ANÁLISES DE CONJUNTURAEURÁSIA

Rússia e a militarização do Ártico

Há séculos, a região do Ártico foi considerada como uma localidade geográfica periférica, inóspita e longínqua, que estava no imaginário de aventureiros ou visionários, onde as circunstâncias que separavam sua localização dos mais importantes centros populacionais e políticos do globo contribuíram para a concepção de uma região remota, que não apresentava fatores que atraíssem atenções ao seu verdadeiro potencial.

Com o passar do tempo, por conta do ímpeto exploratório mundial, a região passou a ser considerada como um novo espaço de poder e de futura concorrência geoeconômica global, atraindo não só a atenção de vários países, no intuito de explorar suas imensas riquezas, como também sendo causa da potencialização de processos de militarização da região por parte de nações que têm grande interesse político e econômico, e vem agindo dessa forma, no intuito de proteger seus interesses.

Região do Ártico

Foi precisamente no contexto da Guerra Fria que a região ártica se consolidou como uma região geoestratégica de relevo, devido ao papel desempenhado no âmbito da estratégia de dissuasão nuclear e de disputas de poder entre as duas superpotências: os EUA e a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas.

Na estratégia de dissuasão, o Norte foi o lugar ideal onde se cruzaram rotas planejadas dos bombardeiros de longo alcance e dos mísseis intercontinentais. Era também no Ártico que se realizavam os testes de armamento da União Soviética, então no seu papel de potência nuclear, nomeadamente em regiões como Novaya Zemlya, Plesetsk e Nenok. Neste sentido, o papel do Ártico na Guerra Fria moldou a caracterização da região em termos militares e estratégicos, caracterização essa que persistiu até o fim do conflito, e com a dissolução da URSS.

A Rússia, como maior território da região do Ártico, vem procurando desenvolver e aumentar as suas capacidades de atuação e presença na localidade. É possível associar essa intenção às condições geográficas do país, que tornam o Norte a sua maior fronteira, onde as águas do Oceano Glacial cobrem cerca de 60% dos mais de 37,6 mil quilômetros de litoral dessa nação e que, consequentemente, sempre situou o Ártico na sua esfera natural de influência, transformando o país numa potência dominante da região, segundo estudos do Instituto Sueco para os Assuntos Internacionais.

Reunião do Conselho de Segurança sobre a política estatal no Ártico

Neste sentido, o Presidente da Federação Russa, Vladimir Putin, afirmou em 2014, numa das reuniões do Conselho de Segurança da Federação, que a região tem sido tradicionalmente uma esfera do interesse especial da Federação Russa, sendo uma concentração de praticamente todos os aspectos da segurança nacional-militar, político, econômico, tecnológico e ambiental.

O ponto focal das preocupações do Kremlin a respeito do Ártico mostra uma junção muito estreita entre economia e segurança, em que a Estratégia de Segurança Nacional contempla os interesses nacionais da Federação Russa, as suas prioridades estratégicas e os seus objetivos e funções na esfera nacional e internacional, onde a importância do desenvolvimento econômico para as políticas externa e interna está bem presente, principalmente no que tange a segurança energética, que é descrita como um dos principais meios para garantir a segurança nacional na esfera econômica no longo prazo e deverá ser premissa nas explorações dos recursos offshore da região do Ártico.

Atualmente, o contínuo processo de exploração do Ártico trouxe aos Estados pertencentes à região a necessidade de buscar soluções para uma série de desafios econômicos, políticos e de segurança. A atual tendência ao multilateralismo, ou à busca de soluções pacíficas para as eventuais disputas territoriais parece firmar-se na região, como foi o clássico caso da disputa entre a Rússia e a Noruega pelas águas do Mar de Barents, sobretudo tendo como base a Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar.

Desta forma, no topo da lista de prioridades dos Estados-membros e de observadores do Conselho do Ártico devem constar, ao menos nos próximos anos, as discussões para a celebração de acordos acerca das possibilidades e da administração das regiões contestadas, sobretudo no que diz respeito à extensão da Zona Econômica Especial (ZEE) de países do litoral ártico, tais como o Canadá, Noruega, Dinamarca, Rússia, e, também, as discussões das novas rotas marítimas.

Enquanto acordos não são firmados, a Federação Russa vem priorizando formas de garantir sua soberania na região. Cerca de 50 bases militares da época da União Soviética, foram reativadas recentemente e o Exército Russo incorporou novas brigadas militares para o Ártico. A frota da Marinha russa também está sendo abastecida com navios quebra-gelos de última geração[vídeo 1], assim como navios de patrulha adaptados às condições locais, essencialmente mini quebra-gelos armados com mísseis.

A primeira usina nuclear flutuante do mundo, Akademik Lomonosov, construída com recursos da agência nuclear russa, Rosatom, também teve seu destino concluído quando chegou a Pevek, no Distrito Autônomo de Chukotka, em 14 de setembro (2019), onde será conectada à rede elétrica local e estará operacional no final do ano (2019) para alimentar a infraestrutura local na exploração de hidrocarbonetos. Segundo informações de especialistas, a verdadeira utilização para esse tipo de equipamento seria prover energia a um sistema de monitoramento marítimo planejado pela Federação Russa que detecta e rastreia submarinos da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte).

