ANÁLISES DE CONJUNTURAEURÁSIA

O papel geopolítico russo no conflito entre Armênia e Azerbaijão

Localizadas numa região transcontinental entre Europa e Ásia, mais conhecida como Cáucaso, as ex-Repúblicas Socialistas Soviéticas Armênia e Azerbaijão vêm nas últimas semanas potencializando um conflito de longa data devido a disputas territoriais pelo domínio do enclave de Nagorno-Karabakh, e que poderá evoluir para uma guerra que ameace a estabilidade regional.

Durante anos, a Armênia e o Azerbaijão têm estado em desacordo sobre essa faixa de terra, tendo, um pouco antes do colapso da União Soviética, travado uma sangrenta guerra, que durou seis anos, no intuito de controlar o enclave que fazia parte do Azerbaijão de maioria muçulmana, mas que era povoado principalmente por cristãos armênios étnicos.

Mapa da região do Cáucaso

O conflito terminou em 1994, baseado num acordo de cessar-fogo, com aproximadamente 30.000 mortos, mais de um milhão de deslocados e uma frágil trégua que deixou Nagorno-Karabakh como um Estado independente de fato, reconhecido e apoiado pela Armênia, mas não pela maioria dos outros países, incluindo o Azerbaijão. Confrontos de baixo impacto persistem desde então, incluindo escaramuças mortais em 2016, e ambos os governos, segundo analistas, frequentemente usam o conflito para acender chamas nacionalistas dentro de suas fronteiras.

Em julho (2020), em plena pandemia da COVID-19, os atritos militares retomaram forma com diversos bombardeios pesados nas regiões setentrionais de Tovuz e Tavush, causando a morte de dezenas de militares e civis de ambos os lados. Um escalonamento do conflito se intensificou quando autoridades do Azerbaijão ameaçaram atacar uma central nuclear da Armênia, responsável pela produção de energia elétrica consumida em grande parte da área, caso ela investisse em ataques a centros estratégicos azeris.

Artilharia armênia no conflito Nagorno-Karabakh

Com o agravamento das hostilidades, um segundo ato, de maiores proporções, vem tomando corpo com uma provável escalada de tensões entre nações que têm interesses geopolíticos regionais e que estão dispostas em lados divergentes. Rússia, Turquia, Irã e Israel, cada um com seus interesses específicos, visualizam no conflito uma forma de maior influência geopolítica regional, impulsionando suas hegemonias numa região desbalanceada pelos embates étnico-territoriais.

Segundo especialistas, a defesa declarada da Turquia ao colega Azerbaijão é parcialmente impulsionada pelo desejo de recuperar seu papel passado como principal patrono militar do país, algo que a Rússia e Israel agora fazem, atuando como fornecedores de equipamentos militares. A resposta turca à última erupção da violência foi imediata e dura, endossando a versão azeri dos acontecimentos bem antes do estado das coisas no terreno ser determinado, demonstrando um comportamento inadequado de um agente que está envolvido em guerras por procuração tão distantes quanto Líbia e Síria e, segundo informações, supostamente está direcionando mercenários jihadistas sírios para atuar ao lado de tropas militares azerbaijanas.

A Rússia, por sua vez, é vista como um ator externo chave que tem um interesse legítimo no conflito, por conta, principalmente, do seu engajamento diplomático e iniciativa como uma nação coordenadora, juntamente com a França e os EUA, no Grupo Minsk* da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE), a única entidade diplomática habilitada a mediar tal desbalanceamento. Outro ponto crucial nesse interesse é que a Armênia é um grande aliado, que cedeu área para implantação da 102ª Base Militar russa na região armênia de Gyumri, com aproximadamente 3 mil soldados, e é membro ativo da Organização do Tratado de Segurança Coletiva (CSTO, do inglês Collective Security Treaty Organization), um bloco político-militar sob os auspícios russos na região do Cáucaso.

A Rússia tem vantagens distintas que superam a influência turca, pois tem envolvimento direto com os dois lados do conflito e essa percepção decorre de vários fatores. Primeiro, o Azerbaijão reconhece que Moscou tomou a iniciativa diplomática no processo de paz de Nagorno-Karabakh, em que os mediadores França e EUA cederam a liderança diplomática ao país eslavo. Uma segunda vantagem para a Rússia remete ao aumento de sua influência protetora sobre a Armênia, que não tem uma alternativa real de segurança, fazendo com que a natureza transacional das relações entre Yerevan** e Moscou se fortaleçam a partir do aspecto do protecionismo da segurança internacional.

Em terceiro lugar, como demonstrado em rodadas anteriores de combate, a mais notável em abril de 2016, apenas a Rússia respondeu a novas hostilidades de forma rápida e eficaz. Isso também é evidente na realidade de que os únicos acordos de cessar-fogo alcançados no conflito Nagorno-Karabakh foram intermediados com o envolvimento russo.

Reunião de mediação do então Presidente russo, Dmitri Medvedev, com o Presidente armênio Serzh Sargsyan e o Presidente azerbaijano Ilham Aliyev, em 2008

Para o restabelecimento das amenidades, a Federação Russa não só demostra suas habilidades diplomáticas, como também seu poder bélico, caso essa necessidade se apresente. Entre 17 e 21 de julho (2020), época de novos conflitos armênio-azeris, o Ministério da Defesa russo lançou, de forma repentina, exercícios militares, quando foram mobilizados cerca de 150 mil militares, 414 aeronaves e mais de 100 navios de guerra (divididos entre o Mar Negro e o Mar Cáspio), que participaram de um evento operacional para avaliar a capacidade dos centros de comando militar na garantia da segurança do sudoeste do país, o qual foi também uma preparação para o “Cáucaso-2020”, uma série de exercícios bélicos realizados em 25 de setembro (2020), com as tropas da China, Irã, Paquistão e Mianmar, juntamente com as ex-repúblicas soviéticas Armênia, Azerbaijão e Bielorrússia.

Com o agravamento dos conflitos na região caucasiana, a Rússia será essencial para qualquer eventual resolução negociada para Nagorno-Karabakh, sendo, provavelmente, o único ator regional capaz de impor um cessar-fogo e ajudar a garantir um durável acordo de paz.

———————————————————————————————–

Nota:

* O Grupo de Minsk foi criado em 1992 pela Conferência sobre a Segurança e a Cooperação na Europa (CSCE), agora Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE), para encorajar a negociação entre o Azerbaijão e a Armênia no sentido de resolverem pacificamente o conflito de Nagorno-Karabakh.

