ANÁLISES DE CONJUNTURAÁSIA

China e a tecnologia 5G: a nova revolução nas telecomunicações

A China vem promovendo uma série de investimentos em ciência e inovação de modo a alavancar-se como um dos centros de desenvolvimento de tecnologia nas próximas décadas. Dentro deste escopo mais amplo, encontra-se a tecnologia de telecomunicações 5G, aspecto no qual a Ásia está desponstando como líder no cenário global. Espera-se que a conectividade 5G provoque uma revolução nos modelos de negócios e nas cadeias de valor a nível internacional, tendo sua data de lançamento comercial prevista para o início de 2020.

Para que possamos dimensionar o potencial aportado pelas novas tencolgias, cabe mencionar as transformações ocorridas nas gerações anteriores da comunicação sem fio. A primeira geração permitiu a realização de ligações telefônicas sem fio. A segunda geração permitia além disto, o envio de mensagens SMS. A terceira geração permitiu o acesso à sites da internet, ainda que com pouca velocidade e dinamismo, se comparada aos padrões atuais. Já a tecnologia 4G permitiu o acesso e a transmissão de vídeos ao vivo, além de ter possibilitado o surgimento de novos modelos de negócios através do Sistema de Posicionamento Global (GPS, na sigla em inglês), tais como o UBER e o Airbnb.

5G Evento

Por sua vez, o 5G não conecta apenas smartphones, mas qualquer objeto que possua um chip. Neste ponto, podemos pensar na internet of things (IOT), ou seja, a aplicação de internet à objetos da vida cotidiana. Podemos igualmente pensar em carros inteligentes e/ou smart cities. Essencialmente, a 5G possibilitará que quase qualquer objeto da vida cotidiana colete e transmita dados, com uma velocidade estimada a ser 100 vezes superior à proporcionada pelo 4G.

Neste sentido, fazendo uma comparação com a economia tradicional, o veículo de mídia The Economist afirma que o acesso, controle e o uso de dados são comparáveis à detenção de petróleo no que diz respeito ao seu potencial para acumulação de capital na economia digital, setor que se propaga para o futuro: “Data is the new oil” (os dados são o novo petróleo).

Por outro lado, a transmissão dessa enorme massa de dados acaba por levantar suspeitas e preocupações relativas à segurança digital, privacidade e direitos individuais. Questões como estas estão longe de ser resolvidas, e a aplicação da tecnologia 5G deverá levantar importantes debates em relação às leis, regulação do espaço digital e ética nas atividades econômicas.

estudo prospectivo realizado pela empresa de consultoria Ernst Young estima que a China deverá possuir 576 milhões de usuários conectados ao 5G até 2025, o que constitutiria 40% do total global. A atual tensão comercial entre China e Estados Unidos tem como pano de fundo a disputa geopolítica pelo desenvolvimento e controle de tecnologias que vão originar a nova geração de empresas que dominarão os mercados mundiais em diversos segmentos. No cerne deste debate se encontra a capacidade da China no desenvolvimento 5G.

Logo da Huawei

O fomento à campeãs nacionais, empresas líderes que despontam em diferentes segmentos da economia mundial, é uma conhecida estratégia de política industrial. No caso da tecnologia 5G, a Huawei é a empresa que está capitaneando este processo na China. Em dezembro de 2018, os Estados Unidos (EUA) ordenaram a prisão da diretora financeira da companhia, Meng Wanzhou, por supostas violações à propriedade intelectual. Desde então, a Austrália e a Nova Zelândia se uniram aos EUA banindo a Huawei de suas atividades nesses países. Adicionalmente, o Reino Unido, a França, a Alemanha e a República Tcheca  demonstraram preocupações em relação à segurança da atuação da Huawei em seus territórios.

Ainda não existem informações suficientes para que se possa analisar conclusivamente estes casos, dado o período recente de sua ocorrência. No entanto, especialistas afirmam que é necessário levar em consideração a dimensão geopolítica envolvida no controle e produção de novas tecnologias, que está ligada às disputas com a Huawei. A empresa é especialmente qualificada para a produção da infraestrutura necessária para a expansão da nova tecnologia e os Estados Unidos têm receio de ficar dependentes de fornecedores chineses. Além disso, a China está em posicionada para angariar as vantagens inerentes à posição de primeiras empresas ingressantes em um novo mercado.

