AMÉRICA DO NORTEANÁLISES DE CONJUNTURAÁSIA

O retorno da geopolítica: cenários sobre a ascensão chinesa

A política internacional está passando por uma conjuntura de intensas mudanças e instabilidade. Vários fatores contribuem para isto: 1) regimes democráticos vêm sofrendo críticas em diversos países ao redor do mundo; 2) as tecnologias, como a inteligência artificial e o big data ainda provocarão mudanças que não são completamente dimensionadas pelas sociedades; 3) desafios sistêmicos de médio e longo prazo, tal como o avanço do aquecimento global; 4) maior espaço para a atuação no Sistema internacional, destacando a proeminência da China e a crescente importância da Ásia enquanto polo de dinamismo econômico.

Os Estados Unidos ainda são a principal potência global. No entanto, um maior foco nas suas questões domésticas, aliado à ascensão de atores como a China estão contribuindo para este cenário dinâmico e aberto a mudanças. Especialistas apontam que o ordenamento internacional surgido no pós-Segunda Guerra Mundial, que teve os seus valores reforçados ao final da Guerra Fria, tem sofrido rupturas e novas ideias estão emergindo, vindas de centros de poder localizados em outros espaços, fora da visão de mundo estritamente Ocidental.

Mapa Físico da Ásia

Nesta conjuntura de múltiplas narrativas e diferentes atores buscando os seus interesses e vantagens estratégicas, a geopolítica ressurge com força. A geopolítica designa a análise da interação entre, por um lado, os ambientes geográficos e, por outro lado, os processos políticos. Portanto, a geopolítica consiste no uso de recursos ou elementos geográficos para atingir objetivos políticos. A geopolítica pode ainda constituir uma série de lentes de análise para verificar de que forma os fatores geográficos influenciam as ações políticas, assim como a concentração ou dispersão do poder. O desenvolvimento de tecnologias de ponta está historicamente ligado à disrupções geopolíticas. Portanto, a expansão da geopolítica permeia as relações, seja nas áreas política, ambiental, econômica e tecnológica.

Tradicionalmente, o campo das Relações Internacionais aponta três posturas possíveis no âmbito da política internacional: competir, cooperar ou entrar em conflito*. Tendo como foco as relações entre os Estados Unidos e a China e as dinâmicas de competição, cooperação e conflito no âmbito da tecnologia, observa-se que a resposta norte-americana à maior proeminência chinesa provocará diferentes mudanças para o ordenamento global. A Guerra Comercial e a crescente disputa pelo domínio e desenvolvimento das tecnologias que guiarão a expansão das cadeias globais de valor nas próximas décadas são os dois principais campos de disputa que aparecem de forma mais proeminente na mídia nacional e internacional.

No âmbito do domínio e desenvolvimento de tecnologia, existem três cenários possíveis acerca da ascensão chinesa: 1) competição, no qual as principais potências globais podem se desconectar, cada uma buscando formar a sua próprias redes e zonas de influência; 2) cooperação, neste ponto veríamos a concorrência, onde as diferentes capacidades dos Estados e de suas empresas definiriam o espaço ocupado por determinado ator no sistema internacional; 3) o cenário do conflito poderia envolver o aprofundamento de disputas como a guerra comercial, além do aprofundamento da diplomacia bilateral.

No cenário competitivo, desenvolvimentos como as tensões ligadas à expansão da empresa chinesa Huawei na área da telecomunicação 5G e os pedidos do governo Norte-americano pelo banimento desta empresa em diversos países sinaliza a possibilidade de uma desconexão. Ou seja, as cadeias de produção de bens tecnológicos poderiam se tornar mais nacionalizadas e/ou concentradas em aliados específicos. Outras evidências que apontam para esta possibilidade incluem a declaração do mandatário chinês Xi Jinping de que o país vai tentar depender menos das indústrias de tecnologia advindas dos Estados Unidos. Este seria um cenário com posturas de balanceamento e formação de alianças entre os grandes atores do sistema, porém onde ainda existam eficientes canais de diálogo para promover a cooperação em algumas áreas, mesmo que se mantenha certo grau de tensão.

Mandatários dos Estados Unidos e da República Popular da China, Donald Trump e Xi Jinping

No cenário cooperativo a concorrência, as diferentes capacidades e vantagens competitivas dos Estados e de suas principais empresas ditam o espaço ocupado por determinado ator nos diversos mercados e cenários regionais. Ou seja, este seria um cenário no qual a dispersão ou concentração de poder ocorreriam de forma organizada, possivelmente pautados pelo diálogo, pela diplomacia multilateral e pela ação de instituições como a ONU, o Banco Mundial, o Banco Asiático de Infraestrutura e Investimento, o G20, entre outras.

O cenário de conflito poderia envolver o aprofundamento de disputas como a guerra comercial e talvez mesmo as guerras por procuração (proxy), onde dois ou mais agentes realizam a difusão de suas tensões, terceirizando determinado conflito para outros territórios, não diretamente envolvidos na disputa original. Além disto, um cenário com posturas mais conflitivas produziria o aprofundamento da crise da diplomacia e das instituições multilaterais, a exacerbação do uso político de narrativas nacionalistas e/ou extremistas e a preferência pela condução de diplomacia pelas vias bilaterais.

