ANÁLISES DE CONJUNTURAEUROPA

Lockdown russo contra a COVID-19

Considerada pela Organização Mundial de Saúde (OMS) como o segundo país mais afetado em termos de infecções* por COVID-19 e detentora da segunda taxa de novas infecções mais rápidas do mundo, atrás somente dos Estados Unidos, a Federação Russa, através de seus órgãos de saúde e vigilância sanitária, se valeu de tentativas de minimizar os impactos da pandemia que se alastrou em seu território.

Processos severos de isolamento social, iniciados ainda em março (2020), com o fechamento precoce das fronteiras e a quarentena obrigatória de todos os recém-chegados, aliado ao bloqueio instituído em várias regiões do imenso país, não foram suficientes para barrar a curva crescente e rápida de infecções diárias que chegou a atingir 11 mil novos casos por dia. Ressalte-se que o bloqueio se deu principalmente na capital Moscou, onde a maioria dos seus 13 milhões de habitantes foram direcionados a ficar em suas casas.

Ocorrência de casos diários da COVID-19

Processos contrários à simpatia da população moscovita reiteraram o uso de métodos de implantação de permissão oficial da Prefeitura, através de um passe para liberar as pessoas para poderem dirigir ou utilizar transporte público, tendo como objetivo rastrear e restringir o movimento da população. Milhões de pessoas enviaram seu número de identificação, motivo de viagem, número de placa do carro, ou número de seu cartão de viagem, para receber esses passes com um código de 16 caracteres para apresentar à polícia, quando solicitado.

Verificação de passe individual pela polícia em Moscou

Outro dispositivo utilizado para monitorar a movimentação popular em Moscou foi o vasto sistema de câmeras de vigilância completa, com tecnologia de reconhecimento facial, testado durante comícios anti-Kremlin no ano de 2019 para rastrear manifestantes.  As autoridades da cidade também usaram dados de localização de telefones celulares de provedores de telefonia móvel para monitorar aqueles que foram “ordenados a se autocolocar” em quarentena por duas semanas, depois de sua chegada do exterior.

Mesmo com o direcionamento por parte do presidente Vladimir Putin em realizar um relaxamento do lockdown russo a partir do último dia 11 de maio, fontes do Governo disseram que os níveis de movimentação de pessoas em viagens tanto internas como externas não voltarão ao normal (pré-pandemia) antes do início do ano de 2021. A Agência Federal de Turismo da Rússia (Rostourism) alertou que as medidas levariam a “perdas colossais para a economia” de pelo menos 300 bilhões de rublos (cerca de R$ 23,8 bilhões**) por trimestre. Para compensar essas perdas, a Rússia deve introduzir vistos de turismo de entrada múltipla válidos por até cinco anos, de acordo com as recomendações da Rostourism. As regras atuais só permitem vistos de entrada por até 30 dias para turistas.

O Rostourism também busca reduzir o tempo de processamento de vistos para três dias úteis. Os atuais portadores de vistos de turista que não puderam viajar para a Rússia devido a restrições relacionadas ao coronavírus devem ser capazes de solicitar novos vistos gratuitamente, de acordo com as recomendações relatadas pela agência. Além disso, a agência quer estender os vistos eletrônicos, que entrarão em vigor em 1º de janeiro de 2021, de 16 dias para 90 a 120 dias, e torná-los de entrada única para entrada múltipla, ou seja, o turista poderá visitar o país mais de uma vez dentro do período proposto.

Bloqueio policial em Moscou

Outro ponto nevrálgico dentro do processo de lockdown, que afetará visivelmente a saúde econômica da Rússia, é que o número de pequenas empresas que tiveram que cessar suas atividades, por conta do afastamento social, e que solicitaram empréstimos aos Bancos ou órgão financeiros para pagar salários aos seus trabalhadores, superou as expectativas do governo e muitas delas já estão dispensando grande parte de sua força de trabalho.

O Ministro do Trabalho, Anton Kotyakov, declarou que 735.000 russos haviam aderido ao registro de desemprego nos últimos dois meses, elevando o total nacional para 1,2 milhão de desempregados. No entanto, isso não conta a história completa, pois muitos russos ganham a vida na economia informal, o que equivale a mais de 30% do PIB, de acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI), e seu status não está registrado nas estatísticas oficiais. Kotyakov já avisou anteriormente que a recessão econômica causada pela COVID-19 poderia deixar entre cinco e seis milhões de russos desempregados, ou sete a oito por cento da força de trabalho. Tais números foram vistos pela última vez há uma década, após a Grande Crise Financeira de 2008.

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Notas:

* Casos confirmados em torno de 281.752 pessoas, conforme relatório da Organização Mundial de Saúde (OMS) em 17/05/20 >> Fonte:  https://covid19.who.int/region/euro/country/ru

** Cotação rublo russo em 15/05/20 >> 1RUB = R$ 0,0793.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Desinfecção de bancos de um parque em Moscou” (Fonte): https://southfront.org/wp-content/uploads/2020/03/1-123.jpg

Imagem 2 Ocorrência de casos diários da COVID19” (Fonte): https://coronavirus.jhu.edu/data/animated-world-map

Imagem 3 Verificação de passe individual pela polícia em Moscou” (Fonte): https://www.interfax.ru/photo/4841/48132

Imagem 4 Bloqueio policial em Moscou” (Fonte): https://www.interfax.ru/photo/4841/48132

ANÁLISES DE CONJUNTURAEUROPA

A Finlândia flexibiliza o isolamento social

A pandemia de Covid-19 atinge o cotidiano de milhões de pessoas ao redor do mundo. Diversos foram infectados e sofrem as consequências do vírus, o qual já levou a óbito algumas centenas de milhares em vários países. Todavia, com as medidas de isolamento social muitos foram protegidos, o que resultou no declínio da curva de expansão.

