ANÁLISES DE CONJUNTURAEUROPA

A Rússia e a OPEP: redução da produção global de petróleo

A Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) é uma instituição intergovernamental criada em 14 de setembro de 1960, na cidade de Bagdá, capital do Iraque. A OPEP nasceu com o propósito de promover uma coordenação da política de petróleo entre seus membros fundadores: Irã, Iraque, Kuwait, Arábia Saudita e Venezuela.

A estratégia de formação do grupo funcionou e os Estados-parte passaram a deter um maior poder econômico. O êxito da OPEP despertou o interesse de terceiros países, os quais também ingressaram na organização, a qual, atualmente, é composta por: Argélia, Angola, Congo, Guiné Equatorial, Gabão, Irã, Iraque, Kuwait, Líbia, Nigéria, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Venezuela.

Posteriormente se observam várias mudanças administrativas na Organização, visto que alguns Estados optaram pelo término de suas participações, a exemplo do Equador, em 2020, do Qatar, em 2019, e da Indonésia, em 2016. A exceção de retorno à participação foi o Gabão, em 2016.  

A OPEP possui sede em Viena, Áustria, desde 1965, e é alvo da atenção dos setores energéticos mundiais, pois suas decisões colaborativas tendem a influenciar diretamente na produção e no preço dos barris de petróleo pelo globo. Fato de magnitude ocorreu durante a Crise do Petróleo na década de 1970, quando houve um dramático aumento dos preços dos barris. O episódio trouxe alcance imediato na economia mundial daquele período, devido à decisão de queda de produção pelo Bloco.

Diante da sensibilidade da oferta de petróleo e das flutuações de preços, diversos Estados ficaram espantados com o poder que uma instituição não estatal adquiriu. Todavia, tal força se deve não à organização em si, mas à cooperação entre seus membros, os quais concentram os maiores volumes confirmados de petróleo do mundo.

Com a recente pandemia da Covid-19, as atividades econômicas foram reduzidas, pois maior quantitativo de pessoas permanece em suas casas, às quais deixaram de utilizar seus veículos. A baixa no consumo de petróleo provocou a expectativa de um declive na economia mundial, o que acarretou na decisão de redução do volume de barris produzidos pela OPEP. Dentro da lógica de redução da produção, a OPEP e o Grupo dos 20 (G20)* iniciaram negociações no tangente aos mecanismos de adoção que seriam implementados.

O resultado obtido foi um acordo entre os produtores, o qual prevê a sistematização de um planejamento em três etapas. O jornal Novaya Gazeta trouxe o modelo que será aplicado: na primeira etapa a redução prevista é de 10 milhões de barris por dia (bp) no período de maio a junho de 2020; na segunda etapa a redução prevista é de 8 milhões bp no período de julho até o fim de 2020; e, na terceira, a redução prevista de 6 milhões de bp no período de janeiro de 2021 a abril de 2022.

Em conformidade com o apresentado no jornal Novaya Gazeta, o objetivo do acordo é buscar reduzir o excedente de 1 a 2 milhões bp no período anterior à crise; gerar na primeira e segunda etapas uma compensação parcial devido aos efeitos de queda da demanda; e a redução no mercado de um adicional de suprimento russo de cerca de 4 milhões bp, por causa das discordâncias de preços com a Federação Russa.

Nesse sentido, é necessário observar a importância da Federação Russa na redução da produção de petróleo. Os russos e sauditas divergem quanto à política de preços, pois esses últimos possuem maior poder produtivo e podem utilizá-lo de forma a afetar a economia russa com perda de recursos. Os Estados buscam favorecer seus interesses e a cooperação somente se torna ativa enquanto houver benefício. Entretanto, após negociações, a Federação Russa concordou com os termos da OPEP e deverá diminuir sua produção em cerca de 2,5 milhões bp, pois os russos perceberam que a situação poderia ser pior para sua economia.

Ministro de Energia da Federação Russa, Alexander Novak

A Federação Russa apresentaria dificuldades com a exportação de petróleo a baixo preço, todavia, diante da emergência da Covid-19, a desvantagem com as perdas de um não acordo com a OPEP seriam bem maiores. Em relação a essa temática, o jornal RBC traz a declaração do vice-presidente da LUKOIL, Leonid Fedun, o qual sinalizou: “Isso seria um tapete fechado [dos poços]. A mineração teria caído muito mais. Não teríamos a oportunidade de enviar petróleo, exceto para nossas próprias refinarias, e o consumo é extremamente baixo na Federação Russa, para que pudéssemos fechar até 50% da produção”.