Fluxo Líquido de Investimento Estrangeiro Direto por país (1985-2018)

É provável que a ascensão chinesa produza uma combinação de diferentes respostas por parte dos atores tradicionais do Sistema internacional. Além das possibilidades apontadas nos cenários traçados, é importante relembrar que, por vezes, ocorrem os cisnes negros**, como costuma se denominar em análises de risco. Por fim, até 2040 a Ásia deverá representar mais de 50% do PIB mundial e 40% do consumo, ressaltando a tendência de mudança do eixo econômico global rumo às regiões fora do Ocidente.

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Notas:

* Na análise do construtivismo wendtiano, denominam-se estas atitudes sob três perspectivas: 1) Lockeano (competir),2) Hobbesiano (conflito), 3) Rousseauniano (cooperar). A perspectiva acerca dos outros atores alteraria, portanto, as ações dos Estados no Sistema Internacional. Um exemplo claro, diz respeito à diferente maneira com a qual os Estados Unidos lidam com o poderio nuclear do Reino Unidos e da Coreia do Norte. Apesar do arsenal nuclear do Reino Unido ser muito mais numeroso, este ator não é visto como uma ameaça, ao contrário da Coreia do Norte.

** Denomina-se de cisne negro, os fatos que possuem uma possibilidade muito reduzida de ocorrer e grande impacto. Ou seja, são fatos muito difíceis de serem previstos e que quando ocorrem têm efeitos devastadores para os agentes envolvidos na matriz analítica.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Bandeira e mapa da China sobrepostos sobre o mapa mundi” (Fonte): https://pixabay.com/pt/china-mapa-china-mapa-%C3%A1sia-pa%C3%ADs-2965333/

Imagem 2 Mapa Físico da Ásia” (Fonte): https://mapswire.com/asia/physical-maps/

Imagem 3 Mandatários dos Estados Unidos e da República Popular da China, Donald Trump e Xi Jinping” (Fonte): https://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:President_Trump_at_the_G20_(48162296741).jpg

Imagem 4 Fluxo Líquido de Investimento Estrangeiro Direto por país (19852018)” (Fonte): https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Foreign_Direct_Investment_by_Country.png

ANÁLISES DE CONJUNTURAÁSIA

China: O que esperar do gigante asiático nessa década

No dia 25 de janeiro a China entrou no ano de 4718 do seu calendário lunar. As comemorações do “Ano novo Chinês” em seu território e pelas colônias chinesas pelo mundo enalteceram o espetáculo de suas festividades e os avanços da República Popular da China nesses 70 anos de sua fundação.

Falar e dimensionar possíveis cenários que incluam os chineses é complexo, graças à sensibilidade de temas internos, bem como sua participação como potência militar e econômica. Para entender a China moderna, seu crescimento, desafios e uma fração de seus problemas internos, mostra-se necessário observar o avanço de sua tecnologia, sendo este um caminho adequado.

O país quase sempre é destaque no cenário internacional quando o tema é tecnologia e inovação, da mesma forma, o investimento no campo militar é sempre visto como preocupante por boa parte dos países vizinhos e por grandes potências ocidentais, mas, quando se trata de uso civil e em comunicações, o país ganha muitos admiradores, apesar de também “haters”* globais.

A tecnologia militar chinesa sempre é questionada quanto à sua razão e objetivos. Desde o ano de 2013, o presidente chinês Xi Jinping vem impulsionando a reestruturação das Forças Armadas e o seu foco continua sendo a modernização e desenvolvimento de novos itens de ponta, para fazerem frente às tradicionais potências europeias: Rússia e Estados Unidos.

Em 2019, especialistas da BBC comunicaram que o país está no caminho de ultrapassar estadunidenses e russos em determinados campos militares. No mesmo ano, o país já anunciava que novos equipamentos de última geração seriam apresentados ao mundo em curto e médio prazo, como o seu caça de 5ª geração, o J-31.

Conforme o relatório da Agência de Inteligência de Defesa dos EUA, um estudo intitulado “O poder militar da China”, publicado em janeiro passado (2020), indica que “O resultado da estratégia multidimensional de aquisição de tecnologia é um ELP (Exército de Libertação Popular da China) prestes a colocar em campo alguns dos sistemas mais modernos do mundo (…) Em algumas áreas, (o país) já é líder”.

Tabela de poder

Embora apresente dados de desenvolvimento tecnológico e crescimento de aparelhos e efetivo de suas forças militares, a China ainda está comparável a Forças Armadas da extinta União Soviética, tendo maior parte de seu efetivo dentro de seu país e focadas na defesa territorial, diferente dos estadunidenses que têm suas forças militares com prospecção global e um orçamento até 4 vezes maior que o chinês.

O panorama mais interessante de se analisar a China é do seu investimento e adaptação de itens tecnológicos militares para o campo da comunicação, doméstico e empresarial, os quais impactam diretamente na economia global, desestabilizando alguns mercados e também criando oportunidades e demandas em regiões antes muito carentes de bens de alto valor agregado. Os produtos “Made in China” são os grandes atores da guerra comercial em escala global e também responsáveis pela mudança do pensamento de Relações Internacionais no país. Comparando ao seu pensamento até a década de 1970, o país hoje não tem por objetivo conquistar territórios com sua influência bélica e ideologias, mas, sim, dominar mercados e garantir parceiros que lhes forneçam energia para ser o líder global.

Drone da empresa chinesa DJI

Atualmente, os chineses são os maiores parceiros comerciais de muitas nações, como é o caso do Brasil, sendo eles tão importantes para manter a economia de Estados aliados quanto de nações antes vista como inimigas. Seus recursos, especializações e produtos ainda são temas de debates entre especialistas, internacionalistas e ONGs de direitos humanos por inúmeros motivos, mas, hoje, a economia mundial é tão dependente da China quanto um dia já foi dos Estados Unidos.

