ANÁLISES DE CONJUNTURAEUROPAORIENTE MÉDIO

O Papa na Terra Santa: Visita Pastoral com Significado Político

Em 1964, o Papa Paulo VI inaugurou os novos passos da Igreja e, pela primeira vez, foi além dos limites do Vaticano, iniciando o ciclo de viagens ao exterior. Em 4 de Janeiro de 1964, o então Bispo de Roma chegou à Terra Santa e entrou em Jerusalém pela Porta de Damasco. Uma nova tradição foi criada e, desde aquela época, a Terra das três religiões do Livro (Judaísmo, Cristianismo e Islamismo) acolheu várias visitas papais. A visita do Papa Francisco, que chegou à Terra Santa no final da semana passada, foi recebida com satisfação pela comunidade católica, apesar de muitos não terem ocultado a decepção pelo fato de ela ser curta e ter tido apenas um evento totalmente aberto ao público, realizado a Oeste do Rio Jordão. Por outro lado, parte da decepção deve-se ao fato de o Papa não incluir na sua agenda Nazaré e a Galileia, onde existe uma importante comunidade cristã[1].  O Papa Francisco chegou à Terra Santa no momento em que o número de cristãos está se reduzindo ante as dificuldades enfrentadas na região, sendo a imigração o caminho escolhido por eles[2].

A peregrinação papal teve como objetivo principal unir as Igrejas cristãs e o calendário da viagem foi muito bem ajustado pela diplomacia do Vaticano para evitar que episódios parecidos com aqueles que ocorreram em 2009, quando da visita do Papa Bento XVI, voltassem a ocorrer. Naquela altura, em Israel, o discurso do Papa não foi considerado suficientemente forte quanto à condenação do Holocausto, pois ele não responsabilizou os nazistas e não pediu perdão aos judeus. A estas questões, somou-se o equívoco cometido pelo Vaticano ao negar a participação do então Papa como membro da Hitlerjugend (Juventude Hitlerista). Quanto aos palestinos, eles ficaram satisfeitos com as críticas do Papa ao muro de contenção, mas Bento XVI foi censurado por não ter visitado Gaza e por não ter exigido, a Israel, medidas de proteção como fez em relação à Palestina[3].

Meio século após a visita de Paulo VI àquela região, nos dias 24, 25 e 26 de maio, o Papa Francisco realizou uma peregrinação apostólica de caráter ecumênico à Jordânia, aos Territórios Palestinos e a Israel. Desde o princípio, a sua viagem foi marcada por contestações por parte dos fiéis mais radicais do judaísmo. O fato de a última missa celebrada ter acontecido no Cenáculo (local da Última Ceia de Jesus Cristo com os seus discípulos), desagradou aos judeus ultra-ortodoxos, pois nesse local encontra-se, também, o túmulo do Rei Davi. Neste espaço, a visita dos peregrinos cristãos é permitida, mas as orações sejam proibidas[4]

A imprensa local abordou a dificuldade de se alcançar um possível acordo bilateral entre Israel e a Santa Sé. Segundo o jornal Ha’aretz, os “crimes de ódio[5] somados aos “protestos dos judeus ultra-ortodoxos têm empurrado essa comissão [Comissão Bilateral Permanente de Trabalho entre a Santa Sé e o Estado de Israel] para a ribalta. Por 15 anos eles têm se esforçado para negociar um acordo financeiro entre Israel e a Santa Sé sobre os direitos de propriedade da Igreja e suas obrigações fiscais”[6].

Recentemente, uma notícia a respeito de um suposto acordo que teria dado ao Vaticano a soberania sobre o Monte Sião, gerou muitos protestos por parte dos ultra-ortodoxos. O Embaixador de Israel no Vaticano, Zion Evrony, através de e-mail enviado ao Ha’aretz,comunicou que nenhum acordo foi finalizado, tendo ainda afirmado que “o Estado de Israel não tem a intenção de transferir para a soberania do Vaticano a propriedade do Cenáculo ou qualquer outra parte do complexo do Monte Sião[7].

Apesar das dificuldades iniciais, o Bispo de Roma compareceu a encontros com os representantes das três religiões monoteístas e demonstrou, através de gestos, mensagens políticas que refletem a situação vivida pelas populações locais. Em sua caminhada, ele parou para rezar em frente ao muro de contenção que separa israelenses e palestinos e manteve encontros com os representantes de Israel e da Palestina.

No encontro com o Presidente da Autoridade Nacional Palestina, Mahmoud Abbas, o Papa obteve as informações sobre os obstáculos ao processo de paz e as dificuldades enfrentadas por muçulmanos e cristãos, que têm levado à imigração, bem como a questão dos assentamentos e de Jerusalém[8]. No encontro com o Primeiro Ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, o Papa Francisco quebrou mais um protocolo e aceitou o convite de Netanyahu para visitar um espaço de homenagem de israelenses mortos em atentados terroristas[9].

O Papa Francisco demonstrou preocupação em relação ao processo de paz, tendo pedido entendimentos entre Israel e a Palestina e implorado pelo fim do conflito na região: “Para o bem de todos, há uma necessidade de intensificar os esforços, as iniciativas e as ações que visam criar as condições para uma paz estável baseada na justiça, no reconhecimento dos direitos de cada pessoa, e sobre a segurança mútua. Chegou o momento para que cada um possa encontrar a coragem para ser generoso e criativo a serviço do bem comum, a coragem para forjar a paz que repousa no reconhecimento por todos do direito de dois Estados existirem e viverem em paz e segurança dentro de fronteiras internacionalmente reconhecidas[10].

O apelo à paz, feito pelo Papa, assim como a proposta de solução do conflito a partir da existência de dois Estados, refletem uma atitude política de um Chefe de Estado que, durante esta viagem, demonstrou empenho não somente religioso. É preciso salientar que os cristãos que vivem naquela região, de certo modo, também cobram um esforço político do líder da Igreja Católica.

Os cristãos de Iqrit, uma aldeia que fica a norte de Israel, na fronteira com o Líbano, há muitos anos reclamam o direito de retornar à terra natal. Em 1948, Israel solicitou que os 450 moradores deixassem as suas casas por duas semanas, por medida de segurança devido às operações militares no local. Porém, o retorno dos aldeões nunca aconteceu. Em 1951, a Suprema Corte de Israel determinou o retorno dos moradores, mas a decisão não foi cumprida pelo Estado e, meses depois, toda a aldeia foi destruída pelas Forças de Defesa de Israel, restando apenas a Igreja de Iqrit e o cemitério. A população católica de Iqrit e de uma aldeia vizinha, Kufr Birim, escreveu uma carta ao Sumo Pontífice pedindo a sua intervenção junto ao Estado israelense para que seja reestabelecida a justiça e que possam retornar às terras de origem[11].

A Igreja de Iqrit, para além de um templo religioso, é o símbolo da memória e da resistência de um povo que clama por justiça. No âmbito político das negociações, o Papa Francisco abriu a possibilidade para uma nova tentativa de paz entre Israel e a Palestina. No final da missa realizada na Praça da Manjedoura, em Belém, o Papa convidou o Presidente de Israel, Shimon Peres, e o Presidente da Autoridade Nacional Palestina, Mahmoud Abbas, para “orarem pela paz”, tendo aberto as portas do Vaticano para receber os dois líderes. O convite foi aceito por Peres e Abbas[12], o que possibilita a reabertura de um novo processo de paz.