A tecnologia está mudando os negócios

Se os fatos geopolíticos continuarem ditando as regras no campo do desenvolvimento 5G, existe o risco de que se produzam dois ecossistemas separados: o primeiro deles centrado nos Estados Unidos, se espraiando para os seus principais aliados transatlânticos; e outro centrado na China e se espraiando pelo espaço eurasiático, pela África e, possivelmente, pela América Latina.

Tal hipótese seria políticamente custosa e econômicamente ineficiente. Neste cenário existe a maior probabilidade de aproximação dos países em desenvolvimento em relação à China, devido às suas vantagens de custo e à estratégia chinesa de prover financiamento para projetos de infraestrutura ao redor do mundo.

Por fim, outra conjuntura possível reside em uma visão conciliatória, na qual percebe-se que há espaço para ganhos relativos entre todos os agentes econômicos ingressantes em novos setores. Sob esta perspectiva, a eficiência, a inovação, os custos e a capacidade de gestão ditariam o espaço ocupado pelas empresas de determinado país no cenário global da telecomunicação 5G.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Imagem demonstrando a tecnologia 5G” (Fonte): https://c.pxhere.com/images/cc/6e/38d2434782e68a917435e59e3c32-1444337.jpg!d

Imagem 2 5G Evento”(Fonte): https://www.flickr.com/photos/janitors/25405606331/in/photostream/

Imagem 3 Logo da Huawei” (Fonte): https://www.flickr.com/photos/[email protected]/13482871425

Imagem 4 A tecnologia está mudando os negócios” (Fonte): http://i.vimeocdn.com/video/498469360_1280x720.jpg

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Posição japonesa no relatório The Soft Power 30

O Japão foi classificado na quinta posição de soft power pelo relatório The Soft Power 30 Report, atrás somente do Reino Unido, França, Alemanha e Estados Unidos. O país asiático vem subindo paulatinamente de posição a cada ano, avançando do 8ª lugar em 2015 para o atual 5º, o único a realizar tal feito. É também o único país asiático no top 10, e destaca-se pela alta posição apesar da barreira linguística. Em 2017, a 5ª posição era ocupada pelo Canadá.

A publicação, de criação e autoria de Jonathan McClory, em conjunto com o Centro de Diplomacia Pública da University of Southern California, com a consultoria Portland e demais colaboradores, realiza um ranking referente à eficácia do soft power mundial. Soft power, termo consagrado por Joseph Nye nos anos 1980, designa o poder de atração de Estados, uma forma não coercitiva de exercer o poder. Portanto, é uma estratégia de influenciar os demais atores indiretamente, de modo conciliador, adquirindo a capacidade de assumir o controle sobre outros países, moldando suas preferências, recorrendo ao fator ideológico por meio da persuasão e sedução, ou até mesmo o oposto, induzindo seus aliados a desprezarem algo que, na verdade, é a vontade do país que se utiliza desse recurso*, ou seja, ele objetiva exatamente que o outro dê pouca atenção a algo. Dessa forma, “um país é capaz de alcançar seus resultados desejados no mundo da política porque outros países querem imitá-lo ou concordam com um sistema que produza tais efeitos”**. Nye categoriza este “poder brando” em três categorias: valores políticos, cultura e política externa, nos quais o relatório se baseia, subcategorizando-os em 6 índices e utilizando 75 métodos de medições.

Os índices são: digital, que são os aspectos da infraestrutura e diplomacia digital; enterprise,  referente à atração do modelo econômico do país e capacidade de inovação; education, abrangendo atração de estudantes estrangeiros, nível do capital humano e oferta de bolsas de estudo; culture, medindo o alcance e atratividade cultural, incluindo tanto o aspecto pop quanto alta-cultura; engagement, que avalia o poder da rede diplomática pelo mundo e sua contribuição para o desenvolvimento e engajamento global; e, finalmente, government, que abrange questões como direitos humanos, democracia e qualidade das instituições governamentais.