A Finlândia não foge das estatísticas e enfrenta as dificuldades geradas pela crise de saúde que se espalhou. Os dados pela BBC seguem a pesquisa feita pela Universidade John Hopkins, nos Estados Unidos, os quais apresentam o quantitativo de mortos e de infectados por Covid-19 no globo.

No universo dos Estados nórdicos, o menor índice de mortes teve registro na Islândia, com 10 perdas e 1.801 contaminados; na Noruega o contingente foi de 224 perdas e 8.132 contaminados; a Finlândia surge com 275 perdas e 6.003 infectados; a Dinamarca apresentou 533 perdas e 10.591 contaminados; e, por fim, o maior índice foi visto na Suécia, com 3.313 perdas e 27.272 contaminados.

A diferenciação de impacto da Covid-19 na região nórdica e na própria Finlândia corresponde a uma série de fatores, os quais salientam na proporção populacional, na complacência das autoridades locais, isso é, no uso de medidas de preservação, e na conscientização das sociedades.

Os finlandeses aguardam a flexibilização do isolamento social após cerca de 2 meses de confinamento. Diante da pauta, o jornal Helsingin Sanomat trouxe a informação de que o governo da primeira-ministra Sanna Marin planeja uma reabertura gradual das atividades do país, a partir do início de junho, todavia, algumas mudanças já começaram a ser implementadas desde o dia 14 de maio deste ano (2020), como a liberação de empréstimos de materiais pelas bibliotecas, e permissão de viagens e tráfego necessário transfronteiriço.

Segundo as autoridades finlandesas, divulgado no jornal Helsingin Sanomat, a ideia central é contribuir para trazer à sociedade finlandesa uma sensação de normalidade, entretanto, apesar do afrouxamento do isolamento social, com o retorno parcial do setor de educação, restaurantes e competições de esporte, muitas atividades permanecerão restritivas, tais como: o limite de até 50 pessoas para reuniões públicas, viagens de lazer, especialmente para o exterior, o aconselhamento do trabalho virtual, e a recomendação de isolamento de idosos com idade superior a 70 anos. 

Primeira-Ministra da Finlândia, Sanna Marin

As medidas de flexibilização do isolamento social não são unânimes entre os políticos e os especialistas. No tangente a questão política, o jornal Yleisradio Oy trouxe a declaração da Primeira-Ministra, que apresentou a tônica do relaxamento social: “A Finlândia abrirá gradualmente para o verão. Esforços estão sendo feitos para suspender as restrições de maneira controlada e gradual, para que a situação da doença permaneça sob controle, a capacidade de suporte da assistência médica não seja comprometida e a vida e a saúde das pessoas em risco possam ser protegidas”.

O jornal Yleisradio Oy ainda trouxe a declaração da parlamentar pelo Perussuomalaiset – PS (Partido dos Finlandeses), Riikka Purra, que se opõe a ideia de abertura do país e a considera como algo inconsistente, conforme sua afirmação: “No entanto, é improvável que a estratégia de saída escolhida pelo governo a mantenha pequena o suficiente, mas abrirá a sociedade de maneira inconsistente. O governo não está tentando reprimir o vírus, como já foi feito em muitos países, mas está avançando em um caminho sinalizado por seus especialistas de confiança de que ninguém sabe realmente o que está buscando”.

Conforme o jornal Ilta Sanomat, o professor de Virologia da Universidade de Helsinque, Kalle Saksela, é descrente de que a abertura planejada do país seja a melhor alternativa para o momento, e diverge do Relatório Abertura de Hetemäki, elaborado pelo Ministério das Finanças, o qual sinalizaria, na percepção do professor, um aumento no quantitativo de infectados por Covid-19, caso o isolamento realmente seja flexibilizado. O professor Saksela afirmou: “Não apoio essa estratégia [Relatório de Abertura de Hetemäki], porque penso que existem outras opções. É verdade que nenhuma sociedade pode suportar a repressão completa indefinidamente. No momento, porém, acho que uma opção completamente realista seria uma supressão limitada da epidemia até que melhores alternativas sejam encontradas”.

Covid-19

O jornal Ilta Sanomat ainda trouxe a declaração do médico-chefe da Unidade de Terapia Intensiva do Hospital Central da Universidade de Kuopio, Stepani Bendel, que concorda com a afirmação do professor Kalle Salsela, todavia abre maior margem analítica, caso os dados do Relatório de Abertura de Hetemäki estejam corretos, e a população siga as instruções preventivas. No tangente a questão, Bendel salientou: “É claro, que quando as restrições são relaxadas, as infecções aumentam. Se os números R0 das curvas publicados no relatório Hetemäki estiverem corretos e as pessoas seguirem as instruções fornecidas, faremos bem com os cuidados intensivos. No entanto, se o número de infecções for superior ao estimado, a sociedade terá que reagir de alguma forma para garantir a adequação da capacidade”.

Os analistas consideram importante as restrições sociais como método de prevenção da propagação da Covid-19, às quais precisam ser respeitadas mesmo diante das consequências psicológicas que o isolamento social tende a produzir. Todavia é preciso existir uma confluência entre políticos e especialistas de forma que a população não seja prejudicada frente à circulação do vírus no presente e no futuro.

A flexibilização do isolamento social finlandês poderia ser compreendida como um experimento controlado, pois inexistem manuais para serem seguidos perante crises e emergências. Dentro dessa perspectiva, seria visto como prudente a consideração de retorno ao método do isolamento social, caso os índices de Covid-19 voltem a crescer, permanecendo os investimentos em estudos de composição de vacinas e formas de tratamento.

A medida de abertura finlandesa é entendida de forma positiva e como modo de contentar a sociedade, a qual experimenta extrema mudança de rotina e pressão psicológica pela ausência da integração, todavia, compreende-se a flexibilização como uma possível e sútil pressão do setor econômico para o retorno às atividades laborais. Essa última também é vista como um fator positivo, porém ela pode se tornar negativa caso o governo tenha que retornar a tática da restrição social. Em suma, tudo depende da colaboração das pessoas, seja para evitar o vírus, seja para a reativação da economia.  

