ANÁLISES DE CONJUNTURAEURÁSIA

Projeções econômicas globais apontam ascensão russa em 2020

É inegável afirmar que os dois principais protagonistas geopolíticos da atualidade são os EUA e a China, e que, com suas ações estratégicas, principalmente na área econômica, estão colocando o mundo de volta a um equilíbrio hegemônico entre grandes potências. Contudo, também não pode ser contestado que a Rússia vem ganhando grande importância dentro deste cenário global, transformando-se de uma nação decadente nos anos de 1990 em uma potência emergente dos dias atuais, e que, segundo analistas internacionais, poderá se transformar no fiel da balança desta relação tripolar a partir do ano de 2020.

Logo do Fórum Econômico Mundial

Apesar de estudos de vários órgãos internacionais terem previsto uma desaceleração na economia mundial para os próximos meses, o que foi respaldado pelo pronunciamento em 25 de janeiro (2019) da diretora do FMI (Fundo Monetário Internacional), Christine Lagarde, no Fórum Econômico Mundial* em Davos, na Suíça, houve também, projeções positivas para o crescimento econômico russo, mesmo sendo alvo, desde 2014, das sanções econômicas impostas pelos EUA e vários países da União Europeia.

Histórico do PIB da Rússia

As previsões apresentadas pelo Banco Mundial e pelo Banco britânico Standart Chartered delinearam uma taxa de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) russo em torno de 1,8% em 2020 e 2021. Isto posto, demonstra uma posição economicamente bastante favorável em comparação ao seu crescimento em 2017 (1,6%), quando apresentou inflação relativamente baixa e estável e aumento da produção de petróleo, e também muito além da retração econômica apresentada nos anos de 2015 e 2016, quando os índices caíram em torno de -3,7% e -0,8%, respectivamente.

O histórico dessa ascensão econômica se dá por uma série de fatores estruturados pelo Governo russo no intuito de minimizar os impactos das restrições político-econômicas internacionais, ao mesmo tempo em que fortaleceu e desenvolveu sua estrutura mercadológica/industrial. Um dos primeiros procedimentos adotados pela Federação Russa foi aumentar a diversificação dos produtos a serem exportados, em detrimento da queda das vendas de produtos minerais como petróleo, gás e carvão. Um mercado bastante promissor foi o setor de tecnologia militar, com o desenvolvimento de várias empresas nacionais que aumentaram substancialmente suas vendas para vários países.

Outro ponto chave para o crescimento da economia russa foi o desenvolvimento do agronegócio, com o investimento pesado em tecnologia, equipamentos e técnicas de plantio, fazendo com que a nação não só atendesse a necessidade de consumo interno, como também voltasse sua produção excedente de grãos para o mercado externo, o que resultou em quebra de recorde produtivo, transformando o país não apenas no líder global na produção de trigo, mas, também, adquirindo a capacidade de minimizar a participação de seus concorrentes europeus e norte-americanos no referido mercado.

Em termos prospectivos, o Governo russo poderá também se aproveitar dos visíveis sinais de fraqueza que se apresentam na Zona do Euro, devido à intensificação das tensões comerciais e da diminuição das perspectivas econômicas-orçamentarias entre seus membros. Dessa forma, poderá aliar suas novas estratégias econômicas delineadas nos últimos anos para um aumento da competitividade global ao desenvolvimento de parcerias sólidas com outras nações, principalmente no bloco asiático e no Oriente Médio. Esse processo será parte fundamental do objetivo de transformar a Rússia, num curto período de tempo, numa das 5 maiores potências econômicas do globo, segundo afirmação do presidente Vladimir Putin e, com isso, fazer contraponto ao processo restritivo que vem sofrendo.

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Nota:

* Criado em 1971 por Klaus Schwab, o Fórum é um encontro anual realizado na cidade de Davos, na Suíça, que reúne diversos representantes do mundo empresarial, das finanças e da política. A grande discussão se dá sobre temas recorrentes, como a desigualdade, a pobreza, a inovação e o meio ambiente.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Banco Central da Rússia” (Fonte): https://en.wikipedia.org/wiki/File:Moscow_RussiaCentralBank_M00.jpg

Imagem 2 Logo do Fórum Econômico Mundial” (Fonte): https://www.weforum.org/agenda/2019/01/shaping-the-future-at-davos-2019/

Imagem 3 Histórico do PIB da Rússia” (Fonte): https://tradingeconomics.com/russia/gdp-growth-annual

ANÁLISES DE CONJUNTURAEURÁSIA

República da Bielorrússia em alerta

O Presidente bielorrusso mudou algumas diretrizes de sua administração a fim de lidar com as críticas negativas e para ajustar-se ao modelo neoliberal (…)

A Bielorrússia (ou Belarus) é um país relativamente novo, tendo conquistado sua independência em 1991*. Desde 1994, Alexander Lukashenko é o Presidente do país e, por estar no cargo há mais de 20 anos, ele é o líder atual em maior tempo de exercício na Europa, algo que divide opiniões pelo continente. Lukashenko, ao contrário de outros Chefes de Estado das antigas repúblicas soviéticas, identifica-se com as ideias socialistas e comanda o país de acordo com muitas diretrizes da extinta URSS. Uma estátua de Lênin permanece em frente ao Parlamento da Belarus, muitas ideias liberais nunca foram adotadas e é um lugar onde a desigualdade social é uma das mais baixas do mundo.

