ANÁLISES DE CONJUNTURAEUROPA

A Ucrânia e a autodeterminação dos povos

Os conflitos no leste da Ucrânia ressurgiram, rompendo um Acordo de Paz que havia sido negociado entre Kiev e os separatistas de Donetsk e Lugansk[1]. Ressalte-se que uma das principais condições para a aceitação deste Acordo foi a concessão por parte de Kiev da autonomia das regiões rebeldes por até três anos, o que, para analistas, pode ter sido o principal pretexto do retorno dos conflitos, já que os separatistas buscam sua autonomia permanente, sem prazos, podendo a proposta ter gerado o medo dentro do movimento de que o Acordo fosse dispersado e assim ocorresse a volta dos choques por parte do Governo central em condição que lhe fosse favorável.

Mesmo com a percepção desse cenário, não se sabe ao certo quais dos lados teve a iniciativa, mas é possível observar que os conflitos estão mais preocupantes do que eram antes do Acordo acertado, pois ambos os lados têm respondido aos ataques em condições de uma guerra convencional, com o uso em larga escala de artilharia pesada e combate com veículos blindados, o que antes era relatado pelos observadores da OSCE[2] (em português, Organização para a Segurança e Cooperação na Europa) como ocorrendo esporadicamente

Parte da comunidade internacional acredita que a Rússia possui a responsabilidade pelo surgimento dos separatistas, pois estes iniciaram a execução de seu movimento quando houve o pedido dos cidadãos da Península da Crimeia para serem anexados à Federação Russa, que, por sua vez, utilizou o conceito de “Autodeterminação dos Povos” para justificar a sua aceitação à solicitação de anexação.

Apesar de parte da comunidade internacional afirmar a existência de interesses particulares da Rússia em anexar à Crimeia, assim como na sua oposição ao Governo que emergiu na Ucrânia, é necessário identificar também o fator abordado pelo Governo Russo de “autodeterminação dos povos”, pois a importância da cultura política administrativa desenvolvida na Ucrânia e na Rússia, pode ser um fator a mais na motivação dos separatistas contra Kiev.

A autodeterminação dos povos nem sempre se dá para resolução de assuntos do Estado Nacional ou do País, mas em função do direito de um povo determinar a forma de vida política em que ele deseja viver, do tipo de sistema que deseja compor. Quando se compara com o caso administrativo da política brasileira, por exemplo, o Brasil possui um sistema republicano federal, em que tem configurado um Estado com normas coesas de norte a sul, com leis regionais não diferentes para cada região do país, com o fato de o brasileiro ter aprendido a pensar a governabilidade em nível nacional, tanto que identifica seus problemas ou avanços como sendo de todo o país e não apenas de sua região. Os povos da região da Eurásia têm uma ideia de governabilidade diferente, com uma cultura política regional.

No caso da Federação Russa, esta tem de forma mais intensa que no Brasil a questão da cultura política regional. Para solucionar esta questão e permitir a coesão, ainda que tenha o nome Federação, a Rússia ainda apresenta aspectos de Estado Unitário, já que o papel do Governo Central se sobrepõe ao dos Governos subnacionais, mesmo que o país possua ao todo 83 subdivisões administrativas, sendo 21 repúblicas; 46 regiões (ou oblasts); 9 territórios (ou krais); 1 região autônoma; 4 distritos autônomos e 2 cidades autônomas/ federais[3], que, por serem autônomos, detém um poder de autonomia administrativa real. Agora há mais uma República e uma Cidade Autônoma, a República da Crimeia e a cidade autônoma de Sevastopol.

Os Estados Unidos da América, por sua vez, está mais dentro de uma realidade federativa, pois possui em suas bases políticas a ideia de poder regionalizado, seu sistema eleitoral é realizado por escalas distritais, cada região possui sua própria legislação, apesar de ter de respeitar uma Constituição Federal que mantêm a união e coesão das subunidades que a compõem*.

A Ucrânia possuía uma divisão administrativa em vários aspectos semelhante à russa e à norte-americana, com autonomia administrativa federativa genericamente mais próxima a dos EUA e possibilidade de unidades autônomas tanto quanto a Rússia, o que explica o desprendimento da República da Crimeia, que era chamada de República Autônoma da Crimeia. Com a emersão do novo poder em Kiev, iniciada por uma campanha de integração nacional promovida pelo partido nacional socialista ucraniano, cidadãos da Crimeia, assim como os de outras cidades autônomas, sentiram seus direitos de governabilidade e gestão pública ameaçados.

A Crimeia era a região com maior concentração de pessoas de etnia russa, assim, se eles se tornassem parte da Federação Russa, poderiam continuar com sua autonomia na administração pública. Entretanto, outras cidades e regiões, como Donetsk e Lugansk, tiveram movimentos separatistas, os quais acreditaram que se fizessem a mesma votação ocorrida na Crimeia teriam o apoio da Rússia, além da possibilidade de ela interceder, o que não ocorreu, algo que analistas consideraram explicável e previsível, ainda que houvesse a crença desses separatistas, devido à crise diplomática da Federação Russa com a comunidade internacional, gerada em decorrência da anexação da Crimeia, pois isto fez com que a Rússia não tomasse decisões que pudessem aumentar a crise num primeiro momento.

O afastamento do apoio direto da Federação Russa para as cidades com movimentos separatistas acabou empurrando os rebelados dessas cidades (que são majoritários) para um conflito armado direto, visto como a única forma de conquista dos direitos desejados, mas a comunidade internacional continua acusando a Federação Russa de manter apoio discreto a esses movimentos, o que, segundo analistas, atrapalha as negociações diretas por falta de um porta-voz legítimo.

Diante do quadro, a Ucrânia se encontra hoje em uma situação que requisitará um grande esforço de seus cidadãos para compreensão do melhor modelo político e administrativo a ser desenvolvido, pois existe nítida necessidade de abertura para uma política regional, o que talvez possa levar o país a continuar em desacordo com a cultura política do leste do país.