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Parlamento Finlandês” (Fonte):

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/f/f0/Eduskunta_istuntosali.jpg

Imagem 2 PrimeiraMinistra da Finlândia, Sanna Marin” (Fonte):

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/4/4c/Prime_Minister_of_Finland_Sanna_Marin_2019.jpg

Imagem 3 Covid19” (Fonte):

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/0/09/Covid-19-4855688_640.png

ANÁLISES DE CONJUNTURAEUROPAORIENTE MÉDIOTerrorismo

Alemanha bane todas as atividades do Hezbollah no país e classifica a organização como terrorista

O Ministro do Interior da Alemanha, Horst Seehofer, proibiu no último dia 30 de abril todas as atividades “da organização xiita terrorista Hezbollah” no país, informou o Porta-Voz do Ministério, Steve Alter, em sua conta no Twitter. O banimento proíbe reuniões, manifestações públicas de apoio e publicações que promovam o grupo, além de permitir o confisco dos bens de indivíduos e instituições que tenham vínculo com a organização, informou o jornal libanês An-Nahar.

No dia do anúncio, o Ministério do Interior da Alemanha informou que “medidas policiais vêm ocorrendo em vários estados federais simultaneamente desde as primeiras horas da manhã”. Conforme reportou o  jornal alemão DW, as batidas policiais concentraram-se em quatro associações de mesquitas em Berlim, Dortmund, Bremen e Münster, todas acusadas de pertencer ao Hezbollah. Referindo-se à pandemia de COVID-19, que já deixou quase 7.000 mortos no país, o Porta-Voz afirmou que “o Estado de direito também pode agir em tempos de crise”.

O jornal libanês Al-Akhbar reportou que seis centros pertencentes principalmente à comunidade libanesa na Alemanha foram invadidos sob força policial, com confisco de telefones, computadores e dispositivos eletrônicos das casas e sedes das associações. Algumas pessoas também foram presas. O jornal acusou a decisão alemã de ter sido “um ataque malicioso que teve como alvo o povo libanês por razões políticas”, de contar com acusações generalistas e ser carente de detalhes sobre as supostas atividades desenvolvidas pelos empresários libaneses no país.

O mesmo aconteceria em países da América Latina (a exemplo do Brasil), afirmou o Al-Akhbar, onde tampouco haveria “evidências convincentes do envolvimento do Hezbollah em atividades terroristas claras”. Conforme  afirma Salem Nasser, em que pesem os registros de atividades de contrabando, tráfico de drogas e ilicitudes na região da Tríplice Fronteira, e ainda que possa haver ali, moral e politicamente, simpatizantes do Hezbollah, nenhuma acusação foi comprovada em qualquer instância, inclusive aquela de que haveria um fluxo de financiamento da região em direção ao Hezbollah – que por si só não constituiria crime de acordo com o direito brasileiro, explica.

Abbas Ali Kadkhodaei, Porta-Voz do Conselho Guardião da Constituição iraniano, disse que “a medida mais recente da Alemanha provou que o lema de seu governo de defesa dos direitos humanos não é real, mas é usado como pretexto para eliminar os direitos das pessoas em diferentes regiões do mundo”, publicou o Al-Ahed news.

Em comunicado, o Ministério do Interior alemão declarou que “o Hezbollah pede abertamente a eliminação violenta do Estado de Israel e questiona o direito do Estado de Israel de existir”. E completou: “a organização é, portanto, fundamentalmente contra o conceito de entendimento internacional, independentemente de se apresentar como uma estrutura política, social ou militar”, reportou o Middle East Monitor.

A decisão é fruto de um dos últimos atos do Parlamento alemão em 2019, que aprovou uma moção instando o governo a eliminar a distinção entre os ramos armados e políticos do Hezbollah, e pedindo pelo banimento total do grupo. A decisão foi elogiada pelo Embaixador dos Estados Unidos na Alemanha, Richard Grenell, que na ocasião afirmou em entrevista para o Jerusalem Post que: “o governo está pronto para agir, usando as ferramentas legais disponíveis para negar ao procurador terrorista iraniano a capacidade de planejar, recrutar e arrecadar fundos em solo alemão”. Em nota, o Comitê Judaico Americano (AJC) também elogiou a decisão alemã como “bem-vinda e muito esperada”.

Segundo o DW, a Alemanha já havia feito anteriormente uma distinção entre o ramo político e militante do grupo, em linha com a União Europeia, que havia adicionado sua ala militar a uma lista de grupos terroristas proibidos em 2013. Contudo, na quinta-feira, 30 de abril, o país oficialmente classificou a organização como terrorista em sua integralidade. A decisão segue os passos dos Países Baixos e da Inglaterra, esta última que, em fevereiro de 2019, também introduziu uma legislação que classificou o Hezbollah como organização terrorista, citando suas atividades militares na Síria, Iraque e Iêmen.

Estados Unidos e Israel vinham pressionando fortemente a Alemanha a banir a organização como um todo. O Tesouro norte-americano também vem aumentando o cerco financeiro e sanções sobre o grupo, medidas que ocorrem em meio a crescente preocupação dos EUA com o papel do Hezbollah no governo libanês. Com a saída do país do acordo nuclear com o Irã, Washington vem pressionando seus aliados europeus a agirem de acordo. Em 2019, Niels Annen, Vice-Ministro das Relações Exteriores alemão, que falou com Der Spiegel após uma visita ao Líbano, rejeitou as críticas dos EUA de que a Alemanha “não estava fazendo o suficiente para combater a influência do Irã na região”.

