ANÁLISES DE CONJUNTURAEURÁSIA

A estratégia econômica da Rússia para o Ártico

Considerado um dos lugares mais inóspitos e inacessíveis do planeta, o extremo norte da Federação Russa é banhado pelo Oceano Glacial Ártico, que cobre cerca de 60% dos mais de 37,6 mil quilômetros de litoral dessa nação, e, possuindo em sua plataforma marítima uma das maiores reservas de hidrocarbonetos do mundo, este oceano está transformando o país na potência dominante da região, segundo estudos do Instituto Sueco para os Assuntos Internacionais.

Região do Ártico

Nos últimos anos, a Rússia vem consolidando uma série de pesquisas e investimentos na área de prospecção de recursos naturais em ambientes extremos, que vão desde o lançamento de robôs para exploração submarina em grandes profundidades, até a criação de novos tipos de materiais resistentes ao frio extremo do Ártico, os quais serão utilizados nas plataformas de petróleo. Todo esse recurso empregado, que atingirá somas bilionárias, tem o objetivo de explorar depósitos em áreas litorâneas, com capacidades estimadas em 28 bilhões de barris de petróleo, 31 bilhões de barris de gás natural liquefeito, além dos incríveis 356 bilhões de metros cúbicos de gás, segundo estudos do United States Geological Survey (USGS).

A pesquisa também demonstra que a capacidade estimada total, ainda inexplorada para o Ártico, irá atingir mais de 90 bilhões de barris de petróleo, abrangendo não só os já citados depósitos da Federação Russa, mas, também, áreas do Estado norte-americano do Alasca, áreas do Canadá, Groelândia, Noruega, além de pontos ultramarinos não pertencentes à nação alguma, representando cerca de 20% do total da capacidade mundial.

Putin no Ártico

De olho nesse vácuo geopolítico das regiões inexploradas, a Federação Russa já vem reivindicando desde  2001 uma ampliação de suas fronteiras marítimas em 1,2 milhão de quilômetros quadrados para melhor exploração dos recursos naturais, pois, atualmente, de acordo com a Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar (norma da ONU de 1982), um país pode explorar economicamente os recursos naturais e os combustíveis fósseis que estiverem até 370 quilômetros de sua costa, sendo que, se essa nação apresentar evidências geológicas de que sua plataforma continental* se estenda além desta distância, poderá reivindicar o direito de ampliação do território a ser explorado. Em 2015, a ratificação do pedido de estender sua fronteira marítima foi suportada por testes sísmicos, exames de solo e outros dados científicos apresentados à Comissão da ONU de Limites da Plataforma Continental (CLCS – Commission on the Limits of the Continental Shelf), considerando que a cordilheira Lomonosov e o cume Mendeleiev são continuação da plataforma continental da Sibéria, que se encontra dentro do território russo.

Outro ponto importante na exploração econômica da região seria a ampliação de rotas marítimas comerciais no Mar do Norte, que se configura como uma alternativa à tradicional travessia pelo Canal de Suez, no Egito. Com o aquecimento global, as calotas de gelo que cobrem o extenso litoral ártico da Rússia tiveram sua espessura consideravelmente reduzida, permitindo um tráfego de navios de uma maneira muito mais fluída. Tomemos, como exemplo, uma viagem comercial, via Canal de Suez, entre Roterdã, na Holanda, até Ulsan, na Coreia do Sul, com aproximadamente 20 mil quilômetros de distância e um tempo de travessia em torno dos 70 dias. A mesma viagem, pela rota do Ártico, percorreria uma distância de 14,8 mil quilômetros (26% menor) e levaria em torno de 60 dias para chegar ao destino. Isto posto, além da economia de combustível, entre outros insumos, também poderia evitar o número de casos de pirataria, tão comuns na região entre a Indonésia, Malásia e costa da Somália. Em termos comerciais, levaria à uma redução considerável dos fretes e muito provavelmente a um aumento no número dessas trocas comerciais.

Rota marítima do Ártico

Com o intuito de reforçar sua soberania na região e colocar regras de navegação comercial ao longo da Rota Marítima do Norte, o presidente russo Vladimir Putin assinou uma nova lei que irá mudar o transporte de petróleo no Ártico, onde somente navios russos terão direito exclusivo de utilização do percurso. Esta norma entrará em vigor em 31 de dezembro de 2018. A partir desta data, a rota será fechada para os navios com bandeiras estrangeiras. No entanto, isso não significa que a Rússia esteja fechando completamente a entrada para empresas de outros países. Uma empresa estrangeira, se for registrada sob a bandeira russa, poderá passar ao longo da rota como em qualquer outra parte do Ártico.