Para se entender o quão grande se tornou a marca “Made in China”, o campo de tecnologia de comunicações e bens de consumo é suficiente para entender sua atual posição. O país e a Coreia do Sul são os maiores investidores na tecnologia 5G no mundo, estão à frente das demais nações no quesito de desenvolvimento, fabricação de hardwares e já estão aptos a implementar o sistema em seus mercados internos.

Empresas como a Huawei e ZTE já possuem equipamentos para transformar o 5G em realidade funcional, junto com a Samsung, Media Tek (Taiwan), Qualcomm e a HiSilicon, sendo as principais fabricantes de chips, memória e outros hardwares de alta tecnologia para computação e comunicação em geral, bem como as principais líderes em produção e fornecimento de componentes para Smartphones de todo o mundo. Possuindo maior escala global na produção destes itens, os chineses e sul-coreanos estão em posição dominante e longe de ter concorrentes diretos.

As empresas chinesas já estão bem consolidadas no mercado global, como são os casos da Xiaomi e da Dji. Essas marcas se consolidaram quebrando velhos preconceitos sobre a confiabilidade e durabilidade de produtos fabricados no país.

A DJI é a grande referência no mercado de drones domésticos e só possui concorrentes diretos de empresas da própria China. A empresa hoje é a líder mundial em quadricópteros para consumidor final, empresas, cinema e segurança pública. A Xiaomi é uma corporação mais versátil, produz itens de alta tecnologia, de computadores e drones até eletrodomésticos, mas é globalmente reconhecida pela sua linha de smartphones. Segundo a última atualização da International Data Corporation (IDC – sigla em inglês), a empresa ocupa a quarta posição no mercado internacional, atrás da Samsung, Huawei e Apple.

No mundo da tecnologia afirma-se que poucos apresentam novidades, tudo se copia e se aprimora. Como exemplo, cita-se o Japão na segunda metade do século XX, que atualizava e melhorava a tecnologia de estadunidenses e europeus. Os sul-coreanos melhoravam a tecnologia japonesa a partir da segunda metade dos anos 1990 e a China copiava o que seus vizinhos faziam. Observadores apontam que, entre tropeços e acertos, essas nações chegaram a ser referência em determinados campos e temas específicos e os investimentos que os chineses vem fazendo a partir da década de 2000 vem elevando cada vez mais o status do país. Em 2018, foi incluído na lista dos 20 países mais inovadores do Mundo, ocupando a 17ª posição, e em 2019 subiu para a 14ª posição no ranking do Índice Global de Inovação (IGI).

Com tantos avanços e se tornando uma das principais referências econômicas e tecnológicas globais, surge a questão do que esperar dos chineses nessa década de 2020.

Nos próximos anos eles deverão ocupar uma das três posições no topo do ranking de inovação global, e isso não se espelha apenas nas tecnologias de comunicação, mas, também, no seu processo de substituição de fontes de energia poluente para energia limpa e desenvolvimento sustentável.

Durante a reunião anual do Fórum Econômico Mundial, que teve seu início no dia 21 de janeiro passado, em Davos, o presidente do fórum, Borge Brende, e o presidente chinês Xi Jinping disseram que o país está no caminho certo para combater as mudanças climáticas e acelerar o desenvolvimento mundial sustentável.

Durante anos a China foi acusada de ser o maior poluidor do mundo, sua população sempre sofreu com o ar poluído em certas regiões bem industrializadas, mas o quadro atual é diferente. Hoje, é o país que mais produz energias renováveis. Também existe muito investimento em tecnologia para aumentar a eficiência e eficácia de painéis solares e geradores de energia eólica, além de possuir a maior fabricante mundial de veículos elétricos, a chinesa BYD.

O governo vem incentivando o desenvolvimento de novas tecnologias e a busca pela sustentabilidade, com as oito principais startups chinesas, como a Xiaomi, Alibaba, Tencent, Baidu e Tencent, apontando que este será o caminho: aumentar o investimento em inovação. Em 2019 foram mais de R$ 200 bilhões investidos por essas empresas e os CEOs chineses estão confiantes e otimistas para ampliar seus negócios já em 2020. 

Em meio a turbulências e inovações, desconfianças e otimismo, a China continua caminhando para estar no topo dos países mais inovadores e ser a líder no mercado de tecnologia de ponta.

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Nota:

* Hates: Gíria utilizada por amantes de tecnologia, que significa “odiar”, mas também utilizada como “invejosos” e “inimigos.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Vista da estação de energia solar na vila de Zhaoyu, na cidade de Handan Foto: Reprodução Xinhuanet/wang xiao/arquivo 2018” (Fonte Divulgação / news.cn): http://portuguese.xinhuanet.com/2019-12/02/c_138599950.htm

Imagem 2 Tabela de poder” (Fonte): https://www.bbc.com/portuguese/internacional-43101604

Imagem 3 Drone da empresa chinesa DJI” (Fonte Divulgação DJI): https://www.dji.com/br/newsroom?site=brandsite&from=nav

AMÉRICA LATINAANÁLISES DE CONJUNTURAÁSIA

Vice-Presidente do Brasil, Hamilton Mourão, vai à China para recalibrar as relações bilaterais

O Vice-Presidente da República Federativa do Brasil, Hamilton Mourão, partiu no dia 18 de maio (2019) em uma viagem de seis dias à República Popular da China (RPC), visando recalibrar as relações bilaterais entre os dois países. As declarações e a retórica negativa do presidente Jair Bolsonaro enquanto candidato deixaram os chineses preocupados sobre a disposição do Brasil em cooperar. Soma-se a isto a viagem realizada pelo Presidente à Taiwan no mesmo período, que rendeu represálias do Governo chinês.