Sistema de defesa antiaérea S-400

No último dia 16 de setembro (2019), a Rússia anunciou a instalação de seus sistemas de defesa antiaérea S-400 de última geração no arquipélago de Nova Zembla, no Ártico. Os sistemas S-400 foram implantados neste arquipélago localizado entre os mares de Barents e Kara para substituir os antigos S-300, anunciou a Frota do Norte. Os sistemas S-400 de última geração já foram implantados no Ártico nas regiões de Murmansk e Arcanjo, bem como na República de Sakha, de acordo com a imprensa russa.

Segundo declarações do Secretário de Estado norte-americano, Mike Pompeo, os EUA vão propor novos objetivos para fazer face à “atitude agressiva” por parte da Rússia na região do Ártico, deixando claro que, apesar de ser um local selvagem, não quer dizer que deverá se tornar um lugar sem fé nem lei e cheio de esforços de militarização e de reivindicações territoriais rivais, deixando pegadas de botas militares na neve.

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Fonte do vídeo:

[Vídeo 1]: https://www.youtube.com/watch?time_continue=77&v=bKaVhXn49xY

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Brigada militar russa no Ártico” (Fonte): https://www.thearcticinstitute.org/wp-content/uploads/2018/01/Northern-Fleet-infantry-brigade.png

Imagem 2 Região do Ártico” (Fonte): https://pbs.twimg.com/media/DNtjRhcUMAAtBx4.png:large

Imagem 3 Reunião do Conselho de Segurança sobre a política estatal no Ártico” (Fonte): http://en.kremlin.ru/events/president/news/20845

Imagem 4 Sistema de defesa antiaérea S400” (Fonte): https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/9/9b/Alabino05042017-69.jpg

ANÁLISES DE CONJUNTURAEURÁSIA

A visita de Zelenski à Turquia

Nos dias 7 e 8 de agosto de 2019, Vladimir Zelenski fez sua primeira visita oficial à Turquia, como Presidente da Ucrânia. A importância em incrementar as relações diplomáticas com o vizinho do Mar Negro pode ser notada pelo próprio cronograma presidencial, cuja viagem antecedeu as programadas para a Polônia e Estados Unidos.

A partir da reincorporação da península da Crimeia em 2014, Turquia e Ucrânia, tradicionalmente pouco interessadas em seus assuntos domésticos e política internacional, a primeira voltada o Oriente Médio e a segunda para o Ocidente Europeu, têm se aproximado cada vez mais. O objetivo comum na estabilização da região tem a militarização da península e a insegurança decorrente como ameaça.

Nesse sentido, esta viagem teve dois conjuntos de pautas que podem ser interligadas: as relações e afinidades entre os dois países para estabelecimento de acordos que visem a paz na região; e o estabelecimento de uma agenda de relações comerciais e financeiras entre Turquia e Ucrânia que levem ao desenvolvimento regional.

No dia 7 de agosto, Zelenski se encontrou com o Presidente turco, Recep Tayyip Erdoğan, e também com Bartolomeu I, o principal Bispo da Igreja Católica Apostólica Ortodoxa, conhecido como o “Patriarca de Constantinopla”. No encontro entre os Presidentes turco e ucraniano, questões pertinentes em relação à paz regional foram discutidas, como a cooperação econômica e para a implantação de infraestrutura (como estradas e aeroportos), a guerra no Donbass, a questão da Crimeia e a acusação de perseguição aos tártaros* nesta mesma península. Provavelmente, como resultado mais significativo desta viagem, o Presidente turco afirmou que a Turquia não havia reconhecido a reincorporação da Crimeia pela Rússia e nunca o faria, muito embora isto não signifique o estabelecimento de quaisquer tipos de sanções à Rússia.

Erdoğan expressou suas condolências aos milhares de mortos ucranianos em Donbass. Zelenski, por sua vez, manifestou seu desejo de que haja incremento na balança comercial entre os dois países, estendendo seu convite a que empresas turcas venham operar na Ucrânia. Também lembrou os marinheiros e presos políticos ucranianos na Rússia, ao mesmo tempo que propõe que traga Moscou para futuras negociações conjuntas.

A relação entre os dois países já vinha se alinhavando para além da defesa da integridade territorial ucraniana e levou Turquia e Ucrânia a se envolverem nos últimos anos em uma maior cooperação tecnológica e projetos militares. A Turquia também apoiou a Ucrânia, fornecendo-lhe ajuda humanitária, e a apoiou no saneamento de seu déficit orçamentário. Além disso, Erdoğan já afirmou que ampara os Acordos de Minsk**, destinados a debelar o conflito russo-ucraniano, cuja missão de monitoramento da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE)*** foi chefiada por diplomatas turcos.

Após se encontrar com o Chefe de Estado turco, Zelenski veio a participar de um fórum de negócios em Istambul e, como parte importante da visita, foi assinado um acordo de cooperação entre empresas de ambos os países. O Presidente ucraniano também convidou investidores turcos a participarem de um fórum sobre a reconstrução em Donbass, a ser realizado em Mariupol, em setembro de 2019. Com grande significado simbólico para o desenvolvimento e pacificação do país, a cidade, situada apenas a 37km do Donbass, seria a porta de entrada para investimentos na região.

Burak Pehlivan,presidente da Associação Internacional de Empresários Turcos e Ucranianos (TUID) enfatizou que os empreendimentos turcos no país vizinho deverão se dar na agricultura, energia renovável, infraestrutura e, talvez, na produção energética. Sabe-se que o setor de infraestrutura é um dos mais necessitados e as empresas de construção turcas estão entre as maiores do mundo. Com uma expectativa de aumento do volume de negócios em torno de 40 bilhões de reais**** entre os dois países, pretende-se alinhavar um acordo de livre comércio. Trata-se de um grande interesse mútuo, uma vez que a economia turca enfrenta desafios e há expectativa de recuperação para a economia ucraniana. Mas, para tanto, se torna imprescindível que um regime de segurança se estabeleça, especialmente para as embarcações turcas e ucranianas no Mar Negro.

