflito na região. Embora a disputa por parte de chineses e japoneses acerca das Ilhas Senkaku/Diaoyu, bem como de outras 81 mil milhas em disputa marítima, compondo mais oito ilhas e 200 milhões de barris de petróleo, pode fazer com que uma ação não autorizada de comandantes locais acarrete na escalada involuntária de hostilidades. Devido a compromissos e tratados com o Japão, um confronto militar poderia envolver os Estados Unidos e, para preservar as relações com a China e continuar a cooperação em várias questões, Washington tem interesse em manter sempre baixo os níveis de tensão na região;
  10. Mar do Sul da China (Mar da China Meridional): Nessa região está estimada a existência de aproximadamente onze bilhões de barris de petróleo, mais 190 trilhões de metros cúbicos de gás natural, além de um total de US$ 5,3 trilhões em comércio anual, circulando neste lado do hemisfério. Para tanto, os Estados Unidos buscam manter seus importantes interesses em assegurar a liberdade de navegação e as linhas de comunicação marítima, por meio de um código de conduta vinculativo e outras medidas de confiança. É também visto como papel de Washington a prevenção contra uma escalada militar resultante de disputa territorial, no entanto, o Tratado de Defesa de Washington-Manila poderia implicar em um conflito China-Filipinas nas imediações de Reed Bank*, além de uma disputa entre China e Vietnã sobre reivindicações territoriais, que poderia ameaçar os interesses militares e comercias dos Estados Unidos.

Para um quadro bastante complexo para a nova administração Trump, em que todos os cenários expostos possuem um diálogo profundo entre diversos atores, a adoção de uma política diplomática pautada no hard power, tal como se conjectura coloca no horizonte a possibilidade da eclosão de conflitos de larga escala na agenda das Relações Internacionais dos próximos anos. Sendo assim, os especialistas apontam que será necessária a continuidade da cooperação e do multilateralismo para evitar tensões prolongadas.

———————————————————————————————–                    

* Reed Bank: É uma grande mesa no Mar da China Meridional, com uma área de 8.866 km² e profundidades entre 9 e 45 metros. Faz parte do arquipélago das Ilhas Spratly. Embora o Tribunal Permanente de Arbitragem tenha decidido em 2016 que a área está dentro da Zona Econômica Exclusiva das Filipinas, os direitos econômicos sobre a área continuam a ser contestados – principalmente pela República Popular da China.

———————————————————————————————–                     

Imagem 1Donald Trump Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Donald_Trump#/media/File:Donald_Trump_swearing_in_ceremony.jpg

Imagem 2 Síria Cidade antiga de Palmira” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/S%C3%ADria#/media/File:Temple_of_Bel,_Palmyra_15.jpg

Imagem 3 Turquia Outdoor de campanha de Recep Tayyip Erdoğan em rua de Istambul, 2013” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Recep_Tayyip_Erdo%C4%9Fan#/media/File:RecebTayyibErdo%C4%9FanPoster.JPG

Imagem 4 Líbia – Manifestações contra Muammar alGaddafi em Bayda, 22 de julho de 2011 ” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/L%C3%ADbia#/media/File:Demonstration_in_Bayda_(Libya,_2011-07-22).jpg

Imagem 5 Reivindicações territoriais no mar da China Meridional” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Disputas_territoriais_no_mar_da_China_Meridional#/media/File:South_China_Sea_claims_map.jpg

[:]

AMÉRICA DO NORTEANÁLISE - Sociedade InternacionalANÁLISES DE CONJUNTURAÁSIA

[:pt]Ano do Galo e a política econômica da China na Era Trump[:]

[:pt] O “Ano do Galo” “Exibido. Franco. Corajoso. Consciente de suas obrigações sociais. Bravo combatente dos adversários. Multitarefa. Concentrado. Sensível e atencioso com os amigos. Sempre alerta, é meticuloso e detalhista. Dispensa projetos menos arriscados…

Read more
AMÉRICA DO NORTEANÁLISES DE CONJUNTURA

[:pt]EUA, Trump e as primeiras diretrizes do novo governo eleito[:]

[:pt]

A nova administração estadunidense foi empossada no último dia 20 de janeiro e, sob a liderança de Donald John Trump, os Estados Unidos e o sistema internacional entram em um novo formato ainda pouco compreensível, mas que possivelmente poderá aprofundar as divisões sociais, políticas e econômicas no âmbito interno estadunidense, como também potencializar os contenciosos no âmbito externo, afetando aliados tradicionais, blocos econômicos, organismos internacionais, a multilateralidade sistêmica, além de projetar instabilidade com outros atores cujos laços com os Estados Unidos não findam um histórico de cooperação e desenvolvimento mútuo.