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* Constituição da Federação Russa (1993):

http://www.constitution.ru/en/10003000-01.htm

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Imagem (Fonte Link da Página):

http://en.wikipedia.org/wiki/Crimean_status_referendum,_2014#mediaviewer/File:Ukrainian_parliamentary_election,_2007.jpg

Link direto da foto:

http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/2/2e/Ukrainian_parliamentary_election,_2007.jpg

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Fontes Consultadas:

[1] Ver Ukraine crisis: Poroshenko offers rebels more autonomy” (Publicado em 10 de setembro de 2014):

http://www.bbc.com/news/world-europe-29140593

[2] Ver OSCE observers emphasize the increase in the number of artillery fire in the East of Ukraine” (Publicado em 12 de janeiro de 2015):

http://news.rin.ru/eng/news///82080/1/

[3] Ver Federação da Rússia – Subdivisões da Rússia”:

http://www.russobras.com.br/subdiv.php

ANÁLISES DE CONJUNTURAEUROPA

Campanhas populares na Inglaterra contra possíveis contratações de jogadores de futebol: o caso de Ched Evans

O ano desportivo de 2015 apenas começou e, na Inglaterra, teve início com polêmicas, dentre as quais mostra-se necessário destacar a recusa de dois times profissionais contratarem um jogador de futebol que foi preso por dois anos e meio, após grande pressão popular, além da pressão realizada por parte de torcedores e  membros das diretorias desses clubes.

Emerge à pergunta sobre a relação que pode ter com a sociedade brasileira este caso do jogador inglês que foi preso, pois algo parecido foi discutido ao longo dos últimos anos no Brasil, envolvendo a vontade de alguns clubes brasileiros contratarem o goleiro Bruno, preso pelo assassinato de sua ex-amante. Além deste caso, há também a questão envolvendo à contratação pelo São Paulo do zagueiro Breno, que foi preso na Alemanha por ter incendiado a sua casa[1].

Neste caso inglês, em 2010, o atacante Ched Evans foi acusado e sentenciado a cinco anos de prisão pelo estupro de uma garota num hotel na Inglaterra. A posição do jogador e de seus defensores foi de que, como a garota estava alcoolizada, não ocorreu o estupro, tendo a relação sexual sido, por isso, consensual. Tal consideração traz, porém, uma posição extremamente controversa, uma vez que esta perspectiva é aceita por parte da sociedade inglesa[2]. Isto, no entanto, não impediu que ele cumprisse a metade de sua pena (pois, obteve a redução da sentença devido a considerada boa conduta na prisão), mas também não impediu que jogador continuasse com sua posição de inocente, bem como continuasse à procura de trabalho em sua profissão, o futebol.

Quando foi noticiado pela imprensa inglesa que o seu antigo clube, o Sheffield United, aceitou que ele participasse de treinos para voltar à forma física, o que levaria talvez a ser contratado pelo mesmo, diversos movimentos sociais, organizações de torcedores e inclusive membros da equipe dirigente do time, tal como Jessica Ennis, medalhista de ouro nos jogos de Londres, em 2012, iniciaram uma campanha para que o clube não contratasse o jogador.

Porém, após a recusa do Sheffield em efetivar a assinatura, um outro clube demonstrou interesse em contratar o atacante: o time de Oldham, que luta para não cair na League Two (Quarta Divisão Inglesa)[3]. Novamente, torcedores e diversos movimentos sociais iniciaram uma campanha para que ele não fosse contratado e, ao que parece, este clube também vai desistir de efetivar o negócio com o jogador[4].

A questão sobre se todo ser humano merece uma segunda chance, tratada no âmbito filosófico, não cabe neste texto, mas somente levantar a discussão sobre o assunto, pois, conforme apresentam estudiosos no tema, a tese deste merecimento traz como necessário o arrependimento sobre o crime por parte daquele que o comete, algo que, conforme tem sido noticiado, não é o caso deste jogador que continua defendendo a perspectiva de sua inocência, apesar da sua condenação e cumprimento da pena. Ademais, como apontam especialistas, o fator “arrependimento” é também um elemento importante para a reinserção, a qual só pode estar disponível no caso de o “arrependimento” também estar presente.

Outro ponto a ser considerado diz respeito à posição por parte da sociedade sobre a possibilidade de se conceder a todos uma oportunidade para um recomeço. Parte expressiva e importante dos posicionamentos é de que, neste caso, não deve ser dado, ressaltando-se que tal postura tem de ser considerada sem discriminações de classe, pertencimento étnico, ou religioso. No episódio de Ched Evans, destaca-se que foi importante a posição dos torcedores, os quais decidiram protestar contra a possível contratação do jogador.

Conforme é visto por alguns analistas, situações como essas na Inglaterra podem, principalmente, gerar falsos inocentes, os quais são encobertos pela sociedade inglesa que ainda caminha para entender e resolver os seus problemas relacionados às questões do alcoolismo.

Destaca-se também, que é importante acatar a consideração que a direção do clube teve com os seus torcedores, podendo ser este caso um modelo para outros times profissionais ao redor do mundo, incluindo no Brasil, já que há situações em solo brasileiro para as quais a situação e postura inglesa pode ser replicada.  

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ImagemChed Evans, quando ainda jogava pelo Sheffield United” (Fonte):

http://www.ibtimes.co.uk/nine-people-arrested-relation-ched-evans-twitter-335590

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Fontes Consultadas:

[1] Notícias sobre os casos Bruno, ver:

http://g1.globo.com/minas-gerais/julgamento-do-caso-eliza-samudio/noticia/2013/03/bruno-e-condenado-prisao-por-morte-de-eliza-ex-mulher-e-absolvida.html

Sobre o caso Breno, ver:

http://globoesporte.globo.com/futebol/futebol-internacional/futebol-alemao/noticia/2011/09/breno-do-bayern-e-preso-por-suspeita-de-incendiar-propria-casa.html

[2] Sobre o caso Ched Evans, ver:

http://www.lancenet.com.br/minuto/Ched-Evans-condenado-prisao_0_686331501.html;

Ver Também:

http://www.mirror.co.uk/all-about/ched-evans;

Ver Também:

http://www.bbc.com/news/uk-wales-17781842

[3] Sobre a possível contratação de Ched Evans pelo Oldham Athletic, ver: http://www.dailymail.co.uk/sport/football/article-2896468/Ched-Evans-facing-setback-Oldham-reconsidering-furious-backlash.html

[4] Sobre o depoimento do clube no dia 5 de janeiro, acerca da possível contratação do jogador, ver:

http://www.oldhamathletic.co.uk/news/article/club-statement-ched-evans-2184275.aspx

ANÁLISES DE CONJUNTURAEUROPAORIENTE MÉDIO

Conflitos promovem onda de vítimas e refugiados

O cenário internacional vive um momento de profunda crise, em razão dos diversos conflitos espalhados pelo mundo. De acordo com relatórios da Organização das Nações Unidas (ONU), o surgimento e acirramento de diversos conflitos revelam uma profunda crise humanitária. Os conflitos na Síria, Líbia, Ucrânia, Palestina, Iraque, na região central da África e tantos outros países, apesar de suas origens e motivações distintas, possuem em comum a triste realidade do crescente número de mortos e de uma grande onda de refugiados.

