ÁFRICAANÁLISES DE CONJUNTURAÁSIA

Macau e o turismo nos PALOP

As relações sino-africanas pautam-se na Cooperação Internacional e nos investimentos em diversos setores, mais expressivamente no que diz respeito à criação de infraestrutura em prol do desenvolvimento. Segundo esta perspectiva, as relações diplomáticas também são dinamizadas ao se observar os diálogos no espaço internacional, como os Fóruns de Cooperação China-África e o de Cooperação Econômica e Comercial entre China e os Países de Língua Portuguesa, também conhecido como Fórum de Macau.

Este último foi criado em 2003 e realiza reuniões ministeriais voltadas para a planificação conjunta de atuação no espaço comercial e econômico. Inserido nesta dinâmica encontra-se o turismo como área de interesse dos países integrantes do Fórum (Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste), o qual foi a pauta da Sessão realizada ao final do mês abril de 2019, na Região Administrativa Especial  Macau. A 7.ª Exposição Internacional de Turismo de Macau destinou-se à apresentação das perspectivas dos países lusófonos no que tange o desenvolvimento do turismo, seus produtos e a captação de investimentos.

Lago Nam Van em Macau

Importante destacar que o setor turístico é contemplado pelo Plano de Ação 2017-2019 do Fórum, que compreende como metas para o triênio a capacitação dos recursos humanos, o aprofundamento da cooperação para atração de investimentos, a investigação do fluxo de turistas e seu impacto econômico. Outro ponto incluso no Plano diz respeito a sustentabilidade como base do desenvolvimento da cooperação, considerando a utilização consciente dos recursos naturais, respeitando o ecossistema e seu potencial para o turismo.

A busca pela cooperação com Macau relaciona-se com as experiências adquiridas pela região. De acordo com o relatório do Conselho Mundial de Viagens e Turismo sobre o Impacto do Turismo, este nicho correspondeu a, aproximadamente, 29,3% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2017. No mesmo ano foi registrado o crescimento do setor em 14,2% em relação aos anos de 2014-2015, e foram gerados 27,6% de empregos diretos, desconsiderando a indústria turística dos Cassinos.

Macau também explora outras perspectivas do turismo além dos jogos de azar, no caso, o desenvolvimento do turismo com base na herança histórica do período da administração de Portugal, que ocorreu do século XVI até o ano de 1999. O patrimônio histórico compreende um complexo de mais de 20 monumentos que integraram a lista de Patrimônios da Humanidade em 2005.

Centro Histórico de Macau, ruínas de São Pedro

Dada esta conjuntura, os países membros do Fórum de Macau, como a Guiné Bissau, expressaram o interesse em ampliar o turismo em ocasião da 7.ª Exposição Internacional, mais especificamente no arquipélago de Bijagós, abordando o turismo ecológico e cultural. Angola, por sua vez, aposta na indústria do jogo e no seu potencial de atração de turistas para o desenvolvimento econômico do país. Para tanto, o diretor nacional do Ministério do Turismo angolano, Jorge Manuel Calado, salientou a necessidade de criação de infraestrutura e mudanças na legislação para abrigar as casas de jogos.

Diferentemente dos demais países lusófonos, os arquipélagos de Cabo Verde e São Tomé e Príncipe têm suas receitas provenientes do turismo. Contudo, a parceria com Macau e a busca por investimentos externos podem representar avanços nesta área. No caso de São Tomé e Príncipe, a restauração do patrimônio colonial arquitetônico português se apresenta como alternativa para a expansão neste seguimento.

Praia de Calhau, na ilha de São Vicente em Cabo Verde

Observa-se que, apesar do compartilhamento cultural e linguístico oriundos do passado de colonização, os países africanos lusófonos compreendem de forma distinta como o turismo pode beneficiá-lo. Tendo em consideração as particularidades geográficas e potencialidades adicionais, a utilização dos Fóruns para a atração de investimentos pode repercutir no âmbito continental.