O Parlamento da Belarus e a estátua de Lênin em frente

Não obstante, a Bielorrússia mantém uma forte ligação política, econômica e social com a Federação Russa. Em 1999, firmou-se o tratado que deu origem à União da Rússia e Bielorrússia, uma entidade supranacional em semelhança com a antiga URSS. Desde então, Minsk e Moscou têm uma aliança econômica-militar forte, porém, a União não se realizou por completo, com cada Estado ainda seguindo soberano e independente.

Por muitos anos esse arranjo funcionou. A Belarus desenvolveu-se comprando gás natural e petróleo bruto da Rússia a preços reduzidos e a Federação Russa garantiu um grande aliado na região. Militarmente, em 2009, foi criado o Grupo Regional de Forças da Bielorrússia e Rússia (RGF). O objetivo da RGF é promover a coesão e a aproximação entre as Forças Armadas dos dois países, a fim de garantir uma estratégia conjunta.

A situação alterou-se em 2014. Neste ano, a Crimeia, que pertencia à Ucrânia, foi anexada à Rússia. A Bielorrússia, ao contrário do que se esperava, não reconheceu essa ação de política externa do Governo russo e continuou praticando boas relações com a Ucrânia. Lukashenko encarou a atitude do presidente russo Vladimir Putin como uma ameaça ao seu próprio país, desconfiando das intenções futuras de seu vizinho e aliado.

Uma das propostas de confecção de bandeira que representaria a entidade supranacional, a União da Rússia e da Bielorrússia

Em razão disso, o governo da Belarus resolveu impulsionar sua aproximação com o Ocidente. O Presidente bielorrusso mudou algumas diretrizes de sua administração a fim de lidar com as críticas negativas e para ajustar-se ao modelo neoliberal, além de se mostrar comprometido em reatar as boas relações com os Estados Unidos (EUA)**. Desde então, especialistas internacionais afirmam que Rússia e Bielorrússia estão em um momento diplomático delicado, havendo muitas apreensões de ambos os lados, principalmente no que concerne o comércio entre eles.

Em dezembro de 2018, Putin e Lukashenko encontraram-se oficialmente em duas ocasiões em Moscou. O objetivo foi discutir o novo regime de taxação do petróleo que a Rússia pretendia implementar no começo de 2019. O plano russo era diminuir o seu subsídio àquela fonte de energia, algo que corresponderia a 4% do PIB da Belarus, com uma perda de bilhões de dólares. De acordo com o Presidente bielorrusso, a intenção de Moscou foi “minar a soberania de seu país e empurrá-lo para o centro russo de influência”. Ele ainda afirmou: “se alguém deseja quebrar Belarus em regiões e nos forçar a nos submeter à Rússia, adianto que isso nunca acontecerá”.

Em contrapartida, mídias russas afirmam que as conversas entre os dois líderes seguiram de forma construtiva. De acordo com Vladimir Putin, após uma reunião realizada no dia 25 de dezembro (2018), “as relações entre a Rússia e a Bielorrússia estão se desenvolvendo com sucesso e é visível a tendência de crescimento do volume de negócios no comércio entre eles”.

Apesar desse otimismo, observadores internacionais acreditam que o objetivo de Putin é seguir adiante com a concretização da Entidade Supranacional entre Rússia e Bielorrússia. Ainda de acordo com esses especialistas, Putin já estaria pensando em 2024, quando ele teria que deixar a Presidência da Federação Russa***. Caso a União ocorra, ele poderá se candidatar ao cargo de Presidente da nova União entre os dois Estados.

Tal perspectiva é apenas uma suposição, não havendo nenhum indício concreto que indique que esse seja o plano de Vladimir Putin. Entretanto, o sentimento receoso da Belarus em relação ao seu vizinho existe e espera-se que os diálogos, conduzidos no último mês entre os dois líderes, tenham tranquilizado as relações bilaterais entre ambos.

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Notas:

* Antes de 1991, a Bielorrússia era uma república constituinte da União Soviética (URSS) e, anteriormente a 1917, as partes do que hoje é seu território pertenceram a vários outros países, e foram unificadas sob a bandeira da então República Socialista Soviética Bielorrussa (RSSB) apenas em 1939.

** Em 2008, o governo dos EUA retirou seu embaixador de Minsk, capital da Belarus, em protesto às acusações de que repressões políticas estavam sendo praticada no país.

