ANÁLISES DE CONJUNTURAÁSIA

Xi Jinping promete criar um sistema de saúde pública robusto para garantir a estabilidade da China

O Presidente da China, Xi Jinping, prometeu construir um forte sistema de saúde pública, afirmando que é crucial para a estratégia de desenvolvimento e a segurança nacional da China. Xi assumiu o compromisso em um discurso de alto perfil no Grande Salão do Povo, em Pequim, na terça-feira (2 de junho de 2020), em uma reunião a portas fechadas com vários dos principais especialistas em medicina e saúde pública, incluindo o especialista em doenças respiratórias, Zhong Nanshan, informa o jornal South China Morning Post.

Na reunião, Xi se comprometeu a direcionar recursos para criar uma rede de saúde pública que vincule governos centrais e locais, agências de controle e prevenção de doenças, laboratórios, hospitais e institutos de saúde de base, bem como escolas de saúde pública para garantir identificação e respostas rápidas a surtos de novas doenças infecciosas. Também ordenou a persecução de melhor coordenação e disciplina para que as brechas técnicas sejam suprimidas. “A segurança das pessoas é a pedra angular da segurança nacional … Um sistema de prevenção de doenças é … importante para garantir a estabilidade econômica e social”, apontou o Mandatário chinês.

Enfermeira atendendo paciente no Hospital Hubei TCM, em Wuhan

É a declaração mais recente de Xi para mostrar sua liderança na revisão do sistema de saúde da China, após a emergência da pandemia de coronavírus, que matou 380.000 pessoas em todo o mundo (até 5 de junho de 2020).

Xi realizou vários discursos sobre o fortalecimento do sistema de saúde pública, com os detalhes mais recentes sobre as ações tomadas pelo governo. “Um mecanismo de investimento estável no sistema de saúde deve ser estabelecido para melhorar a infraestrutura do sistema de controle e prevenção de doenças”, afirmou o Chefe de Estado chinês. Para Xi, os centros de controle de doenças e hospitais também devem “estabelecer um mecanismo para compartilhar informações, recursos e supervisionar uns aos outros”, enquanto várias escolas de saúde pública de alto nível devem ser estabelecidas para promover a experiência em pesquisa de patógenos, epidemiologia e testes laboratoriais.

Yanzhong Huang, pesquisador sênior de saúde global do Conselho de Relações Exteriores, de Washington, observou: “O investimento pós-Síndrome Respiratória Aguda Grave (SARS)* da China em suas capacidades de vigilância e resposta a doenças realmente valeu a pena, como mostra sua capacidade de concluir a sequência do genoma da Covid-19 em um período muito curto. Mais investimentos nessa área ajudariam a corrigir as brechas no sistema de saúde pública.

———————————————————————————————–

Notas:

* A Síndrome Respiratória Aguda Grave, causada pelo vírus Sars-Cov-1, é uma doença identificada pela primeira vez na China, que ocasionou uma pandemia global entre 2002 e 2004, infectando 8.098 pessoas.

———————————————————————————————–

Fontes das Imagens:

Imagem 1 O Presidente da China, Xi Jinping” (Fonte):

https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Xi_Jinping_at_Great_Hall_of_the_People_2016.jpg

Imagem 2 Enfermeira atendendo paciente no Hospital Hubei TCM, em Wuhan”(Fonte):

https://commons.wikimedia.org/w/index.php?sort=relevance&search=hospital+wuhan&title=Special:Search&profile=advanced&fulltext=1&advancedSearch-current=%7B%7D&ns0=1&ns6=1&ns12=1&ns14=1&ns100=1&ns106=1#/media/File:A_nurse_measuring_the_body_temperature_for_outpatients_in_Hubei_TCM_Hospital.jpg

ANÁLISES DE CONJUNTURAÁSIA

China abandona meta de crescimento econômico para 2020, devido à pandemia

A China não estabelecerá uma meta de crescimento para 2020, constituindo um acontecimento inédito. O primeiro-ministro Li Keqiang confirmou o fato no Congresso Nacional do Povo, em Pequim, na sexta-feira (22 de maio de 2020). A medida já era esperada por alguns observadores, com a economia se contraindo 6,8% no primeiro trimestre de 2020, sob enorme pressão da pandemia de coronavírus, informa o jornal South China Morning Post.

O relatório de trabalho do Congresso enfatizou: “Não estabelecemos a meta específica do produto interno bruto principalmente devido à pandemia global e às grandes incertezas na economia e no comércio”, acrescentando que a China estava enfrentando uma época “imprevisível”. O governo chinês, no entanto, estabeleceu uma meta de criar 9 milhões de novos empregos urbanos, em comparação com 11 milhões em 2019, e uma taxa de desemprego urbana avaliada em torno de 6%, em comparação com 5,5% em 2019. No ano passado (2019), a China gerou 13,52 milhões de novos empregos urbanos.

Pequim estabeleceu uma cota de títulos especiais de 3,75 trilhões de yuanes (aproximadamente 2,9 trilhões de reais, de acordo com a cotação do dia 22 de maio de 2020). Emitirá 1 trilhão de yuanes (aproximadamente 775,5 bilhões de reais) em títulos especiais do Tesouro, visando um déficit fiscal de 3,6%.