O encontro de Shimon Peres e Mahmoud Abbas, no Vaticano, está previsto para junho, mas a data ainda não foi acertada[13]. De certo modo, isto significa um avanço, principalmente entre Israel e o Vaticano, cujas relações diplomáticas foram estabelecidas em 1994, durante o pontificado do Papa João Paulo II[14]. A visita do Papa Francisco à Terra Santa, além de ter contribuído para o reforço da presença católica no Oriente Médio, reabriu os caminhos do diálogo israelo-palestino, interrompido com o final das negociações de paz em abril passado[15].

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Imagem Papa Francisco no Muro das Lamentações – Jerusalém” (Fonte):

http://timedotcom.files.wordpress.com/2014/05/pope_mideast.jpg?w=1100

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Fontes consultadas:

[1] Ver:

http://www.haaretz.com/travel-in-israel/religion-relics/pope-holy-land-visit/.premium-1.590566

[2] Ver:

http://internacional.elpais.com/internacional/2014/05/18/actualidad/1400441159_190909.html

[3] Ver:

http://www.haaretz.com/opinion/.premium-1.590027

[4] Ver:

http://internacional.elpais.com/internacional/2014/05/18/actualidad/1400441159_190909.html

[5] Ver:

https://ceiri.news/crimes-de-odio-ensombram-visita-papa-terra-santa/

[6] Ver:

http://www.haaretz.com/travel-in-israel/religion-relics/pope-holy-land-visit/.premium-1.591298

[7] Ver:

http://www.haaretz.com/travel-in-israel/religion-relics/pope-holy-land-visit/.premium-1.591298

[8] Ver:

http://www.jpost.com/Middle-East/The-message-of-Christ-is-still-alive-in-Bethlehem-353278

[9] Ver:

http://g1.globo.com/bom-dia-brasil/noticia/2014/05/papa-francisco-termina-viagem-cheia-de-surpresas-pela-terra-santa.html

[10] Ver:

http://www.jpost.com/Middle-East/The-message-of-Christ-is-still-alive-in-Bethlehem-353278

[11] Ver:

http://www.maannews.net/eng/ViewDetails.aspx?ID=698930

[12] Ver:

http://www.gazetadopovo.com.br/mundo/conteudo.phtml?tl=1&id=1471325&tit=Israelenses-e-palestinos-aceitam-convite-do-Vaticano

[13] Ver:

http://www.gazetadopovo.com.br/mundo/conteudo.phtml?tl=1&id=1471325&tit=Israelenses-e-palestinos-aceitam-convite-do-Vaticano

[14] Ver:

http://www.cbnfoz.com.br/editorial/mundo/27042014-130850-popular-papa-joao-paulo-ii-deixou-a-igreja-catolica-simpatica-aos-fieis

[15] Ver:

https://ceiri.news/israel-suspende-negociacoes-com-palestinos-apos-acordo-entre-o-fatah-e-o-hamas/

                  

AMÉRICA LATINAANÁLISES DE CONJUNTURAEUROPA

Sobre o Acordo Nuclear Brasil – Alemanha

Historicamente, a emergência da Alemanha como potência industrial possibilitou ao Brasil maior capacidade de negociação vis-a-vis dos Estados Unidos, na medida em que constituiu não só uma opção de comércio, mas, igualmente, uma fonte de investimentos e tecnologia. Apesar de devastada na 2ª Guerra Mundial, a Alemanha Ocidental logo se recuperou e, em pleno boom econômico, destinou de 1952 até o curso dos anos 70 a maior parte de seus investimentos ao Brasil. Em “O ‘Milagre Alemão’ e o Desenvolvimento do Brasil 1949-2011”, o professor Moniz Bandeira dá uma ampla visão desse tema.

À época, a Alemanha chegou a ser o segundo parceiro comercial do Brasil, atrás apenas dos EUA. A lógica indica que, no futuro, a Alemanha continuará a ser importante parceira tecnológica e comercial do Brasil, havendo inclusive um grande potencial para revitalização desta parceria.

A Alemanha teve importante participação na industrialização brasileira e existem dezenas de firmas alemãs instaladas no Brasil, dentre elas as maiores. Um dos programas tecnológicos e industriais mais relevantes no período foi o que decorreu do Acordo Nuclear Brasil – Alemanha, firmado em 1975.

Neste contexto, em 14 de março de 2014, a Agência Câmara noticiou que parlamentares estariam se mobilizando para impedir que o Acordo Nuclear Brasil-Alemanha, firmado em 27 de junho de 1975, fosse renovado automaticamente. Mesmo que haja restrições de natureza política à ampliação da colaboração na área nuclear, tendo em vista o reposicionamento da Alemanha em relação à utilização desta fonte primária na sua matriz energética, é muito importante que os compromissos em vigor sejam cumpridos e honrados para evitar um ambiente de instabilidade e incertezas no relacionamento tecnológico e comercial entre os dois países.

O Acordo Nuclear Brasil – Alemanha sobre os Usos Pacíficos de Energia Nuclear de 27 de junho 1975 encontra-se ativo, conforme se pode verificar no Sistema de Atos Internacionais do Ministério de Relações Exteriores, tendo entrado em vigor em 18 de novembro de 1975. Seu texto completo encontra-se disponível nesse sistema. Esse Acordo foi aprovado pelo Congresso Nacional pelo Decreto Legislativo nº 85, de 20 de outubro de 1975 e promulgado pelo Decreto Nº 76.695, de 1 de dezembro de 1975.

O Acordo estabelece as seguintes condições para sua vigência: Artigo 11 (1) O Presente Acordo entrará em vigor, por troca de notas, tão cedo quanto possível. (2) A vigência do presente Acordo será de quinze anos, contados a partir do dia fixado nas notas trocadas conforme o item (1) acima, e prorrogar-se-á tacitamente por períodos de cinco anos, desde que não seja denunciado por uma das Partes Contratantes pelo menos doze meses antes de sua expiração. (3) As medidas de salvaguardas e de Proteção física, necessárias em decorrência do presente Acordo, não serão afetadas pela expiração do mesmo.

Sua vigência inicial de 15 anos ocorreu até 17 de novembro de 1990, estando até o presente tacitamente prorrogado até 17 de novembro de 2020 desde que Brasil ou Alemanha não o denunciem até 17 de novembro de 2014. Uma eventual denúncia do Acordo pelo Brasil, salvo melhor juízo, teria que ser proposta pelo Executivo e aprovada pelo Congresso Nacional, por Decreto Legislativo.

Este acordo tem uma longa história. Fato é que, hoje, ele permanece em vigor pelo Acordo por Troca de Notas ao Acordo entre o Brasil e a Alemanha sobre Cooperação no Setor de Energia com foco em Energias Renováveis e Eficiência Energética, cuja celebração e entrada em vigor ocorreram em 14 de maio de 2008. Nesse Acordo, as Partes assumem o compromisso de respeitar o Acordo de 27 de junho 1975 e demais Acordos sobre o assunto.

