AMÉRICA DO NORTEANÁLISE - Sociedade InternacionalANÁLISES DE CONJUNTURAÁSIA

[:pt]Ano do Galo e a política econômica da China na Era Trump[:]

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O Ano do Galo

Exibido. Franco. Corajoso. Consciente de suas obrigações sociais. Bravo combatente dos adversários. Multitarefa. Concentrado. Sensível e atencioso com os amigos. Sempre alerta, é meticuloso e detalhista. Dispensa projetos menos arriscados quando tem muitos pela frente, afinal, causar polêmicas é sua chance de aparecer. É negligente com parceiros de negócios ou amigos mais reservados. Prefere pessoas ativas como ele. Esse é o perfil das pessoas de Galo no horóscopo chinês”.

Desde 28 de janeiro de 2017, a China saúda o Ano do Galo. Segundo os chineses, o Ano do Galo é marcado por uma energia dinâmica de mudança, novas ideias e oportunidades. Um ano de “quebra” de barreiras, perda do medo e determinação em busca de um objetivo. Todos querem desfrutar do sucesso, pois é um Ano de concorrência acirrada nos negócios.

Acompanhando as análises e noticiários, há indícios de que o mundo dos negócios vá balançar em 2017, principalmente entre as duas maiores potências econômicas do planeta: os Estados Unidos da América e a China.

Não se trata da dicotomia Capitalismo versus Comunismo. As diferenças agora são entre a China de crescimento econômico e a favor da globalização e os Estados Unidos da América em recessão, ativando políticas protecionistas (leia-se barreiras aos superbaratos produtos chineses), embora pareça ser um paradoxo um país “comunista” e “em desenvolvimento” tentar diminuir barreiras alfandegárias, enquanto que a maior economia capitalista e desenvolvida do mundo implemente políticas protecionistas. 

Ora visto como liberal, ora conservador de direita, tem sido complexo para os analistas chineses definirem a personalidade do Presidente americano. O magnata estadunidense Donald Trump surpreendeu todo o mundo com sua vitória e ainda parece ser uma incógnita para analistas ocidentais e orientais.

Imprevisibilidade das políticas econômicas da China para a Era Trump

Como deixou claro em suas promessas de campanha, algumas cumpridas logo nos primeiros dias de governo, Donald Trump implementará mudanças financeiras internas que já repercutem no Mercado de ações das Bolsas de Valores de New York e na Dow Jones, que tem foco em empresas de tecnologia.

Analistas econômicos preveem a valorização do dólar, impactando ainda mais nas diferenças de preços dos produtos nos mercados internacionais e, consequentemente, gerando mais tensão e protecionismos. Politicamente, a imprensa asiática não fala em outra coisa senão na possibilidade de guerra entre os Estados Unidos e a China (talvez devido a fragilidade e/ou a aridez da pauta atual).

Em 27 de janeiro de 2017, o “South China Morning Post” publicou reportagem sobre aumento da tensão entre os dois países, provocada pela preparação de operações militares chinesas no Mar da China Meridional. Porta-aviões da marinha chinesa já estariam prontificados, próximo ao Estreito de Taiwan. Além disso, consideraram que a o conflito no Mar da China Meridional não seria “inevitável”, mas “imprevisível”, porque a tensão pode servir como estratégia de Donald Trump para forçar a China a fazer concessões sobre questões econômicas e comerciais.

O desafio dos analistas econômicos, jornalistas investigativos e profissionais de inteligência é descobrir quais as intenções da China diante do novo cenário político, afinal, o Estado chinês e Estados Unidos da América são os dois países mais ricos do mundo e os maiores parceiros comerciais mútuos.

Terão de identificar a estratégia de reação da China às políticas protecionistas de Donald Trump; será necessário observar o que a China pretende fazer para continuar atraindo fábricas de empresas estadunidenses e o que fazer se Trump repatriar as fábricas que já estão lá. Além disso, também está no contexto, identificar como a China conseguirá manter o fluxo de eletro-eletrônicos em direção ao mercado estadunidense.

São questões complexas também para os líderes chineses. As políticas de Pequim para reagir ao “efeito Trump” são imprevisíveis. O único sinal foi a reação do presidente chinês Xi Junping, em sua primeira visita ao Fórum Econômico Mundial em Davos (Suíça), em 17 de janeiro de 2017 – portanto poucos dias antes da posse de Donald Trump como presidente eleito dos EUA, embora o Fórum tenha sido encerrado no dia de sua posse –, que pediu ao líderes econômicos globais que digam “não” ao protecionismo.

Xi Jinping aproveitou para dizer que a China “manterá suas portas abertas para o comércio exterior”, prometeu não desvalorizar a moeda chinesa como estratégia de comércio internacional, que expandirá tratados multilaterais e reduzirá acordos entre “grupos exclusivos e fragmentados por natureza”. Ele também lembrou que o crescimento da China ajudou no desenvolvimento de vários países. 

Esse pronunciamento revela que a China combaterá o protecionismo com mais liberalismo econômico, induzindo à conclusão de que protecionismo versus liberalismo pode ser a nova polaridade ideológica entre duas potências globais.

Eventual prejuízo chinês pode azedar as relações sinorussas

O grau de prejuízo que as políticas econômicas de Donald Trump podem gerar para a China poderá ser medido pelo desenvolvimento dos BRICS e pela relação dos chineses com os russos, acusados pelo serviço de Contrainteligência dos Estados Unidos da América, o Escritório Federal de Investigações (FBI), de realizar ações de inteligência durante as eleições estadunidenses para favorecer o então candidato Donald Trump, conforme foi amplamente disseminado na mídia.

Diante do cenário, pode-se pensar um horizonte em que, se a China for prejudicada com políticas protecionistas implementadas por Donald Trump, ela poderá exigir da Rússia esclarecimentos acerca da suposta interferência, pois acabaria resultando numa diminuição do poder econômico de um aliado estratégico com franca tendência de hegemonia asiática.

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Imagem 1 O Galo” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Galo_(zod%C3%ADaco)  

Imagem 2 O Comunismo do filósofo alemão Karl Marx não é mais uma ameaça aos Estados Unidos da América” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Comunismo

Imagem 3 Donald Trump foi eleito presidente dos EUA sob promessa de ‘fazer os Estados Unidos grande de novo!’” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Donald_Trump

Imagem 4 Estados Unidos da América e China são as duas maiores potências econômicas e os maiores parceiros comerciais mútuos do planeta” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Rela%C3%A7%C3%B5es_entre_China_e_Estados_Unidos

Imagem 5 Xi Jinping, 7º Presidente da República Popular da China” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Xi_Jinping

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ANÁLISES DE CONJUNTURAÁSIA

[:pt]Park Geun-hye e seu futuro incerto à frente da Coreia do Sul[:]

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Em 2015, ela foi uma das pessoas mais poderosas do mundo; em 2016 uma das mulheres mais poderosas; porém, em 2017, poderá ser a primeira Presidente impichada na Coreia do Sul. A presidente sul-coreana Park Geun-hye tem sua vida ligada a política de seu país, incialmente por ser filha de Park Chung-hee, Presidente da Coreia do Sul, entre 1963 e 1979; além disso, por ter vivido sua infância em meio as tensões entre a Coreia do Sul e a Coreia do Norte. Em1974, com 22 anos perdeu sua mãe, Yuk Young-soo, em um atendado norte-coreano contra a vida de seu pai. Após a morte de sua mãe, a jovem Park teve que entrar para a política, assumindo o papel de Primeira Dama em exercício da nação, adaptando-se bem ao mundo político.