Este fator relaciona-se à infraestrutura que permeia o turismo e a prestação de serviços no ramo turístico, que, indiretamente, pode ser comprometido por questões de transporte interno e interestadual, fatores ambientais e preservação do ecossistema, e a inserção da população local. Neste sentido, os diálogos com Macau e investidores representam parte das adequações necessárias para a construção de um destino com potencial turístico.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Cassinos de Macau” (Fonte): https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/2/28/Casino_Lights_In_Macau.jpg

Imagem 2Lago Nam Van em Macau” (Fonte): https://pt.wikipedia.org/wiki/Macau#/media/File:Lago_Nam_Van,_Macao,_2013-08-08,_DD_04.jpg

Imagem 3Centro Histórico de Macau, ruínas de São Pedro” (Fonte): https://en.wikipedia.org/wiki/Ruins_of_St._Paul%27s#/media/File:%E5%A4%A7%E4%B8%89%E5%B7%B4%E7%89%8C%E5%9D%8A.jpg

Imagem 4Praia de Calhau, na ilha de São Vicente em Cabo Verde” (Fonte): https://pt.wikipedia.org/wiki/Cabo_Verde#/media/File:Estr.Ba%C3%ADa_das_Gatas-Calhau,_Cape_Verde-_panoramio.jpg

ANÁLISES DE CONJUNTURAÁSIA

China e a tecnologia 5G: a nova revolução nas telecomunicações

A China vem promovendo uma série de investimentos em ciência e inovação de modo a alavancar-se como um dos centros de desenvolvimento de tecnologia nas próximas décadas. Dentro deste escopo mais amplo, encontra-se a tecnologia de telecomunicações 5G, aspecto no qual a Ásia está desponstando como líder no cenário global. Espera-se que a conectividade 5G provoque uma revolução nos modelos de negócios e nas cadeias de valor a nível internacional, tendo sua data de lançamento comercial prevista para o início de 2020.

Para que possamos dimensionar o potencial aportado pelas novas tencolgias, cabe mencionar as transformações ocorridas nas gerações anteriores da comunicação sem fio. A primeira geração permitiu a realização de ligações telefônicas sem fio. A segunda geração permitia além disto, o envio de mensagens SMS. A terceira geração permitiu o acesso à sites da internet, ainda que com pouca velocidade e dinamismo, se comparada aos padrões atuais. Já a tecnologia 4G permitiu o acesso e a transmissão de vídeos ao vivo, além de ter possibilitado o surgimento de novos modelos de negócios através do Sistema de Posicionamento Global (GPS, na sigla em inglês), tais como o UBER e o Airbnb.

5G Evento

Por sua vez, o 5G não conecta apenas smartphones, mas qualquer objeto que possua um chip. Neste ponto, podemos pensar na internet of things (IOT), ou seja, a aplicação de internet à objetos da vida cotidiana. Podemos igualmente pensar em carros inteligentes e/ou smart cities. Essencialmente, a 5G possibilitará que quase qualquer objeto da vida cotidiana colete e transmita dados, com uma velocidade estimada a ser 100 vezes superior à proporcionada pelo 4G.

Neste sentido, fazendo uma comparação com a economia tradicional, o veículo de mídia The Economist afirma que o acesso, controle e o uso de dados são comparáveis à detenção de petróleo no que diz respeito ao seu potencial para acumulação de capital na economia digital, setor que se propaga para o futuro: “Data is the new oil” (os dados são o novo petróleo).

Por outro lado, a transmissão dessa enorme massa de dados acaba por levantar suspeitas e preocupações relativas à segurança digital, privacidade e direitos individuais. Questões como estas estão longe de ser resolvidas, e a aplicação da tecnologia 5G deverá levantar importantes debates em relação às leis, regulação do espaço digital e ética nas atividades econômicas.

estudo prospectivo realizado pela empresa de consultoria Ernst Young estima que a China deverá possuir 576 milhões de usuários conectados ao 5G até 2025, o que constitutiria 40% do total global. A atual tensão comercial entre China e Estados Unidos tem como pano de fundo a disputa geopolítica pelo desenvolvimento e controle de tecnologias que vão originar a nova geração de empresas que dominarão os mercados mundiais em diversos segmentos. No cerne deste debate se encontra a capacidade da China no desenvolvimento 5G.

Logo da Huawei

O fomento à campeãs nacionais, empresas líderes que despontam em diferentes segmentos da economia mundial, é uma conhecida estratégia de política industrial. No caso da tecnologia 5G, a Huawei é a empresa que está capitaneando este processo na China. Em dezembro de 2018, os Estados Unidos (EUA) ordenaram a prisão da diretora financeira da companhia, Meng Wanzhou, por supostas violações à propriedade intelectual. Desde então, a Austrália e a Nova Zelândia se uniram aos EUA banindo a Huawei de suas atividades nesses países. Adicionalmente, o Reino Unido, a França, a Alemanha e a República Tcheca  demonstraram preocupações em relação à segurança da atuação da Huawei em seus territórios.