Culinária japonesa

Esse bloco corresponde a 70% da pontuação, os 30% restantes são referentes a pesquisas de opinião, englobando tópicos como culinária, produtos tecnológicos, cortesia, política externa, qualidade de vida e produtos de luxo. A pontuação total do Japão é de 76,22, sendo as subcategorias relacionadas à educação, cultura e governo as melhores pontuadas.

Fatores que podem ser atribuídos ao sucesso japonês são a estabilidade política e econômica, além da alta qualidade e eficiência da infraestrutura, de produtos e inovações do país. Sua participação na política internacional é igualmente um ponto a não ser desconsiderado, uma vez que o Japão tem investido mais na promoção cultural e diplomática, tendo a 5ª maior rede diplomática do mundo.

O governo de Shinzo Abe, o Primeiro-Ministro japonês há mais tempo no cargo, tem aproveitado sua posição para se colocar mais atuante nos fóruns internacionais, assumindo liderança a favor do multilateralismo com a saída dos Estados Unidos do Acordo Transpacífico de Cooperação Econômica, e dedicando-se a um papel relevante e maior na articulação na Parceria Econômica Regional Abrangente.

Ademais, o Japão é um grande contribuidor de recursos, sendo o 2º maior contribuinte das Nações Unidas. A Agência de Cooperação Internacional do Japão, a JICA, está presente atuando em 546 projetos de cooperação técnica em 88 países/regiões, concedendo empréstimos e assistência financeira a mais de 50 países, além de trabalhar em 16 assistências em situações de desastres.

Olimpíada de Tóquio

Eventos globais como a Cúpula do G20 e a Copa do Mundo de Rugby – primeira vez realizada na Ásia, com previsão de incrementar a economia com aproximadamente U$3,5 bilhões –, ambos em 2019, e os Jogos Olímpicos de Tóquio, em 2020, fazem parte do calendário do país como anfitrião. A aposta nesses eventos pode impulsionar ainda mais o turismo, que, em 2018, bateu o recorde de 31 milhões de turistas estrangeiros, um aumento de 8,7% em relação ao ano de 2017. Esse resultado vem de um crescimento consecutivo há sete anos, e a expectativa para a Olimpíada de Tóquio é de receber 44 milhões de visitantes. Entretanto, a situação de locais famosos como Quioto, que recebe 50 milhões de turistas anualmente, tanto estrangeiros quanto japoneses, já mostra o embate entre interesses econômicos e manutenção da qualidade de vida dos habitantes, já existem reclamações de excesso de pessoas e “poluição turística”.

Os centros culturais promovem o ensino da língua japonesa e de costumes e tradições, como ikebana (arranjos florais), origami (dobradura de papel), taiko (dança com tambores), shamisen (instrumento de cordas), oficinas gastronômicas, divulgam a cultura pop como animes e mangás, e estão presentes em cerca de 30 países. Programas de treinamento de professores estrangeiros de japonês chegam a abranger cerca de 100 nacionalidades. J-pop, músicas pop japonesas, e ícones como Hello Kitty e Pokemón, e empresas como Toyota, Nintendo e Sony, também são grandes símbolos que fortalecem a imagem e marca do país.

Kumamon na divulgação do trem-bala

A criação de símbolos e marcas japoneses é tão importante que o personagem Kumamon, mascote da província de Kumamoto, criado para a divulgação de um trem-bala em 2011, alcançou o primeiro lugar de conhecimento e favoritismo entre 90 personagens japoneses, virando produtos alimentícios, brinquedos, entre outros.

Por outro lado, a imagem japonesa tem suas imperfeições: quanto aos aspectos mais reprovados estão a desigualdade de gênero, a baixa liberdade de imprensa e as tensões com a China e Coréia do Sul. Segundo o Relatório, a melhora das relações com esses dois países favoreceria ainda mais a reputação japonesa.

O alto investimento em soft power pode estar relacionado às limitações concernentes ao hard power, como o militarismo. Entretanto, Shinzo Abe tem dedicado esforços para alterar a visão dessa área, buscando a modificação da Constituição quanto ao emprego das Forças de Autodefesa do Japão e adquirindo mais equipamentos de Defesa. Tal foco pode reduzir o fortalecimento do poder brando em um momento em que o Japão estará mais atraindo os olhos globais. Ainda assim, a avaliação de soft power da Monocle*** o classifica na 3ª posição, mostrando que a permanência no Top 5 é pertinente.