Para garantir a efetividade das operações sob condições tão extremas de frio, tanto para a exploração dos recursos naturais, como para a utilização da nova rota marítima, os russos estão construindo a maior e mais forte frota de quebra-gelos do mundo. Em maio de 2015, eles tinham pelo menos 14 quebra-gelos em construção e mais outros em planejamento. Um dos projetos, o LK-60, com 173 metros de comprimento, um navio quebra-gelo movido a energia nuclear, será o maior navio do gênero no mundo, e será capaz de romper camadas de gelo com três metros de espessura. A Rússia está planejando a construção de, pelo menos, dois destes navios, com datas operacionais esperadas para o final de 2019 e final de 2020, respectivamente. Outro projeto em andamento é o LK-25, que será o maior navio quebra-gelo movido a diesel do mundo, capaz de atravessar calotas de gelo com dois metros de espessura. No geral, a Federação Russa tem mais de 40 quebra-gelos, significativamente mais do que qualquer outro país. Os Estados Unidos, por comparação, têm apenas um quebra-gelo pesado operacional em serviço.

Todo o processo de desenvolvimento econômico da região do Ártico será acompanhado também pelo reforço e modernização da infraestrutura militar russa no local, pois, apesar de ser o detentor da maioria do espaço geográfico e dos recursos de infraestrutura, a Rússia não estará sozinha nesta empreitada, tendo como “competidores” países da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte), que cada vez mais estão interessados na exploração não só das riquezas da região, como também na localização estratégica que o Ártico apresenta.

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Notas:

* Em oceanografia, geomorfologia e geologia, chama-se plataforma continental à porção dos fundos marinhos que começa na linha de costa e desce com um declive suave até o fundo marinho mais pronunciado.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Plataforma de petróleo russa no Ártico” (Fonte):

http://only-paper.ru/_fr/202/1218585.jpg

Imagem 2 Região do Ártico” (Fonte):

https://pbs.twimg.com/media/DNtjRhcUMAAtBx4.png:large

Imagem 3 Putin no Ártico” (Fonte):

https://sputniknews.com/russia/201703301052132811-putin-franz-joseph-land/

Imagem 4 Rota marítima do Ártico” (Fonte):

https://guerraearmas.wordpress.com/tag/polo-norte/

ANÁLISES DE CONJUNTURAEURÁSIA

Mar ou lago? A indefinição sobre o status do Cáspio pode estar perto do fim

O ano de 2017 terminou com a esperança de que uma solução definitiva para o status legal do Mar Cáspio esteja perto de ser alcançada. Isto poria fim a um impasse jurídico que já perdura por quase 30 anos, desde o desaparecimento da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), em 1991. No início de dezembro, o Chanceler russo, Sergey Lavrov, declarou que as divergências entre os cinco Estados litorâneos (Azerbaijão, Cazaquistão, Turcomenistão, Irã e Rússia) haviam sido sanadas e que estariam prontos para assinar um acordo de delimitação das respectivas áreas de exploração econômica. Recebida com entusiasmo, a afirmação foi feita após a reunião dos Ministros das Relações Exteriores da região, realizada em Moscou entre os dias 4 e 5 de dezembro, e sinalizou a possibilidade de que as vastas reservas de hidrocarbonetos assentadas na Bacia do Cáspio poderiam enfim serem exploradas por completo.

Centro de Baku em 1915

O potencial comercial dos recursos minerais do Cáspio já é conhecido desde a segunda metade do século XIX, período em que as reservas de petróleo nas cercanias de Baku, hoje capital do Azerbaijão, passaram a atrair investidores e trabalhadores de diversas partes do mundo. A cidade, antes vilarejo às margens do Império Russo, se transformou em um ambiente verdadeiramente multicultural e principal locomotiva do desenvolvimento regional.  Após a Segunda Guerra Mundial, entretanto, o descobrimento de novos campos petrolíferos nos Urais e na Sibéria e a crescente defasagem tecnológica soviética em relação ao Ocidente relegaram o Cáspio a um papel de menor relevância na cadeia de produção energética global.

Nos primeiros anos após a desintegração da URSS, o entendimento da relevância estratégica do Cáspio ainda não havia sido formado nos meios ocidentais e seu entorno ainda era tratado como área de influência exclusiva da Rússia. Havia uma aceitação tácita por parte do Governo estadunidense, e do Ocidente como um todo, de que o destino das novas repúblicas do Cáucaso e da Ásia Central estaria atrelado a Moscou. Esta perspectiva só começou a se alterar a partir da segunda metade da década de 1990, quando foram redescobertas as oportunidades que se abriam para a exploração dos recursos energéticos da região.

Campos de petróleo offshore no Azerbaijão

De forma pioneira, ainda em 1994, o Governo do recém-independente Azerbaijão assinou o que ficou conhecido como o “contrato do século”, que consistiu em um acordo de exploração de petróleo por um consórcio formado por empresas de diversas nacionalidades, o que gerou um investimento de cerca de 13 bilhões de dólares no desenvolvimento do setor energético do país caucasiano. O impasse quanto ao status do Cáspio, no entanto, fez com que outras áreas potencialmente produtivas deixassem de ser contempladas, além de impedir que aportes financeiros semelhantes fossem estendidos a outros Estados costeiros com reservas já conhecidas.