No entanto, Erdoğan está cada vez mais alinhado com o presidente russo Vladimir Putin. Além das compras de sistemas de defesa aéreos, como o S-400, Rússia e Turquia desenvolveram um importante projeto comum para transporte de gás, o gasoduto TurkStream. Após sua conclusão, ele atravessará o Mar Negro da Rússia para a Turquia, contornando a Ucrânia, reduzindo, assim, a importância de sua posição estratégica.

Distribuição e percentuais da população tártara na Península da Crimeia

Zelenski, por sua vez, também soube utilizar seus recursos diplomáticos, entre eles, a defesa da minoria tártara na Crimeia, na península reincorporada pela Rússia em 2014. São feitas declarações de que a etnia tem sido alvo de retaliação por parte das autoridades russas que já levaram à detenção de 10% de sua população sob acusação de apoiarem grupos extremistas. Apesar das estimativas do número variarem, considera-se que até 7 milhões de pessoas de origem tártara da Crimeia vivem na Turquia. Erdoğan se sente na obrigação de defender a etnia, cuja alegada perseguição já resultou na fuga de milhares dos tártaros da Crimeia desde 2014. Segundo dados oficiais da Rússia, cerca de 247.000 russos também se mudaram para a Crimeia desde a reincorporação, ao passo que em torno de 140.000 habitantes abandonaram a península, sobretudo ucranianos e tártaros.

O fato é que o Presidente Turco assumiu o papel de protetor dos povos turcos em todo o mundo. Portanto, a cooperação na defesa da população tártara é uma oportunidade de ouro para a Ucrânia estabelecer uma linha de pressão ao governo russo. Acredita-se que isto não será suficiente para que a Rússia não atrapalhe os esforços da Ucrânia para melhorar seu relacionamento com a Turquia. Apesar de nenhum grande protesto em Moscou pelo encontro dos dois líderes, declarações como a do senador russo Vladimir Dzabarov de que a Crimeia só poderia retornar à Ucrânia se a Rússia deixasse de existir, e posicionamentos de que se a Turquia quiser ter uma parceria estratégica com a Rússia, ela deve reconhecer a Crimeia como russa, apontam para um futuro impasse.

Embora Ankara seja reticente em alarmar a Rússia ao estimular operações no Donbass, assim como é improvável que venha agravar a situação, impondo sanções à Rússia, os investimentos turcos na Ucrânia apresentam grandes possibilidades de ocorrer. Cálculos buscando otimizar as relações com Kiev serão levados na devida conta, sem prejudicar alianças já em curso, como a desenvolvida com Moscou. Para a Ucrânia não restam dúvidas de que os avanços nas relações com a Turquia são um sopro de boas notícias para o desenvolvimento econômico e autonomia política da nação. Quanto mais opções diplomáticas e econômicas, melhor. Ao buscar novos parceiros, Kiev dá mostras de superar sua tradicional divisão entre o Ocidente e a Rússia, o que tem sido visto como uma verdadeira prisão geopolítica.

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Notas:

* Tártaros são um grupo étnico turco que se concentra na Península da Crimeia. Desde as guerras russo-otomanas no século XIX, foram forçados a migrar para o sul e, durante o século XX, a polícia secreta soviética os sujeitou a deportações em massa para a Ásia Central durante dois dias, em março de 1944, isto é, sob comando de Josef Stalin.

** Acordos de Minsk ou Protocolo de Minsk foram assinados em 5 de setembro de 2014 na capital da Bielorrússia, entre representantes da Ucrânia, da Rússia, da “República Popular de Donetsk” (DNR) e da “República Popular de Lugansk” (LNR), estes dois últimos, grupos insurgentes em guerra contra o governo ucraniano, para pôr fim ao conflito no Donbass (leste da Ucrânia).

*** OSCE, a chamada Organização para a Segurança e Cooperação na Europa,é uma organização voltada para a defesa da democracia e do liberalismo econômico. Atualmente formada por 57 países membros, incluindo toda a Europa, Ásia Central, Canadá e Estados Unidos, se originou na Conferência sobre a Segurança e a Cooperação na Europa (CSCE), realizada em Helsinki, em 1975.

**** Na cotação de 23 de agosto de 2019, 9.791.700,00 de dólares.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Colagem de bandeiras da Rússia, Turquia e Ucrânia” (Fonte Adaptação das imagens produzidas por Nicolas Raymond): http://freestock.ca/flags_maps_g80-russia_grunge_flag_p1032.html; http://freestock.ca/flags_maps_g80-turkey_grunge_flag_p1066.html; http://freestock.ca/flags_maps_g80-ukraine_grunge_flag_p1080.html.