Na última sexta-feira, 29 de agosto de 2014, Antonio Guterres, Presidente do Alto Comissariado da ONU para Refugiados (Acnur), afirmou que “a crise síria tornou-se a maior emergência humana da nossa era e, apesar disso, o mundo não consegue atender às necessidades dos refugiados e países que os recebem[1]. Segundo dados da ONU, cerca de 3 milhões de pessoas deixaram o país, e mais da metade dos cidadãos sírios tiveram que deixar suas casas. Conforme apontou a Acnur, “nas cidades onde a população está cercada, as pessoas enfrentam a fome e os civis são alvo de atrocidades ou indiscriminadamente mortos[2]. Muitos refugiados da Síria tem procurado abrigo nos países vizinhos, como o Líbano, que acolheu 1,17 milhão de pessoas; a Jordânia!, que recebeu 613 mil; e a Turquia, com 832 mil. Desde 2011, quando se iniciou o confronto contra o Governo de Bashar al-Assad, mais de 190 mil pessoas morreram, sendo que, destas, aproximadamente 80 mil eram civis e 8,6 mil crianças[3].

A Crise na Ucrânia também tem promovido o deslocamento da população. Segundo as autoridades russas, aproximadamente 814 mil ucranianos entraram na Rússia desde o início do ano. Este número inclui pessoas que solicitaram refúgio/asilo temporário e outras opções de residência. De acordo com estimativas da Organização das Nações Unidas, em torno de 2.593 (quase 3 mil se somadas as 298 vítimas do voo MH17) pessoas morreram desde abril no conflito na Ucrânia. Para Ivan Simonovic, secretário-geral assistente para Direitos Humanos da ONU, “a tendência é clara e alarmante. Há um significante aumento no número de mortos no leste[4]. No entanto, as autoridades ucranianas afirmam que 2,2 milhões de pessoas permanecem atualmente em áreas de conflito.

O caos na Líbia também tem se acirrado nas últimas semanas. De acordo com Tarek Mitri, representante especial do secretário-geral da ONU para a Líbia, “têm sido sem precedentes em sua gravidade e muito alarmantes[5]. Conforme destacou Mitri, cerca de 100 mil pessoas se deslocaram internamente e outros 150 mil fugiram do país. A fragilidade da Líbia é agravada pelas disputas internas e externas, haja vista que recentemente o Egito e os Emirados Árabes Unidos conduziram ataques aéreos contra as milícias islâmicas em território líbio.

De acordo com dados da Acnur, desde meados de junho, a ofensiva militar feita pelo governo do Paquistão contra os militantes do Talibã no norte do país deslocou aproximadamente 400.000 pessoas, das quais cerca de 183.000 eram crianças. Conforme ressaltou Dan McNorton, porta-voz do Acnur, “O governo do Paquistão e os nossos parceiros humanitários esperam que meio milhão de pessoas se desloque devido às atuais operações militares[6]. Já o Iraque, que vive um momento de grande fragilidade interna e possível quadro de fragmentação, também tem o número de vítimas aumentando. Dentro do país, estima-se que 1,2 milhão de pessoas tenham sido deslocadas este ano, incluindo mais de 500 mil relacionadas aos conflitos na região de Anbar e outras 600 mil vítimas dos combates na região de Mosul e em Sinjar[7].

O conflito entre Israel e a Palestina também tem se mostrado extremamente violento. Desde que iniciou o conflito em 8 de julho, foram mortos mais de 69 israelenses e mais 2,1 mil palestinos[8]. Além das vítimas e refugiados, o conflito na Faixa de Gaza provoca um ambiente de alarme. Segundo o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), até meados de julho mais de 400 mil pessoas perderam o acesso a água encanada devido a falta de energia ou aos danos causados pelos ataques aéreos[9]. De acordo com a entidade, mais de 3 mil crianças foram atendidas por psicólogos, mas cerca de 373 mil precisam de apoio psicossocial. Conforme ressaltou Pernilla Ironside, chefe do Fundo das Nações Unidas para a Infância em Gaza, “o impacto tem sido grande fisicamente, em termos de mortes, ferimentos e infraestrutura danificada, mas, igualmente importante, no plano psicológico e emocional de desestabilização, de não conhecer ou não sentir-se totalmente seguro em nenhum lugar em Gaza[10].

Recentemente, no dia 19 de agosto, a Acnur afirmou que a Etiópia é o país africano com maior número de refugiados, abrigando 629.718 refugiados até o final de julho. O Quênia abriga atualmente 575.334 refugiados e solicitantes de refúgio. A principal razão para o aumento do número de refugiados na Etiópia é o conflito no Sudão do Sul, que enviou cerca de 188 mil pessoas, mas também recebeu refugiados de outros países, como Somália (245 mil) e Eritreia (99 mil)[11]. No último dia 27 de agosto, o Governo do Sudão do Sul e o Exército Popular de Libertação do Sudão (SPLA) assinaram um Acordo que estabelece um plano de cessar-fogo de sete meses. No entanto, o caos provocado pelo conflito que iniciou em dezembro de 2013 deixou mais de 716.500 pessoas deslocadas no interior do país e outras 166.900 pessoas fugiram para os países vizinhos[12]. Ao mesmo tempo, o Sudão do Sul abriga em torno de 243 mil refugiados, sumariamente originários do Sudão

Esse proscênio de conflitos aprofunda as debilidades já existentes nesses países e dificulta o acesso dessas populações aos insumos básicos para sua sobrevivência, como alimentos e água. Ademais, além do crescente número de mortes, esses conflitos tem promovido uma verdadeira onda de refugiados, o que revela a fragilidade desses Estados e da própria mediação da comunidade internacional na resolução dos conflitos. Adicionalmente, como pôde ser observado nos casos anteriores, esses conflitos imputam uma série de desafios aos Estados, não apenas os que se encontram em guerra, mas também os países vizinhos que recebem o contingente de refugiados, que, muitas vezes, não possuem estrutura para tanto.