Vice-presidente da LUKOIL, Leonid Fedun

Por fim, o jornal Izvestia trouxe a declaração do Ministro de Energia da Federação Russa, Alexander Novak, sobre a questão, o qual afirmou: “Os parâmetros atuais dos acordos atendem plenamente aos interesses da Rússia em termos do efeito sobre a economia e o orçamento”. O Ministro observou a concordância dos líderes das principais empresas petrolíferas sobre o acordo e demonstrou otimismo quanto a um equilíbrio do mercado.

Os analistas apontam como realistas os parâmetros de consideração de vantagens e desvantagens que os Estados fazem no jogo da política internacional. Nessa perspectiva, a OPEP, com o acordo, apresentou soluções condizentes com os fatos observados, os quais correspondem aos interesses dos países que a compõem, e mesmo ao mundo, como forma de evitar um possível caos econômico.

Em relação à Federação Russa, suas autoridades optaram pela perda menor, a fim de ganharem estabilidade econômica e a manutenção de seu setor petrolífero. Resta-nos aguardar e esperar os acontecimentos futuros e observarmos se o acordo da OPEP será realmente cumprido à risca, ou se variáveis novas poderão surgir, não somente entre a Federação Russa e a Arábia Saudita, como também com terceiros atores não participantes da OPEP.  

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Nota:

* Grupo dos 20: é um grupo formado pelos Ministros de Finanças e Chefes de Bancos Centrais das 19 maiores economias do mundo e da União Europeia (UE). O objetivo visa à promoção do diálogo sobre pautas econômico-financeiras de destaque para os países participantes, visto que representam parcela significativa do comércio e população mundial. A composição do G20 abrange: Argentina, Austrália, Brasil, Canadá, China, França, Alemanha, Índia, Indonésia, Itália, Japão, México, República da Coreia, Rússia, Arábia Saudita, África do Sul, Turquia, Reino Unido, Estados Unidos e União Europeia.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Navio petroleiro” (Fonte): https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/6/66/Sirius_Star_2008b.jpg

Imagem 2 Ministro de Energia da Federação Russa, Alexander Novak” (Fonte): https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/0/02/Alexander_Novak_portrait_%28cropped%29.jpg

Imagem 3 Vicepresidente da LUKOIL, Leonid Fedun” (Fonte): https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/f/f4/Spartak-Zrvena_%281%29.jpg

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A economia russa em tempos de COVID-19

Em 26 de março (2020), foi realizado um encontro virtual extraordinário pelo grupo das vinte maiores economias do mundo (G20) para coordenar uma resposta à pandemia do Coronavírus, uma vez que a crise sanitária ameaça a economia mundial de uma recessão prolongada. Conjuntamente, a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) reitera medidas de contenção cada vez mais rigorosas, necessárias para retardar a propagação do Covid-19, mas adverte que ocorrerão cenários que, necessariamente, levarão a declínios significativos no PIB (Produto Interno Bruto) de curto prazo para muitas das principais economias, de acordo com suas novas projeções.

Secretário Geral da OCDE – José Ángel Gurría

O secretário-geral da OCDE, Angel Gurría, revelou as últimas estimativas da Organização mostrando que o bloqueio afetará diretamente setores que totalizam até um terço do PIB nas principais economias. Para cada mês de contenção haverá uma perda de 2 pontos percentuais no crescimento anual do PIB.

A Federação Russa será uma das nações que terão sua perspectiva de crescimento econômico para 2020 afetada pelo desbalanceamento econômico global. A OCDE, através de seu relatório intitulado “Coronavirus: The World Economy at Risk” (tradução – Coronavírus: A Economia Mundial em Risco), cortou drasticamente sua previsão para a economia russa em torno de 25%, onde espera agora que o crescimento anual do PIB da Rússia chegue a apenas 1,2% em 2020 — abaixo dos 1,6% previstos no final de 2019.