No início de 2020, o Embaixador dos Estados Unidos na Alemanha instou novamente a União Europeia a designar todo o movimento como entidade terrorista. UE e França permanecem considerando somente o braço armado do Hezbollah como tal. Já Estados Unidos, Israel, Reino Unido, Canadá, Países Baixos, Conselho Cooperativo do Golfo, Argentina, Paraguai, Colômbia e Honduras classificam todo o grupo como terrorista. O Brasil, por enquanto, permanece seguindo a lista oficial das Nações Unidas, que exclui a organização de suas sanções (UNSCR 1267 (1999); UNSCR 1989 (2011) e UNSCR 2253 (2015)).

Contudo, em alinhamento à política externa norte-americana e israelense, em agosto de 2019 o Presidente Jair Bolsonaro confirmou suas intenções de classificar oficialmente o grupo como organização terrorista: “Pretendo fazer isso daí. São terroristas”, afirmou. No dia anterior, em 19 de agosto de 2019, o filho de Bolsonaro e Deputado federal pelo PSL-SP, Eduardo Bolsonaro, afirmou em sua conta do Twitter: “Essa questão do Hezbollah envergonha o Brasil no exterior. Temos que mudar essa realidade o quanto antes. Desconheço argumentos plausíveis que justifiquem considerar o grupo terrorista Hezbollah como partido político”.

A decisão, contudo, não é unanimidade dentro do governo – enfrentando resistências no Ministério da Defesa, na Abin (Agência Brasileira de Inteligência) e na Polícia Federal, segundo escrevem Sami Adghirni, Ricardo Della Coletta e Gustavo Uribe para a Folha de São Paulo.

Muitos políticos alemães também se opõem a uma proibição total, alegando que permitir a existência do braço político do Hezbollah é essencial para manter as relações com o Líbano.  Um dia após a Alemanha ter designado o Hezbollah como organização terrorista, o Irã condenou veementemente a medida e ameaçou a Alemanha com consequências. O Porta-Voz do Ministério das Relações Exteriores, Sayyed Abbas Mousavi, a descreveu como “uma medida que atende aos objetivos dos EUA e do regime sionista de Israel”, em sua conta no Twitter.

Em nota, o Porta-Voz declarou que “A decisão do governo alemão foi tomada com total desrespeito ao governo e à nação libanesa […]” e que “também foi tomada com total imprudência contra uma força que teve e ainda tem um papel fundamental na luta contra o terrorismo violento do Daesh (ISIS) na região. O governo alemão, portanto, deve ser responsabilizado pelas consequências negativas de sua decisão na luta contra os verdadeiros grupos terroristas da região”, concluiu Mousavi.

Bandeira do Hezbollah

O partido político libanês Hezbollah (Partido de Deus) surgiu inicialmente como milícia em resposta à invasão israelense no Líbano em 1982 (Operação Paz para a Galileia) e resistiu à ocupação israelense durante toda a guerra civil libanesa (1975-1990). Atualmente, o grupo opera ao lado das Forças Armadas Libanesas, tendo sido responsável pela expulsão do exército de Israel do país em maio de 2000, encerrando 22 anos de ocupação, e na guerra de julho de 2006. Conforme afirma Christian Karam, sua ascensão nas últimas décadas é reflexo de um processo que envolve a oposição à ocupação israelense das terras árabes; o suporte à causa palestina; e o apoio de grupos sociais domésticos – sobretudo xiitas – historicamente à margem do Estado, economia e sociedade libanesas.

Desde o pós-guerra, o Hezbollah é uma das forças políticas mais importantes e influentes no Líbano, presente no atual governo interino do país, além de deter um extensivo programa de bem-estar social e de gerenciar uma ampla variedade de instituições, cobrindo ações de educação, microcrédito, habitacionais e de saúde pública, explicam Mona Harb e Reinoud Leenders.

Nas eleições gerais de 6 de maio de 2018, o Hezbollah obteve 13 assentos no Parlamento de 128 membros, mantendo os mesmos 10% de votos obtidos na eleição geral anterior de 2009. Com a formação do governo de união nacional em 31 de janeiro de 2019, o Hezbollah passou a ocupar também 3 Ministérios: o Ministério dos Esportes e da Juventude, o Ministério de Estado dos Assuntos Parlamentares e o Ministério da Saúde Pública – até a dissolução do governo após a renúncia de Saad Hariri em outubro de 2019.

Manifestantes em frente a Mesquita Mohammad Al-Amin, no centro de Beirute, em outubro de 2019

A decisão alemã ocorre em meio à retomada das manifestações populares contra o governo do Líbano. Com o início do afrouxamento das medidas de confinamento para o combate do coronavírus, manifestantes voltaram a tomar as ruas de Beirute e de Trípoli no último 1º de maio, de acordo com a Foreign Policy. As manifestações, que tiveram início em outubro de 2019, em menos de duas semanas causaram a renúncia do então Primeiro-Ministro do país, Saad Hariri. A população nas ruas se queixa dos altos níveis de desemprego, corrupção e preços crescentes. O Líbano enfrenta sua mais grave crise econômica desde o fim da guerra civil, em 1990. A dívida pública do país excede 150% do Produto Interno Bruto (PIB) e a Libra libanesa desvalorizou quase 60% em relação ao Dólar. De acordo com o An-Nahar, o preço de alguns bens básicos subiu mais de 60%.