Toda a disputa passa pela necessidade de definição sobre se o Cáspio é de fato um mar ou um lago, uma vez que é um corpo d’água sem acessos naturais aos oceanos. Caso considerado um mar, o direito internacional marítimo já existente seria aplicável, o que atrelaria a zona de exploração costeira de cada Estado à extensão de sua respectiva faixa litorânea. Mas sendo um lago, seria necessário um acordo entre todos os países que o circundam para que as normas de navegação e exploração dos recursos sejam enfim pactuadas.

Possuindo apenas o equivalente a 13% da faixa litorânea, a menor dentre os cinco Estados costeiros, o Irã sempre foi o principal defensor de que o Cáspio seja um lago e de que seus recursos passassem a ser partilhados igualitariamente. Essa questão se tornou sensível ao ponto de, em 2001, a Marinha iraniana ter sido acionada para evitar que a companhia inglesa British Petroleum terminasse sua missão exploratória no campo de Araz-Sharg-Alov, próximo à costa azerbaijana, mas reivindicado pelos dois países. Após esse episódio, nenhuma outra tentativa concreta de desenvolvimento da área foi realizada, embora Teerã tenha considerado explorá-la por conta própria, chegando a manter conversas com a petrolífera brasileira Petrobrás para que fosse elaborado um projeto de viabilidade no local.

Porto iraniano de Bandar-e Anzali

Nesse sentido, não foi surpreendente que, após dez dias da declaração de Lavrov, o Irã tenha feito jus ao seu posicionamento histórico e desmentido que um acordo final para a questão do Cáspio fora atingido. Em 15 de dezembro, o porta-voz do Ministério de Relações Exteriores iraniano, Bahram Qassemi, negou que a aplicação das leis marítimas convencionais esteja na agenda de seu país e afirmou à imprensa que “dado os profundos desentendimentos entre os Estados membros sobre a questão da demarcação, parece que não haverá acordo no futuro próximo”.

Contudo, a possibilidade da resolução da disputa já fez avançarem as discussões entre o Turcomenistão e o Azerbaijão para a exploração conjunta de suas reservas, o que facilitaria a exportação do petróleo e gás turcomenos para os mercados ocidentais. A potencial garantia de definição de um estatuto legal que forneça segurança e estabilidade jurídica ao Cáspio também agrada à China. O país asiático possui grande interesse geoestratégico na região e a considera como seguimento importante de sua ambiciosa iniciativa de integração comercial One Belt One Road*.

A assinatura definitiva do acordo está prevista para a primeira metade de 2018, quando o Cazaquistão abrigará a 5ª Conferência do Cáspio, mas ainda sem data estipulada. Com os outros cinco países costeiros aparentemente já decididos, cabe agora ao Irã definir seu posicionamento. É possível que a estreita cooperação com a Rússia, principal aliada estratégica de Teerã nos últimos anos, facilite a obtenção de uma solução mutuamente vantajosa. Contudo, ainda sofrendo com pressões econômicas e isolamento político, espera-se que o Irã opte pelo pragmatismo e arrefeça suas pretensões de modo a não ser posto à margem de futuros projetos de exploração do Cáspio.

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Nota:

* Refere-se à estratégia de desenvolvimento proposta por Xi Jinping, Presidente da China, com o objetivo de conectar e estimular a cooperação entre os países euroasiáticos, principalmente com China, que poderá assumir papel de maior relevância em assuntos econômicos globais, já que estará coordenando uma vasta rede comercial. Também foi denominada no início como One Belt and One Road e, por volta de 2016, mudou o nome para Iniciativa Belt and Road, para evitar os erros de interpretação da expressão, causadas também por possível má tradução do termo. (Mais esclarecimentos sobre o assunto, consultar os demais artigos de Rodrigo Monteiro, publicados no CEIRI NEWSPAPER)

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Mar Cáspio visto da órbita terrestre” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Caspian_Sea#/media/File:Caspian_Sea_from_orbit.jpg

Imagem 2 Centro de Baku em 1915” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/History_of_Baku#/media/File:Bo6_1915a.jpg

Imagem 3 Campos de petróleo offshore no Azerbaijão” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Petroleum_industry_in_Azerbaijan#/media/File:Oil_Rocks_near_Baku.jpg

Imagem 4 Porto iraniano de Bandare Anzali” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Bandar-e_Anzali#/media/File:Bandar-Anzali,_Iran,_taken_by_Arashk_Rajabpour.JPG

ANÁLISE - Sociedade InternacionalANÁLISES DE CONJUNTURAÁSIAEURÁSIA

A questão atual da Coreia do Norte - além do receio da arma nuclear

O ano de 2017 iniciou trazendo dúvidas sobre o futuro das relações internacionais, após as eleições presidenciais realizadas pelo globo. Nesse sentido, há convergência entre os analistas e observadores internacionais de que a maior notícia em todo o planeta foi a Eleição nos Estados Unidos, com a vitória de Donald Trump. Enquanto o mundo desvia suas atenções para Trump, refletindo sobre os casos que o envolvem com os russos, sobre os temas polêmicos a respeito da imigração, entre outros, Kim Jong-un – Presidente da Coreia do Norte – também se tornou notícia permanente, mas sem destaque nas manchetes, exceto quando se tratou da questão da Segurança Internacional.

