ANÁLISES DE CONJUNTURAÁSIA

A QUESTÃO NORTE-COREANA NA ATUAL PERSPECTIVA CHINESA

Em 19 de agosto de 2014, jornais do mundo todo reportaram o deslocamento de tropas norte-coreanas junto à fronteira com a China. De acordo com as informações obtidas pela mídia internacional, o objetivo seria repelir uma eventual invasão por parte da China ao território coreano. Para tanto, uma das unidades de tanques mais modernas do país está agora estacionada naquela região, localizada na província norte-coreana de Ryanggang, juntamente com tropas do Exército Popular da Coreia do Norte. Apesar de surpreendente, tal movimento revela as complexidades que circundam as relações entre Beijing e Pyongyang nos últimos anos. Apesar de aliados, o relacionamento entre os dois países tem sofrido abalos contínuos em função do novo perfil chinês na região e no mundo. Imperativos estratégicos do passado e até mesmo questões ideológicas parecem não serem mais suficientes para manter o que já foi visto como um pacto de sangue entre as duas nações. 

Desta forma, a grande pergunta a que Xi Jinping e o Politburo devem responder nos próximos anos é se o apoio ao regime comunista norte-coreano ainda responde aos imperativos estratégicos do passado e, no limite, quais os eventuais impactos que uma eventual unificação da península coreana traria para segurança doméstica da China. Dado as atuais condições estruturais do país liderado por Kim Jong-un, um cenário que contemple a queda do regime devido seu total isolamento internacional e necessidade de alimentos para sua população, não pode ser descartado. Nesse sentido, faz-se necessário, desta forma, para uma análise geral da questão, recuperar a razão pela qual a Coreia do Norte tornou-se estrategicamente importante para a China no passado e se os motivos delineados durante a década de 1950 ainda estão presentes.

Companheiros de Armas

Arquivos norte-coreanos obtidos pelo Exército Norte-Americano em 1950 mostraram que o Exército de Salvação Popular Chinês contava com divisões inteiras compostas por soldados de etnia coreana. Esses soldados foram fundamentais nas batalhas de retomada da Manchúria durante a Guerra Civil Chinesa, entre os anos 1945-1949. Outros documentos mostraram que 80% dos oficiais do Exército Popular Coreano tinham lutado na Guerra Civil Chinesa. Em, 1950 não menos que 100 mil veteranos do Exército coreano tinham atuado ativamente nela, “tendo caído juntos na última batalha pela Ilha de Hainan em maio de 1950”. Ou, como oficiais militares de ambos os lados costumam dizer, a aliança entre Beijing e Pyongyang foi “selada em sangue” (Tkacik, 2006:144). 

Antes disso, é importante destacar que a influência chinesa sobre a península coreana data desde os primeiros momentos de formação da nação coreana há quase 2.000 anos. Em 109 a.C, a Dinastia Han conquistou a região coreana de Choson estabelecendo colônias chinesas naquela área. Adicionalmente, através do tempo elementos como o confucionismo e o budismo reforçaram ainda mais o intercâmbio entre os dois lados. Mais tarde, essas ligações culturais se converteram em uma relação tributária da corte coreana em relação aos imperadores chineses, principalmente durante a Dinastia Tang (608-907 d.C). (Stearns, 2010).

Importância Estratégica

A esses laços históricos entre chineses e coreanos, agregou-se uma importância do ponto vista geopolítico.  Desde meados do século XIV, estrategistas chineses passaram a entender a península coreana como um “corredor para invasões”, primeiro pela Rússia Czarista, mais tarde pelo Japão e, finalmente, potencialmente pelos Estados Unidos. Uma vez que Moscou e Beijing alcançaram um alto nível de cooperação estratégica, resolvendo também seus problemas fronteiriços, a península coreana ainda permanece um nó a ser desatado com relação as demais potências como os Estados Unidos (Tkacik, 2006:147). Ou seja, ainda baseado na experiência da Guerra da Coreia (1950-1953), estrategistas chineses entenderam o envolvimento americano no conflito como uma ameaça às suas fronteiras na região no nordeste do país, tal e qual havia acontecido com os japoneses em 1931.

No entanto, os interesses chineses vão além de um hipotético e altamente improvável ataque americano a alvos norte-coreanos, ou ainda a uma mais remota possibilidade de ocupação americana de alguma área do território chinês. Os interesses da China são de caráter mais imediato e estão muito mais conectados a um eventual colapso do regime comunista norte-coreano do que qualquer outra coisa. Colapso este, que figura como absolutamente possível caso o quadro de miséria e fome em que se encontra a população norte-coreana permaneça por longo prazo*.

A queda do regime comunista implicaria na reunificação da península coreana e é aqui que Beijing não abre mão de exercer, se não o controle, ao menos uma forte influência nos possíveis resultados deste cenário. Sem embargo, o colapso comunista no norte da Península Coreana implicaria na reunificação com o sul, criando um pais de 70 milhões de habitantes altamente industrializados e de economia pujante e moderna.

Uma Coreia unificada implicaria também no nascimento de um ator com uma importante capacidade militar, como resultado da combinação do contingente militar do norte e suas armas nucleares (caso estas permanecessem sobre controle do sul, o que seria pouco provável) e o arsenal tecnológico de última geração do lado sulista (Shulong, 2007). Adiciona-se a este cenário o fato de as duas Coreias ainda demandarem soberania sobre a região das montanhas Changbai (Paektu-san, para os coreanos), considerado como o berço do povo coreano.

Ora, em uma região de alta volatilidade, o aparecimento de um vizinho com tamanhas capacidades, aliado, eventualmente, a outra potencia militar rival (EUA) e com demandas territoriais, é um cenário que estrategistas chineses consideram como o pior desenlace para a questão coreana (Rozman, 2010). Baseado neste cenário, existe um consenso entre especialistas de diversas áreas que o objetivo primário de Beijing é impedir, ou pelo menos postergar na medida do possível a reunificação coreana (Ji, 2010).

