ANÁLISES DE CONJUNTURAEUROPA

Os conflitos internacionais sobre recursos hídricos

A água, principalmente quanto escassa, é um recurso de poder. É preciso compreender como o acesso a este recurso se contrapõe aos recursos tradicionais das Relações internacionais, ou, em que medida o acesso a água altera as relações de poder entre compartilhadores de recursos hídricos.

A história está repleta de exemplos de destruição de aquedutos, represas e até mesmo de contaminação das fontes de água potável, métodos usados tanto por terroristas e grupos rebeldes como por governos para atingir militares e população civil. Por exemplo, uma das razões por trás do Conflito da Caxemira é o recurso hídrico. A Caxemira é a fonte de vários rios e afluentes do Rio Indo. Estes incluem o Jhelum e Chenab, que fluem basicamente no Paquistão, enquanto que outros ramos – como o Rio Ravi, Rio Beas e o Rio Sutlej, irrigam o Norte da Índia. O Paquistão tem sido apreensivo quanto a isso, pois, em uma situação extrema, a Índia poderia usar a vantagem estratégica que dá sua parcela da Caxemira, na qual passa a origem dos referidos rios, mantendo o mesmo canal e podendo, assim, estrangular a economia agrária do Paquistão. De forma positiva, o Tratado de Água do Indo, assinado em 1960, resolveu a maioria desses litígios em matéria de partilha da água e apelou para a cooperação mútua a este respeito. Este Tratado enfrentou questões levantadas pelo Paquistão durante a construção de barragens no lado indiano que limitam a água para o lado paquistanês.

unnamedunnamedO Oriente Médio é um dos locais onde mais acontecem e podem acontecer disputas pela água. Ela já foi motivação para algumas ações em uma área de grande tensão política. Em 1967, durante a Guerra dos Seis Dias, Israel invadiu as Colinas de Golã, na Síria, tanto pela sua posição estratégica quanto pelo fato de essa localidade abrigar as nascentes do Rio Jordão, necessárias tanto para os israelenses quanto para a Jordânia. Atualmente, no território da Palestina, a população local é privada de ter acesso às fontes locais pelo próprio Governo de Israel, sendo um dos fatores que elevam a instabilidade política em uma área com grandes desertos e pouco potencial hídrico.

Na década de 80, durante a Guerra IrãIraque, o Irã desviou água para inundar as Defesas Militares iraquianas. Na Guerra do Golfo (19901991), o Iraque bombardeou as plantas de dessalinização no Kuwait, destruindo boa parte da capacidade de produção de água potável do país. Mais tarde, em 1993, Saddam Hussein drenou e envenenou o Marismas da Mesopotâmia, que garantia o suprimento de água dos árabes que se escondiam nos pântanos. Até mortos já foram usados para contaminar água. Na Guerra do Kóssovo (19961999), os sérvios jogaram cadáveres em poços de suprimento em Kóssovo.

Com as mudanças climáticas, os rios tendem a inundar e a secar mais rápido. A escassez de água deve, provavelmente, ocorrer em partes do mundo que já sofrem com problemas de fornecimento. Desta maneira, os cientistas políticos acreditam que “os conflitos em determinadas áreas vão se tornar mais intensos[1].

Em uma tentativa de “rastrear” as futuras disputas por água ao redor do mundo, pesquisadores da Universidade do Estado do Oregon  levaram uma década para reunir uma grande base de dados de intercâmbios internacionais – tanto “alianças” como “conflitos” – sobre a distribuição de recursos hídricos. Segundo os estudos, os países geralmente iniciam as disputas de maneira armada, mas, ultimamente, têm chegado a “acordos pacíficos”. De acordo com Aaron Wolf, o geógrafo que liderou o projeto, a parte realmente interessante é como mesmo árabes e israelenses ou indianos e paquistaneses são capazes de resolver suas diferenças e achar uma solução[2].

Boa parte dos atuais casos de “hostilidade” entre países envolve a construção de represas. Na Turquia, o desentendimento é com o Iraque. Outra represa, que é construída na Etiópia, em uma região de nascentes do Rio Nilo, está desagradando Sudão e Egito. Uma situação semelhante ocorre no Tajiquistão, que quer erguer uma usina hidrelétrica na nascente do rio Amy Darya. Seria a represa mais alta do mundo, contudo a construção está gerando problemas com o vizinho Uzbequistão. De acordo com previsões do Banco Mundial[3], quando a população mundial for 7% maior do que a de hoje, para cada aumento de um grau na temperatura, haverá 20% menos oferta de água. A produtividade agrícola pode cair 2% por década até o final do século, de forma que a demanda deverá crescer 14% até 2050.

Segundo o cientista americano Peter H. Gleick[4], há uma longa história de Disputas relacionadas à água, de conflitos sobre o acesso a recursos hídricos e ataques intencionais a sistemas de abastecimento durante guerras. A água e os sistemas de abastecimento de água foram as raízes e instrumentos de guerra. O acesso a recursos hídricos compartilhados já foi cortado por razões políticas e militares. Fontes de abastecimento de água têm estado entre as metas de expansionismo militar e as desigualdades no uso da água têm sido a fonte dos atritos e tensões regionais e internacionais. Esses conflitos continuarão e em alguns locais se tornarão mais intensos, à medida que populações crescentes demandam mais água para o desenvolvimento agrícola, industrial e econômico[5].

Outros cientistas apontaram para a probabilidade de aumento dos conflitos ligados a recursos hídricos compartilhados. Entre eles, o exvicepresidente do Banco Mundial, doutor Ismaíl Serageldín, que, em 1995, afirmou: “Se as guerras deste século foram travadas pelo petróleo, as do próximo serão travadas pela água[6].

Outra zona de Instabilidade geopolítica por causa da água é a Turquia e seus vizinhos Iraque e Síria. A questão ronda em torno dos rios Tigre e Eufrates, os quais abastecem sírios e iraquianos, mas possuem suas nascentes localizadas em território turco. Em 2009, uma seca na região diminuiu o fluxo dos rios e tornou as relações ainda mais tensas, uma vez que o Iraque passou a acusar os outros dois países de usarem as águas dos rios em questão acima do permitido, o que desencadeou falta de água no país. Os turcos, no entanto, afirmam que emitem mais água pelos rios do que o combinado em acordos internacionais. Enquanto isso, a tensão eleva-se na região e deixa em aberto a pergunta: será esse um foco de Conflito armado no futuro? Essa questão em torno dos rios Tigre e Eufrates não é uma grande novidade. A posição oficial da Turquia, por exemplo, é a de que “a água [dos rios] é tão turca como o petróleo do Iraque é iraquiano”. Em 1998, quase houve um conflito entre Turquia e Síria, pois os turcos haviam iniciado a construção de barragens e represas no leito do Tigre e também do Eufrates, o que diminuiria suas vazões nas áreas de suas jusantes.