Sob as incertezas que habitam hoje os Estados Unidos e a comunidade internacional, o 45º Presidente demonstra, através das primeiras ordens executivas anunciadas, que sua administração trará mecanismos isolacionistas e protecionistas como principais prerrogativas de governabilidade, invólucros para o resgate daquilo que interpreta como os valores fundamentais da sociedade norte-americana de outros tempos e que foram perdidos com a manutenção do establishment político em Washington por décadas.

Como ponto inaugural da nova Casa Branca, as ordens executivas assinadas pelo Presidente Trump na primeira semana são indicativos de mudanças profundas na política imigratória, na ambiental, na segurança nacional e na diplomacia.

No que tange aos novos entendimentos sobre imigração, Trump assinou ordem executiva para a construção de um muro na fronteira com o México, bem como um Decreto Complementar que punirá as grandes cidades do país que protegerem imigrantes com status de indocumentados. Este Decreto prevê a retirada de recursos federais para as chamadas “cidades-santuário”, como, por exemplo, Nova Iorque, Los Angeles e Chicago.

A implementação dessa ordem executiva abre forte precedente para instauração de um amplo debate legal entre o poder federal, controlado pelo Partido Republicano, e os Estados e Municípios, controlados em sua maioria pelo Partido Democrata.

Ainda dentro da nova política de imigração em elaboração, o Presidente estadunidense pretende suspender o programa para refugiados em 120 dias para melhor avaliação, assim como suspender a emissão de vistos para cidadãos de Estados como Síria, Irã, Iraque, Líbia, Somália, Sudão e Iêmen, países predominantemente muçulmanos.

No âmbito da nova política ambiental, Trump assinou duas ordens executivas que restabelecem dois projetos de construção de polêmicos oleodutos, o Keystone XL e o Dakota Access, ambos vetados na administração de Barack Obama, por considerá-los danosos ao meio ambiente.

Para segurança nacional, o novo Presidente pretende assinar uma ordem executiva que restabeleça a utilização de prisões secretas da Central Intelligence Agency (CIA, na sigla em inglês), conhecidas como “Black sites”, onde técnicas de interrogatório classificadas como tortura foram usadas e denunciadas no curso da administração de George W. Bush (2001-2009). De acordo membros do alto escalão da Casa Branca, o rascunho dessa ordem executiva permitirá que as “técnicas aprimoradas de interrogatório” sejam novamente usadas, dentre as quais a “waterboarding”, ou simulação de afogamento, que é proibido dentro das convenções que regem o direito internacional.

Outro tema que tem causado agitação e incredulidade junto aos principais aliados está centrado sobre a futura política externa, em especial para a Europa, através da OTAN e também com o bloco econômico europeu. A tendência protecionista da nova administração poderá limitar o protagonismo geopolítico dos Estados Unidos no auxílio à defesa da Europa frente a eventuais aspirações de outros atores importantes do cenário geoestratégico, como a Rússia.

Para o Presidente republicano, os orçamentos militares europeus estão baixos e longe do objetivo de 2% do produto interno bruto (PIB) para os gastos que a aliança militar reafirmou em reunião[1], na Cúpula de Varsóvia, em 2016. Entretanto a dificuldade detectada pelos membros da aliança militar, de acordo com especialistas políticos consultados, não será apenas de adequação de custos e investimentos, mas terá um cunho político, pois as prioridades elencadas por Trump não colocam a proteção da Europa como centro de sua política externa. Antes de ascender ao poder, Polônia e Estados Bálticos (Letônia, Lituânia e Estônia) ampliaram seus gastos bélicos em até 45%, conjecturando justamente que a vitória do republicano poderia minimizar a influência dos Estados Unidos na região e, com isso, abrir margem para atuação mais aprofundada da Federação Russa.

Por outra medida, e em complemento, os entendimentos do novo Presidente dos Estados Unidos de que a aliança está obsoleta abrem margem para o distanciamento da maior potência militar dos objetivos firmados no Pós-Segunda Guerra Mundial e no curso da Guerra Fria. Com o advento da Guerra ao Terror, no início do atual século, o novo mandatário espera que a obsolescência seja substituída por mais aporte contra ações terroristas em Estados colapsados, como Síria e Líbia, que abrigam um número expressivo de insurgentes do Estado Islâmico.

Em paralelo, terá que readequar uma das últimas atribuições do ex-presidente Barack Obama, que destacou para a Europa o efetivo de 20 veículos de combate Bradley e 4.500 soldados da base de Fort Carson para atuarem em países do Leste Europeu, incluindo as nações bálticas já mencionadas, já a partir dos primeiros dias de 2017. Trata-se do maior deslocamento de tropas norte-americanas e de armamento pesado para a Europa desde a Guerra Fria, com o objetivo reforçar as defesas da região contra o suposto expansionismo russo e também para mostrar para os aliados de Washington o compromisso com a Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO, na sigla em inglês).