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Fontes das Imagens:

* NYE, J. S. Soft Power: the means to success in world politics.1ª edição. Nova Iorque: Public Affairs, 2004.P. 01; -5-07.

** NYE, J. S. Cooperação e conflito nas relações internacionais. São Paulo: Gente, 2009. P. 76.

*** Vídeo“Monocle Soft Power Survey 2018/2019”: https://monocle.com/film/affairs/soft-power-survey-2018-19/

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Templo Fushimi Inaritaisha” (Fonte): https://en.wikipedia.org/wiki/Fushimi_Inari-taisha

Imagem 2 Culinária japonesa” (Fonte): https://ja.wikipedia.org/wiki/%E5%AF%BF%E5%8F%B8#/media/File:Hamachi_(Yellowtail),Jalapeno,_Cilantro,_Garlic_Powder_Hon_Maguro(Bluefin_Tuna-Sake(Salmon)Ebi(Tiger_Shrimp)Masago(Smelt_Roe)_(26094247038).jpg

Imagem 3Olimpíada de Tóquio” (Fonte): https://thinkmarketingmagazine.com/japanese-prime-minister-shinzo-abe-leads-tokyo-2020-first-promo/

Imagem 4 Kumamon na divulgação do trembala” (Fonte): https://ko.wikipedia.org/wiki/%EA%B5%AC%EB%A7%88%EB%AA%AC

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O novo radar da marinha chinesa e a dinâmica securitária no sudeste asiático

No dia 8 de janeiro de 2019, o Governo da China anunciou que cientistas militares do país avançaram no desenvolvimento de um radar Over the Horizon (OTH) compacto e com capacidade para patrulhar uma área equivalente ao território indiano. O projeto se tornou público após Liu Yongtan, pesquisador líder do programa receber o maior prêmio científico da nação asiática pelas mãos do Presidente Xi Jinping. De acordo com Liu, “os equipamentos de vigilância e monitoramento chineses atuais cobrem apenas 20% do nosso território marítimo. Com o novo sistema, poderemos cobrir tudo” 

Conforme destaca Andrew Tate, oficial da reserva da marinha britânica, radares convencionais são limitados pelo horizonte, isto é; pelo ponto no qual a curvatura do planeta impede que as ondas transmitidas naveguem em linha reta. Radares OTH, por outro lado, emitem e captam ondas eletromagnéticas que são refletidas pela ionosfera terrestre e, por conta disso, são capazes de cobrir áreas muito maiores. Em contrapartida, eles consomem vastas quantidades de energia e precisam estar fixados em terrenos abertos e planos.

A inovação do radar OTH produzido pela equipe de Liu Yongtan consiste em seu tamanho compacto, o qual permitirá seu comissionamento em porta-aviões e garantirá a mobilidade necessária para os navios de guerra da China realizarem missões de patrulha em águas azuis. O aumento na demanda por energia das embarcações poderá ser suprido pelo novo gerador de 20-megawatt anunciado pela China Shipbuilding Industries no dia 25 de dezembro de 2018.

Radar OTH posicionado nos Estados Unidos

O anúncio do novo equipamento ocorre em uma conjuntura de acirramento das disputas de soberania no Mar do Sul da China. Nesse contexto, o radar OTH é fundamental para garantir a superioridade informacional das forças militares chinesas no perímetro territorial que o país reivindica. No entanto, é importante notar que a China não é a única a dominar essa tecnologia. Conforme destaca o South China Morning Post, a empresa Raytheon, contratada do Departamento de Defesa dos Estados Unidos, recebeu licença de patente para iniciar o desenvolvimento de equipamento similar em 2016.

No âmbito diplomático, por sua vez, o radar OTH chinês implica um aumento na percepção de ameaça dos países membros da Associação das Nações do Sudeste Asiático (ASEAN), bem como um desafio direto para presença naval dos Estados Unidos na região. Essa tensão ficou evidenciada no dia 2 de outubro de 2018, quando uma embarcação chinesa e um destroier estadunidense estiveram próximos de colidir acidentalmente no Mar do Sul da China.   