Ainda não existem informações suficientes para que se possa analisar conclusivamente estes casos, dado o período recente de sua ocorrência. No entanto, especialistas afirmam que é necessário levar em consideração a dimensão geopolítica envolvida no controle e produção de novas tecnologias, que está ligada às disputas com a Huawei. A empresa é especialmente qualificada para a produção da infraestrutura necessária para a expansão da nova tecnologia e os Estados Unidos têm receio de ficar dependentes de fornecedores chineses. Além disso, a China está em posicionada para angariar as vantagens inerentes à posição de primeiras empresas ingressantes em um novo mercado.

A tecnologia está mudando os negócios

Se os fatos geopolíticos continuarem ditando as regras no campo do desenvolvimento 5G, existe o risco de que se produzam dois ecossistemas separados: o primeiro deles centrado nos Estados Unidos, se espraiando para os seus principais aliados transatlânticos; e outro centrado na China e se espraiando pelo espaço eurasiático, pela África e, possivelmente, pela América Latina.

Tal hipótese seria políticamente custosa e econômicamente ineficiente. Neste cenário existe a maior probabilidade de aproximação dos países em desenvolvimento em relação à China, devido às suas vantagens de custo e à estratégia chinesa de prover financiamento para projetos de infraestrutura ao redor do mundo.

Por fim, outra conjuntura possível reside em uma visão conciliatória, na qual percebe-se que há espaço para ganhos relativos entre todos os agentes econômicos ingressantes em novos setores. Sob esta perspectiva, a eficiência, a inovação, os custos e a capacidade de gestão ditariam o espaço ocupado pelas empresas de determinado país no cenário global da telecomunicação 5G.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Imagem demonstrando a tecnologia 5G” (Fonte): https://c.pxhere.com/images/cc/6e/38d2434782e68a917435e59e3c32-1444337.jpg!d

Imagem 2 5G Evento”(Fonte): https://www.flickr.com/photos/janitors/25405606331/in/photostream/

Imagem 3 Logo da Huawei” (Fonte): https://www.flickr.com/photos/[email protected]/13482871425

Imagem 4 A tecnologia está mudando os negócios” (Fonte): http://i.vimeocdn.com/video/498469360_1280x720.jpg

ANÁLISES DE CONJUNTURAÁSIA

Choque de gerações: mudanças socioculturais na China

A sociedade chinesa vem mudando rapidamente. Além da impressionante trajetória de crescimento econômico e desenvolvimento social que tirou 800 milhões de pessoas da linha de pobreza nas últimas décadas, é extremamente relevante que seja analisada a mudança de comportamentos e hábitos das novas gerações, que passam a dominar o mercado de trabalho e despontam como o futuro da China.

As pessoas que cresceram durante o período da Revolução Cultural, nos anos 1960, têm dificuldade em entender a nova geração de chineses que possuem comportamentos mais individualistas e têm maiores desejos de consumo. Adicionalmente, os jovens estão altamente conectados à cultura ocidental e têm maior consciência acerca dos acontecimentos e notícias internacionais.

Em seu livro China’s Millennials*: The Want Generation (“Os Millennials na China: a geração do querer”), o autor Eric Fish, jornalista e também um Millennial, viveu em território chinês por sete anos e documenta as mudanças comportamentais que vêm ocorrendo no país. Estima-se que existam 400 milhões de Millennials na China e 90% destes possuem o seu próprio smartphone.

Confúcio, filosofo chinês

Por outro lado, pressões oriundas dos valores chineses tradicionais ainda recaem fortemente sobre estes jovens. Nomeadamente, a pressão para que se consiga um casamento com uma pessoa de uma família bem-sucedida é enorme, e a pressão para que os jovens tenham filhos cedo, além de altos salários, são também constantes nas famílias chinesas.

O acesso à educação superior nas instituições mais renomadas do país é extremamente competitivo. O Gaokao, exame nacional de ingresso ao Ensino superior, está crescentemente vinculado com o aumento das taxas de depressão entre jovens. O prestígio associado às carreiras públicas ainda existe, não obstante, os jovens chineses buscam cada vez mais empregos no setor privado e/ou planejam abrir as suas próprias empresas.