Em 9 de março de 2020, pela primeira vez o Líbano não honrou o compromisso de pagamento de um título da dívida no valor de US$ 1,2 bilhão (por volta de 6,58 bilhões de reais, seguindo a cotação de 4 de maio de 2020), conforme a revista The Economist. O atual Primeiro-Ministro Hassan Diab, que tomou posse em 21 de janeiro de 2020, assinou em 1º de maio o pedido de assistência ao Fundo Monetário Internacional (FMI) para lidar com a crise fiscal e financeira no país. O Líbano deverá buscar US$ 10 bilhões em empréstimos da instituição financeira (aproximadamente 54,86 bilhões de reais, também de acordo com a mesma cotação), após a aprovação de duras reformas de reestruturação econômica.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Horst Seehofer, Ministro do Interior da Alemanha(Fonte): https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Horst_Seehofer_2011.jpg

Imagem 2 Bandeira do Hezbollah(Fonte): https://en.wikipedia.org/wiki/Flag_of_Hezbollah

Imagem 3 Manifestantes em frente a Mesquita Mohammad AlAmin, no centro de Beirute, em outubro de 2019(Fonte): https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Beirut_october_protests_2019_4.jpg

ANÁLISES DE CONJUNTURAEUROPA

União Europeia dá sinal verde para fundo de recuperação econômica

Até o momento, a Europa é o continente mais castigado pela pandemia causada pelo Covid19, com mais de 1,2 milhão de infectados e milhares de falecidos. Aos poucos, os países vão se preparando para retomar à normalidade, porém, o panorama econômico configura um novo desafio que expõe as assimetrias dentro do Bloco, que já prepara o maior plano de recuperação econômica da história do continente desde o Plano Marshall, após o final da II Guerra Mundial.

O Banco Central Europeu alerta que “A recessão econômica na Europa pode ser de até 15% do PIB da região, embora existam países cujos efeitos podem superar essa cifra, devido ao impacto sofrido durante a pandemia e aos efeitos do cenário internacional que são imprevisíveis, pois um agravamento da epidemia nos Estados Unidos e uma expansão da mesma nos países emergentes, além da queda do preço das commodities, podem dificultar mais ainda a recuperação do Bloco.

Com um montante total estimado em  quase 500 bilhões de Euros, a Comissão Europeia propõe o uso de todos seus recursos financeiros, dentro do plano orçamentário de 2021-2027, para recuperar a economia e reativar o mercado interno, reduzindo assim o impacto da demanda internacional. Porém, nem todos os países do Bloco são favoráveis a essas medidas, havendo uma tácita divisão entre as grandes economias e os países mais afetados, não existindo de fato uma cifra aprovada.

Setores como o turismo e a construção civil são uns dos mais impactados e que representam uma inestimável fonte de geração de emprego e renda, principalmente em países como Espanha, França e Itália, que dificilmente vão conseguir regressar aos índices prévios à pandemia, o que gera incertezas em diversas nações.

Até mesmo o Reino Unido, após sair da União Europeia (UE), se mostra disposto em colaborar com o Bloco, uma vez que os reflexos no mercado financeiro sem dúvidas sobrepassaram os limites fronteiriços da UE.

Uma crise maior que a enfrentada em 2008, e para muitos analistas equiparável à Crise de 29, pode decretar uma mudança substancial no destino da Europa, que já vinha enfrentando diversas fragmentações oriundas de temas polêmicos, tais como a migração, a expansão do grupo, o aquecimento global e os investimentos e subvenções internas.

Neste cenário caótico e de poucas esperanças, o Banco Central Europeu aprovou a compra de dívida dos países integrantes do Bloco, assim como bônus de alto risco, com o objetivo de gerar certa estabilidade, mas que, porém, pode derivar em longo prazo em um ônus para a região, onde muitos países acumulam dívidas públicas superiores a 90% do PIB.

Banco Central Europeo

Manter o emprego e reativar a economia interna são as principais metas da Europa, levando diversos Estados a atuarem diretamente no mercado, obtendo o controle temporário de empresas, subvencionando até 80% dos salários e distribuindo renda com programas semelhantes ao auxílio emergencial existente no Brasil.

Fortalecer o mercado interno é uma prioridade para manter flutuando a economia até obter uma recuperação do cenário internacional, uma aposta arriscada, porém sem outra alternativa capaz de reduzir o resultado da crise.

A Comissão Europeia ainda deve determinar os valores e os critérios usados no programa de recuperação econômica, enquanto isso, cada país adota uma série de medidas internas segundo sua própria realidade e necessidades.

A suspensão da circulação de pessoas dentro do Bloco, com o objetivo de controlar o avanço das infecções, também afeta os ciclos de produção e a paralisação temporária de algumas economias cobra hoje seus resultados.

Um remédio amargo, porém, necessário, em um continente onde grande parte da população está no grupo de risco e que não teve outra opção que a de ceder frente ao incremento dos contágios e parar quase por completo. É uma opção entre a vida e a economia, que, agora, mostra seus efeitos e que depende da mesma capacidade de resposta.

A unidade da União Europeia pode enfrentar os efeitos da crise e superar a mesma, pois, separada, ela estará destinada a sucumbir a um cenário de pós-guerra, onde os recursos, em lugar de serem divididos, são requisitados pelos mais fortes.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Ursula Von der Leyen Presidente da Comissão Europeia” (Fonte): https://web.static-rmg.be/if/c_crop,w_1000,h_664,x_0,y_0,g_center/c_fit,w_620,h_411/2eb8ecda53f539aafeed6a2302bca6a0.jpg

Imagem 2 Banco Central Europeo” (Fonte): https://elglobal.es/wp-content/uploads/2020/01/image_content_232494_20170802000321.jpg

ANÁLISES DE CONJUNTURAEUROPA

A economia russa em tempos de COVID-19

Em 26 de março (2020), foi realizado um encontro virtual extraordinário pelo grupo das vinte maiores economias do mundo (G20) para coordenar uma resposta à pandemia do Coronavírus, uma vez que a crise sanitária ameaça a economia mundial de uma recessão prolongada. Conjuntamente, a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) reitera medidas de contenção cada vez mais rigorosas, necessárias para retardar a propagação do Covid-19, mas adverte que ocorrerão cenários que, necessariamente, levarão a declínios significativos no PIB (Produto Interno Bruto) de curto prazo para muitas das principais economias, de acordo com suas novas projeções.

Secretário Geral da OCDE – José Ángel Gurría

O secretário-geral da OCDE, Angel Gurría, revelou as últimas estimativas da Organização mostrando que o bloqueio afetará diretamente setores que totalizam até um terço do PIB nas principais economias. Para cada mês de contenção haverá uma perda de 2 pontos percentuais no crescimento anual do PIB.

