AMÉRICA DO NORTEANÁLISE - Sociedade InternacionalANÁLISES DE CONJUNTURAPOLÍTICA INTERNACIONAL

[:pt]O novo Presidente dos EUA e suas primeiras ações[:]

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A improvável vitória do republicano Donald Trump para o novo ciclo presidencial estadunidense já cria inúmeras incertezas e apreensão sobre o curso futuro que adotará o 45º presidente.

Um dos panoramas de maior sensibilidade para o momento de transição e que provavelmente determinará os próximos quatro anos dos Estados Unidos, bem como de todo sistema internacional estarão nas bases da nova política econômica.

Ao eleger Trump, a reação generalizada de incredulidade tem causado mal humor nos mercados que não apreciam incógnitas extremas e a julgar pelas tendências de alterações profundas na dinâmica comercial internacional e nas alianças econômicas, a nova matriz proposta pelo republicano ao longo da campanha poderá prejudicar a economia global.

Os entendimentos e posicionamentos do Presidente eleito indicam uma possível revolução da ordem econômica dos Estados Unidos, segundo especialistas e conselheiros que trabalharam na sua campanha. Nesse sentido, ao assumir o cargo há intenção de, através de ordens executivas, impor medidas oriundas de campanha que legitimarão unilateralmente suas promessas, principalmente políticas que envolvem o comércio, a imigração e a regulação financeira.

Em complemento, apesar da conquista da maioria republicana tanto na Casa dos Representantes como no Senado a matriz de política econômica que deseja implementar está fora dos aspectos da ortodoxia tradicional do partido e, com isso, uma estruturação bipartidária sobre questões específicas será necessária para ver os projetos aprovados, tal qual a redução de impostos, melhorias em infraestrutura, revogação do Obamacare, bem como reforma energética, promessas de campanha estas que são susceptíveis a ficarem aquém dos 60 votos necessários no Senado para avançar, caso não haja a adoção de uma coalizão bipartidária.

Como parte do desenho conjuntural inicial para o novo mandato presidencial e ainda no âmbito das incertezas, a formação do gabinete, com os principais secretários e conselheiros presidenciais dirá muito sobre os caminhos que os Estados Unidos trilharão neste novo ciclo presidencial e, por conseguinte, as interpretações e chancelas que tais membros da alta cúpula governamental trarão indicará sobre quais bases a nova política estadunidense trabalhará, principalmente na esfera econômica, a mais sensível e que influenciará decisões em todo o globo.

Para Secretário de Estado, o ex-presidente da Câmara, Newt Gingrich é um potencial candidato, assim como Senador por Tennessee, Bob Corker, atual presidente do Comitê de Relações Exteriores do Senado. Outro nome especulado é do ex-embaixador dos Estados Unidos na ONU, John Bolton.

Na pasta de Secretário de Defesa, o ex-conselheiro de Segurança Nacional Stephen Hadley e o ex-senador por Missouri, Jim Talent já foram mencionados como potenciais candidatos. Outro nome estudado é de Mike Flynn, ex-diretor da Agência de Inteligência de Defesa, porém este precisaria uma renúncia do Congresso para empossá-lo no cargo, uma vez que a lei exige que os militares aposentados esperem sete anos antes de se tornarem líderes civis do Pentágono.

Para Secretário do Tesouro, Trump indicou Steven Mnuchin, ex-banqueiro do Goldman Sachs e atualmente presidente e executivo da empresa de investimento privado Dune Capital Management.

O novo Procurador Geral poderá ser o ex-prefeito de Nova Iorque, Rudolph Giuliani, um dos principais defensores públicos do Presidente eleito. O governador de Nova Jersey, Chris Christie e líder da equipe de transição é outro nome especulado.

A Secretaria do Interior tem como favorito Forrest Lucas, de 74 anos e co-fundador da empresa de produtos petrolíferos, Lucas Oil. Porém outros nomes são analisados, dentre os quais, Robert Grady, investidor de risco, e Donald Trump Jr, além de Sarah Palin, que não faz segredo de seu interesse em agregar a equipe de governo do magnata republicano.

Para Secretário do Comércio, o bilionário investidor Wilbur Ross Dan DiMicco, ex-CEO da sideúrgica Nucor Corp., além de Mike Huckabee, ex-governador de Arkansas, são os nomes sugeridos.

Para a pasta da Agricultura, nomes como de Sid Miller, atual Secretário de Agricultura do Texas, Sam Brownback, Governador do Kansas, Dave Heineman, ex-governador de Nebraska, Sonny Perdue, ex-governador da Geórgia, Rick Perry, ex-governador do Texas, além de Charles Hersbter, líder do agronegócio, e Mike McCloskey, executivo de lácteos em Indiana.

Outra pasta estratégica e que dialogará com a nova matriz econômica estadunidense é a Secretaria do Trabalho, para esta pasta, a equipe de transição tem procurado um CEO ou executivo para liderar o departamento. Victoria Lipnic, comissária da Comissão de Igualdade de Oportunidades de Trabalho é a mais cotada, assim como foi na equipe de transição de Mitt Romney, em 2012.

A Secretaria de Saúde e Serviços Humanos tem Rick Scott, governador da Flórida, Newt Gingrich e Ben Carson, pré-candidato presidencial do Partido Republicano, como os mais cotados. Outro nome mencionado foi de Rich Bagger, ex-executivo farmacêutico.