Dois terços dos detentores de passaportes na China têm menos de 36 anos de idade. Os millennials chineses estão crescentemente procurando oportunidades de estudo no exterior, uma vez que o renome das universidades norte-americanas e europeias é visto como um diferencial no currículo, sobretudo no nível de pós-graduação.

Imagem de uma millennial de origem asiática

Mesmo considerando as dificuldades e a disparidade de renda entre o meio rural e as grandes cidades da costa leste, existe uma percepção generalizada entre os jovens de que a prosperidade e o bem-estar material estão ao alcance daqueles que se esforçam o suficiente em suas vidas acadêmicas e profissionais.

Vários Millennials vêm de famílias cujos pais não tiveram acesso à educação superior e bons empregos. A geração que alcançou a maioridade nos anos 1960-1980 ocupava majoritariamente empregos de baixa remuneração, na agricultura ou na indústria. Os filhos desta geração, por outro lado, estão crescentemente inseridos em instituições de Ensino superior e mesmo pós-graduação.

O país ainda não se adaptou totalmente a este salto econômico e as consequências disto refletem nas diferenças entre o comportamento dos mais velhos e das novas gerações. A renda per capita de sua população passou de menos de US$ 1,000.00 em 1978 para mais de US$ 8,800.00 ao final de 2017, sendo agora um país de renda média, contando com uma população de mais de 1,4 bilhão de pessoas.

Pirâmide etária da China em 2016

Neste sentido, existe um importante desafio ligado ao envelhecimento dos chineses, pois a população economicamente ativa do país deverá ter uma redução da ordem de 21 milhões de pessoas na próxima década. A China possui atualmente 150 milhões de indivíduos com mais de 65 anos. Seguindo valores confucianos tradicionais encapsulados no conceito de devoção aos pais (do inglês “filial piety”, ou “Xiào” em piniyn, ou mandarim simplificado), caberá aos millennials dedicar os cuidados adequados aos seus genitores.

Um assunto importante reside no tratamento às pessoas LGBT, visto que 94% dos chineses declaradamente LGBT tenha menos de 34 anos de idade. Pesquisas apontam que este grupo é constituído por mais de 70 milhões de indivíduos na China. No entanto, estima-se que apenas 5% destas pessoas sintam-se confortáveis para demonstrar abertamente a sua orientação em ambientes profissionais, com receio de sofrer represálias.

É comum que pessoas LGBT se casem com pessoas do gênero oposto, de modo a agradar à família ou às expectativas sociais. Mesmo assim, existe flagrante progresso em relação à aceitação dos LGBTs se comparado, por exemplo, ao período anterior à abertura e às reformas econômicas iniciadas nos anos 1970. Especialistas apontam que esta tendência deverá continuar crescendo, à medida que as novas gerações atinjam a idade economicamente ativa.

O Partido Comunista da China (PCC) está enfrentando o desafio de adaptação da economia nacional para um modelo mais fortemente pautado pelo consumo, com direcionamento para os setores de tecnologia e serviços qualificados. Será importante observar as mudanças no país nas próximas décadas, à medida que os Millennials assumirem importantes postos de comando político e econômico.

Por fim, será interessante observar a evolução deste processo de transformação dialética entre os valores chineses tradicionais, a tecnologia e o individualismo das gerações contemporâneas. A estabilidade institucional do PCC dependerá, em certa medida, de sua habilidade de navegar neste complexo e dinâmico cenário social, onde os novos profissionais valorizam crescentemente a liberdade e as suas próprias experiências. 

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Nota:

* O termo Millennials é usado para designer a geração de pessoas nascidas entre 1980-2000, que estão alcançando a idade adulta por volta das primeiras décadas do século XXI. Embora o termo não descreva um grupo demográfico preciso, a característica mais marcante desta geração é o contato com o meio digital, visto que estas pessoas cresceram cercadas pelos recentes avanços tecnológicos. Este termo foi criado inicialmente para a realização de análises de mercado, designando um grupo de consumidores. Devemos salientar que existem diversos recortes adicionais que podem ser realizados, considerando a diversidade socioeconômica, étnico-racial, de gênero, de credo religioso entre outros aspectos que contribuem para a diversidade dos Millennials. 