A Federação Russa será uma das nações que terão sua perspectiva de crescimento econômico para 2020 afetada pelo desbalanceamento econômico global. A OCDE, através de seu relatório intitulado “Coronavirus: The World Economy at Risk” (tradução – Coronavírus: A Economia Mundial em Risco), cortou drasticamente sua previsão para a economia russa em torno de 25%, onde espera agora que o crescimento anual do PIB da Rússia chegue a apenas 1,2% em 2020 — abaixo dos 1,6% previstos no final de 2019.

Índice russo RTS

O relatório vem depois de uma semana histórica nos mercados financeiros, que viram bilhões de dólares serem dizimados à medida que os mercados de ações caíam. Na Rússia, o índice RTS* caiu 21% nas últimas semanas, pressionado para baixo à medida que os preços do petróleo caíam para US$ 24,63 (cotação do barril Brent em 27/03/20 – cerca de R$ 125,78**), menor valor nos últimos 17 anos. Preços mais baixos do petróleo pressionam o orçamento estatal russo, que ainda depende das exportações do óleo para uma parcela significativa de sua renda.

Reunião com Primeiro Ministro Mikhail Mishustin

A redução de 0,4 ponto percentual na previsão para 2020 para a Rússia foi proporcionalmente melhor do que a economia mundial como um todo, já que os economistas reduziram sua previsão para o crescimento global este ano de 2,9% para 2,4%. Apesar das quedas consecutivas da sua performance econômica, a Rússia se mantém otimista devido acontecimentos mundiais que consequentemente ajudarão na retomada da estabilidade econômica. Na última semana, a Organização Mundial da Saúde (OMS) disse que havia sinais de alguma estabilização no surto da Europa, com os bloqueios europeus começando a dar frutos. Enquanto isso, as autoridades monetárias e fiscais globais continuaram intensificando as medidas de alívio econômico.

A expectativa para a retomada da valorização do rublo (moeda nacional) em relação ao dólar americano é bastante esperada pelo Governo russo, depois de vários dias de negociações após seu dramático colapso assim que o país saiu do acordo de aliança petrolífera da OPEP+, no início de março.

Na última sexta feira, 3 de abril (2020), mercados financeiros do mundo, principalmente o russo, foram alimentados com a esperança de um novo acordo entre Arábia Saudita, Rússia e possivelmente EUA, a ser realizado em reunião que decidirá sobre cortes na produção de petróleo e na restauração do equilíbrio no mercado. O mercado de petróleo continua sob pressão de uma demanda em queda devido a restrições no transporte de pessoas e bens, impostas pelos governos para impedir a propagação da pandemia de COVID-19. Ao mesmo tempo, há um excesso de oferta devido à guerra de preços entre Riad e Moscou.

Para analistas financeiros, no nível global de investimentos, a atenção permanece sobre se os mercados acionários mundiais atingiram seu pior momento, ou se o recente rali para recuperação econômica é sinal de um “salto de gato morto”, ou seja, uma mini recuperação antes de uma queda contínua. Oliver Brennan, da T.S. Lombard, em uma nota de pesquisa publicada na quarta-feira (01/04/20), destaca como a incerteza sobre a disseminação do vírus e potenciais infecções, particularmente nos EUA, não deve justificar o otimismo do mercado ainda.

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Nota:

* O RTS Index (RTSI) é um índice sobre ações das 50 maiores empresas russas (à data de 17 de março de 2017) que são negociadas na Bolsa de Valores de Moscou (RTS Stock Exchange). A lista de ações que compõem o índice é revista trimestralmente pelo Comité de Informação do RTS. O índice foi criado com uma base 100, correspondente à capitalização das suas componentes no dia 1o de setembro de 1995. O mínimo histórico foi de 37,74 pontos no dia 5 de outubro de 1998 e o máximo histórico foi de 2.498,10 no dia 19 de maio de 2008.

** Cotação do dólar do mesmo dia – 1US$ = R$ 5,1066.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Tela digital COVID19” (Fonte): https://www.imf.org/en/Topics/imf-and-covid19/Policy-Responses-to-COVID-19

Imagem 2 Secretário Geral da OCDE José Ángel Gurría” (Fonte): https://en.wikipedia.org/wiki/JoséÁngel_Gurría#/media/File:Angel_Gurria-World_Economic_Forum_Annual_Meeting_2012(cropped).jpg

Imagem 3 Índice russo RTS” (Fonte): https://www.bloomberg.com/quote/RTSI$:IND

Imagem 4 Reunião com Primeiro Ministro Mikhail Mishustin” (Fonte): http://government.ru/en/news/39327/

ANÁLISES DE CONJUNTURAEUROPA

O significado do Brexit para a Ucrânia

Muito se especulou sobre as consequências para a União Europeia após a saída do Reino Unido, o chamado Brexit[1], mas seus reflexos vão além desse Bloco econômico, em especial para países vizinhos como a Ucrânia. Além disso, o distanciamento do Reino Unido tem uma dimensão que não é meramente econômica, afetando a Segurança e a Defesa do continente.

A combinação de crise com o crescente euroceticismo[2], e a necessidade de maior rigor na proteção às fronteiras devido aos fluxos de pessoas e mercadorias, reacende e fortalece movimentos nacionalistas com uma base xenofóbica na Europa. Nesse contexto, países da chamada “periferia europeia”, o que inclui economias menos prósperas do Mediterrâneo, além da Europa Oriental, e fatores de stress geopolítico – como a guerra na Síria – obrigam Bruxelas a identificar prioridades para manter a integridade da União Europeia.