Para a pasta de Segurança Nacional, o único nome até o presente momento estudado é de David Clarke, xerife do condado de Milwaukee, Wisconsin. Clarke discursou na Convenção Nacional Republicana em Ohio e fez a declaração “Blue lives matter em alusão ao “Black lives matter” das manifestações contra as ações policiais que renderam em assassinatos de jovens negros desarmados.

A Agência de Proteção Ambiental (EPA, na sigla em inglês) que foi cogitada por Trump para ser extinta e poderá ter como secretário Myron Ebell, funcionário do Instituto de Empresas Competitivas e questionador da tese sobre aquecimento global. Outro nome especulado é do investidor de risco Robert Grady.

A tendência para o novo ciclo presidencial é de adoção de gestores corporativos e não de políticos de carreira, isso poderá acarretar em um novo formato de fazer política e angariar novas experiências que somente a história poderá julgar. Por essas medidas, no plano econômico, a tendência é uma gestão mais centralizada e pautada em esforços que buscarão o recrudescimento do papel global dos Estados Unidos, uma das matrizes de campanha de Donald Trump, que projeta um país forte novamente, mas mais a nível interno.

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ImagemTrump durante discurso em Phoenix, Arizona, em agosto de 2016”  (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Donald_Trump#/media/File:Donald_Trump_by_Gage_Skidmore_12.jpg

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AMÉRICA DO NORTEANÁLISES DE CONJUNTURA

[:pt]A escolha do Vice-Presidente na eleição norte-americana[:]

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A agenda política dos Estados Unidos ao longo de todo o restante do ano de 2016 estará centrada no sufrágio que definirá o novo comandante-em-chefe do país. Pelo Partido Republicano, o candidato Donald Trump superou todos os prognósticos, consolidou a maioria dos delegados e irá para a Convenção Partidária apenas para ser oficializado pelos superdelegados como o candidato opositor ao atual Governo. No lado governista do espectro político estadunidense, após uma longa batalha nas primárias contra o Senador por Vermont, Bernie Sanders, a Ex-Primeira Dama e Ex-Secretária de Estado, Hillary Clinton, confirmou o favoritismo e ganhou a nomeação do Partido Democrata para suceder o presidente Barack Obama na gestão da Casa Branca.

Com a definição dos candidatos, as etapas vindouras do processo eleitoral ganham novas articulações e estratégias e, para chancelar um plano governamental e atrair o máximo de eleitores para seus respectivos núcleos políticos, tornou-se fundamental no cálculo de uma eleição a escolha do Vice-Presidente.

Na história dos Estados Unidos, a Vice-Presidência era compreendida como algo que resultaria em pouco poder e prestígio e cujas principais responsabilidades estariam centradas na Presidência do Senado, com oportunidade de voto apenas em casos de empate e, por ocasião rara de morte, substituir o Presidente.

Em contrapartida, em especial no atual século, o cargo de Vice-Presidente dos Estados Unidos ganhou um status ao menos mais participativo na administração, com envolvimento direto na elaboração das políticas de Estado, tanto no âmbito interno como no externo.

Hoje, por conta da atuação em conjunto com o mandatário, alguns analistas políticos definem os “running mates” também como “assistente do presidente”, ou “super conselheiro”, dado seu alto grau de importância no centro de poder na Casa Branca, além do papel fundamental, e por vezes decisivo, nas eleições, haja vista que sua principal função está intimamente ligada a característica política, pois preenche uma lacuna na qual o candidato presidencial não foi capaz de preencher, diante do potencial eleitorado.

Ao relacionar o papel do companheiro de chapa com a função de Vice-Presidente, três nomes aparecem na história dos Estados Unidos como sendo aqueles que desbravaram e deram uma nova conotação para o cargo.

O Presidente George H. W. Bush (1989-1993) escolheu Dan Quayle (1989-1993) como running mate em 1988. O então Senador pelo Estado de Indiana era jovem e conservador e, por conseguinte, absorvia um percentual considerável de eleitores do meio-oeste, além de ter servido no Comitê de Serviços Armados do Senado.

Em contrapartida, não exerceu grande influência nas discussões de política externa na administração Bush Sênior, exceto quando as negociações se voltavam para o Congresso, onde Quayle tinha trânsito bipartidário relevante. Por exercer influência em Capitol Hill, conseguiu, por exemplo, emplacar legislação que autorizava o uso de força militar para expulsar forças iraquianas no Kuwait, em 1991.

Outro Vice-Presidente, Dick Cheney (2001-2009), também teve papel decisivo na articulação e tomada de decisões durante as duas administrações de George W. Bush (2001-2009). Para alguns especialistas consultados, Cheney foi o responsável pelo ápice do poder de um Vice-Presidente na história dos EUA, uma vez que dirigiu todo o processo de transição política da Era Clinton, bem como incentivou a nomeação de alguns de seus principais colaboradores no alto escalão do novo Governo de Washington, a incluir: Donald Rumsfeld (no primeiro mandato de Bush – 2005-2009), para a pasta de Secretário de Defesa; Paul O’Neill, como Secretário do Tesouro; e John Ashcroft, como Procurador-Geral.