** Yerevan é a capital da Armênia, significando aqui o Estado armênio.

———————————————————————————————–

Fontes das Imagens:

Imagem 1 Artilharia azeri em ataque a posições armênias” (Fonte):

https://southfront.org/wp-content/uploads/2020/10/dfgdfgdfgdf.jpg

Imagem 2 Mapa da região do Cáucaso” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/C%C3%A1ucaso#/media/Ficheiro:Caucasus-political_pt.svg

Imagem 3 Artilharia armênia no conflito NagornoKarabakh” (Fonte):

https://southfront.org/wp-content/uploads/2020/10/0000464164-article2.jpg

Imagem 4 Reunião de mediação do então Presidente russo, Dmitri Medvedev, com o Presidente armênio Serzh Sargsyan e o Presidente azerbaijano Ilham Aliyev, em 2008” (Fonte):

https://i1.wp.com/www.defesa.tv.br/wp-content/uploads/2020/09/OAs8aiAdSOMRDGollWzNhrewB6ClKweB.jpeg?resize=768%2C474&ssl=1

ANÁLISES DE CONJUNTURAEURÁSIA

O Impacto das Eleições Bielorrussas para a Rússia e para a Ucrânia

Dia nove de agosto passado foram realizadas eleições presidenciais na Bielorrússia e, mais uma vez, o atual Presidente, Aleksandr Lukashenko, venceu com 80% dos votos. Lukashenko, que é Chefe de Estado desde 1994, foi diretor de fazenda coletiva quando a nação ainda era uma república soviética. Sua campanha foi pautada em uma plataforma anticorrupção e a política econômica de seu governo tem foco na redução do desemprego através da estatização e resistência às reformas. Até os símbolos soviéticos são preservados e as tentativas de constituir um idioma bielorrusso como oficial já foram rejeitadas por ele.

Aleksandr Lukashenko, em 2015, na reunião dos BRICS.

Apesar das baixas taxas de desemprego e garantia de estabilidade econômica, os métodos de governo de Lukashenko já incluíram violações dos direitos humanos. Lukashenko também dissolveu o Parlamento em 1996, que lhe fazia oposição, alterando a Constituição do país quando lhe fosse conveniente, o que ocorreu com duas Emendas:

·               Em 1996, ampliando seu mandato de 1999 até 2001;

·               Em 2004, em Referendo que alterou a lei, acabando com o limite para o Presidente reeleger-se.

A possibilidade de restringir o direito à informação” também foi incluída na Constituição com o objetivo de “proteger a honra, a dignidade, a vida privada e familiar dos cidadãos e a plena implementação dos seus direitos”.

Ele também privilegia os serviços de segurança e concentra o poder de modo que não há na Bielorrússia uma elite empresarial que contrabalance o poder de Estado, como os chamados “oligarcas” na Rússia ou na Ucrânia. O país é, apesar de tudo, apontado como menos corrupto que a Rússia e Hungria pela Transparência Internacional. Na política externa, Lukashenko não se comporta como títere de Moscou, tendo havido divergências ao longo da história recente entre ele e Vladimir Putin.

Sviatlana Heorhieuna Tsikhanouskaia, a candidata de oposição às eleições presidenciais.

A candidata de oposição, Sviatlana Tsikhanouskaia, dona de casa e ex-professora de inglês, cujo marido, Serguei Tikhanovski, famoso blogueiro e um dos presos políticos do regime de Lukashenko, abandonou o país após as eleições por ter contestado seus resultados. A isto se somou uma onda de protestos que sacode a Bielorrússia há semanas, com milhares de participantes nas ruas exigindo recontagem dos votos de uma eleição que não contou com observadores externos e não tem resultado reconhecido pela União Europeia.

Com a promessa de liberação de todos presos políticos, caso vencesse o pleito, Tikhanovskaya atraiu a forte oposição governamental. Como a candidata recebeu de 70% a 80% dos votos em algumas assembleias, isso gerou desconfiança em relação ao resultado final e os protestos começaram. Já faz um mês e as manifestações pacíficas continuam, enquanto que a repressão governamental recrudesce, levando à prisão de centenas de pessoas. É difícil prever o que irá ocorrer, pois, sem apoio de grupos econômicos ou políticos específicos não há uma direção clara para onde os acontecimentos deverão rumar, o que guarda grande diferença do ocorrido na Ucrânia, em 2014.

Bielorrússia e Rússia

As relações entre Bielorrússia e Rússia têm a geografia como base e condicionante marcantes. A neutralidade do país sempre foi estratégica para a OTAN, mas não é segura suficiente para a Rússia. Distante cerca de 450km em linha reta e apenas 705km por estrada, a fronteira oriental bielorrussa é bastante próxima de Moscou para inspirar ameaça, caso o posicionamento geopolítico de Minsk penda para o ocidente, mais especificamente, para a União Europeia e a OTAN.

Se a Bielorrússia integrasse a União Europeia e, em um segundo momento histórico, a OTAN, não teríamos um ataque iminente, mas, aos olhos de Moscou, um grande salto estratégico da aliança ocidental ao desequilíbrio de seu poder de dissuasão. Para entendermos melhor o que significa isto, vejamos a análise que faz George Friedman sobre a recente situação na Ucrânia: “A questão não é se a OTAN ou os EUA pretendem atacar; mas com o passar do tempo as intenções mudam. A Rússia, como qualquer país, não tolera cursos de ação que possam eventualmente ser usados contra ela. Na verdade, o movimento da OTAN para o leste, e particularmente pelos americanos, criou ameaças à Rússia a partir do Báltico e da Ucrânia. Se a Ucrânia fosse integrada a uma coalizão liderada pelos EUA e totalmente armada, forças hostis estariam a menos de 1.100 quilômetros de Moscou. A Rússia não poderia tolerar isso, portanto tomou a Crimeia, colocando-se em posição de ameaçar o território ucraniano e bloquear seus portos, e despachou forças de operações especiais para o leste da Ucrânia para desencadear um levante pró-Rússia. A revolta falhou, mas, mesmo assim, efetivamente dividiu a Ucrânia o suficiente para forçar o governo central em Kiev a recuar da fronteira com a Rússia”.

Mapa com bandeira da Organização do Atlântico Norte (OTAN), em 2020.

Independente de as ações preventivas e de intervenção nos vizinhos não se justificarem, para a política externa russa se trata de uma ameaça. Convenientemente, Minsk vê aí um ponto fraco em Moscou e percebe seu peso para a barganha política. Por se tratar de um país territorialmente muito próximo, com um governo não alinhado à Moscou, mas sem posicionamento necessariamente pró-ocidental, o envolvimento russo iria ocorrer, conforme se abrisse alguma possibilidade para tanto.

Combustível vs. Soberania

Belarus* ou Bielorrússia, como é mais conhecida no Brasil, é uma das ex-repúblicas soviéticas que se tornaram independentes em 1991, cujo governo não seguiu a trilha da mudança das ex-repúblicas soviéticas e demais países na antiga órbita de Moscou na Europa Central. Em uma breve retrospectiva, as relações com a Rússia se tornaram difíceis a partir dos anos 2000, quando iniciam os mandatos presidenciais de Putin. Minsk não cedeu aos planos ambiciosos de incorporação de sua economia por oligarcas russos, o que levou Moscou a usar sua principal arma: o aumento do preço de seu gás. Embora bem menor do que o preço aos países europeus (67%), foi o suficiente para abalar a economia do país. Quando Minsk protestou, Moscou simplesmente cortou o fornecimento, forçando a Bielorrússia a importar combustível da Venezuela, durante o governo Chávez, e do Irã, no governo Ahmadinejad, o que obviamente desagradou a Putin.