Xi Jinping, Presidente da China

Desse modo, o desafio que se impõe à política externa da China consiste na conciliação de dois imperativos estratégicos. Em primeiro lugar, sustentar um contínuo processo de aprimoramento tecnológico para que suas forças navais estejam sempre operacionalmente capacitadas para enfrentar a marinha estadunidense em uma eventual crise. Em segundo lugar, garantir um ambiente estável no sudeste asiático, o que requer a manutenção de relações diplomáticas amistosas com países os quais ela possui disputas territoriais em aberto.  

No curto prazo, a conciliação entre os dois objetivos parece plausível em função da interdependência econômica existente na região e pela errática política externa perseguida pelo governo dos EUA nos últimos dois anos. No entanto, no médio prazo, a taxa de crescimento chinês deve desacelerar e a influência política de Trump poderá desaparecer após as eleições presidenciais de 2020.

Neste novo cenário, o radar OTH projetado por Liu será, ao mesmo tempo, um importante componente da estratégia de defesa de Beijing e uma justificativa legítima para o recrudescimento da cooperação militar entre Washington e os demais países que possuem reivindicações territoriais no Mar do Sul da China. 

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Fontes das Imagens:

Imagem 1PortaAviões chinês realizando operações no pacífico ocidental” (Fonte): https://www.flickr.com/photos/rhk111/42032620622

Imagem 2Radar OTH posicionado nos Estados Unidos” (Fonte): https://en.wikipedia.org/wiki/Over-the-horizon_radar#/media/File:ROTHR_USNavy_a.png

Imagem 3Xi Jinping, Presidente da China” (Fonte): https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/1/15/Xi_Jinping_%282017-07-07%29.jpg/800px-Xi_Jinping_%282017-07-07%29.jpg

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A migração de “não-imigrantes”: a atração de trabalhadores estrangeiros ao Japão

O envelhecimento da população japonesa tem motivado uma série de mudanças na sociedade, legislação e economia do país. Com o encolhimento de aproximadamente 1 milhão de pessoas em 5 anos (de 2012 a 2017), o Japão, com 127 milhões de habitantes e expectativa de vida de 85,5 anos, procura atrair mão de obra com o intuito de frear a contração do Produto Interno Bruto (PIB), estimada em 25% nas próximas quatro décadas, segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI).

Para tanto, um Projeto de Lei foi aprovado ano passado (2018) a fim de facilitar a migração de trabalhadores estrangeiros, flexibilizando os requisitos de visto e nível de proficiência da língua ao criar duas novas categorias de visto, uma permitindo permanência por 5 anos para pessoas com nível de qualificação mais baixo, e outra possibilitando o pedido de residência após esse período para os de qualificação mais alta. Atualmente, a expectativa é de atrair 300.000 trabalhadores até 2025. As áreas com maior déficit são a de construção civil, enfermagem, construção naval, transporte, hotelaria e agricultura.

Anteriormente já existia um programa “fast-track” de visto para profissionais altamente qualificados, em que o processo de concessão era realizado em 10 dias. Segundo o Governo, de maio de 2015 a janeiro de 2018, o número de estrangeiros nesse grupo aumentou 97%; de 2008 até 2017, a quantidade de estrangeiros trabalhando pulou de 500 mil para 1,28 milhão.

Tóquio

O Governo já tentava mitigar essa problemática com programas de treinamento de estrangeiros no Japão, contudo, algumas denúncias de exploração por parte dos empregadores surgiram, gerando críticas. A princípio, espera-se que esses trainees sejam os primeiros a serem alocados nas áreas deficitárias, conforme a nova categoria de visto. Shinzo Abe, Primeiro-Ministro japonês, foi enfático na questão do suprimento de mão de obra em setores que realmente necessitam de funcionários, na aparente tentativa de apaziguar a ansiedade perante o iminente alto número de migrantes.