Tal quadro mostra ainda as debilidades das organizações internacionais de apoio humanitário que precisam articular uma logística que abarque grandes quantidades de recursos, alimentos, água, pessoal de apoio. De fato, a ONU, assim como suas agências associadas, promove ações de assistência a esses países. Contudo, mesmo chamando a atenção da comunidade internacional para o número crescente de vítimas, os conflitos operam com a lógica própria de seus interesses.

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Imagem (Fonte):

http://www.dw.de/apenas-mil-yazidis-continuam-refugiados-no-monte-sinjar-diz-onu/a-17853985

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Fontes consultadas:

[1] Ver:

http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2014/08/140829_siria_crise_humanitaria_hb.shtml

[2] Ver:

http://www.dw.de/n%C3%BAmero-de-refugiados-s%C3%ADrios-ultrapassa-3-milh%C3%B5es-segundo-onu/a-17888897

[3] Ver:

http://g1.globo.com/mundo/siria/noticia/2014/08/eua-proibe-voos-de-companhias-aereas-americanas-sobre-siria.html

[4] Ver:

http://br.reuters.com/article/worldNews/idBRKBN0GT14B20140829

[5] Ver:

http://www.valor.com.br/internacional/3670404/libia-alerta-onu-de-que-pais-esta-beira-de-uma-guerra-civil#ixzz3CDwotjND

[6] Ver:

http://www.acnur.org/t3/portugues/noticias/noticia/conflitos-no-norte-do-paquistao-provocam-mais-de-400000-deslocamentos/

[7] Ver:

http://www.acnur.org/t3/portugues/noticias/noticia/ponte-aerea-do-acnur-descarrega-100-toneladas-de-assistencia-no-iraque/

[8] Ver:

http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2014/07/140730_gaza_atualiza_quarta_rw.shtml

[9] Ver:

http://www.onu.org.br/gaza-600-mil-pessoas-podem-ficar-sem-agua-numero-de-criancas-palestinas-mortas-sobe-para-36/

[10] Ver:

http://www.onu.org.br/conflito-em-gaza-ja-deixou-469-criancas-mortas-e-370-mil-com-necessidade-de-ajuda-psicossocial/

[11] Ver:

http://www.acnur.org/t3/portugues/noticias/noticia/etiopia-ultrapassa-quenia-e-se-torna-o-pais-com-maior-populacao-de-refugiados-na-africa/

[12] Ver:

http://www.onu.org.br/especial/sudao-do-sul/

      

ANÁLISES DE CONJUNTURAEUROPAORIENTE MÉDIO

O Papa na Terra Santa: Visita Pastoral com Significado Político

Em 1964, o Papa Paulo VI inaugurou os novos passos da Igreja e, pela primeira vez, foi além dos limites do Vaticano, iniciando o ciclo de viagens ao exterior. Em 4 de Janeiro de 1964, o então Bispo de Roma chegou à Terra Santa e entrou em Jerusalém pela Porta de Damasco. Uma nova tradição foi criada e, desde aquela época, a Terra das três religiões do Livro (Judaísmo, Cristianismo e Islamismo) acolheu várias visitas papais. A visita do Papa Francisco, que chegou à Terra Santa no final da semana passada, foi recebida com satisfação pela comunidade católica, apesar de muitos não terem ocultado a decepção pelo fato de ela ser curta e ter tido apenas um evento totalmente aberto ao público, realizado a Oeste do Rio Jordão. Por outro lado, parte da decepção deve-se ao fato de o Papa não incluir na sua agenda Nazaré e a Galileia, onde existe uma importante comunidade cristã[1].  O Papa Francisco chegou à Terra Santa no momento em que o número de cristãos está se reduzindo ante as dificuldades enfrentadas na região, sendo a imigração o caminho escolhido por eles[2].

A peregrinação papal teve como objetivo principal unir as Igrejas cristãs e o calendário da viagem foi muito bem ajustado pela diplomacia do Vaticano para evitar que episódios parecidos com aqueles que ocorreram em 2009, quando da visita do Papa Bento XVI, voltassem a ocorrer. Naquela altura, em Israel, o discurso do Papa não foi considerado suficientemente forte quanto à condenação do Holocausto, pois ele não responsabilizou os nazistas e não pediu perdão aos judeus. A estas questões, somou-se o equívoco cometido pelo Vaticano ao negar a participação do então Papa como membro da Hitlerjugend (Juventude Hitlerista). Quanto aos palestinos, eles ficaram satisfeitos com as críticas do Papa ao muro de contenção, mas Bento XVI foi censurado por não ter visitado Gaza e por não ter exigido, a Israel, medidas de proteção como fez em relação à Palestina[3].

Meio século após a visita de Paulo VI àquela região, nos dias 24, 25 e 26 de maio, o Papa Francisco realizou uma peregrinação apostólica de caráter ecumênico à Jordânia, aos Territórios Palestinos e a Israel. Desde o princípio, a sua viagem foi marcada por contestações por parte dos fiéis mais radicais do judaísmo. O fato de a última missa celebrada ter acontecido no Cenáculo (local da Última Ceia de Jesus Cristo com os seus discípulos), desagradou aos judeus ultra-ortodoxos, pois nesse local encontra-se, também, o túmulo do Rei Davi. Neste espaço, a visita dos peregrinos cristãos é permitida, mas as orações sejam proibidas[4]

A imprensa local abordou a dificuldade de se alcançar um possível acordo bilateral entre Israel e a Santa Sé. Segundo o jornal Ha’aretz, os “crimes de ódio[5] somados aos “protestos dos judeus ultra-ortodoxos têm empurrado essa comissão [Comissão Bilateral Permanente de Trabalho entre a Santa Sé e o Estado de Israel] para a ribalta. Por 15 anos eles têm se esforçado para negociar um acordo financeiro entre Israel e a Santa Sé sobre os direitos de propriedade da Igreja e suas obrigações fiscais”[6].