A Coreia do Norte sempre foi um tema com maior repercussão na Ásia e nos Estados Unidos devido à posição geográfica estratégica do país e pelo envolvimento direto estadunidense em apoio aos inimigos declarados de Pyongyang*. Mas, até no continente asiático, o líder supremo norte-coreano veio sendo ofuscado pela incerteza do futuro das relações nipônicas, das relações sul-coreanas e das relações de outras nações da região com Washington, sendo mais ofuscado ainda pela repercussão que vem tendo o Impeachment da presidente sul-coreana Park Geun-hye.

Durante o tempo em que estadunidenses, russos e sul-coreanos eram as pautas mais importantes, Kim Jong-un foi notícia especialmente em relatórios de Direitos Humanos na Organização das Nações Unidas e, na própria Coreia do Norte, sobre os temas relevantes ao seu Governo, ressaltando-se que a agência de notícias oficial do país, a KCNA, tem a agenda presidencial como principal base de suas pautas. Como ilustração, a Agência relata o líder supremo visitando internatos, obras de infraestrutura, fábricas de processamento de soja e temas ligados a relações externas, como, por exemplo, quando Kim Jong-un felicitou formalmente Mohamed Abdullahi como Presidente da República Federal da Somália.

O país tem suas riquezas e, curiosamente, a falta de modernidade em seu território o leva a preservar uma grande parcela da tradicional cultura coreana, desde a arquitetura até outros traços culturais típicos de seus costumes que, hoje, perdem espaço na região sul da península, devido a modernização dos centros urbanos. Existem centros literários na Coreia do Norte e fora dela mantendo artigos escritos antes de os residentes da península criarem o atual alfabeto de língua coreana, e preservando materiais que ainda usavam caracteres chineses como escrita principal. Além disso, estão sendo criados centros de estudos fora do país, como na Rússia, e outros espaços para a preservação e divulgação de sua cultura pelo mundo.

Como os especialistas ressaltam, certamente, se as fronteiras do país fossem abertas e um estudo detalhado fosse realizado de forma livre, a ONU iria tombar muitas áreas como patrimônio cultural e histórico da humanidade na região norte da península e, assim, a violação dos Direitos Humanos não seria a única preocupação na Coreia do Norte. O país tem um grande potencial humano em arte e esportes e tem feito um significativo investimento em modalidades desportivas, realizando eventos constantes de diferentes esportes e sempre mantendo participações positivas em eventos internacionais pela Ásia e até em grandes acontecimentos globais, como na Olimpíada, a exemplo da Rio 2016, quando os norte-coreanos ficaram na 34ª posição, à frente de muitos países mais desenvolvidos.

Vale ressaltar que a Coreia do Norte, considerada o Estado mais isolado do mundo, tem suas potencialidades em atividades artísticas, esportivas e para o turismo, mas o grande questionamento da sociedade internacional é sobre o motivo de ela investir recursos que o mundo não tem certeza de suas origens para suas Forças Armadas e ter realizado pouco aporte para a base de sua sobrevivência alimentar, cultural e infraestrutura, carecendo, por isso, da participação das instalações industriais de origem sul-coreana para manter uma margem maior de pessoas empregadas no país. Em muitos momentos, a impressão gerada é de que os seus governantes priorizam ser manchete dos noticiários internacionais através de fatos considerados negativos pelos meios de comunicação, mas estes podem refletir de diretamente na reputação do povo coreano.
Conforme foi divulgado, a União Europeia listou a Coreia do Norte como um dos destinos mundiais para lavagem de dinheiro e, nesta semana, o país realizou mais um teste de míssil balístico, algo que lhe colocou como principal assunto em alguns lugares. O teste do Pukguksong-2 teve sucesso, sendo aclamado como grande vitória e avanço em Pyongyang*, mas desagradou a comunidade internacional.

Todas as parte devem exercitar a contenção e manter conjuntamente a paz e a segurança na região”, afirmou o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Geng Shuang. Chineses e russos mostraram-se preocupados, porém eles foram alvos de cobranças e crítica por parte do Japão, que pede aos principais aliados de Kim Jong-un atitudes consideradas pelos japoneses como mais produtivas.

Enquanto Kim visitava algumas regiões do seu país, seus engenheiros mantinham seus programas de mísseis a todo vapor, tanto que, poucos dias antes do atual ensaio, alguns mísseis de alcance intermediário (IRBM) haviam sido testados, mas sem a grande repercussão que teve o Pukguksong-2. O foco nas eleições americanas e os noticiários sobre escândalos em Seul** deixou a face norte da península mais tranquila para os preparativos de seus testes, uma vez que ficou longe da pressão costumeira, que é sempre aumentada com mais sanções, as quais o país vem constantemente sofrendo ao longo dos anos, mas nada, até hoje, impediu suas ações.
Segundo um grupo expressivo de analistas, falar da Coreia do Norte é falar de risco nuclear, mas também é falar de um país asiático com potenciais não explorados. Por isso, evitar focar apenas em temas de segurança traz a possibilidade de que o país não seja um caso perdido para a comunidade internacional, pois, por mais que os norte-coreanos tenham de receber ajuda humanitária para manterem sua sociedade e em poucos momentos sejam abertas portas para confraternização entre os coreanos do Sul e do Norte, há espaço para a aproximação e convergência, logo inserção na comunidade internacional. No entanto, ressaltam os observadores internacionais, tais esforços positivos regridem a cada teste bélico executado.