Uma análise detalhada dos artigos do Acordo Nuclear Brasil-Alemanha de 1975 leva à conclusão de que a sua denúncia por uma das partes traria poucas consequências práticas para instituições de pesquisa científica e tecnológica (basicamente os institutos da Comissão Nacional de Energia NuclearCNEN) e as empresas nacionais (Eletronuclear, INB e NUCLEP) nele envolvidas. As relações hoje existentes entre as instituições de pesquisa científica e tecnológica são regidas por acordos específicos que, a princípio, não seriam cancelados automaticamente pela eventual denúncia do Acordo Nuclear de 1975. As relações existentes entre as empresas nacionais e seus fornecedores alemães são regidas por contratos comerciais que também não seriam imediatamente afetados. Também não existe nenhum financiamento ou concessão de crédito de origem alemã para institutos ou empresas nacionais.

Restaria apenas uma potencial consequência decorrente da possibilidade de que a Alemanha, face uma eventual denúncia do Acordo pelo Brasil, passasse a negar ou procrastinar autorizações de exportação para o Brasil de equipamentos e materiais nucleares. Entretanto, ao fazer isso, os alemães estariam ignorando o fiel cumprimento pelo Brasil de seus compromissos com a não proliferação nuclear, verificados regularmente pela AIEA pelo cumprimento do Acordo de Salvaguardas abrangentes em vigor. Tal fato teria certamente consequências políticas e comerciais tão sérias que nos fazem crer que essa não seria a postura a ser adotada pela Alemanha.

O Brasil tem um Acordo de Salvaguardas abrangentes firmado desde 1991 (INFCIRC/435) que garante que os compromissos com a não proliferação de armas nucleares assumidos pelo Acordo anterior firmado especificamente para salvaguardar as atividades do Acordo Nuclear de 1975 estão mantidos, independentemente do Acordo Nuclear de 1975 (INFCIRC/237), e posteriormente suspenso com a entrada em vigor do INFCIRC/435, conforme Protocolo Adicional específico. Sob essas condições, não seria razoável que a Alemanha passasse a negar autorizações de exportações para o Brasil de equipamentos e materiais, caso o Acordo Nuclear de 1975 fosse denunciado. Entretanto, não se pode descartar, a priori, a possibilidade de que a obtenção dessas autorizações passe a ser mais difícil e demorada.

Cumpre, entretanto, ressaltar que uma iniciativa brasileira no sentido de denunciar o Acordo seria uma atitude inconsequente e lesiva ao interesse público, considerando que a construção de Angra 3 está em avançado estágio; que Angra 2 opera com elevadíssimo nível de desempenho; que a fabricação de combustível nuclear no Brasil é de alta qualidade e, como as atuais dificuldades do sistema elétrico nacional indicam, o país não pode abrir mão da geração elétrica nuclear para garantir o abastecimento atual e a necessária expansão do consumo de eletricidade no futuro. Como tal iniciativa dependeria de um Decreto Legislativo, aprovado pela Câmara e Senado por maioria simples, acreditamos que o bom senso prevaleça e o mesmo não venha a ser votado em plenário até 17 de novembro próximo, caso venha a ser proposto por algum parlamentar, ainda mais considerando o calendário eleitoral deste ano.

Se alguém tivesse que denunciar o Acordo Nuclear de 1975, faria muito mais sentido se fosse a própria Alemanha (e não o Brasil), tendo em vista a guinada que ela mesma imprimiu à sua política nuclear – note-se que não houve nenhuma ação do Governo Alemão nesse sentido. A pressão junto ao nosso Congresso para a denúncia pelo Brasil vem de grupos políticos que não questionam o Acordo de 1975 per se, mas sim a própria possibilidade de uso da energia nuclear no País. Contudo, diferentemente da Alemanha, o Brasil não abriu mão de que a geração elétrica nuclear venha desempenhar um papel com crescente importância na nossa matriz energética.

Pelo contrário, a situação atual do sistema elétrico nacional indica a necessidade de ampliação da geração termoelétrica na base, para a qual a nucleoeletricidade é a opção mais barata e limpa. Note-se que, na Alemanha, essa geração na base é feita pelo carvão e o abandono do nuclear tem se refletido num significativo aumento na produção de gases de efeito estufa por esse país nos últimos anos.

Nesse sentido, enquanto permanecer essa situação, não deveríamos dar nenhum passo que ponha em risco – por menor que ele seja – as possibilidades de aportes externos para o desenvolvimento dessa fonte de energia no nosso território, seja mediante esquemas de cooperação, seja por meio da exportação de materiais e equipamentos nucleares. A não ser que haja benefícios concretos, que não se consegue vislumbrar no caso em tela, que deixem esse risco em segundo plano.

 

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Fonte consultada:

Avaliação de Leonam dos Santos Guimarães: Doutor em Engenharia, Diretor de Planejamento, Gestão e Meio Ambiente da Eletrobrás Eletronuclear e membro do Grupo Permanente de Assessoria do Diretor-Geral da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA).

 

ANÁLISES DE CONJUNTURAEUROPA

El rol del Papa Francisco en la agenda internacional

La elección el 13 de marzo de 2013 del ex cardenal argentino Jorge Mario Bergoglio como Papa de la Iglesia católica impactó de forma contundente en el escenario internacional. Siendo el primer jesuita y latinoamericano que asume este cargo, Francisco es –además de líder máximo de esta religión- Jefe de Estado de la Ciudad del Vaticano. Cumplido un año de su pontificado, se ha consolidado como un actor político de peso, rol que ha ejercido tanto en las múltiples audiencias que ha mantenido con diversos líderes del mundo como en las declaraciones públicas que ha realizado sobre problemáticas internacionales de la actualidad: consecuencias negativas del sistema financiero internacional, situación irregular de los migrantes, crisis política en Venezuela y Ucrania y riesgo de intervención militar en Siria.

En este sentido, la primera reunión política que ha organizado como Pontífice ha sido con la Presidenta de su país, Cristina Fernández de Kirchner. A pesar de que su vínculo había sido conflictivo –en los últimos años ni siquiera tenían diálogo-, la primera mandataria argentina ha viajado en dos oportunidades al Vaticano y ha mantenido una audiencia privada en ocasión de la “XXVIII Jornada Mundial de la Juventud (JMJ)”, en Brasil. El 17 de marzo de este año, en su último encuentro, ha manifestado que los temas principales que abordaron fueron la economía y las desigualdades que ésta acarrea, las dificultades de los jóvenes para conseguir empleo y los conflictos políticos en Ucrania y Venezuela[1]. Como puede observarse, Francisco sigue al tanto de la actualidad política de su país y en múltiples oportunidades ha realizado declaraciones públicas sobre ella.