—————————————

Imagem 1Retrato Oficial do Presidente Donald Trump” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Donald_Trump#/media/File:Donald_Trump_official_portrait.jpg

Imagem 2Uma pequena cerca separa a densamente povoada Tijuana, no México (à direita) de San Diego, nos Estados Unidos, no setor da Patrulha Fronteiriça. Um segundo muro está sendo construído até o Oceano Pacífico” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Fronteira_Estados_Unidos-México#/media/File:Border_Mexico_USA.jpg

Imagem 3Rota do Oleoduto Keystone” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Keystone_Pipeline#Keystone_XL

Imagem 4Ministros da Defesa e das Relações Exteriores da OTAN reunidos na sede da organização em Bruxelas, Bélgica” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Organização_do_Tratado_do_Atlântico_Norte#/media/File:NATO_Ministers_of_Defense_and_of_Foreign_Affairs_meet_at_NATO_headquarters_in_Brussels_2010.jpg

Imagem 5 Representantes russos e estadunidenses se reúnem para discutir a situação na Síria em 29 de setembro de 2015” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Guerra_contra_o_Estado_Islâmico#/media/File:Vladimir_Putin_and_Barack_Obama_(2015-09-29)_04.jpg

[:]

AMÉRICA DO NORTEANÁLISE - Sociedade InternacionalANÁLISES DE CONJUNTURAORGANIZAÇÃO INTERNACIONAL

[:pt]Donald Trump pretende reduzir contribuição dos EUA na ONU[:]

[:pt]

Desde o dia 20 de janeiro, quando ocorreu a posse do presidente-eleito dos Estados Unidos da América (EUA), Donald Trump, as promessas de sua campanha começaram a ser postas em prática, entre elas estão os assuntos mais comentados na imprensa internacional: a saída dos EUA do Acordo de Associação Transpacífico (TPP) e a criação do muro que fará fronteira com o México. Porém, o tema que anda preocupando o Sistema Internacional, de forma intensa, tem sido a decisão de Trump em reduzir o financiamento estadunidense à Organização das Nações Unidas (ONU).

A notícia veio a público no dia 25, quarta-feira passada, por meio do jornal internacional The New York Times (NYT). Segundo ele, a porta-voz da Secretaria Geral da ONU, Stephane Dujarric, afirmou que a administração de Trump almeja, por meio de um Decreto, fazer reajustes de 40%, ou até cortes, nas contribuições financeiras dos EUA a várias agências da ONU e organizações internacionais, além de revisar vários Tratados em que o país norte-americano esteja inserido.

Segundo a reportagem do NYT, uma comissão deverá ser realizada para definir e recomendar quais órgãos internacionais deixarão de ter o financiamento ou a redução do mesmo. Até lá, alguns critérios para que isso aconteça já foram determinados.

O Decreto chamado de “Auditoria e Redução do Financiamento dos EUA para as Nações Unidas” poderá encerrar o fornecimento de dinheiro para agências que reconheçam a Autoridade ou a Organização para Libertação da Palestina. Serão encerrados também, o financiamento para aquelas agências que promovam qualquer tipo de atividade contrária às sanções ao Irã e à Coreia do Norte e até mesmo para aquelas que apoiam o aborto.

Ainda segundo o NYT, também estão na “lista negra” de redução ou cortes de financiamento, aquelas organizações controladas por Estados que apoiam o terrorismo ou que possuem qualquer influência de Estados suspeitos de violação aos Direitos Humanos. Além disso, uma ordem adicional já foi decretada para pedir recomendações sobre acordos que poderão, eventualmente, ser revogados, além de exigir a revisão dos Tratados multilaterais.

O motivo para a decisão de Trump em relação a ONU, considerada por analistas internacionais como “radical”, pode ter sido desenvolvida devido seus conceitos formados sobre a Organização. Alguns dos argumentos foram pronunciados pelo próprio Presidente durante coletivas de imprensa no mês de dezembro (2016), segundo ele, a ONU “não resolve nada e só causa problemas”, além de servir como “um clube para as pessoas se reunirem e passarem um bom tempo”.

O NYT teve acesso a alguns rascunhos sobre o Decreto que estabelece a redução do financiamento e, nele, consta que a mesma comissão que servirá para analisar quais órgãos poderão ter seu financiamento reduzido ou cortado, poderá também estudar, analisar e fiscalizar as Missões de Paz da ONU, o Tribunal de HAIA, que é o principal órgão jurídico da Organização, e o Fundo de População da ONU, que é responsável por supervisionar programas de saúde materna e reprodutiva.