Recentemente, uma notícia a respeito de um suposto acordo que teria dado ao Vaticano a soberania sobre o Monte Sião, gerou muitos protestos por parte dos ultra-ortodoxos. O Embaixador de Israel no Vaticano, Zion Evrony, através de e-mail enviado ao Ha’aretz,comunicou que nenhum acordo foi finalizado, tendo ainda afirmado que “o Estado de Israel não tem a intenção de transferir para a soberania do Vaticano a propriedade do Cenáculo ou qualquer outra parte do complexo do Monte Sião[7].

Apesar das dificuldades iniciais, o Bispo de Roma compareceu a encontros com os representantes das três religiões monoteístas e demonstrou, através de gestos, mensagens políticas que refletem a situação vivida pelas populações locais. Em sua caminhada, ele parou para rezar em frente ao muro de contenção que separa israelenses e palestinos e manteve encontros com os representantes de Israel e da Palestina.

No encontro com o Presidente da Autoridade Nacional Palestina, Mahmoud Abbas, o Papa obteve as informações sobre os obstáculos ao processo de paz e as dificuldades enfrentadas por muçulmanos e cristãos, que têm levado à imigração, bem como a questão dos assentamentos e de Jerusalém[8]. No encontro com o Primeiro Ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, o Papa Francisco quebrou mais um protocolo e aceitou o convite de Netanyahu para visitar um espaço de homenagem de israelenses mortos em atentados terroristas[9].

O Papa Francisco demonstrou preocupação em relação ao processo de paz, tendo pedido entendimentos entre Israel e a Palestina e implorado pelo fim do conflito na região: “Para o bem de todos, há uma necessidade de intensificar os esforços, as iniciativas e as ações que visam criar as condições para uma paz estável baseada na justiça, no reconhecimento dos direitos de cada pessoa, e sobre a segurança mútua. Chegou o momento para que cada um possa encontrar a coragem para ser generoso e criativo a serviço do bem comum, a coragem para forjar a paz que repousa no reconhecimento por todos do direito de dois Estados existirem e viverem em paz e segurança dentro de fronteiras internacionalmente reconhecidas[10].

O apelo à paz, feito pelo Papa, assim como a proposta de solução do conflito a partir da existência de dois Estados, refletem uma atitude política de um Chefe de Estado que, durante esta viagem, demonstrou empenho não somente religioso. É preciso salientar que os cristãos que vivem naquela região, de certo modo, também cobram um esforço político do líder da Igreja Católica.

Os cristãos de Iqrit, uma aldeia que fica a norte de Israel, na fronteira com o Líbano, há muitos anos reclamam o direito de retornar à terra natal. Em 1948, Israel solicitou que os 450 moradores deixassem as suas casas por duas semanas, por medida de segurança devido às operações militares no local. Porém, o retorno dos aldeões nunca aconteceu. Em 1951, a Suprema Corte de Israel determinou o retorno dos moradores, mas a decisão não foi cumprida pelo Estado e, meses depois, toda a aldeia foi destruída pelas Forças de Defesa de Israel, restando apenas a Igreja de Iqrit e o cemitério. A população católica de Iqrit e de uma aldeia vizinha, Kufr Birim, escreveu uma carta ao Sumo Pontífice pedindo a sua intervenção junto ao Estado israelense para que seja reestabelecida a justiça e que possam retornar às terras de origem[11].

A Igreja de Iqrit, para além de um templo religioso, é o símbolo da memória e da resistência de um povo que clama por justiça. No âmbito político das negociações, o Papa Francisco abriu a possibilidade para uma nova tentativa de paz entre Israel e a Palestina. No final da missa realizada na Praça da Manjedoura, em Belém, o Papa convidou o Presidente de Israel, Shimon Peres, e o Presidente da Autoridade Nacional Palestina, Mahmoud Abbas, para “orarem pela paz”, tendo aberto as portas do Vaticano para receber os dois líderes. O convite foi aceito por Peres e Abbas[12], o que possibilita a reabertura de um novo processo de paz.

O encontro de Shimon Peres e Mahmoud Abbas, no Vaticano, está previsto para junho, mas a data ainda não foi acertada[13]. De certo modo, isto significa um avanço, principalmente entre Israel e o Vaticano, cujas relações diplomáticas foram estabelecidas em 1994, durante o pontificado do Papa João Paulo II[14]. A visita do Papa Francisco à Terra Santa, além de ter contribuído para o reforço da presença católica no Oriente Médio, reabriu os caminhos do diálogo israelo-palestino, interrompido com o final das negociações de paz em abril passado[15].

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Imagem Papa Francisco no Muro das Lamentações – Jerusalém” (Fonte):

http://timedotcom.files.wordpress.com/2014/05/pope_mideast.jpg?w=1100

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Fontes consultadas:

[1] Ver:

http://www.haaretz.com/travel-in-israel/religion-relics/pope-holy-land-visit/.premium-1.590566

[2] Ver:

http://internacional.elpais.com/internacional/2014/05/18/actualidad/1400441159_190909.html

[3] Ver:

http://www.haaretz.com/opinion/.premium-1.590027

[4] Ver:

http://internacional.elpais.com/internacional/2014/05/18/actualidad/1400441159_190909.html

[5] Ver:

https://ceiri.news/crimes-de-odio-ensombram-visita-papa-terra-santa/

[6] Ver:

http://www.haaretz.com/travel-in-israel/religion-relics/pope-holy-land-visit/.premium-1.591298

[7] Ver:

http://www.haaretz.com/travel-in-israel/religion-relics/pope-holy-land-visit/.premium-1.591298

[8] Ver:

http://www.jpost.com/Middle-East/The-message-of-Christ-is-still-alive-in-Bethlehem-353278

[9] Ver:

http://g1.globo.com/bom-dia-brasil/noticia/2014/05/papa-francisco-termina-viagem-cheia-de-surpresas-pela-terra-santa.html

[10] Ver:

http://www.jpost.com/Middle-East/The-message-of-Christ-is-still-alive-in-Bethlehem-353278

[11] Ver:

http://www.maannews.net/eng/ViewDetails.aspx?ID=698930

[12] Ver:

http://www.gazetadopovo.com.br/mundo/conteudo.phtml?tl=1&id=1471325&tit=Israelenses-e-palestinos-aceitam-convite-do-Vaticano