*** De acordo com a Constituição da Federação Russa, não é possível que o mesmo Presidente permaneça por mais do que dois mandatos consecutivos.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Os presidentes Alexander Lukashenko, da Bielorrússia, e Vladimir Putin, da Rússia, reúnem-se oficialmente em Moscou no dia 29 de dezembro de 2018” (Fonte): http://static.kremlin.ru/media/events/photos/big/M7KVeTfVytNzlYuXtBJdWulwOaXo3bCL.jpg

Imagem 2O Parlamento da Belarus e a estátua de Lênin em frente” (Fonte): https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/3/35/House_of_Representatives_of_Belarus.jpg

Imagem 3Uma das propostas de confecção de bandeira que representaria a entidade supranacional, a União da Rússia e da Bielorrússia” (Fonte): https://en.wikipedia.org/wiki/File:Flag_of_the_Union_State.svg

AMÉRICA LATINAANÁLISES DE CONJUNTURAEURÁSIA

As questões diplomáticas sobre bombardeiros russos na Venezuela

No dia 10 de dezembro (2018), a Venezuela recebeu em seu território quatro aeronaves russas que aterrissaram no Aeroporto Internacional de Maiquetía Simón Bolívar, próxima à capital Caracas, desembarcando uma centena de militares e pessoal técnico-administrativo que, a pedido do Governo Bolivariano, foram participar de alegados exercícios de cooperação estratégico-militar, os quais foram classificados pelo Ministro da Defesa venezuelano, general Vladimir Padrino López, como “intercâmbio de voos operativos para elevar o nível de operações dos sistemas de defesa aeroespacial”dos dois países.

O conjunto de aeronaves foi constituído de um avião de transporte Antonov An-124(denominação OTAN: Condor), que é considerado o 2º maior avião de carga do mundo e destinado ao transporte de tanques de guerra, tropas, lançadores de mísseis, entre outros equipamentos militares; outra peça dessa frota foi o avião de passageiros Ilyushin Il-62 (denominação OTAN: Classic), com capacidade de transporte de até 200 passageiros, o qual foi responsável pelo deslocamento do corpo de técnicos e militares nessa visita. Os protagonistas desse grupo foram os dois bombardeiros estratégicos russos Tupolev TU-160 Cisne Branco (denominação OTAN: Blackjack), que, com sua presença em território venezuelano, foram alvos de pesadas críticas por parte da comunidade internacional, principalmente pelo Governo norte-americano.

Considerado por especialistas como o mais poderoso bombardeiro pesado do mundo, o TU-160tem capacidade de transportar até 20 toneladas de armamento em cada uma de suas duas baias internas, podendo ser bombas convencionais de queda livre e guiadas a laser, mísseis de cruzeiro de longo alcance, mísseis nucleares táticos e antissatélites, tendo como principal característica suas asas de geometria variável que permitem a aeronave atingir velocidades supersônicas (2.200 km/h a uma altitude de 10 km), possibilitando um percurso entre Moscou e Washington em apenas 4 horas. Segundo a Força Aérea Russa, os TU-160 são considerados únicos por serem plataformas avançadas de ataque estratégico nuclear que obtiveram respeito desde a época soviética e cada um deles, como navios, tem seu próprio nome de batismo, em homenagem aos heróis do país ou pilotos russos famosos.

TU-160 lançando míssil KH-101 contra alvos na Síria – Novembro 2015

Essa visita dos TU-160 ao Ocidente não é a primeira atuação dos mesmos fora do território russo, pois já tiveram participação em inserções militares na Síria, lançando mísseis de cruzeiro ou bombas de queda livre, e também já visitaram a Venezuela em duas outras ocasiões, sendo a primeira em 2008, quando militares russos e venezuelanos participaram de seus primeiros exercícios conjuntos, e a segunda visita se processou em 2013, quando gerou um desconforto diplomático com a Colômbia devido a invasão do espaço aéreo daquele país, momento em que foram interceptados por aviões caças colombianos.

Essa terceira visita dos bombardeiros russos ao continente americano teve um minucioso monitoramento por parte de diversos países e organizações devido ao atual condicionamento político-econômico que a Rússia vem sofrendo sob as sanções e restrições impostas pelos EUA e União Europeia. O acompanhamento da frota teve a participação, bastante próxima, de caças F-16 noruegueses que escoltaram os TU-160 desde o Mar de Barents, passando ao largo de países como Suécia, Reino Unido e Irlanda, que também deixaram caças disponíveis para acompanhamento até as proximidades do Mar do Caribe.

Após os 10 mil quilômetros da viagem, os bombardeiros russos chegaram ao território venezuelano enfrentando críticas provindas da OEA (Organização dos Estados Americanos) no tocante a preocupação da presença de equipamento bélico com capacidade nuclear, o que viola a Constituição nacional venezuelana, uma vez que não foi autorizada pela Assembleia Nacional, conforme exigido pelo artigo 187, parágrafo 11. Além disso, esta ação pode também violar as regras fundamentais do Direito Internacional, segundo nota da entidade. A Venezuela é parte do Tratado para a proibição de armas nucleares na América Latina e no Caribe (“Tratado de Tlatelolco”), cujo Artigo Primeiro proíbe o recebimento, estocagem ou posse de armas nucleares por si ou por terceiros em seu território.

Da mesma forma, o Secretariado Geral da OEA observa com extrema preocupação a participação das capacidades militares dos poderes regionais no hemisfério fora do Marco Constitucional dos países, bem como a transparência e a confiança mútua que devem orientar essas atividades. Observadores têm afirmado que atitudes com essas características, como as que ocorreram entre Venezuela e Rússia, não contribuem para a paz ou a estabilidade continental, um valor supremo a ser preservado para a convivência na região.

Posto isso, as trocas de insinuações entre EUA e Rússia tiveram início quando o Secretário de Estado norte-americano, Mike Pompeo, através das redes sociais,caracterizou o envio de bombardeiros TU-160 à Venezuela como um “desperdício de recursos públicos” dizendo: “O governo russo enviou bombardeiros através de metade do mundo à Venezuela. Os povos da Rússia e da Venezuela precisam entender o que isso significa: dois governos corruptos desperdiçam recursos públicos e suprimem a liberdade, enquanto os seus povos sofrem”.