Durante os anos em que seu pai foi Presidente do país, houve um grande desenvolvimento econômico devido a exportações e aos investimentos feitos em infraestrutura e educação por toda a Coreia do Sul, aliado ao comprometimento de Seul em manter boas relações com potenciais parceiros econômicos ao redor do mundo. Na Coreia, aquele momento foi nomeado como Milagre do Rio Han, devido aos feitos que são lembrados até hoje, mas que teve um fim trágico na época, quando Park Chung-hee foi assassinado em 1979 por um dos agentes da inteligência sul-coreana.

Park Geun-hye manteve-se no mundo da política sul-coreana desde aquele período, passando por importantes cargos e tendo assumido a Presidência do Partido Saenuri, entre os anos de 2004 e 2006, ainda sob o antigo nome Grande Partido Nacional (GNP, na sigla em inglês). Antes de vencer as eleições presidenciais de 2012, ela era membro da Assembleia Nacional da Coreia do Sul, na qual foi legisladora desde 1998, preservando uma boa rede de contatos que lhes foram úteis na corrida eleitoral que viria a disputar.

Em 2012 o mundo passava por uma grande crise econômica, muitos países tiveram líderes reeleitos, mas não foi assim na Coreia do Sul. Moon Jae-in havia sido derrotado por Park, algo que surpreendeu vários especialistas na época. O professor de estudos coreanos da Universidade de Tufts, Sung-Yoon Lee, via Park em um conflito de opiniões populares nas cidades coreanas, pois numerosos cidadãos a tomavam como a filha de um ditador, embora outros a vissem como a filha do Presidente que contribuiu com o desenvolvimento econômico sul-coreano.

David Straub, diretor de estudos coreanos na Universidade de Standford, havia dito em entrevista à PBS que a sua vitória havia sido pela sua linha conservadora, algo que, na Coreia do Sul, significava dar prioridade aos negócios e não apenas enfatizar os temas ligados à Coreia do Norte. Park sempre foi bem rígida quando o tema era Pyongyang, mesmo sendo a favor da reunificação da Península.

Após assumir o cargo de Presidente de uma das principais potências da Ásia e uma das grandes economias globais, a Forbes classificou-a como uma das mulheres mais poderosas e influentes em 2015 e 2016. Mas, em seu país, a opinião pública sempre foi muito dividida, variando conforme os temas que mais abalavam a Coreia do Sul, pois a sua classificação por entidades estrangeiras e a opinião de outros líderes globais não são tão relevantes para os sul-coreanos.

Com a abertura do Processo de Impeachment contra a presidente Park, em dezembro de 2016, a opinião pública coreana já tinha 67% de pessoas pedindo a sua renúncia. Ter seu nome envolvido em casos de corrupção abalou completamente a imagem da Presidente, que hoje está afastada.

Segundo a promotoria que conduz o Processo de Impeachment, Park está ligada a um enorme esquema de extorsão de empresas sul-coreanas, conspirando com uma de suas amigas de infância, Choi Soon-sil, em um caso que envolve grandes empresas do país, dentre elas a Samsung. A amiga de Park e o herdeiro da Samsung, Lee Jae-yong, um dos líderes da gigante coreana, estão sendo ouvidos pelas autoridades competentes. Choi já está em cárcere e Lee está aguardando autorização da justiça para sua prisão ser efetivada.

Choi e outras pessoas investigadas dizem que Park Geun-hye não tem envolvimento no caso de corrupção, mas opositores da Presidente fazem de tudo para afastá-la em definitivo. Eles tentaram até aumentar as acusações contra ela, em casos que envolvem crime de responsabilidade à segurança nacional, conforme já notificamos em Notas Analíticas no CEIRI NEWSPAPER, mas isso não abala o país tanto como o caso de propina envolvendo-a com as grandes corporações sul-coreanas.

Park entrou para a história como a primeira mulher a assumir à Presidência na Coreia do Sul e poderá ser a primeira a ser impichada no país, sendo que, no ano de 2004, o então presidente Roh Moo-hyun havia passado por um Processo de Impeachment. Sua acusação era por pedir apoio eleitoral durante as eleições parlamentares, algo que é proibido na Coreia do Sul, mas a Corte Constitucional entendeu as acusações como insignificantes e Roh retornou de seu afastamento, cumprindo o mandato.

Diferente do caso de Park, a população havia realizado fortes manifestações em apoio a Roh Moo-hyun durante o tempo em que o pedido de impeachment era analisado e julgado. No caso atual, a opinião pública está contrária à permanência da Presidenta afastada e os indícios são de que aqueles favoráveis a sua permanência no comando do país estão desanimando.  Muito está a ser investigado, mas, indiferentemente do resultado, a opinião do povo coreano com sua líder não mudará, talvez até o fim de seu mandato. No entanto, a pressão de opositores tende a ser redobrada.

Park Geun-hye, antes vista como filha de um dos grandes líderes do país, ou de um dos grandes ditadores, pode se tornar uma das mentes corruptas para o povo sul-coreano e, com isso, manchar o seu legado. 2017 não será um ano fácil para a Coreia do Sul, pois terá de lidar com as ameaças da Coreia do Norte, com as divergências territoriais com os japoneses e com as incertezas sobre o futuro das relações Seul-Washington, além disso, diante desse cenário, a Coreia do Sul está queimando muitas energias com a crise política, algo que pode significar uma porta de entrada para oportunistas domésticos e para os inimigos da parte norte da península.

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Imagem 1 Presidente Park Geunhye, em 2013” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Processo_de_impeachment_de_Park_Geun-hye#/media/File:Park_Geun-hye_(8724400493)_(cropped).jpg

Imagem 2 Park Geunhye e Park Chunghee” (FonteKim Hongji / ReutersArquivo histórico):

http://justgopoppi.com.br/wp-content/uploads/2016/11/familia.jpg

Imagem 3 Park Geunhye em seu discurso de posse, 2013” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Park_Geun-hye

Imagem 4 Protesto contra Park Geunhye em Seul, 29 de outubro de 2016” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Processo_de_impeachment_de_Park_Geun-hye#/media/File:Mass_protest_in_Cheonggye_Plaza_02.jpg

Imagem 5 Protesto realizado em novembro de 2016” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Processo_de_impeachment_de_Park_Geun-hye

Imagem 6 Roh Moo-hyun, ExPresidente da Coreia do Sul” (Fonte):

http://a5.files.biography.com/image/upload/c_fit,cs_srgb,dpr_1.0,h_1200,q_80,w_1200/MTE4MDAzNDEwMTU4NjUwODk0.jpg

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ANÁLISES DE CONJUNTURAÁSIA

[:pt]SMARTBIKES da China podem revolucionar o transporte, as relações de consumo e a matriz energética mundial[:]

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Nas décadas de 1970 e 80, a China era famosa pela quantidade de bicicletas. Naquela época, andar de bicicleta não era nem elegante, nem “descolado”, nem tampouco politicamente correto ou ambientalmente sustentável: o carro era o símbolo máximo de status do sistema capitalista de produção. A China comunista e superpopulosa tinha a bicicleta como o meio de transporte mais popular.