Rua deserta em Wuhan, durante a quarentena por causa da pandemia de coronavírus, em janeiro de 2020

O relatório de trabalho também frisou: Devemos deixar claro que os esforços para estabilizar o emprego, garantir os padrões de vida, eliminar a pobreza e prevenir e neutralizar os riscos devem ser sustentados pelo crescimento econômico; portanto, garantir um desempenho econômico estável é de importância crucial”.E continuou: “Precisamos perseguir a reforma e a abertura como um meio de estabilizar o emprego, garantir o bem-estar das pessoas, estimular o consumo, energizar o mercado e alcançar um crescimento estável. Precisamos abrir um novo caminho que nos permita responder efetivamente a choques e sustentar um ciclo de crescimento positivo”.

O vírus inicialmente interrompeu grandes setores da economia chinesa, prejudicando as cadeias de suprimentos e as exportações do país. Mas, agora fechou vários dos principais mercados da China, o que significa que a economia está enfrentando uma segunda onda de choque no desaparecimento da demanda por seus produtos no exterior. O Fundo Monetário Internacional (FMI) previu um crescimento de 1,2% da economia chinesa para 2020, após a paralisia causada pelo coronavírus. Isso seria um mínimo anual histórico, porém ainda é maior do que algumas previsões do setor privado.

Enquanto isso, a inflação ao consumidor disparou durante o segundo semestre de 2019 e no início de 2020, principalmente devido à escassez de carne de porco decorrente de um surto de peste suína africana, que causou a morte de mais de 100 milhões de porcos. O Índice de Preços ao Consumidor (IPC) chinês, que é o preço ponderado de uma cesta de mercadorias, subiu 5,2% em fevereiro de 2020, uma alta de oito anos. A taxa de inflação caiu, desde então, para 3,3% em abril de 2020, com os consumidores reduzindo os gastos após a pandemia de coronavírus, enfraquecendo as pressões sobre os preços.

———————————————————————————————–

Fontes das Imagens:

Imagem 1 PrimeiroMinistro da China, Li Keqiang, em Pequim” (Fonte):

https://commons.wikimedia.org/w/index.php?sort=relevance&search=Li+Keqiang&title=Special:Search&profile=advanced&fulltext=1&advancedSearch-current=%7B%7D&ns0=1&ns6=1&ns12=1&ns14=1&ns100=1&ns106=1&searchToken=5hqdtot4dqvil71y67jkmn3o5#%2Fmedia%2FFile%3ALi_Keqiang%2C_Chinese_and_foreign_press_conference.jpg

Imagem 2 Rua deserta em Wuhan, durante a quarentena por causa da pandemia de coronavírus, em janeiro de 2020” (Fonte):

https://commons.wikimedia.org/w/index.php?title=Special:Search&limit=20&offset=40&profile=default&search=Wuhan+pandemic&advancedSearch-current={}&ns0=1&ns6=1&ns12=1&ns14=1&ns100=1&ns106=1#/media/File:Huiming_road_,Wuhan_during_2019-nCoV_coronavirus_outbreak.jpg

AMÉRICA LATINAANÁLISES DE CONJUNTURAÁSIA

Panorama para o futuro das relações entre a China e a América Latina

A presença da China na América Latina cresceu significativamente na última década. O país é o principal parceiro comercial da América do Sul e o segundo maior parceiro comercial da América Latina, ficando atrás apenas dos Estados Unidos. Segundo dados divulgados pela Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL), a China representa 11% das exportações regionais e 18% das importações. A próxima década será decisiva para as relações entre os chineses e os países latino-americanos. Nesse sentido, é importante compreender o panorama histórico e as perspectivas para o futuro.

O movimento de estabelecimento de relações com a China iniciou no governo de Mao Zedong (1949-1976), logo no princípio da década de 1970. Inicialmente, estabeleceram-se relações com 11 países: Chile, Peru, México, Argentina, Guiana, Jamaica, Trinidad e Tobago, Venezuela, Brasil, Suriname e Barbados. O sucessor de Mao Zedong, Deng Xiaoping (1978-1989), aprofundou esta tendência na década de 1980 executando uma política externa pragmática, e buscando parcerias político-diplomáticas e econômicas que pudessem auxiliar e legitimar a participação chinesa no sistema internacional*.

Mapa demonstrando a divisão entre o Sul Global e o Norte desenvolvido

Começando os anos 1990 houve uma expansão da política externa chinesa para a região, visando à obtenção de recursos naturais para fomentar o seu processo de desenvolvimento econômico. A partir de 1993 a China deixa de ser autossuficiente em matéria de energia e a busca por recursos naturais e alimentos torna-se necessária por questões econômicas e de segurança. Ressalta-se que as relações com a região são enquadradas no âmbito Sul-Sul** e crescem igualmente iniciativas de cooperação científica e tecnológica com diversos países.

Este processo se amplia a partir de 2001, quando a China ingressa oficialmente na Organização Mundial do Comércio (OMC) e lança a sua estratégia Going Global, que visava à expansão das empresas chinesas com o objetivo de garantir o acesso a recursos naturais. O século XXI marca o início de uma estratégia diplomática chinesa que enfatiza três elementos: 1) a ascensão pacífica da China como poder regional e global; 2) o conceito de um mundo multipolar; 3) a visão das Organizações Internacionais como principais instrumentos de política externa da China, sobretudo fora da Ásia.