Dmitry Peskov, Porta-Voz do presidente russo, Vladimir Putin, classificou o comentário de Pompeo como “inapropriado”e “nada diplomático. Ele disse,em declaração a repórteres, que tais críticas parecem estranhas vindas de um país “cuja metade do orçamento militar seria suficiente para alimentar toda a África”.

Para especialistas, a grave crise econômica, política e social que a Venezuela atravessa faz com que a presença militar russa tenha o objetivo de desencorajar” terceiros a realizar “algum tipo de intervenção militar” no país, mas, além de beneficiar a Venezuela, essa aliança também é considerada vital para o governo Putin que atravessa um momento delicado devido a uma onda de sanções econômicas contra o país, que continuam sendo renovadas,fazendo com que (Moscou) realize alianças com países que ainda querem se relacionar com a Federação Russa, e isso inclui a Venezuela, destaca Steven Pifer, ex-embaixador dos EUA na Ucrânia e pesquisador do centro de análises Brookings Institution.

Essa aproximação já rendeu ganhos econômico-militares entre as duas nações, sendo que, no final de 2016, a Venezuela comprou 24 caças Sukhoi SU-30 (denominação OTAN: Flanker C) e acertou a aquisição de 53 helicópteros MI-24 (denominação OTAN: Hind) e de 100 mil fuzis Kalashnikov, entre outros equipamentos.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Bombardeiro Tupolev TU-160” (Fonte): https://en.wikipedia.org/wiki/Tupolev_Tu-160#/media/File:2013_Moscow_Victory_Day_Parade_(57).jpg

Imagem 2 TU-160 lançando míssil KH-101 contra alvos na Síria Novembro 2015” (Fonte): https://en.wikipedia.org/wiki/Tupolev_Tu-160#/media/File:SU-30SM_escortant_un_Tu-160_qui_lance_un_missile_de_croisi%C3%A8re.png

ANÁLISES DE CONJUNTURAEURÁSIA

As maiores empresas da Federação Russa

Num mundo regido por uma hegemonia geopolítica* massiva que permeia os desígnios de todas as nações do globo, mais do que ter poder político-militar, uma nação deve ter uma estrutura econômica potencialmente bem desenvolvida, baseada em processos de comércio internacional com seus parceiros globais, em regimentos eficazes de regras monetárias, fiscais e cambiais e, principalmente, na atuação de suas empresas no âmbito nacional e internacional, buscando estar sempre na vanguarda das tecnologias existentes para que não sofram “ameaças” de seus concorrentes, ditando regras mercadológicas no intuito de atrair investidores, gerando empregos e, consequentemente, aquecendo o consumo não só local como também mundial, o que assegura ao governo dessa nação uma maior arrecadação de tributos e de investimentos.

É de conhecimento generalizado que a Federação Russa ainda possui grande número de empresas que foram estruturadas ainda no regime soviético e que o Estado tem grande participação sobre suas ações, mas, no intuito de se manter como um player global dinâmico e ao mesmo tempo lançar inovações que ultrapassem os impactos político-econômicos que as sanções internacionais impuseram sobre sua estrutura mercadológica nos últimos anos, procura veementemente investir na inovação desse portfólio de empresas paralelamente ao processo de inauguração de novas corporações, em atendimento às necessidades do mercado internacional atual.

Da longa lista de empresas que abrangem os principais campos de atividades da Rússia (energia, construção, metalurgia, seguros e tecnologia da informação), serão citados nesta nota, com base nas análises da Forbes**, as 4 principais corporações que, dentre inúmeras, estabelecem a base econômica de toda a Federação Russa, pelo seu grau de importância não só financeira, mas também estratégica e geopolítica.

1ª – GAZPROM: Maior empresa da Rússia e maior exportadora mundial de gás natural é  herdeira direta do Ministério soviético da indústria do gás que foi transformado, em 1989, por Viktor Stepanovich Chernomyrdin (Primeiro-Ministro russo entre 1992 e 1998), em um agrupamento econômico estatal submetido ao princípio de autonomia financeira e de gestão, tendo seu capital aberto ao mercado em 1993 e, desde então, a companhia se tornou uma gigante global focada na exploração, produção, transporte, armazenamento, processamento e venda de gás, gás condensado e petróleo, atuando nos mercados de combustível para veículos, geração e comercialização de calor e energia elétrica. O Governo russo é o seu principal controlador (com 50,2% das ações) e, apresenta atualmente um valor de mercado em torno dos 3,4 trilhões de rublos (cerca de 56,51 bilhões de dólares).