Segundo Dujarric, a nova administração está consciente do ambiente atual e por conta disso expressou confiança de que tanto a ONU quanto os EUA “irão trabalhar juntos e superar todas essas questões”. Atualmente, os EUA são responsáveis por “22% do orçamento operacional da ONU e financiam 28% das 16 missões de paz, que custam em média, 7,8 bilhões de dólares anuais”.

———————————————————————————————–                    

Imagem 1 Trump faz o juramento de posse como presidente, em 20 de janeiro de 2017” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Donald_Trump#/media/File:Donald_Trump_swearing_in_ceremony.jpg

Imagem 3 Esboço de Franklin Roosevelt, feito em 1943, que mostra as três agências principais das Nações Unidas: a Four Policemen, um ramo executivo, e uma assembleia internacional de quarenta estadosmembros” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Organização_das_Nações_Unidas#/media/File:United_Nations_organization_sketch_by_Franklin_Roosevelt_with_the_Four_Policemen_in_1943.jpg

Imagem 3 Sala do Conselho de Segurança, em Nova York” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Organização_das_Nações_Unidas#/media/File:UN-Sicherheitsrat_-_UN_Security_Council_-_New_York_City_-_2014_01_06.jpg

 Imagem 4 Palácio da Paz, em Haia, sede da CIJ” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Tribunal_Internacional_de_Justiça#/media/File:International_Court_of_Justice.jpg

[:]

AMÉRICA DO NORTEANÁLISE - Sociedade InternacionalANÁLISES DE CONJUNTURAEURÁSIAEUROPATecnologia

[:pt]Relações Rússia-EUA após o caso do ataque cibernético durante as Eleições Presidenciais norte-americanas de 2016[:]

[:pt]

Em 2016, as Eleições Presidenciais estadunidenses tiveram como característica central a polarização política, e isto configura uma situação que vai além da perspectiva tradicional de embates entre o Partido Democrata e o Partido Republicano, os quais representam o ápice do sistema eleitoral dos Estados Unidos da América (EUA). Neste embate de 2016, as visões de mundo dos respectivos candidatos chocaram-se em diversos momentos ao longo da campanha e contribuíram para acentuar a polarização da sociedade.

Na disputa observou-se a candidata do Partido Democrata, Hillary Clinton, a qual possuiu uma plataforma com ênfase na defesa de direitos de minorias étnicas, sexuais, culturais, religiosas e ambientais.

Do lado Republicano, Donald Trump apresentou uma plataforma voltada à defesa dos direitos da maioria, que, por motivos histórico-culturais é branca, protestante e liberal. O seu discurso abordou valores em que a concepção de liberdade humana não seria arbitrária, e, sim, decorrente da aceitação da existência de uma linguagem universal na esfera político-social e econômica. Após um período de intensos debates e comícios, Donald Trump, como vencedor, assumirá o cargo nesta semana, em 20 de janeiro de 2017.  Porém, em meio à turbulência polarizada das eleições, emergiu o relato de que o Diretor de Campanha do Partido Democrata, John Podesta, foi vítima de um hacker, o qual capturou informações importantes de sua conta de e-mail e estas foram publicadas no site Wikileaks.

Segundo especialistas, o hacker em questão poderia ter feito uso de um e-mail de aparência oficial – “phishing” – com os dados de Podesta e o pedido para baixar ou clicar em um link específico, com a intenção de induzi-lo a digitar a senha, cuja execução transferiu ao hacker a oportunidade de acesso direto aos arquivos de e-mail do Diretor de Campanha.

Fato interessante aconteceu na Secure Works, uma empresa de segurança de informação, quando tiveram acesso a um erro de hackers e conseguiram interceptar uma campanha de larga escala de e-mails spear phishing contra contas do Google com uso de bitly, ou seja, de um encurtador de link o qual se expande em um domínio feito por hackers. Nesta situação, a companhia iniciou colaboração com as agências de segurança dos EUA e conseguiram observar as ações dos hackers e suas táticas de atingimento de 1800 contas do Google pertencentes a pessoas na Rússia, países do leste europeu que fizeram parte da ex-União Soviética, países da Europa e representações governamentais, diplomáticas e militares dos EUA. Ao longo da campanha presidencial, os investigadores identificaram a atuação de hackers durante a campanha de Hillary Clinton, os quais enviaram 213 links de tipo bitly para 108 contas do Google, e 16 links de tipo bitly para 9 contas do Google com resultantes respectivas de 20 cliques para o primeiro e 4 cliques para o segundo.