[13] Ver:

http://www.gazetadopovo.com.br/mundo/conteudo.phtml?tl=1&id=1471325&tit=Israelenses-e-palestinos-aceitam-convite-do-Vaticano

[14] Ver:

http://www.cbnfoz.com.br/editorial/mundo/27042014-130850-popular-papa-joao-paulo-ii-deixou-a-igreja-catolica-simpatica-aos-fieis

[15] Ver:

https://ceiri.news/israel-suspende-negociacoes-com-palestinos-apos-acordo-entre-o-fatah-e-o-hamas/

                  

ANÁLISES DE CONJUNTURAEUROPA

Relembrando Chernobyl

O acidente no “Reator Nuclear de Chernobyl”, ocorrido em 26 de abril 1986, foi o mais severo da indústria de geração elétrica nuclear. O reator foi destruído no acidente e uma quantidade considerável de material radioativo foi liberada para o meio ambiente. O acidente causou a morte, dentro de algumas semanas, de 30 trabalhadores e ferimentos de radiação a mais de uma centena de outros.

Em resposta, as autoridades evacuaram, em 1986, cerca de 115.000 pessoas de áreas em torno do reator e, posteriormente, cerca de 220 mil pessoas da Bielorrússia, da “Federação Russa” e da Ucrânia foram reassentadas.

O acidente provocou rupturas sociais e psicológicas graves nas vidas dessas pessoas afetadas e expressivas perdas econômicas em toda a região. Grandes áreas dos três países foram contaminadas com materiais radioativos e pequenas quantidades de radionuclídeos foram detectadas em todos os países do hemisfério norte.

À época do acidente, especialistas previram até 40.000 mortes por cânceres decorrentes da radiação liberada para as regiões afetadas. Recentemente, o 28º aniversário do desastre foi lembrado, cabendo a questão de saber quantas pessoas realmente morreram devido à radiação de Chernobyl até o momento.

Nós provavelmente nunca saberemos exatamente. Isso se deve, em parte, ao fato de que 40.000 mortes por câncer são menos de 1% da mortalidade causada por essa moléstia, as quais são esperadas na população afetada, independentemente do acidente e essas mortes são indetectáveis por estudos epidemiológicos. Mesmo que não fossem, a ciência não poderia dizer se um tipo específico de câncer foi induzido pela radiação ou por qualquer outra causa.

Uma exceção é o câncer de tireoide, doença muito rara em crianças, cujo número de casos disparou para quase 7.000 na Belarus, Rússia e Ucrânia desde o acidente até 2005. Não há dúvida de que a radioatividade de Chernobyl foi causa desses casos de câncer, que levaram a cerca de uma dezena de mortes. Também sabemos que duas pessoas morreram no momento da explosão do reator e mais de 100 pessoas, a maioria bombeiros que desconheciam os perigos a que estavam expostos, receberam doses altas o suficiente para causar a síndrome de radiação aguda. Destes, 29 morreram dentro de poucos meses após o acidente, seguidos de mais 18 mortes ao longo dos anos, quase todos por leucemia.

Para além desses tristes casos, exacerbadas controvérsias sobre o número de mortes de Chernobyl persistem. O fato concreto é que para a grande maioria das populações mais afetadas, o desastre causou doses de radiação equivalentes a algumas tomografias computadorizadas. Em níveis tão baixos, os efeitos da radiação sobre a saúde, se ocorrerem, são em longo prazo e essencialmente aleatórios.

Como o decaimento atômico que gera a radiação é impossível de ser previsto para um átomo individual, os efeitos da radiação sobre a saúde são também aleatórios. Uma determinada pessoa que viveu na zona de afetada pode ou não possuir, por exemplo, um átomo de césio-137 que está em silêncio imitando o potássio em alguma célula do corpo. O átomo pode ou não liberar radiação que venha atingir o DNA e transformá-lo de tal forma que venha levar ao câncer.

As previsões de mortalidade por câncer de Chernobyl são baseadas em fórmulas derivadas de estudos de populações japonesas sobreviventes das bombas de Hiroxima e Nagazaki, submetidas a doses muito mais elevadas. As fórmulas tomam a quantidade total de radiação liberada pelo desastre de Chernobyl, distribuem-na como dose por toda a população afetada, e multiplicam esse valor por um fator de risco, extrapolado desses estudos, para chegar a um número de mortes.

Os especialistas divergem sobre os fatores de risco utilizados, mas todas as fórmulas assumem que os efeitos para a saúde em longo prazo, principalmente a ocorrência de leucemia, que é o câncer mais comumente causado pela radiação, são diretamente proporcionais à dose. Os especialistas também divergem quanto à existência ou não de um limiar de dose mínima abaixo da qual não ocorrem mais efeitos e, em existindo, qual seria seu valor.

Os verdadeiros efeitos sobre a saúde da radiação a baixo nível de dose não pode ser exatamente conhecido, porque qualquer estudo para identificá-los teria que incluir um número incrivelmente grande de pessoas. Além disso, não é claro que os efeitos da intensa exposição à radiação imediatamente após as explosões de armas nucleares representem os mesmos perigos das baixas, mas crônicas, doses decorrentes de Chernobyl.

Existem inúmeras evidências científicas de que os mecanismos de reparação celular podem compensar as doses mais baixas de exposição. Isso explica porque não foi detectado o aumento previsto para casos de leucemia nas populações expostas à nuvem radioativa de Chernobyl.

Dada todas as incertezas, as estimativas atuais do número de mortes causadas por Chernobyl são muito diferentes das 40.000 inicialmente previstas. Em 2005, o Comitê Científico sobre Efeitos da Radiação Atômica da Organização das Nações Unidas (UNSCEAR) estimou a ocorrência de 4.000 mortes, ainda considerando a hipótese linear sem limiar para a relação dose-efeito, mas atualizando os fatores de risco de acordo com os avanços científicos na área.

Três anos mais tarde, no seu relatório de 2008, o Comitê passou a adotar como limite mínimo a dose equivalente a quatro tomografias computadorizadas abdominais, devido a incertezas inaceitáveis para essa faixa de doses tão baixa. Isso fez com que a previsão de número de mortes fosse ainda mais reduzida. Os críticos, tais como Greenpeace, responderam com novas previsões de 93 mil mortes por câncer causadas por Chernobyl.