As políticas de segurança nacional também receberam forte influência de Cheney, particularmente após o 11 de Setembro. As interferências na estratégia militar e de inteligência ao longo das duas gestões de Bush o colocaram como mais importante ator em política externa, superando Condoleezza Rice, então Secretária de Estado, e Colin Powell, o Secretário de Defesa.

O Vice-Presidente ainda respondeu pelas políticas de contraterrorismo que incluíam as técnicas de detenção e interrogatório, assim como os programas de vigilância eletrônica, este último origem de grande crise diplomática com países como Alemanha, França e Brasil.

Já o atual Vice-Presidente, Joe Biden (2009-2017), remete a uma atuação distinta em comparação aos outros dois citados. Biden, Senador por Delaware, entrou para a campanha de Obama com a promessa de ser um dos principais assessores e articulador do Chefe do Executivo.

Ao longo dos dois mandatos de Obama, o Vice-Presidente se destacou nos debates em política externa, principalmente sobre o aumento de tropas no Afeganistão, medida esta que era totalmente contra.

Diante de características voltadas mais para o seio das Relações Internacionais, o atual presidente destacou o gerenciamento e a interação com países estrategicamente importantes a Joe Biden. Em muitos desses esforços diplomáticos as relações foram proveitosas, em especial com o novo Governo do Iraque, do Primeiro-Ministro Haider al-Abadi; com o ex-presidente do Afeganistão, Hamid Karzai; e com autoridades ucranianas, após a anexação da Criméia pela Rússia.

Para as eleições de novembro, apenas Donald Trump já definiu seu companheiro de chapa, o Governador por Indiana, Mike Pence, de 57 anos, um ator, cujas características são justamente aquelas que não fazem parte do escopo de Donald Trump, ou seja, um ultraconservador cristão e que atende tanto a parte do eleitorado ainda reticente com suas propostas de campanha, como o núcleo duro do Partido Republicano.

Hillary Clinton por sua vez ainda não definiu seu par para as próximas etapas de campanha, mas, certamente, irá escolher um candidato com guinada mais à esquerda, para amenizar as críticas a sua candidatura. Já que este é o elo fraco da candidata democrata.

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Imagem (Fonte):

http://www.telegraph.co.uk/content/dam/video_previews/4/x/4xzmu0edogi5ev1_sob5kgudi9pyoyrb-large.jpg

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Um ensaio progressista na política norte-americana

As eleições primárias nos Estados Unidos historicamente apresentam candidatos cujos ideários políticos transcendem muitas vezes o conteúdo programático de suas campanhas. Com falas eloquentes, carregadas de simbolismo ideológico, os debates, comícios e discursos produzidos e reproduzidos de todas as formas e em todas as mídias disponíveis funcionam como estratégias iniciais, um termômetro para mensurar o quão aceitável é aquele formato discursivo diante das massas e, por conseguinte se o futuro Plano de Governo poderá ser estruturado de acordo com as prerrogativas da aceitabilidade social.

Na atual disputa, dois candidatos destacam-se, justamente pela eloquência e por defenderem cada qual um espectro político específico. São eles: Bernie Sanders, Senador Democrata pelo Estado de Vermont, e Donald Trump, candidato pelo Partido Republicano. Contudo, o fenômeno produzido pelos atuais dois protagonistas é fruto de uma abordagem mais extremada, que outros dois candidatos, anteriormente considerados favoritos na disputa presidencial, Hillary Clinton (Democrata) e Jeb Bush* (Republicano), não puderam e não poderão adotar, pelo fato de representarem duas das famílias mais poderosas de Washington e com históricos recentes que os classificam como de centro no espectro político. Sendo assim, um movimento abrupto para qualquer dos lados, tornando tanto Sanders quanto Trump possíveis “Sheepdogging”, soaria falso e perigoso no decorrer das respectivas campanhas.

Ao confeccionar suas estratégias, Donald Trump e Bernie Sanders interpretam e exploram que o modelo político estadunidense com a presença das tradicionais oligarquias políticas está saturado e desgastado para grande parte da sociedade, que clama por mudanças profundas nos âmbitos econômico e social, principalmente a classe média, a fatia da sociedade mais prejudicada pela crise de 2008.  Nesse sentido, com base em suas convicções políticas trazidas desde a juventude, o candidato democrata, por exemplo, tem conseguido atrair a atenção da sociedade neste início, principalmente dos jovens, com uma proposta mais revolucionária, cuja similaridade não era vista desde as eleições de 1972, quando o senador democrata por Dakota do Sul, George Mcgoven (1922-2012), com um modelo político semelhante ao de Sanders, perdeu as eleições para Richard Nixon (1969-1974).

Ao traçar o perfil político de Bernie Sanders, especialistas discutem no âmbito da ciência política o enquadramento ideológico do candidato que explora a equidade social e o fim dos privilégios à classe mais abastada como requisitos de salvaguarda para um novo modelo capitalista, impondo em sua fala uma reflexão à sociedade, algo que, até o presente momento, tem ganhado relevância. O recente relatório sobre desigualdade global produzido pela organização inglesa Oxfam é um exemplo pertinente, pois gerou análises a respeito das mazelas sociais internacionais, servindo de ferramenta para, implicitamente, chancelar os discursos do democrata em suas viagens de campanha por todo o país.