Em que a unificação aconteça, Beijing quer assegurar uma capacidade de influência a fim de proteger seus interesses nacionais e garantir a retirada ou ao menos o não aumento de tropas americanas junto às suas portas. Finalmente, outro elemento crucial para a China está relacionado com uma eventual imigração em massa em caso de queda do regime  comunista na Coreia do Norte.

O colapso, de acordo com Beijing,  seria precedido por um desastre humanitário sem precedentes dado o estado calamitoso da economia norte-coreana. Não é por acaso que, a despeito das pressões americanas e japonesas, China ainda se mantém como um provedor de ajuda humanitária (alimentos e óleo), absolutamente fundamental para evitar um caos social que empurraria milhões de norte coreanos às suas fronteiras da noite para o dia**.

Em suma, a lógica de “Estado Tampão” (buffer zone) permanece assim ainda intocada e permeia o comportamento de Beijing nas negociações das seis partes (Six Part Talks).  Mais que uma península coreana desnuclearizada, a China quer assegurar o pleno controle em todas as variáveis envolvidas. Se para a China uma Coreia do Norte desnuclearizadaé desejável, o mesmo se pode afirmar sobre uma assertiva e unida Coreia.

Por fim, o dilema chinês em relação a Coreia também possui questões da própria natureza das relações bilaterais. Ainda que Pyongyang seja o último aliado “revolucionário” remanescente, está claro que este também tornou-se uma grande responsabilidade, um fardo. A Coreia do Norte além de ser um desastre econômico mantido apenas por ajuda externa, da perspectiva dos observadores se tornou um ditadura “feudal” que a maioria dos chineses não enxerga com bons olhos (Ji, 2011).

O então líder máximo Kim jong-il recusou todas as tentativas chinesas de implementar reformas econômicas parecidas com as aplicadas na China pelo Partido Comunista. Na verdade, várias vezes Kim jong-ilchegou a afirmar  que o que acontecia na China era uma “traição revolucionária” com elementos de “capitulação ideológica”. Ainda, Kim também  se referia ao “dever” dos chineses “pagarem” pela segurança que a existência da Coreia do Norte promovia as suas fronteiras, deixando implícito que não via as ajudas chinesas como um ato de “favor” (Ji, 2011:7).

O fato é que, para muitos, a principal fonte de apoio ao regime norte-coreano já não vem das mais altas instâncias do PC chinês, mas, sim, essencialmente das Forças Armadas, principalmente do Exército (Sutter, 2005). De forma simples, se os generais do Exército de Salvação Nacional (ESP) veem a Coreia a partir do ponto de vista estratégico-militar, cresce no meio político-civil do PC chinês a ideia de que Pyongyang se tornou extremamente imprudente em termos nucleares, além de, há muito, ter-se se convertido numa importante fonte de instabilidade social e violência junto as áreas do Rio Tumen, na fronteira entre os dois países.

Como Bejing e a cúpula do Exército Popular Chinês pretendem adiar a unificação coreana, fica a pergunta do quanto sofrem os chineses com os passivos da aliança que mantêm com o regime de Pyongyang, sendo esta pergunta feita por todos na Ásia, que também ainda não sabem responder. Mas, dado o último gesto de Kim Jon-un em enviar tanques para a fronteira dos dois países, tudo indica que não existem opções fáceis na mesa de Xi Jinping. 

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* O Strategic Global Outlook 2030, publicado pelo Institute of World Economy and International Relations (IMEMO)da Academia Russa de Ciências Sociais, em Moscou, deixa muito claro essa possibilidade. De acordo com o Documento que elenca as prioridades estratégicas russa para as próximas décadas, o regime comunista norte-coreano, em se mantendo as atuais condições, permaneceria de pé no máximo até meados de 2020. Adicionalmente, é interessante notar a posição favorável russa por uma unificação coreana como positivo para seus interesses nacionais. Ver:  Alexander A. Dynkin (Ed) (2011). Global Outlook 2030. Moscou: IMEMO Press.

** As preocupações chinesas neste sentido se baseiam numa experiência muito clara durante os anos de 1995 e 1998. Neste período, a população norte-coreana sofreu uma quase total falta de alimentos. Calcula-se  entre um e dois milhões de mortos de fome, ou por doenças decorrentes de profunda desnutrição. Ver: Marcus Noland, Sherman Robinson e Tao Wang. “Famine North Korea: Causes and Cures”. Peterson Institute for International Economics. Disponível: http://www.iie.com/publications/wp/99-2.pdf. Acesso: 15 de agosto de 2014.

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Imagem (FonteChina Daily Mail):

http://chinadailymail.com/2013/02/17/china-without-north-korea/

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Fontes consultadas:

VerNorth Korea transfers tanks to Chinese border. Daily Telegraph”.   Em:

http://www.telegraph.co.uk/news/worldnews/asia/northkorea/11043980/North-Korea-transfers-tanks-to-Chinese-border.html. Acesso 25 de agosto de2014.

Ver:

DYNKIN, Alexander A. (2011) Global Outlook 2030. Moskow: IMEMO Press.

Ver:

JI, You (2011). “Dealing with the “North Korea Dilemma:China’s Strategic Choices”. RSIS Working Paper, no 229.

Ver:

ROZMAN, Gilbert (2010). Chinese Strategic Thought toward Asia. New York, Palgrave-Macmillan.

Ver:

SHULONG, Shu (2007). “The Security Challenges in Northeast Asia: Chinese View”, in ROZMAN, Gilbert (ed). The Security Challenges of the United States in Northeast Asia: Looking Beyond the Transformation of the Six-Part Talks. Washington, Strategic Studies Institute.

Ver:

SUTTER, Robert G. (2005). China’s Rise in Asia: Promises and Perils. New York, Rowman & Littlefield Publishers.

