AMÉRICA DO NORTEANÁLISES DE CONJUNTURAÁSIA

A China na Estratégia Nacional de Defesa de Donald Trump

No dia 18 de dezembro de 2017, o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou a publicação da Estratégia Nacional de Segurança (ENS) de seu governo. A ENS é um documento que sintetiza as percepções e diretrizes que nortearão a política externa estadunidense pelos próximos anos. Nesse contexto, a publicação de 2017 explicita que, do ponto de vista da administração Trump, a República Popular da China se constitui como a maior fonte de ameaças aos interesses nacionais dos EUA na política internacional contemporânea.

O Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump

A nação asiática é mencionada trinta e três vezes ao longo das cinquenta e seis páginas do documento. Logo na primeira referência, a ENS se refere à China e à Rússia como nações que “estão desafiando o poder e a influência dos Estados Unidos, bem como buscando erodir a segurança e a prosperidade estadunidense”. Em seguida, são realizadas graves acusações às práticas internacionais do Governo chinês. Por exemplo, Beijing é acusada de “roubar propriedade intelectual dos EUA”, “expandir práticas comerciais abusivas”, “explorar tecnologias de informação para ampliar seu sistema político autoritário”, bem como “avançar sobre a soberania de outros países”. Por fim, o documento sugere que está em curso uma divisão político-ideológica na região Indo-Pacífica. Isto é: “uma competição geopolítica entre concepções autoritárias e liberais acerca da ordem internacional”.

Percebe-se que tal abordagem representa um brusco ponto de inflexão em relação à ENS publicada em 2015 pela administração do ex-Presidente Barack Obama. Nessa ocasião, as poucas referências à República Popular da China destacavam os avanços que ambos os países haviam alcançado no âmbito das políticas de combate à mudança climática. Além disso, o documento de 2015 ressaltava que “os EUA acolheriam a ascensão de uma China estável, pacífica e prospera”, bem como a busca pelo desenvolvimento de uma relação construtiva que promovesse segurança e prosperidade para a Ásia e o restante do mundo. 

As acusações presentes na Estratégia Nacional de Segurança de Donald Trump foram prontamente respondidas pelas autoridades chinesas. Hua Chunying, Porta-Voz do Ministério de Relações Exteriores do país, declarou que “nós estimulamos que o governo dos EUA pare de distorcer deliberadamente as intenções estratégicas da China e abandone conceitos ultrapassados da Guerra Fria”. Por sua vez, o periódico do Partido Comunista Chinês, Global Times, assumiu tom mais severo em seu editorial: “a ENS é uma manifestação da postura da administração de Trump, a qual se baseia mais no poder americano no que nas regras internacionais. Demonstra a indisputável insistência de Washington na hegemonia global. Beijing e Moscou não aceitarão.  

É cedo para se avaliar o resultado prático da inflexão no âmbito discursivo da política externa estadunidense em relação à China. Isso porque a Estratégia Nacional de Segurança não delimita um conjunto específico de ações no âmbito internacional, mas apenas apresenta percepções e diretrizes gerais.

Nesse sentido, especialistas questionam até que ponto Donald Trump não teria utilizado o documento como forma de responder ao eleitorado estadunidense que o elegeu. Além disso, na medida em que manifestações contraditórias e declarações presidenciais via Twitter se tornaram uma prática recorrente do atual Chefe de Estado dos Estados Unidos, ficou mais complexa a compreensão acerca da real estratégia de longo prazo perseguida pelo país norte-americano. 

Ainda assim, nota-se que a mudança apresentada na ENS estadunidense ocorre em uma conjuntura de acirramento da competição entre China e EUA, bem como de alteração no posicionamento externo do país asiático. Por exemplo, o presidente Xi Jinping, em seu discurso a nação realizado no dia 31 de dezembro de 2017, declarou que a China será uma ativa construtora da paz e guardiã da ordem internacional. Em outras palavras, Beijing assume definitivamente uma atitude de liderança na comunidade internacional. Logo, percebe-se que o ano de 2018 se inicia com a incorporação de rivalidade recíproca no discurso oficial da política externa das duas maiores potências do sistema interestatal contemporâneo.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Xi Jinping e Peng Liyuan, Presidente e Primeira Dama da República Popular da China, ao lado de Donald Trump e Melanie Trump, Presidente e Primeira Dama dos Estados Unidos” (Fonte):

https://commons.wikimedia.org/wiki/File:President_Trump_with_President_Xi,_April_2017_Cropped.jpg