Sin embargo, su proyección internacional se constata fundamentalmente en el diálogo que ha establecido con los líderes de las principales potencias del mundo, entre ellos, Ángela Merkel, Vladimir Putin, François Hollande y Barack Obama. La Canciller alemana solicitó una audiencia en respuesta a declaraciones del Papa atribuyendo responsabilidad a la “Unión Europea” por la crisis económica que castiga Europa. Fue por ello que el 18 de mayo de 2013 conversaron en el Vaticano sobre este tema, así como sobre la protección a los “Derechos Humanos”, la importancia del desarrollo sustentable y la proyección de los valores de la comunidad europea a través de su modelo de gobernanza global[2]. Cabe destacar que la cuestión del medio ambiente y la naturaleza continúa en la agenda del Vaticano, e incluso se ha adelantado que Francisco está preparando un documento público sobre el tema.

Por otra parte, la histórica reunión que mantuvo con el Presidente ruso Vladimir Putin también se desencadenó a partir de un conflicto coyuntural: la situación política en Siria y el debate en foros multilaterales sobre una posible intervención armada. Previamente, le había enviado una carta dirigida al “Grupo de los 20” (G-20) en la de que declaraba que “desgraciadamente, duele constatar que demasiados intereses han prevalecido desde que comenzó el conflicto en Siria, impidiendo encontrar una solución que evitase la inútil masacre a la que estamos asistiendo[3]. También apeló a los allí reunidos para que encuentren otras vías que eviten el ataque militar y, a la vez, acaben con la violencia[3]. Sobre esta problemática y sobre la seguridad de los cristianos en Oriente versó la audiencia del 26 de noviembre de 2013, en la que discutieron cómo brindar asistencia humanitaria en Damasco, destruir las armas químicas -si las hubiere-  y asegurar la paz mediante mecanismos de negociación internacionales[4].

De diferente naturaleza fue el encuentro con el Presidente francés Hollande el 24 de enero de este año, dado que coincidió con el escándalo suscitado por una supuesta infidelidad a su pareja. Muchos analistas internacionales, incluso, aludieron que fue éste el motivo real por el que se acercó al líder católico: con el objetivo de mejorar su imagen pública. Las cuestiones de agenda que discutieron fueron aborto, medio ambiente e inmigración, así como la violencia en Siria[5]. Por último, el 27 de marzo el Presidente de Estados Unidos Barack Obama viajó al Vaticano para conocer al Pontífice. En la audiencia comentaron la situación de los migrantes en el país, las desigualdades económicas, la pobreza y la urgencia por garantizar paz en “Medio Oriente”. Al finalizar, en un acto simbólico, respaldó el protagonismo de Francisco en los asuntos internacionales, afirmando que “la suya es una voz que el mundo debe escuchar[6].

En lo que refiere América Latina, su región, ha establecido diálogo con los Presidentes de Bolivia, Brasil, Surinam y Uruguay. Los primeros tres han participado en la ceremonia de cierre de la JMJ el 28 de julio de 2013. Al respecto, el primer mandatario boliviano Evo Morales declaró que “el papa dijo que para ser cristiano hay que ser revolucionario, y yo lo soy[7]. Con la Presidenta de Brasil Dilma Rousseff también se ha encontrado en dos audiencias privadas, la última de ellas el 21 de febrero de este año. En un clima de cordialidad, Rousseff comentó que el tema central sobre el que conversaron fue el “Mundial de Fútbol” que se realizará en Brasil este año (2014): “vine a decirle al Papa que vamos a hacer una Copa con un tema muy importante, por la paz, contra el racismo[8]. Con quien también tiene un vínculo cercano es con el Presidente de Uruguay José “Pepe” Mujica. Las temáticas sobre las que dialogaron el primero de junio de 2013 fueron el respeto a los “Derechos Humanos”, la paz y la justicia social, así como las contradicciones del sistema económico imperante. También recordaron al destacado pensador uruguayo Alberto Methol Ferré, católico y latinoamericanista, quien fue un referente para ambos[9]. Lo llamativo de su vínculo es que el Presidente uruguayo se reconoce ateo, lo que confirma que los lazos que lo unen al Papa no son religiosos sino políticos, sociales y culturales.

Más allá de las reuniones bilaterales, Francisco ha expresado su posición sobre diversos asuntos internacionales en actividades, declaraciones y documentos públicos. El más relevante de ellos fue su visita en julio de 2013 a Lampedusa, una isla al sur de Sicilia que por estar a sólo 113 kilómetros de África se ha convertido en la principal ruta de ingreso ilegal de africanos a Europa. Allí denunció la responsabilidad que el mundo tiene con esa problemática, reclamando que “la ilusión por lo insignificante, por lo provisional, nos lleva hacia la indiferencia hacia los otros, nos lleva a la globalización de la indiferencia[10].

Las inmigraciones han sido, por lo tanto, una de las preocupaciones fundamentales del Pontífice. Por otro lado, también ha expresado en numerosas oportunidades su disconformidad con el sistema económico internacional imperante. En relación a ello, resulta fundamental el contenido de su primera “exhortación apostólica”, “Evangeli Gaudium”, publicada el 24 de noviembre de 2013. En ella rechaza “la economía de la exclusión y la inequidad[11], se declara en contra de la “teoría del derrame” que sostiene que el crecimiento económico por sí mismo genera beneficios para toda la población, argumenta que “la crisis mundial se debe al fetichismo del dinero y la dictadura de la economía[11], y reivindica el papel activo del Estado, aclarando que “el dinero debe servir y no gobernar[11]. En el mismo sentido ha solicitado en un Mensaje al “Foro de Davos” –“Foro Económico Mundial”- en enero del último año que no olviden “que la riqueza sirva a la humanidad y no la gobierne[12]. Por último, en relación a los últimos conflictos políticos, el 2 de marzo ha pedido que se favorezca el diálogo y la concordia en la región de Crimea, en Ucrania, sosteniendo “espero que todas las partes estén actuando para superar incomprensiones y construir juntos el futuro de la nación[13]. Aún más, el 3 de septiembre de 2013 utilizó la popular red social Twitter para condenar el uso de armas químicas en Siria[14].

En síntesis, se puede afirmar que el liderazgo del Papa Francisco no se expresa sólo en el plano religioso sino también en un posicionamiento político y económico, que está conformando una doctrina. De este análisis de su primer año de Pontificado, surgen los siguientes elementos principales: 1) duras críticas al libre mercado, las desigualdades y la teoría económica del derrame, y reivindicación del rol activo del Estado; 2) preocupación por la seguridad y el trato a los migrantes internacionales –legales o ilegales-, por la corrupción y la preservación del medio ambiente; 3) defensa de la paz internacional, la solución de conflictos políticos internos que pongan en peligro a los pueblos –como en Siria, Ucrania y Venezuela– y rechazo a uso de armas químicas y medios militares de ataque. Se concluye así que el papel de Francisco en la coyuntura política internacional es sin dudas activo, contundente y dirigido a la acción. Corresponderá, por lo tanto, continuar estudiando su influencia como líder político en el mundo.

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Imagen La prestigiosa revista Time lo eligió Persona del año en 2013” (Fuente:“Huffington Post”):

http://www.huffingtonpost.com/2013/12/11/time-person-of-year-2013-pope-francis_n_4421292.html

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Fuentes consultadas:

[1] Ver:

http://www.telam.com.ar/notas/201403/55555-cristina-se-reune-con-el-papa-en-santa-marta-en-un-encuentro-a-agenda-abierta.html

[2] Ver:

http://www.lanacion.com.ar/1583271-el-papa-francisco-recibio-a-angela-merkel

[3] Ver:

http://www.telesurtv.net/articulos/2013/09/05/papa-francisco-insta-al-g20-a-rechazar-el-ataque-a-siria-que-organiza-ee.uu-4011.html

[4] Ver:

http://es.rbth.com/internacional/2013/11/26/encuentro_historico_entre_el_papa_francisco_y_putin_en_el_vatic_34757.html

[5] Ver:

http://www.elmundo.es/internacional/2014/01/24/52e28a8dca4741070c8b4575.html

[6] Ver:

http://internacional.elpais.com/internacional/2014/03/27/actualidad/1395911738_266596.html

[7] Ver:

http://www.periodistadigital.com/religion/america/2013/07/28/evo-morales-el-papa-dijo-que-para-ser-cristiano-hay-que-ser-revolucionario-y-yo-lo-soy.shtml

[8] Ver:

http://www1.folha.uol.com.br/poder/2014/02/1416037-dilma-fala-de-futebol-com-papa-francisco-e-menciona-a-mao-de-deus.shtml

[9] Ver:

http://www.telesurtv.net/articulos/2013/06/01/papa-francisco-califica-a-jose-mujica-como-un-hombre-sabio-2859.html

[10] Ver:

http://internacional.elpais.com/internacional/2013/07/08/actualidad/1373270412_332935.html

[11] Ver:

http://www.cpalsj.org/wp-content/uploads/2013/11/2013-Evangelii-Gaudium.pdf

[12] Ver:

http://www.lanacion.com.ar/1657279-el-papa-pidio-por-carta-al-foro-de-davos-que-la-riqueza-este-al-servicio-de-la-humanidad

[13] Ver:

http://www.excelsior.com.mx/global/2014/03/02/946485

[14] Ver:

http://www.infobae.com/2013/09/03/1506247-francisco-condeno-especial-firmeza-el-uso-las-armas-quimicas  

AMÉRICA DO NORTEANÁLISES DE CONJUNTURAEUROPAORIENTE MÉDIO

Questões estruturais mundiais não permitem rupturas definitivas entre Europa, EUA e Rússia

Apesar de a crise ucraniana estar gerando contenciosos graves entre a Rússia, a Europa e os EUA, várias questões estruturais mundiais, em especial os impasses no “Oriente Médio”, não permitem uma concreta ruptura entre norte-americanos, russos e europeus, de forma que uma mínima ação coordenada por parte desse conjunto de atores é necessária para evitar desequilíbrios irreversíveis no sistema internacional, os quais podem ser produzidos, por exemplo, com escaladas de violência na região médio oriental, geradas, por sua vez, por conflitos localizados entre as potências regionais que se digladiam constantemente.

O “Programa Nuclear Iraniano” é um desses pontos nevrálgicos, mesmo que venha recebendo menos atenção da mídia devido a atual crise na Ucrânia, como se não mais existisse. Sua importância estrutural se revela com ações como a ocorrida na sexta-feira passada, dia 28 de março, quando o presidente estadunidense Barack Obama esteve em Riad (Arábia Saudita) para reunião com o rei Abdullah bin Abdelaziz, com o objetivo de reduzir as tensões causadas com os sauditas pelo Acordo assinado em novembro do ano passado (2013) pelo “Grupo 5+1” (“Estados Unidos”, Rússia, China, “Reino Unido”, França e Alemanha) com o Irã, pelo qual os iranianos estão paralisando o seu Projeto por seis meses até chegarem a um Acordo definitivo. Além dessa questão, outra também basilar abordada com o Rei é a “Crise Síria”, uma vez que os sauditas consideram que ela está sendo mal gerenciada pelos EUA, pois, segundo interpretam, os norte-americanos vem titubeando nas tomadas de decisão.

A título de ilustração, em termos de contenciosos regionais, recentemente o Bloco formado por “Arábia Saudita”, Bahrein e “Emirados Árabes Unidos” retirou seus embaixadores do Catar em resposta às intervenções em assuntos internos de países vizinhos que consideram estar este Estado realizando, além do respaldo que afirmam que o Catar oferece aos considerados grupos desestabilizadores da região[1], numa alusão indireta, mas clara, à “Irmandade Muçulmana”, contra quem esses Estados do bloco se posicionam.

Contra os iranianos, os sauditas identificam-nos como uma fonte de influência regional com articulação de grupos e países para realizar sua projeção de poder em busca da posição de principal potência na política do “Oriente Médio”, bem como para disseminação de sua forma de exercitar o islamismo[2].

Nesse sentido, diante de tal quadro, os EUA percebem que não podem perder o apoio dos sauditas, que são seus principais aliados estratégicos regionais, especialmente nessas questões síria e iraniana, tanto que, conforme foi divulgado pela mídia, os EUA pretendem resolver diferenças táticas com a “Arábia Saudita[3], assegurando que não será permitido um acordo nuclear inadequado com o Irã, podendo significar isso que buscarão acatar algumas demandas de Riad, mesmo que haja problemas no que tange a questão do fornecimento de armamentos dos sauditas para rebeldes sírios, confrontando determinações estabelecidas pelos Estado ocidentais que ainda buscam uma saída negociada para a crise na Síria, cuja “Guerra Civil” já dura três anos.

Analistas apontam, no entanto, que, para os sauditas, é importante manter os enfrentamentos contra qualquer grupo ou Estado que tente confrontá-los como principal ator no “Oriente Médio” e como centro irradiador islâmico, razão pela qual suas ações acabam atingindo os países onde os russos tem papel crucial, seja na manutenção dos regimes, seja na preservação de um equilíbrio que acabe impedindo um conflito bélico capaz de se estender pelo “Oriente Médio”.

Como afirmam vários analistas, no caso sírio, a Rússia impediu que uma declaração e aposta norte-americana pudesse ter se degenerado numa ação bélica com consequências amplas e trouxe a possibilidade de negociações que salvaram os EUA, ainda que, por causa disso, viessem estes a receber críticas de seus aliados regionais, razão pela qual agora precisam recuperar o prestígio e a credibilidade com eles.

Ressalte-se que, como vários observadores interpretam, a ação dos russos foi uma salvação para os EUA, porque qualquer envolvimento militar neste momento será nefasto para a economia estadunidense. Com relação ao Irã, a situação segue o mesmo script sabendo-se que o papel russo foi e é essencial para impedir que um ataque se realize contra os iranianos, tanto quanto para manter o “Projeto do Irã” dentro dos princípios exigidos pelo Ocidente.

Ou seja, se não houver um respeito e solicitação da participação dos russos nas atuais negociações internacionais, ou se o Ocidente tomar os russos como seus inimigos, estes assim se comportarão, mas não ficarão isolados, ao contrário do que podem vir a pensar algumas lideranças do Ocidente, e não será necessário um grande exercício de imaginação para conceber o que pode representar a postura russa direcionada não mais para a manutenção de equilíbrio no “Oriente Médio” e na Eurásia, mas sim para o apoio bélico aos Estados que vem sendo combatidos pelos europeus e norte-americanos, vindo ainda a formar alianças militares com eles, bem como com seus apoiadores.

No entanto, os observadores pelo mundo, mesmo dentro da Rússia, apostam que, apesar do contencioso gerado pelo crise na Ucrânia, russos, europeus e estadunidenses cooperarão em vários assuntos, em especial nos que envolvem os Estados do “Oriente Médio”, pois há convergência de interesses em preservar uma mínima estabilidade mundial, em evitar problemas que degenerem em nova crise econômica global e, nos casos específicos da região médio oriental, em deter o desenvolvimento de um programa nuclear bélico por parte do Irã, da mesma forma que, na Síria, em ajudar a sua população, freando as ações e respostas do presidente Bashar al-Assad aos opositores, algo para o qual a participação russa é essencial e sem ela não é possível[4].

Ademais, a Rússia, pelo poder real que expressa, além da força que detém na ONU, como membro permanente do “Conselho de Segurança”, é parte da maioria dos grupos de mediadores mundiais que existem para resolver as crises contemporâneas, como são os exemplos da Síria e o imbróglio iraniano.

Diante do quadro geral, os intérpretes começam a convergir para a posição de que as ameaças de que a Rússia será excluída do G8, como foi declarado pelos membros do G7, e as advertências sobre aplicação de Sanções não serão produtivas, representando mais um problema que uma solução, já que os russos tem força e estão integrados na economia mundial, ao ponto de uma autoridade alemã ter lembrado que há mais de 6.200 empresas germânicas investindo em solo russo e isso seria nefasto para os alemães, tanto quanto para os russos.

Nesse sentido, a conclusão que alguns observadores chegam é de que as tensões na Europa terão de ser acalmadas, pois problemas como os do “Oriente Médio” devem reduzir o contencioso da Rússia com a Europa e com os EUA em relação ao caso ucraniano, uma vez que declarações e enrijecimentos inadequados podem levar a uma expansão de um jogo de réplicas e tréplicas difícil de ser contido dentro de um patamar de racionalidade diplomática, podendo, assim, cair no círculo da “dialética da violência” até chegar a um ponto sem retorno.

Por essa razão, acreditam os especialistas que a estrutura internacional apresenta nós, pinos articuladores que envolvem indissoluvelmente as grandes potencias mundiais, exigindo delas convergência de comportamentos em direção ao diálogo para evitar que descambe para o a violência disseminada e sem controle, produzindo uma guerra. Neste caso, o “Oriente Médio” é um desses nós que tendem a obrigar a diminuição das tensões na Europa, sabendo-se, claro, que, no entanto, a história demonstra que o espírito da insensatez tem sido o que mais prevalece nos momentos que representam pontos de inflexão histórica.

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Imagem (Fonte):

 http://cdn01.am.infobae.com/adjuntos/163/imagenes/010/400/0010400126.jpg

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Fontes consultadas:

[1] Ver:

http://g1.globo.com/mundo/noticia/2014/03/obama-visita-arabia-saudita-com-ira-e-siria-na-agenda-politica.html

[2] Ver:

http://brasil.elpais.com/brasil/2014/03/28/internacional/1395996128_414706.html

[3] Ver:

http://br.reuters.com/article/worldNews/idBRSPEA2R06H20140328

[4] Ver:

http://www.diariodarussia.com.br/internacional/noticias/2014/03/27/apesar-da-ucrania-estados-unidos-cooperaram-com-a-russia-no-ira-e-na-siria/

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Ver também:

http://port.pravda.ru/mundo/27-03-2014/36497-ghanezadeh-0/

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ANÁLISES DE CONJUNTURAÁSIAEUROPA

Relações China-Rússia reforçadas com a visita do Presidente chinês

Numa altura que China e Rússia celebram 65 anos do estabelecimento das relações diplomáticas, na perspectiva de Pequim as mesmas são satisfatórias. Como prova disso são os sinais de que a nova liderança chinesa tem dado desde março de 2013, em termos de encontros ao mais alto nível. A visita à Rússia do presidente Xi Jinping na semana passada (6-8 de fevereiro) efetivou o sexto encontro com o seu homólogo russo, Vladimir Putin, em 11 meses. Os respectivos Primeiro-Ministros também se avistaram duas vezes, em outubro e novembro de 2013. 

Alguns dias depois de ser empossado como “Presidente da China”, Xi Jinping fez da Rússia a sua primeira escala internacional em março de 2013, onde se reuniu com presidente Vladimir Putin e outros líderes russos. Cerca de uma semana depois, os dois líderes voltaram a se encontrar na cidade de Durban (“África do Sul”), quando da “Cimeira dos BRICS” (o grupo de países que congrega o Brasil, a Rússia, a Índia, a China e a “África do Sul”)[1].

O terceiro encontro aconteceu durante uma “Reunião Multilateral de Presidentes e Chefes de Governo do G20”, em “São Petersburgo” (Rússia), nos princípios de setembro. Uma semana depois, à margem da reunião anual dos líderes da “Organização de Cooperação de Xangai” (OCX, composta por Cazaquistão, China, Quirguistão, Rússia, Tadjiquistão e Uzbequistão) Xi e Putin cruzaram o mesmo caminho pela quarta vez em Bishkek, capital do Quirguistão. Novamente, o quinto encontro entre os dois Presidentes, da Rússia e da China, teve lugar em novembro, em Bali (Indonésia), ao longo da realização da “Cimeira Anual”  da “Cooperação Econômica da Ásia-Pacífico” (APEC, sigla inglesa)[2].

Tal qual o ano passado, Xi diplomaticamente inaugurou 2014 visitando a Rússia na primeira semana de fevereiro. Além de ter mantido conversações formais com Putin e assistir a abertura oficial da “22ª Edição dos Jogos Olímpicos de Inverno” (2014), que se realizam na cidade de Sochi, o Chefe de Estado chinês também encontrou-se com o “Presidente do Comitê Olímpico Internacional”, Thomas Bach[3].

A mídia chinesa não esconde que esta visita por outro lado visa mostrar o comprometimento do Governo chinês na candidatura das cidades de Pequim e Zhangjiakou (que se situa na “Província de Hebei” e dista 200km da capital chinesa) para os “Jogos Olímpicos de Inverno de 2022[3].

O Primeiro-Ministro chinês, Li Keqiang, e seu colega russo, Dmitry Medvedev, se reuniram duas vezes em 2013, no mês de outubro, em Pequim, e em novembro em Tashkent, Uzbequistão, durante a reunião dos primeiros-ministros da OCX[2].

De uma forma geral, além de apelos para um cada vez maior fortalecimento das relações bilaterais e para o apoio mútuo aos interesses nacionais, estes encontros enfatizam as áreas de economia, segurança, energia e cultura.

Por exemplo, ao nível econômico, os dois países pretendem elevar a fatias das trocas comerciais, calculada em 88 bilhões de dólares americanos, em 2012, para 100 bilhões, em 2015, e 200 bilhões cinco anos mais tarde. O que certamente contribuirá para tais valores altos será o incremento em 10 milhões de toneladas anuais do petróleo russo à China durante os próximos 10 anos, o que totalizará 85 bilhões de dólares[2].

Ainda no contexto econômico, outro dos maiores ganhos dos recentes encontros entre líderes chineses e russos é a entrada no mercado chinês da estatal petrolífera russa Rosneft. Esta firma detém 51% das ações na joint-venture de refinação de petróleo com a “Corporação de Petróleo Nacional da China” (CNPC, sigla inglesa), a maior companhia chinesa de produção e fornecimento de combustíveis e gás, com os remanescentes 49%. Por sua vez, a Rússia deseja ter mais investimentos no seu país[2].

Ao nível multilateral, a China e a Rússia continuam a defender solução política tanto para a questão da Síria como a do Irã. Os dois vizinhos têm usado a prerrogativa do veto no “Conselho de Segurança da ONU” para travar iniciativas “ocidentais” no que respeita a assuntos da imposição de sanções a Damasco e Teerã[4]

No entanto, a China e a Rússia continuam a divergir em termos da influência em países junto de regiões como a “Ásia Central” que recebe importantes investimentos chineses e apoio na área de segurança. O objetivo é garantir o fornecimento de petróleo á China por parte de alguns países como o Cazaquistão. Além de ser mais uma fonte para Pequim, há quem entenda que o plano de Pequim junto a Xinjiang é usar o Paquistão, país onde apoia a modernização de um Porto. O mesmo faz com o Irã, para importar o petróleo do Médio-Oriente, de onde, em 2011, importou 60% de todo combustível consumido no país, já que o tradicional trajeto via “Oceano Índico” é mais oneroso[5].

Também, ao cooperar com os países da “Ásia Central”, a China pretende estabilizar a região e travar a movimentação de elementos que o governo chinês denomina de forças do mal, junto a sua fronteira, na província ocidental de Xinjiang. Sendo considerados como tais: separatistas, extremistas e terroristas. Esta toda movimentação chinesa causa preocupação em Moscou, uma vez que em tempos já idos esta zona era um bastião da Rússia[6].

Da mesma forma, a venda de armamento russo a alguns países vizinhos da China, como a Índia e o Vietnã, não é bem visto em Pequim. O desconforto da China tem a ver com o fato destes dois países terem ainda problemas territoriais com ela e, em caso de conflito armado, poderão usar o mesmo material bélico contra a China[4].

Concluindo, do ponto de vista de Pequim, pelo fato de a Rússia, tal qual os “Estados Unidos da América” (EUA) e a “União Europeia” (UE), fazer parte do restrito grupo das atuais superpotências mundiais, incluindo a própria China, ela merece esta maior consideração. De fato, o chefe da diplomacia chinesa, Wang Yi, em dezembro do ano passado (2013) construiu o cenário de que em 2014 a política externa do seu país seria dominada pelo “Novo Tipo de Relações com as Grandes Potências” (“New Type of Great-Power Relations”)[7]. O termo foi usado pela primeira vez em maio de 2012 pelo anterior presidente chinês Hu Jintao para Barak Obama e, posteriormente, repetido por Xi Jinping, depois do seu encontro com o “Presidente dos EUA”, em junho de 2013.

A terminologia “Novo Tipo de Relações com as Grandes Potências além de já fazer parte dos discursos do atual governo de Xi Jinping é também muito popular entre jornalistas e intelectuais chineses, além do fato de, nos “Estados Unidos”, ela também ser discutida na academia. Inicialmente, o debate girava em torno do relacionamento que teria a China com os EUA, mas o objetivo do Governo chinês em propor este modelo de Relações Externas tem em vista uma maior cooperação com as outras três grandes potências mencionadas atrás, com respeito aos interesses nacionais de cada parte para se evitar conflitos militares[8].    

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Imagem (Fonte):

http://www.fmprc.gov.cn/eng/zxxx/t1126945.shtml

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Fontes consultadas:

[1] Ver:

http://www.jornal.ceiri.com.br/viagem-de-xi-jinping-a-africa/   

[2] Ver:

http://news.xinhuanet.com/english/indepth/2014-02/02/c_133089728_2.htm

[3] Ver:

http://news.xinhuanet.com/english/china/2014-02/07/c_133097751.htm

[4] Ver:

http://csis.org/files/publication/1303qchina_russia.pdf

[5] Ver:

http://thediplomat.com/2013/07/china-makes-play-for-irans-chabahar-port/

[6] Ver:

http://www.chinadaily.com.cn/china/2012-03/06/content_14766900.htm

[7] Ver:

http://thediplomat.com/2013/12/china-to-prioritize-great-power-relations-in-2014/

[8] Ver:

http://carnegietsinghua.org/2014/01/15/us-china-relations-2013-new-model-of-major-power-relations-in-theory-and-in-practice/gyjm

ANÁLISES DE CONJUNTURAEUROPA

O discurso de Cameron e uma alternativa nórdica para a Escócia

Em meados de setembro próximo, os cidadãos escoceses deverão decidir através de um Referendo o futuro de seu país como parte integrante do Reino Unido” (composto, atualmente, pela Inglaterra, “País de Gales”, “Irlanda do Norte” e pela própria Escócia). A campanha a favor da independência da Escócia, liderada peloScottish National Party” (SNP), acaba de ganhar uma resposta do Primeiro-Ministro do Reino Unido”, David Cameron.

Em discurso proferido no último dia 7 de fevereiro (2014), Cameron apresentou seus argumentos a favor da manutenção dos escoceses no Reino Unido”, mas, ao invés de destacar os argumentos econômicos e políticos favoráveis à sua posição, o Primeiro-Ministro preferiu recorrer a laços sentimentais e históricos. O jornal inglês “The Guardian” caracterizou a fala de Cameron como um “apelo apaixonado e pessoal[1].

O local escolhido para a realização de seu discurso já fora bastante significativo. Cameron falou diretamente do velódromo olímpico, localizada na capital da Inglaterra, Londres. Durante as “Olimpíadas de 2012”, o “Team GB”, como fora chamado os atletas que disputavam pelo “Reino Unido” (diferentemente de outros eventos esportivos, como a “Copa do Mundo”, nas Olimpíadas as quatro nações britânicas disputam os jogos no mesmo “Time”) conquistou sete medalhas, das dez em disputa no velódromo. As habilidades dos ciclistas britânicos entusiasmaram, com grande êxito, a torcida local[2].

A alusão do Primeiro-Ministro às conquistas olímpicas não se restringiram apenas ao local de seu discurso, afirmando que a melhor coisa que ocorreu nasOlimpíadas de Londres” “não foram as vitórias; mas sim o vermelho, o branco e o azul [referências as cores da bandeira do Reino Unido]. Foi o verão que o patriotismo [britânico] saiu das sombras e foi para o sol. Todo mundo torcendo como um para o Team GB[1].

As tentativas de Cameron de influenciar os cidadãos britânicos com alusões ao sentimento olímpico foram fortemente criticadas pelo SNP, que qualificou o ocorrido como lamentável e um nervosismo daqueles contrários à independência escocesa. Nicola Sturgeon, Primeira Vice-Ministra da Escócia, afirmou que “é um erro misturar política e esporte dessa maneira[1].

Durante o seu discurso, Cameron repetidamente defendeu a importância política, econômica, social e cultural, tanto no plano interno como nas relações internacionais, da manutenção da unidade do Reino Unido” – usando, ironicamente, argumentos semelhantes àqueles usados pelos defensores da “União Europeia[3] – , afirmando que “às vezes, podemos esquecer o quão grande é a nossa reputação; que, em todo mundo, as palavras ‘UK’ [sigla inglesa para “Reino Unido” – “United Kigdom”] significam único, brilhante, criativo, excêntrico, genial. Nós chegamos como uma marca – uma marca poderosa. (…) Se nós perdemos a Escócia, se o Reino Unido mudar, nós teríamos de rasgar o tapete sob a nossa própria reputação. O fato evidente é que nós somos mais importantes no mundo quando juntos. (…) Nosso alcance é muito mais do que o poderio militar – é sobre a nossa música, cinema, TV, moda. O Reino Unido é uma superpotência de soft power*. (…) Juntos, estas ilhas realmente representam algo mais do que a soma de nossas peças, elas representam ideias maiores, causas nobres, valores maiores[1].

Ao finalizar, Cameron realiza o apelo mais sentimental de seu discurso, referindo-se ao Reino Unido como uma grande família, e a necessidade desta se unir para combater aqueles que pretendem dividi-la: “É importante para a Escócia perceber que o resto da família vê isso [o referendo] como uma decisão de família muito importante[1]. (…) “Eu quero ser claro para que todos possam ouvir. Não pode haver complacência sobre o resultado deste referendo. O resultado ainda está no ar e temos apenas sete meses. Sete meses para fazer de tudo o que pudermos para manter o nosso Reino Unido como um só. Sete meses para salvar o país mais extraordinário da história. (…) E nós temos que fazer o que for preciso. Então, para todo mundo na Inglaterra, País de Gales e Irlanda do Norte; todos, como eu, que se preocupam com o Reino Unido, eu quero dizer o seguinte: você não tem um voto, mas você tem uma voz. Aqueles que irão votar são nossos amigos, vizinhos e familiares. (…) Você tem uma influência. Vá ao telefone, se reúnam, mandem e-mail’s, twitten, falem![1].

Contudo, não é apenas na Escócia que um sentimento britânico, de pertencimento ao Reino Unido”, está desaparecendo. De acordo com o “British Social Attitudes[4], cerca de um quarto dos ingleses ficariam satisfeitos com uma eventual independência da Escócia.

A posição do SNP perante o discurso de Cameron demonstrou grande similaridade ao editorial escrito pelo jornal The Guardian”. Ambos criticaram, ferozmente, a ausência e a relutância do Primeiro-Ministro Britânico em participar de um debate com o Primeiro-Ministro Escocês, defensor da independência de seu país.

Para o jornal, “a batalha iminente será travada na Escócia, e é aí que o Sr. Cameron tem de se envolver[4]. Nicola Sturgeon, pelo SNP, convidou todos os cidadãos britânicos a participarem do debate, mas criticou fortemente a postura de Cameron. Para ela, “ele não pode dizer ‘eu quero ser parte do debate’, mas, logo em seguida, dizer ‘não, eu não estou preparado para vir a Escócia e ter um debate frente-a-frente com o Primeiro-Ministro [da Escócia, Alex Salmond]”[1].

Enquanto isso, um think-tank[5] escocês encabeça uma posição cada vez mais comum entre aqueles que defendem a independência da Escócia, principalmente o SNP. Caso o país consiga sua independência no próximo dia 18 de setembro, será natural uma maior aproximação com os países nórdicos**, e suas instituições de cooperação. Para o porta-voz do SNP, Angus Robertson, a inclusão da Escócia aoConselho Nórdicoé uma das coisas que só serão possíveis com a independência de seu país, cuja política externa, atualmente, encontra-se no controle doParlamento Britânico”.

Para o norueguês Arne Kruse, professor do “Centro de Estudos Escandinavos da Universidade de Edinburgh” (Escócia), “há tantas semelhanças, especialmente em termos de nossa relação com a natureza o petróleo, a pesca, a piscicultura, as energias renováveis. Há muitos paralelos[6].

A revitalização dos aspectos nórdicos na Escócia (cujo primeiro contato ocorreu com a colonização viking no século VIII) ganha grande respaldo na sociedade escocesatalvez, com a exceção da parte oeste do país, na região de Glasgow, onde ainda reina uma maior aproximação com a Irlanda.

Para o Professor da Universidade de Copenhagen”, Mikkel Vedby Rasmussen, a independência da Escócia seria de grande interesse à Dinamarca. De acordo com o professor, “se a Escócia se tornar independente, haveria então, de repente, um outro país nórdico. Um país com destaque para o estado de bem-estar e escolas públicas – assim como a Suécia, Noruega e Dinamarca. Seria mais um voto na União Europeia e em outras organizações onde nossos valores precisam de apoio[7].

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* Soft Power, ou poder brando, é um conceito desenvolvido pelo professor americano Joseph Nye Jr. para descrever a existência de mecanismos de poder, ou seja, da capacidade de um Estado (ou outra organização política) de influenciar o comportamento de outros atores políticos, que não sejam caracterizados pelo uso da força física (militar), mas sim pelo uso de mecanismos culturais e/ou ideológicos.

** Os países nórdicos são constituídos, atualmente, pela Dinamarca, Suécia, Noruega, Finlândia, Islândia, Groelândia e “Ilhas Faroé”. A expressão “países escandinavos” não pode ser qualificada como sinônimo, pois engloba somente a Dinamarca, Suécia e Noruega.

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Imagem Festividades do Up Helly Aa, em Shetland (Escócia) – referência ao passado viking do país (Fonte):

http://www.scotland.org/assets/2361/up_helly_aa_(30)__gallery.jpg

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Fontes consultadas:

[1] Ver:

http://www.theguardian.com/politics/2014/feb/07/david-cameron-scottish-independence-referendum-olympic-park

[2] Ver:

http://www.dailymail.co.uk/news/article-2185298/Team-GB-Olympics-velodrome-success-7-10-golds-10-10-excitement.html

[3] Ver:

http://www.jornal.ceiri.com.br/ever-closer-union-parte-ii-a-crise-da-familia-europeia/

[4] Ver:

http://www.theguardian.com/commentisfree/2014/feb/07/scottish-independence-referendum-david-cameron

[5] Ver:

http://www.nordichorizons.org/

[6] Ver:

http://www.bbc.co.uk/news/magazine-16050269

[7] Ver:

http://www.heraldscotland.com/politics/viewpoint/as-others-see-us-the-view-from-denmark.2012059452

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Ver também:

http://www.ft.com/cms/s/0/57664dc2-8bf8-11e3-bcf2-00144feab7de.html#axzz2ssZEBGFN

Ver também:

http://www.theguardian.com/uk-news/shortcuts/2014/jan/26/would-scandinavians-want-scotland