Na realidade, as diferenças nos números decorrem das hipóteses de cálculo adotadas para a relação dose-efeito: o “Comitê da ONUpassou a adotar a hipótese linear com limite mínimo, pois após décadas de estudos, nunca se conseguiu encontrar evidências científicas de que existam realmente efeitos para doses muito baixas.

Os críticos rejeitam esse fato e continuam fazendo cálculos com a hipótese de inexistência de limite e fatores de risco superdimensionados, em que pesem as inúmeras evidências contrárias, demonstradas pela medicina nuclear e pelos estudos epidemiológicos, particularmente em regiões com altos níveis de radiação natural, como é o caso brasileiro das praias de areias monazíticas ao sul do “Espírito Santo”.

Na verdade, trata-se da discussão de princípios epistemológicos: a partir de que ponto a ausência de evidência pode ser assumida na prática como evidência de ausência? Em outras palavras, pode-se provar cientificamente que algo existe, mas muitas vezes é praticamente impossível provar que algo não existe. Enquanto isso, a discussão continua a se prestar aos mais variados vieses da subjetividade e dos interesses humanos.

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Fonte consultada:

Avaliação de Leonam dos Santos Guimarães

ANÁLISES DE CONJUNTURAEUROPA

El rol del Papa Francisco en la agenda internacional

La elección el 13 de marzo de 2013 del ex cardenal argentino Jorge Mario Bergoglio como Papa de la Iglesia católica impactó de forma contundente en el escenario internacional. Siendo el primer jesuita y latinoamericano que asume este cargo, Francisco es –además de líder máximo de esta religión- Jefe de Estado de la Ciudad del Vaticano. Cumplido un año de su pontificado, se ha consolidado como un actor político de peso, rol que ha ejercido tanto en las múltiples audiencias que ha mantenido con diversos líderes del mundo como en las declaraciones públicas que ha realizado sobre problemáticas internacionales de la actualidad: consecuencias negativas del sistema financiero internacional, situación irregular de los migrantes, crisis política en Venezuela y Ucrania y riesgo de intervención militar en Siria.

En este sentido, la primera reunión política que ha organizado como Pontífice ha sido con la Presidenta de su país, Cristina Fernández de Kirchner. A pesar de que su vínculo había sido conflictivo –en los últimos años ni siquiera tenían diálogo-, la primera mandataria argentina ha viajado en dos oportunidades al Vaticano y ha mantenido una audiencia privada en ocasión de la “XXVIII Jornada Mundial de la Juventud (JMJ)”, en Brasil. El 17 de marzo de este año, en su último encuentro, ha manifestado que los temas principales que abordaron fueron la economía y las desigualdades que ésta acarrea, las dificultades de los jóvenes para conseguir empleo y los conflictos políticos en Ucrania y Venezuela[1]. Como puede observarse, Francisco sigue al tanto de la actualidad política de su país y en múltiples oportunidades ha realizado declaraciones públicas sobre ella.

Sin embargo, su proyección internacional se constata fundamentalmente en el diálogo que ha establecido con los líderes de las principales potencias del mundo, entre ellos, Ángela Merkel, Vladimir Putin, François Hollande y Barack Obama. La Canciller alemana solicitó una audiencia en respuesta a declaraciones del Papa atribuyendo responsabilidad a la “Unión Europea” por la crisis económica que castiga Europa. Fue por ello que el 18 de mayo de 2013 conversaron en el Vaticano sobre este tema, así como sobre la protección a los “Derechos Humanos”, la importancia del desarrollo sustentable y la proyección de los valores de la comunidad europea a través de su modelo de gobernanza global[2]. Cabe destacar que la cuestión del medio ambiente y la naturaleza continúa en la agenda del Vaticano, e incluso se ha adelantado que Francisco está preparando un documento público sobre el tema.

Por otra parte, la histórica reunión que mantuvo con el Presidente ruso Vladimir Putin también se desencadenó a partir de un conflicto coyuntural: la situación política en Siria y el debate en foros multilaterales sobre una posible intervención armada. Previamente, le había enviado una carta dirigida al “Grupo de los 20” (G-20) en la de que declaraba que “desgraciadamente, duele constatar que demasiados intereses han prevalecido desde que comenzó el conflicto en Siria, impidiendo encontrar una solución que evitase la inútil masacre a la que estamos asistiendo[3]. También apeló a los allí reunidos para que encuentren otras vías que eviten el ataque militar y, a la vez, acaben con la violencia[3]. Sobre esta problemática y sobre la seguridad de los cristianos en Oriente versó la audiencia del 26 de noviembre de 2013, en la que discutieron cómo brindar asistencia humanitaria en Damasco, destruir las armas químicas -si las hubiere-  y asegurar la paz mediante mecanismos de negociación internacionales[4].

De diferente naturaleza fue el encuentro con el Presidente francés Hollande el 24 de enero de este año, dado que coincidió con el escándalo suscitado por una supuesta infidelidad a su pareja. Muchos analistas internacionales, incluso, aludieron que fue éste el motivo real por el que se acercó al líder católico: con el objetivo de mejorar su imagen pública. Las cuestiones de agenda que discutieron fueron aborto, medio ambiente e inmigración, así como la violencia en Siria[5]. Por último, el 27 de marzo el Presidente de Estados Unidos Barack Obama viajó al Vaticano para conocer al Pontífice. En la audiencia comentaron la situación de los migrantes en el país, las desigualdades económicas, la pobreza y la urgencia por garantizar paz en “Medio Oriente”. Al finalizar, en un acto simbólico, respaldó el protagonismo de Francisco en los asuntos internacionales, afirmando que “la suya es una voz que el mundo debe escuchar[6].