A ausência de uma elite empresarial bielorrussa com a qual, indiretamente, permitisse o controle nacional por Moscou, e a negativa de Minsk de permitir a incorporação de seus ativos pelos oligarcas russos, colocou as duas capitais em rota de colisão diplomática. Aliado a isso, a situação internacional, com as sanções impostas à Rússia pelo Ocidente em função do conflito com a Ucrânia fizeram com que Moscou tivesse perdas financeiras e passasse a tratar a Bielorrússia com menos tolerância, o que levou à retirada de subsídios na compra de combustível.

Com o recrudescimento das tensões, a participação da Bielorrússia na União Euroasiática** em 2015, organização formada por alguns dos ex-Estado Membros*** da antiga União Soviética, amenizou as relações com Moscou. Minsk participou como um dos fundadores da União Euroasiática, promovida pela Federação Russa, no que Putin propõe uma união entre Rússia e Bielorrússia, mas não sem impor exigências e condições devidamente rejeitadas por Lukashenko. Algumas das exigências alinhavavam o controle de Moscou sobre o território bielorrusso, como permitir a privatização de setores estratégicos para oligarcas russos e apoiar todas as decisões de Moscou na política externa. Após isso, ficou claro para a Rússia que a Bielorrússia não se dobraria facilmente e passou a tratá-la como qualquer outro país. Todas as concessões russas, como petróleo e gás subsidiado passariam a ser pagos a preço de mercado por Minsk ou, do contrário, sofreriam sanções econômicas. Consequentemente, essa animosidade entre os Estados levou a disputas mais acirradas pelo preço dos combustíveis, além de causar sérios danos às relações entre ambos com a subsequente deterioração nos anos seguintes, 2016 e 2017.

Mapa com os países-membros da União Econômica Eurasiana (EAEU, na sigla em inglês)

A lição ucraniana

O cerne da divergência de Minsk com Moscou era a atuação russa na Ucrânia, particularmente, a questão da Crimeia. Declarações entusiásticas de apoio à Ucrânia, feitas por Lukashenko, aumentaram as divergências entre Rússia e Bielorrússia. Voluntários bielorrussos lutaram no leste da Ucrânia contra forças insurgentes apoiadas pela Federação Russa. Acordos militares para construção de mísseis foram realizados entre Minsk e Kyiv e Lukashenko declarou apoio à investidura de Petro Poroshenko, ex-presidente da Ucrânia e membro do Solidariedade Europeia, partido pró-União Europeia. Outra das demandas de Moscou era a instalação de uma base militar sua no território bielorrusso, o que gerava receios por parte de Minsk, com a lembrança clara de que o mesmo sucedeu na Ucrânia, através da manutenção do porto de Sebastopol na península da Crimeia, para permitir o acesso estratégico ao Mar Negro, mas cuja península inteira fora anexada em 2014.

Essa incompatibilidade de projetos políticos já causara um bloqueio econômico aos produtos bielorrussos por parte de Moscou, alegando “não terem qualidade”, o que foi um golpe duro, uma vez que 88% das produções agrícolas e 69% das industriais do país se destinam à Rússia. Não restou alternativa à Minsk a não ser buscar apoio com a União Europeia, em troca de uma distensão na repressão e liberação de presos políticos. Paralelamente, com as relações Minsk-Moscou se deteriorando, a aliança militar entre os dois países passa a ser questionada, surgindo daí uma afinidade de propósitos entre Minsk e Kyiv.

Bielorrússia e Ucrânia

Antes das eleições, as relações entre Minsk e Kyiv eram promissoras. Em operações durante as enchentes que assolaram o oeste da Ucrânia, a Bielorrússia enviou um comboio de ajuda humanitária à população atingida. Bielorrússia, Polônia e Ucrânia também têm empenhado esforços conjuntos para implantação de uma obra fundamental ao seu desenvolvimento, a hidrovia E40, que faz parte de um projeto de mais longo alcance, a Iniciativa Três Mares.

Outra aliança de mais longo alcance é a participação conjunta de ambos os países, Bielorrússia e Ucrânia, na Eastern Partnership (EaP), organização criada pela União Europeia, que congrega vários países da Europa Oriental, basicamente Estados pós-soviéticos, para adequação e futura admissão na organização ocidental.

Após as eleições bielorrussas de 9 de agosto passado, no entanto, a posição de Kyiv em relação ao país vizinho tem sido ambígua. Recentemente, a Bielorrússia se viu às voltas com cerca de 200 agitadores russos, o Grupo Wagner****, 33 dos quais foram presos e seriam extraditados para a Ucrânia, onde estavam envolvidos em operações ilegais no Donbass. Posteriormente, os wagneristas acabaram sendo entregues à Rússia.

Embora a posição oficial de Kyiv seja de apoio ao Presidente bielorrusso eleito, não houve declaração sobre as manifestações posteriores em Minsk e no país. Esta prudência governamental da Ucrânia tem sido estratégica, pois, até o momento, Lukashenko tem apoiado a posição ucraniana em suas disputas com a Rússia. O Parlamento ucraniano, por sua vez, bem como a sociedade civil têm sido entusiastas das manifestações bielorrussas, como se estas fossem um revival do Euromaidan em 2014. O desejo explícito de políticos anti-russos na Ucrânia é o de um enfraquecimento de Moscou com uma maior divergência de países vizinhos, onde se encaixaria a Bielorrússia, com ruptura nas relações externas entre Minsk e Moscou. Segundo o Instituto Varsóvia, “O atraso nas decisões das autoridades oficiais de Kiev mostra a ambiguidade das posições dos políticos ucranianos. No dia seguinte ao anúncio dos resultados eleitorais, os deputados do partido presidencial ‘Servo da Nação’ parabenizaram Lukashenko por sua vitória, e o chefe do clube parlamentar do partido, David Arachamia, disse que a Ucrânia deve permanecer neutra sobre o assunto, pois existe o risco de uma escalada do conflito militar do lado russo. Para ele, a ‘pausa’ anunciada pelo Ministério das Relações Exteriores nas relações entre os dois países é a melhor prova da neutralidade da Ucrânia.Os deputados da oposição reagiram de forma diferente – numa altura em que o partido do ex-presidente Petro Poroshenko, ‘Solidariedade Europeia’, já condenava a agressão contra manifestantes na Bielorrússia um dia após as eleições presidenciais, e apresentava um projeto de lei sobre o não reconhecimento dos resultados oficiais, representantes do partido pró-russo ‘Bloco de Oposição’ apareceram na Verkhovna Rada da Ucrânia com a bandeira oficial da Bielorrússia. Eles enfatizaram que, desta forma, queriam ‘apoiar o sistema atual na Bielorrússia e condenar a vontade da oposição de mudar suas autoridades legais”.

Apesar de deter uma opinião oficial contra a repressão às manifestações, há uma grande diversidade de pontos de vista nos círculos políticos internos ucranianos. Mesmo dentro do próprio partido no poder, a Ucrânia é capaz de expressar sua oposição às ações das autoridades bielorrussas e, apesar das vozes pró-russas dentro do país, procura entrar em consonância com a opinião pública na União Europeia.