Imagem 2 “Distribuição e percentuais da população tártara na Península da Crimeia (Fonte By Riwnodennyk Own work, CC BYSA 3.0): https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=5986476

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República da Bielorrússia em alerta

O Presidente bielorrusso mudou algumas diretrizes de sua administração a fim de lidar com as críticas negativas e para ajustar-se ao modelo neoliberal (…)

A Bielorrússia (ou Belarus) é um país relativamente novo, tendo conquistado sua independência em 1991*. Desde 1994, Alexander Lukashenko é o Presidente do país e, por estar no cargo há mais de 20 anos, ele é o líder atual em maior tempo de exercício na Europa, algo que divide opiniões pelo continente. Lukashenko, ao contrário de outros Chefes de Estado das antigas repúblicas soviéticas, identifica-se com as ideias socialistas e comanda o país de acordo com muitas diretrizes da extinta URSS. Uma estátua de Lênin permanece em frente ao Parlamento da Belarus, muitas ideias liberais nunca foram adotadas e é um lugar onde a desigualdade social é uma das mais baixas do mundo.

O Parlamento da Belarus e a estátua de Lênin em frente

Não obstante, a Bielorrússia mantém uma forte ligação política, econômica e social com a Federação Russa. Em 1999, firmou-se o tratado que deu origem à União da Rússia e Bielorrússia, uma entidade supranacional em semelhança com a antiga URSS. Desde então, Minsk e Moscou têm uma aliança econômica-militar forte, porém, a União não se realizou por completo, com cada Estado ainda seguindo soberano e independente.

Por muitos anos esse arranjo funcionou. A Belarus desenvolveu-se comprando gás natural e petróleo bruto da Rússia a preços reduzidos e a Federação Russa garantiu um grande aliado na região. Militarmente, em 2009, foi criado o Grupo Regional de Forças da Bielorrússia e Rússia (RGF). O objetivo da RGF é promover a coesão e a aproximação entre as Forças Armadas dos dois países, a fim de garantir uma estratégia conjunta.

A situação alterou-se em 2014. Neste ano, a Crimeia, que pertencia à Ucrânia, foi anexada à Rússia. A Bielorrússia, ao contrário do que se esperava, não reconheceu essa ação de política externa do Governo russo e continuou praticando boas relações com a Ucrânia. Lukashenko encarou a atitude do presidente russo Vladimir Putin como uma ameaça ao seu próprio país, desconfiando das intenções futuras de seu vizinho e aliado.

Uma das propostas de confecção de bandeira que representaria a entidade supranacional, a União da Rússia e da Bielorrússia

Em razão disso, o governo da Belarus resolveu impulsionar sua aproximação com o Ocidente. O Presidente bielorrusso mudou algumas diretrizes de sua administração a fim de lidar com as críticas negativas e para ajustar-se ao modelo neoliberal, além de se mostrar comprometido em reatar as boas relações com os Estados Unidos (EUA)**. Desde então, especialistas internacionais afirmam que Rússia e Bielorrússia estão em um momento diplomático delicado, havendo muitas apreensões de ambos os lados, principalmente no que concerne o comércio entre eles.

Em dezembro de 2018, Putin e Lukashenko encontraram-se oficialmente em duas ocasiões em Moscou. O objetivo foi discutir o novo regime de taxação do petróleo que a Rússia pretendia implementar no começo de 2019. O plano russo era diminuir o seu subsídio àquela fonte de energia, algo que corresponderia a 4% do PIB da Belarus, com uma perda de bilhões de dólares. De acordo com o Presidente bielorrusso, a intenção de Moscou foi “minar a soberania de seu país e empurrá-lo para o centro russo de influência”. Ele ainda afirmou: “se alguém deseja quebrar Belarus em regiões e nos forçar a nos submeter à Rússia, adianto que isso nunca acontecerá”.

Em contrapartida, mídias russas afirmam que as conversas entre os dois líderes seguiram de forma construtiva. De acordo com Vladimir Putin, após uma reunião realizada no dia 25 de dezembro (2018), “as relações entre a Rússia e a Bielorrússia estão se desenvolvendo com sucesso e é visível a tendência de crescimento do volume de negócios no comércio entre eles”.

Apesar desse otimismo, observadores internacionais acreditam que o objetivo de Putin é seguir adiante com a concretização da Entidade Supranacional entre Rússia e Bielorrússia. Ainda de acordo com esses especialistas, Putin já estaria pensando em 2024, quando ele teria que deixar a Presidência da Federação Russa***. Caso a União ocorra, ele poderá se candidatar ao cargo de Presidente da nova União entre os dois Estados.

Tal perspectiva é apenas uma suposição, não havendo nenhum indício concreto que indique que esse seja o plano de Vladimir Putin. Entretanto, o sentimento receoso da Belarus em relação ao seu vizinho existe e espera-se que os diálogos, conduzidos no último mês entre os dois líderes, tenham tranquilizado as relações bilaterais entre ambos.

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Notas:

* Antes de 1991, a Bielorrússia era uma república constituinte da União Soviética (URSS) e, anteriormente a 1917, as partes do que hoje é seu território pertenceram a vários outros países, e foram unificadas sob a bandeira da então República Socialista Soviética Bielorrussa (RSSB) apenas em 1939.

** Em 2008, o governo dos EUA retirou seu embaixador de Minsk, capital da Belarus, em protesto às acusações de que repressões políticas estavam sendo praticada no país.

*** De acordo com a Constituição da Federação Russa, não é possível que o mesmo Presidente permaneça por mais do que dois mandatos consecutivos.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Os presidentes Alexander Lukashenko, da Bielorrússia, e Vladimir Putin, da Rússia, reúnem-se oficialmente em Moscou no dia 29 de dezembro de 2018” (Fonte): http://static.kremlin.ru/media/events/photos/big/M7KVeTfVytNzlYuXtBJdWulwOaXo3bCL.jpg

Imagem 2O Parlamento da Belarus e a estátua de Lênin em frente” (Fonte): https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/3/35/House_of_Representatives_of_Belarus.jpg

Imagem 3Uma das propostas de confecção de bandeira que representaria a entidade supranacional, a União da Rússia e da Bielorrússia” (Fonte): https://en.wikipedia.org/wiki/File:Flag_of_the_Union_State.svg

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Acirramento das tensões entre Rússia e Ucrânia

Desde que tiveram início em 2014, os conflitos entre Rússia e Ucrânia vêm tomando proporções que definitivamente colocam em dúvida se as relações político-diplomáticas entre os dois países tomarão um rumo assertivo no curto período de tempo, fazendo com que vários órgãos e agentes internacionais entrem em discussão sobre os desígnios que deverão tomar quanto às relações geopolíticas nessa parte do mundo.

O embate bilateral teve como principais motivos os protestos pró-russos no leste da Ucrânia* e o processo de incorporação da República da Crimeia e da cidade federal de Sevastopol como subdivisões da Federação Russa, a partir da assinatura de um tratado de adoção de nações recém-formadas, ocorrido em 17 de março de 2014, e que foi fruto de um referendo popular, o qual atingiu quase 97% de aceitação entre a população local. A Ucrânia não reconheceu o processo de anexação dessas localidades à Federação Russa, bem como a independência dos territórios que fizeram parte do país entre 1954 e 2014.

Ponte da Crimeia sobre o Estreito de Kerch

A potencialização do conflito se deu com a construção de uma ponte de 19 km, construída sobre o Estreito de Kerch sem passar por território ucraniano, que ligaria a região da Crimeia ao território russo. Sua inauguração se realizou em 15 de maio de 2018 e com ela foi lançada todo o repúdio do atual presidente da Ucrânia, Pyotr Poroshenko, o qual qualificou como “construção ilegal” e “violação da soberania ucraniana. A referida ponte se tornaria, meses mais tarde, protagonista de um processo político-militar, quando, após a reunificação da península da Crimeia com a Rússia, o governo russo passou a controlar ambas as margens do Estreito de Kerch e a efetivar inspeções sobre embarcações que saem ou chegam dos portos ucranianos por questões de segurança, pois, segundo Moscou, existem ameaças em potencial à existência da ponte por parte de grupos radicais ucranianos.

Em 26 de novembro de 2018, uma alegada “invasão” de embarcações ucranianas ao Mar de Azov fez com que forças especiais russas atingissem com tiros e neutralizassem duas canhoneiras e um rebocador, capturando 23 tripulantes militares ucranianos, dos quais 3 deles apresentaram ferimentos causados por estilhaços dos disparos efetuados.

Automaticamente, o Governo da Ucrânia declarou o ato como uma violação da legislação internacional, afirmando que o Mar Negro é uma área livre para o comércio, de acordo Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar, datada de 1982, sendo usada globalmente, havendo também um acordo bilateral russo-ucraniano firmado em 2003, porém, segundo uma Emenda de 2007, qualquer navio que planeje efetuar essa passagem deve avisar ao porto de Kerch com antecedência, o que, de acordo com o Kremlin, não ocorreu.

Mapa dos protestos pró-Rússia na Ucrânia – 2014

Com a alegação de quebra de acordos internacionais, o governo ucraniano declarou aprovação de uma Lei Marcial pela qual colocaria tropas militares em alerta, causando forte preocupação por parte da comunidade internacional no tocante a um possível confronto militar entre as duas nações. A Federação Russa, por sua vez, entende que as manobras executadas pela Ucrânia não passaram de provocações apostando em uma possível resposta russa que esteja em desalinho com as premissas da comunidade internacional, fazendo com que a Rússia sofra novas restrições político-econômicas ou, em caso mais grave, uma possível intervenção militar.

Para especialistas, órgãos internacionais como a Aliança Atlântica** tem perfeito entendimento dos acordos marítimos entre Rússia e Ucrânia e das consequências da quebra dos mesmos no sentido internacional e econômico, mas não aplicará força militar em qualquer caso, pois significaria um conflito direto com os russos, que, para a OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte) e para todo o mundo resultaria em um cenário com alto grau de destruição.

O desalinhamento entre os dois países se tornou tão grave que até no âmbito religioso houve rupturas, como foi o caso da assinatura no sábado, 5 de janeiro de 2019, em Istambul, do decreto que concede à Igreja Ortodoxa da Ucrânia a independência em relação à Igreja Ortodoxa da Rússia. Ambas estavam unidas desde 1686 e a hierarquia ortodoxa de Moscou respondia às tentativas de separação com uma férrea oposição. Em declarações ao jornal EL PAÍS, uma fonte do Patriarcado de Constantinopla não atribuiu qualquer tipo de significado político ao assunto, embora tenha definido a assinatura do decreto como uma “questão vital” para “acabar com os problemas no seio da Igreja ucraniana e unificar seus fiéis.

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Nota:

* Principalmente nas cidades de Donetsk e Lugansk, que se intensificaram e se transformaram em uma insurgência separatista pela região, abrindo caminho para o conflito armado em abril de 2014.

** A Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN).

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Tanques de guerra ucranianos” (Fonte): https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/5/59/OSCE_SMM_monitoring_the_movement_of_heavy_weaponry_in_eastern_Ukraine_%2816544235410%29.jpg/800px-OSCE_SMM_monitoring_the_movement_of_heavy_weaponry_in_eastern_Ukraine_%2816544235410%29.jpg

Imagem 2 Ponte da Crimeia sobre o Estreito de Kerch” (Fonte): https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/f/f7/Kerch_Strait_Bridge%2C_2018-04-14.jpg/300px-Kerch_Strait_Bridge%2C_2018-04-14.jpg

Imagem 3 Mapa dos protestos próRússia na Ucrânia 2014” (Fonte): https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/7/79/2014_pro-Russian_unrest_in_Ukraine.png

ANÁLISES DE CONJUNTURAEURÁSIA

As maiores empresas da Federação Russa

Num mundo regido por uma hegemonia geopolítica* massiva que permeia os desígnios de todas as nações do globo, mais do que ter poder político-militar, uma nação deve ter uma estrutura econômica potencialmente bem desenvolvida, baseada em processos de comércio internacional com seus parceiros globais, em regimentos eficazes de regras monetárias, fiscais e cambiais e, principalmente, na atuação de suas empresas no âmbito nacional e internacional, buscando estar sempre na vanguarda das tecnologias existentes para que não sofram “ameaças” de seus concorrentes, ditando regras mercadológicas no intuito de atrair investidores, gerando empregos e, consequentemente, aquecendo o consumo não só local como também mundial, o que assegura ao governo dessa nação uma maior arrecadação de tributos e de investimentos.

É de conhecimento generalizado que a Federação Russa ainda possui grande número de empresas que foram estruturadas ainda no regime soviético e que o Estado tem grande participação sobre suas ações, mas, no intuito de se manter como um player global dinâmico e ao mesmo tempo lançar inovações que ultrapassem os impactos político-econômicos que as sanções internacionais impuseram sobre sua estrutura mercadológica nos últimos anos, procura veementemente investir na inovação desse portfólio de empresas paralelamente ao processo de inauguração de novas corporações, em atendimento às necessidades do mercado internacional atual.

Da longa lista de empresas que abrangem os principais campos de atividades da Rússia (energia, construção, metalurgia, seguros e tecnologia da informação), serão citados nesta nota, com base nas análises da Forbes**, as 4 principais corporações que, dentre inúmeras, estabelecem a base econômica de toda a Federação Russa, pelo seu grau de importância não só financeira, mas também estratégica e geopolítica.

1ª – GAZPROM: Maior empresa da Rússia e maior exportadora mundial de gás natural é  herdeira direta do Ministério soviético da indústria do gás que foi transformado, em 1989, por Viktor Stepanovich Chernomyrdin (Primeiro-Ministro russo entre 1992 e 1998), em um agrupamento econômico estatal submetido ao princípio de autonomia financeira e de gestão, tendo seu capital aberto ao mercado em 1993 e, desde então, a companhia se tornou uma gigante global focada na exploração, produção, transporte, armazenamento, processamento e venda de gás, gás condensado e petróleo, atuando nos mercados de combustível para veículos, geração e comercialização de calor e energia elétrica. O Governo russo é o seu principal controlador (com 50,2% das ações) e, apresenta atualmente um valor de mercado em torno dos 3,4 trilhões de rublos (cerca de 56,51 bilhões de dólares).

Logotipo do Sberbank

2ª – SBERBANK: Inaugurado em março de 1841, foi o sucessor histórico dos Escritórios de Poupança estabelecido pelo Decreto do Czar Nicolau I, que eram originalmente duas pequenas instituições em São Petersburgo e Moscou com 20 empregados. Mais tarde, eles se transformaram em uma rede de escritórios de poupança espalhados por todo o país, que, mesmo nos momentos mais difíceis, ajudaram a sustentar a estabilidade da economia russa. Durante o período soviético, eles foram transformados no sistema estadual de Bancos de poupança do trabalho. No período da 2ª Guerra Mundial (1939-1945) e nos anos subsequentes, o Sberbank atou uma parceria da indústria nuclear com o Governo. A assistência do Sberbank com a mobilização de recursos e o financiamento de esforços de P&D (Pesquisa e Desenvolvimento) ajudou a Rússia a obter liderança na produção e processamento de combustível nuclear e a manter esse status até hoje. A solução de Banco corporativo digital do Sberbank foi reconhecida como a melhor na Rússia pela revista Global Finance e, além disso, ficou em primeiro lugar em outras três categorias da Europa Central e Oriental: Melhor Serviço de Portal Online, Melhor Banco Corporativo Integrado e Banco Digital mais inovador. No 1º semestre de 2018, atingiu uma margem financeira em torno de 620 bilhões de rublos (cerca de 9,76 bilhões de dólares), com crescimento de 7% acima do mesmo período de 2017.

Logotipo da Rosneft

3ª – ROSNEFT: A história da Rosneft Oil Company está intrinsecamente ligada à história da indústria petrolífera russa. A primeira menção das empresas, agora parte da estrutura da Rosneft, remonta ao ano de 1889, quando teve início a exploração de campos de petróleo em Sakhalin, ilha localizada no extremo oriente da Rússia.Os principais ativos da Rosneft foram construídos na era soviética, com o início do desenvolvimento em grande escala de novos campos de petróleo e gás. Na década de 1990, inúmeras empresas do complexo de combustíveis e energia e outras corporações relacionadas do setor público fundiram-se em companhias verticalmente integradas, seguindo o padrão das maiores corporações do mundo, seguidas de sua venda parcial ou completa para investidores. Desde 2004, aumentou significativamente a eficiência da gestão corporativa, realizou um trabalho sério de consolidação dos ativos de produção e processamento de petróleo e aumentou a disciplina financeira, ocupando no ano seguinte uma posição de liderança entre as empresas petrolíferas russas em termos de produção. Em 2016, o valor das ações da Rosneft na Bolsa de Valores de Moscou aumentou em quase 60% (esse indicador foi maior do que os índices de mercado e excedeu significativamente os dos principais concorrentes russos). Nos primeiros seis meses do mesmo ano, pela primeira vez em sua história, a Rosneft tornou-se a maior empresa da Rússia em termos de capitalização de mercado, ultrapassando 4 trilhões de rublos (cerca de 62,95 bilhões de dólares). Atualmente, suas vendas anuais ultrapassam os 94 bilhões de dólares.