O ano de 2017 está começando com novos líderes mundiais no comando de importantes nações com poderio econômico e militar. Conforme vem sendo destacado, muitos deles estão adotando diálogos firmes e duros quando o assunto é o Estado norte-coreano, bem como sobre qual será o futuro na península coreana, além de refletirem sobre um possível reinício da Guerra da Coreia, ou sobre o fim da cúpula política que exerce o poder na região norte-coreana. Tais questões e reflexões poderão nortear o comportamento desses líderes, bem como as relações desses Estados com a Coreia do Norte.

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* Capital da Coreia do Norte, sede do Governo

** Capital da Coreia do Sul, sede do Governo

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Imagem 1 Kim Jongun em escola primária em Pyongyang” (Fonte Divulgação KCNA***):

http://www.kcna.kp/kcna.user.special.getArticlePage.kcmsf

Imagem 2 Sala usada pelo Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas no Palácio das Nações, em Genebra, Suíça” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Conselho_de_Direitos_Humanos_das_Nações_Unidas#/media/File:UN_Geneva_Human_Rights_and_Alliance_of_Civilizations_Room.jpg

Imagem 3 Kim Jongun visitando obras de estrutura urbana na capital norte coreana” (Fonte Divulgação KCNA***):

http://www.kcna.kp/kcna.user.special.getArticlePage.kcmsf

Imagem 4 Kim Jongum com soldados” (Fonte Divulgação KCNA***):

http://www.kcna.kp/kcna.user.special.getArticlePage.kcmsf

 Imagem 5 Míssil de médio alcance nortecoreano” (Fonte Divulgação Yonhap News):

http://spanish.yonhapnews.co.kr/northkorea/2017/02/13/0500000000ASP20170213000200883.HTML

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*** Todas as imagens da Agência de Notícias Norte-Coreana (KCNA, sigla em inglês) são de livre divulgação

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ANÁLISES DE CONJUNTURAÁSIAEURÁSIA

[:pt]As regiões da Eurásia e do Oceano Pacífico como Zona de Influência da China[:]

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As declarações do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump em relação a uma postura protecionista dos Estados Unidos nos assuntos da política internacional tem suscitado o debate acerca do papel que a China terá na estruturação da ordem global. A postura do líder chinês Xi Jinping na Conferência Econômica Global de Davos, em janeiro (2017), demonstra o compromisso do seu país com o aprofundamento da globalização e de um ambiente global que estimule a conectividade entre as nações, a cooperação para ganhos mútuos (win-win) e a continuidade dos altos fluxos de comércio e investimentos. Neste sentido, a retirada dos Estados Unidos em relação às negociações sobre a Parceria Transpacífico (TPP)* se tornou a primeira grande vitória de Xi Jinping no âmbito da economia internacional neste ano (2017), sem que precisasse realizar qualquer ação direta. Paralelamente a isto, avança a iniciativa chinesa de estabelecer a Nova Rota da Seda, um plano de construção de obras de infraestrutura através do território da Eurásia, englobando mais de 60 países.

Tal postura trouxe a questão da expansão da zona de influência chinesa em duas regiões de grande importância estratégica: a massa continental da Eurásia e o leste asiático, que compreende a zona do Oceano Pacífico.

Em relação a Eurásia, afirma-se que a potência que seja capaz de exercer influência sobre este território, teria a maior capacidade de projeção de poder a nível global. O exercício de poder terrestre sobre esta região tem um potencial de produzir um repositório de recursos e bens que, se associado a um poder marítimo, acarretará possibilidades de alteração da balança de poder do sistema internacional, pois permitirá desenvolver meios para tentar controlar as regiões que tem em seus territórios áreas costeiras, produzindo um poder anfíbio, capaz de enfrentar o poder marítimo das potências insulares, nos primórdios a Grã-Bretanha e posteriormente os EUA.   A Eurásia se destaca pela abundância de recursos naturais e energéticos, além da importância logística e geoestratégica. De forma aproximada, é possível afirmar que o seu território se estende desde a Europa Oriental até os limites da Ásia Oriental; de norte a sul seus limites compreendem desde a linha do Círculo Ártico até os desertos e montanhas da Ásia Meridional. A Eurásia possui massas aquáticas de importância estratégica e comercial, tais como o Mar Báltico, o Mar Negro, o Mar Cáspio e o Golfo Pérsico.

O sudoeste da Eurásia, partindo dos limites entre o território Indiano e Chinês, se estendendo pela Ásia Central e Meridional e chegando até o Irã constitui parte importante dos corredores de articulação econômica que a China pretende avançar através do componente terrestre da Nova Rota da Seda. Denominam-se de Estados pivôs os territórios que são essenciais para que determinada potência consiga exercer sua influência em determinada zona estratégica. Estes possuem concomitantemente algum tipo de vulnerabilidade, normalmente militar ou mesmo econômica, que os tornam mais suscetíveis de serem atraídos pela força gravitacional emanada pela influência política de potências maiores.