En lo que refiere América Latina, su región, ha establecido diálogo con los Presidentes de Bolivia, Brasil, Surinam y Uruguay. Los primeros tres han participado en la ceremonia de cierre de la JMJ el 28 de julio de 2013. Al respecto, el primer mandatario boliviano Evo Morales declaró que “el papa dijo que para ser cristiano hay que ser revolucionario, y yo lo soy[7]. Con la Presidenta de Brasil Dilma Rousseff también se ha encontrado en dos audiencias privadas, la última de ellas el 21 de febrero de este año. En un clima de cordialidad, Rousseff comentó que el tema central sobre el que conversaron fue el “Mundial de Fútbol” que se realizará en Brasil este año (2014): “vine a decirle al Papa que vamos a hacer una Copa con un tema muy importante, por la paz, contra el racismo[8]. Con quien también tiene un vínculo cercano es con el Presidente de Uruguay José “Pepe” Mujica. Las temáticas sobre las que dialogaron el primero de junio de 2013 fueron el respeto a los “Derechos Humanos”, la paz y la justicia social, así como las contradicciones del sistema económico imperante. También recordaron al destacado pensador uruguayo Alberto Methol Ferré, católico y latinoamericanista, quien fue un referente para ambos[9]. Lo llamativo de su vínculo es que el Presidente uruguayo se reconoce ateo, lo que confirma que los lazos que lo unen al Papa no son religiosos sino políticos, sociales y culturales.

Más allá de las reuniones bilaterales, Francisco ha expresado su posición sobre diversos asuntos internacionales en actividades, declaraciones y documentos públicos. El más relevante de ellos fue su visita en julio de 2013 a Lampedusa, una isla al sur de Sicilia que por estar a sólo 113 kilómetros de África se ha convertido en la principal ruta de ingreso ilegal de africanos a Europa. Allí denunció la responsabilidad que el mundo tiene con esa problemática, reclamando que “la ilusión por lo insignificante, por lo provisional, nos lleva hacia la indiferencia hacia los otros, nos lleva a la globalización de la indiferencia[10].

Las inmigraciones han sido, por lo tanto, una de las preocupaciones fundamentales del Pontífice. Por otro lado, también ha expresado en numerosas oportunidades su disconformidad con el sistema económico internacional imperante. En relación a ello, resulta fundamental el contenido de su primera “exhortación apostólica”, “Evangeli Gaudium”, publicada el 24 de noviembre de 2013. En ella rechaza “la economía de la exclusión y la inequidad[11], se declara en contra de la “teoría del derrame” que sostiene que el crecimiento económico por sí mismo genera beneficios para toda la población, argumenta que “la crisis mundial se debe al fetichismo del dinero y la dictadura de la economía[11], y reivindica el papel activo del Estado, aclarando que “el dinero debe servir y no gobernar[11]. En el mismo sentido ha solicitado en un Mensaje al “Foro de Davos” –“Foro Económico Mundial”- en enero del último año que no olviden “que la riqueza sirva a la humanidad y no la gobierne[12]. Por último, en relación a los últimos conflictos políticos, el 2 de marzo ha pedido que se favorezca el diálogo y la concordia en la región de Crimea, en Ucrania, sosteniendo “espero que todas las partes estén actuando para superar incomprensiones y construir juntos el futuro de la nación[13]. Aún más, el 3 de septiembre de 2013 utilizó la popular red social Twitter para condenar el uso de armas químicas en Siria[14].

En síntesis, se puede afirmar que el liderazgo del Papa Francisco no se expresa sólo en el plano religioso sino también en un posicionamiento político y económico, que está conformando una doctrina. De este análisis de su primer año de Pontificado, surgen los siguientes elementos principales: 1) duras críticas al libre mercado, las desigualdades y la teoría económica del derrame, y reivindicación del rol activo del Estado; 2) preocupación por la seguridad y el trato a los migrantes internacionales –legales o ilegales-, por la corrupción y la preservación del medio ambiente; 3) defensa de la paz internacional, la solución de conflictos políticos internos que pongan en peligro a los pueblos –como en Siria, Ucrania y Venezuela– y rechazo a uso de armas químicas y medios militares de ataque. Se concluye así que el papel de Francisco en la coyuntura política internacional es sin dudas activo, contundente y dirigido a la acción. Corresponderá, por lo tanto, continuar estudiando su influencia como líder político en el mundo.

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Imagen La prestigiosa revista Time lo eligió Persona del año en 2013” (Fuente:“Huffington Post”):

http://www.huffingtonpost.com/2013/12/11/time-person-of-year-2013-pope-francis_n_4421292.html

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Fuentes consultadas:

[1] Ver:

http://www.telam.com.ar/notas/201403/55555-cristina-se-reune-con-el-papa-en-santa-marta-en-un-encuentro-a-agenda-abierta.html

[2] Ver:

http://www.lanacion.com.ar/1583271-el-papa-francisco-recibio-a-angela-merkel

[3] Ver:

http://www.telesurtv.net/articulos/2013/09/05/papa-francisco-insta-al-g20-a-rechazar-el-ataque-a-siria-que-organiza-ee.uu-4011.html

[4] Ver:

http://es.rbth.com/internacional/2013/11/26/encuentro_historico_entre_el_papa_francisco_y_putin_en_el_vatic_34757.html

[5] Ver:

http://www.elmundo.es/internacional/2014/01/24/52e28a8dca4741070c8b4575.html

[6] Ver:

http://internacional.elpais.com/internacional/2014/03/27/actualidad/1395911738_266596.html

[7] Ver:

http://www.periodistadigital.com/religion/america/2013/07/28/evo-morales-el-papa-dijo-que-para-ser-cristiano-hay-que-ser-revolucionario-y-yo-lo-soy.shtml

[8] Ver:

http://www1.folha.uol.com.br/poder/2014/02/1416037-dilma-fala-de-futebol-com-papa-francisco-e-menciona-a-mao-de-deus.shtml

[9] Ver:

http://www.telesurtv.net/articulos/2013/06/01/papa-francisco-califica-a-jose-mujica-como-un-hombre-sabio-2859.html

[10] Ver:

http://internacional.elpais.com/internacional/2013/07/08/actualidad/1373270412_332935.html

[11] Ver:

http://www.cpalsj.org/wp-content/uploads/2013/11/2013-Evangelii-Gaudium.pdf

[12] Ver:

http://www.lanacion.com.ar/1657279-el-papa-pidio-por-carta-al-foro-de-davos-que-la-riqueza-este-al-servicio-de-la-humanidad

[13] Ver:

http://www.excelsior.com.mx/global/2014/03/02/946485

[14] Ver:

http://www.infobae.com/2013/09/03/1506247-francisco-condeno-especial-firmeza-el-uso-las-armas-quimicas