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Imagem de uma chinesa com um bebê” (Fonte): https://pixabay.com/pt/humanos-idade-jovens-beb%C3%AA-av%C3%B3-721364/

Imagem 2 Confúcio, filosofo chinês” (Fonte): https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Konfuzius-1770.jpg

Imagem 3 Imagem de uma millennial de origem asiática” (Fonte): https://www.pexels.com/photo/blur-chairs-earphone-fashion-371163/https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Deng_Xiaoping.jpg – /media/File:Deng_Xiaoping.jpg

Imagem 4 Pirâmide etária da China em 2016” (Fonte): https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Bev%C3%B6lkerungspyramide_China_2016.png#/media/File:Bev%C3%B6lkerungspyramide_China_2016.png

ANÁLISES DE CONJUNTURAÁSIA

O novo radar da marinha chinesa e a dinâmica securitária no sudeste asiático

No dia 8 de janeiro de 2019, o Governo da China anunciou que cientistas militares do país avançaram no desenvolvimento de um radar Over the Horizon (OTH) compacto e com capacidade para patrulhar uma área equivalente ao território indiano. O projeto se tornou público após Liu Yongtan, pesquisador líder do programa receber o maior prêmio científico da nação asiática pelas mãos do Presidente Xi Jinping. De acordo com Liu, “os equipamentos de vigilância e monitoramento chineses atuais cobrem apenas 20% do nosso território marítimo. Com o novo sistema, poderemos cobrir tudo” 

Conforme destaca Andrew Tate, oficial da reserva da marinha britânica, radares convencionais são limitados pelo horizonte, isto é; pelo ponto no qual a curvatura do planeta impede que as ondas transmitidas naveguem em linha reta. Radares OTH, por outro lado, emitem e captam ondas eletromagnéticas que são refletidas pela ionosfera terrestre e, por conta disso, são capazes de cobrir áreas muito maiores. Em contrapartida, eles consomem vastas quantidades de energia e precisam estar fixados em terrenos abertos e planos.

A inovação do radar OTH produzido pela equipe de Liu Yongtan consiste em seu tamanho compacto, o qual permitirá seu comissionamento em porta-aviões e garantirá a mobilidade necessária para os navios de guerra da China realizarem missões de patrulha em águas azuis. O aumento na demanda por energia das embarcações poderá ser suprido pelo novo gerador de 20-megawatt anunciado pela China Shipbuilding Industries no dia 25 de dezembro de 2018.

Radar OTH posicionado nos Estados Unidos

O anúncio do novo equipamento ocorre em uma conjuntura de acirramento das disputas de soberania no Mar do Sul da China. Nesse contexto, o radar OTH é fundamental para garantir a superioridade informacional das forças militares chinesas no perímetro territorial que o país reivindica. No entanto, é importante notar que a China não é a única a dominar essa tecnologia. Conforme destaca o South China Morning Post, a empresa Raytheon, contratada do Departamento de Defesa dos Estados Unidos, recebeu licença de patente para iniciar o desenvolvimento de equipamento similar em 2016.

No âmbito diplomático, por sua vez, o radar OTH chinês implica um aumento na percepção de ameaça dos países membros da Associação das Nações do Sudeste Asiático (ASEAN), bem como um desafio direto para presença naval dos Estados Unidos na região. Essa tensão ficou evidenciada no dia 2 de outubro de 2018, quando uma embarcação chinesa e um destroier estadunidense estiveram próximos de colidir acidentalmente no Mar do Sul da China.   

Xi Jinping, Presidente da China

Desse modo, o desafio que se impõe à política externa da China consiste na conciliação de dois imperativos estratégicos. Em primeiro lugar, sustentar um contínuo processo de aprimoramento tecnológico para que suas forças navais estejam sempre operacionalmente capacitadas para enfrentar a marinha estadunidense em uma eventual crise. Em segundo lugar, garantir um ambiente estável no sudeste asiático, o que requer a manutenção de relações diplomáticas amistosas com países os quais ela possui disputas territoriais em aberto.  

No curto prazo, a conciliação entre os dois objetivos parece plausível em função da interdependência econômica existente na região e pela errática política externa perseguida pelo governo dos EUA nos últimos dois anos. No entanto, no médio prazo, a taxa de crescimento chinês deve desacelerar e a influência política de Trump poderá desaparecer após as eleições presidenciais de 2020.

Neste novo cenário, o radar OTH projetado por Liu será, ao mesmo tempo, um importante componente da estratégia de defesa de Beijing e uma justificativa legítima para o recrudescimento da cooperação militar entre Washington e os demais países que possuem reivindicações territoriais no Mar do Sul da China. 