O vice-presidente Mourão atua em uma situação muito complexa: deve tentar equilibrar as relações com a China, sem ficar totalmente afastado de grupos dentro do Governo que vêem com maus olhos a aproximação com a RPC e buscam um alinhamento aos Estados Unidos (EUA). Mantendo uma perspectiva pragmática, seria possível manter relações estratégicas com ambos os países. Mourão parece compreender estas oportunidades e está realizando um esforço para tal empreendimento. 

A China é o principal parceiro comercial do Brasil desde o ano de 2009, sendo, atualmente, o principal parceiro de 14 dos 26 estados da Federação. Segundo dados publicados pelo Ministério da Indústria, Comércio exterior e Serviços, o ano de 2018 registrou R$ 64,2 bilhões em exportações do Brasil para a China e R$ 34,7 bilhões em importações, apresentando saldo superavitário para os brasileiros.

Localização do Brasil e da China

No período entre 2003-2016 estima-se que a China tenha firmado mais de 180 acordos com o Brasil, tendo consolidado mais de US$ 61 bilhões em investimento estrangeiro direto, aproximadamente, 245,28 bilhões de reais, de acordo com a cotação de 28 de maio de 2019. Por outro lado, no mesmo período configuraram-se mudanças estruturais na economia brasileira. A participação da indústria na composição do PIB caiu de 18% para cerca de 11%. Ao final da década de 1980, a participação da indústria no PIB chegou a 33%. Neste sentido, é importante debater a dimensão qualitativa do comércio exterior brasileiro.  

As exportações do Brasil para a China foram compostas por 43% de soja, 22% de petróleo bruto e derivados e 17% em minério de ferro e concentrados. Por outro lado, as importações do Brasil foram majoritariamente de produtos manufaturados, incluindo circuitos, componentes eletroeletrônicos, máquinas e equipamentos, aparelhos transmissores ou receptores de energia, entre outros.

Ou seja, identifica-se ser preciso promover o aumento da complexidade econômica do Brasil, necessitando agregar valor aos produtos exportados e isto se faz através da indústria e da produção de tecnologia. Mourão foi categórico ao afirmar queO Brasil não pode ser só uma loja onde a China vai e compra itens. Tem que ser mais do isso. As coisas que vêm do Brasil têm que ter o mesmo valor que as que vêm da China. Estamos na era do conhecimento. A economia do século 21 é a economia do conhecimento, esse é o passo adiante que temos que dar nessa relação”.

Xi Jinping, mandatário da China

Devemos destacar que o mandatário da China, Xi Jinping, encontrou o vice-presidente Mourão pessoalmente. A cultura política chinesa valoriza altamente os gestos e a hierarquia, portanto, sob esta lógica, um Presidente deveria encontrar outro Presidente. O gesto demonstra que a China vê com importância as relações com o Brasil. Nas palavras de Xi: “Ambos os lados devem continuar a ver as oportunidades e a relação de parceria para promover o desenvolvimento mútuo, respeitando um ao outro, confiando um no outro, apoiando um ao outro e construindo as relações Brasil-China em um modelo de solidariedade e cooperação entre países em desenvolvimento”.

Durante este ano (2019), ocorrerão outros dois grandes eventos que podem aumentar as possibilidades de cooperação entre a China e o Brasil: a Décima Primeira Cúpula dos BRICS, sediada em Novembro (2019), no Brasil, e uma visita de Estado à China, planejada pelo Governo de Jair Bolsonaro para o segundo semestre, ainda sem data definida.

Especialistas afirmam que é improvável que ocorram grandes mudanças nas relações bilaterais. O que é mais provável é um relativo distanciamento ou uma relativa aproximação política do Governo Bolsonaro em relação à China, dependendo de como ocorrerem os próximos desenvolvimentos. O acirramento das tensões comerciais entre China e Estados Unidos, como tem sido visto nas últimas semanas, apresenta uma conjuntura de oportunidades.

Acredita-se que o Governo brasileiro deveria procurar conduzir uma diplomacia triangular, visando à aquisição de tecnologia, o intercâmbio de conhecimentos e a atração de investimentos tanto com os EUA quanto com a China. Entretanto, a administração de Donald Trump tem reduzido a participação global dos Estados Unidos, promovendo posturas nacionalistas. Por outro lado, a China visa promover a Nova Rota da Seda (Belt and Road Initiative), um já conhecido plano de investimentos internacionais, abordado em análises anteriores publicadas no CEIRI Newspaper.

Países membros da Belt and Road Initiative

Mourão afirmou que a adesão à Nova Rota da Seda está sendo considerada pelo Brasil e que o país vê com bons olhos a atuação da Huawei e o desenvolvimento da tecnologia 5G, assuntos de extrema importância para a China. Adicionalmente, foi reativada a Comissão Sino-Brasileira de Alto Nível de Cooperação e Concertação (COSBAN), comissão bilateral entre Vice-Presidentes do Brasil e da China, criada em 2004, e que se encontrava paralisada nos últimos anos.