Cenários futuros

As manifestações pós-eleição no país, inicialmente pela recontagem dos votos, cresceram e se transformaram em manifestações contra o governo Lukashenko. Isolado, sem apoio ocidental e mesmo da maioria de países em situação similar perante a hegemonia geopolítica russa, a Bielorrússia foi levada a buscar apoio em Moscou. Motivo de críticas durante a campanha, a Rússia agora foi a grande beneficiária da crise que se instaurou no país. Sem chances de repetir a trajetória ucraniana, a Bielorrússia parece estar com seu destino atrelado à Federação Russa. O próprio presidente Lukashenko tem recorrido às teorias conspiratórias para justificar o movimento de oposição ao seu governo como um plano da OTAN para jogar seu Estado contra a Rússia.

A própria candidata de oposição, Tsikhanouskaia, foi quem disse ao adotar um tom neutro, que “a revolução na Bielorrússia não é uma revolução geopolítica”. Em suas palavras: “Não é uma revolução anti-russa nem pró-russa. Não é nem anti-UE nem pró-UE. É uma revolução democrática. A demanda dos bielorrussos é simples: uma eleição livre e justa”.

A pressão tem sido enorme para Lukashenko, o Presidente tem sido vaiado por operários, que considerava seus “aliados naturais”, além de greves que têm irrompido pelo território. Por seu turno, propôs a realização de reformas constitucionais que permitam tirar o país da crise.

Protestos em Minsk contra o governo Lukashenko

A Bielorrússia apresenta hoje uma massa crescente de descontentes com o regime, mas, como consequência do longo período que Lukashenko detém o poder, apresenta uma frágil oposição, assim como a ausência de uma classe empresarial com poder suficiente para influenciar a política nacional ao ponto de confrontar o Presidente.

Outro detalhe dessa crise é que a Rússia não interveio da mesma forma como o fez na Ucrânia. Uma intervenção explícita poderia ter efeitos contrários, como insuflar a oposição anti-russa, tímida, mas com potencial de crescer fundindo sentimentos nacionalistas com manifestações pró-democracia. O fato é que, no cenário externo, o papel do vizinho russo será definidor do que teremos para o futuro da Bielorrússia, mas cabe lembrar que a Federação Russa não é uma réplica atualizada da antiga União Soviética. A anexação territorial não deixou de existir, vide o recente caso da Crimeia, mas é menos frequente. Se antes existia um amplo domínio sobre seus aliados, que eram, na verdade, subordinados, a Rússia atual é muito mais calculista: seu apoio é amplamente condicional e sugere uma lógica da barganha.

Uma possível escalada do conflito, improvável, mas não impossível, levaria à interferência da OTAN e, por extensão, dos Estados Unidos. Moscou, bastante ocupada com manifestações políticas na periferia de seu território, adota uma postura mais cautelosa, negociando com lideranças antes adversas a sua influência, como Aleksandr Lukashenko. Washington, por enquanto, tem em seu menu de possibilidades um bloco mais desunido, com flancos expostos à sua influência.

———————————————————————————————–

Notas:

* Em 1991, o país adotou o nome Belarus,mas, na língua portuguesa, ele ainda é chamado, oficialmente, de República da Bielorrússia, que é uma transcrição literal do russo “Rússia Branca”.

** EAEU, na sigla em inglês, de Eurasian Economic Union.

***São integrantes da União Econômica Euroasiática (UEE), a República da Armênia, a República da Bielorrússia, a República do Cazaquistão, a República do Quirguistão e a Federação Russa.

**** Empresa militar privada que coopera com o Serviço de Inteligência Estrangeiro Russo.

———————————————————————————————–

Fontes das Imagens:

Imagem 1 “Colagem com as bandeiras da Rússia, Bielorrússia e Ucrânia, respectivamente Adaptação das imagens produzidas por Nicolas Raymond” (Fonte):

http://freestock.ca/flags_maps_g80-russia_grunge_flag_p1032.html; http://freestock.ca/flags_maps_g80-belarus_grunge_flag_p1101.html; http://freestock.ca/flags_maps_g80-ukraine_grunge_flag_p1080.html

Imagem 2 Aleksandr Lukashenko, em 2015, na reunião dos BRICS”(Fonte):

http://kremlin.ru/events/president/news/49888/photos

Imagem 3 Sviatlana Tsikhanouskaya, candidata de oposição à eleição presidencial bielorrussa em 2020” (Fonte):

https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Sviatlana_Cichanowskaja_Vitebsk_01.jpg

Imagem 4 “Mapa da OTAN, com o símbolo da organização, 2020” (Fonte): 

https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Flag_map_of_NATO_Countries_(Europe).png

Imagem 5 “Mapa com os países-membros da União Econômica Eurasiana (EAEU, na sigla em inglês)” (Fonte): 

https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Eurasian_Economic_Union_member_states_map.png

Imagem 6 “Protestos em Minsk, Bielorrússia, contra o governo Lukashenko” (Fonte):

https://pixabay.com/photos/minsk-belarus-protest-capital-5512944/

ANÁLISES DE CONJUNTURAEURÁSIA

A Rússia vence disputa na OMC contra a União Europeia

A Organização Mundial do Comércio (OMC) iniciou atividades na sua sede em Genebra, Suíça na data de 1o de janeiro de 1995. Entretanto, a instituição possui um longo histórico de construção internacional, o qual remonta ao fim da 2ª Guerra Mundial (2GM), quando as potências da época fundaram as bases que norteiam o atual sistema financeiro internacional.

Durante a conferência de Bretton Woods (1944), nos Estados Unidos, foram previstas a formação de três organizações internacionais, às quais são o Banco Internacional para a Reconstrução e Desenvolvimento (BIRD), com o propósito de conceder empréstimos para que os Estados devastados com a guerra pudessem investir em obras e ações de incentivo às suas economias; o Fundo Monetário Internacional (FMI), no qual os Estados contribuiriam com quotas que poderiam ser retiradas posteriormente em razão de desequilíbrio econômico; e a Organização Internacional do Comércio (OIC), a qual visava estimular as trocas comerciais e afastar o protecionismo.

Devido ao caráter do pós-2GM o BIRD e o FMI tiveram aceitação pelo sistema internacional, pois os países precisavam de meios financeiros para reconstruírem suas infraestruturas e, dessa forma, afastar quaisquer atratividades pelo modelo socialista soviético. Todavia, o projeto da OIC não foi efetivado, seja pelo desinteresse dos Estados em liberalizar suas frágeis economias, seja pela declinação dos EUA em ratificar o tratado de adesão.

Diante das intempéries do período, os Estados criaram um mecanismo de menor sofisticação para a negociação comercial, o qual chamaram de Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio (GATT), em 1947, com o objetivo de iniciar a redução das burocracias e entraves ao comércio multilateral. O GATT foi o modelo adequado para o momento, pois se tratava de um acordo executivo, não vinculante e sem a obrigatoriedade dos termos de um Tratado.