É notável, em meio aos esforços de atração de mão de obra, a retórica utilizada de negação do termo “imigração” – Abe declara que as mudanças não se constituem como “política de imigração”, principalmente pelo fato de os candidatos ao visto da categoria 1 não serem autorizados a levar familiares consigo. Tal recurso serve à sua base conservadora, sem, no entanto, prejudicar o âmbito econômico. Alguns analistas comparam esta estratégia ao que foi feito na Alemanha nos anos 1950 a 1970, chamada gastarbeiter*, que estimulou a vinda de trabalhadores estrangeiros na época da reconstrução do país, mas não oferecia o status de residente**.

A nova política acarretou alguns protestos, porém, uma pesquisa realizada pela Kyodo News em novembro do ano passado (2018) indica a aceitação de um pouco mais de 50% da população e rejeição de cerca de 39%. No momento, o total de estrangeiros corresponde aproximadamente a 1% da população total.

O distanciamento em relação à imigração não é recente, uma vez que, historicamente, o Japão adotou políticas isolacionistas, como o Período Sakoku, quando cessou relações com os demais países ou teve contato extremamente controlado pelo governo (no caso, os vizinhos asiáticos), de 1639 a 1868. Em 2008, com a crise econômica e financeira, os descendentes de japoneses brasileiros e peruanos que haviam sido convidados a trabalharem no Japão foram igualmente convidados a retornarem aos seus países de origem, mediante pagamento.

A integração dessas pessoas será um grande desafio e representa uma das maiores críticas ao programa, visto que alguns consideram que o Governo não está dedicando a atenção devida a esse aspecto. O Bushidô***, antigo código de conduta muito presente na cultura, sociedade e etiqueta japonesa, pode representar uma das dificuldades de adaptação para quem for ao país. Por outro lado, lidar com a diversidade em uma população 98% da mesma nacionalidade pode ser desafiadora para os anfitriões. O Japão tem se empenhado cada vez mais em discutir e incorporar a diversidade no cotidiano, e o crescimento do turismo, que em 2018 atingiu o recorde de 30 milhões de visitantes, pode ser o impulso necessário para mudar a imagem de homogeneidade, especialmente na Olimpíada, em 2020.

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Notas:

* Trabalhador Estrangeiro”, numa tradução literal da palavra composta alemã gastarbeiter.

** Em 2005, entretanto, estipulou-se uma lei focada em residência a longo prazo e integração, tornando a Alemanha “um país de imigrantes”.

*** O Bushidô é o código de conduta dos samurais no Período Tokugawa (1603-1868), transmitido oralmente, sendo uma síntese do budismo, confucionismo e xintoísmo. Enfatiza a coragem, honra, justiça, benevolência, respeito, honestidade, dever e lealdade.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Monte Fuji” (Fonte): https://en.wikipedia.org/wiki/Japan#/media/File:Chuurei-tou_Fujiyoshida_17025277650_c59733d6ba_o.jpg

Imagem 2 Tóquio” (Fonte): https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/0/0f/Shibuya_tokyo.jpg

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O futuro da Família Imperial japonesa

O ano de 2019 será marcado por uma nova Era no Japão: o Imperador Akihito, de 85 anos, abdicará, deixando que seu herdeiro, o Príncipe Naruhito, tome a posição. No dia 30 de abril deste ano (2019) acontecerá a cerimônia de abdicação, enquanto no dia seguinte, 1o de maio, será a transferência do Trono e Joias da Coroa Japonesa*, e possivelmente a escolha do novo nome da Era Imperial, que altera conforme o período de cada Imperador, assim como o início da contagem dos anos conforme o calendário imperial. A coroação em si está marcada para o dia 22 de outubro.

A Era Heisei, iniciada em 1989 quando Akihito assumiu o Trono após o falecimento do Imperador Hirohito, tem o diferencial de terminar com o ex-Imperador vivo: via de regra, a mudança de monarca só ocorria em caso de morte, razão pela qual foi necessário um Projeto de Lei, aprovado pelo Congresso, que permitisse que a abdicação ocorresse.