Corroborando as afirmações anteriores, o país se torna Observador Permanente junto à Organização dos Estados Americanos (OEA) em maio de 2004. Da mesma forma, a China obteve o status de Observador Permanente na Comissão Econômica para a América Latina e Caribe (CEPAL), na Associação Latino-Americana de Integração (ALADI), no Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e no Parlamento Latino-Americano (PARLATINO).

Mandatários chinês Xi Jinping participando de uma reunião de Cúpula acerca dos meios de comunicação na América Latina

Em 2015, a China e a Comunidade dos Países Latino-Americanos e Caribenhos criaram o Fórum China-CELAC, um canal de diálogo para promover a cooperação chinesa com a região. Durante a segunda reunião ministerial do Fórum, o país convidou oficialmente a América Latina para juntar-se à Belt and Road Initiative (BRI), também conhecida como a Nova Rota da Seda, a principal iniciativa de política externa do mandatário Xi Jinping.

Adicionalmente, a América Latina vem crescendo como destino para os investimentos estrangeiros diretos (IED) da China. O estoque de IED chinês na região entre 2005-2019 está estimado em US$ 175,52 bilhões (em torno de 913,13 bilhões de reais, conforme cotação do dia 16 de abril de 2020), sendo que os principais setores de destino são: energia (57%); mineração (20%) e transporte e logística (11%), seguidos de diversos segmentos com valores menos expressivos. Com relação à modalidade de entrada do IED, estima-se que 62% seja realizado através de fusões e aquisições. Isto quer dizer objetivamente que a maior parte dos investimentos consistiu na compra de empresas locais e estrangeiras atuando na região.

Analistas apontam que a importância da China para o Sistema internacional continuará a crescer nas próximas décadas. O país emitiu dois White Papers delineando sua política externa para a América Latina, em 2008 e 2016. Isto mostra que o Governo chinês tem uma visão para a cooperação com a região, por outro lado, o contrário não ocorreu. Ou seja, a América Latina não articulou uma visão estratégica conjunta em relação ao aumento da presença chinesa. A conjuntura atual, na qual diversos países da região estão sofrendo crises econômicas, dificulta que tal iniciativa seja realizada.

Imagem demonstrando a composição das exportações chinesas, extraída do Atlas da Complexidade Econômica

Embora a China ainda se considere uma nação em desenvolvimento, o país é hoje a segunda maior economia mundial e já lidera em diversos segmentos da indústria, tendo passado por intenso processo de catching up em sua estrutura produtiva. A América Latina, por outro lado, não passou por um processo tão intenso de industrialização e desenvolvimento. A região é composta por países com economias muito heterogêneas, portanto é difícil falar da região como um todo. Não obstante, ao observar a estrutura produtiva e de exportações da maior economia local, o Brasil, a dicotomia fica clara: percebe-se uma estrutura produtiva menos diversificada e menos sofisticada/industrializada.

Portanto, embora os intercâmbios entre a China e a América Latina ainda sejam conceitualmente relações Sul-Sul, a disparidade de recursos fica evidente. É imperativo que se criem estratégias, planejamentos de longo prazo para a cooperação com a China, que busquem enfatizar a possibilidade de cooperação científica e tecnológica, e o upgrading industrial dos países latino-americanos. Esta é uma tarefa muito complexa, visto que a indústria chinesa compete em vários dos segmentos nos quais a indústria local possui expertise e especialização.

Imagem demonstrando a composição das exportações brasileiras, extraída do Atlas da Complexidade Econômica

Existe espaço e grande potencial para a cooperação com os chineses em áreas como construção de infraestrutura, âmbito no qual a América Latina é notoriamente deficitária e a China possui capital e experiência. A área de energias renováveis é outro exemplo notável para o desenvolvimento da cooperação bilateral nas próximas décadas. É importante salientar a cooperação com Brasil no desenvolvimento aeroespacial, mostrando um exemplo no qual há transferência de tecnologia e ganhos entre ambas as partes.

Entretanto, a conjuntura que está se delineando devido à ameaça global do coronavírus trará imensos desafios para os países latino-americanos, vários do quais já enfrentavam crises econômicas antes da pandemia. Este fator provavelmente prejudicará a capacidade da região de articular estratégias a nível internacional, à medida que as economias locais ficarão mais preocupadas com o seu contexto doméstico. Autoridades projetam uma queda de 2% no PIB global em 2020, evidenciando esta tendência.

A instabilidade econômica poderá acentuar a instabilidade política. Se este cenário se consolidar, deverá aumentar o risco de erosão das instituições em diversas democracias locais. É uma conjuntura que exige extrema cautela e conscientização popular. Uma vez passado o surto epidêmico, é importante que seja reforçada a cooperação internacional como um dos instrumentos capazes de auxiliar no desenvolvimento da América Latina, desde que os países da região saibam articular os seus projetos de desenvolvimento.

É necessário reforçar a promoção de iniciativas que incluam a transferência de conhecimento e tecnologia e o desenvolvimento industrial da América Latina, e não apenas fomentar a venda de empresas e a exportação de bens agrícolas e commodities. Para isto, será necessária a ação de líderes pragmáticos que não realizem alinhamentos automáticos. O futuro da América Latina vai exigir muita diplomacia, políticos competentes e mobilização popular acerca da promoção do desenvolvimento local e a preservação das instituições democráticas.