Imagem 2O Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump” (Fonte):

https://eml.wikipedia.org/wiki/Donald_Trump

ANÁLISES DE CONJUNTURAÁSIA

O temor de uma guerra sino-indiana ronda o sudeste asiático

A tecnologia é algo que não para de evoluir no mundo e o seu crescimento é ainda maior nos campos da Segurança e Defesa, com a tecnologia armamentista, o que leva diversos Estados a desenvolverem novos armamentos para garantirem a sua proteção. No continente asiático, o surgimento de novos equipamentos bélicos e o simples anúncio do desenvolvimento de aparelhos militares ou do aumento de verbas para estes campos é capaz de causar a desconfiança mútua entre os Estados que ali se situam, como é o caso da Índia na atualidade.

Nesta semana, este país testou um míssil balístico intercontinental, o que causa temores na região, principalmente para chineses e paquistaneses. Após 19 minutos de voo, com quase cinco mil quilômetros percorridos, o lançamento do míssil Agni-5 foi considerado bem-sucedido pelas Forças Armadas Indianas.

Exercito Chinês presente na região do Himalaia

Assim, a Índia entra de forma mais avançada na lista de nações que possuem mísseis balísticos, como a Rússia, os Estados Unidos e a China. Os sucessos obtidos com o Agni-1, Agni-2 e Agni-3 foram relevantes, mas nunca chegaram a atingir a marca de 4 mil quilômetros, e o Agni-5 tem capacidade de atingir qualquer nação dentro do território asiático e em parte da Europa e do Oriente-Médio. Porém, tanto os testes atuais quanto os anteriores realizados pelos indianos nunca geraram alarde internacional, pois historicamente a Índia tem tensões principalmente com paquistaneses e chineses em disputas territoriais.

Desde os tempos antigos, durante as Eras das dinastias chinesas, a existência de conflitos na região de fronteira entre os dois países foi algo comum, porém, na Era moderna, mais precisamente no final da década de 1950, os conflitos sino-indianos aconteceram no espaço hoje conhecido como Tibet do Sul (ou Arunachai Pradesh, tal qual é chamado pelos indianos), e se intensificaram na primeira metade da década de 1960. Desde então nunca ocorreram conflitos armados entre Nova Deli e Beijing, porém desentendimentos diplomáticos por conta de pequenas regiões no sul da Ásia acontecem gradualmente, o último foi em 2017, na área remota do Himalaia, em Doklam.

O Exército Popular de Libertação da China passou a aumentar a sua presença militar pela área e já foi anunciado que será construído um complexo militar no lugar, que fica a cerca de 5 quilômetros da fronteira entre a China e o Butão. O movimento de tropas chinesas e das nações vizinhas preocupam analistas de segurança da região, que especulam sobre o crescimento das tensões e o que poderia levar a um conflito.

Print do Twitter com a declaração sobre as atividades na região e questionando a presença dos chineses

Nos noticiários chineses, indianos e de outros países regionais é comum ver notícias sobre as tensões na área, assim como sobre constantes drones de diversas origens desrespeitando o espaço do vizinho. Recentemente, foi divulgado imagens de satélite com o aumento da presença de forças chinesas e de obras sendo realizadas pela China naquele espaço, o que não foi mal visto pelo Chefe de do Estado-Maior do Exército Indiano, Bipin Rawat. No entanto, ele afirmou para a imprensa indiana: “Todos se perguntam se os chineses voltaram [para Doklam] ou se é por causa do inverno que eles não podem retirar seu equipamento. Mas nós também estamos por lá, então, caso eles cheguem, vamos enfrentá-los”.

Em sua rede social, ele também faz observações sobre as atividades que estão ocorrendo e questiona sobre os motivos de os chineses estarem na área, descartando que isso provocaria uma guerra, mas, como declarado à imprensa, afirma que estão preparados para quaisquer ações de defesa da soberania da Índia.

Alguns analistas regionais acreditam que o Paquistão seja o mais preocupado com o armamento indiano, pois é um inimigo declarado, diferente da China, país com o qual Nova Deli mantém relações econômicas saudáveis.

A região do Himalaia sempre foi e continuará sendo região de desentendimento entre os países ali presentes, pelo cenário que está sendo construído. Hoje, o risco de uma guerra é descartado, pois, diante da situação econômica local e internacional, um conflito entre chineses e indianos, acrescido dos paquistaneses, seria uma catástrofe para o mundo, uma vez que são três potências nucleares com relevo internacional e desempenham importante papel para o equilíbrio regional.