O conceito de “smartbike” começou como um mero serviço de locação de bicicletas públicas, instaladas próximas a pontos turísticos e estações de trem do metrô, que são retiradas e devolvidas automaticamente pelos usuários. O pagamento também é realizado de forma eletrônica. A ideia era dispensar a mão-de-obra e incentivar populações a usarem menos os automóveis, com o compartilhamento de um meio de transporte popular que passa a maior parte do tempo parado. O projeto teve início na França e foi implementado pelo grupo de publicidade Clear Channel Communications em 1998, e rapidamente se espalhou pela Europa. Países como o Brasil já a utilizam em campanhas publicitárias. O pagamento do serviço de locação, atualmente, é realizado por meio de aplicativos (softwares) de smartphones. 

Com o advento da Internet, surgiu em 1999, pela boca do diretor do MIT Media Lab o termo Internet of Things (IoT), para definir a integração da rádio frequência à Internet para identificação de produtos, estoques, transporte e logística. A Internet das Coisas é nada mais que a integração entre os produtos e a tecnologia de informação pela Internet, onde objetos como refrigeradores alertariam seus donos pelo smartphone que falta leite ou cerveja, por exemplo.

O próprio smartphone, o “telefone inteligente”, na versão em Português, não deixa de ser um bom exemplo de IoT, em que foram instalados computadores de bordo nos aparelhos de telefonia móvel, conectados à Internet. Revolucionou conceitos de consumo e negócios. A portabilidade de um computador que cabe no bolso e sua conexão com a rede mundial de computadores permitiram o surgimento e a criação de vários programas de computador adaptados a esses minicomputadores, os chamados aplicativos, sendo a maioria deles com funções de marketing. Em suma, um produto conectado à Internet – de novo, a IoT – revolucionou o mercado porque facilitou a venda de produtos e serviços.

Com mais tempo próximo de um computador e da Internet, bilhões de pessoas passaram a consumir informação, produtos e serviços disponíveis nas infinitas promoções de vendas. Sites de músicas, jornais e revistas passaram a entregar conteúdo online grátis e softwares como Uber, Airbnb, Alibaba, de fácil instalação nos dispositivos móveis, diminuíram a distância entre fornecedores de produtos e serviços e os consumidores finais. A Internet e os smartphone alteraram profundamente as relações comerciais, erodindo indústrias e criando outras. Internet, automação e robótica baseada em softwares robôs transferiram investimentos do capitalismo industrial para o capitalismo conceitual[1], um capitalismo baseado em marcas, patentes, design e na capacidade de divulgação e distribuição de produtos.

Se, antes, a riqueza era medida pelo número de fábricas ou empregados, e o sucesso nas vendas dependeria de que cada consumidor comprasse ao menos um produto para uso pessoal, individual e próprio (o “seu” carro, a “sua” bicicleta), na nova economia a maioria das empresas mais bem-sucedidas nas Bolsas de Valores ao redor do planeta produzem apenas informação, conteúdo, mídia ou simplesmente conectam produtores aos clientes ou interconectam consumidores, incentivando possuidores a compartilharem produtos e serviços com outros usuários. As antigas cidades industriais passaram a ser cidades de serviços. E ainda estamos só no começo.   

Conforme salientamos em Nota Analítica intitulada “Cybereconomia’ e ‘Crescimento Verde’: Principais Agendas da China”, de 15 de julho de 2016, muitos itens desse novo modelo de negócio baseado na Internet, automação e robótica de computadores são alvo da estratégia econômica de governos (Alemanha, Israel e China) e disputas acirradas de mercado.

No caso da China, a smartbike concorre com a impressora 3D como o produto conectado à Internet alvo das indústrias de tecnologia de ponta. A primeira chamando a atenção, inclusive da administração pública das megalópoles chinesas, devido aos problemas de superprodução e uso inadequado.

Mas, as smartbikes da China não são bicicletas inteligentes apenas no sentido da locação automática e compartilhamento iguais as da França no início do uso do rádio com a Internet: são um novo conceito de smartbikes, conectadas à Internet e que podem gerar mais informação acerca do consumo e do tráfego de populações nas grandes cidades. Marcas como Mobike, Ofo, Youôn, Ubike, WeChat e, mais recentemente, a Bluegogo, todas, assim mesmo, marcas com inscrições ocidentais, cada uma com design e cor característicos, tem seus produtos e serviços à venda ou locação via smartphone. Essas bicicletas estão invadindo calçadas, ruas, ciclovias e até latas de lixo.   

Segundo o fabricante da bicicleta inteligente “dobrável” QiCycle, a Xiaomi, esse meio de transporte é “perfeito para as cidades lotadas da China”. São bicicletas que medem o torque e a força bruta do usuário, e ajustam a rotação do motor ao estilo de pedalada de cada um, com baterias com até 45 quilômetros de autonomia. O mais fantástico é a integração da QiCycle a um aplicativo de smartphone que informa a localização da bicicleta, permite navegação por GPS, informa velocidade, distância, nível de bateria e até a quantidade de calorias queimadas. Custa 2.999 ienes, o equivalente a R$ 1,5 mil.

A título de comparação, o modelo mais comum de bicicleta elétrica do Brasil, a Lev, ainda não tem conexão com a Internet. Em sua página promocional na Internet a marca faz uma declaração que brinca com a realidade e a ficção, “Pensar em bicicleta elétrica no Brasil, no ano de 2008, era como pensar em pessoas usando discos voadores […]. Em viagem à China, um dos fundadores da Lev se encantou por uma das ‘magricelas elétricas’, como os chineses chamavam as bicicletas. Elas rodavam por todos os lados em Pequim, levando as pessoas de forma prática, sem ruídos ou poluição”. A bateria da versão brasileira tem autonomia de apenas 30 Km. O preço? R$ 5.490,00. Registre-se que a marca Lev é brasileira, porém suas bicicletas elétricas são fabricadas na China (!).