———————————————————————————————–

Notas:

* Naquele momento o país estava promovendo a sua política de reformas e abertura lançada em 1978, inaugurando uma nova fase na política externa chinesa. Para maiores informações: https://ceiri.news/quarenta-anos-do-processo-de-abertura-e-reformas-na-china/.

** As relações Sul-Sul não dizem respeito necessariamente a países que pertençam ao hemisfério sul do planeta, mas faz referência ao seu estágio de desenvolvimento. O conceito se refere aos países que integram o Sul global e que estão trilhando o seu caminho de desenvolvimento econômico. Por relações Sul-Sul, entende-se que haja uma proximidade entre os recursos de poder das partes, diferentemente do que se estabelece quando um país desenvolvido negocia com um país emergente. Neste caso, refere-se como relação Norte-Sul, onde a disparidade de poder e recursos é maior. 

———————————————————————————————–

Fontes das Imagens:

Imagem 1 Mapa demonstrando os países da América Latina” (Fonte): https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/6/63/Latin_America_%28orthographic_projection%29.svg/1024px-Latin_America_%28orthographic_projection%29.svg.png

Imagem 2 Mapa demonstrando a divisão entre o Sul Global e o Norte desenvolvido” (Fonte): https://en.wikipedia.org/wiki/Global_South#/media/File:North_South_divide.svg

Imagem 3 Mandatários chinês Xi Jinping participando de uma reunião de Cúpula acerca dos meios de comunicação na América Latina” (Fonte): https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Presidenta_asiste_a_la_inauguraci%C3%B3n_de_la_Cumbre_de_L%C3%ADderes_de_Medios_de_Comunicaci%C3%B3n_China-Am%C3%A9rica_Latina_(31052691622).jpg

Imagem 4 Imagem demonstrando a composição das exportações chinesas, extraída do Atlas da Complexidade Econômica” (Fonte): https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/e/ec/2014_China_Products_Export_Treemap.png

Imagem 5 Imagem demonstrando a composição das exportações brasileiras, extraída do Atlas da Complexidade Econômica” (Fonte): https://commons.wikimedia.org/wiki/File:2014_Brazil_Products_Export_Treemap.png

ANÁLISES DE CONJUNTURAÁSIA

Questionamentos sobre a acusação de responsabilidade da China pela pandemia Covid-19

A população mundial está passando por uma fase jamais imaginável, uma quarentena em nível global, por temer um vírus que em poucos meses já se manifestou em todos os continentes. Fábricas tiveram atividades modificadas, eventos sociais, comerciais e esportivos cancelados, o estilo de vida, rotinas de autoridades e cidadãos foram alterados, muitos ficaram completamente parados e a crise hoje instaurada que afeta a saúde pública, bem-estar e economia global fica carente de um culpado, e a China, onde ocorreu o surto inicial, se torna o grande candidato para receber essa responsabilidade.

No noticiário internacional é comum ver personalidades apontando os chineses pela proliferação do vírus. O Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, entre outras autoridades, assim como diversas figuras públicas em altos cargos do governo brasileiro, fazem comentários culpando o governo chinês e o povo chinês pelo Covid-19. Alguns concordam e outros discordam dessas acusações, assim como o diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas e Conselheiro Científico da Casa Branca, Anthony Fauci, porém tais afirmações fizeram crescer o sentimento anti-China, e em algumas regiões o sentimento anti-asiático, trazendo problemas em curto, médio e a longo prazos.

Embora o mundo esteja globalizado e grande parte da população mundial esteja conectada aos meios de comunicação, os seres humanos ainda carecem de informações objetivas e verídicas e de outros meios para criar elos, obter respostas e entender sobre as diversidades culturais, econômicas e os riscos existentes ainda não explorados que envolvam a saúde global. A história prova que apenas em poucos casos ou em casos com extremo grau de periculosidade houve a cooperação.

No ano de 1333, a Europa e Ásia sofreu com a Peste Negra; em 1817 tivemos a Cólera; a Tuberculose manifestou-se com grau de emergência em 1850; a Varíola em 1896; a Gripe Espanhola em 1918; a Febre Amarela e o Sarampo na década de 1960; a Malária e a AIDS mostraram-se de forma emergencial nos anos 1980. Essas foram consideradas grandes epidemias ao longo da história  que mataram vários milhões de pessoas em suas respectivas épocas, e boa parte delas estavam ligadas ao estilo de vida humano, sua higiene e alguma espécie de animal envolvida na sua origem ou propagação.

Desde e década de 1960 o coronavírus esteve presente nos livros de medicina: HcoV-229E (1960), SARS-CoV (2002), HcoV-OC43 (2004), HcoV-NL63 (2004), HcoV-HKU1 (2005), MERS-CoV (2012) e o causador da COVID-19, SARS-CoV-2 (2019). Todos eles afetaram os seres humanos, diferenciando de algum animal, Alpaca, Morcego, Cobras e carne bovina, como ponte para o contágio humano, que são fontes de alimento para certas populações no mundo.

No livro: Spillover: Animal Infections and the Next Human Pandemic (2012-2013), o autor David Quammen viajou o mundo entrevistando dezenas de cientistas sobre zoonoses que viraram doenças humanas e, não apenas ele, mas muitos chegam à conclusão de que a intervenção humana nos habitats mais antigos de certas espécies resulta no surgimento de algum tipo de doença causada por vírus e bactérias, entre outros agentes causadores.