4ª – LUKOIL: Em 25 de novembro de 1991, o Governo da República Federal Socialista Soviética Russa emitiu o Regulamento No.18 para criar o grupo da indústria de petróleo LangepasUrayKogalym (LUKOIL) que consolidou três empresas de produção de petróleo de Kogalym, Langepas e Uray, bem como várias refinarias, incluindo aquelas em Perm e Volgogrado. O nome LUKOIL foi formado a partir das letras iniciais dos nomes das cidades de Langepas, Uray e Kogalym – sedes das principais subsidiárias de produção de petróleo da Companhia. O nome foi proposto por Ravil Maganov, que era então diretor geral da Langepasneftegaz.

Desde 2002 vem ampliando sua atuação internacional com sua vasta base de recursos, especialmente focada no desenvolvimento de novos projetos para aumentar a produção. Os novos projetos incluem o desenvolvimento de novos campos e o aprimoramento da recuperação em campos maduros, por meio do uso de tecnologias avançadas, aumento da perfuração de produção e um maior número de operações de EOR (sigla para denominar a Operação sobre Petróleo Apurado, que é um método para otimizar a extração e recuperação através de processos específicos). Segundo o último relatório financeiro da companhia para o 1º trimestre de 2018, as vendas da LukOil atingiram um patamar de 1,6 trilhão de rublos (cerca de 25,18 bilhões de dólares), representando um crescimento de 14% sobre o mesmo período de 2017.

Apesar das alegações de analistas financeiros decretarem o grande risco de investimento nas empresas russas, não só pelo processo de restrições internacionais, mas, também, por alegados problemas institucionais internos, o que se visualiza é justamente o contrário, devido ao crescimento do número de investidores que direcionam seus recursos ao enorme portfólio de corporações que abrangem não apenas as gigantes estatais como visto, mas, também, na grande diversificação de empresas que atendem as mais variadas demandas internacionais e que são respaldadas pela ação de novas regras estabelecidas pelo governo russo no que tange o pagamento de dividendos, dando tanto segurança financeira, como, também, aumentando a atratividade de novos investidores.

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Notas:

* Pode ser entendido como uma supremacia de um povo sobre outros povos, ou seja, como a superioridade que um Estado tem sobre os demais estados, tornando-o, assim, capaz de se impor aos demais para a realização de seus interesses, e projetando poder sobre eles.

** Forbes é uma revista estadunidense de negócios e economia fundada em 1917. Propriedade de Forbes, Inc., e de publicação quinzenal, a revista apresenta artigos e reportagens originais sobre finanças, indústria, investimento e marketing globais, além de outros assuntos relacionados à tecnologia, comunicações, ciência, direito e celebridades.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Refinaria de petróleo na Rússia” (Fonte):

http://s2.glbimg.com/eQJW5CSJceXhyagouWT4PUhm4_s=/e.glbimg.com/og/ed/f/original/2015/07/21/gettyimages-72976729.jpg

Imagem 2 Logotipo da Gazprom” (Fonte):

https://media.licdn.com/dms/image/C4E12AQGkTTa5nGnOrw/article-inline_image-shrink_1500_2232/0?e=2130710400&v=beta&t=IHFNn9Lw0iPY5I-5s71Fp9u8bz9nxXWTnLRokkUTl2k

Imagem 3 Logotipo do Sberbank” (Fonte):

http://cache1.asset-cache.net/xr/166472640.jpg?v=1&c=IWSAsset&k=3&d=77BFBA49EF8789215ABF3343C02EA548F9D0070DB7AB88BBD08FCB47196158945EBF7176440509BCA55A1E4F32AD3138

Imagem 4 Logotipo da Rosneft” (Fonte):

https://media.gettyimages.com/photos/the-oao-rosneft-logo-is-displayed-outside-the-oil-companys-offices-in-picture-id106344781?k=6&m=106344781&s=612×612&w=0&h=Movx7IKWE9cHJpnw7fRjbO37PjaX9I9fxqYf4je6Amk=

Imagem 5 Logotipo da LukOil” (Fonte):

https://www.freevector.com/uploads/vector/preview/2444/FreeVector-LukOil.jpg

ANÁLISES DE CONJUNTURAEURÁSIA

A Copa do Mundo na Rússia: expectativas e questões diplomáticas

Ontem, dia 14 de junho (2018), deu início a 21ª edição da Copa do Mundo, a qual ocorre pela primeira vez na Federação Russa. Tal acontecimento é um marco bastante importante ao país, visto que esse campeonato irá trazer pessoas de todo o mundo para prestigiá-lo, colocando a Rússia no centro dos eventos globais.