Na Eurásia, alguns dos mais importantes Estados Pivôs são o Irã, o Paquistão e o Afeganistão. O Irã é um país rico em petróleo, controla metade das margens do Golfo Pérsico, tem acesso ao Mar Cáspio. A cooperação econômica e militar com o Paquistão pode servir como forma de balanceamento em relação à Índia, tentando impedir a preponderância geoestratégica deste país na Ásia Meridional. Além disso, o Paquistão é um país de grande população e que notadamente possui armamento nuclear. O Afeganistão é um país extremamente instável seja no aspecto político, seja no aspecto econômico e sua importância para a ação chinesa na região reside no fato de que a influência sobre o Afeganistão pode facilitar o acesso tanto ao Irã, quanto ao Paquistão. Além disto, sob a perspectiva chinesa, o Afeganistão e o Paquistão são aliados que possibilitam o acesso da China aos recursos naturais da Ásia Central.

No Oceano Pacífico, a situação é um pouco mais complexa, visto que os Estados Unidos possuem uma rede de alianças históricas que incluem o Japão, a Coréia do Sul, o Vietnã, as Filipinas e a Austrália, além de uma constelação de bases militares. Mais importante que isto, a permanência da independência de Taiwan como aliado dos Estados Unidos é um problema estratégico para os interesses vitais do Estado chinês. O Mar do Sul da China é uma zona de vulnerabilidade na qual o país tentará exercer maior controle, devido a grande importância representada para o escoamento de produtos e acesso a recursos naturais. Disputas por territórios ricos em petróleo e gás natural na região se limitaram até o presente momento à esfera judicial, envolvendo a China e reivindicações do Japão, de Taiwan, do Vietnã, da Malásia, de Brunei e das Filipinas. Os Estados Pivôs nesta região são justamente a Coréia do Sul e as Filipinas, países com os quais os chineses ainda não possuem influência significativa, devido a preponderância do poder norte-americano.

O posicionamento da China na Eurásia cresce em importância, na medida em que avançam os tratados de cooperação com países da região.  Os projetos de infraestrutura da Nova Rota da Seda e as instituições ligadas a esta iniciativa são a principal contribuição da China para o bem público global durante o seu processo de ascensão. Qualquer estruturação do sistema internacional dependerá da negociação entre a influência dos Estados Unidos e a emergência chinesa. Neste sentido, a China vem consolidando seu poder terrestre voltado para a Eurásia, através de uma diplomacia realizada por meio de fluxos comerciais e de investimentos, além de procurar aumentar seu poder marítimo no Oceano Pacífico como forma de dissuasão de possíveis ameaças aos seus interesses estratégicos.

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Notas e Fontes consultadas, para maiores esclarecimentos:

* O TPP consiste em um acordo de liberalização comercial elaborado no período do Governo de Barack Obama, envolvendo os países localizados no território do Oceano Pacífico e excluindo a China.

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Imagem 1 Mapa regional da Eurásia” (Fonte):

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/3/30/Eurasia_(orthographic_projection).svg/2000px-Eurasia_(orthographic_projection).svg.png

Imagem 2 Transpacific Partnership” (Fonte):

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/7/7e/What_Is_TPP.jpg

Imagem 3 Mapa regional da Ásia Oriental ” (Fonte):

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/4/4e/1-12_East_Asia_Green-Grey.png/1280px-1-12_East_Asia_Green-Grey.png

Imagem 4 Xi Jinping, 7º Presidente da República Popular da China, durante a cúpula dos BRICS no ano de 2015” (Fonte):

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/f/fa/Xi_Jinping,_BRICS_summit_2015_01.jpg

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AMÉRICA DO NORTEANÁLISE - Sociedade InternacionalANÁLISES DE CONJUNTURAEURÁSIAEUROPATecnologia

[:pt]Relações Rússia-EUA após o caso do ataque cibernético durante as Eleições Presidenciais norte-americanas de 2016[:]

[:pt] Em 2016, as Eleições Presidenciais estadunidenses tiveram como característica central a polarização política, e isto configura uma situação que vai além da perspectiva tradicional de embates entre o Partido Democrata e o Partido Republicano,…

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ANÁLISES DE CONJUNTURAEURÁSIAEUROPAORIENTE MÉDIO

[:pt]A Federação Russa e sua Influência no Oriente Médio[:]

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O ano de 2016 foi para boa parte do mundo uma grande prova de resiliência, países enfrentaram crises humanitárias de refugiados, crises em suas políticas domésticas, atentados terroristas, guerra e crises políticas internacionais. A Federação Russa não fica de fora de nenhum destes cenários, sendo que, de todos estes, a guerra em que tomou partido na Síria foi a que manteve sua presença quase semanal nos tabloides de notícias internacionais ao longo de todo ano de 2016 e, certamente, mudará o seu protagonismo no Oriente Médio pela próxima década.