Índice russo RTS

O relatório vem depois de uma semana histórica nos mercados financeiros, que viram bilhões de dólares serem dizimados à medida que os mercados de ações caíam. Na Rússia, o índice RTS* caiu 21% nas últimas semanas, pressionado para baixo à medida que os preços do petróleo caíam para US$ 24,63 (cotação do barril Brent em 27/03/20 – cerca de R$ 125,78**), menor valor nos últimos 17 anos. Preços mais baixos do petróleo pressionam o orçamento estatal russo, que ainda depende das exportações do óleo para uma parcela significativa de sua renda.

Reunião com Primeiro Ministro Mikhail Mishustin

A redução de 0,4 ponto percentual na previsão para 2020 para a Rússia foi proporcionalmente melhor do que a economia mundial como um todo, já que os economistas reduziram sua previsão para o crescimento global este ano de 2,9% para 2,4%. Apesar das quedas consecutivas da sua performance econômica, a Rússia se mantém otimista devido acontecimentos mundiais que consequentemente ajudarão na retomada da estabilidade econômica. Na última semana, a Organização Mundial da Saúde (OMS) disse que havia sinais de alguma estabilização no surto da Europa, com os bloqueios europeus começando a dar frutos. Enquanto isso, as autoridades monetárias e fiscais globais continuaram intensificando as medidas de alívio econômico.

A expectativa para a retomada da valorização do rublo (moeda nacional) em relação ao dólar americano é bastante esperada pelo Governo russo, depois de vários dias de negociações após seu dramático colapso assim que o país saiu do acordo de aliança petrolífera da OPEP+, no início de março.

Na última sexta feira, 3 de abril (2020), mercados financeiros do mundo, principalmente o russo, foram alimentados com a esperança de um novo acordo entre Arábia Saudita, Rússia e possivelmente EUA, a ser realizado em reunião que decidirá sobre cortes na produção de petróleo e na restauração do equilíbrio no mercado. O mercado de petróleo continua sob pressão de uma demanda em queda devido a restrições no transporte de pessoas e bens, impostas pelos governos para impedir a propagação da pandemia de COVID-19. Ao mesmo tempo, há um excesso de oferta devido à guerra de preços entre Riad e Moscou.

Para analistas financeiros, no nível global de investimentos, a atenção permanece sobre se os mercados acionários mundiais atingiram seu pior momento, ou se o recente rali para recuperação econômica é sinal de um “salto de gato morto”, ou seja, uma mini recuperação antes de uma queda contínua. Oliver Brennan, da T.S. Lombard, em uma nota de pesquisa publicada na quarta-feira (01/04/20), destaca como a incerteza sobre a disseminação do vírus e potenciais infecções, particularmente nos EUA, não deve justificar o otimismo do mercado ainda.

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Nota:

* O RTS Index (RTSI) é um índice sobre ações das 50 maiores empresas russas (à data de 17 de março de 2017) que são negociadas na Bolsa de Valores de Moscou (RTS Stock Exchange). A lista de ações que compõem o índice é revista trimestralmente pelo Comité de Informação do RTS. O índice foi criado com uma base 100, correspondente à capitalização das suas componentes no dia 1o de setembro de 1995. O mínimo histórico foi de 37,74 pontos no dia 5 de outubro de 1998 e o máximo histórico foi de 2.498,10 no dia 19 de maio de 2008.

** Cotação do dólar do mesmo dia – 1US$ = R$ 5,1066.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Tela digital COVID19” (Fonte): https://www.imf.org/en/Topics/imf-and-covid19/Policy-Responses-to-COVID-19

Imagem 2 Secretário Geral da OCDE José Ángel Gurría” (Fonte): https://en.wikipedia.org/wiki/JoséÁngel_Gurría#/media/File:Angel_Gurria-World_Economic_Forum_Annual_Meeting_2012(cropped).jpg

Imagem 3 Índice russo RTS” (Fonte): https://www.bloomberg.com/quote/RTSI$:IND

Imagem 4 Reunião com Primeiro Ministro Mikhail Mishustin” (Fonte): http://government.ru/en/news/39327/

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2020 e a Europa após o Brexit

Após a separação oficial do Reino Unido da União Europeia, celebrada por parte da população britânica e lamentada pela outra metade, além de diversos cidadãos do Bloco europeu que moram no Reino Unido e empresas que mantém negócios em ambas regiões, marcou-se um hiato no ano de 2020 e um novo ritmo para o continente.