No âmbito do GATT foram feitas oito rodadas: a Rodada de Genebra, em 1947; a Rodada Annecy, em 1949; a Rodada Torquay, em 1950-51; a Rodada Genebra, em 1955-56; a Rodada Dillon, em 1960-61; a Rodada Kennedy, em 1964-67; a Rodada Tóquio, em 1973-79; e a Rodada Uruguai, em 1986-94. Ao longo das negociações o quantitativo de Estados dispostos a aderir as conversações aumentou, e com o acréscimo de atores também eclodiram a quantidade de temáticas.

O GATT ampliou de forma considerável a pauta de liberalização comercial e tarifária ao ponto em que os Estados estruturaram três acordos específicos: o Acordo sobre Aspectos dos Direitos de Propriedade Intelectual Relacionados ao Comércio, em inglês Agreement on Trade-Related Aspects of Intellectual Property Rights (TRIPS), com o propósito de tratar de proteção sobre propriedade intelectual dos produtos; o Acordo sobre Medidas de Investimento Relacionado ao Comércio, em inglês Agreement on Trade-Related Investment Measures (TRIMS), que trata da não discriminação entre investidores nacionais e internacionais; e o Acordo sobre Compras Governamentais, em inglês Agreement on Government Procurement (GPA), que abrange maior transparência nos processos de compras e licitações governamentais.

Após o êxito nas conversações os Estados instituíram a OMC, mediante o Tratado de Marrakesh, Marrocos, e incorporaram à organização a herança adquirida com o sistema do GATT. Atualmente, a OMC é composta por 164 Estados membros, e seu objetivo é regular as relações comerciais internacionais de forma que o comércio possa ser justo, à luz do Tratado Constitutivo.

A organização internacional é composta por diversos órgãos e seus principais são: o Conselho Geral, no qual reúne os representantes permanentes dos Estados membros; o Órgão de Solução de Controvérsias, no qual são analisadas as dúvidas sobre práticas comerciais; o Secretariado, no qual se concentra as atividades administrativas da instituição sob a chefia do Diretor-Geral; e a Conferência Ministerial, a qual é a instância máxima da organização por reunir os ministros de Relações Exteriores ou de Comércio Exterior dos Estados membros.

Em 2012, a Federação Russa ingressou na OMC, após anos de negociações internas e externas, pois os reflexos do período soviético ainda permaneceram no país por muitos anos, sobretudo no que tange à economia, a qual sofreu diversos reveses com sua abertura. Além disso, os russos tiveram que conquistar a confiança de inúmeros Estados mediante a conclusão de acordos bilaterais.

No tangente à causa atual, a Federação Russa solicitou um pedido de arbitragem na instituição há cerca de cinco anos. No documento, os russos apresentaram sua insatisfação sobre três pautas: a primeira trata de medidas antidumping*, na qual a UE fazia entraves no ingresso de tubos soldados russos na região. Moscou** alegou que a prática era injusta comercialmente, sobretudo pela não imposição de entraves aos tubos soldados produzidos pela Ucrânia.

A segunda também aborda o antidumping, pois Moscou alega que os ucranianos teriam violado o Acordo da OMC taxando os produtos russos com nitrato de amônio. E a terceira diz respeito a metodologia de cálculo utilizada pelo Bloco europeu na determinação do preço da energia, o qual estaria indicando uma desproporção e, por conta disso, trazendo prejuízos de concorrência aos produtos russos.

A decisão do Painel da OMC que analisou a questão indicou na 1ª pauta, a qual abrange o caso dos tubos soldados, que a UE estava equivocada e agiu de forma inconsistente com o Acordo Antidumping; em relação a 2ª pauta, que aborda o caso do nitrato de amônio, o Painel reconheceu certas reivindicações processuais russas sobre o tema, mas desconsiderou a afirmação de dumping por parte do Bloco europeu contra a Federação Russa; e na 3ª pauta, a qual versa sobre o preço da energia, o Painel apontou a existência de medida antidumping feita pela UE, e sinalizou que a Federação Russa demonstrou a inconsistência metodológica na regulação dos preços.

Ministro do Desenvolvimento
Econômico
e Comércio da Federação Russa,
Maxim Reshetnikov
[Atribuição: www.kremlin.ru e
Licença Creative Commons Attribution 3.0]

Segundo informou o jornal Izvestia, o Ministro do Desenvolvimento Econômico e Comércio da Federação Russa, Maxim Reshetnikov, demonstrou apreço pela questão e está confiante de que a UE respeitará a decisão da OMC. Em relação ao fato, o próprio Ministro afirmou: “O grupo de arbitragem atendeu às principais reivindicações da Rússia. Esperamos que a UE aplique a decisão de boa fé e prontamente. Isso melhorará significativamente as condições de acesso de mercadorias russas ao mercado da EU, eliminando a discriminação ‘histórica’ contra fabricantes russos durante as investigações antidumping da UE”.

Ainda dito pelo jornal Izvestia há poucas semanas antes da decisão da OMC, o Ministro da Indústria e Comércio da Federação Russa, Denis Manturov, afirmou a declinação russa pela saída da organização internacional e salientou: “Ingressamos nesta organização por muito tempo, quase 16 anos. Todo mundo estava esperando e contando com o fato de que obteremos o máximo de benefícios e resultados com isso”. O Ministro Manturov defende os esforços do Estado eslavo e entende que toda a adaptação que o país realizou para proteger sua indústria, conforme as regras da OMC, seria perdido, caso os russos deixassem a instituição.

Ministro da Indústria e Comércio da
Federação Russa, Denis Manturov
[Atribuição: www.government.ru e
Licença Creative Commons Attribution 4.0]

O jornal Yandex trouxe a declaração do Presidente da Federação Russa, Vladimir Putin sobre o ocorrido, o qual afirmou: “É óbvio para mim que o confronto na arena econômica internacional continuará”. As palavras do mandatário russo expressam uma perspectiva realista de que os Estados possuem interesses comerciais. Uma batalha foi vencida, mas isso não significa que outras não poderão advir no futuro.

Os analistas compreendem a existência da OMC pela lógica do pragmatismo político, visto que diversas controvérsias foram resolvidas com pouco desgaste ao longo dos anos de fundação da instituição. Questões cujas consequências poderiam ser desastrosas para muitas economias e, sobretudo, para os próprios indivíduos, os quais são os consumidores finais, tiveram soluções equilibradas ou com baixo prejuízo.

O ganho de causa da Federação Russa reflete o bom funcionamento da OMC para a solvência de problemáticas. Os russos jogaram politicamente e ganharam duas de três disputas comerciais, às quais poderiam se arrastar por anos no campo diplomático. A decisão ainda cabe recurso da UE, algo que demonstra o poder que existe na cooperação internacional.

Algumas vezes os Estados enfrentam dificuldades para implementar as decisões originárias da OMC, todavia, ainda que por razões políticas esses Estados declinem de ações de retaliação comercial, observa-se a relevância da declaração de causa justa dada a eles. Muitos Estados com economias pequenas recebem ganho de causa em uma disputa, e isso representa acréscimo de poder no sistema internacional.