O Big Data como o conceito por trás da Internet das Coisas (IoT)

Voltando à aplicação da IoT nas bicicletas elétricas, que, a exemplo dos smartphones, qualquer cidadão de classe média possa comprar, imaginemos a seguinte situação: O fabricante da bicicleta inteligente instala Internet, sensores e aplicativos no quadro da bicicleta, que passa a produzir dados e informações sobre horários de maior uso, rotas, paradas, locais de abastecimento (corrente elétrica), pontos de estacionamento de maior período para identificação de locais de trabalho, lazer e consumo e, com ou sem o consentimento do usuário, possa vender esses megadados para governos e companhias diversas.

Quase tudo isso já é possível por meio dos smartphones, mas, por meio do deslocamento dos usuários de bicicletas podemos medir, analisar e até prever o comportamento de transporte e tráfego humano. Governos implementariam políticas habitacionais e de deslocamento mais adequadas. O Big Data, os megadados formados a partir dos dados de usuários de smartbikes, em um contexto de cidades Pequim, Shangai e outras megalópolis fora da China, ajudaria governos e empresas com o planejamento estratégico a partir da análise da mobilidade urbana. O Big Data das bicicletas inteligentes ajudaria na implementação do conceito de Cidades Inteligentes com predições, previsões de deslocamento populacional com base nos locais de emprego, renda e lazer. São dados úteis aos governos e às empresas das industrias elétricas, da construção civil e fast-food.

Smartbikes, o início do fim da indústria do petróleo

Difícil imaginar como um meio de transporte individual, porém compartilhável, não poluente e redutor de problemas de saúde pode ter adversários. As smartbikes têm. Muito mais baratas e menos poluentes que as motocicletas e motonetas movidas à combustíveis fósseis, as bicicletas inteligentes que convergem força bruta com torque e tração elétrica proporcional e estão integradas à Internet – leia-se aos smartphones – são uma aposta bastante provável de tomar conta das cidades inteligentes, tais como os telefones inteligentes tomaram conta do mercado e revolucionaram as relações de consumo.

Terça-feira, dia 27 de dezembro de 2016, o Comitê de Transporte da cidade de Shenzhen, na China, baixou um decreto para regulamentar o aluguel, o uso e o estacionamento dessas bicicletas, com responsabilização direta das companhias que as comercializam e alugam, por causa dos acidentes que vem sendo causados pela massa de novos usuários desses modelos de transporte. Segundo a administração de Shenzhen, os usuários das bicicletas inteligentes “não seguem as regras para o tráfego de veículos. O caos de estacionamento e outro mau comportamento representa um problema para a administração da cidade”.

A adoção do conceito de transporte individual compartilhável e movido a eletricidade por governos e populações de grandes cidades acendeu a luz vermelha das fábricas de carros e motocicletas e representa grave risco à indústria do petróleo, a mais poderosa indústria do mundo e da qual governos e empresas dependem especialmente em casos de conflitos armados.

A matriz energética, especialmente as de combustíveis fósseis, e sua influência em questões de estratégia governamental e política, são assuntos em pauta de jornais de relações internacionais, universidades e companhias. Segundo o Doutor em Ciência Política pela Universidade de Campinas (Unicamp) e Professor do pós-doutorado de História na Universidade Federal Fluminense (UFF), José Alexandre Altahyde Hage, o melhor livro sobre esse assunto é o Petróleo: Poder e Glória, de Daniel Yergin, publicado no Brasil em 1992. Ele demonstra os esforços de potências como os Estados Unidos da América e o Reino Unido para manter e regular a oferta de petróleo e o poder[2].  

Portanto são governos de países como Estados Unidos da América, Reino Unido e Rússia e toda a indústria do petróleo, com todas as companhias que integram a cadeia de produção de petróleo, que sofreriam perdas financeiras decorrentes da adoção de conceitos como “cybereconomia” e “crescimento verde”, atuais agendas da China. E o gigante asiático parece não perder tempo. A popularização das bicicletas elétricas chinesas é um exemplo disso.

A mudança da matriz energética “petróleo” para a matriz de energia elétrica ou eletromagnética, hidroelétrica ou solar, dependem da mudança de paradigma de comportamento do consumidor e seu status. Somente em modelo mental (mentalidade) “verde”, amparada em forte comunicação social “menos é mais”, ou “ser é melhor que ter”, conduziria o cidadão a comprar menos produtos individuais poluentes e a consumir mais serviços de compartilhamento de produtos ecologicamente sustentáveis.

Do ponto-de-vista estratégico chinês, o impulsionamento de uma economia digital “verde” com ênfase em impressoras 3D de tecnologia de ponta e bicicletas inteligentes elétricas compartilháveis não somente reduziria a poluição na China como também diminuiria sua dependência do petróleo. Produtos feitos em impressoras 3D consomem plástico (petróleo) nos países consumidores dessas máquinas, e as smartbikes não usam combustíveis fósseis, senão energia elétrica – ou solar, futuramente –, e somente em quantidade necessária, quando o usuário não está pedalando, praticando exercícios físicos que reduzem o consumo de energia e melhoram a saúde.

Não bastassem as vantagens estratégicas internas da China em uma economia digital e “verde”, testadas e aprovadas por potências como Alemanha – com a qual a China mantêm conversações nesse sentido, há mais de 10 anos consecutivos –, ao mesmo tempo em que fortalecem sua economias, os países da vanguarda da Era Digital enfraquecem as potências do Império Anglo-Estadunidense formado pelo bloco dos “FIVE-EYES”, composto por Estados Unidos da América, Canadá, Reino Unido, Austrália e Noza Zelândia, conforme denúncia do ex-analista de Inteligência da Agência Nacional de Segurança dos EUA, Edward Snowden. Assim como a Rússia, o poder desse bloco está intimamente vinculado à indústria do petróleo e ao controle de zonas produtoras e distribuidoras.

Em um mundo cada vez mais digital e conectado, em que as lojas físicas perdem mercado para lojas de compras virtuais em sites de Internet, alugar bicicletas e dividir carros por meio do smartphone parece mais inteligente que comprar veículo de transporte próprio, e a informação e o volume de dados gerados pelo consumidor representam um “ativo” a ser trabalhado e explorado. O software robô (servo, em Tcheco) é o novo Golem e a “Revolução das Máquinas” começou agora que o Big Data e a Internet das Coisas (IoT) ativaram os efeitos imprevisíveis dos smartphones, impressoras 3D e smartbikes dos habitantes das “Smart Cities”.     

O petróleo ainda é indispensável, mas, a pergunta é: Até quando?