Todavia, por ser ao mesmo tempo inovadora a condução da campanha do candidato democrata, as barreiras com as quais o referido se depara são grandes e enraizadas, por irem de encontro a indivíduos, instituições e conceitos formados quando o país se tornou a potência preponderante do atual sistema internacional. O modelo capitalista defendido pelos Estados Unidos desde o fim da Segunda Guerra Mundial cumpriu e vem cumprindo uma modalidade de produção que é criticada pelo atual candidato, que a interpreta como usurpação para a atual realidade, uma vez que perpetua a exclusão, reproduz a desigualdade e a apropriação da produção social da riqueza por poucos.

No cerne desta ótica crítica, as consequências para sua campanha já foram destacadas por especialistas em política que foram consultados. Para que haja um ensaio progressista na política estadunidense em ano de sufrágio é fundamental a adoção de mecanismos, principalmente nos meios de comunicação que sejam justos a todos, porém, pesquisas apontam que é limitada e parcial a cobertura das principais redes americanas de TV (ABC, CBS, NBC) para a campanha de Bernie Sanders, se comparado o tempo desprendido para as campanhas de Hillary Clinton e Donald Trump, personificando, através dos dois candidatos, a orientação conservadora da mídia estadunidense.

Com o surgimento do que pode ser considerado um movimento antiestablishment nos Estados Unidos, é possível conjecturar que há uma tendência global para que a coordenação da comunidade internacional ganhe novos paradigmas políticos. A Espanha, através do Partido de Esquerda Podemos, e o Reino Unido, pela nova roupagem do Partido Trabalhista, encabeçado por Jeremy Corbyn,respondem a tal tendência, com um recorte político que foi iniciado na América Latina e que, agora, toma forma nos países que enfrentaram dificuldades econômicas nos últimos dez anos, dentre os quais, os Estados Unidos. Os norte-americanos estão aprendendo a dar voz a essa nova viabilidade política e intelectual, ou seja, através das classes populares há um estado de atenção em relação ao desenvolvimento econômico e financeiro modelado por conglomerados corporativos, que, além disso, em relação ao processo eleitoral, privatizam-no, ao ponto de parte considerável dos candidatos a cargos políticos poderem receber todo o dinheiro que suas campanhas conseguem arrecadar. Conforme vem sendo atestado, com base nessa liberalização monetária em processos eleitorais é possível que os representantes do 1% mais ricos da sociedade possam controlar e persuadir os representantes da massa eleitoral.

Por apresentar um discurso voltado à defesa social, alinhado com uma nova tendência mundial, Bernie Sanders vem apresentando disposição para criar bases sólidas. A corrida rumo a  predileção dos delegados do Partido Democrata, com uma proposta de cunho social-democrata, abrirá possibilidades para que instrumentos para redistribuir alguma riqueza, a fim de beneficiar os norte-americanos mais desfavorecidos, permite idealizar para a história do país a modalidade político-econômica mais progressista já desenvolvida por um candidato presidencial.

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* Jeb Bush, candidato republicano, suspendeu sua campanha, ao serem divulgados os números das primárias na Carolina do Sul.

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Imagem (Fonte):

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As propostas eleitorais para a futura política externa estadunidense

O novo panorama político nos Estados Unidos começará a ser decidido no primeiro dia de fevereiro, quando será iniciado o processo de prévias nos Partidos, Democrata e Republicano.

Ao longo da corrida presidencial estará em disputa uma nova interpretação sócio-ideológica alçada por dois momentos recentes e importantes no país: a crise econômica de 2008 e a eleição histórica de um negro à Casa Branca, algo que rendeu demandas, cujo reflexo é testemunhado à medida que os dois principais Partidos notadamente se distanciam do centro e instalam discursos mais à direita e, por vezes, mais à esquerda.

Diante das estratégias estudadas por alguns pré-candidatos, a questão central que delineará o Sufrágio Presidencial de 2016 será pela escolha em adotar modelos políticos identificados pelos analistas como de cunho conservador, ou progressista.

Nesse sentido, para ilustrar a análise, um dos recortes que auxilia o enredo remete aos desdobramentos em política externa, em especial dos atuais pré-candidatos melhor estabelecidos em pesquisa, a saber: Hillary Clinton e Bernie Sanders, pelo Partido Democrata; Donald Trump e Marco Rubio, pelo Partido Republicano.

Aos pontuar quem são os atuais protagonistas, cria-se a possibilidade de mostrar os mecanismos que cada candidato irá apresentar em campanha e que explicitará os discursos de matriz sócio-ideológica mencionados anteriormente. Para tanto, questões relacionadas com a China, Cuba, Rússia, imigração e comércio definirão o quão considerados conservadores, ou progressistas podem ser os candidatos ao cargo de Comandante-em-Chefe dos EUA.

Hillary Clinton: A Ex-Secretária de Estado do Presidente Barack Obama pretende cultivar a confiança e aumentar a cooperação com a China nos diversos desafios internacionais, como a Coreia do Norte, por exemplo, e as questões de âmbito climático. Durante o período de 2009 a 2013, no Departamento de Estado, Hillary assumiu papel de estrategista na Ásia, com atuação em prol do reequilíbrio de forças na região, através da política de “Pivot”.