———————————————————————————————–

Notas:

* Dumping: é uma prática comercial desleal que consiste na cobrança de valor de um produto abaixo do seu valor justo em outro país com a intenção de eliminar a fabricação de produção concorrente.

** Moscou: capital da Federação Russa; utilizado no texto em referência ao Estado russo.

———————————————————————————————–

Fontes das Imagens:

Imagem 1 Presidente da Federação Russa, Vladimir Putin [Atribuição: www.kremlin.ru e Licença Creative Commons Attribution]” (Fonte):

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/8/8d/Vladimir_Putin_%282020-02-20%29.jpg

Imagem 2 Ministro do Desenvolvimento Econômico e Comércio da Federação Russa, Maxim Reshetnikov [Atribuição: www.kremlin.ru e LicençaCreative Commons Attribution3.0]” (Fonte):

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/6/65/Maxim_Reshetnikov_%282017-02-06%29_2.jpg

Imagem 3 Ministro da Indústria e Comércio da Federação Russa, Denis Manturov[Atribuição: www.government.ru e Licença Creative Commons Attribution 4.0] (Fonte):

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/2/21/Denis_Manturov%2C_July_2012.jpeg

ANÁLISES DE CONJUNTURAEURÁSIA

O papel da Rússia na modificação da lei de espiões do Reino Unido

Em dezembro de 2019, o Comitê de Inteligência e Segurança (CIS) do Reino Unido lançou um relatório amplamente redigido sobre a influência do Kremlin na nação insular. O documento, conhecido como “Relatório Rússia”, tardou sete meses a ser apresentado, devido a particularidades internas do órgão redator. Considerado um potencial digressor da já frágil relação Reino Unido e Rússia, o compilado investigativo expôs que a intervenção russa existe, mas de maneira sutil.  

Um dos maiores marcos do relatório seria a evidência segura de interferência estrangeira no referendo do Brexit, em 2016, mas o Comitê considerou que o impacto de qualquer tentativa de espalhar influências naquela altura seria difícil de estimar, e concluiu que o Kremlin não incorreu na casuística. Contudo, o texto aponta para o intento de desintegrar e desestabilizar o Reino Unido em 2014, quando uma “fonte aberta de credibilidade” sugeriu que a Rússia buscou influenciar os movimentos de independência na Escócia.

De fato, o relatório aponta que, desde 2014, “a Rússia tem executado cyber-atividade maliciosa, para se estabelecer agressivamente em um número de esferas, incluindo a tentativa de influenciar eleições democráticas de outros países”.  Contudo, apenas após uma operação de hackear e vazar” e-mails do Partido Democrata americano, em 2016, que o Reino Unido percebeu o nível de ameaça ao qual estava exposto. O relatório ainda menciona um segundo hackear e vazar” na França, em 2017, para prejudicar o Partido Social-Liberal do qual o atual Presidente francês, Emmanuel Macron, é afiliado. 

Além das intervenções de caráter político, o documento do CIS denuncia uma suposta presença de agentes perniciosos a mando do Kremlin, os quais se utilizam do cyber-espaço para se infiltrar na chamada Infraestrutura Crítica Nacional (água, energia, telecomunicações, segurança etc.) do país e desestruturá-lo internamente. Do mesmo modo, há evidências de tentativa de coletar dados confidenciais sobre investigações criminais envolvendo agentes russos, tais como o atentado de Salisbury, em 2018, que tinha como alvo o ex-agente russo Sergei Skripal e sua filha. O envenenamento dos Skripal abalou as relações entre Rússia e Reino Unido, culminando na expulsão de diplomatas dos países. Sobre o episódio, Putin se pronunciou em 2019, dizendo que, quem quer que sucedesse Theresa May, deveria “virar essa página conectada com espiões e tentativas de assassinato”.  E ainda completou que melhores laços entre Londres e Moscou beneficiariam os interesses de cerca de 600 companhias britânicas atuantes em Londres

Putin dá entrevista para a TASS sobre agentes estrangeiros, 2020

As palavras de Putin condizem, de fato, com o que viria a ser exposto um ano depois, no Relatório Rússia, contudo, parecem uma digressão da realidade. De acordo com o jornal Express, o relatório aconselha as autoridades a “seguir o dinheiro”, expõe que Londres tem sido um verdadeiro refúgio para dinheiro “esquivo” dos russos, e alega que o próprio Reino Unido é responsável por isso.

O documento concluiu que vários governos britânicos têm “dado as boas-vindas aos oligarcas e seu dinheiro de braços abertos, providenciando os meios para reciclar financiamento ilícito através da ‘lavanderia’ de Londres, e conexão nos mais altos níveis com acesso às empresas do Reino Unido e figuras políticas”. 

Ademais, acredita-se que há cerca de 12 espiões russos sob o comando do Kremlin legalmente operando no país da Rainha. Os espiões estão bem infiltrados na sociedade britânica e podem transmitir informações militares, revelar informações sobre a infraestrutura crítica e servir como olhos do governo russo. E tudo isso sob a égide da legalidade, uma vez que não é considerado crime viver no Reino Unido como um agente disfarçado.   

O Comitê urgiu que ações sejam tomadas para subjugar a ameaça russa. A lei que ainda vigora a respeito da espionagem no Reino Unido (Official Secrets Act – Atos Oficiais Secretos) foi editada pela última vez há 31 anos e não é adequada para lidar com o advento da globalização, da tecnologia, big data e cyber-espionagem. Sob a legislação vigente, “uma pessoa que não é cidadã britânica ou servo da Coroa não comete ofensa se revela informação fora do Reino Unido”. Nesse sentido, observa-se que resta claro que tal premissa é ineficaz no combate à espionagem em tempos de mobilidade global e fronteiras flexíveis.

Após o lançamento oficial do relatório, o primeiro-ministro britânico Boris Johnson retomou o projeto de reforçar a legislação antiespionagem, cuja semente foi plantada por Theresa May em 2019 e seguiu com Johnson. Entre as medidas mais imediatas estão uma atualização das definições de ofensas passíveis de sanção e o registro compulsório de agentes estrangeiros à entrada do país. Philip Ingram, um ex-coronel da inteligência britânica, disse à revista Wired que a bases de dados da Inteligência possui uma lista atualizada de espiões estrangeiros, mas não há como rastreá-los todos se vêm ao país. Ingram acredita que uma “nova legislação tornaria mais fácil removê-los (do país) caso não se declarem à entrada”. 

Boris Johnson e Emmanuel Macron – [UK Prime Minister / OGL3

Além disso, o governo britânico quer modernizar os estatutos competentes, ampliar poderes de agência aos órgãos de aplicação legal e policiamento, modernizar delitos existentes e criar novos para abranger o alcance da espionagem moderna. Ainda em finais de julho, o Ministro dos Assuntos Domésticos, James Brokenshire, anunciou que o Reino Unido pretende estreitar as regras para os vistos de investimento no país.