Os morcegos são tidos como os principais reservatórios para vírus potencialmente prejudiciais aos humanos, e a interação de humanos e animais propicia o salto desses agentes, indo dos animais para as pessoas, facilitando, assim, a gama de novos hospedeiros para ele. Segundo o virologista Paulo Brandão, expert em coronavírus entrevistado pela coluna de saúde da Editora Abril, estuda-se a hipótese de o vírus ir adentrando em contato com os humanos e criando estratégias para fazer o salto; e também outra hipótese baseada no salto através de um morcego que já estava contaminado com diversos tipos de coronavírus.

Teste NAT realizada por especialistas em Shanghai

Foi comprovado por estudos de cientistas estadunidenses, ingleses e australianos que o SARS-CoV-2 foi originado naturalmente por seleção natural e não foi criado em laboratório, porém, mesmo com todos os registros históricos existentes e estudos sobre a origem, ainda há especulações de que os chineses manipularam o COVID-19 objetivando vantagens econômicas.

A partir do momento em que se tem informações concretas sobre vírus e bactérias prejudiciais à espécie humana, teorias da conspiração, especulações e acusações sobre culpados por doenças como o novo coronavírus confirmam apenas a interpretação de que o mundo ainda não está preparado para cooperação por um bem comum e agentes e líderes mundiais continuam como em séculos anteriores, agindo de forma pragmática, voltados para seus próprios interesses e passando a responsabilidade de males comuns ao próximo.

Analistas têm apontado que com tantos registros sobre a família do coronavírus, pouco tem sido informado sobre estudos conjuntos para prevenção e medidas de urgência no caso de ele se tornar um risco universal. Alguns especialistas culpam governos por investirem em tecnologias bélicas se preparando para uma possível guerra futura e pouco investido na cooperação para melhoria da vida humana e da economia como um todo.

Nesse sentido, acompanhando tais observações, o Covid-19 tem sido visto como um indicativo de que o mundo está despreparado para epidemias globais, mesmo após milhões de pessoas terem morrido em épocas mais remotas, que eram carentes de tecnologia como temos na atualidade.

O vírus surgiu no sul da China, região com concentração enorme de pessoas por metro quadrado e onde muitas se espalham pelo sul e sudeste asiático e, mesmo após ver as medidas de quarentena e construção de centros para tratamento da epidemia em velocidades espantosas, os líderes mundiais demoraram para tomar atitudes e criar plano de ação para o combate da pandemia. Hoje, há uma Europa com números superiores aos dos chineses em novos casos e, conforme tem sido apontado pela mídia e por observadores internacionais, países do continente americano não deram devida atenção ao risco, criando planos emergenciais de forma tardia.

O noticiário mais recente está baseado em discussões de importantes autoridades, como o prefeito de Nova York, Bill de Blasio, e o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, com acusações mútuas sobre problema no país e com discordância sobre o vírus fora dos EUA. O discurso do líder estadunidense e dos líderes brasileiros convergem em relação a acusações contra Beijing, trazendo o risco apontado por economistas e analistas políticos de que tais argumentos podem pôr em xeque as relações comerciais e diplomáticas entre as nações e as grandes potências econômicas mundiais, gerando tensões que podem abalar o mundo e não apenas os envolvidos.

Em contrapartida, há notícias, de certa forma positiva na Ásia, de médicos, cientistas e autoridades focadas em combater o problema. O governo chinês elogiou oficialmente médicos japoneses pelo desenvolvimento de medicamento contra gripe, o Faviparavir, que, na prática, acelerou na recuperação de pacientes com o Covid-19, e pode-se ver claramente uma mobilização social de apoio entre os povos asiáticos no combate ao forte surto de preconceito contra orientais pelo mundo.

Empresas chinesas retomam, aos poucos, suas atividades

Com a atual pandemia, observam-se pequenos traços de mobilização para cooperação em combate ao vírus, além de medidas de quarentena e cuidados internos de cada país. Nesse sentido, de forma positiva, ressalta-se que Britânicos e chineses vão apoiar a Organização Mundial da Saúde (OMS) no combate ao Covid-19, bem como líderes da França e da China estão estudando a cooperação multilateral para controle dessa pandemia e prevenção contra possíveis ameaças futuras à saúde global.

Acompanhando as notícias asiáticas, é vista forte mobilização de equipes da China no sul e sudeste asiático, principalmente em regiões mais carentes, como o Camboja, e uma maior comunicação entre profissionais da saúde entre coreanos, chineses e japoneses por um bem comum. Além da atuação forte com seus vizinhos, doações de suprimentos médicos chineses chegam à América Latina para auxiliar os agentes locais no combate a epidemia no continente.

Especialistas têm aconselhado que é necessário avaliar as ações e postura do país onde ocorreu o surto inicial do Covid-19, antes de se especular sobre manipulação de informações gerando teorias da conspiração. De fato, a velocidade de construção de estruturas para combater a pandemia dentro da China foi significativa e é pouco provável que outra nação as criasse na mesma velocidade. Da mesma forma, afirmam esses observadores que foi satisfatória a atenção dada aos países vizinhos, após finalizar as medidas de combate interno do vírus.

Aponta-se que tanto para os principais parceiros quanto para pequenos países regionais, foi tomada uma posição e executada uma ação para ajudar no combate ao coronavírus, não deixando os chineses alertas apenas para o seu território, mas indo além de suas fronteiras. Alguns poderão entender tais medidas como forma de proteger as fontes de seus recursos econômicos, ou uma forma de assumir a responsabilidade pelo surto inicial da doença, mas, conforme tem sido apontado, a história prova que não há como culpar apenas uma nação por um risco que envolve toda a humanidade.