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Fontes das Imagens:

Imagem 1PortaAviões chinês realizando operações no pacífico ocidental” (Fonte): https://www.flickr.com/photos/rhk111/42032620622

Imagem 2Radar OTH posicionado nos Estados Unidos” (Fonte): https://en.wikipedia.org/wiki/Over-the-horizon_radar#/media/File:ROTHR_USNavy_a.png

Imagem 3Xi Jinping, Presidente da China” (Fonte): https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/1/15/Xi_Jinping_%282017-07-07%29.jpg/800px-Xi_Jinping_%282017-07-07%29.jpg

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Quarenta anos do processo de abertura e reformas na China

(1978-2018)

O ano de 1978 é o marco histórico do início dos processos de abertura e reformas na República Popular da China (RPC). Conduzidas por Deng Xiaoping (mandato de 1978-1989), as reformas rumo ao desenvolvimento tornaram-se um norte na política do país em todos os governos que o sucederam. O ano de 2018 marca os quarenta (40) anos deste processo que pode aportar exemplos de boas práticas em políticas públicas para outras nações emergentes.

Governado pelo Partido Comunista da China (PCC), o país tirou 800 milhões de pessoas da linha de pobreza segundo relatórios do Banco Mundial. Além disto, a renda per capita de sua população passou de menos de US$ 1,000.00* em 1978 para mais de US$ 8,800.00* ao final de 2017, sendo agora um país de renda média, contando com uma população de 1,4 bilhão de pessoas. A RPC representava 3% da economia global quando Deng Xiaoping iniciou o seu mandato e agora o PIB representa 19% do total mundial.

Deng Xiaoping, mandatário da China entre 1978-1989

O seu governo terminou conjuntamente com a Guerra Fria e, naquela conjuntura, o cenário internacional se encontrava em um momento no qual a existência de democracias no campo político, aliadas ao capitalismo liberal no campo econômico, pareciam ter triunfado como os modelos mais adequados para se atingir o desenvolvimento e prosperidade através das nações.

Neste contexto, o filósofo, economista e politólogo nipo-americano Francis Fukuyama declarou sua célebre frase, na qual afirmava que a humanidade havia chegado ao fim da história. Partindo de uma perspectiva considerada pelos analistas como ligeiramente etnocêntrica, vários especialistas vieram prevendo a queda do regime e uma grande crise econômica na China desde o início dos anos 1990. O país deveria obrigatoriamente tornar-se uma democracia ou estaria fadado ao fracasso em seu processo de desenvolvimento.

Entretanto, quase trinta anos depois e uma década após o colapso da economia global em 2008, as democracias liberais enfrentam crises em vários países desenvolvidos através da Europa, da América Latina e até mesmo nos Estados Unidos. Níveis crescentes de desigualdade de renda e patrimônio, bem como a perda de legitimidade dos governantes entre os eleitores vêm apresentando desafios para os regimes democráticos em grande parte do Ocidente.

Pirâmide etária da China em 2016

A China certamente possui problemas a serem resolvidos, incluindo: a desigualdade entre as regiões leste e oeste do país; questões ambientais e de sustentabilidade; problemas demográficos ligados ao envelhecimento de sua população; inflação no setor imobiliário, entre outros. Por isso, tem-se falado internacionalmente que não se trata de defender o regime político chinês, mas observar os exemplos externos de forma pragmática. 

Como já disse o próprio Deng Xiaoping: “Eu não ligo se o gato é preto ou branco, contanto que seja bom em pegar ratos”. O mandatário visava afirmar que mais importante do que ideologias devem ser as preocupações com o desenvolvimento econômico e o espraiamento do bem-estar para a maior parte da população. Neste sentido, busca-se as melhores lições que possam ser apreendidas tanto do modelo de democracias liberais, quanto do modelo de capitalismo de Estado da China.

Deng Xiaoping pautou suas reformas nas quatro grandes modernizações: 1) modernização da agricultura; 2) modernização das Forças Armadas; 3) modernização da indústria; 4) desenvolvimento da ciência e tecnologia.

No campo da agricultura foi promovido maior engajamento e responsabilidade junto aos proprietários rurais, rumo ao objetivo de tornar o país autossuficiente na produção de alimentos. A modernização das Forças Armadas teve como foco a redução da grande burocracia então existente e a adaptação ao uso de equipamentos de maior intensidade tecnológica.