Sobre Cuba, a normalização das relações com a ilha caribenha agora parecem uma boa estratégia de campanha. Se eleita, intenciona impor uma “Executive Authority” (Decreto Presidencial) caso o Congresso não levante o embargo econômico, uma mudança radical de rumos, uma vez que no ano de 1996 apoiou a Lei Helms-Burton, que fortaleceu o embargo estadunidense a Havana. Em 2008, durante as primárias, se opôs ao levantamento das sanções econômicas em um ambiente antidemocrático.

No tema imigração alinha-se com um posicionamento mais humanitário, defendendo legislação mais abrangente, em busca de cidadania plena para os aproximados 11 milhões de imigrantes irregulares residentes no país, ao passo que sinaliza em conceder vistos de trabalho temporário para metade desses cidadãos.

Sobre a Rússia, Hillary Clinton acredita na cooperação, um modelo parecido com que idealiza para as relações com Beijing, foco em interesses comuns, dentre os quais o controle de armas e o Programa Nuclear Iraniano. Porém, por acreditar numa suposta visão de Putin como vendo Washington como concorrente, a resposta poderá ser: o reforço da aliança militar ocidental, a OTAN; o aprimoramento na esfera de segurança energética dos países europeus; além de mensagens mais endurecidas ao Kremlin quanto ao que considera como invasão da Ucrânia, através da anexação da Crimeia, bem como ao apoio tácito da Rússia ao presidente sírio Bashar al-Assad.

Em relação ao comércio internacional, a Ex-Secretária de Estado sempre apoiou a liberalização do comércio, entretanto, críticas a modelos já foram feitas, principalmente aos grandes acordos que tendem a não proteger e privilegiar os trabalhos americanos. Em 2015, distanciou-se da Parceria Trans-Pacífico, por acreditar no deslocamento de milhares de empregos.

Bernie Sanders: O Senador pelo Estado de Vermont tem a visão mais à esquerda. Sobre a China, opõe-se aos tratados internacionais de comércio bilateral, pois entende que há perdas de emprego internamente, decorrentes da terceirização de empregos, baixos salários, e regulamentação ambiental mais frouxa, se comparada com a norte-americana. O Senador defende trabalhar com a China para conter o consumo de combustíveis fósseis e enfrentar a mudança climática global.

Sobre Cuba, ele defende a normalização da relação EUA-Cuba, com apoio ao levantamento do embargo comercial que, de acordo com seu posicionamento, custa bilhões de dólares em receita.

O tema imigração também rende grandes debates na agenda de campanha de Bernie, que já lançou plano de reforma de imigração em novembro de 2015, o qual inclui mudanças radicais no Programa de Segurança de Fronteiras, Vistos e Naturalização. O congressista revela ainda que pretende trabalhar com as duas casas legislativas, mas que não descarta usar de “ações executivas” para ver suas medidas serem implementadas.

A Rússia é outro tema relevante na política externa e Sanders apoia as Sanções dos Estados Unidos e da União Europeia contra Moscou pela intervenção na Ucrânia, porém já advertiu contra o uso da força militar.

O tema comércio também é destaque na pauta da plataforma política do Senador. Ao se intitular “socialista democrático”, posiciona-se contra os grandes acordos comerciais, pois defende a prerrogativa de que a política econômica deve objetivar o aumento dos salários e não reduzi-los. Seu Programa de Governo prevê reinvestimento interno e críticas à Parceria Trans-Pacífico, que prevê, segundos dados de seu Comitê de Campanha, diminuição do emprego e da renda e aumento da poluição no meio ambiente.

Marco Rubio: O Senador Republicano pelo Estado da Flórida classifica a China como um competidor estratégico e potencial adversário, quando remete à geopolítica, devido a postura militar expansionista na região da Ásia-Pacífico.

Se eleito Presidente, o legislador pretende restaurar as vantagens estratégicas dos EUA no pacífico, implementando uma política militar de contraponto à expansão chinesa. Aliado a essa perspectiva, aprofundar as relações com aliados tradicionais, como Japão e Filipinas, fará parte de seu Plano de Governo.

A política para Cuba é outro assunto que lhe rende questionamentos. Por ser filhos de imigrantes cubanos, Rubio é crítico ativo da reaproximação de Washington com Havana, por ainda apresentar em seus argumentos uma nostalgia pela Guerra Fria, uma vez que, em suas concepções, a reaproximação coloca China e Rússia dentro da zona de influência estadunidense, a poucas milhas da costa territorial. Como Presidente, pretende reverter os passos dados em direção a normalização das relações bilaterais feitas pelo Governo Obama, por entender que o afrouxamento é ilegal.

Ao ligar a questão cubana com seu passado familiar, a imigração também é vista com mais atenção. Como legislador, foi um dos autores do Projeto de Lei de Imigração que foi aprovado pelo Senado em 2013. Rubio tem defendido a segurança das fronteiras e verificação eletrônica do status jurídicos dos ingressantes.

Quanto a Rússia, o Senador da Flórida é favorável a uma postura mais agressiva com Moscou, pois, após a anexação da Crimeia, tem classificado a ação como afronta histórica à ordem global do pós-Segunda Guerra Mundial. Nesse sentido, é a favor da continuação de políticas econômicas e diplomáticas que isolem o Kremlin dos pares europeus e americanos.