Perante o atual cenário econômico global, e com todo o avanço tecnológico, os intérpretes da história que vem se manifestando na mídia pelo mundo começam a convergir para a conclusão de que os líderes globais ainda não aprenderam o significado da palavra Cooperação Internacional, bem como a utilizar os recursos existentes para o bem-estar global. Em uma era onde a população pensa em obter conforto e sobreviver de forma saudável e sustentável, a economia ainda divide sua importância com a diplomacia pragmática, fixada em possíveis conflitos bélicos entre nações e não contra riscos reais contra o mundo, e o Covid-19 expôs, além do preconceito entre as pessoas e culturas, o quão é difícil cooperar mesmo em meio a crises.

———————————————————————————————–

Fontes das Imagens:

Imagem 1 Equipe de Médicos Chineses em Hunam” (Fonte): http://portuguese.xinhuanet.com/2020-03/23/c_138906062_2.htm

Imagem 2 Teste NAT realizada por especialistas em Shanghai” (Fonte): http://portuguese.xinhuanet.com/2020-03/24/c_138910095_4.htm

Imagem 3 Empresas chinesas retomam, aos poucos, suas atividades” (Fonte): http://portuguese.xinhuanet.com/2020-03/21/c_138901588_2.htm

ANÁLISES DE CONJUNTURAÁSIA

China: O que esperar do gigante asiático nessa década

No dia 25 de janeiro a China entrou no ano de 4718 do seu calendário lunar. As comemorações do “Ano novo Chinês” em seu território e pelas colônias chinesas pelo mundo enalteceram o espetáculo de suas festividades e os avanços da República Popular da China nesses 70 anos de sua fundação.

Falar e dimensionar possíveis cenários que incluam os chineses é complexo, graças à sensibilidade de temas internos, bem como sua participação como potência militar e econômica. Para entender a China moderna, seu crescimento, desafios e uma fração de seus problemas internos, mostra-se necessário observar o avanço de sua tecnologia, sendo este um caminho adequado.

O país quase sempre é destaque no cenário internacional quando o tema é tecnologia e inovação, da mesma forma, o investimento no campo militar é sempre visto como preocupante por boa parte dos países vizinhos e por grandes potências ocidentais, mas, quando se trata de uso civil e em comunicações, o país ganha muitos admiradores, apesar de também “haters”* globais.

A tecnologia militar chinesa sempre é questionada quanto à sua razão e objetivos. Desde o ano de 2013, o presidente chinês Xi Jinping vem impulsionando a reestruturação das Forças Armadas e o seu foco continua sendo a modernização e desenvolvimento de novos itens de ponta, para fazerem frente às tradicionais potências europeias: Rússia e Estados Unidos.

Em 2019, especialistas da BBC comunicaram que o país está no caminho de ultrapassar estadunidenses e russos em determinados campos militares. No mesmo ano, o país já anunciava que novos equipamentos de última geração seriam apresentados ao mundo em curto e médio prazo, como o seu caça de 5ª geração, o J-31.

Conforme o relatório da Agência de Inteligência de Defesa dos EUA, um estudo intitulado “O poder militar da China”, publicado em janeiro passado (2020), indica que “O resultado da estratégia multidimensional de aquisição de tecnologia é um ELP (Exército de Libertação Popular da China) prestes a colocar em campo alguns dos sistemas mais modernos do mundo (…) Em algumas áreas, (o país) já é líder”.

Tabela de poder

Embora apresente dados de desenvolvimento tecnológico e crescimento de aparelhos e efetivo de suas forças militares, a China ainda está comparável a Forças Armadas da extinta União Soviética, tendo maior parte de seu efetivo dentro de seu país e focadas na defesa territorial, diferente dos estadunidenses que têm suas forças militares com prospecção global e um orçamento até 4 vezes maior que o chinês.

O panorama mais interessante de se analisar a China é do seu investimento e adaptação de itens tecnológicos militares para o campo da comunicação, doméstico e empresarial, os quais impactam diretamente na economia global, desestabilizando alguns mercados e também criando oportunidades e demandas em regiões antes muito carentes de bens de alto valor agregado. Os produtos “Made in China” são os grandes atores da guerra comercial em escala global e também responsáveis pela mudança do pensamento de Relações Internacionais no país. Comparando ao seu pensamento até a década de 1970, o país hoje não tem por objetivo conquistar territórios com sua influência bélica e ideologias, mas, sim, dominar mercados e garantir parceiros que lhes forneçam energia para ser o líder global.

Drone da empresa chinesa DJI

Atualmente, os chineses são os maiores parceiros comerciais de muitas nações, como é o caso do Brasil, sendo eles tão importantes para manter a economia de Estados aliados quanto de nações antes vista como inimigas. Seus recursos, especializações e produtos ainda são temas de debates entre especialistas, internacionalistas e ONGs de direitos humanos por inúmeros motivos, mas, hoje, a economia mundial é tão dependente da China quanto um dia já foi dos Estados Unidos.

Para se entender o quão grande se tornou a marca “Made in China”, o campo de tecnologia de comunicações e bens de consumo é suficiente para entender sua atual posição. O país e a Coreia do Sul são os maiores investidores na tecnologia 5G no mundo, estão à frente das demais nações no quesito de desenvolvimento, fabricação de hardwares e já estão aptos a implementar o sistema em seus mercados internos.

Empresas como a Huawei e ZTE já possuem equipamentos para transformar o 5G em realidade funcional, junto com a Samsung, Media Tek (Taiwan), Qualcomm e a HiSilicon, sendo as principais fabricantes de chips, memória e outros hardwares de alta tecnologia para computação e comunicação em geral, bem como as principais líderes em produção e fornecimento de componentes para Smartphones de todo o mundo. Possuindo maior escala global na produção destes itens, os chineses e sul-coreanos estão em posição dominante e longe de ter concorrentes diretos.

As empresas chinesas já estão bem consolidadas no mercado global, como são os casos da Xiaomi e da Dji. Essas marcas se consolidaram quebrando velhos preconceitos sobre a confiabilidade e durabilidade de produtos fabricados no país.

A DJI é a grande referência no mercado de drones domésticos e só possui concorrentes diretos de empresas da própria China. A empresa hoje é a líder mundial em quadricópteros para consumidor final, empresas, cinema e segurança pública. A Xiaomi é uma corporação mais versátil, produz itens de alta tecnologia, de computadores e drones até eletrodomésticos, mas é globalmente reconhecida pela sua linha de smartphones. Segundo a última atualização da International Data Corporation (IDC – sigla em inglês), a empresa ocupa a quarta posição no mercado internacional, atrás da Samsung, Huawei e Apple.

No mundo da tecnologia afirma-se que poucos apresentam novidades, tudo se copia e se aprimora. Como exemplo, cita-se o Japão na segunda metade do século XX, que atualizava e melhorava a tecnologia de estadunidenses e europeus. Os sul-coreanos melhoravam a tecnologia japonesa a partir da segunda metade dos anos 1990 e a China copiava o que seus vizinhos faziam. Observadores apontam que, entre tropeços e acertos, essas nações chegaram a ser referência em determinados campos e temas específicos e os investimentos que os chineses vem fazendo a partir da década de 2000 vem elevando cada vez mais o status do país. Em 2018, foi incluído na lista dos 20 países mais inovadores do Mundo, ocupando a 17ª posição, e em 2019 subiu para a 14ª posição no ranking do Índice Global de Inovação (IGI).

Com tantos avanços e se tornando uma das principais referências econômicas e tecnológicas globais, surge a questão do que esperar dos chineses nessa década de 2020.

Nos próximos anos eles deverão ocupar uma das três posições no topo do ranking de inovação global, e isso não se espelha apenas nas tecnologias de comunicação, mas, também, no seu processo de substituição de fontes de energia poluente para energia limpa e desenvolvimento sustentável.

Durante a reunião anual do Fórum Econômico Mundial, que teve seu início no dia 21 de janeiro passado, em Davos, o presidente do fórum, Borge Brende, e o presidente chinês Xi Jinping disseram que o país está no caminho certo para combater as mudanças climáticas e acelerar o desenvolvimento mundial sustentável.

Durante anos a China foi acusada de ser o maior poluidor do mundo, sua população sempre sofreu com o ar poluído em certas regiões bem industrializadas, mas o quadro atual é diferente. Hoje, é o país que mais produz energias renováveis. Também existe muito investimento em tecnologia para aumentar a eficiência e eficácia de painéis solares e geradores de energia eólica, além de possuir a maior fabricante mundial de veículos elétricos, a chinesa BYD.

O governo vem incentivando o desenvolvimento de novas tecnologias e a busca pela sustentabilidade, com as oito principais startups chinesas, como a Xiaomi, Alibaba, Tencent, Baidu e Tencent, apontando que este será o caminho: aumentar o investimento em inovação. Em 2019 foram mais de R$ 200 bilhões investidos por essas empresas e os CEOs chineses estão confiantes e otimistas para ampliar seus negócios já em 2020. 

Em meio a turbulências e inovações, desconfianças e otimismo, a China continua caminhando para estar no topo dos países mais inovadores e ser a líder no mercado de tecnologia de ponta.

———————————————————————————————–

Nota:

* Hates: Gíria utilizada por amantes de tecnologia, que significa “odiar”, mas também utilizada como “invejosos” e “inimigos.

———————————————————————————————–

Fontes das Imagens:

Imagem 1 Vista da estação de energia solar na vila de Zhaoyu, na cidade de Handan Foto: Reprodução Xinhuanet/wang xiao/arquivo 2018” (Fonte Divulgação / news.cn): http://portuguese.xinhuanet.com/2019-12/02/c_138599950.htm

Imagem 2 Tabela de poder” (Fonte): https://www.bbc.com/portuguese/internacional-43101604

Imagem 3 Drone da empresa chinesa DJI” (Fonte Divulgação DJI): https://www.dji.com/br/newsroom?site=brandsite&from=nav

ANÁLISES DE CONJUNTURAÁSIAORIENTE MÉDIO

China enxerga oportunidades no Oriente Médio em crise entre Estados Unidos e Irã

A crise entre os Estados Unidos e o Irã desenvolve-se desde a decisão do Presidente americano, Donald Trump, de executar, no Iraque, um ataque por meio de um veículo aéreo não-tripulado (drone) que matou o general iraniano Qasem Soleimani, no dia 3 de janeiro de 2020. Soleimani era comandante da Força Quds, uma divisão do Exército iraniano responsável pela condução de ações militares extraterritoriais e operações clandestinas. Trump aprovou a operação de eliminação de Soleimani após receber dados dos órgãos de inteligência estadunidenses que indicavam múltiplas ameaças vindas do Irã a americanos no Oriente Médio. Como forma de retaliação, Teerã lançou dezenas de mísseis contra bases americanas no Iraque, no dia 7 de janeiro de 2020. 