As notícias de espionagem ampliaram a polêmica em torno da candidatura de Trump, sobretudo com a afirmação das agências de inteligência dos EUA de que os hackers que invadiram e-mails de pessoas da campanha de Clinton seriam membros de serviços de inteligência da Rússia.

Em referência a questão, o Diretor de Inteligência Nacional – James Clapper, o Diretor da CIA – John Brennan, e o Diretor do FBI – James Comey, declararam unânimes em conversa com Trump: “Nós avaliamos que somente os funcionários mais antigos da Rússia poderiam ter autorizado os recentes furtos e divulgações de dados com base nas eleições, com base no escopo e na sensibilidade das metas”. Afirmaram ainda que a Rússia é “uma grande ameaça para o governo dos EUA, para a infraestrutura militar, diplomática, comercial e crítica e para as principais redes de recursos, devido ao seu altamente avançado programa cibernético ofensivo e táticas, técnicas e procedimentos sofisticados”.

Apesar das declarações dos oficiais de inteligência de que a Rússia seria a responsável pelos ataques com hackers, o Presidente eleito, Donald Trump, discorda dos agentes governamentais e entende a situação como uma espécie de perseguição política por ter ganho as eleições, a revés dos democratas, conforme declaração própria: “Eu ganhei mais condados nas eleições do que Ronald Reagan. Eles estão muito envergonhados com isso. Até certo ponto, é uma caça às bruxas. Eles só se concentram nisso”. Trump alega não participação russa em sua vitória e salienta: “Não houve adulteração alguma com máquinas de votação”.

Donald Trump também questiona as ações por trás da afirmação de interferência estrangeira nas eleições e cita sua suspeita na não verificação dos servidores do Partido Democrata, por meio das seguintes indagações: “O DNC não os deixaria ver os servidores. Como você pode ter certeza sobre o hacking quando você não pode chegar aos servidores?”; e “O Comitê Nacional Democrata não permitiria que o FBI estudasse ou visse suas informações de computador depois que foi supostamente hackeado pela Rússia. Então, como e por que eles estão tão certos sobre hacking se eles nunca sequer solicitaram um exame dos servidores de computador? O que está acontecendo?”.

O Presidente eleito demonstrou surpresa com a divulgação de um Relatório de inteligência para a imprensa e novamente insere seu questionamento: “Como a NBC conseguiu ‘um olhar exclusivo sobre o relatório secreto que ele (Obama) foi apresentado?’ Quem lhes deu esse relatório e por quê? Política!”, e por fim sugere que, além da Rússia, terceiros atores poderiam ter feito o ataque, seja a China ou mesmo um adolescente estadunidense: “Quer dizer, poderia ser a Rússia, mas também poderia ser a China. Também poderiam ser muitas outras pessoas. Também poderia ser alguém sentado em sua cama, que pesa 400 quilos, Ok?”.

Em meio a rumores de que a Rússia poderia ter feito uso de hackers para influenciar a decisão das eleições nos EUA, parte dos membros do Partido Republicano observam a questão com um entendimento diferente da opinião de Trump, pois a veem como uma quebra da segurança nacional e até especula-se se isto não seria um ato de guerra, conforme é evidenciado na declaração do Senador Graham (R-Carolina do Sul) sobre a ação de Obama ao expulsar do país 35 diplomatas russos: “O que Obama fez foi jogar um seixo. Estou pronto para jogar uma pedra”. Porém a situação se amenizou um pouco quando James Clapper respondeu ao Senador McCain (R-Arizona) sobre o impacto da suposta ação cibernética russa contra as eleições: “Não temos como avaliar o impacto, certamente a comunidade de inteligência não pode medir o impacto que teve sobre escolhas feitas pelo eleitorado”.

No tocante as afirmações céticas de Trump, referente as declarações dos serviços de inteligência dos EUA, o próprio James Clapper explicitou: “Há uma distinção importante aqui entre o ceticismo saudável, que os formuladores de políticas, para incluir o decisor político número um, deve sempre ter para a inteligência. Mas eu acho que há uma diferença entre ceticismo e depreciação”.

Em conformidade com a atual perspectiva geopolítica no Leste Europeu, faz-se pertinente a apresentação de uma série de eventos necessários para dar maior entendimento da perspectiva da Rússia sobre as ações dos EUA no plano internacional, e o início ocorreu durante a crise ucraniana, cujo desdobramento despertou no Governo russo o anseio de proteção de seus cidadãos na Ucrânia, os quais queixavam-se de discriminações por causa das divergências internas entre desejosos por uma política pró-União Europeia (UE) e os que queriam uma política pró-Rússia, acarretando em guerra civil naquele país.