Para Eliot Higgins, fundador da Bellingcat (uma plataforma de investigação de mídias sociais), as medidas contraespionagem devem ser extremas e aliar-se à tecnologia, por exemplo, com o amplo uso de passaportes biométricos, pois isso faria com que a Inteligência russa tivesse que recriar suas identidades falsas; ou com o bloqueio do uso do sistema bancário. Higgins acredita que a Rússia está numa “zona de conforto”, e sabe até que ponto agir para não ser enquadrada pela lei britânica. Contudo, o conteúdo do Relatório Rússia e a seriedade de Boris Johnson indicam que a subversão causada por agentes que viam na impunidade sua maior aliada pode estar com os dias contados. 

———————————————————————————————–

Fontes das Imagens:

Imagem 1 Hackers russos” (Fonte):

https://www.rferl.org/a/british-police-discourage-speculation-russian-ex-spy-sudden-a-critical-illness-sprikal-gru-spy-swap-2010-update/29081982.html

Imagem 2 Putin dá entrevista para a TASS sobre agentes estrangeiros, 2020” (Fonte):

http://en.kremlin.ru/events/president/news/62924/photos/63329

Imagem 3 Boris Johnson e Emmanuel Macron – [UK Prime Minister / OGL3: http://www.nationalarchives.gov.uk/doc/open-government-licence/version/3]” (Fonte):

https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Johnson_met_with_Macron_for_Brexit_issue.jpg

ANÁLISES DE CONJUNTURAEURÁSIA

O silêncio dos monumentos tombados na Rússia

A morte de George Floyd enquanto em custódia de um oficial de polícia nos Estados Unidos incendiou o palco internacional com protestos contra o racismo e a brutalidade policial. Em várias nações democráticas ocidentais, ativistas solidários ao movimento “Vidas Negras Importam” (#BlackLivesMatter) vandalizaram e levaram ao chão estátuas que remetiam a um passado colonial e escravagista, como monumentos dedicados a Cristóvão Colombo e ao Presidente americano confederado, Jefferson Davis. A história da Rússia, contudo, mostra-se imune ao derrubamento de monumentos simbólicos.

Em artigo para o The New York Times, o jornalista Andrew Higgins expõe os perigos de vilipendiar monumentos em sociedades que divergem quanto à visão de seus heróis e vilões. Higgins relembra um episódio em agosto de 1991, na cidade de Lubyanka, quando jovens moscovitas, eufóricos pelo fim do comunismo, celebraram sua vitória derrubando a estátua do fundador do Serviço Secreto Russo (antiga KGB, atual FSB), Felix Dzerzhinsky, enquanto entoavam “Abaixo a KGB”, como forma de transmitir a mensagem de que os tempos estavam mudando. Cerca de 30 anos depois do ato, Vladimir Putin, ex-agente da KGB, governa a Rússia e um busto de Dzerzhinsky está erigido na parte externa do quartel-general da polícia de Moscou.   

A eficácia de vandalizar ou derrubar estátuas é contestada por intelectuais e liberais russos. Nina Khrushcheva, especialista em Rússia na Nova Escola de Nova Iorque e neta de um líder soviético, acredita que: “Apagar não funciona (…). Uma vez que você destrói o herói de alguém, apenas incita ódio e força sentimentos ao subsolo”. Manifestantes da investida de 1991 contra a estátua de Dzerzhinsky admitem que a atitude, embora cheia de significado e altivez, não provocou o efeito esperado. Maria Lipman, jornalista na época da queda do comunismo na Rússia, diz que “Declarar guerra contra homens de bronze não torna sua vida mais moral ou justa. Não faz nada, na verdade”. Corroborando essa opinião, Mikhail Y. Schneider, ativista pró-democracia e líder dos manifestantes na investida contra a KGB em 1991, justifica que derrubar a estátua apelou para o lado emocional e fez as pessoas acreditarem que estavam vivendo em um país diferente, mas “não mudou nada” de fato.

Águia de duas cabeças no Kremlin

Salienta-se que muitos símbolos foram abatidos no passado em nome de uma nova ordem mais civilizada e progressista, como, por exemplo, um monumento dedicado ao czar Alexander III (pai de Nicolau II), que teve a cabeça decepada pelos bolcheviques em 1917.  Ou então a águia de duas cabeças, que foi removida do Kremlin na mesma época e deu lugar às estrelas vermelhas atuais.

Na Federação Russa contemporânea, estátuas de simbolismo controverso não são destruídas e sim realocadas a sítios de valor histórico, cujo mecenas principal é o próprio governo. O Parque de Artes Muzeon é um museu ao ar livre, administrado pelo Estado Russo, que exibe figuras de heróis caídos da nação, tal como estátuas de Stalin, do líder bolchevique Yakov Sverdlov, e do próprio fundador da KGB, bem como homenageia suas vítimas. A descrição oficial do website chama o museu de “lugar para salvaguardar artefatos históricos”.

Parque de Artes Muzeon – I, Sailko / CC BY-AS

Aparentemente inafetada pela tendência ocidental, e com experiências falhas no tombamento de monumentos, a Rússia concentra-se em levantar novos tributos ao invés de lutar contra antigos ou tentar restaurá-los. Em 2017, uma estátua do Tenente Coronel Mikhail T. Kalashnikov, designer do rifle AK-47, foi erguida numa das vias mais movimentadas de Moscou; mosaicos da nova catedral das Forças Armadas mostram a figura de Joseph Stalin entre santos e heróis de guerra russos. Além disso, a tumba de Lênin e monumentos afins ainda possuem lugar de destaque por várias cidades da Rússia, enquanto gestos simbólicos enaltecendo a oposição do governo atual (como colocar flores no local do assassinato de Boris Nemtsov) são repreendidos.

Na opinião da pesquisadora do Centro de Direitos Humanos Memorial, Alexandra Polivanova, os eventos de 1991 foram incompletos. Polivanova e Higgins concordam que a Rússia nunca engajou num diálogo ativo sobre os crimes cometidos em seu passado e faltou denúncia a nível governamental e social, de maneira que a “descomunização nunca aconteceu”.

A russialização iniciada no pós-guerra parece ainda estar presente nas práticas do Kremlin, e embora agosto de 1991 tenha sido um marco na queda formal da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, o fato de existirem bilionários russos dispostos a comprar estátuas que ferem sensibilidades de determinados povos é apenas mais uma prova de que derrubar monumentos não é uma vocalização eficaz das demandas (dentro ou fora da Rússia). A integridade histórica acaba por permanecer e nada garante que, dentro de alguns anos, o eco das vozes que hoje clamam pela remoção de estátuas apologéticas não será o silêncio.     