A participação na guerra Civil Síria pela Rússia tem maior relevância pelo fato de que este conflito interno, desde 2011, gerou uma das maiores crises humanitárias de refugiados de nossa história recente; criou uma crise política no Bloco da União Europeia (UE), dentre os vários fatores, devido a questão dos refugiados, que também influenciou a opinião pública do Reino Unido a pedir a retirada do país do Bloco, através de um Referendo; produziu um espaço para o estabelecimento de grupos terroristas como o Estado Islâmico (EI), ou Daesh, que promoveram atentados por toda a Europa através de suas células, e desestabilizaram países vizinhos, como o Iraque, que passaram, assim como a Síria, por uma guerra interna.

A Guerra na Síria foi capaz de desencadear uma reação em cadeia global em um espaço curto de tempo e lançou a questão do envolvimento da Federação Russa nessa situação, gerando ainda a pergunta sobre se o conflito é uma questão pontual de Bashar Al Assad com sua população, ou se é uma questão que envolve a religião, algo que a mais de mil anos faz com que o poder nessa região do Oriente Médio seja disputado entre as vertentes do Islã (Sunita e Xiita) e o Cristianismo. A resposta a ser apontada tende para esta última alternativa.

O conflito na Síria é ancestral, a comunidade islâmica no país era politicamente ativa e movimentava-se por respeito aos valores de sua fé, enquanto Bashar Al Assad caminhava por tornar o país mais voltado a um Estado modernizado e tendendo a ser secular. Analistas chegaram a afirmar que essa perspectiva gerou o protesto de 2011, o qual, motivado  pela Primavera Árabe vivenciada na Líbia, situação que teve apoio do EUA, levou a Oposição síria a acreditar que, talvez, viesse a ocorrer o mesmo apoio norte-americano em seus país, caso se insurgissem contra Assad. No entanto, o conflito se estendeu sem uma resolução. Ao longo do processo, a Federação Russa permaneceu ao lado de Assad, mesmo com a construção pela mídia de uma imagem demoníaca do Presidente sírio perante a comunidade internacional, principalmente no caso das armas químicas que foram utilizadas pelos rebeldes, mas disseminadas de forma a tentar incriminar Assad, conforme foi posteriormente divulgado na imprensa internacional.

Agora, com a vitória do Exército Sírio em Aleppo, certamente a Federação Russa ganha mais protagonismo internacional e se torna um dos global players de maior influência no Oriente Médio, mostrando que sua estrutura social (e capacidade de colocar a opinião pública a favor de suas ações), força política interna (apoio doméstico para suas ações globais), aptidão econômica (recursos para atuar em projetos internacionais) e potencial militar (capacidade de emprego bélico global), são adequadas para suportar e superar os percalços da guerra, sobrepujando, inclusive, o trauma da antiga União Soviética no Afeganistão.

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Imagem 1Batalha de Heraclius e persas sob o Khosrau II D.C.” (Fonte):

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/9/93/Piero_della_Francesca_021.jpg

Imagem 2Soldados Russos em Base Aérea na Síria” (Fonte Governo Russo):

http://mil.ru/images/upload/2015/kel_3529_kel_sbori_na_Vostok-900.jpg

Imagem 3Tropas soviéticas em combate no Afeganistão” (Fonte Governo Russo):

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ANÁLISE - Sociedade InternacionalANÁLISES DE CONJUNTURAEURÁSIAEUROPA

[:pt]Fethullah Gülen, Mestre do Humanismo e do Entendimento Multicultural[:]

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Nascido em 27 de abril de 1941, em Erzurum, na Turquia, no seio de uma família humilde, filho de um Imã e de uma professora voluntária de Alcorão, Fethullan Gülen aprendeu, desde cedo, os princípios do humanismo que alimentaram a sua infância e juventude tornando-o, na atualidade, num dos pioneiros do discurso intercultural e inter-religioso, no seu país e no mundo.

Formado em Ciências Islâmicas, Gülen é, além de professor, teólogo, literato, escritor, poeta, líder de opinião e erudito islâmico, um destacado ativista pela Educação e defensor da paz em nossos tempos. Enquanto promotor dos valores espirituais, por meio da Educação e do diálogo, o líder turco tem trilhado um caminho que, para os seus seguidores e, também, para aqueles que trabalham em prol das causas humanitárias, constitui um modelo que inspira a prática cotidiana. Porém, o pensamento de Gülen, que não está apenas no plano das ideias, tem provocado o combate por parte daqueles que rejeitam a igualdade de direitos entre as pessoas e os princípios da Democracia.

Em 1971, na sequência de um Golpe de Estado na Turquia, Fethullah Gülen foi preso permanecendo encarcerado durante seis meses sem acusação. A reprimenda aplicada ao líder humanista não foi suficientemente capaz de interromper a sua obra que continuou e se expandiu desde a criação do Movimento Gülen, ou Hizmet (Serviço), de caráter cívico-social, idealizado por ele em finais dos anos de 1960, na Turquia. O Hizmet tem como alicerce da sua existência o compromisso com a Educação, o diálogo, a paz, a justiça e a harmonia social. Este movimento traduz, na prática, as ideias de seu fundador, isto é, de que é possível alterar positivamente uma sociedade. Segundo Fethullah Gülen, “o Hizmet surgiu com a ideia de fundar instituições educacionais para formar jovens virtuosos, a fim de tentar encontrar soluções para os problemas do país”.