Após a intensificação dos conflitos, os grupos separatistas apoiaram um referendo de anexação da Península da Criméia ao território russo, a revés da autoridade de Kiev, e a Federação Russa assumiu a responsabilidade pela Península. Com a consumação do fato, diversos Estados europeus começaram a criticar Moscou por suposta violação do Direito Internacional e instituíram sanções econômicas contra a Rússia, porém, de imediato, os Estados Bálticos demonstraram para a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) e UE sua insatisfação com a segurança regional e afirmaram que a Rússia possuía planos de invasão de seus territórios, à semelhança do que aconteceu com a Criméia. Desta forma, a OTAN reforçou sua estrutura militar e bélica nos países vizinhos da Rússia, cujas resultantes provocaram um azedamento nas relações diplomáticas entre Moscou e a UE.

Ao longo dos últimos anos nenhuma ação bélica ou de invasão ocorreu no Leste Europeu, todavia, diversos países europeus mantiveram suas sanções contra a Rússia e continuaram a fomentar o que os cidadãos russos no exterior chamam de russofobia, a partir de relatos originários do medo. Porém, ao invés de melhoria de relações, os russos sentem-se novamente em tensões e, desta vez, com o foco de acusação repousando na questão da intervenção cibernética nas eleições dos EUA com o objetivo de um suposto favorecimento ao Presidente eleito Donald Trump, mediante o uso de hackers e de guerra de informação (híbrida) contra o Partido Democrata e seus eleitores.

No tocante a situação, o Porta-voz do Presidente Barack Obama, Josh Ernest, disse que uma ação deste porte apenas “deveria ter sido aprovada no mais alto nível”, e salientou: “Seria muito extraordinário se o próprio Putin estivesse entre as pessoas na nossa lista”. Todavia, Ernest comunicou que o Relatório completo da inteligência dos EUA sairá até o dia 20 de janeiro.

Em negação às acusações, na Rússia, o Presidente da Comissão da Duma para assuntos internacionais, Leonid Slutsky, chamou o caso de paranoia, de sem fundamento, e acrescentou: “A histeria em curso da administração dos EUA causa prejuízos significativos às relações EUA-Rússia, ao nível dos quais era menor do que durante a Guerra Fria. No entanto, tudo isso não ajuda a mudar os resultados das eleições presidenciais nos Estados Unidos e, em janeiro, o legítimo proprietário da Casa Branca será Donald Trump e espera-se que, com a sua chegada, o diálogo entre a Rússia e os Estados Unidos será realizado em um ambiente político mais saudável”.

Em detrimento da situação, os russos consideram uma insensatez as declarações do Presidente dos EUA, Barack Obama, de retaliação sobre o suposto ataque cibernético, afirmando que “são a resposta necessária e adequada para os esforços que visam causar danos aos interesses dos EUA em violação das normas internacionais de comportamento”.

Para findar, a exposição russa diante da negativa do episódio de ataques cibernéticos aos EUA, cujo ápice provocou um estremecimento na relações entre os dois atores, o Ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia, Sergey Lavrov, externou que a atribuição de culpa à Rússia pelo Governo Obama remete ao fracasso das próprias iniciativas de política externa de Washington, que acusa a Rússia de todos os problemas, inclusive de interferência a favor de Donald Trump, e, no caso da expulsão dos diplomatas, o Ministro Lavrov expressou: “Nós definitivamente responderemos a essas ações. A reciprocidade é um princípio básico da diplomacia internacional e das relações internacionais. Portanto, o Ministério russo dos Negócios Estrangeiros e colegas de outras agências submeteram uma proposta ao Presidente da Rússia para declarar ‘persona non grata’ 31 diplomatas da Embaixada dos EUA em Moscou e quatro diplomatas do Consulado Geral dos Estados Unidos em São Petersburgo”.

Observa-se que, para as variáveis centrais presentes na questão de impacto nas relações entre Rússia e Estados Unidos, o ataque cibernético contra a campanha de Hillary Clinton apresenta como foco de investigação duas linhas analíticas destacadas: a política internacional e a política doméstica.

Em primeiro plano, percebe-se que a situação abrange uma disputa pelo poder, manifestada na defesa da soberania e da moral dos EUA e da Rússia diante da sociedade internacional, com ênfase na legitimidade das agências de inteligência e no relacionamento diplomático.