Logotipo do Sberbank

2ª – SBERBANK: Inaugurado em março de 1841, foi o sucessor histórico dos Escritórios de Poupança estabelecido pelo Decreto do Czar Nicolau I, que eram originalmente duas pequenas instituições em São Petersburgo e Moscou com 20 empregados. Mais tarde, eles se transformaram em uma rede de escritórios de poupança espalhados por todo o país, que, mesmo nos momentos mais difíceis, ajudaram a sustentar a estabilidade da economia russa. Durante o período soviético, eles foram transformados no sistema estadual de Bancos de poupança do trabalho. No período da 2ª Guerra Mundial (1939-1945) e nos anos subsequentes, o Sberbank atou uma parceria da indústria nuclear com o Governo. A assistência do Sberbank com a mobilização de recursos e o financiamento de esforços de P&D (Pesquisa e Desenvolvimento) ajudou a Rússia a obter liderança na produção e processamento de combustível nuclear e a manter esse status até hoje. A solução de Banco corporativo digital do Sberbank foi reconhecida como a melhor na Rússia pela revista Global Finance e, além disso, ficou em primeiro lugar em outras três categorias da Europa Central e Oriental: Melhor Serviço de Portal Online, Melhor Banco Corporativo Integrado e Banco Digital mais inovador. No 1º semestre de 2018, atingiu uma margem financeira em torno de 620 bilhões de rublos (cerca de 9,76 bilhões de dólares), com crescimento de 7% acima do mesmo período de 2017.

Logotipo da Rosneft

3ª – ROSNEFT: A história da Rosneft Oil Company está intrinsecamente ligada à história da indústria petrolífera russa. A primeira menção das empresas, agora parte da estrutura da Rosneft, remonta ao ano de 1889, quando teve início a exploração de campos de petróleo em Sakhalin, ilha localizada no extremo oriente da Rússia.Os principais ativos da Rosneft foram construídos na era soviética, com o início do desenvolvimento em grande escala de novos campos de petróleo e gás. Na década de 1990, inúmeras empresas do complexo de combustíveis e energia e outras corporações relacionadas do setor público fundiram-se em companhias verticalmente integradas, seguindo o padrão das maiores corporações do mundo, seguidas de sua venda parcial ou completa para investidores. Desde 2004, aumentou significativamente a eficiência da gestão corporativa, realizou um trabalho sério de consolidação dos ativos de produção e processamento de petróleo e aumentou a disciplina financeira, ocupando no ano seguinte uma posição de liderança entre as empresas petrolíferas russas em termos de produção. Em 2016, o valor das ações da Rosneft na Bolsa de Valores de Moscou aumentou em quase 60% (esse indicador foi maior do que os índices de mercado e excedeu significativamente os dos principais concorrentes russos). Nos primeiros seis meses do mesmo ano, pela primeira vez em sua história, a Rosneft tornou-se a maior empresa da Rússia em termos de capitalização de mercado, ultrapassando 4 trilhões de rublos (cerca de 62,95 bilhões de dólares). Atualmente, suas vendas anuais ultrapassam os 94 bilhões de dólares.

4ª – LUKOIL: Em 25 de novembro de 1991, o Governo da República Federal Socialista Soviética Russa emitiu o Regulamento No.18 para criar o grupo da indústria de petróleo LangepasUrayKogalym (LUKOIL) que consolidou três empresas de produção de petróleo de Kogalym, Langepas e Uray, bem como várias refinarias, incluindo aquelas em Perm e Volgogrado. O nome LUKOIL foi formado a partir das letras iniciais dos nomes das cidades de Langepas, Uray e Kogalym – sedes das principais subsidiárias de produção de petróleo da Companhia. O nome foi proposto por Ravil Maganov, que era então diretor geral da Langepasneftegaz.

Desde 2002 vem ampliando sua atuação internacional com sua vasta base de recursos, especialmente focada no desenvolvimento de novos projetos para aumentar a produção. Os novos projetos incluem o desenvolvimento de novos campos e o aprimoramento da recuperação em campos maduros, por meio do uso de tecnologias avançadas, aumento da perfuração de produção e um maior número de operações de EOR (sigla para denominar a Operação sobre Petróleo Apurado, que é um método para otimizar a extração e recuperação através de processos específicos). Segundo o último relatório financeiro da companhia para o 1º trimestre de 2018, as vendas da LukOil atingiram um patamar de 1,6 trilhão de rublos (cerca de 25,18 bilhões de dólares), representando um crescimento de 14% sobre o mesmo período de 2017.

Apesar das alegações de analistas financeiros decretarem o grande risco de investimento nas empresas russas, não só pelo processo de restrições internacionais, mas, também, por alegados problemas institucionais internos, o que se visualiza é justamente o contrário, devido ao crescimento do número de investidores que direcionam seus recursos ao enorme portfólio de corporações que abrangem não apenas as gigantes estatais como visto, mas, também, na grande diversificação de empresas que atendem as mais variadas demandas internacionais e que são respaldadas pela ação de novas regras estabelecidas pelo governo russo no que tange o pagamento de dividendos, dando tanto segurança financeira, como, também, aumentando a atratividade de novos investidores.

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Notas:

* Pode ser entendido como uma supremacia de um povo sobre outros povos, ou seja, como a superioridade que um Estado tem sobre os demais estados, tornando-o, assim, capaz de se impor aos demais para a realização de seus interesses, e projetando poder sobre eles.