Na questão industrial foram promovidas medidas no sentido de reformar as indústrias pesadas intensivas no uso de capital, modelo herdado da União Soviética, para indústrias leves, intensivas em mão-de-obra, fator de produção que a China possuía em abundância. Além disso, pautou-se pela promoção das exportações, seguindo o modelo trilhado anteriormente por outros países do leste asiático. A China utilizou igualmente a venda de petróleo para adquirir bens de capital e máquinas que possibilitassem a sua modernização, ao invés de usar essas receitas para adquirir bens de consumo.

Na questão de ciência e tecnologia, abriram-se zonas econômicas especiais no sudeste do território chinês, buscando atrair investimentos e integrar o país ao comércio internacional. Além disto, utilizou-se do tamanho do mercado doméstico e do baixo preço da mão-de-obra local como fatores de barganha para facilitar a transferência de tecnologia por parte de empresas estrangeiras que viessem se instalar no seu território. Inicialmente, qualquer empresa que desejasse investir na China deveria obrigatoriamente estabelecer uma joint venture com uma empresa local.

Distribuição setorial das exportações da China no ano de 2014, separadas por setor

Desde então, algumas das políticas utilizadas pelos mandatários que sucederam a Deng Xiaoping podem ser sintetizadas em: 1) grandes investimentos em infraestrutura pela parte do Estado chinês; 2) Investimento em ciência, tecnologia e inovação, de modo a aumentar a sofisticação da sua estrutura produtiva; 3) investimento na educação básica e superior, incluindo intercâmbios universitários no exterior; 4) Proteção às indústrias nascentes e subsídios às empresas chinesas, além de uma política monetária e fiscal que fomentou a competitividade das exportações com elevado conteúdo nacional.

Apesar das particularidades do caso chinês, existem exemplos de práticas neste processo histórico de desenvolvimento econômico que poderiam ser replicados, sobretudo no sentido de incentivar a pesquisa, o desenvolvimento de tecnologia e a inovação. A partir do modelo usado, observa-se que o alto investimento em educação deve ser acompanhado de uma política industrial visando promover indústrias locais e evitar a fuga de cérebros. Além disso, o investimento em infraestrutura de qualidade é essencial. Nestas áreas, é preciso que haja o envolvimento estatal, visto que a expectativa de lucro vem nos médios e longos prazos, o que acaba, por vezes, afastando o capital privado que costuma possuir expectativa de retornos mais imediatos.

A perda de legitimidade de alguns dos regimes democráticos no Ocidente se deve, entre outros aspectos, pelo sentimento de exclusão de grande parte da população local dos benefícios do crescimento econômico das últimas décadas. Nesse sentido, observando a prática até o momento vitoriosa da China, conclui-se também que o emprego de políticas inclusivas que visem fomentar indústrias domésticas e integrar-se à economia global de forma competitiva poderiam auxiliar no aumento da legitimidade dos regimes democráticos. As maiores lições que poderiam ser analisadas neste contexto advêm do pragmatismo e do pensamento de estratégias de longo prazo, no sentido de fomentar a inclusão do povo nos processos de desenvolvimento.

Por fim, a China se encontra em uma encruzilhada no seu processo de (re)ascensão rumo ao topo da economia global. Existem ainda diversas reformas a serem feitas, incluindo a necessidade de promover um modelo de crescimento que seja ambientalmente sustentável. Especialistas apontam ainda que os próximos anos deverão apresentar um crescimento mais moderado no PIB chinês, fator que tende a se agravar no contexto das disputas comerciais e tecnológicas com os Estados Unidos.

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Nota:

* Aproximadamente, 3.709 reais e 32.640 reis, respectivamente, conforme a cotação de 15 de janeiro de 2019.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Bandeira e mapa da China sobrepostos sobre o mapa mundi” (Fonte): https://pixabay.com/pt/china-mapa-china-mapa-%C3%A1sia-pa%C3%ADs-2965333/

Imagem 2 Deng Xiaoping, mandatário da China entre 19781989” (Fonte): https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Deng_Xiaoping.jpg#/media/File:Deng_Xiaoping.jpg

Imagem 3 Pirâmide etária da China em 2016” (Fonte): https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Bev%C3%B6lkerungspyramide_China_2016.png#/media/File:Bev%C3%B6lkerungspyramide_China_2016.png