Percebe-se também que existe uma clara preocupação em não deixar declinar o crédito dos serviços de segurança e de espionagem de Washington, os quais tendem a transparecer absolutos no sistema de Estados, porém as declarações de incerteza do Presidente eleito, Donald Trump, estimulam a quebra da coerência discursiva, cujos atos aumentam a sensação de indignação contra ele. Entretanto, são pertinentes as críticas de que é necessária mais explicação, conforme salientou Trump, ao ressaltar a certeza das agências de inteligência e a não verificação dos servidores do Partido Democrata, visto que poderiam ser quaisquer pessoas as responsáveis pelo ataque.

No que diz respeito a Rússia, as próprias agências verificaram o uso de recursos phishing e bitly via e-mails, os quais possuíam como alvos indivíduos na própria Rússia, Europa, e mesmo dos EUA, cujo modo de operação foi semelhante na aplicação do caso dos Democratas. Sendo assim, levantou-se a questão de entender por qual razão a Rússia interviria nas eleições estadunidenses para influenciar o eleitor a votar em Trump. Poderia ser pelo acréscimo de poder? Essa pergunta se ressalta, pois Trump prometeu recuar do apoio dos EUA no mundo e isto afeta diretamente a OTAN, mas emerge outra indagação: se a Rússia, como qualquer outra potência, não poderia conseguir mais poder por outras vias?   

Em segundo plano, observa-se a intensa movimentação social em torno das eleições e o aflorar das paixões políticas, cujo desejo pela vitória poderia acarretar em ações internas de uso de guerra híbrida. Novamente, emergem os questionamentos sobre a culpabilidade de atores, mas é preciso considerar os efeitos das ações políticas, visto que informações de inteligência foram divulgadas para a imprensa, mas, surge nova interrogação: se um Relatório definitivo está em andamento para a conclusão do fato, por qual motivo o Presidente Obama declara 35 diplomatas russos como persona non gratas?

Conclui-se pela necessidade de uma visão de paciência que se espera de qualquer ator global, cujo objetivo visa inteirar-se dos fatos para a tomada de decisões e mesmo novas interpretações, pois, neste caso, o Relatório final de inteligência do Governo dos EUA ainda não teve divulgação. Sendo assim, perspectivas alternativas precisariam de observação mais intensiva e o diálogo é imprescindível para a realização de qualquer ação com finalidade de serem evitados conflitos e tensões desnecessárias.

———————————————————————————————–                    

Imagem 1 Casa Branca” (Fonte):

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/e/e1/White_House_Washington.JPG

Imagem 2 John Podesta” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/John_Podesta

Imagem 3 James R. Clapper” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/James_R._Clapper#/media/File:James_R._Clapper_official_portrait.jpg

Imagem 4 John Brennan” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/John_O._Brennan#/media/File:John_Brennan_CIA_official_portrait.jpg

Imagem 5 James Comey” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/James_Comey#/media/File:Comey-FBI-Portrait.jpg

Imagem 6 Donald Trump” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Donald_Trump#/media/File:Donald_Trump_August_19,_2015_(cropped).jpg

Imagem 7 Barack Obama e Vladimir Putin” (Fonte):

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/e/eb/Vladimir_Putin_and_Barack_Obama_%282015-09-29%29_01.jpg

Imagem 8 Kremlin” (Fonte):

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/0/0f/Kremlin_27.06.2008_01.jpg

Imagem 9 Ministros da Defesa e das Relações Exteriores da OTAN reunidos na sede da organização em Bruxelas, Bélgica” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Organização_do_Tratado_do_Atlântico_Norte#/media/File:NATO_Ministers_of_Defense_and_of_Foreign_Affairs_meet_at_NATO_headquarters_in_Brussels_2010.jpg

Imagem 10 Presidente da Comissão da Duma para assuntos internacionais, Leonid Slutsky” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Leonid_Slutsky_(politician)#/media/File:Leonid_E_Slutsky_RN_09-2013.jpg

Imagem 11 Sergey Lavrov” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Sergey_Lavrov#/media/File:Sergey_Lavrov_17.03.2010.jpeg

Imagem 12 Mundo Conectado” (Fonte):

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/3/3b/Un_mundo_conectado.jpg

 

 [:]

AMÉRICA DO NORTEANÁLISE - Sociedade InternacionalANÁLISES DE CONJUNTURAORIENTE MÉDIO

[:pt]Abstenção dos EUA diante de resolução da ONU causa indignação no Estado israelense[:]

[:pt]

Na penúltima sexta-feira, dia 23 de dezembro, foi aprovado no Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) um projeto de Resolução que visa acabar com a construção de moradias de Israel em territórios tidos como palestinos. Os pontos “chaves” da construção são na Cisjordânia, onde encontram-se cerca de 430 mil israelenses, atualmente, e Jerusalém Oriental, que abriga outros 200 mil, de acordo com a agência de notícias francesa France Presse.