A quinta reunião da COSBAN ocorreu em Pequim no dia 24 de maio, entre Mourão e o vice-presidente chinês Wang Qishan, discutindo temas como: 1) a participação dos países no BRICS; 2) os fluxos de investimentos existentes entre as duas economias; 3) a exportação da carne brasileira e dos aviões da Embraer para a China. Estas são questões técnico-burocráticas que poderão auxiliar a atuação das empresas brasileiras.

Se a conjuntura de concorrência internacional entre China e Estados Unidos continuar a se acirrar, é possível que os países se vejam obrigados a “escolher lados” como foi necessário na época de intensa disputa geopolítica da Guerra Fria. Entretanto, esta ainda não é uma realidade concreta. Portanto, é preciso que se evitem quaisquer movimentos de alinhamento automático. Mourão parece ser um dos agentes em posição para auxiliar a conduzir o Brasil neste período de múltiplos balanceamentos e relações com diversos atores. Pragmatismo na condução da política externa e o fortalecimento das nossas parcerias comerciais e estratégicas são atributos que o país necessita neste momento.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Vicepresidente do Brasil, Hamilton Mourão” (Fonte): https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/0/06/Mour%C3%A3o_no_Senado_em_Posse_presidencial_-_2019.jpg

Imagem 2 Localização do Brasil e da China” (Fonte): https://pt.wikipedia.org/wiki/Rela%C3%A7%C3%B5es_entre_Brasil_e_China#/media/File:Brazil_China_Locator.png

Imagem 3 Xi Jinping, mandatário da China” (Fonte): https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/e/ed/Xi_Jinping_2016.jpg

Imagem 4 Países membros da Belt and Road Initiative” (Fonte): https://www.silkroadbriefing.com/news/2019/04/29/2019-belt-road-forum-xi-jinping-actually-said-terms-belt-road-development-china-market-access/

ÁFRICAANÁLISES DE CONJUNTURAÁSIA

Macau e o turismo nos PALOP

As relações sino-africanas pautam-se na Cooperação Internacional e nos investimentos em diversos setores, mais expressivamente no que diz respeito à criação de infraestrutura em prol do desenvolvimento. Segundo esta perspectiva, as relações diplomáticas também são dinamizadas ao se observar os diálogos no espaço internacional, como os Fóruns de Cooperação China-África e o de Cooperação Econômica e Comercial entre China e os Países de Língua Portuguesa, também conhecido como Fórum de Macau.

Este último foi criado em 2003 e realiza reuniões ministeriais voltadas para a planificação conjunta de atuação no espaço comercial e econômico. Inserido nesta dinâmica encontra-se o turismo como área de interesse dos países integrantes do Fórum (Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste), o qual foi a pauta da Sessão realizada ao final do mês abril de 2019, na Região Administrativa Especial  Macau. A 7.ª Exposição Internacional de Turismo de Macau destinou-se à apresentação das perspectivas dos países lusófonos no que tange o desenvolvimento do turismo, seus produtos e a captação de investimentos.

Lago Nam Van em Macau

Importante destacar que o setor turístico é contemplado pelo Plano de Ação 2017-2019 do Fórum, que compreende como metas para o triênio a capacitação dos recursos humanos, o aprofundamento da cooperação para atração de investimentos, a investigação do fluxo de turistas e seu impacto econômico. Outro ponto incluso no Plano diz respeito a sustentabilidade como base do desenvolvimento da cooperação, considerando a utilização consciente dos recursos naturais, respeitando o ecossistema e seu potencial para o turismo.

A busca pela cooperação com Macau relaciona-se com as experiências adquiridas pela região. De acordo com o relatório do Conselho Mundial de Viagens e Turismo sobre o Impacto do Turismo, este nicho correspondeu a, aproximadamente, 29,3% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2017. No mesmo ano foi registrado o crescimento do setor em 14,2% em relação aos anos de 2014-2015, e foram gerados 27,6% de empregos diretos, desconsiderando a indústria turística dos Cassinos.

Macau também explora outras perspectivas do turismo além dos jogos de azar, no caso, o desenvolvimento do turismo com base na herança histórica do período da administração de Portugal, que ocorreu do século XVI até o ano de 1999. O patrimônio histórico compreende um complexo de mais de 20 monumentos que integraram a lista de Patrimônios da Humanidade em 2005.

Centro Histórico de Macau, ruínas de São Pedro

Dada esta conjuntura, os países membros do Fórum de Macau, como a Guiné Bissau, expressaram o interesse em ampliar o turismo em ocasião da 7.ª Exposição Internacional, mais especificamente no arquipélago de Bijagós, abordando o turismo ecológico e cultural. Angola, por sua vez, aposta na indústria do jogo e no seu potencial de atração de turistas para o desenvolvimento econômico do país. Para tanto, o diretor nacional do Ministério do Turismo angolano, Jorge Manuel Calado, salientou a necessidade de criação de infraestrutura e mudanças na legislação para abrigar as casas de jogos.

Diferentemente dos demais países lusófonos, os arquipélagos de Cabo Verde e São Tomé e Príncipe têm suas receitas provenientes do turismo. Contudo, a parceria com Macau e a busca por investimentos externos podem representar avanços nesta área. No caso de São Tomé e Príncipe, a restauração do patrimônio colonial arquitetônico português se apresenta como alternativa para a expansão neste seguimento.

Praia de Calhau, na ilha de São Vicente em Cabo Verde

Observa-se que, apesar do compartilhamento cultural e linguístico oriundos do passado de colonização, os países africanos lusófonos compreendem de forma distinta como o turismo pode beneficiá-lo. Tendo em consideração as particularidades geográficas e potencialidades adicionais, a utilização dos Fóruns para a atração de investimentos pode repercutir no âmbito continental.