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Imagem 1Xiaomi apresenta bicicleta inteligente” (FonteDivulgação/Xiaomi):

http://olhardigital.uol.com.br/noticia/xiaomi-apresenta-bicicleta-inteligente/59612

Imagem 2A Internet das Coisas conecta os aparelhos e veículos usando sensores eletrônicos e a Internet” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Internet_das_coisas

Imagem 3Linha de produção de carros” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Engenharia_de_produção

Imagem 4Motoneta e bicicleta elétrica recarregando baterias na China” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Bicicleta_elétrica#/media/File:Wuchang_Garment_District_-_charging_batteries_-_P1040874.JPG

Imagem 5Roda da Cidade Inteligente” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Roda_da_cidade_inteligente#/media/File:Roda_da_Cidade_Inteligente.png

Imagem 6Refinaria de petróleo” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Refinaria#/media/File:ShellMartinez-refi.jpg

Imagem 7Uma das cúpulas geodésicas situadas na base RAF Menwith Hill, usadas para esconder a direção de antenas e equipamentos do sistema Echelon” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Tratado_de_Segurança_UK-USA#/media/File:Menwith-hill-radome.jpg

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Notas e Fontes consultadas, para maiores esclarecimentos:                                                 

[1] Capitalismo conceitual é o termo aqui cunhado para designar um capitalismo pós-industrial em que há prevalência dos serviços de marketing, do desenho industrial e da tecnologia da informação, enfim, em que conceitos prevalecem sobre a produção de bens de consumo duráveis e não duráveis. N. do A.

[2] Resenha de “A Tirania do Petróleo: A mais Poderosa Indústria do Mundo e o que Pode ser feito para Detê-la”, de Antonia Juhasz, por José Alexandre Altahyde Hage.

Fonte: http://www.ibri-rbpi.org/?p=12381

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ANÁLISES DE CONJUNTURAÁSIABLOCOS REGIONAISCooperação InternacionalECONOMIA INTERNACIONAL

[:pt]Analistas questionam se os incentivos da China no Setor Primário do BRICS poderiam sabotar o desenvolvimento do Bloco[:]

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O setor primário é entendido como as atividades que extraem e/ou modificam a matéria-prima, transformando os recursos naturais em produtos primários. Os produtos do setor primário são considerados matérias-primas para outras industrias, destacando-se que as atividades desse setor incluem a pecuária, agricultura a pesca e a mineração. Em síntese, neste setor estão as indústrias de matérias para fabricação, como o petróleo.

Sob a necessidade de alimentar sua superpopulação e obter insumos para a produção tecnológica de seu gigantesco parque industrial, a China aumentou consideravelmente a demanda de produtos primários nos últimos 20 anos. Segundo informações do Plano Agrícola e Pecuário 2014/2015 do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, a partir do “Commodity price forecast. World Bank. January 30, 2014”, “as importações agrícolas da China também deverão permanecer elevadas devido ao crescimento do consumo per capita das principais commodities agrícolas, conforme projetado pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) para os próximos anos”.

Como publicado na Nota Analítica “Lenta e gradativamente, Alemanha se aproxima da China, líder do Brics”, desde 2009, a China é o maior parceiro comercial do Brasil, país do Bloco conhecido como celeiro do mundo, tendo os chineses comprado principalmente soja, carnes, minério-de-ferro e petróleo, mas analistas interrogam as consequências dessa situação. As repostas dependem da perspectiva adotada.

Em um primeiro momento, grupos econômicos como os do agronegócio, energia e infraestrutura de logística, transportes e aeroportuária seriam beneficiados com a escalada de consumo chinês. Milhares de empregos seriam gerados, tributos arrecadados e assim seria possível construir cenários com mais um estágio de prosperidade e de nova alta do preço das commodities no mercado global. Foi essa demanda por produtos primários, chamados de commodities (“mercadorias”, em tradução livre) porque praticamente não há transformação, que elevou o PIB de alguns países agroexportadores e potências “em desenvolvimento” e propiciou a formação do bloco BRICS. Empresas como a “Chinatex Grains and Oils Imp. & Exp. Co., Ltd.” adquirem safras de soja de cooperativas do Brasil, que lançam mão de financiamentos e investimentos milionários muito antes de as sementes serem lançadas ao solo.

A longo prazo, no entanto, expectativas de aumento da demanda da China por uma ou outra commodity e promoções de vendas de mercadorias pelos demais países do BRICS, dirigidas ao líder econômico, pode aumentar a dependência do grupo em relação à economia primária.

No caso do Brasil, o sonho do ex-presidente Getúlio Vargas em transformar um país rural em uma potência econômica industrial, com sucesso em vários aspectos, pode retroceder e ver o parque industrial nacional diminuir, bem como a economia nacional retroagir predominantemente à economia primária e agroindustrial.

A “invasão” de produtos manufaturados chineses, produzidos à base de mão-de-obra barata, e a guerra cambial agrária e de preços muito competitivos – praticamente insuportáveis à indústria brasileira ou mesmo estadunidense –, reduzem significativamente o parque industrial desses países e inclina empresários, investidores e o setor financeiro à prestigiar o mercado primário.

No entanto, o erro estratégico de uns pode ser o plano estratégico de outros. Por essa razão observadores questionam se os maciços investimentos da China em mercadorias não poderia sabotar, de maneira transparente e até requerida pelos Estados envolvidos, o desenvolvimento industrial dos demais países do BRICS. Refletindo sobre tal observação, percebe-se que essa é uma premissa que precisa ser considerada, se forem levados em consideração os seguintes pontos:

  1. O BRICS é um possível bloco econômico em construção e em ascensão, do qual até a Alemanha quer se aproximar;
  2. A China é a líder econômica, política e financeira desse Bloco em constante concretização – já que contribui com fundos de socorro de US$ 41 bilhões do total de US$ 100 bilhões no Banco do BRICS – e tem interesse em que os demais países do grupo atendam ao seu parque industrial, com matérias-primas baratas e mercado consumidor, lógica do sistema econômico desigual e combinado de um tipo de capitalismo;
  3. Apesar da pujança da economia do Brasil e do incrível crescimento da Índia durante a crise econômica que desacelerou o crescimento dos demais países do BRICS, cada vez mais surgem razões para se acreditar que o BRICS pode ser entendido como um projeto chinês e russo, uma vez que há uma liderança financeira da China, um poderio militar de ambos, o compartilhamento de metadados entre eles e de informações estratégicas dos 2 projetos de desenvolvimento Banco do BRICS – o The Data Center ‘Xiaomi Hosting’ da empresa Xiaomi-hosting Ltd.; e o International Global Monitoring System ‘GRAND EXPERT’, da empresa International Non-Profit Social Movement GRAND EXPERT (www.grand.expert), possivelmente de liderança técnica russa.

Sendo assim, os Investimentos da China em soja, proteína animal, petróleo, minério-de-ferro e infraestrutura de escoamento dessa produção, no Brasil e demais países do BRICS, pode ser uma oferta irrecusável de aporte de recursos, mas que, a longo prazo, poderia criar as condições de manter esses países emergentes em sua esfera de dependência, vinculada exclusivamente ao mercado de commodities e, consequentemente, suscetíveis às sucessivas crises econômicas mundiais.

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ImagemO processo de mecanização do campo ampliou a produção e reduziu a oferta de emprego”   (Fonte):

http://brasilescola.uol.com.br/economia/setor-primario.htm

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ANÁLISES DE CONJUNTURAÁSIA

[:pt]China está determinada a protagonizar a Quarta Revolução Industrial[:]

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Aprendemos sobre a Revolução Industrial, cujo início se deu na Inglaterra do século XVIII. Neste acontecimento, que, na realidade, foi um processo ocorrido em longo prazo, passou-se do modelo basicamente artesanal do processo produtivo de manufaturas para o modo industrial de produção em maior escala.