Em mandarim, a palavra “crise” (wēijī) (危机), é composta pelo ideograma “wēi”, que significa “perigo”, e “”, que compõe a palavra “jīhuì” (机会), que significa “oportunidade”. Do mesmo modo, a China tem vislumbrado oportunidades na atual contenda entre os dois países, pois Pequim possui fortes laços com Teerã e realiza regularmente exercícios militares trilaterais com a nação persa e a Rússia. Após o ataque que matou Soleimani, o Ministro chinês de Negócios Estrangeiros, Wang Yi, condenouo ato de aventurismo militar dos Estados Unidos, que vai contra as normas básicas que governam as relações internacionais e que agravará as tensões e a turbulência na região”. Segundo o governo chinês, Teerã espera que “a China possa exercer um papel importante na prevenção da escalada das tensões regionais”. Assim, o eliminação do general iraniano possui o potencial de não apenas fornecer a Pequim um papel de mantenedor da estabilidade no Oriente Médio, mas também de aumentar a sua influência na região, onde muitos países consideram Washington como um ator crescentemente imprevisível.

O Vice-Presidente da República Popular da China, Wang Qishan, encontra o Presidente de Israel, Reuven Rivlin, em 2018

Desse modo, a política externa chinesa, que enfatiza, sobretudo, o desenvolvimento e o comércio, torna-se cada vez mais atraente para as nações da região, sejam elas democráticas ou não. Nos últimos anos, a China tomou o lugar dos Estados Unidos como o maior doador financeiro para os países em desenvolvimento e celebrou grandes acordos comerciais através da Ásia, do Oriente Médio e da África, como parte do megaprojeto internacional de infraestrutura do presidente Xi Jinping, a Iniciativa do Cinturão e Rota.

De acordo com os analistas Lindsey Ford e Max Hill, do Asia Society Policy Institute, de Nova York, “embora a expansão da presença da China no Oriente Médio ocorra por cálculos econômicos, ela oferece oportunidades estratégicas para PequimPara os autores, “a ênfase da China nos princípios de não-interferência, desenvolvimento econômico liderado pelo Estado e manutenção da estabilidade regional, ressoa entre muitos líderes não-democráticos do Oriente Médio, permitindo que a China promova o seu modelo alternativo de liderança de grande potência”.

Os chineses têm sido capazes de manter laços com aliados tradicionais na região, como o Irã e a Síria, enquanto incrementa suas relações com rivais desses países, como a Arábia Saudita, Israel e os Emirados Árabes Unidos. Jonathan Fulton, do Atlantic Council, de Washington, observa que “os interesses de Pequim se baseiam em um Oriente Médio estável e já considera há muito tempo que isso, eventualmente, requererá alguma forma de participação chinesa nas questões de segurança da região”. Fulton também afirma que “a China não é um país revisionista”, e indica que o Estado asiático “não quer remodelar o Oriente Médio e nem tomar para si a responsabilidade de manter a sua segurança, mas deseja uma região previsível e estável, o quanto for possível, na qual possa desenvolver atividades comerciais e investir”.O analista aponta que o eliminação de Soleimani por Washington, “no curto prazo, aumentará o custo dos Estados Unidos fazerem negócios na região e colocará muitas pessoas em risco, mas, no longo prazo, pode aumentar o poder e a influência da China no Oriente Médio, enquanto o país assume maiores responsabilidades na preservação de seus interesses regionais”.

Desde o fim da Guerra Fria, os Estados Unidos são a principal potência, não apenas no Oriente Médio, mas do mundo. À medida que a China desafia cada vez mais a hegemonia americana, o Oriente Médio vai emergir como uma das principais arenas dessa rivalidade e, ao decidir eliminar Soleimani, o governo americano pode ter facilitado para Pequim contestar o poder de Washington na região nos próximos anos.

———————————————————————————————–

Fontes das Imagens:

Imagem 1 O Presidente da República Popular da China, Xi Jinping, encontra o Presidente do Irã, Hassan Rouhani” (Fonte): https://commons.wikimedia.org/w/index.php?sort=relevance&search=Xi+Jinping+rouhani&title=Special:Search&profile=advanced&fulltext=1&advancedSearch-current=%7B%7D&ns0=1&ns6=1&ns12=1&ns14=1&ns100=1&ns106=1#/media/File:Ali_Khamenei_receives_Xi_Jinping_in_his_house_(5).jpg

Imagem 2 O VicePresidente da República Popular da China, Wang Qishan, encontra o Presidente de Israel, Reuven Rivlin, em 2018” (Fonte): https://commons.wikimedia.org/w/index.php?sort=relevance&search=File%3AChina+Israel&title=Special:Search&profile=advanced&fulltext=1&advancedSearch-current=%7B%7D&ns14=1#/media/File:Reuven_Rivlin_meeting_with_Wang_Qishan,October_2018(7375).jpg