Ver:

TKACIK, John J (2006). “How the PLA Sees North Korea”, in SCOBEL, Andrew (Ed) et all. Shaping China’s Security Environment: The Role of The People’s Liberation Army. Washington, Strategic Studies Institute, pp. 139-172

ANÁLISES DE CONJUNTURAÁSIA

Relatório traz reflexões sobre a possibilidade de a China ser uma ameaça à Segurança na Ásia

Nos últimos três anos, as disputas territoriais no leste e no sudeste asiático vem aumentando as tensões diplomáticas entre Beijing e seus vizinhos. Uma disputa que se dá nos Fóruns regionais, sem o envolvimento de ações militares, mas, que, ainda assim, não tem desviado a preocupação das nações da área com o constante crescimento militar da China.

Embora sob o discurso de que é para Defesa e preservação da Soberania Nacional, as novas embarcações de combate, o Porta-Aviões, o avanço tecnológico de artigos militares para as tropas terrestres chinesas e o desenvolvimento e fortalecimento da Força Aérea deixam tanto os países da região como vários Estados do Ocidente em estado de alerta, ao ponto de, por exemplo, em maio deste ano (2014), o Japão, um dos mais preocupados com os chineses, ter estreitado seu relacionamento com a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN).

A aproximação japonesa com a OTAN, firmada pelo primeiro-ministro Shinzo Abe, tinha seu foco no combate à pirataria, na assistência para situações de desastres e na ajuda humanitária, porém, nunca foi negada a preocupação com o poder bélico chinês e o possível uso deste poderio na disputa pelas ilhas Senkaku (Diayou, para a China).

Na época do Acordo não se esperava que a OTAN pudesse vir a interferir militarmente na região da Ásia-Pacifico, tal qual o pesquisador sênior do Instituto Nacional de Estudos de Defesa do Japão, Michito Tsuruoka, apresentou em uma monografia sobre a OTAN, em 2013, que foi lida por expressivo número de analistas. Michito Tsuruoka afirmou: “O Japão não espera realmente que a Otan desempenhe um papel militar direto na região Ásia-Pacífico, mas espera que seus aliados compartilhem percepções e abordagens[1].

No entanto, a avaliação da atuação militar de países asiáticos e ocidentais no continente asiático oscila de especialista para especialista, mas todas podem vir a sofrer alterações graças à uma pesquisa publicada pelo The Economist. Nesta, foi apresentado que a população global acredita que Beijing vai tomar uma iniciativa militar nas áreas de disputa territorial nos entornos do Mar da China.

A pesquisa publicada foi realizada pela instituição estadunidense Pew Research Center e, como base, recolheu opiniões de pessoas e autoridades em 44 países no mundo, sendo 11 deles no continente asiático, dando foco nos países que estariam diretamente envolvidos nas disputas territoriais.

Segundo os dados coletados, nas Filipinas, que hoje tem algumas divergências com os chineses sobre invasões territoriais, 93% das pessoas acreditam em uma ofensiva militar chinesa, assim como os 84% dos entrevistados no Vietnã, país que vive em constante atrito acerca da operação de uma plataforma de petróleo chinesa em águas disputadas pelos dois países.

A disputa que tem mais relevância para a segurança regional, pelo menos para a imprensa internacional, está nas ilhas Senkaku/Diayou. O arquipélago é disputado por japoneses, chineses e taiwaneses, porém se mantém sob jurisdição de Tokyo e pequenos problemas na região tornam-se grandes motivos para contencioso diplomático.

Fonte – The EconomistFonte – The Economist

Fonte – The Economist

 

Nessa disputa, o Governo japonês não se atenta tanto às reinvindicações de Taiwan/Formosa, país com quem mantém ótimas relações e apresenta aliados internacionais comuns, acrescentando-se que o poder militar da ilha é relativamente modesto e, assim como o do Japão, é voltado essencialmente para Defesa, não podendo ser comparado ao de Beijing. Nesse sentido, 85% dos japoneses demonstram mesmo preocupação com um possível conflito bélico com os chineses, principalmente após o país anunciar a Zona de Identificação de Defesa Aérea no Mar da China.

Atualmente, o presidente chinês Xi Jinping vem estreitando seus laços com a Coreia do Sul e com a Malásia. Suas relações estão passando por um dos melhores momentos deste e do século passado, com desentendimentos modestos, os quais são tratados cautelosamente e sem grandes repercussões. Com Seul, suas divergências em comum com o Japão e assuntos envolvendo a Coreia do Norte facilitaram o estreitamento das relações, apresentando uma diplomacia bem consolidada e mantendo constante evolução positiva.

Embora haja um ótimo relacionamento, a opinião pública coreana e da Malásia não percebe os chineses como bons vizinhos. A pesquisa revela que 83% dos sul-coreanos acreditam que Beijing pode usar seu poderio militar em suas disputas regionais, uma opinião que só não se torna maior graças a sua aproximação com Seul em prol de resolver o caso da Coreia do Norte, enquanto que, para a população da Malásia, 66% dos entrevistados acreditam no uso da força chinesa, mas não se sentem ameaçados diretamente, graças a recente história com muitos pontos positivos entre as duas nações.

Um ponto curioso apresentado na pesquisa foi que 62% dos chineses mostrou preocupação com o caso de o país se envolver em uma guerra, além disso, que em Bangladesh, Indonésia, Malasia e na Tailândia a opinião pública se torna favorável aos chineses em caso de contencioso e, nesses lugares, foram mostradas preocupações com os Estados Unidos. Em algumas regiões Beijing e Washington são vistos da mesma forma pelos números militares apresentados e pelas suas ações e intervenções ao longo dos anos.

Pew Research Center Pew Research Center

Pew Research Center

Este balanço de poder apresentado pela Pew Research Center também apresenta o crescimento do poder bélico e econômico da China na atualidade, comparando-os com a média global e num contexto histórico, no qual os chineses podem ultrapassar o poderio estadunidense em questão de alguns anos.

Na região da Ásia, conforme aponta, os Estados Unidos são considerados como a economia mais importante, mas em regiões ocidentais, principalmente na Europa, a China, hoje, é a principal economia do planeta. Quanto ao avanço militar destas duas potências, as opiniões se tornam bem alternadas de acordo com a região. Muitos atentam mais para os seus orçamentos militares do que para o efetivo uso dos recursos bélicos, tendo a China um orçamento aproximado de 215 bilhões de dólares, enquanto que o dos estadunidenses superam os 520 bilhões, sendo esses os orçamentos militares anunciados em 2014.

A pesquisa alerta ainda para uma preocupação global sobre as ações que a China poderá ter em relação às disputas em sua região e apresenta dados econômicos e militares envolvendo a maior potência do Ocidente e a do Oriente. Deixa dúvidas, no entanto, sobre a possível ameaça chinesa, as suas dimensões e quais são os seus objetivos. Contudo, para alguns observadores, a posição da China hoje é similar aos dos Estados Unidos no século XX, porém ainda não há registro do uso de seu efetivo militar para resolver casos de interesse nacional.

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Imagem 1 (FonteThe Economist):

http://cdn.static-economist.com/sites/default/files/imagecache/full-width/images/2014/07/blogs/banyan/pg_14.07.14_southchinasea_640px.jpg

Imagem 2 (FonteThe Economist):

http://cdn.static-economist.com/sites/default/files/imagecache/full-width/images/2014/07/blogs/banyan/pg-2014-07-14-balance-of-power-3-01.jpg

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Fontes consultadas:

[1] VerEstado de São Paulo”:

http://internacional.estadao.com.br/noticias/geral,japao-estreita-lacos-com-otan-atento-ao-avanco-militar-da-china,1163100

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Ver tambémPew Global Center”:

http://www.pewglobal.org/2014/07/14/chapter-3-balance-of-power-u-s-vs-china/

Ver tambémThe Economist”:

http://www.economist.com/blogs/banyan/2014/07/asian-worries-about-china-s-rise

Ver tambémCarta Capital”:

http://www.cartacapital.com.br/internacional/china-eleva-orcamento-militar-em-12-2-6492.html

ANÁLISES DE CONJUNTURAÁSIA

Xi (China) e Park (Coreia do Sul): relações pessoais como base das relações bilaterais

As relações sino-coreanas ganharam um novo impulso com as chegadas de Xi Jinping (China)e Park Geun-hye(Coreia do Sul) ao poder. Poucas vezes se viu uma recepção de um líder de outro país tão acalorada como aconteceu na chegada de Park em Beijing, em junho de 2013. Os jornais locais destacaram sua habilidade em se expressar em chinês e suas relações pessoais com o Xi Jinping. Ambos são oriundos da elite política de seus países e tiveram a oportunidade de se encontrar duas vezes em reuniões familiares muito antes de alçarem voos tão altos nas respectivas carreiras políticas.

Os contatos no passado forjaram uma simpatia mútua que vem pavimentando as relações entre os dois mandatários. Proximidade esta que faz Park ter liberdade de ligar diretamente para Xi para tratar de assuntos relacionados à Coreia do Norte, por exemplo. Outro aspecto destacado pela mídia chinesa foi o gesto de Park Geun-hye enviar para a China seu primeiro emissário no processo de transição presidencial. Por este gesto, Park teve sua visita elevada para a categoria de Visita de Estado, além de Beijing reclassificar a “Cúpula China-Coreia do Sul” com o mesmo status diplomático que somente as Cúpulas China-Estados Unidos e China-Rússia possuíam até então[1].

Juntamente com as questões político-diplomáticas e uma crescente população flutuante nos dois países, Beijing e Seul também possuem razões econômico-comerciais de sobra para reavaliar as relações bilaterais, reestabelecidas apenas em 1992. De acordo com dados de consultores do mercado financeiro, o comércio bilateral atingiu em 2012 as cifras de US$ 256,2 bilhões de dólares, um incremento de mais de 740% no período de 2000 a 2012. Números que fazem da China o mais importante parceiro comercial da Coreia do Sul, ao passo que  Seul é o terceiro maior parceiro comercial da China.

Muito desses números advém da performance das gigantes automobilísticas Hyunday e Kia que juntas detêm quase 7% do mercado chinês de automóveis, com mais de 1,34 milhão de carros vendidos[2]. Com estes números em mente fica claro o porque de Park escolher a China para sua segunda visita como Presidente eleita (a primeira foi para os Estados Unidos).

A nova Presidente enviou um sinal claro de que o aprimoramento das relações do ponto de vista não só econômico mas principalmente estratégico com a China ganhará peso em sua administração. Observadores apontam que, uma vez que as relações com Washington – a despeito de eventuais pontos de discordância – correm dentro de uma lógica estabelecida nas últimas décadas, é com a China que a Coreia deve buscar o chamado “fato novo” em suas relações exteriores e o presidente chinês Xi Jinping têm sinalizado positivamente neste sentido.

O comportamento errático do regime norte-coreano, acompanhado de seu comportamento nuclear ameaçador, usado para alcançar vantagens, sempre teve como principal resultado a falta de opções táticas por parte dos membros da Negociação das Seis Partes. Isso não é novidade, uma vez que cada uma das partes trabalha com interesses distintos e muitas vezes conflitantes.

Norte-americanos trabalham para manter a questão internacionalizada, dividindo as responsabilidades com os demais membros, além de buscarem o congelamento do Programa Nuclear e também evitar que o Governo norte-coreano venda essa tecnologia para regimes hostis a Washington. Os chineses, por sua vez, temem que a reunificação aconteça sem o seu controle e também que ocorra uma onda de refugiados para a China como consequência deste processo junto as suas fronteiras.

Os sul-coreanos, por sua vez,  querem a unificação com o consequente engajamento de toda região à sua economia. Diante dessa triangulação de interesses, o único espaço possível para o ajustamento estratégico fica nas relações em nível bilateral. E, coincidentemente, o espaço a ser preenchido está nas relações entre China e Coreia do Sul, já que os dois países já mantém relações de alto nível com os demais membros do Grupo das Seis Partes.

Com este background, as declarações feitas por Xi Jinping e Park Geun-hye durante a visita da Presidente sul-coreana em junho de 2013 ganha um importante simbolismo nas relações sino-coreanas. Ambos concordaram com a importância de se conduzir de forma “sincera” as Resoluções do Conselho de Segurança da ONU que aplica sanções ao regime norte-coreano, além de reafirmarem o compromisso feito 2005 de trazer Pyongyang para as suas obrigações assumidas de desistir de seu Programa Nuclear em troca de cooperação econômica e abertura de seu isolamento diplomático. Xin e Park também afirmaram que a desnuclearização da Península Coreana e a manutenção de sua estabilidade “são interesses comuns dos dois países e que os mesmos trabalharão em conjunto para alcançá-la[3].

O gesto refletiu positivamente não só junto a mídia chinesa mas também junto ao público sul-coreano. Uma pesquisa conduzida aproximadamente um mês após o encontro revelou que 75,7% dos entrevistados na Coréia do Sul avaliaram como positivo o encontro, enquanto que 10,5% o entendia como negativo. A pesquisa ainda indicou Xi Jinping como um dos líderes mais confiáveis, com uma média de 5,35 (numa escala de 0 a 10), ficando em segundo lugar, atrás apenas do presidente norte-americano Barack Obama, com 6,29[4].

Resta saber se China e Coreia do Sul serão capazes de manter o ritmo e o tom amigável destas relações em um cenário em que Coreia do Norte opte por um lado ou outro nas Negociações das Seis-Partes, ou ainda se manterão o mesmo nível relações diante de um episódio mais agudo de chantagem nuclear. A história, infelizmente, tem mostrado que não.

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ImagemPresidentes Xi Jinping e Park Geun-hyedurante encontro em Beijing em junho de 2013” (FonteCréditos: The New York Times):

http://www.nytimes.com/2013/06/28/world/asia/china-and-south-korea-reaffirm-efforts-to-end-north-koreas-nuclear-threat.html?_r=0

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Fontes consultadas:

[1] VerA New Chapter for China-S.Korea Relations”. Global Times, 26 de junho de 2013.

[2] VerChina: Sino-South Korean economic Relationship”. DBS Group Research, 29 de maio de 2013. Disponível em:

https://www.dbsvresearch.com/research/DBS/research.nsf/(vwAllDocs)/DDC5682C7C44B31E48257B7A00141B54/$FILE/Sino-Korea_29May13.pdf

[3] VerSouth Korean President Park Geun-hye’s First Visit to Washington, D.C.”. Disponível em:

http://csis.org/publication/south-korean-president-park-geun-hyes-first-visit-washington-dc

[4] VerThe ASAN Public Opinion Brief. Public Opinion on the Korea-China Summit, Favorability of the Leaders of Neighboring Countries, Attitudes on the Minimum Wage”. The ASAN Institute for Police Studies. Pesquisa conduzida entre os dia 1 e 15 de Julho de 2013.

ÁFRICAAMÉRICA LATINAANÁLISES DE CONJUNTURAÁSIA

Classes Médias nos Países em Desenvolvimento: rótulos e indicadores

No decorrer de aproximadamente 50 anos da Ajuda Oficial ao Desenvolvimento, inúmeros programas, estratégias, indicadores e rótulos foram elaborados na busca de resultados para a melhoria do padrão de vida dos “pobres” na América Latina, África e Ásia. Entre as dicotomias, algumas se destacam até hoje, como Norte/Sul, Desenvolvido/Subdesenvolvido e Moderno/Atrasado. Para o século XXI, as “novas classes médias” se mostra como o rótulo que direciona os policymaker se as Organizações Internacionais.

A agência de notícias Reuters possui um endereço eletrônico específico para as classes médias, onde traz informações sobre a evolução ao longo dos anos da participação das classes médias na população mundial[1]. Entre os dados, o site dá ênfase à estimativa de que a classe média alcançará 4,9 bilhões de pessoas no mundo, o dobro do que se observa hoje. Além disso, países da Ásia como China, Índia, Malásia, Vietnã e Tailândia representarão 64% de toda a classe média mundial. Além da Reuters, a BBC News também possui um endereço eletrônico exclusivo para assuntos da nova classe média[2]. Nele, há diversas reportagens sobre a ascensão, as condições e os desafios da nova classe nos Países Emergentes, como Brasil, China, Índia e África do Sul.

Entre as principais características dessa nova classe, compreende-se o poder de consumo desses cidadãos que, ao se colocarem como um novo mercado consumidor, atraem investimentos de empresas. Ao mesmo tempo, a nova classe passa a questionar e a cobrar com mais firmeza o fornecimento de serviços básicos do Estado, como infraestrutura, segurança e gastos sociais (educação, saúde e aposentadoria). Entretanto, a atenção dos tomadores de decisão deve ser direcionada para a linha tênue entre a população que não se encontra mais a abaixo da linha da pobreza absoluta – estipulada pela renda de US$ 1,25 por dia – e aqueles que possuem renda suficiente para buscar serviços como telefonia ou internet.

Nesse ponto, a Financial Times rotula esse meio termo como “The Fragile Middle[3], isto é, aqueles cidadãos que migraram da linha da pobreza para a classe média, mas que se encontra em uma situação de fragilidade. Na página, o FT ressalta os protestos no Brasil, a preponderância do trabalho informal na Indonésia, a linha tênue na China e as vulnerabilidades na Índia. Sobre esses problemas, Nancy Birdsall alerta que as pessoas não pulam para o estilo de vida da classe média no momento em que passam a receber US$ 2,01 ao dia – a autora considera a linha internacional da “pobreza moderada”, estipulada em US$ 2,00[4]. Segundo Birdsall, para ser considerado de classe média, o indivíduo deveria receber pelo menos US$ 10 diariamente, isso se tratando de América Latina, o que abarcaria a distinção entre dois grupos: 1) aqueles com renda entre US$ 2 e US$ 10, com poucas seguranças sociais; 2) aqueles com renda superior a US$ 10, com poder maior de consumo. Essa divisão resultaria em melhores análises sobre a mudança no padrão de consumo da sociedade e os efeitos do crescimento. Por esta razão, Birdsall afirma: rótulo importa.

Na mesma onda dos rótulos e das necessidades de categorizá-los para melhor entender os dados sobre a economia dos países em desenvolvimento, Dkystra, Kenny e Sandefur chamaram a atenção para os novos números do Projeto de Comparação Internacional do Banco Mundial para a renda por Paridade de Poder de Compra (Purchasing Power Parity)[5]. O projeto consiste na comparação sobre o que pessoas podem comprar com suas moedas locais em seus países e a compra da mesma mercadoria em outro país, com a moeda local desse. Por exemplo, o poder de compra da rúpia na Índia em comparação com o poder de compra do dólar nos EUA, para a mesma mercadoria.

Para os autores, enquanto o relatório do Banco Mundial era lançado na terça-feira (06/05) à noite, “a maior parte do planeta dormia como se nada tivesse acontecido[5]. De acordo com os novos dados, o tamanho e a distribuição a renda do mundo estava consideravelmente diferente, reduzindo praticamente à metade a taxa da pobreza global. “Na prática, nada mudou[5]. Nos dados, os novos números por PPC sugerem que os países pobres são mais ricos do que se consideravam. O Produto Interno Bruto Per Capita (PIB Per Capita)  por PPC da Índia em 2011 foi de $3.677. De acordo com os novos dados do projeto, ele alcança $4.735. A nova estimativa também recai sobre o número de pessoas abaixo da linha da pobreza. O número de pobres caiu de 393 milhões de pessoas para 102 milhões na Índia, de 87 milhões para 51 milhões na Nigéria e de 12,6 para 5,6 milhões no Quênia.

Com a nova classificação, apesar das quedas no volume absoluto de pessoas na linha da pobreza, a África passa a ser considerada a região com mais pessoas pobres, saltando de 28% para 41% no globo. Por outro lado, o sul asiático diminuiu a sua porcentagem como reduto de pessoas pobres, de 49% para 29%. Dessa forma, observa-se o impacto que questões metodológicas e rótulos influenciam nas interpretações sobre as estratégias de combate à pobreza e no estímulo ao crescimento econômico dos países mais pobres. Os Estados estão em alerta sobre as demandas sociais, os indivíduos estão atentos às suas posições socioeconômicas na economia nacional e global. 

Longe de qualquer crítica deturpada sobre o papel dos métodos quantitativos, impacto dos projetos, importância do PIB, ou ação das Organizações Internacionais, observa-se o papel da classe média na economia para se firmar como a base para as estratégias políticas nos próximos anos da economia do desenvolvimento. Para tanto, a compreensão dos rótulos e das metodologias envolvidas na confecção dos indicadores se refletem como passos essenciais para a melhor elaboração de ideias e propostas de ação para o mundo em desenvolvimento. A metodologia sobre o PPC mudou da noite para o dia, mas a pobreza continua fortemente presente na América Latina, na África e no sul asiático.

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Imagens (Fonte– weknowmemes):

http://weknowmemes.com/2012/06/mountain-range-through-a-tennis-racket/

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Fontes consultadas:

[1] Ver:

http://www.reuters.com/middle-class-infographic 

[2] Ver:

http://www.bbc.com/news/business-13845032

[3] Ver:

http://www.ft.com/intl/indepth/the-fragile-middle

[4] Ver:

http://www.cgdev.org/blog/who-you-callin%E2%80%99-middle-class-plea-development-community

[5] Ver:

http://www.cgdev.org/blog/global-absolute-poverty-fell-almost-half-tuesday

AMÉRICA LATINAANÁLISES DE CONJUNTURAÁSIA

O despertar do dragão na América Latina: parcerias e oportunidades

Durante quase um século as relações de toda ordem da China com a “América Latina” estiveram estagnadas. A região vista pelo vizinho oriental era considerada uma zona de influência dos “Estados Unidos”, de difícil inserção, no qual este exercia notória hegemonia política e econômica*. Segundo Lafargue[1], a chegada do século XXI trouxe consigo a multiplicação dos investimentos chineses do Rio Grande à Terra do Fogo”, fazendo com que o país passasse a figurar entre os primeiros parceiros comerciais de países como Brasil e Argentina.

Ao contrário de Cuba, que já em 1960 mantinha relações diplomáticas com o país, os demais países latino-americanos mantiveram relativa distância durante esse período. A situação começou a mudar quando no ano de 2004 o então presidente da China, Hu Jintao (2003-2013), realizou uma viagem pela “América Latina” e visitou países como Brasil, Chile, Cuba e Argentina. A vitória de lideranças governistas mais progressistas na região, como a eleição de Néstor Kirchner (2003-2007), na Argentina, e Lula da Silva (2003-2010), no Brasil, contribuiu para a multilateralização das relações internacionais desses países e a consequente ampliação de suas parcerias no cenário externo, inclusive, com Pequim.

A China, por sua vez, passou de uma condição de país de baixo crescimento para um alto crescimento a cada ano, através da expansão de seu comércio exterior, aumento de sua produção em setores de baixa e média tecnologia e conquista da liderança na área de Investimento Direto Externo” (IDE), entre outros fatores. Para Oliveira, “o comércio reabriu a China para o mundo[2], tendo o país utilizado convenientemente suas exportações e importações. Como resultado, o comércio externo passou a representar cerca de 36% de seu “Produto Interno Bruto” (PIB), sendo as empresas estrangeiras responsáveis por 47% de sua importação e exportação.

Segundo a “Hakim & Myers[3], o ano de 2013 representou mais um dos momentos, dentro de um marco de 15 anos, de expansão da economia chinesa, marcada, sobretudo pela promoção de suas exportações, acesso aos recursos naturais necessários à sua produção doméstica e aceleração do desenvolvimento através de suas empresas multilaterais. Ao longo desse período o relacionamento desse gigante econômico com os países latino-americanos também cresceu, se tornando mais variado e complexo. 

No entanto, a parceria estratégica permaneceu centrada em alguns objetivos principais. Do ponto de vista latino-americano, a China ainda é muito importante devido seu grande mercado e por ser uma respeitável fonte de empréstimos e de investimentos. A China, por sua vez, vê a “América Latina” como um bom fornecedor de matérias primas ao seu rápido setor industrial em expansão, além de ser um manancial de comida e energia.

Entre os principais investimentos realizados no último ano estão os empréstimos à Venezuela em troca de pagamentos em petróleo. Da mesma forma, as empresas chinesas passaram a ser uma peça fundamental na exploração de gás de xisto da Argentina, além de terem se tornado algumas das maiores compradoras da soja produzida no país latino-americano.

Já a Colômbia e o Equador mantêm um relacionamento bastante diferente com o dragão asiático. O envolvimento da China com a Colômbia é algo novo, que somente tomou forma no último ano, através, principalmente, do aumento do número de empresas do vizinho asiático no país. Já o Equador possui uma relação mais profunda com a China, como consequência dos financiamentos desta para projetos de desenvolvimento, a exemplo da hidrelétrica de Coca Codo Sinclair”, localizada na Amazônia equatoriana.

O Peru mantém um relacionamento comercial promissor com a China, visto que este é o seu maior parceiro na área. Conforme Myers[4], o comércio bilateral entre esses países quase dobrou depois da assinatura de um “Tratado de Livre Comércio”, em 2010[5]. Entre os principais produtos exportados através do Pacífico para a China estão os primários como o cobre e outros metais preciosos, ao passo que Lima recebe grandes investimentos em setores chave como telecomunicações e tecnologia. 

As relações comerciais não são as únicas observadas. Após o terremoto que atingiu o Haiti, em 2012, a China foi uma das primeiras nações a responder à catástrofe mediante o envio de equipes de resgate, ajuda e suprimentos. O Governo chinês também anunciou uma doação de ajuda humanitária da mesma forma que o fez a “Sociedade da Cruz Vermelha Chinesa[6].

O Brasil, por sua vez, ocupa um espaço especial nesse quadro. Os dois países são membros do Briics (Brasil, Rússia, Índia, Indonésia, China e África do Sul”) e, em 2012, se tornaram parceiros estratégicos globais, frente à parceria estratégica previamente existente. Os laços econômicos são o coração desse relacionamento, mantido vivo por IDEs vindos da China e acordos de cooperação em áreas como agricultura e infraestrutura[7]

Por fim, cabe acrescentar que os países latino-americanos abraçaram a China como uma parte importante de sua diplomacia multidirecional[8]. Antes relegado ao status de principal parceria dos “Estados Unidos”, as nações latinas têm alcançado novos destinos como a Europa, Ásia, África e “Oriente Médio”. Essa diversificação de parcerias acabou por permitir que a China ascendesse como um indispensável parceiro comercial, financeiro e, até mesmo humanitário na região. Além disso, o dragão chinês é participante ativo na construção de rodovias, portos e pontes que tem auxiliado os países da região a se afirmarem a cada dia como verdadeiros atores globais.

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* Os Estados Unidos estão entre os principais investidores, compradores e fornecedores de bens à grande maioria dos países latino-americanos.

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Imagem Mercado chinês” (Fonte):

http://www.sxc.hu/photo/576100

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Fontes consultadas:

[1] Ver:

http://perspectiveschinoises.revues.org/1071

[2] Ver:

http://www.funag.gov.br/biblioteca/dmdocuments/0432.pdf

[3] Ver:

http://thedialogue.org/page.cfm?pageID=32&pubID=3491

[4] Ver:

http://www.thedialogue.org/page.cfm?pageID=32&pubID=3264

[5] Ver:

http://www.jornal.ceiri.com.br/economia-internacional-celebrado-tratado-de-livre-comercio-tlc-entre-china-e-peru/

[6] Ver:

http://news.xinhuanet.com/english/2010-01/14/content_12805651.htm

[7] Ver:

http://english.caixin.com/2014-01-08/100626498.html

[8] Ver:

http://yaleglobal.yale.edu/content/china%E2%80%99s-new-foray-latin-america

 

ANÁLISES DE CONJUNTURAÁSIAEUROPA

Relações China-Rússia reforçadas com a visita do Presidente chinês

Numa altura que China e Rússia celebram 65 anos do estabelecimento das relações diplomáticas, na perspectiva de Pequim as mesmas são satisfatórias. Como prova disso são os sinais de que a nova liderança chinesa tem dado desde março de 2013, em termos de encontros ao mais alto nível. A visita à Rússia do presidente Xi Jinping na semana passada (6-8 de fevereiro) efetivou o sexto encontro com o seu homólogo russo, Vladimir Putin, em 11 meses. Os respectivos Primeiro-Ministros também se avistaram duas vezes, em outubro e novembro de 2013. 

Alguns dias depois de ser empossado como “Presidente da China”, Xi Jinping fez da Rússia a sua primeira escala internacional em março de 2013, onde se reuniu com presidente Vladimir Putin e outros líderes russos. Cerca de uma semana depois, os dois líderes voltaram a se encontrar na cidade de Durban (“África do Sul”), quando da “Cimeira dos BRICS” (o grupo de países que congrega o Brasil, a Rússia, a Índia, a China e a “África do Sul”)[1].

O terceiro encontro aconteceu durante uma “Reunião Multilateral de Presidentes e Chefes de Governo do G20”, em “São Petersburgo” (Rússia), nos princípios de setembro. Uma semana depois, à margem da reunião anual dos líderes da “Organização de Cooperação de Xangai” (OCX, composta por Cazaquistão, China, Quirguistão, Rússia, Tadjiquistão e Uzbequistão) Xi e Putin cruzaram o mesmo caminho pela quarta vez em Bishkek, capital do Quirguistão. Novamente, o quinto encontro entre os dois Presidentes, da Rússia e da China, teve lugar em novembro, em Bali (Indonésia), ao longo da realização da “Cimeira Anual”  da “Cooperação Econômica da Ásia-Pacífico” (APEC, sigla inglesa)[2].

Tal qual o ano passado, Xi diplomaticamente inaugurou 2014 visitando a Rússia na primeira semana de fevereiro. Além de ter mantido conversações formais com Putin e assistir a abertura oficial da “22ª Edição dos Jogos Olímpicos de Inverno” (2014), que se realizam na cidade de Sochi, o Chefe de Estado chinês também encontrou-se com o “Presidente do Comitê Olímpico Internacional”, Thomas Bach[3].

A mídia chinesa não esconde que esta visita por outro lado visa mostrar o comprometimento do Governo chinês na candidatura das cidades de Pequim e Zhangjiakou (que se situa na “Província de Hebei” e dista 200km da capital chinesa) para os “Jogos Olímpicos de Inverno de 2022[3].

O Primeiro-Ministro chinês, Li Keqiang, e seu colega russo, Dmitry Medvedev, se reuniram duas vezes em 2013, no mês de outubro, em Pequim, e em novembro em Tashkent, Uzbequistão, durante a reunião dos primeiros-ministros da OCX[2].

De uma forma geral, além de apelos para um cada vez maior fortalecimento das relações bilaterais e para o apoio mútuo aos interesses nacionais, estes encontros enfatizam as áreas de economia, segurança, energia e cultura.

Por exemplo, ao nível econômico, os dois países pretendem elevar a fatias das trocas comerciais, calculada em 88 bilhões de dólares americanos, em 2012, para 100 bilhões, em 2015, e 200 bilhões cinco anos mais tarde. O que certamente contribuirá para tais valores altos será o incremento em 10 milhões de toneladas anuais do petróleo russo à China durante os próximos 10 anos, o que totalizará 85 bilhões de dólares[2].

Ainda no contexto econômico, outro dos maiores ganhos dos recentes encontros entre líderes chineses e russos é a entrada no mercado chinês da estatal petrolífera russa Rosneft. Esta firma detém 51% das ações na joint-venture de refinação de petróleo com a “Corporação de Petróleo Nacional da China” (CNPC, sigla inglesa), a maior companhia chinesa de produção e fornecimento de combustíveis e gás, com os remanescentes 49%. Por sua vez, a Rússia deseja ter mais investimentos no seu país[2].

Ao nível multilateral, a China e a Rússia continuam a defender solução política tanto para a questão da Síria como a do Irã. Os dois vizinhos têm usado a prerrogativa do veto no “Conselho de Segurança da ONU” para travar iniciativas “ocidentais” no que respeita a assuntos da imposição de sanções a Damasco e Teerã[4]

No entanto, a China e a Rússia continuam a divergir em termos da influência em países junto de regiões como a “Ásia Central” que recebe importantes investimentos chineses e apoio na área de segurança. O objetivo é garantir o fornecimento de petróleo á China por parte de alguns países como o Cazaquistão. Além de ser mais uma fonte para Pequim, há quem entenda que o plano de Pequim junto a Xinjiang é usar o Paquistão, país onde apoia a modernização de um Porto. O mesmo faz com o Irã, para importar o petróleo do Médio-Oriente, de onde, em 2011, importou 60% de todo combustível consumido no país, já que o tradicional trajeto via “Oceano Índico” é mais oneroso[5].

Também, ao cooperar com os países da “Ásia Central”, a China pretende estabilizar a região e travar a movimentação de elementos que o governo chinês denomina de forças do mal, junto a sua fronteira, na província ocidental de Xinjiang. Sendo considerados como tais: separatistas, extremistas e terroristas. Esta toda movimentação chinesa causa preocupação em Moscou, uma vez que em tempos já idos esta zona era um bastião da Rússia[6].

Da mesma forma, a venda de armamento russo a alguns países vizinhos da China, como a Índia e o Vietnã, não é bem visto em Pequim. O desconforto da China tem a ver com o fato destes dois países terem ainda problemas territoriais com ela e, em caso de conflito armado, poderão usar o mesmo material bélico contra a China[4].

Concluindo, do ponto de vista de Pequim, pelo fato de a Rússia, tal qual os “Estados Unidos da América” (EUA) e a “União Europeia” (UE), fazer parte do restrito grupo das atuais superpotências mundiais, incluindo a própria China, ela merece esta maior consideração. De fato, o chefe da diplomacia chinesa, Wang Yi, em dezembro do ano passado (2013) construiu o cenário de que em 2014 a política externa do seu país seria dominada pelo “Novo Tipo de Relações com as Grandes Potências” (“New Type of Great-Power Relations”)[7]. O termo foi usado pela primeira vez em maio de 2012 pelo anterior presidente chinês Hu Jintao para Barak Obama e, posteriormente, repetido por Xi Jinping, depois do seu encontro com o “Presidente dos EUA”, em junho de 2013.

A terminologia “Novo Tipo de Relações com as Grandes Potências além de já fazer parte dos discursos do atual governo de Xi Jinping é também muito popular entre jornalistas e intelectuais chineses, além do fato de, nos “Estados Unidos”, ela também ser discutida na academia. Inicialmente, o debate girava em torno do relacionamento que teria a China com os EUA, mas o objetivo do Governo chinês em propor este modelo de Relações Externas tem em vista uma maior cooperação com as outras três grandes potências mencionadas atrás, com respeito aos interesses nacionais de cada parte para se evitar conflitos militares[8].    

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Imagem (Fonte):

http://www.fmprc.gov.cn/eng/zxxx/t1126945.shtml

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Fontes consultadas:

[1] Ver:

http://www.jornal.ceiri.com.br/viagem-de-xi-jinping-a-africa/   

[2] Ver:

http://news.xinhuanet.com/english/indepth/2014-02/02/c_133089728_2.htm

[3] Ver:

http://news.xinhuanet.com/english/china/2014-02/07/c_133097751.htm

[4] Ver:

http://csis.org/files/publication/1303qchina_russia.pdf

[5] Ver:

http://thediplomat.com/2013/07/china-makes-play-for-irans-chabahar-port/

[6] Ver:

http://www.chinadaily.com.cn/china/2012-03/06/content_14766900.htm

[7] Ver:

http://thediplomat.com/2013/12/china-to-prioritize-great-power-relations-in-2014/

[8] Ver:

http://carnegietsinghua.org/2014/01/15/us-china-relations-2013-new-model-of-major-power-relations-in-theory-and-in-practice/gyjm