Em seguida, houve a chamada “Segunda Revolução Industrial”, que durou de meados do século XIX até a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), período em que houve a transformação do processo de fabricação simples para a produção em série, marcada pela divisão de tarefas, especialização da atividade dentro da fábrica e uso da energia elétrica. A produção em série foi desenvolvida especialmente por Henri Ford, nos Estados Unidos da América, com seu modelo de carro Ford T, cujo aquisição era possível à massa de consumidores porque o preço era acessível, uma vez que sua produção se dava em larga escala. Além disso, seus empregados ganhavam bem mais que os trabalhadores da concorrência e nenhum deles fazia o serviço todo: cada um era especialista em uma peça ou componente do veículo, ou na montagem, ou no marketing, ou nas vendas, assim por diante.

Após a Segunda Guerra Mundial até o presente momento, ocorreu o que alguns economistas chamam de a “Terceira Revolução Industrial”, que tem como principais características o uso de tecnologia avançada, do petróleo e da energia nuclear, a globalização da economia e a maior competição entre várias empresas que passaram a adotar não apenas o marketing doméstico, mas também o marketing internacional e o global.

A robotização e automação das indústrias, a telecomunicação via satélite nas empresas, o uso de computadores pessoais, dos caixas de atendimento eletrônico, de softwares e smartphones pelos consumidores catapultaram as sociedades para um modelo de civilização extremamente sofisticado. Á medida que esses avanços iam ocorrendo, o surgimento e popularização da Internet nos anos 1990, levou a que fosse iniciado nos países mais desenvolvidos do mundo aquilo que muitos economistas chamam de a Quarta Revolução Industrial ou Indústria 4.0, a qual ganhou destaque recentemente, porque foi o tema central do Fórum Econômico Mundial de Davos (Suíça), em 2016. Nesse sentido, é importante entender o que vem a ser esta Quarta Revolução Industrial e qual a estratégia da China para ela.

A Quarta Revolução Industrial é vista como o fenômeno da educação estruturada para melhor exploração da Internet e dos recursos tecnológicos, com o objetivo de desenvolver uma economia cibernética (Cybereconomia), combinada com a menor, ou melhor utilização dos recursos naturais e energéticos. É a economia limpa e de automação digital, com ênfase na Internet das coisas (IoT), na computação em nuvem e nos sistemas cyber-físicos, como as impressoras 3D. Além disso, ocorre a adoção do conceito de cidades inteligentes.

Um exemplo dessa concepção é a substituição das cartas e memorandos de papel por mensagens eletrônicas (e-mail), rompendo com as indústrias da celulose (papel) e serviços de entrega de correspondências. O que vale é a informação, não o arquivo que a transporta. Hoje, é possível pensar em produtos chegando nas residências “pela Internet”, algo viável com o uso de impressoras 3D, ligadas à Internet. Por esse sistema, alguém poderá “baixar” programas de computador para a construção de equipamentos ou protótipos de peças industriais de design do remetente.

Conforme exposto na Nota Analítica “‘Internet+’, o Programa de Digitalização da Economia Chinesa”, o Governo da China está seriamente comprometido na robotização e digitalização da economia para a promoção do seu crescimento, e, com isso, vem aumentando sua parceria com a Alemanha, país que, inclusive, cunhou o termo “Indústria 4.0”, em 2012.

A China é um parque industrial com a aspiração de integrar a elite de países que vendem ideias e desenhos industriais e lucram com os royalties de suas criações, porque essa nova economia tem menos foco nos processos de produção e mais enfoque no marketing, na venda e na entrega de produtos e serviços.

Os Estados Unidos da América (EUA) e a Alemanha são arautos dessa nova economia e são sedes de grandes empresas de tecnologia como Google, Facebook, AirBnb, Siemens, Nokia e Yasni, tendo a China determinado que se igualará a eles, do ponto-de-vista econômico e tecnológico, razão pela qual vem realizando investimentos, especialmente em educação, ciência e tecnologia.

Nesse sentido, os chineses ativaram sua Quarta Revolução Industrial para realizar outro grande salto, podendo avançar mais, com o intuito de participar como protagonista na condução do processo histórico deste século XXI, juntamente com as demais potências globais. Para efeitos comparativos, o Brasil*, a segunda maior potência econômica do BRICS, ainda mantém suas relações comerciais pelo globo focada essencialmente no desenvolvimento do setor de commodities, permitindo, assim, que seu parque industrial de manufaturas seja lentamente empobrecido, graças à falta de planejamento de longo prazo, bem como de estímulos e investimentos para a indústria de ponta, tanto de recursos quanto de tecnologia sensíveis. Em poucas palavras, China já está na Quarta Revolução Industrial. O país elaborou e implementou uma estratégia nacional de mudança de economia baseada em commodities, caminhando agora para uma cybereconomia de design, marcas, patentes e serviços digitais (digitalização)**. Observa-se que a China está determinada a protagonizar a chamada Quarta Revolução Industrial ou, ao menos, “pegar carona” no fenômeno da digitalização dos processos produtivos.

Acredita-se que essa inclinação para uma indústria de serviços baseada na Web/Internet reduzirá o desmatamento, a poluição e a emissão de gases tóxicos, porém diminuirá ainda mais as compras de commodities pela China, enfraquecendo as economias dos países membros do BRICS, muito dependentes da exportação de alimentos, minérios e fontes de recursos energéticos para garantir o equilíbrio de suas balanças comerciais.

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* Foi justamente durante a Segunda Guerra Mundial que o Brasil conseguiu transformar sua economia basicamente agrária para uma economia industrial, quer manufatureira, quer de produção de energia e recursos naturais, para satisfazer o parque industrial das principais potências econômicas, tendo sido esta sua principal vocação. (N. do A.)

** Esta tese foi desenvolvida por mim e é apresentada em artigos, palestras e cursos.

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Imagem (Fonte):

http://news.alkipage.com/imprensa-chinesa-pede-punicao-a-empresas-de-tecnologia/

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AMÉRICA DO NORTEAMÉRICA LATINAANÁLISES DE CONJUNTURAÁSIAEUROPAORIENTE MÉDIO

Geração Elétrica Nuclear: Competitividade e Aceitação Pública

Hoje, no mundo, existem 67 usinas nucleares em construção: 23 na China, 9 na Rússia, 6 na Índia, 5 nos EUA, 4 na Coréia do Sul, 4 nos Emirados Árabes Unidos, 2 no Japão, 2 na Belarus, 2 na Ucrânia, 2 no Paquistão, 2 na Eslováquia, 2 em Taiwan, 1 na Argentina, 1 na Finlândia, 1 na França e 1 no Brasil. Recentemente, o Reino Unido lançou a construção de mais 2 usinas. A potência dessas novas unidades representa 18% de acréscimo à potência instalada das 439 usinas em operação, que atualmente geram 12% da eletricidade produzida no mundo.