———————————————————————————————–

Fontes das Imagens:

Imagem 1Cabeça de Alexandre III” (Fonte):

https://www.rferl.org/a/toppled-and-destroyed-statues-and-monuments-from-history/30667614.html

Imagem 2Águia de duas cabeças no Kremlin” (Fonte):

https://www.rferl.org/a/toppled-and-destroyed-statues-and-monuments-from-history/30667614.html

Imagem 3Parque de Artes MuzeonI, Sailko / CC BY-AS” (Fonte):

https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Muzeon_Park_02.JPG

ANÁLISES DE CONJUNTURAEURÁSIA

20 anos de Vladimir Putin à frente da Rússia

O Presidente russo, Vladimir Putin. Ex-agente da inteligência soviética KGB, nascido em 1952, em Leningrado (agora, São Petersburgo), Vladimir Putin iniciou sua carreira à sombra de Boris Ieltsin, tornando-se Primeiro-Ministro da Rússia em 6 de agosto de 1999, com meros 1% de aprovação eleitoral. No mesmo ano, a renúncia de Ieltsin escalou Putin a Presidente Interino e, em 2000, foi oficialmente eleito Presidente da Federação Russa. Desde então, nunca deixou a linha de frente da política do país, tornando-se, “sem dúvida, o líder mundial de maior importância desde Winston Churchill”, na opinião do colunista Oliver Carroll, do “The Independent”.    

Ranking do PIB” (Fonte – FMI via Bloomberg)

Pouco após assumir o poder, o sucessor de Ieltsin iniciou uma jornada que levaria a Rússia ao crescimento de 7% ao ano, nos sucessivos oito anos, através de investimentos no campo energético e de petróleo e da expansão da influência russa em territórios nos quais jazia esquecida, por exemplo: estreitando laços com a China; apoiando regimes de poder locais na Síria e Líbia; suprindo aparatos de defesa aérea para a Turquia; cerrando tratados sobre fornecimento de petróleo com a Arábia Saudita; aproximando-se da Alemanha, através do suprimento de energia e construção de gasodutos. Em 2012, o país chegou perto de alcançar o patamar de desenvolvimento de Portugal, e, no mesmo ano, atingiu o pico do Produto Interno Bruto (PIB) per capita, alcançando oitava posição no ranking mundial.

Embora seu governo seja marcado por alterações no escopo das próprias políticas, Vladimir Putin é reconhecido, mesmo por críticos, por ter alcançado três objetivos: construir um forte Estado Russo, consolidar a Rússia como um poder global e manter-se intermitentemente no poder. No ano 2000, seu índice de aprovação era de 64%, saltando para 80% em 2008, após os 5 dias de conflito na Georgia. Contudo, durante seu termo como Primeiro-Ministro, sob à Presidência de Dmitri Medvedev (2008-2012), sua popularidade caiu novamente para 66% e manteve-se em baixa até o impasse com a Crimeia, em 2014, quando o ex-agente viu o ápice de sua renovada Presidência (eleito novamente em 2012), com quase 90% de aprovação.

Pagamento da dívida russa

Uma das principais características de Putin no poder é sua capacidade de gerenciar o orçamento estatal. Com apenas 8% da equivalência da economia americana, a “prudência fiscal de Putin… tornou as folhas de balanço do governo algumas das mais saudáveis do mundo, ganhando reconhecimento de agências monetárias e mesmo do Fundo Monetário Internacional (FMI)”, aponta a Bloomberg. De acordo com dados do FMI, a maior parte da dívida russa foi paga pelo governo de Putin. De fato, esse cuidado é refletido no novo gabinete do Presidente russo, que apontou o Chefe do Serviço de Impostos do governo, Mikhail Mishustin, para substituir o ex-primeiro-ministro Dmitry Medvedev, que pediu demissão, após as mudanças constitucionais anunciadas por Putin, em janeiro deste ano (2020).

Ora, a liderança de Putin não foi sempre linear. Gleb Pavlovsky, consultor político do Kremlin durante os primeiros 12 anos de liderança do atual mandatário presidencial da Rússia, afirma que “As pessoas pensam que se você tem um Presidente, você tem apenas uma política. Não é assim de todo. O primeiro termo de Putin não tem nada em comum com o corrente termo”. De fato, um dos primeiros passos de Vladimir Putin ao assumir a Presidência em 2000 foi em consonância com um novo realismo, projetando os interesses econômicos da Rússia, ao mesmo tempo em que reconhecia que sua imagem internacional não era positivamente elaborada, e introduzia uma política externa mais coerente, que conciliasse as visões dos Ocidentalistas (os quais defendem que a Rússia deve abrir-se para a cultura ocidental), Orientalistas (propugnam que a Rússia deve buscar mais diálogo com o oriente) e Nacionalistas.

Putin na Praça Vermelha, em Moscou, 2005

Naquele momento, essa nova vertente de fazer política fez o recém eleito Presidente cair nas graças do então presidente americano Bill Clinton, de modo que, ao se questionar o líder americano sobre a possibilidade de a Rússia juntar-se à OTAN algum dia, obteve-se a seguinte resposta: “Eu não me oponho”. Na época, acreditava-se que Putin seguiria os passos de Ieltsin e procederia com a “Ocidentalização” do país. Após oferecer suporte aos Estados Unidos em virtude do 11 de Setembro, por um breve período de tempo a relação entre EUA e Rússia estreitaram, mas as coisas tomaram um rumo diferente com a Invasão do Iraque e a revolução da Georgia (em 2003) e da Ucrânia (em 2004), que deu início a um “jogo de culpas” que segue até os dias atuais, com Estados Unidos e Rússia constantemente apontando como as políticas de cada um interfere nos assuntos domésticos do outro.

Mais recentemente, Angela Merkel (Alemanha) e Emmanuel Macron (França), embora coniventes com as sanções impostas pela União Europeia em face ao impasse da Crimeia de 2014, o qual também ocasionou a suspensão da Rússia do G8, buscam não comprometer os regalos oferecidos pelo maior país do mundo (sobretudo no campo energético e da agricultura), e o Presidente francês urge que a OTAN pare de ver a Rússia como inimiga, clamando que esta “pertence à Europa”.

Embora a Federação Russa ainda não tenha alcançado Portugal (como Putin inicialmente almejava), o padrão de vida dos russos melhorou e a expectativa de vida aumentou de 64,9 anos, em 1999, para 72,8 anos, em 2018, e a inflação caiu na faixa de aproximadamente 40% para 4%, desde a assunção de Putin ao poder. São feitos prodigiosos, considerando que a economia global sofreu vertigens e a imagem da Rússia no mundo não foi estática. Mesmo com a corrente pandemia global do Covid-19, Vladimir Putin mantém-se uma figura pragmática e imponente, lidando com os impactos de maneira resiliente e garantindo que um possível futuro termo seja melhor que o anterior, nos conformes do legado que tem deixado durante seus 20 anos à frente da Federação Russa.    

———————————————————————————————–

Fontes das Imagens:

Imagem 1 Vladimir Putin assume o terceiro mandato, 7 de maio de 2012” (Fonte): https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Vladimir_Putin_inauguration_7_May_2012-10.jpeg

Imagem 2 Ranking do PIB” (Fonte FMI via Bloomberg): https://www.bloomberg.com/news/features/2019-12-28/putin-s-russia-is-20-years-old-and-stronger-than-ever-or-is-it

Imagem 3 Pagamento da dívida russa” (Fonte FMI via Bloomberg): https://www.bloomberg.com/news/features/2019-12-28/putin-s-russia-is-20-years-old-and-stronger-than-ever-or-is-it

Imagem 4 Putin na Praça Vermelha, em Moscou, 2005” (Fonte): https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Victory_Day_Parade_2005-5.jpg