Não somente a questão legal, mas também o aspecto financeiro e cerimonial do evento foram discutidos entre os congressistas. A ausência de poder político da Família Imperial, conforme consta na Constituição do Japão pós-Segunda Guerra, gerou debates se os ritos anteriores, quando o então Imperador era considerado divino, deveriam ser mantidos, além do financiamento da solenidade ser realizado com dinheiro público – estimados em cerca de 2,7 bilhões de ienes, aproximadamente 2,48 milhões de dólares, ou próximo de 9,23 milhões de reais, conforme a cotação de 10 de janeiro de 2019**.

O custeio causou indignação de alguns grupos religiosos e cidadãos, que, somados em 241 pessoas, entraram com um processo contra o Governo, alegando que, pelo seu forte caráter religioso, a coroação e demais festividades que acompanham a coroação de um novo Imperador (como o Daijosai, festival da colheita, realizado em novembro), são inconstitucionais e pressionam grupos que não seguem o xintoísmo, base dos eventos.

Joias da Coroa Japonesa

Ainda que a manutenção dos ritos tenha permanecido, resta saber se a força simbólica da Família Imperial também seguirá este caminho. A Era Heisei era caracterizada como a “consolidação da paz”, iniciada no ano da queda do Muro de Berlim, 1989. Já o novo período poderá ser marcado pelos novos desafios, como o encolhimento da população, a demanda por mão de obra, a entrada de um alto número de estrangeiros no país, além da realização dos Jogos Olímpicos em Tóquio, e como o simbolismo do Império, já sem influência política, permanecerá relevante.

O sucesso nessa nova conjuntura pode favorecer a popularidade do novo Imperador, entretanto, outro fator pode acarretar na não manutenção da Família: Nahurito não possui herdeiros homens, e, portanto, levanta uma questão importante, que diz respeito à aceitação de herdeiras mulheres ao Trono. Caso essa tradição não seja alterada, o próximo da linhagem seria seu irmão, Príncipe Akishino, que tem duas filhas e um filho.

A Família em si já está passando por uma redução de integrantes, com a saída da Princesa Ayako que se casará com um cidadão comum, seguindo os passos de sua irmã, a Princesa Mako, também casada em 2014, fazendo repensar se a Lei Imperial de 1947, que impede que Princesas continuem integrando a nobreza após um casamento com alguém não nobre. Nesse sentido, conclui-se que a Instituição terá que lidar com novos tempos e novos questionamentos no embate entre a tradição e modernidade.

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Notas:

* São as joias imperiais: a espada santa Kusanagi, a joia santa Yasakani no magatama e o espelho santo Yata no Kagami. Imperadores japoneses não utilizam coroas.

** Conforme conversão em:

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Joias da Coroa Japonesa” (Fonte): https://en.wikipedia.org/wiki/Imperial_Regalia_of_Japan#/media/File:%E4%B8%89%E7%A5%9E%E5%99%A8.png

Imagem 2 Família Imperial” (Fonte): https://en.wikipedia.org/wiki/Imperial_House_of_Japan#/media/File:Emperor_Akihito_and_Empress_Michiko_with_the_Imperial_Family_(November_2013).jpg

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China desenvolve gerador de 20-megawatts para embarcações de guerra

No dia 25 de dezembro de 2018, o Global Times, periódico oficial do Partido Comunista Chinês (PCC), anunciou que a nação asiática completou o desenvolvimento de seu mais poderoso gerador de turbina e energia elétrica a vapor para embarcações de guerra. Segundo especialistas, o novo equipamento é capaz de produzir 20-megawatts – quatro vezes mais que os utilizados atualmente pela Marinha do Exército Popular de Libertação* (MELP) – bem como propulsionar embarcações de até 10.000 toneladas. É importante notar que apenas as marinhas dos Estados Unidos (EUA) e da Grã-Bretanha possuíam navios com esse tipo de tecnologia até o momento.

O gerador foi produzido pela companhia estatal China Shipbuilding Industry (CSIS, sigla em inglês), a qual anunciou que ele se encontra totalmente operacional e pronto para fabricação em maior escala. Além disso, a empresa afirmou em nota oficial que o novo equipamento “não só proverá energia elétrica para o sistema de propulsão do vaso, mas também estabelecerá o fundamento para a construção de um sistema totalmente eletrônico para as embarcações”.