Nos últimos 10 anos, 42 novas usinas entraram em operação. Isso demonstra a competitividade da geração nuclear em termos de custos de produção. Entretanto, duas razões explicam por que o número de usinas nucleares em construção não é bem maior: custos de construção e aceitação pública. Há, contudo, uma ligação importante entre essas duas causas.

Como o número de usinas em construção demonstra, a aceitação pública não constitui impedimento para novos empreendimentos em muitos importantes países. O maior problema é o custo crescente de investimento de capital e as dificuldades de estruturar projetos para financiar esses investimentos de longo prazo de maturação. Contudo, os números mostram que se abriu uma distância entre esses custos no Ocidente e no Oriente, onde se concentram a maioria das novas construções. Há formas que permitem que essa distância seja diminuída e que questões relativas à competitividade da energia nuclear sejam tratadas. Entretanto, as questões que envolvem a aceitação pública são, pelo menos, em parte, responsáveis pelo problema subjacente dos custos de construção no mundo ocidental.

Seria possível reduzir esses custos padronizando projetos de reatores e adotando uma abordagem internacional de regulamentação, similar àquela que já existe há muito tempo na indústria aeronáutica, tendo uma cadeia de fornecimento global e aprendendo com a experiência asiática de gestão de projetos nucleares. Entretanto, reais ganhos na redução de custos somente poderão ser obtidos se o público confiar no nuclear, permitindo um sistema de planejamento mais simples, um sistema regulatório sem restrições exageradas e acesso mais fácil ao financiamento.

Se Fukushima impôs mais obstáculos para a aceitação pública e, portanto, também aos custos da geração, o que a indústria nuclear pode fazer a esse respeito? O primeiro ponto a assinalar é que a opinião pública e o nível de apoio político para a energia nuclear é basicamente local. Há diferenças importantes de país para país, mas sabemos que mesmo dentro de países onde há significativa aceitação da energia nuclear, ela varia consideravelmente segundo a região. Sabemos também que, mesmo em países onde há um forte sentimento antinuclear, há importante aceitação nas regiões que estão ao redor das instalações nucleares.

É equivocado concluir que o apoio à energia nuclear nessas regiões decorra exclusivamente dos empregos associados a essas instalações. A familiaridade com a tecnologia e as próprias usinas, aceitas simplesmente como parte da vida cotidiana na região, é muito mais importante. Esta é a razão fundamental pela qual a energia nuclear não consegue aceitação pública em outros lugares. A sua distância da sociedade em geral leva ao desentendimento e à susceptibilidade às imagens negativas difundidas com tanto êxito pelos antinucleares.

O consenso da indústria em geral relativo à aceitação pública é que o setor nuclear comercial começou de uma base muito ruim nos anos 1950 e 1960 e, desde então, não conseguiu se recuperar. Surgir a partir de programas de armas nucleares significou que as ligações entre o uso civil e militar da ciência nuclear estavam consolidadas e o medo de armas nucleares contaminou o setor civil.

Pode-se alegar, de fato, que esta continua sendo uma força poderosa até hoje. A forte oposição pública à energia nuclear na Alemanha está enraizada na sua posição geográfica bem no foco central da Guerra Fria, com armas nucleares táticas americanas localizadas e prontas para serem usadas no seu território. E se perguntarmos às pessoas hoje que palavra elas associam ao nuclear, é menos provável que seja “energia” do que “guerra”, “bomba”, “explosão”, ou algo semelhante.

A arrogância (pelo menos pelos padrões de hoje) dos primeiros porta-vozes da energia nuclear também criou muitos problemas que levaram anos para serem eliminados. O grau de sigilo relativo à informação que se estendia até mesmo a fatos básicos pode ter sido inevitável, mas também foi uma cruz pesada que a indústria passou a ter que carregar.

Hoje, contudo, a indústria está muito melhor. Ela usa a mesma linguagem de “envolvimento das partes interessadas” como qualquer outro setor e programas de responsabilidade socioambiental corporativa são seguidos por suas empresas. Esses programas são executados segundo a ideia de que não há nada a esconder e um público bem informado tem mais probabilidade de dar seu apoio à indústria. Esta também tem sido a abordagem adotada por associações nucleares regionais, nacionais e internacionais: passar as informações com máxima clareza e transparência para o público trará maior aceitação. Embora a popularidade de todos esses serviços tenha crescido, o problema da imagem pública do nuclear continua limitando o seu potencial de contribuição para a matriz energética mundial.

A indústria sempre soube, entretanto, que somente clareza e transparência na divulgação de fatos reais não são suficientes. Muitas pessoas que têm uma atitude antinuclear são muito bem informadas e extremamente inteligentes. O problema é que elas veem o mundo de uma forma bem diferente. O seu sistema de valores remonta a uma era mítica pré-industrial em que o mundo era um lugar mais simples, no qual o campo abundante era muito verde e no qual as tribulações do mundo moderno não existiam. A energia nuclear personifica muito daquilo que esses grupos odeiam em relação à vida de hoje e simplesmente dar a eles fatos só reforçará a sua desaprovação. Pode-se alegar que essa atitude também é uma força muito poderosa no forte sentimento antinuclear presente na Alemanha. Apesar do sucesso na economia mundial e uma forte cultura científica e de engenharia que favorece a racionalidade, os alemães são muito contrários ao nuclear. Muito disso pode estar enraizado numa visão do passado de certa forma romântica, na qual o nuclear foi uma imposição que não é nada bem-vinda.

Outra questão é a força do testemunho. Quem transmite os fatos pode ser mais importante do que os próprios fatos. Bons defensores independentes são fundamentais para o setor, mas é difícil encontrá-los. Ambientalistas que dão o seu apoio ao nuclear, como Patrick Moore e James Lovelock, podem ter bastante influência, em particular com públicos jovens, mas são necessários mais. Fatos sobre o nuclear são mais persuasivos quando alguém independente os relata.

Mesmo as melhores fontes de informação precisam de esforço para ser ouvidas. Frequentemente, as pessoas não querem ser bombardeadas por fatos, ou simplesmente não querem reagir a eles. Dessa forma, a persuasão requer uma estratégia mais sutil e baseada na emoção. A maioria das pessoas têm questões bastante difíceis para enfrentar em suas vidas cotidianas sem ter que se preocupar com a origem da sua eletricidade. Embora tenham realmente que pensar a respeito, seria melhor não. É só quando temos uma crise de energia, quando falta luz, quando há filas nos postos de gasolina, ou quando os preços sobem rapidamente, que a maioria das pessoas se dá conta e percebe a importância da energia nas suas vidas cotidianas.