Presidente russo, Vladimir Putin, segura a Taça da Copa do Mundo que será entregue ao time campeão

Dessa forma, em termos práticos, espera-se que tudo esteja preparado. Sabe-se que um projeto de reformas da infraestrutura das cidades sedes foi realizado, principalmente no que diz respeito às renovações em aeroportos, estádios e de toda a hotelaria. Além disso, toda a segurança do país foi equipada, em que o Kremlin* designou o Serviço Federal de Segurança (FSB, sigla em inglês) para trabalhar com os clubes de futebol a fim de controlar e eliminar qualquer possível perigo ou atos de terrorismo.

Assim, as expectativas para que essa Copa do Mundo seja um sucesso são grandes. Ademais, por ser um evento de grande porte e de alcance global, é uma oportunidade para que os russos apresentem ao mundo o seu país, sua cultura e seu estilo de vida.

Em recente pronunciamento, o presidente Vladimir Putin destacou o seguinte: “Espero que vocês fiquem com impressões positivas e indeléveis. E não apenas pelo desempenho de seus times favoritos ou pelas habilidades de seus jogadores, aqui vocês também podem conhecer a Rússia, com sua cultura distinta, história única e riquezas naturais, bem como seu povo hospitaleiro, sincero e amigável. Nós fizemos tudo o que foi possível para garantir aos nossos convidados, atletas, profissionais e, claro, fãs, que se sintam em casa na Rússia”.

Diante disso, é possível destacar que o principal objetivo do Governo é promover a Federação Russa de uma maneira positiva ao resto do mundo. Isso é preciso por conta dos recentes acontecimentos que acabaram por abalar as relações entre essa nação e o ocidente.

Em primeiro lugar, há a questão da anexação da Crimeia, em 2014, que veio por colocar a Rússia em uma posição comprometedora com os seus parceiros internacionais, principalmente a União Europeia e os EUA. Na época, esses iniciaram uma ampla campanha de aplicar sanções aos russos em resposta às suas ações consideradas hostis, as quais ainda permanecem em vigência até a atualidade. Outra questão controversa é que a Rússia tem atuado como aliada do presidente Bashar al-Assad na Síria, posição essa que não é bem vista por países como EUA, Reino Unido e França.

Além disso, houve o caso do envenenamento do ex-espião russo, Sergei Skripal, no Reino Unido, em março deste ano (2018). Não se sabe o responsável por tal ato, não há provas contundentes que indicam o verdadeiro autor, entretanto, a Primeira-Ministra britânica, Theresa May, acusou o governo de Vladimir Putin.

Encontro oficial entre o Presidente francês, Emmanuel Macron, e o Presidente russo, Vladimir Putin

Diante desses eventos, a imagem da Rússia no ocidente esteve debilitada nos últimos anos. Portanto, a Copa do Mundo e seu possível sucesso é uma boa maneira de começar a mudar esse quadro conturbado. Nesse sentido, pode-se afirmar que o Kremlin, de fato, tem uma estratégia montada para que o evento traga os frutos desejados em termos diplomáticos.

Um ponto importante desse plano é garantir a presença de líderes estrangeiros no mundial. Recentemente, Putin teve uma conversa telefônica com o presidente brasileiro Michel Temer, convidando-o a comparecer e prestigiar a seleção brasileira. Mas, além do Presidente brasileiro, espera-se a presença de muitos outros líderes**, inclusive há a possibilidade de Angela Merkel, Chanceler da Alemanha, e de Emmanuel Macron, Presidente da França, comparecerem ao evento. Entretanto, sabe-se que alguns países já decidiram não enviar representantes oficiais. Esse é o caso do Reino Unido, Islândia, Ucrânia e há rumores que Suécia, Dinamarca e Polônia também irão aderir ao boicote.

Portanto, a Copa do Mundo será um evento bastante peculiar e que trará novas oportunidades no campo diplomático à Rússia. Desde que começou a comandar o país, Vladimir Putin demonstrou que sua principal meta de política externa é colocar a Federação Russa num papel de destaque no cenário global. Ao garantir que a primeira Copa do Mundo, um dos maiores eventos esportivos do mundo, em seu país seja um sucesso, Putin caminha em direção à conquista de seu objetivo.

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Notas:

* O Kremlin é um complexo fortificado no centro de Moscou, capital da Rússia, e é usado como referência ao Governo da Federação Russa.

** Os líderes que se espera a presença na Copa do Mundo são: o Presidente do Presidium da Assembleia Popular Suprema da Coreia do Norte, Kim Yong-nam; o Vice-Premiê do Conselho de Estado da República Popular da China, Sun Chunlan; o Primeiro-Ministro libanês Saad Hariri; o Vice-Chanceler austríaco, Heinz-Christian Strache; o Presidente da Coreia do Sul, Moon Jae-in; e o Príncipe Coroado da Arábia Saudita, Bin Salman.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Logo oficial da 21ª edição da Copa do Mundo na Federação Russa em 2018” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:2018_FIFA_World_Cup.svg

Imagem 2 Presidente russo, Vladimir Putin, segura a Taça da Copa do Mundo que será entregue ao time campeão” (Fonte):

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/d/d2/Vladimir_Putin_FIFA_World_Cup_Trophy_Tour_kick-off_ceremony.jpg/220px-Vladimir_Putin_FIFA_World_Cup_Trophy_Tour_kick-off_ceremony.jpg

Imagem 3 Encontro oficial entre o Presidente francês, Emmanuel Macron, e o Presidente russo, Vladimir Putin” (Fonte):

http://en.kremlin.ru/events/president/news/57544/photos/53746