A lógica em outras regiões do mundo parece ser a mesma: a disputa não é só pela água em si, mas pelo “controle de suas nascentes” ou por uma maior cooperação entre os países em cursos d’água que percorrem vários territórios políticos. Na África, o Rio Nilo passa pela mesma disputa por parte de Etiópia, Egito e Sudão, ao mesmo tempo que Botswana, Namíbia e Angola também disputam, de forma semelhante, a Bacia de Okavángo.

Além da disputa pelo controle de nascentes de grandes rios interterritoriais, a previsão para o decorrer do século XXI é a emergência de conflitos que também se associem a ações imperialistas, em que países passem a invadir ou controlar politicamente outros territórios em busca da obtenção de água ou a sua importação a um menor custo. Por esse motivo, é preciso pensar em saídas para evitar uma escassez ainda maior desse recurso, com medidas que visem à sua sustentabilidade.

Em 10 de maio dе 2014, Grupos armados atacaram a estação de bombeamento de água na cidade síria de Alepo. Durante oito dias, 2,5 milhões de pessoas ficaram sem acesso à água potável. Não está claro quem foi o responsável. As forças do regime e da oposição culparam umas às outras. Sob o controle do grupo jihadista Estado Islâmico (EI), o Lago Assad registrou perda recorde de 6 metros no nível da água para o ano passado. Os rebeldes controlam a maior parte do curso superior do Tigre e do Eufrates.

Rios, canais, barragens, esgoto e plantas de dessalinização cada vez mais tornam-se alvos militares, em movimento parecido com o que acontece com poços de petróleo, frequentemente queimados nos conflitos. Mas, diferentemente dessa prática de guerra, a privação de água como estratégia bélica é mais cruel, ao afetar não apenas os inimigos armados, mas populações civis. Há outra razão: água é insubstituível. Sem uma fonte de qualidade e segura, aumentam os riscos de contaminação e, inevitavelmente, o número de doenças e óbitos.

Pelo menos 260 bacias fluviais atravessam 145 fronteiras internacionais e muitas são utilizadas por mais de três nações. O uso conjunto dessas reservas hídricas tem o poder de acentuar tensões e aumentar divergências. Felizmente, há mais casos de gestão compartilhada amigável das águas pelo mundo do que conflitiva. Contudo, as guerras carregam consigo uma mazela: a deterioração do meio ambiente. Lugares que vivem mergulhados em conflitos estão mais expostos à carência de recursos naturais, incluindo água.

Há ainda outra ameaça real à estabilidade nessas regiões: as mudanças climáticas. Um informe das Agências de inteligência dos Estados Unidos define bem o risco. “A escassez de água doce, as secas e inundações vão aumentar a probabilidade de que a água seja usada como arma entre os Estados ou para outras finalidades terroristas em áreas estratégicas, incluindo o Oriente Médio, sul da Ásia e norte da África[7], diz o texto.

Apenas ressaltando, conforme dito anteriormente com base em fontes do Banco Mundial, também de acordo com o quinto relatório do Painel Intergovernamental das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (IPCC)[8], considerando um cenário com uma população mundial 7% maior do que a de hoje, para cada aumento de um grau na temperatura, haverá 20% menos disponibilidade de água, algo que deve preocupar cada vez mais a sociedade internacional.

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Imagem 1 (Fonte):

http://www.popsci.com/article/science/where-will-worlds-water-conflicts-erupt-infographic

Imagem 2 (Fonte):

http://www.newsecuritybeat.org/2014/10/forecast-water-conflicts-occur/

Imagem 3 (Fonte):

http://www.hidropolitikakademi.org/en/7562.html#prettyPhoto

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Fontes Consultadas:

[1] Ver:

http://www.transboundarywaters.orst.edu/

[2] Ver:

http://www.transboundarywaters.orst.edu/database/

[3] Ver:

http://documents.worldbank.org/curated/en/2014/06/19646108/climate-change-conflict-cooperation-global-analysis-resilience-international-river-treaties-increased-water-variability

[4] Ver:

http://pacinst.org/gleick-publications/

[5] Ver: 

http://worldwater.org/water-conflict/

[6] Ver:

http://muse.jhu.edu/login?auth=0&type=summary&url=/journals/sais_review/v029/29.1.spoth.html

[7] Ver:

http://www.geosociety.org/positions/position17.htm

[8] Ver:

http://www.ipcc.ch/report/ar5/wg2/

AMÉRICA DO NORTEANÁLISES DE CONJUNTURAEUROPA

EUA temem uma aliança forte entre Alemanha e Rússia

Recentemente, George Fridman, chefe da Stratfor Global Intelligence, uma agência de inteligência privada fundada em 1996, que presta consultoria para diversos governos, empresas e indivíduos,  incluindo oDepartamento de Estado dos Estados Unidos da América (EUA), afirmou que os EUA consideram ser seu objetivo primordial impedir a formação de uma aliança entre Alemanha Rússia. De acordo com Fridman, isso impediria a formação de uma superpotência, capaz de fazer frente ao poderio norte-americano no sistema internacional[1].

Segundo a ótica de George Fridman, a tecnologia e o capital da Alemanha, combinados com os imensos recursos naturais da Rússia seriam capazes de forjar um mundo verdadeiramente bipolar, que teria de um lado os Estados Unidos e do outro a Eurásia[2]. Vale destacar que essa não é a primeira vez que analistas assinalam que uma união entre esses dois países seria capaz de fazer frente à potência hegemônica da época.

No início do século passado, Halford John Mackinder, o principal estrategista da Teoria do Poder Terrestre, afirmava que o Governo inglês deveria impedir uma aliança ou a dominação da Rússia pelaAlemanha[3]. Isso porque, de acordo com seu livro, The Geographical Pivot of History, a Rússia, detentora de abundantes recursos naturais e energéticos, no coração da Eurasia (no caso, o que denominava porHeartland), aliada ou dominada pela potência industrial da Alemanha, poderia representar um grande perigo para os interesses ingleses no mundo.

Nesse sentido, de acordo com a declaração do chefe da Stratfor Global Intelligence, os Estados Unidos buscariam dificultar possibilidades de desenvolvimento dos dois países. Essa perspectiva explicaria a estratégia norte-americana utilizada na Crise da Ucrânia e a imposição de sanções econômicas que tem prejudicado tanto a Rússia, como também a Alemanha[4]. É preciso ressaltar que 40% do gás que a Alemanha importa é russo e, ainda, que um terço do gás consumido na Europa provém da Rússia[5].