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Fontes das Imagens:                                                                                                                 

Imagem 1 Míssil Agni5 sendo lançado pelas forças armadas da índia” (Fonte – Forças Armadas Indianas):

http://www.newsweek.com/india-launches-star-wars-missile-defense-china-pakistan-join-forces-762347

Imagem 2 Exercito Chinês presente na região do Himalaia” (Fonte – Ministério de defesa da China/Foto do oficial do Exército):

http://eng.mod.gov.cn/attachement/jpg/site22/20180117/161045b8fdb48026731328.jpg

Imagem 3 Print do Twitter com a declaração sobre as atividades na região e questionando a presença dos chineses ” (Fonte – Reprodução Twitter):

https://twitter.com/syedasimwaqar/status/953872278181130240?ref_src=twsrc%5Etfw&ref_url=https%3A%2F%2Fbr.sputniknews.com%2Fasia_oceania%2F2018011810303472-china-concentra-tropas-area-disputada-india-doklam%2F

AMÉRICA DO NORTEANÁLISES DE CONJUNTURAÁSIA

Desafios da Ascensão Chinesa na Era Trump

A dinâmica política internacional do ano de 2017 foi marcada pela consolidação da República Popular da China enquanto nação disposta a liderar economicamente a globalização contemporânea. Embora ainda seja cedo para avaliar o sucesso da estratégia chinesa, considera-se que a solidificação da autoridade do Presidente Xi Jinping durante 19º Congresso do Partido Comunista Chinês (PCC), a aproximação diplomática com a Rússia de Vladmir Putin, bem como a realização dos investimentos em infraestrutura previstos na Iniciativa do Cinturão e da Rota indicam que o futuro do sistema internacional será cada vez mais influenciado por decisões políticas tomadas em Beijing. Além disso, essa tendência foi reforçada pela orientação isolacionista assumida pelo Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em seu primeiro ano de mandato.

A ascensão chinesa é objeto de controvérsia entre os analistas das Relações Internacionais há pelo menos duas décadas. Após o término das especulações sobre a unipolaridade estadunidense e o “Fim da História derivados do colapso da União Soviética em 1991, as elevadas taxas de crescimento econômico da nação asiática se tornaram o principal elemento perturbador do status quo da política internacional.

Presidente da Rússia, Vladmir Putin, e o Presidente da China, Xi Jinping

Apesar disso, a perspectiva de uma “China Grande Potência” foi percebida com ceticismo por especialistas ocidentais. Economicamente, argumentava-se que o PCC seria incapaz de sustentar o desenvolvimento das forças produtivas do país em um contexto de forte controle estatal na economia. No âmbito estratégico, por sua vez, destacava-se a falta de legitimidade de um sistema político não fundamentado no modelo de democracia liberal, bem como o contexto regional conflituoso do sudeste asiático como fatores que limitariam a influência internacional chinesa.   

No entanto, passados 29 anos desde o início das reformas estruturais de Deng Xiaoping, a centralidade da China no sistema internacional deixou de ser uma probabilidade futura para ser uma realidade presente. Em outras palavras, conforme destacou Dominic Ziegler em artigo no periódico britânico The Economist: “A China está indisputavelmente de volta. Ela quer e merece um papel de destaque não só na Ásia, mas também na ordem global”.    

Considera-se que a ascensão chinesa pode ser explicitada a partir de três dimensões. Primeiro, do ponto de vista econômico, o país asiático foi capaz de orientar a transformação estrutural de seu sistema produtivo para atividades de alta tecnologia e, consequentemente, assegurar a continuidade das altas taxas de crescimento até o momento. Segundo, Beijing está utilizando seus recursos econômicos como instrumento para forjar parcerias e alianças em todos os continentes. Nesse sentido, a atração da China deriva não só da densidade de seu comércio internacional, mas também por sua disposição em exportar capital produtivo de longo prazo para países em desenvolvimento. Por fim, destaca-se o sucesso da modernização das Forças Armadas chinesas, especialmente no que tange a manutenção de sua capacidade de retaliação nuclear e ao desenvolvimento de uma Marinha preparada para impedir a penetração e movimentação de embarcações inimigas próximas ao seu território. 

Donald Trump, Presidente dos Estados Unidos, e Salman bin Abdulaziz Al Saud, Monarca da Arábia Saudita

Mediante isso, é fundamental ressaltar que o aumento da influência da China na política internacional é catalisado por dois elementos alheios ao controle de Beijing: a crescente instabilidade social nos Estados Unidos e o comportamento errático da política externa norte-americana na última década. Em relação ao âmbito doméstico, as causas e os resultados da Crise de 2008 explicitaram as contradições de um sistema econômico capturado pelos interesses de um setor financeiro cada vez mais poderoso. Ou seja, embora a economia estadunidense tenha sido capaz de superar a recessão, são crescentes os indicadores de concentração de renda, bem como de pauperização de boa parte da população. Nesse contexto de acirramento do conflito distributivo, exacerbam-se também tensões ideológicas e raciais históricas, as quais mitigam a coesão interna e a possibilidade de formação de projetos estratégicos nacionais de longo prazo.  

Do ponto de vista externo, a incapacidade estadunidenses de promover um grau mínimo de estabilidade no Oriente Médio após sucessivas intervenções militares colocaram em cheque o perfil da liderança do país no sistema internacional contemporâneo. Nesse sentido, a postura isolacionista do atual presidente Donald Trump, exemplificada recentemente pela retirada dos Estados Unidos do Acordo Transpacífico e pelo reconhecimento de Jerusalém como capital do Estado de Israel apenas reforçaram essa tendência. Por fim, nota-se que o desinteresse por parte de Washington em construir bases mínimas de coexistência com Moscou serviu para aproximar a Rússia de Vladmir Putin da China de Xi Jinping

Por conta disso, é plausível que a dinâmica de fortalecimento chinês e enfraquecimento estadunidense seja o plano de fundo no qual as tensões e conflitos regionais específicos ocorrerão no próximo ano (2018). Conjunturalmente, indica-se que tal rivalidade se manifestará de maneira acentuada na interação entre a estratégia de internacionalização da moeda chinesa (Yuan) e os esforços perseguidos pelos Estados Unidos para manter o dólar como meio de troca dominante no sistema monetário internacional. Nesse cenário, a postura da Arábia Saudita será elemento definidor. Caso a China seja capaz de convencer a monarquia islâmica a comercializar sua produção de petróleo também em Yuan, o pilar financeiro da hegemonia norte-americana estará seriamente ameaçado. 

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Fontes das Imagens:

Imagem 118o Congresso do Partido Comunista da China” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Communist_Party_of_China#/media/File:18th_National_Congress_of_the_Communist_Party_of_China.jpg

Imagem 2Forças Armadas chinesas durante parada militar” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/People%27s_Liberation_Army#/media/File

Imagem 3Presidente da Rússia, Vladmir Putin, e o Presidente da China, Xi Jinping” (Fonte):

http://en.kremlin.ru/events/president/news/50228

Imagem 4Donald Trump, Presidente dos Estados Unidos, e Salman bin Abdulaziz Al Saud, Monarca da Arábia Saudita” (Fonte):

https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Donald_Trump_and_King_Salman_bin_Abdulaziz_Al_Saud_sign_a_Joint_Strategic_Vision_Statement,_May_2017.jpg

AMÉRICA LATINAANÁLISES DE CONJUNTURAÁSIA

A relação sino-brasileira, uma relação desapercebida pelo brasileiro

Ao final de 2017, todas as notícias e acontecimentos no campo político-econômico doméstico brasileiro acabaram por abafar as ações de um importante ator internacional para o cotidiano do Brasil, cujo papel e relevância muitos brasileiros, senão a maioria, não sabem, às vezes ignorando também o grau de atuação que este tem na economia do país.

Desde o ano de 2009, a China é o maior parceiro comercial do Brasil e, entre 2016 e 2017, tornou-se o maior investidor em território brasileiro, destacando-se que o gigante asiático é a segunda maior economia do mundo. Existem dados suficientes para entender a importância chinesa para os brasileiros, porém eles não são frequentemente disseminados nos espaços sobre economia de jornais e revistas especializados. Conforme disse o especialista de questões da China da Fundação Getúlio Vargas, Evandro Menezes de Carvalho, para a Rádio China Internacional (CRI), “Há poucos estudos sistemáticos a respeito da sociedade chinesa de uma maneira aprofundada no Brasil”.

Suas palavras refletem a atual realidade da relação sino-brasileira, afinal, a presença chinesa está bem próxima do brasileiro, destacando-se, contudo, que mais longe daqueles que pulam o caderno de economia nos jornais. Economicamente, só neste ano (2017) os chineses intensificaram a compra de empresas brasileiras e até o meio do ano já haviam sido usados mais de US$ 8 bilhões em transações de investimentos e compra de empresas nacionais, dados este que, apesar da importância para o Estado brasileiro, não foram  apresentados por seus órgãos ou entidades, mas pela consultoria britânica Dealogic.

2017 foi um ano intenso de negócios entre os dois países. Além da compra de empresas brasileiras, as cidades chinesas passaram a utilizar mais o sistema de cidades irmãs, como é o caso de São Paulo, onde empresas da China estão investindo em segurança pública, como já foi noticiado aqui no CEIRI NEWSPAER. Nesse sentido, o ano dos contatos comerciais Brasil-China será encerrado no positivo, mas isso não é o suficiente para a manutenção das relações entre essas duas grandes nações.

Em 2017 ainda foi possível perceber uma presença chinesa diferente na cidade de São Paulo, com um grande número de estudantes chineses de língua portuguesa. Em entidades como o Fu Guo Shan (Centro Social Chinês de São Paulo), na Universidade de São Paulo, entre outras, o número desses estudantes cresceu e isso se deu devido a identificada importância do Brasil para a China.

Da esquerda para a direita: Cabral (guia turístico do Ed. Martinelli em São Paulo), Chen Hsin, Sally Chou, Mei Fang, Mauri (estudantes de mandarim) e Li Yuan, que se dedica ao esporte. Foto: Fabricio Bomjardim / CEIRI NEWSPAPER

Neste ano também houve uma série de eventos e atividades com jovens chineses no Centro Social Chinês e na escola de língua chinesa Sunhouse, e eles fornecem uma percepção importante do que é o Brasil*. O entendimento é de que o Brasil foi uma ponte, uma região turística para os jovens asiáticos, e para muitos realmente foi apenas isso, mas, hoje, tornou-se algo mais.

Para a taiwanesa Mei Fang, estudar a língua portuguesa é essencial para sua formação e para herdar a empresa de seus pais, que passaram a fazer exportação de produtos para o Brasil e outros latino-americanos. O país se tornou base para ela viajar por outros Estados da América do Sul, como é o caso do Chile, um importante parceiro dos chineses.

Outro exemplo é Sally Chou, da cidade de Shanghai, que veio por motivos semelhantes aos de Mei. Seu marido é engenheiro e morou no país durante o ano para tratar de negócios da indústria ferroviária com empresas brasileiras do setor.

O caso interessante foi de Chen Hsin e de Li Yuan, que vieram para conhecer o esporte e os pontos turísticos. Ambos os jovens participam de atividades atléticas em seu país de origem e o Brasil é uma referência no futebol e no vôlei.

A presença desses jovens asiáticos que vieram para o país em grande quantidade, com intensa migração nos últimos 10 anos, faz com que o Brasil tenha recebido uma visão ampla. No entanto, o intercâmbio cultural Brasil-China ainda é muito desequilibrado. Enquanto na China há uma força tarefa para conhecer e entender o Brasil, o seu povo e sua cultura, muito pouco do mesmo comportamento se vê em solo brasileiro. Por exemplo, a cultura chinesa ainda é muito confundida com a japonesa. Poucos sabem que a culinária asiática presente na região é chinesa, mas com nome japonês ou coreano, o que deixa os chineses bem tristes pela falta de conhecimento do povo brasileiro em relação a eles.

Nesse sentido, como se pode perceber das entrevistas e da percepção de alguns analistas, o olhar para a China deve se realizado para além dos cadernos econômicos, de forma que os campos esportivo e cultural precisam ser melhor explorados.

Placa na entrada do Centro de treinamento do Shandong Luneng, em Porto Feliz, Estado de São Paulo, Brasil

Na cidade de Porto Feliz, interior de São Paulo, clubes esportivos chineses vem investindo em escolas e alojamentos para promover a integração entre seus jovens e os locais. O objetivo deles é claro: desenvolver os seus clubes de Futebol. Mas, o investimento trouxe benefícios mútuos.

Em 2014, o clube Shandong Luneng comprou o Desportivo Brasil, reformulando totalmente a estrutura já existente, construindo escola, alojamentos, área de prática esportiva, algo que beneficiou pequenos clubes esportivos do interior, o público jovem local e promove a integração com os pequenos esportistas chineses.

Essa ação deixou claro como é simples e efetivo o planejamento de muitas empresas na China: buscar informação sobre onde há especialização acerca de determinado assunto, tema ou profissão; analisar o custo de implementação dessa base em seu país e o custo de investir diretamente na fonte; e, tendo os dados necessários, executar ações que lhes trarão um lucro no médio e longo prazo, de acordo com suas expectativas e prioridades.

Com tantas informações sobre a grande presença chinesa em solo brasileiro, em diversos campos de atuação que trazem benefícios para os locais, acreditam vários observadores que este é um momento de melhorar a visão sobre a China e de se pensar a integração cultural e desportiva entre jovens dessas duas grandes nações com potenciais distintos, mas que almejam o mesmo objetivo de desenvolvimento e crescimento para beneficiar seus povos.

Nesse sentido, preparar hoje uma geração para se comunicar melhor com os chineses no futuro será importante, pois eles já estão atuando dessa forma e quem tiver maior facilidade de adquirir informações e conseguir se comunicar com mais facilidade terá vantagens na hora de realizar acordos de cooperação mútua.

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Nota:

* As informações sobre tais percepções decorreram de contatos pessoais, entrevistas e conversas com estes estudantes em eventos e oportunidades que surgiram.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Foto dos Chefes de Estado e de Governo da IX Cúpula do Brics” (Fonte):

https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Michel_Temer_e_Xi_Jinping_2017.jpg

Imagem 2 Da esquerda para a direita: Cabral (guia turístico do Ed. Martinelli em São Paulo), Chen Hsin, Sally Chou, Mei Fang, Mauri (estudantes de mandarim) e Li Yuan, que se dedica ao esporte (Fonte):

Foto: Fabricio Bomjardim / CEIRI NEWSPAPER

Imagem 3 Placa na entrada do Centro de treinamento do Shandong Luneng, em Porto Feliz, Estado de São Paulo, Brasil” (Fonte):

http://www.desportivobrasil.com.br/historia/

ANÁLISES DE CONJUNTURAÁSIAEUROPA

O papel da cooperação marítima nas relações entre China e Rússia

O cenário internacional usualmente se desenvolve em um dinâmico balanço de interesses entre seus atores, regidos especialmente pela batuta das principais potências. O reassentamento de aspirações políticas constitui-se como um processo complexo, com frequência gestado sutilmente a ponto de que só a partir de um determinado momento torna-se mais evidente.

Ao longo dos últimos quatro anos, a percepção geral é de que este processo tem se acelerado. As causas desta percepção podem ser múltiplas, mas quiçá tornou-se mais evidente porque – no emaranhado diálogo internacional – o tom predominante das pautas liberais passou a dividir mais espaço com as sutilezas da lógica de poder.

A anexação da península da Crimeia pela Rússia, em março de 2014, é um dos mais perceptíveis indicadores desta realidade. Um ponto de inflexão na, até então, relativamente estável estrutura internacional que Estados Unidos e Rússia modelavam – com considerável supremacia americana – na arena internacional após o fim da União Soviética.

A real intensidade do abalo que a Rússia imprimiu à ordem internacional com sua movimentação sobre a Crimeia ainda está sendo discernida pelos especialistas. Contudo, já foi suficiente para trazer à tona desdobramentos instigantes sobre o potencial de influência do eixo Beijing-Moscou sobre a agenda internacional, notadamente para a seara de defesa e segurança.

Dmitry Medvedev, ex-presidente russo, com Hu Jintao, ex-Primeiro-Ministro chinês, em uma visita de Estado (maio 2008)

Nos últimos 20 anos esta relação passou por períodos de altos e baixos, a depender da modelagem da arena internacional em cada momento histórico. A atual emergência desse eixo é alimentada principalmente pela gradual exclusão que a Rússia vem sofrendo do circuito político ocidental, representada pelas restrições financeiras impostas por meio das sanções estadunidenses e europeias. Fato este que catalisou a congruência dos interesses e necessidades da Rússia, carente de recursos financeiros para manter sua economia mais dinâmica, e da China, desejosa de acelerar sua capacidade de projeção de poder. 

Esta colaboração ainda é uma realidade em amadurecimento. Sua evolução depende de muitos elementos, mas parece encontrar uma lacuna favorável neste momento de fragilidade na coesão entre as potências ocidentais. Por isso, a aproximação entre os dois países vem ganhando contornos de maior destaque nos últimos anos, principalmente nas tratativas militares e econômicas.

Uma das faces mais visíveis e constantes da relação entre os dois países é a sua cooperação marítima. Desde 2003 as duas nações desenvolvem exercícios navais conjuntos sob as denominações Coalition, Peace Mission, Peace Shield e Joint Sea. A mais recente série desses exercícios, a Joint Sea, tem sido realizada ininterruptamente desde 2012.