Este fator relaciona-se à infraestrutura que permeia o turismo e a prestação de serviços no ramo turístico, que, indiretamente, pode ser comprometido por questões de transporte interno e interestadual, fatores ambientais e preservação do ecossistema, e a inserção da população local. Neste sentido, os diálogos com Macau e investidores representam parte das adequações necessárias para a construção de um destino com potencial turístico.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Cassinos de Macau” (Fonte): https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/2/28/Casino_Lights_In_Macau.jpg

Imagem 2Lago Nam Van em Macau” (Fonte): https://pt.wikipedia.org/wiki/Macau#/media/File:Lago_Nam_Van,_Macao,_2013-08-08,_DD_04.jpg

Imagem 3Centro Histórico de Macau, ruínas de São Pedro” (Fonte): https://en.wikipedia.org/wiki/Ruins_of_St._Paul%27s#/media/File:%E5%A4%A7%E4%B8%89%E5%B7%B4%E7%89%8C%E5%9D%8A.jpg

Imagem 4Praia de Calhau, na ilha de São Vicente em Cabo Verde” (Fonte): https://pt.wikipedia.org/wiki/Cabo_Verde#/media/File:Estr.Ba%C3%ADa_das_Gatas-Calhau,_Cape_Verde-_panoramio.jpg

ANÁLISES DE CONJUNTURAÁSIA

Posição japonesa no relatório The Soft Power 30

O Japão foi classificado na quinta posição de soft power pelo relatório The Soft Power 30 Report, atrás somente do Reino Unido, França, Alemanha e Estados Unidos. O país asiático vem subindo paulatinamente de posição a cada ano, avançando do 8ª lugar em 2015 para o atual 5º, o único a realizar tal feito. É também o único país asiático no top 10, e destaca-se pela alta posição apesar da barreira linguística. Em 2017, a 5ª posição era ocupada pelo Canadá.

A publicação, de criação e autoria de Jonathan McClory, em conjunto com o Centro de Diplomacia Pública da University of Southern California, com a consultoria Portland e demais colaboradores, realiza um ranking referente à eficácia do soft power mundial. Soft power, termo consagrado por Joseph Nye nos anos 1980, designa o poder de atração de Estados, uma forma não coercitiva de exercer o poder. Portanto, é uma estratégia de influenciar os demais atores indiretamente, de modo conciliador, adquirindo a capacidade de assumir o controle sobre outros países, moldando suas preferências, recorrendo ao fator ideológico por meio da persuasão e sedução, ou até mesmo o oposto, induzindo seus aliados a desprezarem algo que, na verdade, é a vontade do país que se utiliza desse recurso*, ou seja, ele objetiva exatamente que o outro dê pouca atenção a algo. Dessa forma, “um país é capaz de alcançar seus resultados desejados no mundo da política porque outros países querem imitá-lo ou concordam com um sistema que produza tais efeitos”**. Nye categoriza este “poder brando” em três categorias: valores políticos, cultura e política externa, nos quais o relatório se baseia, subcategorizando-os em 6 índices e utilizando 75 métodos de medições.

Os índices são: digital, que são os aspectos da infraestrutura e diplomacia digital; enterprise,  referente à atração do modelo econômico do país e capacidade de inovação; education, abrangendo atração de estudantes estrangeiros, nível do capital humano e oferta de bolsas de estudo; culture, medindo o alcance e atratividade cultural, incluindo tanto o aspecto pop quanto alta-cultura; engagement, que avalia o poder da rede diplomática pelo mundo e sua contribuição para o desenvolvimento e engajamento global; e, finalmente, government, que abrange questões como direitos humanos, democracia e qualidade das instituições governamentais.

Culinária japonesa

Esse bloco corresponde a 70% da pontuação, os 30% restantes são referentes a pesquisas de opinião, englobando tópicos como culinária, produtos tecnológicos, cortesia, política externa, qualidade de vida e produtos de luxo. A pontuação total do Japão é de 76,22, sendo as subcategorias relacionadas à educação, cultura e governo as melhores pontuadas.

Fatores que podem ser atribuídos ao sucesso japonês são a estabilidade política e econômica, além da alta qualidade e eficiência da infraestrutura, de produtos e inovações do país. Sua participação na política internacional é igualmente um ponto a não ser desconsiderado, uma vez que o Japão tem investido mais na promoção cultural e diplomática, tendo a 5ª maior rede diplomática do mundo.

O governo de Shinzo Abe, o Primeiro-Ministro japonês há mais tempo no cargo, tem aproveitado sua posição para se colocar mais atuante nos fóruns internacionais, assumindo liderança a favor do multilateralismo com a saída dos Estados Unidos do Acordo Transpacífico de Cooperação Econômica, e dedicando-se a um papel relevante e maior na articulação na Parceria Econômica Regional Abrangente.

Ademais, o Japão é um grande contribuidor de recursos, sendo o 2º maior contribuinte das Nações Unidas. A Agência de Cooperação Internacional do Japão, a JICA, está presente atuando em 546 projetos de cooperação técnica em 88 países/regiões, concedendo empréstimos e assistência financeira a mais de 50 países, além de trabalhar em 16 assistências em situações de desastres.