** Forbes é uma revista estadunidense de negócios e economia fundada em 1917. Propriedade de Forbes, Inc., e de publicação quinzenal, a revista apresenta artigos e reportagens originais sobre finanças, indústria, investimento e marketing globais, além de outros assuntos relacionados à tecnologia, comunicações, ciência, direito e celebridades.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Refinaria de petróleo na Rússia” (Fonte):

http://s2.glbimg.com/eQJW5CSJceXhyagouWT4PUhm4_s=/e.glbimg.com/og/ed/f/original/2015/07/21/gettyimages-72976729.jpg

Imagem 2 Logotipo da Gazprom” (Fonte):

https://media.licdn.com/dms/image/C4E12AQGkTTa5nGnOrw/article-inline_image-shrink_1500_2232/0?e=2130710400&v=beta&t=IHFNn9Lw0iPY5I-5s71Fp9u8bz9nxXWTnLRokkUTl2k

Imagem 3 Logotipo do Sberbank” (Fonte):

http://cache1.asset-cache.net/xr/166472640.jpg?v=1&c=IWSAsset&k=3&d=77BFBA49EF8789215ABF3343C02EA548F9D0070DB7AB88BBD08FCB47196158945EBF7176440509BCA55A1E4F32AD3138

Imagem 4 Logotipo da Rosneft” (Fonte):

https://media.gettyimages.com/photos/the-oao-rosneft-logo-is-displayed-outside-the-oil-companys-offices-in-picture-id106344781?k=6&m=106344781&s=612×612&w=0&h=Movx7IKWE9cHJpnw7fRjbO37PjaX9I9fxqYf4je6Amk=

Imagem 5 Logotipo da LukOil” (Fonte):

https://www.freevector.com/uploads/vector/preview/2444/FreeVector-LukOil.jpg

ANÁLISES DE CONJUNTURAEURÁSIA

A estratégia econômica da Rússia para o Ártico

Considerado um dos lugares mais inóspitos e inacessíveis do planeta, o extremo norte da Federação Russa é banhado pelo Oceano Glacial Ártico, que cobre cerca de 60% dos mais de 37,6 mil quilômetros de litoral dessa nação, e, possuindo em sua plataforma marítima uma das maiores reservas de hidrocarbonetos do mundo, este oceano está transformando o país na potência dominante da região, segundo estudos do Instituto Sueco para os Assuntos Internacionais.

Região do Ártico

Nos últimos anos, a Rússia vem consolidando uma série de pesquisas e investimentos na área de prospecção de recursos naturais em ambientes extremos, que vão desde o lançamento de robôs para exploração submarina em grandes profundidades, até a criação de novos tipos de materiais resistentes ao frio extremo do Ártico, os quais serão utilizados nas plataformas de petróleo. Todo esse recurso empregado, que atingirá somas bilionárias, tem o objetivo de explorar depósitos em áreas litorâneas, com capacidades estimadas em 28 bilhões de barris de petróleo, 31 bilhões de barris de gás natural liquefeito, além dos incríveis 356 bilhões de metros cúbicos de gás, segundo estudos do United States Geological Survey (USGS).

A pesquisa também demonstra que a capacidade estimada total, ainda inexplorada para o Ártico, irá atingir mais de 90 bilhões de barris de petróleo, abrangendo não só os já citados depósitos da Federação Russa, mas, também, áreas do Estado norte-americano do Alasca, áreas do Canadá, Groelândia, Noruega, além de pontos ultramarinos não pertencentes à nação alguma, representando cerca de 20% do total da capacidade mundial.

Putin no Ártico

De olho nesse vácuo geopolítico das regiões inexploradas, a Federação Russa já vem reivindicando desde  2001 uma ampliação de suas fronteiras marítimas em 1,2 milhão de quilômetros quadrados para melhor exploração dos recursos naturais, pois, atualmente, de acordo com a Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar (norma da ONU de 1982), um país pode explorar economicamente os recursos naturais e os combustíveis fósseis que estiverem até 370 quilômetros de sua costa, sendo que, se essa nação apresentar evidências geológicas de que sua plataforma continental* se estenda além desta distância, poderá reivindicar o direito de ampliação do território a ser explorado. Em 2015, a ratificação do pedido de estender sua fronteira marítima foi suportada por testes sísmicos, exames de solo e outros dados científicos apresentados à Comissão da ONU de Limites da Plataforma Continental (CLCS – Commission on the Limits of the Continental Shelf), considerando que a cordilheira Lomonosov e o cume Mendeleiev são continuação da plataforma continental da Sibéria, que se encontra dentro do território russo.

Outro ponto importante na exploração econômica da região seria a ampliação de rotas marítimas comerciais no Mar do Norte, que se configura como uma alternativa à tradicional travessia pelo Canal de Suez, no Egito. Com o aquecimento global, as calotas de gelo que cobrem o extenso litoral ártico da Rússia tiveram sua espessura consideravelmente reduzida, permitindo um tráfego de navios de uma maneira muito mais fluída. Tomemos, como exemplo, uma viagem comercial, via Canal de Suez, entre Roterdã, na Holanda, até Ulsan, na Coreia do Sul, com aproximadamente 20 mil quilômetros de distância e um tempo de travessia em torno dos 70 dias. A mesma viagem, pela rota do Ártico, percorreria uma distância de 14,8 mil quilômetros (26% menor) e levaria em torno de 60 dias para chegar ao destino. Isto posto, além da economia de combustível, entre outros insumos, também poderia evitar o número de casos de pirataria, tão comuns na região entre a Indonésia, Malásia e costa da Somália. Em termos comerciais, levaria à uma redução considerável dos fretes e muito provavelmente a um aumento no número dessas trocas comerciais.

Rota marítima do Ártico

Com o intuito de reforçar sua soberania na região e colocar regras de navegação comercial ao longo da Rota Marítima do Norte, o presidente russo Vladimir Putin assinou uma nova lei que irá mudar o transporte de petróleo no Ártico, onde somente navios russos terão direito exclusivo de utilização do percurso. Esta norma entrará em vigor em 31 de dezembro de 2018. A partir desta data, a rota será fechada para os navios com bandeiras estrangeiras. No entanto, isso não significa que a Rússia esteja fechando completamente a entrada para empresas de outros países. Uma empresa estrangeira, se for registrada sob a bandeira russa, poderá passar ao longo da rota como em qualquer outra parte do Ártico.

Para garantir a efetividade das operações sob condições tão extremas de frio, tanto para a exploração dos recursos naturais, como para a utilização da nova rota marítima, os russos estão construindo a maior e mais forte frota de quebra-gelos do mundo. Em maio de 2015, eles tinham pelo menos 14 quebra-gelos em construção e mais outros em planejamento. Um dos projetos, o LK-60, com 173 metros de comprimento, um navio quebra-gelo movido a energia nuclear, será o maior navio do gênero no mundo, e será capaz de romper camadas de gelo com três metros de espessura. A Rússia está planejando a construção de, pelo menos, dois destes navios, com datas operacionais esperadas para o final de 2019 e final de 2020, respectivamente. Outro projeto em andamento é o LK-25, que será o maior navio quebra-gelo movido a diesel do mundo, capaz de atravessar calotas de gelo com dois metros de espessura. No geral, a Federação Russa tem mais de 40 quebra-gelos, significativamente mais do que qualquer outro país. Os Estados Unidos, por comparação, têm apenas um quebra-gelo pesado operacional em serviço.

Todo o processo de desenvolvimento econômico da região do Ártico será acompanhado também pelo reforço e modernização da infraestrutura militar russa no local, pois, apesar de ser o detentor da maioria do espaço geográfico e dos recursos de infraestrutura, a Rússia não estará sozinha nesta empreitada, tendo como “competidores” países da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte), que cada vez mais estão interessados na exploração não só das riquezas da região, como também na localização estratégica que o Ártico apresenta.

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Notas:

* Em oceanografia, geomorfologia e geologia, chama-se plataforma continental à porção dos fundos marinhos que começa na linha de costa e desce com um declive suave até o fundo marinho mais pronunciado.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Plataforma de petróleo russa no Ártico” (Fonte):

http://only-paper.ru/_fr/202/1218585.jpg

Imagem 2 Região do Ártico” (Fonte):

https://pbs.twimg.com/media/DNtjRhcUMAAtBx4.png:large

Imagem 3 Putin no Ártico” (Fonte):

https://sputniknews.com/russia/201703301052132811-putin-franz-joseph-land/

Imagem 4 Rota marítima do Ártico” (Fonte):

https://guerraearmas.wordpress.com/tag/polo-norte/

ANÁLISES DE CONJUNTURAEURÁSIA

Mar ou lago? A indefinição sobre o status do Cáspio pode estar perto do fim

O ano de 2017 terminou com a esperança de que uma solução definitiva para o status legal do Mar Cáspio esteja perto de ser alcançada. Isto poria fim a um impasse jurídico que já perdura por quase 30 anos, desde o desaparecimento da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), em 1991. No início de dezembro, o Chanceler russo, Sergey Lavrov, declarou que as divergências entre os cinco Estados litorâneos (Azerbaijão, Cazaquistão, Turcomenistão, Irã e Rússia) haviam sido sanadas e que estariam prontos para assinar um acordo de delimitação das respectivas áreas de exploração econômica. Recebida com entusiasmo, a afirmação foi feita após a reunião dos Ministros das Relações Exteriores da região, realizada em Moscou entre os dias 4 e 5 de dezembro, e sinalizou a possibilidade de que as vastas reservas de hidrocarbonetos assentadas na Bacia do Cáspio poderiam enfim serem exploradas por completo.

Centro de Baku em 1915

O potencial comercial dos recursos minerais do Cáspio já é conhecido desde a segunda metade do século XIX, período em que as reservas de petróleo nas cercanias de Baku, hoje capital do Azerbaijão, passaram a atrair investidores e trabalhadores de diversas partes do mundo. A cidade, antes vilarejo às margens do Império Russo, se transformou em um ambiente verdadeiramente multicultural e principal locomotiva do desenvolvimento regional.  Após a Segunda Guerra Mundial, entretanto, o descobrimento de novos campos petrolíferos nos Urais e na Sibéria e a crescente defasagem tecnológica soviética em relação ao Ocidente relegaram o Cáspio a um papel de menor relevância na cadeia de produção energética global.

Nos primeiros anos após a desintegração da URSS, o entendimento da relevância estratégica do Cáspio ainda não havia sido formado nos meios ocidentais e seu entorno ainda era tratado como área de influência exclusiva da Rússia. Havia uma aceitação tácita por parte do Governo estadunidense, e do Ocidente como um todo, de que o destino das novas repúblicas do Cáucaso e da Ásia Central estaria atrelado a Moscou. Esta perspectiva só começou a se alterar a partir da segunda metade da década de 1990, quando foram redescobertas as oportunidades que se abriam para a exploração dos recursos energéticos da região.

Campos de petróleo offshore no Azerbaijão

De forma pioneira, ainda em 1994, o Governo do recém-independente Azerbaijão assinou o que ficou conhecido como o “contrato do século”, que consistiu em um acordo de exploração de petróleo por um consórcio formado por empresas de diversas nacionalidades, o que gerou um investimento de cerca de 13 bilhões de dólares no desenvolvimento do setor energético do país caucasiano. O impasse quanto ao status do Cáspio, no entanto, fez com que outras áreas potencialmente produtivas deixassem de ser contempladas, além de impedir que aportes financeiros semelhantes fossem estendidos a outros Estados costeiros com reservas já conhecidas.

Toda a disputa passa pela necessidade de definição sobre se o Cáspio é de fato um mar ou um lago, uma vez que é um corpo d’água sem acessos naturais aos oceanos. Caso considerado um mar, o direito internacional marítimo já existente seria aplicável, o que atrelaria a zona de exploração costeira de cada Estado à extensão de sua respectiva faixa litorânea. Mas sendo um lago, seria necessário um acordo entre todos os países que o circundam para que as normas de navegação e exploração dos recursos sejam enfim pactuadas.

Possuindo apenas o equivalente a 13% da faixa litorânea, a menor dentre os cinco Estados costeiros, o Irã sempre foi o principal defensor de que o Cáspio seja um lago e de que seus recursos passassem a ser partilhados igualitariamente. Essa questão se tornou sensível ao ponto de, em 2001, a Marinha iraniana ter sido acionada para evitar que a companhia inglesa British Petroleum terminasse sua missão exploratória no campo de Araz-Sharg-Alov, próximo à costa azerbaijana, mas reivindicado pelos dois países. Após esse episódio, nenhuma outra tentativa concreta de desenvolvimento da área foi realizada, embora Teerã tenha considerado explorá-la por conta própria, chegando a manter conversas com a petrolífera brasileira Petrobrás para que fosse elaborado um projeto de viabilidade no local.

Porto iraniano de Bandar-e Anzali

Nesse sentido, não foi surpreendente que, após dez dias da declaração de Lavrov, o Irã tenha feito jus ao seu posicionamento histórico e desmentido que um acordo final para a questão do Cáspio fora atingido. Em 15 de dezembro, o porta-voz do Ministério de Relações Exteriores iraniano, Bahram Qassemi, negou que a aplicação das leis marítimas convencionais esteja na agenda de seu país e afirmou à imprensa que “dado os profundos desentendimentos entre os Estados membros sobre a questão da demarcação, parece que não haverá acordo no futuro próximo”.

Contudo, a possibilidade da resolução da disputa já fez avançarem as discussões entre o Turcomenistão e o Azerbaijão para a exploração conjunta de suas reservas, o que facilitaria a exportação do petróleo e gás turcomenos para os mercados ocidentais. A potencial garantia de definição de um estatuto legal que forneça segurança e estabilidade jurídica ao Cáspio também agrada à China. O país asiático possui grande interesse geoestratégico na região e a considera como seguimento importante de sua ambiciosa iniciativa de integração comercial One Belt One Road*.

A assinatura definitiva do acordo está prevista para a primeira metade de 2018, quando o Cazaquistão abrigará a 5ª Conferência do Cáspio, mas ainda sem data estipulada. Com os outros cinco países costeiros aparentemente já decididos, cabe agora ao Irã definir seu posicionamento. É possível que a estreita cooperação com a Rússia, principal aliada estratégica de Teerã nos últimos anos, facilite a obtenção de uma solução mutuamente vantajosa. Contudo, ainda sofrendo com pressões econômicas e isolamento político, espera-se que o Irã opte pelo pragmatismo e arrefeça suas pretensões de modo a não ser posto à margem de futuros projetos de exploração do Cáspio.

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Nota:

* Refere-se à estratégia de desenvolvimento proposta por Xi Jinping, Presidente da China, com o objetivo de conectar e estimular a cooperação entre os países euroasiáticos, principalmente com China, que poderá assumir papel de maior relevância em assuntos econômicos globais, já que estará coordenando uma vasta rede comercial. Também foi denominada no início como One Belt and One Road e, por volta de 2016, mudou o nome para Iniciativa Belt and Road, para evitar os erros de interpretação da expressão, causadas também por possível má tradução do termo. (Mais esclarecimentos sobre o assunto, consultar os demais artigos de Rodrigo Monteiro, publicados no CEIRI NEWSPAPER)

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Mar Cáspio visto da órbita terrestre” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Caspian_Sea#/media/File:Caspian_Sea_from_orbit.jpg

Imagem 2 Centro de Baku em 1915” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/History_of_Baku#/media/File:Bo6_1915a.jpg

Imagem 3 Campos de petróleo offshore no Azerbaijão” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Petroleum_industry_in_Azerbaijan#/media/File:Oil_Rocks_near_Baku.jpg

Imagem 4 Porto iraniano de Bandare Anzali” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Bandar-e_Anzali#/media/File:Bandar-Anzali,_Iran,_taken_by_Arashk_Rajabpour.JPG