Numa época em que muitas famílias na Turquia, com poucas condições econômicas, não tinham muitas opções para conseguirem manter os seus filhos no Ensino Médio ou na Universidade nas grandes cidades, num ambiente propício para a formação dos jovens, Fethullah Gülen mudou esta realidade, através da criação de bolsas de estudo e de alojamentos para estudantes financiados pelas comunidades locais. O Hizmet, de fato, foi e continua a ser para muitos a crença no futuro a partir de uma Educação laica e com valores centrados no ser humano independentemente de confissão religiosa. Hoje, o movimento é transnacional e está presente em mais de 170 países, devolvendo a esperança de vida digna a milhares de pessoas. Os seus voluntários são “estudantes, acadêmicos, empresários, profissionais liberais, funcionários públicos, agricultores, homens e mulheres, jovens e velhos” que “contribuem para múltiplas formas de serviços, que se concentram em centros de ensino, escolas, faculdades, hospitais, organização de ajuda humanitária, editoras e instituições de mídia, tanto na Turquia”, quanto ao redor do mundo.

O trabalho desenvolvido por Fethullah Gülen, digno de distinção e que culminou no Hizmet, enfrenta na atualidade a oposição do Presidente turco, Recep Tayyip Erdoğan, para quem o movimento é “um Estado paralelo” e uma “organização terrorista”. Gülen encontra-se auto-exilado nos EUA desde 1999, quando viajou àquele país para que lhe fossem prestados cuidados médicos. No Estado da Pensilvânia, onde estabeleceu residência, o erudito turco vive em um retiro “com um grupo de estudantes e médicos” e dedica-se “à leitura, escrita, ensino, oração individual e em pequenos grupos, e recebe alguns visitantes, quando sua saúde permite”. Embora distante da Turquia, ele enfrenta diversas acusações por parte do Governo turco, que tenta criminalizá-lo, tal como o Hizmet, embora nunca tenha conseguido provar envolvimento, quer de Gülen, quer do movimento que ele lidera, em nenhum crime. Mas a ausência de provas não serviu para impedir que a Procuradoria turca pedisse duas “condenações perpétuas e uma pena adicional de 1.900 anos” de prisão para ele. Gülen foi acusado de ter orquestrado o Golpe de Estado falhado de 15 de julho deste ano (2016), assim como de tentar “destruir a ordem constitucional pela força” e, também, “de formar e conduzir grupos terroristas armados”. No entanto, ele nega todas as acusações, condenando qualquer ato de violência.

Em 19 de dezembro, o assassinato a tiros do Embaixador russo na Turquia, Andrei Kharlov, durante a inauguração de uma exposição de fotografias, em uma galeria de Arte em Ancara, por um jovem ex-policial turco de 22 anos, de nome Mevlut Mert Altintas, fez com que, imediatamente, Erdoğan atribuísse a responsabilidade do crime a Fethullah Gülen. Porém, o grupo insurgente Jaysh al-Fateh, que integra a Frente da Conquista do Levante – a antiga Frente al-Nusra – assumiu a autoria do atentado que, mais tarde, foi reivindicado pelo Estado Islâmico.

A frase proferida pelo assassino antes de ser morto pela polícia, em que disse: “nós morremos em Aleppo, você morre aqui”, revela que os radicais agiram em retaliação ao apoio russo ao regime de Bashar al-Assad, na guerra na Síria e, ao mesmo tempo, inocenta Fethullah Gülen, que condenou o trágico episódio que levou a óbito o Embaixador russo. Em declaração escrita, Gülen afirmou: “Eu condeno veementemente este ato hediondo de terrorismo”.

Segundo informações, há indícios de que há radicais infiltrados nas forças policiais turcas, depois que milhares de policiais foram expurgados por suas supostas ligações com o movimento Gülen. Neste contexto, em várias ocasiões, o líder humanista Fethullah Gülen foi responsabilizado pelo Governo turco por ações levadas a cabo contra o país. Até hoje, nada se conseguiu provar, mas ante as incertezas regionais e internacionais torna-se necessário refletirmos sobre a segurança deste ser humano que persiste na defesa de valores humanísticos a partir do acolhimento e da prática enraizados no princípio do entendimento intercultural e inter-religioso que, muitas vezes, são condenados por indivíduos cuja visão estreita da realidade não concebe a liberdade e a igualdade entre os seres humanos como um direito inalienável.

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Imagem 1 Fethullah Gülen” (Fonte):

http://www.theblaze.com/wp-content/uploads/2016/02/Fethullah-G%C3%BClen.jpg

Imagem 2 Logo do Gulen Movement” (Fonte):

http://hizmetnews.com/gulen-movement/

Imagem 3 Gülen and Pope John Paul II” / “Gülen e o Papa João Paulo II” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Gülen_movement

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