Nesse aspecto, vale destacar que no livro “Os próximos 100 anos”, publicado em 2009, Fridman aponta que a Europa, em cenários futuros, teria que lidar “com o ressurgimento da Rússia, a intimidação dos Estados Unidos, e as tensões internas[6]. Segundo analistas, esses três cenários já estão em movimento. Após o ex-URSS muitos acreditavam que a Rússia não retornaria a assumir tão cedo um papel protagonista, mas já em 1997 foi convidada a participar do G-8 (AlemanhaCanadáEstados UnidosFrançaItáliaJapãoReino Unido e Rússia), além disso, em 2001 Jim ONeill, um economista inglês”, apontou aRússia, como uma das economias que mais cresciam no mundo, formando junto com Brasil, Índia e China o acrônimo, BRIC. Compete lembrar que a Rússia é membro permanente do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas, o que evidencia seu poder político e estratégico. Por fim, nas últimas décadas a Federação Rússia tem sido o motor energético da Europa, em razão das suas abundantes fontes de recursos naturais.

Já a Alemanha, desde a Segunda Guerra Mundial, não teve nenhum líder com papel tão relevante quanto a atual chanceler Angela Merkel, em razão do isolamento provocado pelo passado nazista do país[7]. Nesse âmbito, a Chanceler da Alemanha tem assumido papel de destaque nas questões centrais envolvendo a crise  da Europa, uma vez que a Alemanha é a economia mais forte do bloco. Além disso, recentemente enviou armas aos curdos que lutam contra o Estado Islâmico no Oriente Médio. Mas, sobretudo, tem sido a principal voz do Ocidente nas negociações com os russos[8]. Por isso, alguns analistas ressaltam que Merkel sabe a importância, por exemplo, do Acordo Minsk II, assinado em fevereiro de 2015 que propunha o cessar fogo na Ucrânia[9]. Nesse aspecto, o próprio Governo norte-americano sabe da importância do papel desempenhado por Merkel.

No entanto, para alguns analistas, essa força da Chanceler Alemã na verdade retrata apenas a fraqueza temporária de outros países. De acordo com Markus Kaim, do Instituto Alemão de Assuntos Internacionais e de Segurança,“a França está lutando com uma crise econômica e da Frente Nacional, a Grã-Bretanha é introspectiva e antiglobalista, e os EUA embarcaram em um período de construção da sua nação. Não há muitos outros países dispostos a arcar com o ônus[10]. É justamente em razão desses cenários que Fridman aponta à existência do receio dos Estados Unidos quanto a formação de uma aliança entre Alemanha e Rússia.

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Imagem (Fonte):

http://www.zeit.de/politik/2013-04/cebit-merkel-putin-rede-demokratie-wirtschaft

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Fontes Consultadas:

[1] Ver:

http://www.globalresearch.ca/stratfor-us-aims-to-prevent-a-german-russian-alliance/5437247

[2] Ver:

Idem.

[3] Ver:

http://www.mindef.gov.sg/safti/pointer/back/journals/1998/Vol24_3/8.htm

[4] Ver:

http://www.globalresearch.ca/stratfor-us-aims-to-prevent-a-german-russian-alliance/5437247

[5] Ver:

http://www.dw.de/crise-na-ucr%C3%A2nia-pode-afetar-distribui%C3%A7%C3%A3o-de-g%C3%A1s-na-europa/a-17480532

[6] Ver:

http://www.globalresearch.ca/stratfor-us-aims-to-prevent-a-german-russian-alliance/5437247

[7] Ver:

http://www.telegraph.co.uk/news/worldnews/europe/germany/angela-merkel/11396595/Angela-Merkel-takes-on-worlds-major-crises-Ukraine-and-Islamic-State.html

[8] Ver:

Idem.

[9] Ver:

http://www.themoscowtimes.com/opinion/article/merkel-is-the-unsung-hero-of-ukraine-crisis/516374.html

[10] Ver:

http://www.telegraph.co.uk/news/worldnews/europe/germany/angela-merkel/11396595/Angela-Merkel-takes-on-worlds-major-crises-Ukraine-and-Islamic-State.html

 

ANÁLISES DE CONJUNTURAEUROPA

Presidente ucraniano busca intervenção internacional para resolver conflito no país

Na última segunda-feira, dia 2 de março, o Presidente da Ucrânia, Petro Poroshenko, assinou um requerimento, destinado à Organização das Nações Unidas (ONU) e à União Europeia (UE), solicitando a presença de “tropas internacionais” em território ucraniano com o objetivo de estabelecer “a paz” no país, principalmente em sua porção leste, onde as Forças Armadas nacionais estão combatendo “rebeldes” ucranianos próRússia.

Embora o pedido formal só seja possível após ratificação pelo Parlamento nacional, a ação de Poroshenko visa legitimar sua posição no conflito através de um apoio internacional realizado, principalmente, pela presença da ONU. Concomitantemente a este pedido, o Presidente ucraniano apresentou ao Parlamento de seu país uma proposta de Lei que busca aumentar o número do contingente das Forças Armadas em 68 mil soldados, alcançando um total de 250 mil combatentes[1].

A busca por integrar Forças Internacionais de Manutenção da Paz (International Peacekeepers) nos conflitos do leste ucraniano recebeu duras críticas por parte do atual Ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergey Lavrov, que afirmou[1], durante um evento da ONU em Genebra (Suíça), que a melhor saída para a resolução de tal conflito consiste na manutenção e fortalecimento do Acordo de Paz de Minsk[2], assinado em 12 de fevereiro (2015), entre a Rússia e a Ucrânia, com mediação da Alemanha e França. A ação de Poroshenko fora “ignorada” pelas lideranças europeias, que não se pronunciaram sobre o ocorrido[3].

De acordo com o último relatório publicado pela ONU[4] sobre a situação no leste ucraniano, o “derramamento de sangue[1] oriundo por este conflito vem diminuindo significativamente nas últimas semanas[1]. Nesta última terça-feira, dia 3, algumas das principais lideranças “ocidentais” se reuniram em vídeo conferência e concordaram na necessidade de fortalecer o Acordo de Paz de Minsk, devido sua importância no cessar fogo entre as partes envolvidas.

De acordo com a Casa Branca[3], participaram da reunião o Presidente dos Estados Unidos da América, Barack Obama; o Presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk, e os Chefes de Governo da Alemanha, França e Reino UnidoAngela Merkel, Francois Hollande e David Cameron, respectivamente. Os líderes políticos ali presentes concordaram que “uma reação maior por parte da comunidade internacional só seria necessária em caso de uma grande violação da implementação[3] do acordo de cessar fogo.

Em entrevista concedida à mídia alemã, Angela Merkel afirmou que as potências “ocidentais” têm como objetivo imediato frear todos os tipos de enfrentamento entre civis e militares no leste ucraniano, onde o cessar fogo já obteve significativo resultado no apaziguamento do conflito com o uso de armas pesadas. Caso o Acordo de Paz de Minsk não seja capaz de por um fim aos confrontos, Merkel afirmou que os “Estados-membros [da UE] e da Comissão Europeia estão preparados para tomar sanções mais duras[5].

No início da semana, os líderes europeus e o Presidente da Federação Russa, Vladimir Putin, já haviam acordado que a garantia do cumprimento do Acordo de Paz de Minsk deveria repousar no arcabouço institucional da Organização para a Segurança e Cooperação da Europa (OSCE), estabelecida em meados de 1975. De acordo com o relatório da Instituição, publicado no último dia 2 (março), a situação nas regiões de Donetsk e Lugansk, no extremo leste do país, parece “ser relativamente calma, embora tiros e bombardeios distantes foram ouvidos[6].

Dessa maneira, o Acordo de Paz de Minsk, embora não tenha sido capaz de por um fim último aos confrontos no leste ucraniano, obteve considerável sucesso na construção de um apaziguamento gradual da região.

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Imagem (Fonte):

http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/b/b3/Vladimir_Putin_at_celebrating_the_70th_anniversary_of_D-Day_(2014-06-06%3B_06).jpeg

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Fontes Consultadas:

[1] Ver:

http://www.dw.de/ukraine-in-appeal-for-international-peacekeeping-force/a-18289480

[2] Ver:

http://www.theguardian.com/world/2015/feb/12/ukraine-crisis-reports-emerge-of-agreement-in-minsk-talks

[3] Ver:

http://www.dw.de/western-leaders-want-strong-reaction-if-major-violation-of-minsk-deal/a-18292027

[4] Ver:

http://www.dw.de/un-more-than-6000-killed-in-ukraine-war/a-18288419

[5] Ver:

http://www.dw.de/ukraine-in-appeal-for-international-peacekeeping-force/a-18289480

[6] Ver:

http://www.osce.org/ukraine-smm/143601

ANÁLISES DE CONJUNTURAÁSIAEUROPAORIENTE MÉDIO

As reais ameaças nucleares na atualidade

Desde os bombardeios atômicos de Hiroshima e Nagasaki, as armas nucleares têm ocupado um lugar de destaque na segurança mundial. Toda uma nova disciplina acadêmica de estudos estratégicos surgiu para fornecer os fundamentos teóricos aos líderes políticos envolvidos na tomada de decisão sobre seu emprego. Com efeito, as armas nucleares foram o fundamento da estratégia americana para defender a Europa em face de um poder militar convencional soviético numericamente superior durante a Guerra Fria.

Nessa época, a maior parte do debate esteve focado no equilíbrio nuclear EUAURSS, sem dúvida a ameaça mais provável e mais perigosa. Esse equilíbrio foi mantido com base na doutrina da “Mutual Assured Destruction” (MAD), ou seja, na manutenção de um status quo no qual nenhuma das duas superpotências poderia vencer uma guerra nuclear, pois, se a guerra fosse iniciada por uma delas, ambas acabariam destruídas. O desenvolvimento de Sistemas Antimísseis Balísticos (ABM) e a Iniciativa de Defesa Estratégica (SDI) foram grandes ameaças a esse equilíbrio. Os ABM foram objeto de tratado específico limitando seu uso e a SDI é muitas vezes apontada como uma das principais causas da queda da URSS.

Desde o colapso da URSS, entretanto, as armas nucleares continuam sendo uma das principais preocupações geopolíticas mundiais. No entanto, o debate internacional decorrente não é focado nos países que possuem arsenais nucleares operacionais (EUA, Rússia, China, França, GrãBretanha, Índia, Paquistão, Israel). A grande visibilidade da política externa dos “cinco grandes”, membros do Conselho de Segurança da ONU, está nas hipotéticas armas nucleares operacionais que estados classificados como “rogue” (Coréia do Norte, Irã, Iraque, Síria, Líbia, entre outros), bem como grupos terroristas, não têm (com sucesso até agora, exceto no caso da Coréia do Norte).

Por outro lado, a comunidade não-governamental dos estudos estratégicos nucleares foi sendo eclipsada pela comunidade da não-proliferação e controle de armas, que se esforça para tentar abolir as bombas nucleares, mas que muito pouco foca na busca pela minimização do perigo real que aquelas bombas que existem nos arsenais nucleares dos EUA, Rússia, França, GrãBretanha, China, Índia, Paquistão e Israel representam.

Sem nenhuma dúvida, essas atividades são importantes e necessárias. No entanto, elas criaram um vácuo, na medida em que também muito pouco se discute (e muito menos se minimiza) as ameaças nucleares reais que o mundo de hoje enfrenta. Infelizmente, essas ameaças, tão discutidas durante a Guerra Fria, não desapareceram com a queda do muro de Berlim. Com a esperança de provocar esse necessário debate, vamos tentar identificar as ameaças nucleares reais que se acredita serem as mais perigosas e sobre as quais pouco se discute.

MIRVs asiáticos

Como já discutido em artigo anterior, a ameaça nuclear mais perigosa que o mundo enfrenta atualmente é a perspectiva de China e Índia obterem Multiple Independently Targetable Reentry Vehicles (MIRV). Os MIRVs permitem aos mísseis balísticos transportarem múltiplas ogivas nucleares cada uma sendo destinada a um alvo diferente.

Durante a Guerra Fria, a introdução de mísseis MIRV desestabilizou muito o equilíbrio nuclear EUAURSS, tornando os arsenais nucleares mais suscetíveis de serem destruídos por um primeiro ataque de surpresa inimigo, ou seja, criaram a possibilidade de um dos lados ganhar a guerra nuclear. Para compensar este risco, EUA e URSS construíram mais armas nucleares e as dispersaram por um maior número de locais.

Isto seria especialmente problemático caso o mesmo se repetisse agora para a Índia e China, que têm mantido arsenais nucleares extremamente pequenos em relação aos mantidos pelos EUA e URSS/Rússia. O impacto mais imediato da China e da Índia obterem MIRVs será a expansão de seus respectivos arsenais nucleares. O impacto, entretanto, não será limitado somente aos dois países. Por um lado, um arsenal nuclear indiano em rápida expansão deixará o Paquistão temeroso de que seu arsenal possa ser destruído em um primeiro ataque. É provável que, em resposta, o Paquistão expanda seu próprio arsenal tão rapidamente quanto possível e busque também obter seus próprios mísseis MIRV (talvez com a ajuda da China).

Da mesma forma, a Rússia depende cada vez mais de seu massivo arsenal nuclear para “compensar” uma relativa perda de poder militar convencional. Como a modernização militar da China continua, Moscou vai se tornar ainda mais dependente de suas armas nucleares para dissuadir os chineses. Assim, é absolutamente crucial que a Rússia mantenha uma grande vantagem sobre a China no domínio nuclear. Um arsenal nuclear chinês em rápida expansão comprometeria muito isso. No futuro, poderá ocorrer que os mísseis MIRV da China invalidem todos os esforços de controle de armas dos EUA e Rússia ao longo de décadas.

Armas Nucleares Táticas do Paquistão

Ao contrário do que aparenta numa primeira vista, o Paquistão não adquiriu armas nucleares para combater o arsenal da Índia, mas para “compensar” sua inferioridade em termos de poder militar convencional. Aliás, essa foi a mesma motivação de Israel.

Na verdade, a decisão paquistanesa de buscar armas nucleares foi feita em uma reunião em janeiro 1972 em Multan, no sul de Punjab, Paquistão. No mês anterior, o poder militar do Paquistão tinha sido gravemente humilhado em sua guerra com a Índia, o que resultou no então Paquistão Oriental tornar-se o atual Estado independente de Bangladesh. Esta perda de quase metade do seu território fez o Paquistão aumentar ainda mais sua inferioridade em termos de população (de 5:1 para 10:1 em favor da Índia) e potencial econômico. Essa guerra de 1971 também destruiu a crença predominante no Paquistão de que seu poder militar seria qualitativamente superior às forças armadas indianas e reforçou a ideia de que a Índia buscava desmantelar e absorver o país.

Como resultado, não é surpreendente que o Paquistão esteja buscando armas nucleares táticas para usar no campo de batalha contra a Índia, especialmente à luz da doutrina militar indiana de “Cold Start”. Afinal, a OTAN até hoje possui armas nucleares táticas na Europa e Turquia que foram originalmente instaladas para compensar a superioridade convencional da URSS, o que indica que a motivação permanece com a Rússia, não tendo sido afetada pela queda do muro de Berlim e fim da URSS.

No entanto, as armas nucleares táticas devem ser vistas com muita cautela, especialmente quando operadas por um país como o Paquistão. Por um lado, as armas nucleares táticas ressaltam a disposição do Paquistão em empregar armas nucleares, mesmo que seja para responder a ameaças convencionais. Além disso, de forma a serem eficazes, as armas nucleares táticas do Paquistão teriam que ser mantidas em estado de prontidão para serem empregadas em curto prazo. Mais ainda, uma vez instaladas na linha de frente, os comandantes no campo de batalha provavelmente teriam que ter autoridade para empregá-las, aumentando o perigo de uso indevido. Finalmente, as armas nucleares táticas seriam mais suscetíveis a roubos por qualquer um dos inúmeros grupos terroristas que atuam na região.

Evolução na Precisão e Velocidade dos Mísseis

Um grande esforço tecnológico vem sendo aplicado ao aperfeiçoamento da precisão das armas convencionais. Uma munição guiada de precisão ou “bomba inteligente” (“Precison Guided Munition”, “Smart Bomb”) é uma arma com guiagem ativa com a intenção de acertar com precisão um alvo específico, minimizando danos colaterais. Todos já vimos vídeos dessas armas em ação realizando os chamados “bombardeios cirúrgicos”.

Entretanto, pouco ou mesmo nada se discute sobre como essa evolução na precisão dos mísseis afeta as armas nucleares, evolução que tem o potencial de minar o equilíbrio estratégico nuclear. A aquisição de mísseis de alta precisão pelas potências nucleares pode significar o fim da estratégia da Destruição Mútua Assegurada (MAD) e da consequente doutrina relacionada ao não primeiro uso de armas nucleares. Isso porque seu emprego pode permitir o sucesso de um primeiro ataque de surpresa e, com isso, uma potência poderia vencer uma guerra nuclear, causando danos limitados ao oponente.

A estratégia MAD se fundamenta em dois pressupostos básicos. Em primeiro lugar, que as superpotências nucleares sempre teriam capacidade de um segundo ataque de retaliação que tornaria impossível para uma delas destruir o arsenal nuclear da outra com um ataque surpresa. Em segundo lugar, que o poder destrutivo das armas termonucleares e a natureza indiscriminada da destruição por elas provocada torna seu uso abominável. Relacionado ao MAD está o preceito de que nenhuma superpotência poderia vencer a outra num conflito termonuclear.

A evolução na precisão dos mísseis pode anular esses pressupostos. Para começar, a incrível precisão dos sistemas de mísseis modernos torna a destruição total do arsenal nuclear do oponente em um primeiro ataque de surpresa bem sucedido muito mais plausível. Isto é particularmente verdadeiro contra potências nucleares que têm, pelo menos por enquanto, arsenais nucleares relativamente pequenos em comparação com Rússia e os EUA.

No entanto, após a modelagem de um potencial primeiro ataque contra as forças estratégicas da Rússia, Lieber e Press concluíram que os EUA poderiam, com um alto grau de probabilidade, ter sucesso na destruição total do arsenal nuclear de um oponente, mesmo que ele seja de porte massivo como o da Rússia. Na verdade, esses autores alegam que os formuladores de políticas dos EUA construíram efetivamente suas forças estratégicas com o objetivo de ter a capacidade de empregar armas nucleares para destruir as forças estratégicas de qualquer outro país, ou seja, de obter a primazia estratégica.

Com efeito, o esforço para neutralizar as forças estratégicas do adversário e alcançar a primazia se estende por quase todos os domínios da guerra moderna, não se limitando à capacidade de ataque nuclear. Por exemplo, inclui os sistemas de defesa contra Mísseis Balísticos (ABM), a guerra antissubmarino, a inteligência eletrônica, sistemas de vigilância e reconhecimento, a guerra cibernética ofensiva, ataque convencional de precisão de curto, médio e longo alcance.

Além de comprometer a MAD, a crescente precisão dos mísseis modernos também potencialmente enfraquece a doutrina de não primeiro uso de armas nucleares. Esta doutrina foi construída em grande parte sobre o conceito de que as armas nucleares eram moralmente repugnantes porque seu poder de destruição maciça e as severas consequências radiológicas colaterais correspondentes iriam dizimar populações indiscriminadamente. No entanto, é a precisão que determina a letalidade de arma nuclear. Fazer uma arma duas vezes mais precisa tem o mesmo efeito sobre a letalidade como fazer uma ogiva oito vezes mais potente. Dito de outra forma, fazer um míssil duas vezes mais preciso exigiria apenas um oitavo do poder explosivo de sua cabeça de combate para manter a mesma letalidade. Além disso, as consequências radiológicas são proporcionais ao poder explosivo da arma e decaem de acordo com o quadrado da distância do ponto da explosão, o que minimiza os impactos colaterais.

Conclui-se, portanto, que com a evolução da precisão, as bombas nucleares podem se tornar uma arma de guerra passível de emprego numa situação de conflito grave ou guerra. Essa evolução permitiria destruir instalações nucleares protegidas de um inimigo com armas de baixo poder explosivo, reduzindo assim em muito as consequências radiológicas e os danos colaterais. De fato, usando um modelo de computador do Pentágono, especialistas estimam que um ataque nuclear americano contra silos de Mísseis Balísticos (ICBM) da China usando armas de alto poder explosivo detonadas no solo poderia matar entre 3 e 4 milhões de pessoas. Usando armas precisas de poder explosivo reduzido este número cairia para menos de 700 vítimas.

Simultaneamente ao aumento da precisão, um grande desenvolvimento tecnológico vem ocorrendo também na velocidade. Os mísseis de cruzeiro modernos podem atingir velocidades não só supersônicas como hipersônicas (mais de cinco vezes a velocidade do som). Por exemplo, o míssil BrahMosII, em desenvolvimento pela Índia e Rússia, pode atingir a velocidade de Mach 7 (8.575 km/h). A China e EUA também desenvolvem mísseis hipersônicos.

Sistemas como o “Prompt Global Strike”, em desenvolvimento pelos EUA, que poderia lançar um ataque com mísseis de precisão que atingiriam seus alvos em até uma hora, podem inviabilizar a ação dos sistemas de alerta antecipado das demais potências nucleares, impedindo-as de responder a um ataque devido aos curtíssimos tempos envolvidos.

O desenvolvimento de mísseis hipersônicos de grande precisão aumenta em muito a probabilidade de sucesso de uma potência nuclear destruir totalmente o arsenal de outra sem que essa tenha como responder a tal ataque de surpresa. Isso também comprometeria de forma irreversível a estratégia MAD e a doutrina de não primeiro uso, amplificando enormemente a ameaça de uma guerra nuclear. Passaria a vigorar a síndrome “use them or lose them”.

Modernização militar da China

A modernização militar da China é uma ameaça nuclear mais do que hipotética. No mínimo ela vai forçar a Rússia a se tornar cada vez mais dependente de suas armas nucleares. É provável que isto seja verdadeiro para a Índia também. Mesmo os EUA podem se encontrar num futuro não tão distante também numa situação em que deva mais uma vez recorrer às armas nucleares para deter um inimigo convencional superior em um teatro de operações distante, como foi no caso do pós Segunda Guerra Mundial.

Com sua superioridade convencional crescendo e seus interesses se expandindo, a modernização militar da China vai servir como um poderoso motivador para os seus vizinhos construírem suas próprias forças nucleares. Se os EUA não forem capazes de exercer uma efetiva estratégia de contenção da China como fez com a URSS, o Japão seria dos primeiros a questionar sua política de não possuir armas nucleares.

Na verdade, a necessidade de dissuadir ameaças militares convencionais esmagadoras tem sido a força motriz por trás da decisão de muitos Estados obterem armas nucleares. Por exemplo, a França tomou a decisão de construir armas nucleares poucos dias depois que a OTAN decidiu rearmar a Alemanha Ocidental. Tendo em conta que os seus inimigos árabes eram muito maiores e mais povoados do que Israel, e inclinadas à destruição deste último, David Ben-Gurion considerou as armas nucleares essenciais no início da existência do Estado judeu. Como mencionado acima, essa lógica foi aplicada pelos líderes paquistaneses também.

Não é impensável, então, que países como o Japão, Vietnã, Taiwan e Coréia do Sul ainda venham sentir a necessidade de adquirir armas nucleares para compensar a superioridade convencional da China, especialmente quando se considera as disputas territoriais que Beijing mantém com a maioria deles. Além disso, a Coreia do Sul, Taiwan e, especialmente, Japão têm programas nucleares avançados que fariam com que fosse relativamente fácil e barato construir a bomba.

Abolição das Armas Nucleares

Enquanto as armas nucleares parecem ainda ter muito futuro, particularmente na Ásia, a comunidade da não proliferação e controle de armas trabalha incansavelmente para impedi-lo. De fato, desde 11/09, a causa “Global Zero” tem expandido muito suas fileiras e ganhou apoio de líderes políticos importantes, como o presidente Obama (Declaração de Praga, 2009). Infelizmente, essa causa, por mais nobre que seja, é perigosa. Graças à sua capacidade de impedir conflitos entre as grandes potências, a única coisa pior do que as armas nucleares seria, paradoxalmente, um mundo sem elas.

Considere-se uma estimativa conservadora de vítimas mortais da Segunda Guerra Mundial de 60 milhões de pessoas, ou cerca de 3% da população mundial na época. Numa terceira guerra mundial não nuclear igualmente letal, portanto, seria esperada a morte de pelo menos 210 milhões de pessoas. Entretanto, a sofisticação das armas convencionais modernas e a urbanização muito maior fariam com que essa hipotética terceira guerra mundial não nuclear fosse muito mais letal do que a Segunda Guerra Mundial, apesar dos avanços na medicina reduzirem parcialmente essa letalidade.

Isso por si só seria uma tragédia sem precedentes na história da humanidade. O maior perigo, no entanto, é que tal conflito não permaneceria convencional por muito tempo. As propostas de desarmamento nuclear global existentes não oferecem nenhum mecanismo concebível para garantir que tal guerra permanecesse não nuclear. Na verdade, o senso comum sugere que imediatamente após o início das hostilidades, se não mesmo no período de preparação para a guerra em si, todas as potências nucleares anteriores fariam uma rápida corrida armamentista para reconstruir suas forças nucleares no mais curto espaço de tempo.

O resultado não seria apenas uma volta ao mundo com armas nucleares que habitamos. Em vez disso, alguns países reconstruiriam suas armas nucleares mais rapidamente do que outros e nenhum deles poderia ter certeza do progresso que seus rivais teriam feito. Os “vencedores” nesta renovada corrida armamentista nuclear teriam, então, todo o incentivo para o emprego imediato de suas novas capacidades nucleares contra os seus adversários, num esforço para acabar rapidamente com o conflito, eliminando as capacidades nucleares dos oponentes, ou simplesmente por medo de que outros o façam antes, lançando um ataque debilitante sobre seu arsenal nuclear pequeno e vulnerável. Não haveria destruição mutuamente assegurada em tal ambiente, prevalecendo a síndrome “use them or lose them”.

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Imagem (Fonte):

Wikipedia

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Fonte Consultada:

Avaliação de Leonam dos Santos Guimarães: Doutor em Engenharia, Diretor de Planejamento, Gestão e Meio Ambiente da Eletrobrás Eletronuclear e membro do Grupo Permanente de Assessoria do Diretor-Geral da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA).

AMÉRICA DO NORTEANÁLISES DE CONJUNTURAEUROPA

Falso Alarme, Verdadeira Catástrofe

Há 20 anos, em 25 de janeiro de 1995, o lançamento de um pequeno foguete de pesquisa científica de uma ilha ao largo da costa noroeste da Noruega acionou o sistema de alerta antecipado de ataque nuclear da Rússia.

O foguete inicialmente passou fora do horizonte de visão dos radares soviético. Após o desligamento dos motores, ele atingiu altitudes mais elevadas, passando inadvertidamente por um importante corredor de ataque entre a base de lançamento de mísseis balísticos intercontinentais americanos de Grand Forks e Moscou. Sem que os responsáveis pelo lançamento do foguete soubessem, um dos seus estágios terminou sua trajetória a uma altitude e velocidade comparáveis à de Míssil Balístico Trident lançado por submarino. Essa combinação de eventos configurou um cenário de ataque nuclear típico na Guerra Fria, em que as armas são intencionalmente explodidas em altitudes elevadas de modo a cegar os radares de alerta antecipado inimigo antes de um grande bombardeio.

A explicação mais imediata para o que deu errado naquele dia parece ter decorrido de deficiências nos equipamentos soviéticos de detecção. A causa subjacente, entretanto, decorreu do medo criado e sustentado pelo implacável e obsessivo programa de modernização das Forças Nucleares Americanas em curso à época. Esta iniciativa foi, e continua a ser, hoje, fortemente focado em aumentar a precisão e o poder de destruição de cada ogiva nuclear americana, gerando e reafirmando as preocupações de analistas militares e líderes russos de que os Estados Unidos poderiam realmente estar se preparando para lutar e vencer uma guerra nuclear.

O que aconteceu depois destes eventos inicialmente ambíguos tem sido fonte de grande especulação no Ocidente. Felizmente, o nível das tensões políticas entre a Rússia, os Estados Unidos e a Europa no momento do incidente era baixo. Sabe-se que o alarme por eles deflagrado fez com que o então Presidente da Rússia, Boris Yeltsin, fosse chamado e mantido devidamente informados pela liderança militar enquanto o foguete era rastreado até passar a sua altitude máxima de 1.400 km.

Se esse tipo de alerta falso tivesse ocorrido durante um período de crise política, as forças nucleares russas poderiam ter sido acionadas. Os sistemas de alerta antecipado americanos teriam detectado imediatamente o lançamento e acionado, por sua vez, o lançamento imediato de armas norte-americanas em resposta ao lançamento russo.

Isso porque os russos não teriam escolha senão assumir que tentar cegar seus sistemas de alerta antecipado seria uma tática americana para esconder um lançamento de numerosas ogivas que ainda não teriam aparecido acima do horizonte radar, mas que teriam sido lançadas anteriormente por Submarinos Trident submersos no Atlântico Norte. De acordo com a estratégia nuclear, o caos e confusão que poderia acompanhar a “cegueira” do alerta antecipado poderiam, então, serem explorados para destruir as forças russas terrestres vulneráveis antes que pudessem lançar seus mísseis. Certamente os ataques e contra-ataques seguintes a esses eventos iniciais levariam ao fim do mundo como nós o conhecemos.

Se o Sistema de Alerta Antecipado russo fosse baseado no espaço, a partir de satélites em órbitas baixas geoestacionárias, os líderes teriam imediatamente sido capazes de identificar que não havia indicação de quaisquer lançamentos de Submarinos Trident no norte do Atlântico. Eles também teriam visto não haver nenhuma atividade no Golfo do Alasca, onde a Frota Trident do Pacífico estaria em patrulha.

Como se vê, a Rússia, naquela época, tinha alguma observação por satélite dos silos de Grand Forks, mas não tinha radares terrestres que pudessem detectar lançamentos de Mísseis Trident, nem no Atlântico, nem no Pacífico. Em suma, a Rússia não tinha como saber se estava realmente sendo atacada ou se o foguete subindo a grande altitude era solitário.

Nas diferentes circunstâncias políticas de 2015, a mesma avaliação cautelosa da trajetória do foguete por líderes políticos e militares da Rússia poderia não ser possível. A Rússia anexou Criméia, interveio no leste da Ucrânia e iniciou em uma importante modernização de suas forças convencionais. Os Estados Unidos e a NATO responderam com sanções que, juntamente com a queda abrupta do preço do petróleo, estão desestabilizando a economia russa e podem ameaçar a popularidade do presidente Vladimir Putin.

A Rússia reagiu às sanções cancelando o promissor programa Cooperative Threat Reduction de 1991, que vinha melhorando substancialmente o diálogo para evitar a proliferação nuclear vertical, bem como o aumento dos níveis de segurança e de transparência no que diz respeito à manipulação e desmantelamento de armas nucleares. Esta ação foi acompanhada por uma forte escalada nas operações militares e navais russas, especialmente as de submarinos, aumentando ainda mais as chances de incidentes indesejados que poderão agravar ainda mais as tensões. Além de tudo isso, a incessante modernização de forças nucleares americanas continua inabalável.

A atual situação tornou-se tão grave que, recentemente, o Bulletim of Atomic Scientists adiantou seu “relógio do juízo final” que simbolicamente representa o nível de tensões que podem levar o mundo ao Armagedom. Por outro lado, uma evolução positiva no sentido de tornar o mundo mais seguro foi a Rússia já não mais ter, praticamente, espaços “cegos” na sua rede de Radares de Alerta Antecipado.

Ambos os lados precisam ter muito cuidado. Falsos alarmes como o de 1995 podem se repetir e sua ocorrência em momentos de tensão como os atuais os tornam muito mais perigosos. Um falso alarme pode se tornar uma verdadeira catástrofe.

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Imagem (Fonte):

 wikipedia

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Fonte consultada:

Avaliação de Leonam dos Santos Guimarães: Doutor em Engenharia, Diretor de Planejamento, Gestão e Meio Ambiente da Eletrobrás Eletronuclear e membro do Grupo Permanente de Assessoria do Diretor-Geral da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA).

AMÉRICA DO NORTEANÁLISES DE CONJUNTURAEUROPA

Potências Ocidentais concedem novo financiamento à Ucrânia, após aprofundamento da crise no país

Recentemente, a Casa Branca emitiu um comunicado, no qual informou que Barack Obama, Presidente dos Estados Unidos da América (EUA), e Angela Merkel, Chanceler da Alemanha, concordaram durante uma conversa telefônica realizada em meados de janeiro, sobre a necessidade de se realizar um robusto apoio financeiro à Ucrânia. Segundo a Casa Branca, “os dois líderes discutiram o seu apoio a um robusto pacote de financiamento internacional à Ucrânia, uma vez que esta implemente uma ambiciosa série de reformas[1].

Ainda de acordo com o texto, o pacote que será disponibilizado por meio do Fundo Monetário Internacional (FMI) visa possibilitar que o Estado Ucraniano venha estabilizar as suas finanças e que, através de reformas, o país conseguirá novamente chegar ao crescimento e bem-estar social[2]. Na metade de janeiro de 2015, o Governo ucraniano havia pedido ao FMI um apoio financeiro mais amplo, em razão dos custos gerados pelo conflito que abala o país. A conversa entre Merkel e Obama ocorreu após o recente aprofundamento da crise. Segundo a Casa Branca, os dois líderes “expressaram preocupação com o aumento da violência separatista no leste ucraniano e reiteraram o seu acordo sobre a necessidade de uma implementação plena e rápida dos acordos de Minsk, a fim de chegar a uma duradoura e pacífica solução para o conflito[3].

Desse modo, o Governo norte-americano pretende oferecer US$ 2 bilhões à Ucrânia em garantias de empréstimos, que se somariam ao US$ 1 bilhão concedidos no ano passado. Ao mesmo tempo, a União Europeia reiterou que garantirá outros US$ 1,8 bilhão ao Governo ucraniano. Já a Alemanha concedeu um empréstimo de US$ 590 milhões ao país no começo de 2015. Entretanto, os fundos estão condicionados ao cumprimento do programa de reformas acordado entre o Governo ucraniano e o FMI, que concordou em fazer um resgate financeiro no valor de US$ 17 bilhões em 2014 para estabilizar as contas públicas do país[4].

Para Arseniy Yatsenyuk, Primeiro-Ministro da Ucrânia, “o governo dos EUA registou progressos das autoridades ucranianas em uma série de áreas, incluindo as medidas para conter a corrupção e uma profunda reforma no setor da energia – diz respeito principalmente a Naftogaz e a restauração do sistema financeiro, melhorando o ambiente de negócios, em particular devido às leis recentes que foram aprovadas pelo Parlamento ucraniano, e o retorno da estabilidade financeira[5]. Segundo Yatsenyuk o principal objetivo da assistência macrofinanceira é restaurar a estabilidade financeira na Ucrânia e a confiança dos mercados para com o país e, dessa forma, aumentar as reservas do Banco Nacional para assim estabilizar a taxa de câmbio[6].

 

Cabe lembrar que a Ucrânia vive uma profunda crise desde novembro de 2013, quando Viktor Yanukovich, então Presidente ucraniano, se recusou a assinar um “Acordo de Livre Comércio e Associação Política com a União Europeia”, afirmando que buscaria relações comerciais mais próximas com a Rússia, seu principal aliado. Desde então, uma onda separatista se instalou no país, no qual a criação de um novo governo pró-União Europeia e anti-Rússia acirrou as tensões separatistas na Península da Crimeia, que é de maioria russa, levando a uma escalada militar com ação do Governo russo na região. Após o referendo ocorrido no início do ano passado, a Crimeia aprovou sua adesão à Federação Rússia e, em maio, Petro Poroshenko foi eleito novo Presidente ucraniano. Um mês depois, esse acabou assinando o Acordo com a UE[7].

Recentemente, um foguete atingiu um ônibus intermunicipal de passageiros, próximo à cidade de Volnovaja, na região de Donetsk[8]. Esse e outros incidentes tem agravado a crise politica e social nos últimos dias, o que, por sua vez, frustra a tentativa de estabelecer um acordo de paz entre Kiev e os rebeldes. Para Vitali Churkin, Embaixador da Rússia na ONU, o “agravamento da situação no leste da ucrânia foi resultado da falta de diálogo de Kiev com as regiões de Donetsk e Lugansk sobre a implementação prática dos acordos de Minsk[9]. Ainda segundo Churkin, “uma nova rodada de confrontação poderia ter sido evitada se as autoridades ucranianas tivessem aceitado a proposta do presidente russo, Vladimir Putin, de efetuar uma retirada imediata das armas pesadas[10].

Nesse sentido, Mikhail Fedotov, Chefe do Conselho Presidencial de Direitos Humanos (CDH), assinalou no último dia 1o de fevereiro que lamenta “muito que a reunião do grupo de contato em Minsk tenha terminado sem resultados. Isto significa que a matança vai continuar e civis irão perecer. É terrível. Eu vejo apenas uma coisa: ambos os lados não querem a paz. Isto significa que a comunidade internacional deve encontrar mecanismos para parar este massacre[11]. Em meio a esse quadro, o Governo da Ucrânia lançou um plano para mobilizar em torno de 100 mil soldados, ao longo do ano, para combater os separatistas no leste do país[12].

Desde o começo do ano, após a onda de crescente violência no Leste da Ucrânia, as potências ocidentais têm discutido uma série de mecanismos de apoio ao governo de Poroshenko. Em vista disso, a Crise Ucraniana, que está longe de acabar, será novamente parte da agenda de discussão entre Merkel e Obama, quando a Chanceler alemã visitar os Estados Unidos no próximo dia 9 de fevereiro[13].

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Imagem (Fonte):

http://www.whitehouse.gov/photos-and-video/photogallery/chancellor-angela-merkel-germany-official-visit

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Fontes Consultadas:

[1] Ver:

http://www.dw.de/merkel-e-obama-defendem-envio-de-pacote-financeiro-%C3%A0-ucr%C3%A2nia/a-18195317

[2] Ver:

http://www.dw.de/merkel-e-obama-concordam-com-nova-ajuda-financeira-%C3%A0-ucr%C3%A2nia/a-18220589

[3] Ver:

http://www.dw.de/merkel-e-obama-defendem-envio-de-pacote-financeiro-%C3%A0-ucr%C3%A2nia/a-18195317

[4] Ver:

Idem.

[5] Ver:

http://www.kmu.gov.ua/control/en/publish/article?art_id=247867935&cat_id=244314971

[6] Ver:

Idem.

[7] Ver:

http://g1.globo.com/mundo/noticia/2013/12/entenda-os-protestos-na-ucrania.html

[8] Ver:

http://www.dw.de/merkel-e-obama-defendem-envio-de-pacote-financeiro-%C3%A0-ucr%C3%A2nia/a-18195317

[9] Ver:

http://br.sputniknews.com/portuguese.ruvr.ru/news/2015_01_28/Obama-e-Merkel-concordam-sobre-necessidade-de-apoio-financeiro-da-Ucr-nia-0702/

[10] Ver:

Idem.

[11] Ver:

http://br.sputniknews.com/portuguese.ruvr.ru/news/2015_02_01/Conselho-de-Direitos-Humanos-lamenta-reuni-o-sobre-Ucr-nia-ter-sido-inconclusiva-2224/

[12] Ver:

http://www.dw.de/merkel-e-obama-defendem-envio-de-pacote-financeiro-%C3%A0-ucr%C3%A2nia/a-18195317

[13] Ver:

http://www.swissinfo.ch/por/afp/eua-receber%C3%A3o-chanceler-alem%C3%A3-em-9-de-fevereiro/41250210