Conforme vem sendo disseminado nas principais mídias internacionais, a ONU alertou a Israel, por diversas vezes, sobre a colonização no território palestino, avisando que isso seria um empecilho para os esforços de paz entre aquele povo e os Israelenses. No entanto, constatou-se que há alguns meses a construção de casas no território palestino aumentou, o que fez as Nações Unidas tomarem novas e mais rígidas medidas, como a Resolução aprovada do dia 23.

Esta proposta de Resolução foi apresentada pelos países: Senegal, Malásia, Venezuela e Nova Zelândia. A princípio incluía também o Egito, mas, por pressão de Israel e do presidente-eleito dos Estados Unidos (EUA), Donaldo Trump, o mesmo recuou, ficando apenas os quatro em questão.

O interesse desta Resolução é encontrar um caminho para a paz entre palestinos e israelenses, pois entendem os requerentes que a colonização por meio de assentamentos – nome dado a construção de moradias – colocava em risco a viabilidade da solução entre os dois Estados, além de impedir a criação do Estado da Palestina. Outro ponto acerca da Resolução diz respeito à reação dos israelenses, em respeito a mesma. O Documento aconselha que Israel tome medidas imediatas para reverter a situação no terreno e assim prevenir atos de violência contra civis.

Para a aprovação da Resolução seria preciso que o maior número de Estados representados no Conselho de Segurança a aprovassem, e que nenhum dos que possuem assentos permanentes vetassem. O número de países que compõem o Conselho são 15 e, dentre estes, 5 são os que possuem assentos permanentes e também o poder de veto, sendo eles: EUA, Rússia, China, França e Grã-Bretanha. A Resolução foi aprovada por 14 votos a favor, mas o que chamou atenção e trouxe indignação ao Estado Israelense foi a abstenção dos EUA, que teve a chance de intervir com o poder de veto, mas não o fez.

Israel estimava que EUA interferissem na proposta, como ocorreu em 2011, quando uma Resolução semelhante foi apresentada ao Conselho de Segurança, contudo, o Governo norte-americano alegou ter dúvidas quanto à eficácia da mesma em relação as negociações de paz entre israelenses e palestinos e, por conta disso, usou seu poder de veto e impediu que a proposta fosse adiante.

Após a aprovação, o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu, por meio de seu Gabinete, emitiu um comunicado repudiando tal Resolução e a chamou de “vergonhosa e anti-israel”. Por conta disso, afirmou que “não irá respeitar seus termos”. Referindo-se ao Governo Obama, Netanyahu alegou que, além do mesmo não “proteger Israel contra essa conspiração na ONU”, o Governo do atual Presidente ainda “colaborou nos bastidores”. 

Para além disso, Donald Trump, Presidente-eleito dos EUA, que governará a partir deste ano (2017), também mostrou seu descontentamento com a atitude do Governo de Obama. Segundo publicado no jornal estadunidense The Washington Post, Trump divulgou mensagens em seu twitter na quarta-feira, dia 28 de dezembro, acusando o presidente Obama de prejudicar a relação dos EUA com aquele país, além de demonstrar seu apoio ao Governo de Israel, incentivando-o a “permanecer forte” até dia 20 de janeiro, quando Trump tomará posse.

Para conter as tensões entre Israel e EUA, o Secretário de Estado norte-americano, John Kerry, se pronunciou, também no dia 28 de dezembro, e afirmou que a decisão estadunidense de se abster foi de acordo com os valores estadunidenses, e que, apesar da boa relação entre ambos os países, isso não significa que os EUA devam aceitar qualquer política. Segundo ele, “Amigos também precisam dizer as coisas difíceis uns para os outros.

Kerry ainda explicou os motivos pelos quais seria necessário interromper os assentamentos, dado as condições do local, onde a violência e o terrorismo cresciam das duas partes e findavam destruindo “as esperanças de paz para ambos os lados”.

Já com relação ao posicionamento da Palestina em relação a proposta de Resolução, seu negociador-chefe, Saeb Erekat, comunicou à imprensa que aquele era um “dia de vitória” também para o direito internacional, que passava a ter, daquele dia em diante, uma linguagem mais civilizada e de negociação, além também de finalmente combater a rejeição total das forças extremistas em Israel.

———————————————————————————————–                     

Imagem 1Cartaz de um movimento pacifista: bandeiras de Israel e da Palestina e a palavra paz em Hebraica e Árabe” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Conflito_israelo-palestino#/media/File:Israel_and_Palestine_Peace.svg

Imagem 2Câmara do Conselho de Segurança da ONU em Nova Iorque” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Conselho_de_Segurança_das_Nações_Unidas

Imagem 3Benjamin Netanyahu” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Benjamin_Netanyahu

[:]