No tema comércio, Marco Rubio apoia o livre mercado, um dos pontos em concordância com a atual administração, e uma agenda comercial multilateral. Votou a favor do Governo na concessão do “fast track” de promoção comercial. Considera a Parceria Trans-Pacífico (TPP) fundamental para o processo de retomada do crescimento macroeconômico

Donald Trump: Talvez uma das figuras mais controversas da atual corrida presidencial seja o bilionário Donald Trump. Sem experiência em assuntos políticos, tem angariado grande atenção por sua postura belicista, racista e xenófoba.

Em política externa, sua campanha ganha contornos preocupantes para muitos observadores, caso seja indicado pelo Partido Republicano. A China, por exemplo, é um dos temas preferidos de Trump, que, se eleito, pretende impor tarifas sobre produtos chineses para, de acordo com seus entendimentos, forçar uma mudança de rumos da política econômica de Beijing.

Cuba é outro tema cuja posição de Trump é surpreendente. Indo de encontro com seus correligionários, acredita que o restabelecimento pode ser benéfico, mas que poderia ter sido feito com uma postura mais de negócios e não apenas com enfoque diplomático. Esse enfoque é entendido pelo potencial imobiliário que a ilha pode desenvolver e Trump, que fez sua fortuna no ramo imobiliário, poderia estruturar um acordo cujo viés em negócios poderia render grandes receitas para o empresariado norte-americano do ramo.

Por outro lado, a questão imigratória recebe as maiores críticas dos analistas e também as afirmações mais preocupantes. Trump dá muita atenção à questão da imigração ilegal, fazendo dela uma das suas principais teses de campanha. É a favor da deportação de mais de onze milhões de imigrantes irregulares por acreditar que principalmente o México esteja enviando os criminosos violentos, incluindo estupradores, para dentro dos Estados Unidos, fato negado veementemente pelo Governo de Enrique Peña Nieto.

A Rússia é outra questão controversa na estratégia de Donald Trump. Tudo começa pelo entendimento de que Putin não respeita Obama e é por conta desse afrouxamento diplomático que a Rússia anexou a Ucrânia. Contudo, sempre elogia a liderança de Putin, afirmando que estará aberto a construir um ótimo relacionamento com o líder russo.

Por fim, a questão do livre comércio. Trump se opôs a vários acordos comerciais recentes dos Estados Unidos, pois, segundo o mesmo, foram mal negociados, o que resultou na perca de empregos dos cidadãos. Trump defende ainda uma pena às empresas norte-americanas que se mudarem para outro país. Um exemplo recente, exposto pelo pré-candidato, é o caso da Ford Motor Company, que cobraria um imposto de 35% sobre os veículos exportados pela fabricante para os Estados Unidos, provenientes das novas instalações no México. O bilionário também se opõe a Parceria Trans-Pacífica (TPP).

Ao longo das prévias, os analistas acreditam que a polarização ideológica tende a acentuar, principalmente que certos pontos, tanto mais à extrema esquerda como à extrema direita, renderão dividendos para ambos os Partidos. Para os candidatos mais ao centro, como Hillary Clinton (pelos Democratas) e Marco Rubio (pelos Republicanos) deverão revisar a direção de suas respectivas campanhas, pois figuras ao centro no espectro político tem perdido espaço para visões mais extremadas, seja pelas vias progressistas de Bernie Sanders, seja pelo conservadorismo de Donald Trump, que, por muitos observadores, é taxado como sendo do século XIX.

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Imagem (Fonte):

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EUA aprovam reforma do FMI

Ao fim do ano passado (2015), no dia 18 de dezembro, os Estados Unidos da América (EUA) aprovaram a reforma de uma das principais reivindicações do Fundo Monetário Internacional (FMI): a reforma do sistema de quotas para conceder mais peso político às economias emergentes na instituição financeira internacional. Desde 1944, o ano em que os acordos de Bretton Woods foram constituídos, essa é, sem dúvida, a mudança mais importante dentro do FMI.

A proposta de reforma foi feita pelo diretor Dominique Strauss-Kahn (2007-2010), que, após a crise de 2008, na qual o FMI se mostrou ineficiente, ao não obter os recursos suficientes para encarar às crises de liquidez, sugeriu aos países emergentes que estes realizassem novos depósitos ao Fundo Monetário, em troca de incrementar suas quotas. A proposta foi apresentada durante a XIV Revisão Geral das Quotas e aceita pelo Diretório Executivo do FMI, em 2010.

Contudo, para que a proposta entrasse em vigor, era necessário que ela fosse apresentada a Junta de Governadores (integrada por todos os membros), e se submetesse à aprovação dos Parlamentos nacionais. Cabe dizer que, para uma decisão ser sancionada pelo FMI, é necessária a aprovação da maioria de 85% da votação, no entanto, os EUA contam com 16,7%, além de obter o poder de veto. Sendo assim, foi nessa fase que o Governo estadunidense utilizou seu poder e a proposta foi paralisada.

Com o passar dos anos, a diretoria do FMI mudou, mas a proposta continuou sendo uma busca incansável por Christine Lagarde, atual Diretora do Fundo Monetário, que, desde 2012, não desacreditou dela e sempre que havia uma oportunidade pedia aos EUA que reavaliassem sua decisão em prol dos países emergentes, visto que a proposta foi pensada para que países como os membros do BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) pudessem ter maior poder de decisão na economia global.