De acordo com Song Zhongping – especialista em assuntos militares e comentarista na televisão chinesa – a grande vantagem do novo gerador consiste na integração dos sistemas de propulsão e fornecimento de eletricidade para os demais aparelhos instalados nos navios. Por conta dessa inovação, tornam-se operacionalmente factíveis tanto a realização de missões em águas azuis pelos recém produzidos porta-aviões chineses, quanto o comissionamento de armas de energia direta – catapultas e canhões eletromagnéticos – nos destroieres da MELP.

Destroier chinês da classe Luyang II

Embora o desenvolvimento do gerador de eletricidade e turbina de 20-megawatt caracterize mais um marco no processo de modernização da MELP, ele também impõe novos desafios diplomáticos para Beijing. Isso porque a expansão das capacidades de navegação em águas azuis da China aumenta a percepção de ameaça que seu acelerado crescimento econômico produz nos demais países do sistema internacional.  

No âmbito regional, por exemplo, nota-se que países como Japão, Vietnã, Indonésia, Filipinas e Índia já nutrem importantes desconfianças em relação à expansão da presença naval chinesa no Mar do Sul da China e no Oceano Índico. No que tange às relações bilaterais com os EUA, por sua vez, as tensões são ainda maiores. Conforme aponta relatório publicado pelo Congresso estadunidense no dia 25 de agosto de 2018, “analistas percebem que o desenvolvimento naval chinês ameaça a capacidade de a marinha americana manter o controle das águas azuis na região do Pacífico Ocidental em um período de guerra”.

Diante disso, indica-se três possíveis cenários para a evolução da atual conjuntura. No primeiro – otimista – a China aceita restringir suas pretensões de construção de uma marinha de águas azuis. Por conta disso, o país torna-se capaz de estabelecer normas formais e informais de interação que sustentam uma convivência pacífica tanto com as demais nações asiáticas, quanto com os EUA.

Destroier estadunidense da classe Zumwalt. Ele possui gerador de turbina e energia elétrica similar ao recém desenvolvido pela China Shipbuilding Industry

No entanto, caso impasses políticos e comerciais continuem prejudicando as relações entre Washington e Beijing, há maior probabilidade de emergência de um cenário intermediário. Nesse caso, uma atmosfera permanente de competição entre as duas grandes potências tenderia a se consolidar e, consequentemente, o processo de modernização da MELP continuaria como uma prioridade para o PCC. Ainda que o conflito militar direto entre ambos não ocorra necessariamente, o aumento da polarização no sistema internacional produziria instabilidade econômica e a erosão das instituições de governança globais no longo prazo.

Por fim, o cenário mais pessimista é a ocorrência de um embate direto entre forças navais chinesas e estadunidenses. Ainda que improvável, tal situação não pode ser descartada em função das colisões de interesses existentes entre os dois países no Mar do Sul da China, no Oceano Índico e em relação à autonomia de Taiwan. Caso haja escalada do conflito, é plausível esperar a presença não apenas de armamentos nucleares táticos, mas também de armas de energia direta nos teatros de operações. 

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Notas:

* A Marinha do Exército de Libertação Popular (MELP) é o ramo naval do Exército de Libertação Popular da China (ELP). Este, por sua vez, é subordinado ao Partido Comunista da China (PCC). Além da MELP, o ELP também é composto por Força Terrestre, Força Aérea, Força de Misseis Balísticos Intercontinentais e Força de Apoio Estratégico.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Soldados da Marinha do Exército Popular de Libertação da China” (Fonte): https://en.wikipedia.org/wiki/People%27s_Liberation_Army_Navy#/media/File:PLAN_sailors.jpg

Imagem 2Destroier chinês da classe Luyang II” (Fonte): https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/a/a4/Luyang_II_%28Type_052C%29_Class_Destroyer.JPG

Imagem 3Destroier estadunidense da classe Zumwalt. Ele possui gerador de turbina e energia elétrica similar ao recém desenvolvido pela China Shipbuilding Industry” (Fonte): https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/3/32/Future_USS_Zumwalt%27s_first_underway_at_sea.jpg/1024px-Future_USS_Zumwalt%27s_first_underway_at_sea.jpg