Olimpíada de Tóquio

Eventos globais como a Cúpula do G20 e a Copa do Mundo de Rugby – primeira vez realizada na Ásia, com previsão de incrementar a economia com aproximadamente U$3,5 bilhões –, ambos em 2019, e os Jogos Olímpicos de Tóquio, em 2020, fazem parte do calendário do país como anfitrião. A aposta nesses eventos pode impulsionar ainda mais o turismo, que, em 2018, bateu o recorde de 31 milhões de turistas estrangeiros, um aumento de 8,7% em relação ao ano de 2017. Esse resultado vem de um crescimento consecutivo há sete anos, e a expectativa para a Olimpíada de Tóquio é de receber 44 milhões de visitantes. Entretanto, a situação de locais famosos como Quioto, que recebe 50 milhões de turistas anualmente, tanto estrangeiros quanto japoneses, já mostra o embate entre interesses econômicos e manutenção da qualidade de vida dos habitantes, já existem reclamações de excesso de pessoas e “poluição turística”.

Os centros culturais promovem o ensino da língua japonesa e de costumes e tradições, como ikebana (arranjos florais), origami (dobradura de papel), taiko (dança com tambores), shamisen (instrumento de cordas), oficinas gastronômicas, divulgam a cultura pop como animes e mangás, e estão presentes em cerca de 30 países. Programas de treinamento de professores estrangeiros de japonês chegam a abranger cerca de 100 nacionalidades. J-pop, músicas pop japonesas, e ícones como Hello Kitty e Pokemón, e empresas como Toyota, Nintendo e Sony, também são grandes símbolos que fortalecem a imagem e marca do país.

Kumamon na divulgação do trem-bala

A criação de símbolos e marcas japoneses é tão importante que o personagem Kumamon, mascote da província de Kumamoto, criado para a divulgação de um trem-bala em 2011, alcançou o primeiro lugar de conhecimento e favoritismo entre 90 personagens japoneses, virando produtos alimentícios, brinquedos, entre outros.

Por outro lado, a imagem japonesa tem suas imperfeições: quanto aos aspectos mais reprovados estão a desigualdade de gênero, a baixa liberdade de imprensa e as tensões com a China e Coréia do Sul. Segundo o Relatório, a melhora das relações com esses dois países favoreceria ainda mais a reputação japonesa.

O alto investimento em soft power pode estar relacionado às limitações concernentes ao hard power, como o militarismo. Entretanto, Shinzo Abe tem dedicado esforços para alterar a visão dessa área, buscando a modificação da Constituição quanto ao emprego das Forças de Autodefesa do Japão e adquirindo mais equipamentos de Defesa. Tal foco pode reduzir o fortalecimento do poder brando em um momento em que o Japão estará mais atraindo os olhos globais. Ainda assim, a avaliação de soft power da Monocle*** o classifica na 3ª posição, mostrando que a permanência no Top 5 é pertinente.

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Fontes das Imagens:

* NYE, J. S. Soft Power: the means to success in world politics.1ª edição. Nova Iorque: Public Affairs, 2004.P. 01; -5-07.

** NYE, J. S. Cooperação e conflito nas relações internacionais. São Paulo: Gente, 2009. P. 76.

*** Vídeo“Monocle Soft Power Survey 2018/2019”: https://monocle.com/film/affairs/soft-power-survey-2018-19/

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Templo Fushimi Inaritaisha” (Fonte): https://en.wikipedia.org/wiki/Fushimi_Inari-taisha

Imagem 2 Culinária japonesa” (Fonte): https://ja.wikipedia.org/wiki/%E5%AF%BF%E5%8F%B8#/media/File:Hamachi_(Yellowtail),Jalapeno,_Cilantro,_Garlic_Powder_Hon_Maguro(Bluefin_Tuna-Sake(Salmon)Ebi(Tiger_Shrimp)Masago(Smelt_Roe)_(26094247038).jpg

Imagem 3Olimpíada de Tóquio” (Fonte): https://thinkmarketingmagazine.com/japanese-prime-minister-shinzo-abe-leads-tokyo-2020-first-promo/

Imagem 4 Kumamon na divulgação do trembala” (Fonte): https://ko.wikipedia.org/wiki/%EA%B5%AC%EB%A7%88%EB%AA%AC

ANÁLISES DE CONJUNTURAÁSIA

Choque de gerações: mudanças socioculturais na China

A sociedade chinesa vem mudando rapidamente. Além da impressionante trajetória de crescimento econômico e desenvolvimento social que tirou 800 milhões de pessoas da linha de pobreza nas últimas décadas, é extremamente relevante que seja analisada a mudança de comportamentos e hábitos das novas gerações, que passam a dominar o mercado de trabalho e despontam como o futuro da China.

As pessoas que cresceram durante o período da Revolução Cultural, nos anos 1960, têm dificuldade em entender a nova geração de chineses que possuem comportamentos mais individualistas e têm maiores desejos de consumo. Adicionalmente, os jovens estão altamente conectados à cultura ocidental e têm maior consciência acerca dos acontecimentos e notícias internacionais.

Em seu livro China’s Millennials*: The Want Generation (“Os Millennials na China: a geração do querer”), o autor Eric Fish, jornalista e também um Millennial, viveu em território chinês por sete anos e documenta as mudanças comportamentais que vêm ocorrendo no país. Estima-se que existam 400 milhões de Millennials na China e 90% destes possuem o seu próprio smartphone.

Confúcio, filosofo chinês

Por outro lado, pressões oriundas dos valores chineses tradicionais ainda recaem fortemente sobre estes jovens. Nomeadamente, a pressão para que se consiga um casamento com uma pessoa de uma família bem-sucedida é enorme, e a pressão para que os jovens tenham filhos cedo, além de altos salários, são também constantes nas famílias chinesas.