Com a proposta ainda inativa, os países do BRICS decidiram por conta própria criar instituições alternativas ao FMI e ao Banco Mundial, e fundaram o Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura (BAII), em junho de 2015, incentivado pelo governo chinês. Todavia, isso não foi o suficiente e, em uma reunião do G20 na Turquia, em novembro passado, os países declararam a “profunda decepção” pela falta de progressos na reforma dos órgãos financeiros internacionais, dominados pelas potências ocidentais.

Ao que parece, os constantes pedidos da atual diretora do FMI e dos BRICS, foram atendidos e a espera de cinco anos teve seu fim no mês passado, com o anúncio do Congresso dos EUA aprovando a reforma. Enfim, o sistema de quotas poderá agora ser uma realidade. O projeto de reforma visa dobrar a contribuição dos países ao FMI, além de dar mais voz aos emergentes dentro da Organização.

Os recursos à disposição do FMI serão de 659,67 bilhões de dólares. Contudo, ressalta-se que a quota que se entrega a um país determina o nível máximo dos seus compromissos com o Fundo Monetário. Além disso, o país que pedir o financiamento dependerá do número de votos na instituição para o acesso a ele.

Dentre os emergentes que mais se beneficiaram com a aprovação da reforma está à China, cujo poder de voto, que antes era de 3,8%, agora subirá para 6% e se destacará por ser o terceiro país com maior poder global, atrás somente do Japão e dos EUA. Outro emergente foi o Brasil, que passou de 1,71% para 2,21%, subindo quatro posições e ocupando a décima colocação. Por fim, Índia e Rússia agora pertencem a lista dos dez países mais influentes.

Por outro lado, há, também, os países cuja participação em poder de voto no FMI caíram drasticamente, como foram os casos dos europeus, com exceção da Espanha, que também cresceu de 1,68% para 2%. Já com relação aos países desenvolvidos, estes continuam à frente, mesmo com uma queda de 57,9% para 55,3%. Só os EUA obtiveram uma queda de 17,69% para 17,4%, o que não é muito, já que com os norte-americanos ainda está o poder maior: o de veto.

Diante desse acontecimento tão almejado por países emergentes, como são os casos dos membros do BRICS, a diretora do FMI, Christine Lagarde, que deve continuar em seu cargo até este ano de 2016, se posicionou positivamente perante à decisão do Congresso dos EUA e afirmou que esta foi a melhor decisão já tomada, pois, agora, o FMI será visto como um Órgão mais representativo, moderno e também mais equipado a atender as necessidades de seus 188 membros no século 21.

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http://mexico.cnn.com/mundo/2013/11/13/brasil-pide-una-investigacion-ante-la-sospecha-de-que-eu-espio-al-fmi

AMÉRICA DO NORTEANÁLISES DE CONJUNTURA

Possíveis passos unificadores da Península Coreana

O ano de 2015 para as Relações Internacionais ficará marcado pelos inúmeros eventos de instabilidade, em que modelos regionais de ordem flertaram com a fragmentação e que, por conseguinte, tiveram, na intensificação das ações militares e diplomáticas, mecanismos para corrigir as causas da fragmentação, mas não desenvolveram políticas preventivas de correção desses desequilíbrios em longo prazo.

Durante este período, dentre as mal sucedidas ações no campo diplomático ocorridas no sistema internacional, as quais envolveram atuações da política externa dos norte-americanos ou afetaram diretamente sua segurança e os seus interesses, podem ser destacadas: a intensificação da guerra civil na Síria; os ciberataques a agências governamentais nos Estados Unidos; a instabilidade política na União Europeia, decorrentes do fluxo de refugiados e migrantes; a fratura política na Líbia; o crescimento das tensões entre israelenses e palestinos; as instabilidades na Turquia, Egito e Afeganistão; as cisões políticas e aumento da violência geral e da violência sectária entre xiitas e sunitas no Iraque, fruto do auto-proclamado Estado Islâmico. Além dessas experiências, o Governo estadunidense, ainda como detentor de grande influência no sistema internacional, também se vê às voltas com o grande desafio na Península Coreana, cujo foco de instabilidade, apesar das poucas notícias disseminadas na mídia, não recrudesceu.

Nesse sentido, para os anos vindouros, o tema da Unificação das Coreias pode emergir como expressivo foco de tensão, tanto quanto os demais citados em outras regiões do mundo. Para alguns especialistas consultados, o processo de unificação pode ocorrer dentro da próxima década, uma vez que o isolamento diplomático da Coréia do Norte tem mostrado sinais de desgaste até mesmo com seu aliado mais próximo, a China, que, por vezes, demonstra sinais de intolerância com as táticas e retóricas empregadas pelos norte-coreanos, que desequilibram o fluxo geopolítico e comercial, chamando a atenção dos Estados Unidos e seus aliados na região, fato que Beijing quer evitar, uma vez que seu processo de expansão territorial é parte de sua política externa para ampliação de influência e domínio. Mais fatores são levados em consideração, principalmente no âmbito da concorrência econômica, cujo polo industrial focado no conceito de nacional-desenvolvimentismo não tem a mesma capacidade, se comparado à Coréia do Sul, frequentemente citada como modelo bem sucedido, não apenas de desenvolvimento econômico, mas também político e social.