Navio cruzador da Marinha Russa denominado Pedro, o Grande, durante um exercício

A versão 2017 do exercício conjunto Joint Sea foi realizada no período de 21 a 28 de julho, segundo informado pela Agência TASS. Ainda segundo a agência de notícias russa, o exercício teve com foco ações de defesa antissubmarino, antiaérea, antinavio, de combate à pirataria e de busca e salvamento. O aumento da capacidade de operação conjunta e a interoperabilidade das duas armadas também estiveram no plano de trabalho.

Até 2014, os exercícios navais tinham se concentrado basicamente nos mares adjacentes à China, ou seja, praticamente limitados ao leste asiático. Somente em 2009 as operações conjuntas tinham saído desta área. Foi durante o exercício Peace Shield 2009, simulado no Golfo de Áden e no Oceano Índico para adestrar as esquadras no combate à pirataria naquela região.

Contudo, a partir de 2015 as escolhas do teatro de operação dos respectivos exercícios passaram a expressar o novo tom que Rússia e China estão tentando dar para a sua colaboração. Com a aumentada complexidade dos exercícios, eles passaram a abranger mais de uma fase, sendo usualmente uma delas realizada em uma área de interesse direto da China e outra em área de interesse direto da Rússia.

Destroier chinês atracado

Em 2015, as áreas escolhidas foram o Mar do Japão e o Mar Mediterrâneo. Já em 2016, as águas contempladas foram as do Mar do Sul da China. No ano de 2017, a primeira fase da Joint Sea, mencionada anteriormente, foi realizada no Mar Báltico, sendo que a segunda está agendada para o próximo mês de setembro, novamente no Mar do Japão e adjacências. Nota-se, portanto, que a cooperação marítima tem sido bastante instrumental para a assertividade dos anseios geopolíticos das duas nações, concentrando-se onde ambos possuem interesses vitais para a projeção do seu poder.

A linguagem subliminar dessas atividades de cooperação marítima entre Rússia e China oferecem uma amostra incisiva da predisposição de ambos a projetar seu poder globalmente, lançando mão de mecanismos além do soft power. A latência do pacífico como uma área geopolítica – e não só econômica – de contraponto ao tradicional eixo do Atlântico Norte, encontra nesta colaboração um fato portador de futuro.

A China dá mostras gradativas de que está se movimentando para descolar-se da tônica mais econômica que até pouco tempo rotulava a sua inserção internacional. A colaboração atual com a Rússia, devido ao elevado expertise do seu setor militar, pode tornar-se uma peça chave no processo de superação da ainda restrita capacidade chinesa de projeção de poderio militar, especialmente do seu poder naval*.

Certamente este é um esforço de longo prazo que o Governo da China terá que empreender, em essência, por motu proprio. Entretanto, assim como a China soube se posicionar no sentido de potencializar os laços econômicos com os Estados Unidos e países da Comunidade Europeia nas décadas de 1980 e 1990, para impulsionar seu crescimento econômico de forma mais independente, também é plausível que ela extraia de uma possível cooperação marítima de longo prazo com a Rússia um impulso importante para adquirir a capacidade de desdobrar-se como um poder naval em escala mundial.

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Notas:

* Existem vários tipos de sistemas que classificam as marinhas conforme seu poder de alcance. Em muitos deles a capacidade de operar plenamente em escala global é atribuída somente aos Estados Unidos. Alguns aliados norte-americanos, como Reino Unido e França, têm capacidade imediatamente inferior, ou seja, projetam poder globalmente só que de forma limitada. Países como Rússia e China ocupam posições mais abaixo na escala, geralmente relacionadas com capacidade de projeção de poder em âmbito multirregional ou regional.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Mapa da península da Crimeia com suas principais cidades” (Fonte):

https://es.wikipedia.org/wiki/Crimea

Imagem 2 Dmitry Medvedev, expresidente russo, com Hu Jintao, exPrimeiroMinistro chinês, em uma visita de Estado (maio 2008)” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Sino-Russian_relations_since_1991#/media/File:Dmitry_Medvedev_in_China_23-24_May_2008-1.jpg

Imagem 2 Navio cruzador da Marinha Russa denominado Pedro, o Grande, durante um exercício” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Russian_Navy#/media/File:Tactical_exercises_of_the_Russian_Navy.jpg

Imagem 4 Destroier chinês atracado” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/People%27s_Liberation_Army_Navy#/media/File:CNS_Kunming_(DDG-172).jpg

ANÁLISES DE CONJUNTURAÁSIA

As políticas de Modi contra a indústria de carne na Índia

Uma ação do Primeiro-Ministro da Índia, Narendra Modi, no último dia 23 de maio, tem gerado grande discussão na sociedade indiana. O ato foi um anúncio do Ministério do Meio Ambiente que tem como objetivo geral impedir maus tratos ao gado indiano. Entre várias medidas, que devem ser implementadas pela sociedade no prazo de três meses após o anúncio, a que gerou polêmica é a proibição da venda de qualquer tipo de gado para o abate nos mercados de gado, que se dedicarão somente à compra e venda de animais para a agricultura. É um anúncio que tem claras implicações econômicas e políticas, e também sinaliza para um fortalecimento das políticas de caráter hinduísta no país.

Em termos econômicos, a proclamação dificulta a produção das indústrias de couro e de carne. As exportações de carne bovina da Índia são 23,5% do total global e,  de maneira conjunta, as duas indústrias representam exportações anuais de 10 bilhões de dólares (aproximadamente, 33 bilhões de reais, na cotação de 15 de julho de 2017). Além dessas indústrias, a medida também afeta aquelas que utilizam da carne para a produção de derivados.

Estados indianos e a proibição ao abatimento de vacas em 2915 (Em verde: vacas, touros e bois. Em amarelo: Apenas touros e bois. Em vermelho: Nenhuma das citadas)

 

Apesar de a Índia ser o país com maior porcentagem de vegetarianos no mundo, como mostra a imagem ao lado, o mercado interno de carne vermelha também é relevante, principalmente nas regiões sul e nordeste do país, estimado em 1 trilhão de rúpias (aproximadamente, 15 bilhões de dólares, ou 51 bilhões de reais, na cotação de 15 de junho de 2017). Além disso, a venda de vacas e búfalos em mercados locais para as indústrias é fonte de renda para fazendeiros indianos, e, logo, a medida do governo central ameaça os meios de vida de milhares de pessoas. Até tradicionais apoiadores do Governo estão contra ela, dado o seu contraste ao caráter liberal que a Administração Modi se propõe na área econômica.

Na política, a medida do governo central desestabiliza suas relações com os Estados indianos. A legalidade ou não do abatimento de vacas, animais considerados sagrados para a religião hinduísta, e de búfalos, é tradicionalmente uma decisão dos Governos estaduais, como mostra a figura ao lado. A decisão de Modi, nesse sentido, ao colocar o abatimento de gado como questão ambiental, é vista pelos governantes regionais como um abuso de poder. Por isso, o governo de Kerala, Estado do sul da Índia onde é legal o abate de qualquer tipo de gado, protestou contra as medidas no jornal Hindustan Times. Declarou: “Nós não deixaremos o governo aplicar políticas fascistas […]. Deixe ele anunciar várias notificações, nós não as seguiremos”.

 

Vegetarianos pelo mundo (Em verde: Comum. Em verde claro: Moderadamente comum. Em amarelo: Incomum. Em Laranja: Moderadamente Raro. Em vermelho: Raro) 

 

Por último, a medida também é um indicativo de diretrizes religiosas, com interpretações de que seria a favor da imposição do hinduísmo como política nacional, ou, dito de outra maneira, uma forma de imperialismo cultural. Os mercados locais de gado eram lugares onde tradicionalmente fazendeiros hindus vendiam suas vacas, após elas não serem mais úteis para o arado e produção de leite, para donos de indústrias de abate, que normalmente estão nas mãos de muçulmanos. Além da destruição desses laços entre hinduístas e muçulmanos, as decisões do Governo central levaram ao aumento da violência por parte de grupos hinduístas que são contra o abate de gado e fiscalizam informalmente os matadouros. Dessa forma, as medidas de Modi atacam de maneira indireta, mas violenta, a vida dos cerca de 182 milhões de muçulmanos que vivem no país.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1A Vaca Sagrada na Índia” (FonteRod Waddington):

https://commons.wikimedia.org/wiki/Category:Cows_in_India?uselang=pt-br#/media/File:Holy_Cow_(7438681490).jpg

Imagem 2 “Estados indianos e a proibição ao abatimento de vacas em 2915 (Em verde: vacas, touros e bois. Em amarelo: Apenas touros e bois. Em vermelho: Nenhuma das citadas)” (FonteBarthateslisa): 

https://www.quora.com/India-Why-is-India-considered-vegetarian-when-almost-80-percent-of-the-Indians-are-non-vegetarians

Imagem 3 “Vegetarianos pelo mundo (Em verde: Comum. Em verde claro: Moderadamente comum. Em amarelo: Incomum. Em Laranja: Moderadamente Raro. Em vermelho: Raro)” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Cattle_slaughter_in_India#/media/File:Status_of_cow_slaughter_in_India.png