Em termos globais, as disputas comerciais entre Estados Unidos e China, as crises de pandemias por conta de novas doenças que surgem, como o atual Covid-19, e conflitos nas bordas do continente europeu, tornam a situação muito complexa para sugerir quaisquer previsões futuras. Para a Ucrânia, a necessidade de tecer acordos com novos parceiros globais, como o Reino Unido, agora separado do bloco europeu, é urgente. Com a considerada ameaça russa no leste do país, aliada às instabilidades da União Europeia, dividida entre se expandir criando um ambiente de integração e harmonia vs. sua necessidade de segurança e protecionismo, não é criada uma visão segura para a política externa ucraniana. Embora o Brexit seja um afastamento radical de uma organização de longa data e história, a União Europeia, os políticos ucranianos podem usá-lo a seu favor para desenvolver ainda mais as relações britânico-ucranianas, sobretudo para atração de mais investimentos ao país.

COMÉRCIO

comprometimento como aliado do Reino Unido com a Ucrânia existe desde sua independência em 1991 e, provavelmente, será preservado. As regras comerciais, por sua vez, serão mantidas durante o ano de 2020, sofrendo alterações somente em 2021. Juntamente com Japão, Coreia do Sul, Arábia Saudita, Egito, Rússia e China, o Reino Unido é um dos mais importantes consumidores de alimentos mundiais, comprando mais da metade do que consome. Com sua saída da União Europeia, o Reino Unido poderá obter mais alimentos, particularmente, aves, milho, trigo, malte, sucos e mel da Ucrânia, sem os custos que eram impostos aos exportadores.

Como a União Europeia é um Bloco exportador de alimentos, com restrições à importação de produtos de fora, sua prioridade é proteger agricultores alemães e franceses. Dessa forma, o Brexit é uma grande oportunidade para que um país como a Ucrânia, exportador de itens agropecuários, possa ganhar mercado dentre os consumidores britânicos.

O Reino Unido absorve 42% das exportações metalúrgicas da Ucrânia, 18% dos derivados animais, 13% dos produtos agrícolas e 7,5% dos alimentos. A importação desses itens vai além do consumo humano, pois a criação de bois, cordeiros, porcos e a produção de laticínios, cerca de 2/3 do setor primário[3], dependem dos grãos ucranianos para fabricação de ração. Para manter os benefícios e ampliar o volume de trocas, ambos os países têm que agilizar seus acordos. Os ganhos de produtividade para os britânicos na produção de ração e laticínios apresentam grande potencial a ser explorado, sobretudo agora que as taxas aos produtos importados para proteção dos equivalentes alemães e franceses não irão mais existir.

As exportações da Ucrânia para o Reino Unido totalizaram US $ 580,4 milhões[4] até novembro de 2019 e as importações US $ 638,5 milhões[5]. Dentre os produtos importados pelo Reino Unido destacam-se minérios, como o ferro e derivados, caso do aço, além de milho, óleo e gorduras. Estima-se que o potencial total para negociar chegou a US $ 918 milhões[6], segundo dados de 2017, sendo que, no mesmo período, US $ 500 milhões[7] foram exportados, ou seja, há muito espaço para crescer. Segundo um estudo feito em 2017, o impacto econômico no comércio entre Ucrânia e Reino Unido com a assinatura de um Acordo para a construção de uma Área de Livre Comércio, com base em dados de 2013-2016, levaria a um aumento de cerca de US $ 0,5 milhão[8] em reduções e US $ 335 milhões[9] em cotas tarifárias.

Por outro lado, como a Ucrânia já está negociando com o Bloco europeu, a forma como se estabelecerá o comércio entre ela e o Reino Unido pode ser um obstáculo. As oportunidades criadas vão depender do formato final do acordo entre as partes. Se ainda não houver nenhum consenso entre Reino Unido e União Europeia, as relações comerciais entre ambos serão reguladas pela Organização Mundial do Comércio, com mais regulamentações e tarifas. E por mais estratégico que seja o mercado britânico, é importante que a Ucrânia não perca de vista o potencial de importação e consumo da União Europeia, que abarca mais de 440 milhões de habitantes.

MIGRAÇÃO

Um dos pontos chaves é a questão da migração. As novas regras para migrar ao Reino Unido devem ser efetivadas em 1º de janeiro de 2021. Dentre as mudanças mais drásticas está a atribuição de pontos para selecionar imigrantes que desejam trabalhar no seu território, o que pretende beneficiar a mão de obra especializada em áreas de maior demanda.

O antigo programa de isenção de vistos entre a Ucrânia e o Reino Unido se dava através das regulamentações da União Europeia e, necessariamente, sofrerá revisão. Como Kiev já tomou a iniciativa de liberar vistos para os cidadãos britânicos até 2021, agora espera por reciprocidade do Reino Unido.

UNIÃO EUROPEIA

Os britânicos foram aliados particularmente importantes no apoio à entrada da Ucrânia na União Europeia, que, agora, terá de procurar novos parceiros para atingir o objetivo de ingressar no Bloco. Independentemente da presença ou não do Reino Unido, o que dificulta o ingresso da Ucrânia se deve mais às crises geradas pelos casos recorrentes de corrupção e a guerra no leste.

Putin, Macron, Merkel e Zelensky, 2019

O combate à corrupção é um dos pontos nevrálgicos para participação na União. Em 2018, os parlamentares europeus adotaram uma emenda ao Projeto de Lei sobre Sanções e Lavagem de Dinheiro da Lei Magnitsky, que prevê o congelamento de bens e sanções para violadores dos direitos humanos. A formulação de políticas para os negócios e esforços no combate à corrupção são, praticamente, pré-condições para atração de investimentos britânicos ao país.

SEGURANÇA E DEFESA

O Reino Unido foi um forte apoiador da Ucrânia contra a Rússia[10]. Apesar do temor pelo seu afastamento dos assuntos continentais, o país sempre teve um intenso compromisso contra as agressões aos vizinhos do Bloco europeu. No que tange à Rússia, por exemplo: “Hoje, dificilmente é possível falar sobre qualquer influência significativa da Rússia na política externa de Londres no contexto do apoio à Ucrânia. A Grã-Bretanha imediatamente apoiou a Ucrânia após a anexação da Crimeia e a agressão no Donbass e mudou muito sua política em relação a Moscou, defendendo uma dura política de sanções contra o Kremlin, expulsando a Rússia do G7 e congelando os mecanismos de cooperação bilateral”.

Zelensky em visita à Bruxelas, 2019

Existe, no entanto, a percepção de que, com o Brexit, um aliado na defesa contra a Rússia se foi. Emmanuel Macron já fala em incorporar a Rússia através de um espaço comercial integrado à União Europeia e Angela Merkel é contra as sanções aplicadas às empresas responsáveis pela construção do gasoduto Nord Stream II[11]. Com tantos interesses econômicos favoráveis à Federação Russa na União Europeia, e seu território fragmentado devido à guerrilha fomentada por Moscou, as políticas para a defesa da Ucrânia perderam força. Se uma maior fragmentação da Europa seria um presente para Vladimir Putin, o euroceticismo mostra-se uma força interna que fomenta esta divisão e isto representa um risco para a Ucrânia com a perda de apoio para enfrentar agressões externas: “O Brexit é, sem dúvida, a vitória dos eurocéticos e o golpe para os euro-otimistas, o que causará dificuldades políticas significativas em primeiro lugar para os países da Europa Oriental. Sabe-se que Londres sempre atuou como advogada e parceira da Europa Oriental – Polônia, países bálticos, Escandinávia. (…). Além disso, o Brexit provavelmente desencadeará uma reação em cadeia quando os eurocéticos começarem a agitar as coisas e levantar questões políticas sobre referendos. Nesse caso, Dinamarca, Países Baixos e possivelmente Suécia serão os próximos a deixar a UE”.

Embora o Reino Unido nunca tenha participado ativamente do grupo de discussões para a paz na Ucrânia, o chamado Formato da Normandia[12], sempre foi um aliado próximo, sobretudo após a anexação da Crimeia pela Rússia. No passado, Londres apoiou reformas promovidas por Kiev na modernização do Estado, agora Kiev vai precisar desenvolver a cooperação com outros países, demonstrando a capacidade de seu Ministério das Relações Exteriores.

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Notas:

[1] Brexit é um acrônimo para “British exit”, que significa, em uma tradução literal para o português, “saída Britânica”. A expressão se refere ao processo de saída do Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda do Norte da União Europeia, após 47 anos como membro.

[2] Euroceticismo, diz-se do sentimento de ceticismo em relação aos propósitos, premissas e desempenho da União Europeia. Há neste movimento desde visões econômicas mais liberais contra as ordens e regulamentações do establishment burocrático europeu, até movimentos díspares, antiliberais, e nacionalistas saudosos de uma ordem política anterior e de matizes protecionistas e isolacionistas na política externa.

[3] Setor Primário da Economia corresponde ao setor mais antigo, extrativismo (mineral, animal, vegetal), agricultura e pecuária.

[4] 3,021 bilhões de reais, no câmbio de 31 de março de 2020.

[5] 3,323 bilhões de reais, no câmbio de 31 de março de 2020.

[6] 4,778 bilhões de reais, no câmbio de 31 de março de 2020.

[7] 2,602 bilhões de reais, no câmbio de 31 de março de 2020.

[8] 2,6 milhões de reais, no câmbio de 31 de março de 2020.

[9] 1,743 bilhões de reais, no câmbio de 31 de março de 2020.

[10] A Ucrânia se situa entre dois principais atores do cenário geopolítico e geoestratégico, a União Europeia/Otan e a Federação Russa, está muito mais próxima, não só geograficamente falando. Como um de seus principais aliados não se encontra mais na União Europeia, resta a Kiev costurar uma nova política externa que busque sustentação e crescimento econômicos. Uma parte disto se encaminha com os acordos feitos fora do continente europeu, seja com a Turquia, seja com Omã e, agora, com o Reino Unido. Se Kiev conseguir fazer o mesmo com Bruxelas, poderá ser um dos sócios preferenciais do bloco econômico, mas, nesse jogo, o difícil será não sofrer nenhuma influência contrária e indireta de Moscou, já que a Alemanha de Merkel e a França de Macron parecem cansar do cabo de guerra com o gigante do leste. Não se trata de uma opção fácil, pois a Europa também necessita muito do gás russo. Kiev tem pressa e a diplomacia ucraniana vai ter que ser ágil o suficiente para compensar qualquer possível perda com os europeus. A Ucrânia é um país com muito potencial econômico, dado por sua demografia, localização estratégica, recursos, solos etc. O que ela necessita é um poder de articulação para criar interdependências entre outros Estados dentro e fora da Europa. Sua autonomia, segurança e paz estão cada vez mais ligadas ao conceito de globalização.

[11] Nord Stream 2 é uma nova linha de transporte de gás da Rússia, através do Mar Báltico, diretamente para seus consumidores europeus. O projeto, implementado pela estatal russa, Gazprom, deverá ser concluído ainda este ano, 2020.

[12] Formato Normandiafoi um encontro diplomático entre os quatro representantes da Rússia, Ucrânia, França e Alemanha, para apaziguar a crescente guerra no Donbass. Levou esse nome por ocorrer em 6 de junho de 2014, paralelamente às comemorações do desembarque na Normandia.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 “Brexit” (Fonte):  https://www.wallpaperflare.com/breakdown-brexit-britain-british-economy-eu-euro-europe-wallpaper-ecjaz/download/1920×1080

Imagem 2 “Putin, Macron, Merkel e Zelensky, 2019” (Fonte): https://en.m.wikipedia.org/wiki/File:Putin,Macron,_Merkel,_Zelensky(2019-12-10)_01.jpg

Imagem 3 “Zelensky em visita à Bruxelas, 2019” (Fonte): https://ar.m.wikipedia.org/wiki/%D9%85%D9%84%D9%81:Volodymyr_Zelensky_visits_Brussels_2019.j