Outros registros históricos que fazem com que a Coreia do Norte seja foco de análises conjunturais para justificar uma possível unificação estão na precarização social, cujo grau máximo de incompetência ocorreu na década de 1990, quando experimentou a fome, acarretando na morte de milhões de pessoas, assim como as visíveis rachaduras no Estado norte-coreano, que não consegue mais controlar o fluxo de informações para fora de suas fronteiras, nem controlar os políticos do regime, dentre os quais Jang Song-Thaek, considerado o segundo homem mais poderoso de Pyongyang, o qual foi executado a mando do terceiro Presidente da Dinastia Kim, Kim Jong-un, por suposta conspiração.

Com a viabilidade de implementação de um processo de unificação, as implicações são inúmeras, a julgar na esfera geoestratégica, graças ao protagonismo dos Estados Unidos na região nordeste da Ásia, que será questionado nessa nova fase; além do novo equilíbrio de poder que precisará ocorrer, trazendo profundas alterações, caso seja consolidado tal projeto de unificação das Coreias.

Ao partir do princípio de que a Unificação não partirá de uma guerra convencional devastadora, uma Coréia unificada na próxima década poderá herdar um grande mercado consumidor de aproximadamente setenta e cinco milhões de pessoas, ampliar a plataforma industrial, com uma mão de obra educada e ávida por trabalho, com recursos naturais em abundância (principalmente no Norte da península), com tecnologia avançada e Forças Armadas aparelhadas, inclusive nuclearmente. Os formuladores de políticas da “Nova Coréia” precisarão, contudo, resolver questões de cunho internacional, cujas opções são três: permanência no alinhamento com os Estados Unidos; aproximar-se e aprofundar as relações bilaterais com a China; ou adotar uma postura independente, de equilíbrio entre os dois principais atores.

Com base nessas três opções estratégicas, pode-se avançar um pouco em cenários:

  1. Ao continuar a aliança tradicional e estratégica com os Estados Unidos, o cenário mais plausível é a Coréia unificada precisar de um “guarda-chuva” nuclear para lidar com as outras grandes potências no nordeste da Ásia, notadamente China, Rússia e Japão. A aliança poderá levar à redução nos aparatos de defesa de Seul, bem como a retirada das tropas estadunidenses. Tal situação, em que não há mais a ameaça norte-coreana, permitiria aos norte-americanos orientar novos objetivos para a região, consentindo-os ainda projetar sua política externa mais dura para outras partes do globo;
  2. Ao inclinar a relação para a China, o cenário de uma Coréia unificada afasta os Estados Unidos do cálculo em que existe a aliança preferencial e/ou automática com eles, criando uma robusta aliança econômica sino-coreana, com um poderio militar crescente e sem precedentes na região. Cabe salientar que há sentimento antiamericano na região ao norte da península, o que permite pensar tal situação, contudo, este é um cenário pouco provável para os analistas consultados, em virtude do receio de a China criar novos laços coloniais com a Coréia, uma vez que já existem questões relativas a recursos e disputas fronteiriças;
  3. Ao optar pelo desenvolvimento de uma política externa independente, o cenário vislumbrado é o descarte das relações bilaterais com os Estados Unidos, usufruto que se dá desde 1950, para prosseguir com uma matriz de potência não alinhada, havendo a opção de manter o arsenal nuclear norte-coreano ativo como salvaguarda para as ingerências internacionais que derivem das insatisfações que surgirão, decorrentes da nova política Externa do Estado Coreano unificado. Tal cenário poderia ser resultado da crescente capacidade, confiança e nacionalismo do povo coreano. Uma Coréia com viés de não alinhamento automático poderia ainda promover relações estreitas com China e Rússia, e afastar os Estados Unidos. Tal manobra, contudo, implicaria em uma região instável, por isso, acredita-se que tal iniciativa é a menos provável.

Percebe-se, assim, que uma Coreia unida traria como consequência do processo a construção da nação que avançaria ao norte, promovendo estabilização política e econômica ao encerrar as grandes disparidades que envolvem os dois Estados, especialmente com a desmobilização do excedente do Exército de Pyongyang, que representa custos, os quais podem ser deslocados para setores mais produtivos. Essa nova orientação estratégica, contudo, deverá ser motivo de preocupação para os estados vizinhos, a China, a Rússia, o Japão, além dos Estados Unidos, pois a grande incógnita é a política externa que virá a ser modelada, algo que pode resultar em um novo equilíbrio de forças para a região mas, também, em momentos de instabilidade que farão parte dessa nova estrutura política organizacional.

Para Washington, uma nova política para a Península Coreana acarretará também em uma nova fase para o programa de política externa para Nordeste da Ásia, ou seja:

  1. A Casa Branca, por meio do Departamento de Estado e do Pentágono, deverá elaborar cenários para a unificação que preservem e beneficiem o modelo já instaurado após a Guerra da Coréia, em 1950;
  2. Washington deverá continuar a promover o aprofundamento das relações bilaterais com Seul, porém terá de projetar atualizações, modernizações e ampliações dos acordos já firmados;
  3. Washington deve se comprometer a preservar e garantir a dissuasão nuclear estendida na Coréia unificada;
  4. Os EUA deverão promover auxílio durante a fase de transição política e econômica;
  5. Também deverão formar um grupo trilateral, Washington-Seul-Tóquio para arquitetar questões no âmbito da segurança regional pós-unificação.

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