O acesso à educação superior nas instituições mais renomadas do país é extremamente competitivo. O Gaokao, exame nacional de ingresso ao Ensino superior, está crescentemente vinculado com o aumento das taxas de depressão entre jovens. O prestígio associado às carreiras públicas ainda existe, não obstante, os jovens chineses buscam cada vez mais empregos no setor privado e/ou planejam abrir as suas próprias empresas.

Dois terços dos detentores de passaportes na China têm menos de 36 anos de idade. Os millennials chineses estão crescentemente procurando oportunidades de estudo no exterior, uma vez que o renome das universidades norte-americanas e europeias é visto como um diferencial no currículo, sobretudo no nível de pós-graduação.

Imagem de uma millennial de origem asiática

Mesmo considerando as dificuldades e a disparidade de renda entre o meio rural e as grandes cidades da costa leste, existe uma percepção generalizada entre os jovens de que a prosperidade e o bem-estar material estão ao alcance daqueles que se esforçam o suficiente em suas vidas acadêmicas e profissionais.

Vários Millennials vêm de famílias cujos pais não tiveram acesso à educação superior e bons empregos. A geração que alcançou a maioridade nos anos 1960-1980 ocupava majoritariamente empregos de baixa remuneração, na agricultura ou na indústria. Os filhos desta geração, por outro lado, estão crescentemente inseridos em instituições de Ensino superior e mesmo pós-graduação.

O país ainda não se adaptou totalmente a este salto econômico e as consequências disto refletem nas diferenças entre o comportamento dos mais velhos e das novas gerações. A renda per capita de sua população passou de menos de US$ 1,000.00 em 1978 para mais de US$ 8,800.00 ao final de 2017, sendo agora um país de renda média, contando com uma população de mais de 1,4 bilhão de pessoas.

Pirâmide etária da China em 2016

Neste sentido, existe um importante desafio ligado ao envelhecimento dos chineses, pois a população economicamente ativa do país deverá ter uma redução da ordem de 21 milhões de pessoas na próxima década. A China possui atualmente 150 milhões de indivíduos com mais de 65 anos. Seguindo valores confucianos tradicionais encapsulados no conceito de devoção aos pais (do inglês “filial piety”, ou “Xiào” em piniyn, ou mandarim simplificado), caberá aos millennials dedicar os cuidados adequados aos seus genitores.

Um assunto importante reside no tratamento às pessoas LGBT, visto que 94% dos chineses declaradamente LGBT tenha menos de 34 anos de idade. Pesquisas apontam que este grupo é constituído por mais de 70 milhões de indivíduos na China. No entanto, estima-se que apenas 5% destas pessoas sintam-se confortáveis para demonstrar abertamente a sua orientação em ambientes profissionais, com receio de sofrer represálias.

É comum que pessoas LGBT se casem com pessoas do gênero oposto, de modo a agradar à família ou às expectativas sociais. Mesmo assim, existe flagrante progresso em relação à aceitação dos LGBTs se comparado, por exemplo, ao período anterior à abertura e às reformas econômicas iniciadas nos anos 1970. Especialistas apontam que esta tendência deverá continuar crescendo, à medida que as novas gerações atinjam a idade economicamente ativa.

O Partido Comunista da China (PCC) está enfrentando o desafio de adaptação da economia nacional para um modelo mais fortemente pautado pelo consumo, com direcionamento para os setores de tecnologia e serviços qualificados. Será importante observar as mudanças no país nas próximas décadas, à medida que os Millennials assumirem importantes postos de comando político e econômico.

Por fim, será interessante observar a evolução deste processo de transformação dialética entre os valores chineses tradicionais, a tecnologia e o individualismo das gerações contemporâneas. A estabilidade institucional do PCC dependerá, em certa medida, de sua habilidade de navegar neste complexo e dinâmico cenário social, onde os novos profissionais valorizam crescentemente a liberdade e as suas próprias experiências. 

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Nota:

* O termo Millennials é usado para designer a geração de pessoas nascidas entre 1980-2000, que estão alcançando a idade adulta por volta das primeiras décadas do século XXI. Embora o termo não descreva um grupo demográfico preciso, a característica mais marcante desta geração é o contato com o meio digital, visto que estas pessoas cresceram cercadas pelos recentes avanços tecnológicos. Este termo foi criado inicialmente para a realização de análises de mercado, designando um grupo de consumidores. Devemos salientar que existem diversos recortes adicionais que podem ser realizados, considerando a diversidade socioeconômica, étnico-racial, de gênero, de credo religioso entre outros aspectos que contribuem para a diversidade dos Millennials. 

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Imagem de uma chinesa com um bebê” (Fonte): https://pixabay.com/pt/humanos-idade-jovens-beb%C3%AA-av%C3%B3-721364/

Imagem 2 Confúcio, filosofo chinês” (Fonte): https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Konfuzius-1770.jpg

Imagem 3 Imagem de uma millennial de origem asiática” (Fonte): https://www.pexels.com/photo/blur-chairs-earphone-fashion-371163/https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Deng_Xiaoping.jpg – /media/File:Deng_Xiaoping.jpg

Imagem 4 Pirâmide etária da China em 2016” (Fonte): https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Bev%C3%B6lkerungspyramide_China_2016.png#/media/File:Bev%C3%B6lkerungspyramide_China_2016.png