Temos a reação semelhante ao reflexo involuntário do joelho, que leva provavelmente a políticas de curto prazo inapropriadas. Poucos países têm de fato estratégias energéticas coerentes. Não parece que o público em geral exija realmente esse tipo de planejamento dos seus líderes políticos, o que é muito ruim. Temos que aceitar que a energia ainda seja vista por muitas pessoas como água: é praticamente como se fosse um ato de Deus o fato de estar ali. Entretanto, podemos ver que o impacto óbvio do uso da energia no meio ambiente está gradativamente mudando isso. O debate sobre a mudança climática é a respeito de magnitudes e tipos de fornecimento de energia.

Os conceitos de “risco apavorante” e “viés de confirmação” podem ajudar aqui. Riscos Apavorantes são aqueles que causam medos desproporcionais, nos quais nenhum número ou argumento técnico pode influenciar a percepção, contra o qual é praticamente impossível lutar depois que se estabeleceu na mente das pessoas. A energia nuclear está ligada ao medo da guerra nuclear e ao pavor de uma morte por radiação que pode ser lenta e muito dolorosa. De fato, em geral, pode-se dizer que o câncer representa um “risco apavorante” para muitas pessoas, mesmo que hoje se saiba muito mais sobre o seu diagnóstico e tratamento do que antes. Portanto, através desse argumento, o setor nuclear já perdeu a batalha com gerações mais velhas e deveria concentrar-se em educar os jovens. Explicar-lhes tudo a respeito de Fukushima e radiação é particularmente importante nesse caso.

O conceito de Risco Apavorante também pode ser útil para explicar o medo alemão de tudo que se refere ao nuclear. A sua situação na linha de frente da Guerra Fria, com armas nucleares americanas táticas posicionadas no seu território, pode explicar muito do que se vê hoje. Entretanto, parece que esse medo se espalhou também nas gerações mais jovens. Ao contrário da juventude de muitos países, parece que os jovens alemães herdaram as mesmas opiniões dos seus pais.

O Viés da Confirmação é outro conceito útil. Ele postula que a maioria das pessoas olha para o mundo não para encontrar a verdade, mas simplesmente para encontrar provas que deem suporte a crenças previamente inculcadas. As pessoas não se interessam muito em saber que podem estar erradas; não querem mudar o seu ponto de vista. De acordo com essa ideia, oferecer mais provas poderia se tornar contraproducente. Sempre soubemos que esse é o caso dos ativistas antinucleares empedernidos que, basicamente, não têm interesse na maioria dos aspectos do mundo moderno, não somente na energia nuclear. Essa atitude, porém é um fenômeno muito difundido: todos os nossos esforços para explicar podem não valer para nada e tudo que dizemos tende a confirmar a visão de que a energia nuclear não é segura.

Então, como os defensores da energia nuclear chegariam até as pessoas? Comunicações mais focalizadas com determinados grupos das partes interessadas podem de fato ajudar e muito disso necessariamente implicará explicar a tecnologia nuclear e seus fatos básicos. Sabe-se que é importante começar com gerações mais jovens que não assimilaram os preconceitos e imagens negativas do nuclear, comum entre seus pais e avós. Foram feitos esforços com crianças em idade escolar em diversos países com tecnologia nuclear, particularmente na Coreia, onde há um organismo subsidiado pelo Governo chamado KONEPA, especificamente concebido para explicar a todos os cidadãos a posição importante do nuclear dentro do mix de energia mundial.

Entretanto, a eficácia de todo esse trabalho provavelmente continuará limitada. Embora a indústria nuclear possa continuar a aperfeiçoar os seus sítios de internet e envolva amigavelmente as partes interessadas mais importantes, sempre faltará um elemento fundamental. De alguma maneira, a energia nuclear teria que ser descrita como um negócio normal, realizado por homens e mulheres comuns que desempenham um papel importante para satisfazer a necessidade da sociedade de ter energia limpa.

Quando o nuclear é apresentado na televisão, nunca é de forma discreta, como seria o caso de uma fábrica de automóveis ou de processamento de alimentos. Quando o nuclear é colocado num livro, num seriado de televisão ou filme, sempre é para aumentar o efeito dramático. Sem falar nos Simpsons, no qual Homer é um idiota desajeitado que por acaso trabalha numa usina nuclear. Esse é o problema: a indústria nuclear se tornou um alvo fácil para grupos de pessoas que se opõem ao modo de vida moderno. Também se mostra como uma maneira conveniente de acrescentar um grau de problema, drama, ou excesso a qualquer situação.

Também existe a natureza amedrontadora do nuclear que se deve enfrentar. De fato, embora a indústria tenha um histórico geral de segurança excelente, os poucos grandes acidentes ocorridos (somente três: Three Mile Island, Chernobyl e Fukushima) tornaram-se eventos enormes em parte porque são muito incomuns. Vários pequenos reatores espalhados no país podem ser percebidos como algo muito melhor pelo público do que algumas grandes usinas, localizadas em pontos isolados. Estas últimas podem parecer amedrontadoras, mesmo que se entenda a tecnologia, e acidentes, inevitavelmente, sempre ocorrerão. Outro problema é que tanto o único produto comercializável da indústria (eletricidade) quanto o seu maior inconveniente potencial (a radiação) são invisíveis. Como se pode promover um e ao mesmo tempo neutralizar os medos excessivos em relação ao outro, quando nem se consegue ver nem um, nem outro. A radiação não pode ser detectada por nenhum dos cinco sentidos humanos.

Há, portanto, alguns grandes desafios para a indústria nuclear. De fato, os profissionais do marketing diriam que a indústria nuclear precisa de uma reformulação completa. Certamente precisa de novas abordagens e deve rever as estratégias atuais baseadas predominantemente em fatos, que não conseguem causar grandes efeitos em muitos dos mais importantes envolvidos na indústria nuclear. O setor nuclear realmente precisa começar do outro extremo, entender as pessoas e as suas emoções melhor do que fez até agora. De alguma forma, o nuclear deve conseguir ser descrito como uma atividade normal, da vida comum, mas a indústria apenas começou a pensar como pode de fato fazê-lo.

Baseado nos princípios do desenvolvimento sustentável é praticamente impossível elaborar qualquer cenário mundial para os próximos 50 anos no qual, juntamente com as energias renováveis e a eficiência energética, não haja uma participação da geração nuclear. A alternativa seria exaurir os combustíveis fósseis, aumentando brutalmente as emissões, ou negar as aspirações de melhoria de qualidade de vida para bilhões de seres humanos que almejam sua inclusão social.

Torna-se, portanto, uma questão de enorme transcendência melhorar significativamente a aceitação pública da geração elétrica nuclear, de forma a permitir sua expansão a níveis compatíveis com as necessidades de descarbonização da matriz energética mundial. A COP 21 que se aproxima será um fórum fundamental para aprofundar essa discussão.

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Imagem (Fonte):

Wikipedia

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Fonte Consultada:

Avaliação de Leonam dos Santos Guimarães: Doutor em Engenharia, Diretor de Planejamento, Gestão e Meio Ambiente da Eletrobrás Eletronuclear e membro do Grupo Permanente de Assessoria do Diretor-Geral da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA).