ANÁLISES DE CONJUNTURAEURÁSIA

O Impacto das Eleições Bielorrussas para a Rússia e para a Ucrânia

Dia nove de agosto passado foram realizadas eleições presidenciais na Bielorrússia e, mais uma vez, o atual Presidente, Aleksandr Lukashenko, venceu com 80% dos votos. Lukashenko, que é Chefe de Estado desde 1994, foi diretor de fazenda coletiva quando a nação ainda era uma república soviética. Sua campanha foi pautada em uma plataforma anticorrupção e a política econômica de seu governo tem foco na redução do desemprego através da estatização e resistência às reformas. Até os símbolos soviéticos são preservados e as tentativas de constituir um idioma bielorrusso como oficial já foram rejeitadas por ele.

Aleksandr Lukashenko, em 2015, na reunião dos BRICS.

Apesar das baixas taxas de desemprego e garantia de estabilidade econômica, os métodos de governo de Lukashenko já incluíram violações dos direitos humanos. Lukashenko também dissolveu o Parlamento em 1996, que lhe fazia oposição, alterando a Constituição do país quando lhe fosse conveniente, o que ocorreu com duas Emendas:

·               Em 1996, ampliando seu mandato de 1999 até 2001;

·               Em 2004, em Referendo que alterou a lei, acabando com o limite para o Presidente reeleger-se.

A possibilidade de restringir o direito à informação” também foi incluída na Constituição com o objetivo de “proteger a honra, a dignidade, a vida privada e familiar dos cidadãos e a plena implementação dos seus direitos”.

Ele também privilegia os serviços de segurança e concentra o poder de modo que não há na Bielorrússia uma elite empresarial que contrabalance o poder de Estado, como os chamados “oligarcas” na Rússia ou na Ucrânia. O país é, apesar de tudo, apontado como menos corrupto que a Rússia e Hungria pela Transparência Internacional. Na política externa, Lukashenko não se comporta como títere de Moscou, tendo havido divergências ao longo da história recente entre ele e Vladimir Putin.

Sviatlana Heorhieuna Tsikhanouskaia, a candidata de oposição às eleições presidenciais.

A candidata de oposição, Sviatlana Tsikhanouskaia, dona de casa e ex-professora de inglês, cujo marido, Serguei Tikhanovski, famoso blogueiro e um dos presos políticos do regime de Lukashenko, abandonou o país após as eleições por ter contestado seus resultados. A isto se somou uma onda de protestos que sacode a Bielorrússia há semanas, com milhares de participantes nas ruas exigindo recontagem dos votos de uma eleição que não contou com observadores externos e não tem resultado reconhecido pela União Europeia.

Com a promessa de liberação de todos presos políticos, caso vencesse o pleito, Tikhanovskaya atraiu a forte oposição governamental. Como a candidata recebeu de 70% a 80% dos votos em algumas assembleias, isso gerou desconfiança em relação ao resultado final e os protestos começaram. Já faz um mês e as manifestações pacíficas continuam, enquanto que a repressão governamental recrudesce, levando à prisão de centenas de pessoas. É difícil prever o que irá ocorrer, pois, sem apoio de grupos econômicos ou políticos específicos não há uma direção clara para onde os acontecimentos deverão rumar, o que guarda grande diferença do ocorrido na Ucrânia, em 2014.

Bielorrússia e Rússia

As relações entre Bielorrússia e Rússia têm a geografia como base e condicionante marcantes. A neutralidade do país sempre foi estratégica para a OTAN, mas não é segura suficiente para a Rússia. Distante cerca de 450km em linha reta e apenas 705km por estrada, a fronteira oriental bielorrussa é bastante próxima de Moscou para inspirar ameaça, caso o posicionamento geopolítico de Minsk penda para o ocidente, mais especificamente, para a União Europeia e a OTAN.

Se a Bielorrússia integrasse a União Europeia e, em um segundo momento histórico, a OTAN, não teríamos um ataque iminente, mas, aos olhos de Moscou, um grande salto estratégico da aliança ocidental ao desequilíbrio de seu poder de dissuasão. Para entendermos melhor o que significa isto, vejamos a análise que faz George Friedman sobre a recente situação na Ucrânia: “A questão não é se a OTAN ou os EUA pretendem atacar; mas com o passar do tempo as intenções mudam. A Rússia, como qualquer país, não tolera cursos de ação que possam eventualmente ser usados contra ela. Na verdade, o movimento da OTAN para o leste, e particularmente pelos americanos, criou ameaças à Rússia a partir do Báltico e da Ucrânia. Se a Ucrânia fosse integrada a uma coalizão liderada pelos EUA e totalmente armada, forças hostis estariam a menos de 1.100 quilômetros de Moscou. A Rússia não poderia tolerar isso, portanto tomou a Crimeia, colocando-se em posição de ameaçar o território ucraniano e bloquear seus portos, e despachou forças de operações especiais para o leste da Ucrânia para desencadear um levante pró-Rússia. A revolta falhou, mas, mesmo assim, efetivamente dividiu a Ucrânia o suficiente para forçar o governo central em Kiev a recuar da fronteira com a Rússia”.

Mapa com bandeira da Organização do Atlântico Norte (OTAN), em 2020.

Independente de as ações preventivas e de intervenção nos vizinhos não se justificarem, para a política externa russa se trata de uma ameaça. Convenientemente, Minsk vê aí um ponto fraco em Moscou e percebe seu peso para a barganha política. Por se tratar de um país territorialmente muito próximo, com um governo não alinhado à Moscou, mas sem posicionamento necessariamente pró-ocidental, o envolvimento russo iria ocorrer, conforme se abrisse alguma possibilidade para tanto.

Combustível vs. Soberania

Belarus* ou Bielorrússia, como é mais conhecida no Brasil, é uma das ex-repúblicas soviéticas que se tornaram independentes em 1991, cujo governo não seguiu a trilha da mudança das ex-repúblicas soviéticas e demais países na antiga órbita de Moscou na Europa Central. Em uma breve retrospectiva, as relações com a Rússia se tornaram difíceis a partir dos anos 2000, quando iniciam os mandatos presidenciais de Putin. Minsk não cedeu aos planos ambiciosos de incorporação de sua economia por oligarcas russos, o que levou Moscou a usar sua principal arma: o aumento do preço de seu gás. Embora bem menor do que o preço aos países europeus (67%), foi o suficiente para abalar a economia do país. Quando Minsk protestou, Moscou simplesmente cortou o fornecimento, forçando a Bielorrússia a importar combustível da Venezuela, durante o governo Chávez, e do Irã, no governo Ahmadinejad, o que obviamente desagradou a Putin.

A ausência de uma elite empresarial bielorrussa com a qual, indiretamente, permitisse o controle nacional por Moscou, e a negativa de Minsk de permitir a incorporação de seus ativos pelos oligarcas russos, colocou as duas capitais em rota de colisão diplomática. Aliado a isso, a situação internacional, com as sanções impostas à Rússia pelo Ocidente em função do conflito com a Ucrânia fizeram com que Moscou tivesse perdas financeiras e passasse a tratar a Bielorrússia com menos tolerância, o que levou à retirada de subsídios na compra de combustível.

Com o recrudescimento das tensões, a participação da Bielorrússia na União Euroasiática** em 2015, organização formada por alguns dos ex-Estado Membros*** da antiga União Soviética, amenizou as relações com Moscou. Minsk participou como um dos fundadores da União Euroasiática, promovida pela Federação Russa, no que Putin propõe uma união entre Rússia e Bielorrússia, mas não sem impor exigências e condições devidamente rejeitadas por Lukashenko. Algumas das exigências alinhavavam o controle de Moscou sobre o território bielorrusso, como permitir a privatização de setores estratégicos para oligarcas russos e apoiar todas as decisões de Moscou na política externa. Após isso, ficou claro para a Rússia que a Bielorrússia não se dobraria facilmente e passou a tratá-la como qualquer outro país. Todas as concessões russas, como petróleo e gás subsidiado passariam a ser pagos a preço de mercado por Minsk ou, do contrário, sofreriam sanções econômicas. Consequentemente, essa animosidade entre os Estados levou a disputas mais acirradas pelo preço dos combustíveis, além de causar sérios danos às relações entre ambos com a subsequente deterioração nos anos seguintes, 2016 e 2017.

Mapa com os países-membros da União Econômica Eurasiana (EAEU, na sigla em inglês)

A lição ucraniana

O cerne da divergência de Minsk com Moscou era a atuação russa na Ucrânia, particularmente, a questão da Crimeia. Declarações entusiásticas de apoio à Ucrânia, feitas por Lukashenko, aumentaram as divergências entre Rússia e Bielorrússia. Voluntários bielorrussos lutaram no leste da Ucrânia contra forças insurgentes apoiadas pela Federação Russa. Acordos militares para construção de mísseis foram realizados entre Minsk e Kyiv e Lukashenko declarou apoio à investidura de Petro Poroshenko, ex-presidente da Ucrânia e membro do Solidariedade Europeia, partido pró-União Europeia. Outra das demandas de Moscou era a instalação de uma base militar sua no território bielorrusso, o que gerava receios por parte de Minsk, com a lembrança clara de que o mesmo sucedeu na Ucrânia, através da manutenção do porto de Sebastopol na península da Crimeia, para permitir o acesso estratégico ao Mar Negro, mas cuja península inteira fora anexada em 2014.

Essa incompatibilidade de projetos políticos já causara um bloqueio econômico aos produtos bielorrussos por parte de Moscou, alegando “não terem qualidade”, o que foi um golpe duro, uma vez que 88% das produções agrícolas e 69% das industriais do país se destinam à Rússia. Não restou alternativa à Minsk a não ser buscar apoio com a União Europeia, em troca de uma distensão na repressão e liberação de presos políticos. Paralelamente, com as relações Minsk-Moscou se deteriorando, a aliança militar entre os dois países passa a ser questionada, surgindo daí uma afinidade de propósitos entre Minsk e Kyiv.

Bielorrússia e Ucrânia

Antes das eleições, as relações entre Minsk e Kyiv eram promissoras. Em operações durante as enchentes que assolaram o oeste da Ucrânia, a Bielorrússia enviou um comboio de ajuda humanitária à população atingida. Bielorrússia, Polônia e Ucrânia também têm empenhado esforços conjuntos para implantação de uma obra fundamental ao seu desenvolvimento, a hidrovia E40, que faz parte de um projeto de mais longo alcance, a Iniciativa Três Mares.

Outra aliança de mais longo alcance é a participação conjunta de ambos os países, Bielorrússia e Ucrânia, na Eastern Partnership (EaP), organização criada pela União Europeia, que congrega vários países da Europa Oriental, basicamente Estados pós-soviéticos, para adequação e futura admissão na organização ocidental.

Após as eleições bielorrussas de 9 de agosto passado, no entanto, a posição de Kyiv em relação ao país vizinho tem sido ambígua. Recentemente, a Bielorrússia se viu às voltas com cerca de 200 agitadores russos, o Grupo Wagner****, 33 dos quais foram presos e seriam extraditados para a Ucrânia, onde estavam envolvidos em operações ilegais no Donbass. Posteriormente, os wagneristas acabaram sendo entregues à Rússia.

Embora a posição oficial de Kyiv seja de apoio ao Presidente bielorrusso eleito, não houve declaração sobre as manifestações posteriores em Minsk e no país. Esta prudência governamental da Ucrânia tem sido estratégica, pois, até o momento, Lukashenko tem apoiado a posição ucraniana em suas disputas com a Rússia. O Parlamento ucraniano, por sua vez, bem como a sociedade civil têm sido entusiastas das manifestações bielorrussas, como se estas fossem um revival do Euromaidan em 2014. O desejo explícito de políticos anti-russos na Ucrânia é o de um enfraquecimento de Moscou com uma maior divergência de países vizinhos, onde se encaixaria a Bielorrússia, com ruptura nas relações externas entre Minsk e Moscou. Segundo o Instituto Varsóvia, “O atraso nas decisões das autoridades oficiais de Kiev mostra a ambiguidade das posições dos políticos ucranianos. No dia seguinte ao anúncio dos resultados eleitorais, os deputados do partido presidencial ‘Servo da Nação’ parabenizaram Lukashenko por sua vitória, e o chefe do clube parlamentar do partido, David Arachamia, disse que a Ucrânia deve permanecer neutra sobre o assunto, pois existe o risco de uma escalada do conflito militar do lado russo. Para ele, a ‘pausa’ anunciada pelo Ministério das Relações Exteriores nas relações entre os dois países é a melhor prova da neutralidade da Ucrânia.Os deputados da oposição reagiram de forma diferente – numa altura em que o partido do ex-presidente Petro Poroshenko, ‘Solidariedade Europeia’, já condenava a agressão contra manifestantes na Bielorrússia um dia após as eleições presidenciais, e apresentava um projeto de lei sobre o não reconhecimento dos resultados oficiais, representantes do partido pró-russo ‘Bloco de Oposição’ apareceram na Verkhovna Rada da Ucrânia com a bandeira oficial da Bielorrússia. Eles enfatizaram que, desta forma, queriam ‘apoiar o sistema atual na Bielorrússia e condenar a vontade da oposição de mudar suas autoridades legais”.

Apesar de deter uma opinião oficial contra a repressão às manifestações, há uma grande diversidade de pontos de vista nos círculos políticos internos ucranianos. Mesmo dentro do próprio partido no poder, a Ucrânia é capaz de expressar sua oposição às ações das autoridades bielorrussas e, apesar das vozes pró-russas dentro do país, procura entrar em consonância com a opinião pública na União Europeia.

Cenários futuros

As manifestações pós-eleição no país, inicialmente pela recontagem dos votos, cresceram e se transformaram em manifestações contra o governo Lukashenko. Isolado, sem apoio ocidental e mesmo da maioria de países em situação similar perante a hegemonia geopolítica russa, a Bielorrússia foi levada a buscar apoio em Moscou. Motivo de críticas durante a campanha, a Rússia agora foi a grande beneficiária da crise que se instaurou no país. Sem chances de repetir a trajetória ucraniana, a Bielorrússia parece estar com seu destino atrelado à Federação Russa. O próprio presidente Lukashenko tem recorrido às teorias conspiratórias para justificar o movimento de oposição ao seu governo como um plano da OTAN para jogar seu Estado contra a Rússia.

A própria candidata de oposição, Tsikhanouskaia, foi quem disse ao adotar um tom neutro, que “a revolução na Bielorrússia não é uma revolução geopolítica”. Em suas palavras: “Não é uma revolução anti-russa nem pró-russa. Não é nem anti-UE nem pró-UE. É uma revolução democrática. A demanda dos bielorrussos é simples: uma eleição livre e justa”.

A pressão tem sido enorme para Lukashenko, o Presidente tem sido vaiado por operários, que considerava seus “aliados naturais”, além de greves que têm irrompido pelo território. Por seu turno, propôs a realização de reformas constitucionais que permitam tirar o país da crise.

Protestos em Minsk contra o governo Lukashenko

A Bielorrússia apresenta hoje uma massa crescente de descontentes com o regime, mas, como consequência do longo período que Lukashenko detém o poder, apresenta uma frágil oposição, assim como a ausência de uma classe empresarial com poder suficiente para influenciar a política nacional ao ponto de confrontar o Presidente.

Outro detalhe dessa crise é que a Rússia não interveio da mesma forma como o fez na Ucrânia. Uma intervenção explícita poderia ter efeitos contrários, como insuflar a oposição anti-russa, tímida, mas com potencial de crescer fundindo sentimentos nacionalistas com manifestações pró-democracia. O fato é que, no cenário externo, o papel do vizinho russo será definidor do que teremos para o futuro da Bielorrússia, mas cabe lembrar que a Federação Russa não é uma réplica atualizada da antiga União Soviética. A anexação territorial não deixou de existir, vide o recente caso da Crimeia, mas é menos frequente. Se antes existia um amplo domínio sobre seus aliados, que eram, na verdade, subordinados, a Rússia atual é muito mais calculista: seu apoio é amplamente condicional e sugere uma lógica da barganha.

Uma possível escalada do conflito, improvável, mas não impossível, levaria à interferência da OTAN e, por extensão, dos Estados Unidos. Moscou, bastante ocupada com manifestações políticas na periferia de seu território, adota uma postura mais cautelosa, negociando com lideranças antes adversas a sua influência, como Aleksandr Lukashenko. Washington, por enquanto, tem em seu menu de possibilidades um bloco mais desunido, com flancos expostos à sua influência.

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Notas:

* Em 1991, o país adotou o nome Belarus,mas, na língua portuguesa, ele ainda é chamado, oficialmente, de República da Bielorrússia, que é uma transcrição literal do russo “Rússia Branca”.

** EAEU, na sigla em inglês, de Eurasian Economic Union.

***São integrantes da União Econômica Euroasiática (UEE), a República da Armênia, a República da Bielorrússia, a República do Cazaquistão, a República do Quirguistão e a Federação Russa.

**** Empresa militar privada que coopera com o Serviço de Inteligência Estrangeiro Russo.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 “Colagem com as bandeiras da Rússia, Bielorrússia e Ucrânia, respectivamente Adaptação das imagens produzidas por Nicolas Raymond” (Fonte):

http://freestock.ca/flags_maps_g80-russia_grunge_flag_p1032.html; http://freestock.ca/flags_maps_g80-belarus_grunge_flag_p1101.html; http://freestock.ca/flags_maps_g80-ukraine_grunge_flag_p1080.html

Imagem 2 Aleksandr Lukashenko, em 2015, na reunião dos BRICS”(Fonte):

http://kremlin.ru/events/president/news/49888/photos

Imagem 3 Sviatlana Tsikhanouskaya, candidata de oposição à eleição presidencial bielorrussa em 2020” (Fonte):

https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Sviatlana_Cichanowskaja_Vitebsk_01.jpg

Imagem 4 “Mapa da OTAN, com o símbolo da organização, 2020” (Fonte): 

https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Flag_map_of_NATO_Countries_(Europe).png

Imagem 5 “Mapa com os países-membros da União Econômica Eurasiana (EAEU, na sigla em inglês)” (Fonte): 

https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Eurasian_Economic_Union_member_states_map.png

Imagem 6 “Protestos em Minsk, Bielorrússia, contra o governo Lukashenko” (Fonte):

https://pixabay.com/photos/minsk-belarus-protest-capital-5512944/

ANÁLISES DE CONJUNTURAEURÁSIA

Liberdades civis na Rússia

Já em 2014, o então Comissário dos Direitos Humanos na Rússia, Vladimir Lukin, caracterizou a situação dos direitos humanos no país como insatisfatória. Apenas dois anos mais tarde, em 2016, Moscou anunciou o encerramento do escritório local do Alto Comissariado dos Direitos Humanos das Nações Unidas, reafirmando de maneira pragmática as conclusões de Lukin. Nos anos que seguiram, a Rússia seria apresentada pela mídia como o palanque mundial do cerceamento de liberdades civis, alavancado pela crise da pandemia global do Coronavírus.

Em seu relatório anual de 2019, a Anistia Internacional (AI) elencou que os direitos humanos na Rússia estão a se deteriorar. Conforme afirma a AI, a liberdade de expressão e a liberdade de assembleia estão sob constante ataque, tanto na lei como na prática. A organização relatou “aqueles que tentam exercer tais direitos enfrentam repressão, que vai do acossamento policial, multas pesadas e, em alguns casos, processos e prisão”. No documento concernente ao ano de 2017, seguindo sua interpretação de eventos na Rússia, a AI havia denunciado a perseguição por motivos religiosos dos Testemunhos de Jeová (o que afetaria a liberdade de culto), também aponta perseguição encabeçada pelo Estado contra pessoas LGBTI, aumento da violência doméstica devido à destipificação de certos tipos de maus-tratos como delitos criminais, e detenção de ativistas políticos, segundo afirma, mesmo aqueles que protestavam pacificamente.

Em 2019, há acusações de que a liberdade de assembleia dos russos foi rechaçada inúmeras vezes, quando, supostamente, se tratava de reuniões para protestar a favor de melhores condições econômicas, sociais e ambientais, e organizadores de protestos públicos foram processados e condenados ao cárcere. Em contrapartida, conforme vem sendo anunciado em meios de comunicação, especialmente ocidentais, a impunidade de perpetradores que agem contra membros da sociedade civil também é um padrão. Estes meios de comunicação afirmam, ainda, que inúmeros crimes contra defensores dos direitos humanos na Federação Russa acabam no esquecimento, sem jamais levarem os culpados a julgamento.

Observa-se ainda que a Lei das Organizações Indesejadas, promulgada em 2015, pune com multa ou prisão de até seis anos quem se associar com tais entidades e limita (ou proíbe) suas atividades no país. Organizações não-governamentais críticas ao governo como Atlantic Council e Open Russia incorporam a lista de não desejadas e em 2019 ocorreu a primeira prisão relacionada com a lei, a da ativista Anastasia Shevchenko. Além da liberdade de assembleia, afirma-se que a liberdade de associação também tem sido cerceada na Rússia, ao mesmo tempo que seus defensores sofrem sanções.   

Em 2019, o presidente Putin assinou uma lei impondo que qualquer pessoa que publique material (online ou físico) e receba dinheiro de governos estrangeiros, organizações estrangeiras, ou mesmo cidadãos estrangeiros, para tanto devem registrar-se como “agente estrangeiro”, estando assim sujeitas à apreciação pública e ao cumprimento de relatórios financeiros juntamente ao governo russo. O representante da Liberdade de Imprensa da Organização para Segurança e Cooperação na Europa, Harlem Désir, concluiu que a lei significa “uma interferência desproporcional na liberdade de expressão e de imprensa”.

Não raro, observadores acusam que jornalistas e escritores freelancers que se opõem ao status quo são vistos como inimigos do Estado e são alvo de investigações que ignoram direitos básicos como os previamente referidos, sobretudo a liberdade de expressão. Recentemente (julho de 2020), a jornalista Svetlana Prokopyeva foi acusada e processada por apologia ao terrorismo, supostamente por ter publicado um artigo que explicava a raiva sentida pelo jovem Mikhail Zhlobitsky a respeito da repressão e casos de tortura na Rússia, que culminou no seu ataque ao FSB (Serviço Federal de Segurança da Rússia) em 2018. Svetlana fazia um paralelo entre um ataque e a diminuição das liberdades políticas no país, e foi incluída na lista de terroristas e extremistas da Rússia. Svetlana foi poupada da prisão, mas terá que pagar uma multa equivalente a R$ 37.500,00.

Alexander Shishlov, atual Ombudsman (espécie de crítico de compliance) dos Direitos Humanos da Rússia, pronunciou-se sobre o caso: “…tentativas de entender as causas do terrorismo não tornam as pessoas cúmplices do crime. Sob a absurda acusação de ‘apologia ao terrorismo’, Svetlana Prokopyeva foi ameaçada com prisão e com banimento de atividades jornalísticas. A multa que ela recebeu não anula o absurdo da acusação, que deve ser revista”.

Protestantes presos em Moscou

Atualmente, pessoas associadas com o ex-jornalista e assessor da Roskosmos, Ivan Safronov, acusado de alta traição, estão na mira da polícia russa. Safronov foi demitido em 2019 por recusar-se a fornecer detalhes sobre suas fontes de artigo publicado na Kommersant, em que falava sobre um acordo militar entre Egito e Rússia. A agência espacial já afirmou que as acusações de Safronov não tem ligação com o trabalho prestado na Roskosmos, o que deixa margem à interpretação de que este pode ser mais um atentado contra as liberdades civis de um jornalista no país. A detenção do jornalista Abdulmumin Gadzhiev, em 2019, acusado de participar de organização extremista, segundo disseminado na mídia, sem nenhuma prova de culpa (argumenta-se que possui apenas material publicado sobre conceitos complexos do Islam para leigos) também causa esse efeito (ou seja, tenta-se colocá-lo no âmbito da perseguição por razões de culto).

No contexto da COVID-19, a Federação Russa adotou medidas extremas para o combate ao vírus, utilizando-se da tecnologia para amplificar o escrutínio à população. Sofisticados sistemas de reconhecimento facial são usados para apanhar quem burla as regras; dados fornecidos pelas operadoras de celular usam a geolocalização para identificar infectados e pessoas que tiveram contato com eles. Neste momento, Vladimir Putin desenvolveu uma estratégia para permanecer no poder até 2036 com pouca ou nenhuma resistência da oposição, já enfraquecida pela pouca representatividade na Duma e ainda mais débil pela crise pandêmica. De acordo com o El País, o especialista em direitos civis, Kiril Koroteyev, afirma que em democracias frágeis como a Rússia, “a imposição de mais medidas de vigilância encoberta, escutas telefônicas, interceptação de mensagens eletrônicas e censura podem acarretar um grande risco”.

Sistema de reconhecimento facial

A crise global ocasionada pelo coronavírus trouxe à tona uma velha dicotomia: as pessoas preferem privar-se da liberdade e privacidade em troca de segurança, e não há como culpar o cidadão comum por essa escolha. Nesse sentido, pode-se entender que cabe aos governantes saber (e querer) conciliar o bem do indivíduo com o bem da sociedade.  

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Protesto pelo direito de votar, Moscou – 2019” (Fonte):

https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Rally_for_right_to_vote_in_Moscow_(2019-08-10)_144614.jpg

Imagem 2Protestantes presos em Moscou” (Fonte):

https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Volunteers_and_employees_Newcaster.TV_and_Anti-corruption_Foundation_arrested_(2017-03-26).jpg

Imagem 3Sistema de reconhecimento facial” (Fonte):

https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Visage-sdk-tracking-examples.jpg

ANÁLISES DE CONJUNTURAEURÁSIA

O papel da Rússia na modificação da lei de espiões do Reino Unido

Em dezembro de 2019, o Comitê de Inteligência e Segurança (CIS) do Reino Unido lançou um relatório amplamente redigido sobre a influência do Kremlin na nação insular. O documento, conhecido como “Relatório Rússia”, tardou sete meses a ser apresentado, devido a particularidades internas do órgão redator. Considerado um potencial digressor da já frágil relação Reino Unido e Rússia, o compilado investigativo expôs que a intervenção russa existe, mas de maneira sutil.  

Um dos maiores marcos do relatório seria a evidência segura de interferência estrangeira no referendo do Brexit, em 2016, mas o Comitê considerou que o impacto de qualquer tentativa de espalhar influências naquela altura seria difícil de estimar, e concluiu que o Kremlin não incorreu na casuística. Contudo, o texto aponta para o intento de desintegrar e desestabilizar o Reino Unido em 2014, quando uma “fonte aberta de credibilidade” sugeriu que a Rússia buscou influenciar os movimentos de independência na Escócia.

De fato, o relatório aponta que, desde 2014, “a Rússia tem executado cyber-atividade maliciosa, para se estabelecer agressivamente em um número de esferas, incluindo a tentativa de influenciar eleições democráticas de outros países”.  Contudo, apenas após uma operação de hackear e vazar” e-mails do Partido Democrata americano, em 2016, que o Reino Unido percebeu o nível de ameaça ao qual estava exposto. O relatório ainda menciona um segundo hackear e vazar” na França, em 2017, para prejudicar o Partido Social-Liberal do qual o atual Presidente francês, Emmanuel Macron, é afiliado. 

Além das intervenções de caráter político, o documento do CIS denuncia uma suposta presença de agentes perniciosos a mando do Kremlin, os quais se utilizam do cyber-espaço para se infiltrar na chamada Infraestrutura Crítica Nacional (água, energia, telecomunicações, segurança etc.) do país e desestruturá-lo internamente. Do mesmo modo, há evidências de tentativa de coletar dados confidenciais sobre investigações criminais envolvendo agentes russos, tais como o atentado de Salisbury, em 2018, que tinha como alvo o ex-agente russo Sergei Skripal e sua filha. O envenenamento dos Skripal abalou as relações entre Rússia e Reino Unido, culminando na expulsão de diplomatas dos países. Sobre o episódio, Putin se pronunciou em 2019, dizendo que, quem quer que sucedesse Theresa May, deveria “virar essa página conectada com espiões e tentativas de assassinato”.  E ainda completou que melhores laços entre Londres e Moscou beneficiariam os interesses de cerca de 600 companhias britânicas atuantes em Londres

Putin dá entrevista para a TASS sobre agentes estrangeiros, 2020

As palavras de Putin condizem, de fato, com o que viria a ser exposto um ano depois, no Relatório Rússia, contudo, parecem uma digressão da realidade. De acordo com o jornal Express, o relatório aconselha as autoridades a “seguir o dinheiro”, expõe que Londres tem sido um verdadeiro refúgio para dinheiro “esquivo” dos russos, e alega que o próprio Reino Unido é responsável por isso.

O documento concluiu que vários governos britânicos têm “dado as boas-vindas aos oligarcas e seu dinheiro de braços abertos, providenciando os meios para reciclar financiamento ilícito através da ‘lavanderia’ de Londres, e conexão nos mais altos níveis com acesso às empresas do Reino Unido e figuras políticas”. 

Ademais, acredita-se que há cerca de 12 espiões russos sob o comando do Kremlin legalmente operando no país da Rainha. Os espiões estão bem infiltrados na sociedade britânica e podem transmitir informações militares, revelar informações sobre a infraestrutura crítica e servir como olhos do governo russo. E tudo isso sob a égide da legalidade, uma vez que não é considerado crime viver no Reino Unido como um agente disfarçado.   

O Comitê urgiu que ações sejam tomadas para subjugar a ameaça russa. A lei que ainda vigora a respeito da espionagem no Reino Unido (Official Secrets Act – Atos Oficiais Secretos) foi editada pela última vez há 31 anos e não é adequada para lidar com o advento da globalização, da tecnologia, big data e cyber-espionagem. Sob a legislação vigente, “uma pessoa que não é cidadã britânica ou servo da Coroa não comete ofensa se revela informação fora do Reino Unido”. Nesse sentido, observa-se que resta claro que tal premissa é ineficaz no combate à espionagem em tempos de mobilidade global e fronteiras flexíveis.

Após o lançamento oficial do relatório, o primeiro-ministro britânico Boris Johnson retomou o projeto de reforçar a legislação antiespionagem, cuja semente foi plantada por Theresa May em 2019 e seguiu com Johnson. Entre as medidas mais imediatas estão uma atualização das definições de ofensas passíveis de sanção e o registro compulsório de agentes estrangeiros à entrada do país. Philip Ingram, um ex-coronel da inteligência britânica, disse à revista Wired que a bases de dados da Inteligência possui uma lista atualizada de espiões estrangeiros, mas não há como rastreá-los todos se vêm ao país. Ingram acredita que uma “nova legislação tornaria mais fácil removê-los (do país) caso não se declarem à entrada”. 

Boris Johnson e Emmanuel Macron – [UK Prime Minister / OGL3

Além disso, o governo britânico quer modernizar os estatutos competentes, ampliar poderes de agência aos órgãos de aplicação legal e policiamento, modernizar delitos existentes e criar novos para abranger o alcance da espionagem moderna. Ainda em finais de julho, o Ministro dos Assuntos Domésticos, James Brokenshire, anunciou que o Reino Unido pretende estreitar as regras para os vistos de investimento no país.

Para Eliot Higgins, fundador da Bellingcat (uma plataforma de investigação de mídias sociais), as medidas contraespionagem devem ser extremas e aliar-se à tecnologia, por exemplo, com o amplo uso de passaportes biométricos, pois isso faria com que a Inteligência russa tivesse que recriar suas identidades falsas; ou com o bloqueio do uso do sistema bancário. Higgins acredita que a Rússia está numa “zona de conforto”, e sabe até que ponto agir para não ser enquadrada pela lei britânica. Contudo, o conteúdo do Relatório Rússia e a seriedade de Boris Johnson indicam que a subversão causada por agentes que viam na impunidade sua maior aliada pode estar com os dias contados. 

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Hackers russos” (Fonte):

https://www.rferl.org/a/british-police-discourage-speculation-russian-ex-spy-sudden-a-critical-illness-sprikal-gru-spy-swap-2010-update/29081982.html

Imagem 2 Putin dá entrevista para a TASS sobre agentes estrangeiros, 2020” (Fonte):

http://en.kremlin.ru/events/president/news/62924/photos/63329

Imagem 3 Boris Johnson e Emmanuel Macron – [UK Prime Minister / OGL3: http://www.nationalarchives.gov.uk/doc/open-government-licence/version/3]” (Fonte):

https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Johnson_met_with_Macron_for_Brexit_issue.jpg

ANÁLISES DE CONJUNTURAEURÁSIA

Rússia mobiliza tropas em resposta à crise no Cáucaso

Especialistas consideraram repentino, mas bem planejado, os exercícios militares protagonizados pela Federação Russa entre os dias 17 a 21 de julho (2020), quando foram mobilizados cerca de 150 mil militares, 414 aeronaves e mais de 100 navios de guerra (divididos entre o Mar Negro e o Mar Cáspio) que participaram de um evento operacional, executando um total de 56 exercícios separados, em vários graus de intensidade, como parte da verificação de prontidão de combate.

Mapa da região do Cáucaso

O Teatro de Operações fictício se deu na região sudoeste do país, o que, pela movimentação do grande número de soldados e armamentos, deixou a vizinha Ucrânia em estado de alerta, devido ao desbalanceamento geopolítico entre as duas nações, ocasionado pelo processo de anexação da Península da Crimeia em 2014, aliado a conflitos armados entre tropas do Governo ucraniano e separatistas pró-Rússia na região de Donbass, o que rendeu para a Rússia diversas sanções político-econômicas provindas dos EUA e União Europeia (UE), desde então.

De acordo com o Ministério da Defesa russo, conforme relatado pela TASS, a inspeção foi projetada para avaliar a capacidade dos centros de comando militar de garantir a segurança no sudoeste do país, onde persistem ameaças relacionadas ao terrorismo. Os chefes também queriam avaliar a preparação das tropas e forças para o próximo comando estratégico Kavkaz-2020 (Cáucaso 2020, traduzido do russo) e exercício de pessoal que se realizará em setembro. O órgão também citou que a verificação surpresa de prontidão de combate das tropas é uma medida de treinamento e não é dirigida contra outros países, ressaltando especificamente que não estava relacionado com a situação na fronteira Armênia-Azerbaijão.

Antigas repúblicas soviéticas, Armênia, de maioria cristã, e Azerbaijão, nação muçulmana, estão em conflito constante desde as respectivas autonomias com o fim da URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas). A principal disputa, de âmbito étnico-territorialista, gira em torno de Nagorno-Karabakh, região azeri separatista situada no sudoeste da fronteira com a Armênia, que foi ocupada por azeris de origem étnica armênia, ao cabo de uma guerra, nos anos noventa, que resultou pelo menos em 30.000 mortos.

Nas últimas semanas houve diversos bombardeios pesados nas regiões setentrionais de Tovuz e Tavush, causando a morte de dezenas de militares e civis de ambos os lados. Um escalonamento do conflito se intensificou quando autoridades do Azerbaijão ameaçaram atacar uma central nuclear da Armênia, responsável pela produção de energia elétrica consumida em grande parte da região, caso ela investisse em ataques a centros estratégicos azeris.

Bandeira da Organização do Tratado de Segurança Coletiva

Para analistas militares, não houve a aclamada coincidência de eventos e, sim, um tipo de aviso cautelar por parte da Rússia com sua movimentação de tropas, para que as amenidades entre os dois países sejam restabelecidas sem que ela tenha que intervir belicamente, principalmente pelo fato de que a Armênia é um grande aliado russo, a qual cedeu área para implantação de base militar russa em seu território e é membro ativo da Organização do Tratado de Segurança Coletiva (CSTO, do inglês Collective Security Treaty Organization), um bloco político-militar sob os auspícios da Federação Russa na região do Cáucaso.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Desembarque de tropas russas” (Fonte):

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/5/5c/Zapad-2009_military_exercises.jpg

Imagem 2 Mapa da região do Cáucaso” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/C%C3%A1ucaso#/media/Ficheiro:Caucasus-political_pt.svg

Imagem 3 Bandeira da Organização do Tratado de Segurança Coletiva” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Organiza%C3%A7%C3%A3o_do_Tratado_de_Seguran%C3%A7a_Coletiva#/media/Ficheiro:Flag_of_the_Collective_Security_Treaty_Organization.svg

ANÁLISES DE CONJUNTURAEURÁSIA

20 anos de Vladimir Putin à frente da Rússia

O Presidente russo, Vladimir Putin. Ex-agente da inteligência soviética KGB, nascido em 1952, em Leningrado (agora, São Petersburgo), Vladimir Putin iniciou sua carreira à sombra de Boris Ieltsin, tornando-se Primeiro-Ministro da Rússia em 6 de agosto de 1999, com meros 1% de aprovação eleitoral. No mesmo ano, a renúncia de Ieltsin escalou Putin a Presidente Interino e, em 2000, foi oficialmente eleito Presidente da Federação Russa. Desde então, nunca deixou a linha de frente da política do país, tornando-se, “sem dúvida, o líder mundial de maior importância desde Winston Churchill”, na opinião do colunista Oliver Carroll, do “The Independent”.    

Ranking do PIB” (Fonte – FMI via Bloomberg)

Pouco após assumir o poder, o sucessor de Ieltsin iniciou uma jornada que levaria a Rússia ao crescimento de 7% ao ano, nos sucessivos oito anos, através de investimentos no campo energético e de petróleo e da expansão da influência russa em territórios nos quais jazia esquecida, por exemplo: estreitando laços com a China; apoiando regimes de poder locais na Síria e Líbia; suprindo aparatos de defesa aérea para a Turquia; cerrando tratados sobre fornecimento de petróleo com a Arábia Saudita; aproximando-se da Alemanha, através do suprimento de energia e construção de gasodutos. Em 2012, o país chegou perto de alcançar o patamar de desenvolvimento de Portugal, e, no mesmo ano, atingiu o pico do Produto Interno Bruto (PIB) per capita, alcançando oitava posição no ranking mundial.

Embora seu governo seja marcado por alterações no escopo das próprias políticas, Vladimir Putin é reconhecido, mesmo por críticos, por ter alcançado três objetivos: construir um forte Estado Russo, consolidar a Rússia como um poder global e manter-se intermitentemente no poder. No ano 2000, seu índice de aprovação era de 64%, saltando para 80% em 2008, após os 5 dias de conflito na Georgia. Contudo, durante seu termo como Primeiro-Ministro, sob à Presidência de Dmitri Medvedev (2008-2012), sua popularidade caiu novamente para 66% e manteve-se em baixa até o impasse com a Crimeia, em 2014, quando o ex-agente viu o ápice de sua renovada Presidência (eleito novamente em 2012), com quase 90% de aprovação.

Pagamento da dívida russa

Uma das principais características de Putin no poder é sua capacidade de gerenciar o orçamento estatal. Com apenas 8% da equivalência da economia americana, a “prudência fiscal de Putin… tornou as folhas de balanço do governo algumas das mais saudáveis do mundo, ganhando reconhecimento de agências monetárias e mesmo do Fundo Monetário Internacional (FMI)”, aponta a Bloomberg. De acordo com dados do FMI, a maior parte da dívida russa foi paga pelo governo de Putin. De fato, esse cuidado é refletido no novo gabinete do Presidente russo, que apontou o Chefe do Serviço de Impostos do governo, Mikhail Mishustin, para substituir o ex-primeiro-ministro Dmitry Medvedev, que pediu demissão, após as mudanças constitucionais anunciadas por Putin, em janeiro deste ano (2020).

Ora, a liderança de Putin não foi sempre linear. Gleb Pavlovsky, consultor político do Kremlin durante os primeiros 12 anos de liderança do atual mandatário presidencial da Rússia, afirma que “As pessoas pensam que se você tem um Presidente, você tem apenas uma política. Não é assim de todo. O primeiro termo de Putin não tem nada em comum com o corrente termo”. De fato, um dos primeiros passos de Vladimir Putin ao assumir a Presidência em 2000 foi em consonância com um novo realismo, projetando os interesses econômicos da Rússia, ao mesmo tempo em que reconhecia que sua imagem internacional não era positivamente elaborada, e introduzia uma política externa mais coerente, que conciliasse as visões dos Ocidentalistas (os quais defendem que a Rússia deve abrir-se para a cultura ocidental), Orientalistas (propugnam que a Rússia deve buscar mais diálogo com o oriente) e Nacionalistas.

Putin na Praça Vermelha, em Moscou, 2005

Naquele momento, essa nova vertente de fazer política fez o recém eleito Presidente cair nas graças do então presidente americano Bill Clinton, de modo que, ao se questionar o líder americano sobre a possibilidade de a Rússia juntar-se à OTAN algum dia, obteve-se a seguinte resposta: “Eu não me oponho”. Na época, acreditava-se que Putin seguiria os passos de Ieltsin e procederia com a “Ocidentalização” do país. Após oferecer suporte aos Estados Unidos em virtude do 11 de Setembro, por um breve período de tempo a relação entre EUA e Rússia estreitaram, mas as coisas tomaram um rumo diferente com a Invasão do Iraque e a revolução da Georgia (em 2003) e da Ucrânia (em 2004), que deu início a um “jogo de culpas” que segue até os dias atuais, com Estados Unidos e Rússia constantemente apontando como as políticas de cada um interfere nos assuntos domésticos do outro.

Mais recentemente, Angela Merkel (Alemanha) e Emmanuel Macron (França), embora coniventes com as sanções impostas pela União Europeia em face ao impasse da Crimeia de 2014, o qual também ocasionou a suspensão da Rússia do G8, buscam não comprometer os regalos oferecidos pelo maior país do mundo (sobretudo no campo energético e da agricultura), e o Presidente francês urge que a OTAN pare de ver a Rússia como inimiga, clamando que esta “pertence à Europa”.

Embora a Federação Russa ainda não tenha alcançado Portugal (como Putin inicialmente almejava), o padrão de vida dos russos melhorou e a expectativa de vida aumentou de 64,9 anos, em 1999, para 72,8 anos, em 2018, e a inflação caiu na faixa de aproximadamente 40% para 4%, desde a assunção de Putin ao poder. São feitos prodigiosos, considerando que a economia global sofreu vertigens e a imagem da Rússia no mundo não foi estática. Mesmo com a corrente pandemia global do Covid-19, Vladimir Putin mantém-se uma figura pragmática e imponente, lidando com os impactos de maneira resiliente e garantindo que um possível futuro termo seja melhor que o anterior, nos conformes do legado que tem deixado durante seus 20 anos à frente da Federação Russa.    

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Vladimir Putin assume o terceiro mandato, 7 de maio de 2012” (Fonte): https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Vladimir_Putin_inauguration_7_May_2012-10.jpeg

Imagem 2 Ranking do PIB” (Fonte FMI via Bloomberg): https://www.bloomberg.com/news/features/2019-12-28/putin-s-russia-is-20-years-old-and-stronger-than-ever-or-is-it

Imagem 3 Pagamento da dívida russa” (Fonte FMI via Bloomberg): https://www.bloomberg.com/news/features/2019-12-28/putin-s-russia-is-20-years-old-and-stronger-than-ever-or-is-it

Imagem 4 Putin na Praça Vermelha, em Moscou, 2005” (Fonte): https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Victory_Day_Parade_2005-5.jpg

ANÁLISES DE CONJUNTURAEURÁSIA

A delicada relação entre Rússia e a União Europeia

A Federação Russa e a União Europeia (UE) desenvolveram relações bilaterais fortes até 2014. De acordo com folhas fatuais do Parlamento Europeu, o Kremlin e Bruxelas trabalharam juntos em áreas como comércio, energia, pesquisa, cultura, segurança, não proliferação de armas nucleares e resolução de conflitos no Oriente Médio, inclusive, a UE apoiou a entrada da Rússia na Organização Mundial do Comércio, completada em 2012. Contudo, os laços construídos enfraqueceram-se com o impasse sobre a Crimeia e, cerca de um ano mais tarde, a intervenção de Putin na Guerra da Síria como amparador do regime de Assad contribuiu para aumentar as tensões entre seu país e o Ocidente.     

O Conselho da União Europeia enumera as sanções repetidamente impostas à Rússia desde março de 2014, que englobam: – medidas diplomáticas (ex. suspender reuniões do G8 e manter o formato das reuniões como G7, suspensão do suporte ao país na acessão à Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômico – OCDE); – medidas de restrições individuais (tal como banir a entrada de certos cidadãos e organizações russas na UE); – restrições nas relações econômicas entre Crimeia e Sebastopol (ex. proibir a importação de bens destes territórios, limitar comércio e proibir o suprimento de atividades turísticas nos mesmos); – sanções econômicas gerais; – medidas concernentes à cooperação econômica entre UE e Rússia. Ainda, a UE implementou sanções no mercado energético russo, porém, limitadas ao petróleo, uma vez que os países do Bloco estão entre os maiores consumidores de gás proveniente de lá (em 2018, cerca de 40% de todo o gás importado veio da Rússia).

Putin em reunião com representantes de Crimeia e Sebastopol

Deste modo, cabe salientar que as relações entre a Federação Russa e a União Europeia no atual contexto são de caráter mutualista e não-facultativo: a UE necessita da energia russa, e a Rússia está atrelada ao mercado europeu. Apesar de o Bloco europeu ser reconhecidamente unido na liberdade de bens e movimento entre cidadãos de seus Estados Membros, divergências entre os governantes dos países com relação a decisões tomadas por Bruxelas são inevitáveis.

A doutora Kristi Raikk, diretora do Instituto Estoniano de Política Internacional, acredita que a UE peca em não ter uma “direção comum nas políticas com relação à Rússia. Tal premissa é fundamentada nas posições de líderes como o presidente francês Emmanuel Macron, que enfatizou que a Rússia pertence à Europa e ofereceu-se para sediar a Cúpula Normandy Four, em 2019, com foco a chegar a um consenso sobre os conflitos em Donbass, na Ucrânia. Já a Chanceler alemã, Angela Merkel, ajudou a sustentar as sanções impostas à Rússia, mas sem comprometer a construção do gasoduto Nord Stream 2, que deve dobrar o envio de gás natural à Alemanha neste ano (2020). Em contrapartida, os países do leste europeu, sobretudo a Polônia e os países bálticos, veem as investidas francesas e alemãs com desconfiança, e mesmo uma prepotência reducionista a seus próprios interesses, de acordo com a doutora Raikk.   

Mais recentemente, após o surto do Covid-19 e mesmo apresentando uma resposta admirável à pandemia, a Rússia tem sido severamente criticada por suposta campanha de desinformação lançada no Ocidente. Em relatório lançado pelo Serviço Europeu de Ação Externa em 16 de março (2020), o Kremlin é apontado como gerador de pânico e discórdia nos países europeus através de uma suposta campanha online de fake news em vários idiomas, utilizando dados confusos e perniciosos para dificultar a resposta da União Europeia à crise.

De acordo com a Reuters, que teve acesso ao documento, a desinformação espalhada pelo Kremlin tem o escopo de “agravar a crise na saúde pública dos países Ocidentais…em linha com a estratégia mais ampla do mesmo de subverter as sociedades Europeias”. O porta-voz do governo, Dmitry Peskov, apontou a falta de evidências no relatório e salientou que “Estamos falando novamente sobre alegações infundadas, as quais, no atual contexto, são provavelmente o resultado de uma obsessão anti-Rússia”.

Um gesto do presidente Putin colocou em evidência as acusações feitas pela agência da União Europeia: no domingo passado (22 de março de 2020), uma operação do Exército russo denominada “De Rússia, com Amor, enviou ajuda médica para a Itália. Naquele dia, ao menos três aviões carregados com caminhões de desinfestação de veículos, prédios e locais públicos, equipamentos médicos e profissionais da saúde saíram de Moscou rumo às cidades italianas mais atingidas pelo Coronavírus. O Ministro da Defesa russo disse que o auxílio total consiste em nove aviões militares tripulados com brigadas médicas compostas por virologistas e especialistas médicos de alto escalão. A ajuda foi prontamente agradecida pelo Primeiro-Ministro italiano, Giuseppe Conte.

Caminhão da operação ‘De Rússia, com Amor’ – retirada de Ministério da Defesa da Rússia

Ainda que delicadas, as recorrentes relações Federação Russa – União Europeia restam inabaladas pelos conflitos de caráter subjetivo que surgem como efeito de uma era de informações abundantes, irrestritas e não-filtradas. O espírito de cooperação impera no momento singular em que vivemos, e mesmo que os resultados por vir desta crise global se manifestem nos âmbitos político e econômico, talvez sirvam como catalisadores de uma mudança geral de mentalidade.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Emmanuel Macron, Vladimir Putin e Angela Merkel” (Fonte): http://www.kremlin.ru/events/president/news/55010/photos/49345

Imagem 2 Putin em reunião com representantes de Crimeia e Sebastopol” (Fonte): http://en.kremlin.ru/events/president/news/63021

Imagem 3 Caminhão da operação De Rússia, com Amor’ – retirada de Ministério da Defesa da Rússia” (Fonte): http://eng.mil.ru/en/news_page/country/[email protected]