Imagem 4 Distribuição setorial das exportações da China no ano de 2014, separadas por setor” (Fonte): https://commons.wikimedia.org/wiki/File:2014_China_Products_Export_Treemap.png#/media/File:2014_China_Products_Export_Treemap.png

ANÁLISES DE CONJUNTURAÁSIA

O futuro da Família Imperial japonesa

O ano de 2019 será marcado por uma nova Era no Japão: o Imperador Akihito, de 85 anos, abdicará, deixando que seu herdeiro, o Príncipe Naruhito, tome a posição. No dia 30 de abril deste ano (2019) acontecerá a cerimônia de abdicação, enquanto no dia seguinte, 1o de maio, será a transferência do Trono e Joias da Coroa Japonesa*, e possivelmente a escolha do novo nome da Era Imperial, que altera conforme o período de cada Imperador, assim como o início da contagem dos anos conforme o calendário imperial. A coroação em si está marcada para o dia 22 de outubro.

A Era Heisei, iniciada em 1989 quando Akihito assumiu o Trono após o falecimento do Imperador Hirohito, tem o diferencial de terminar com o ex-Imperador vivo: via de regra, a mudança de monarca só ocorria em caso de morte, razão pela qual foi necessário um Projeto de Lei, aprovado pelo Congresso, que permitisse que a abdicação ocorresse.

Não somente a questão legal, mas também o aspecto financeiro e cerimonial do evento foram discutidos entre os congressistas. A ausência de poder político da Família Imperial, conforme consta na Constituição do Japão pós-Segunda Guerra, gerou debates se os ritos anteriores, quando o então Imperador era considerado divino, deveriam ser mantidos, além do financiamento da solenidade ser realizado com dinheiro público – estimados em cerca de 2,7 bilhões de ienes, aproximadamente 2,48 milhões de dólares, ou próximo de 9,23 milhões de reais, conforme a cotação de 10 de janeiro de 2019**.

O custeio causou indignação de alguns grupos religiosos e cidadãos, que, somados em 241 pessoas, entraram com um processo contra o Governo, alegando que, pelo seu forte caráter religioso, a coroação e demais festividades que acompanham a coroação de um novo Imperador (como o Daijosai, festival da colheita, realizado em novembro), são inconstitucionais e pressionam grupos que não seguem o xintoísmo, base dos eventos.

Joias da Coroa Japonesa

Ainda que a manutenção dos ritos tenha permanecido, resta saber se a força simbólica da Família Imperial também seguirá este caminho. A Era Heisei era caracterizada como a “consolidação da paz”, iniciada no ano da queda do Muro de Berlim, 1989. Já o novo período poderá ser marcado pelos novos desafios, como o encolhimento da população, a demanda por mão de obra, a entrada de um alto número de estrangeiros no país, além da realização dos Jogos Olímpicos em Tóquio, e como o simbolismo do Império, já sem influência política, permanecerá relevante.

O sucesso nessa nova conjuntura pode favorecer a popularidade do novo Imperador, entretanto, outro fator pode acarretar na não manutenção da Família: Nahurito não possui herdeiros homens, e, portanto, levanta uma questão importante, que diz respeito à aceitação de herdeiras mulheres ao Trono. Caso essa tradição não seja alterada, o próximo da linhagem seria seu irmão, Príncipe Akishino, que tem duas filhas e um filho.

A Família em si já está passando por uma redução de integrantes, com a saída da Princesa Ayako que se casará com um cidadão comum, seguindo os passos de sua irmã, a Princesa Mako, também casada em 2014, fazendo repensar se a Lei Imperial de 1947, que impede que Princesas continuem integrando a nobreza após um casamento com alguém não nobre. Nesse sentido, conclui-se que a Instituição terá que lidar com novos tempos e novos questionamentos no embate entre a tradição e modernidade.

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Notas:

* São as joias imperiais: a espada santa Kusanagi, a joia santa Yasakani no magatama e o espelho santo Yata no Kagami. Imperadores japoneses não utilizam coroas.

** Conforme conversão em:

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Joias da Coroa Japonesa” (Fonte): https://en.wikipedia.org/wiki/Imperial_Regalia_of_Japan#/media/File:%E4%B8%89%E7%A5%9E%E5%99%A8.png

Imagem 2 Família Imperial” (Fonte): https://en.wikipedia.org/wiki/Imperial_House_of_Japan#/media/File:Emperor_Akihito_and_Empress_Michiko_with_the_Imperial_Family_(November_2013).jpg