A União Europeia precisa se reestruturar e consolidar o projeto europeu em pleno começo da corrida eleitoral da Alemanha, com eleições marcadas para 2021, e mudança de poder nos Estados Unidos, assim como diluir a sombra projetada pelo Brexit nos países da União Europeia e no discurso crescente da extrema direita na região.

Acrescente-se ainda o ambiente político conturbado em diversos países, devido à polarização cada vez mais perceptível e presente na dificuldade de muitas nações em constituir governo, como ocorre na Bélgica, e que manteve a Espanha durante 4 anos em um ciclo contínuo de múltiplas eleições.  Além desses fatores e dos impactos das políticas de austeridade aplicadas após a Crise Financeira Internacional e seus reflexos na área mediterrânea, somam-se aos efeitos do Brexit as novas políticas migratórias do Reino Unido e a desaceleração da economia mundial, com uma temível redução da demanda de produtos europeus em diversos países, principalmente nas economias emergentes. Tais elementos fazem de 2020 um ano definitivo para a União Europeia.

A redução progressiva do poder de compra e a volatilidade do mercado laboral fizeram com que o mercado interno seja incapaz de absorver e manter o crescimento econômico em diversos países da União Europeia, e a desvalorização das moedas em países emergentes como o Brasil e a Argentina dificultam a venda de produtos para o mercado externo. Acrescente-se mais ainda que a incapacidade de controlar os gastos públicos, mas manter o estado de bem estar, faz com que os discursos nacionalistas e eurocéticos ganhem cada vez mais força, debilitando o projeto europeu.

Merkel nas últimas eleições

Porém, uma dissolução da União Europeia resultaria em uma catástrofe econômica a nível mundial, abalando à interdependência política, econômica, jurídica e social, à diferença do que acontecia com o Reino Unido, provocando um efeito em cadeia que afetaria todo o globo, já que a configuração do mercado europeu responde como único, e são as dinâmicas internas que dificultam o progresso do projeto europeu, gerando enormes assimetrias e uma crescente desigualdade entre os integrantes que, em lugar de conferir competitividade ao Bloco, minam internamente suas bases.

Entre as possíveis soluções que a União Europeia pode adotar existem diversos conflitos de interesse que deveriam ser esclarecidos. A criação de um sistema europeu de previdência social reduziria o impacto das movimentações na mão de obra entre países do grupo, estabelecer um salário mínimo comum também poderia reduzir a movimentação de empresas e deslocamento de ofertas de emprego e, por último, e como medida mais drástica, permitir que os países com maiores dificuldades voltem a adotar suas moedas, utilizando o Euro somente como moeda de troca internacional, isso debilitaria a moeda europeia, mas aumentaria a competitividade do produto europeu.

Sem embargo, a estratégia adotada pela União Europeia foi a adotada desde sua fundação: o endividamento dos Estados, a manutenção das subvenções, a expansão do Bloco e a diversificar exportações, sendo cada vez mais difícil aprovar orçamentos. Isso coloca todo o Bloco à mercê da evolução do mercado internacional, ainda que conferindo maior força ao conjunto de países, sem dar espaço às individualidades que existem.

Dessa forma, o ano de 2020 se apresenta como um ano definitivo para a reestruturação europeia, sendo o único questionamento se a mesma será liberal e conduzida pelo mercado e suas evoluções ou se o Bloco irá tratar de controlar o processo. Mas, sem dúvidas, será um momento que representará um marco, com um antes e um depois na história da organização supranacional.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Momento em que a bandeira do Reino Unido foi retirada na Comissão Europeia” (Fonte): https://static1.abc.es/media/opinion/2020/01/01/brexit-kdmD–620×[email protected]

Imagem 2Merkel nas últimas eleições” (Fonte): https://www.lavanguardia.com/r/GODO/LV/p4/WebSite/2017/09/24/Recortada/853039188_20170924191311-kivG-U431539795043QfC-992×[email protected]

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O Desastre Aéreo da Ukraine International Airlines

Um grave acidente aconteceu em 8 de janeiro, aproximadamente à meia-noite (horário de Brasília)*, no aeroporto Imam Khomeini, no Irã. O voo PS752 da companhia aérea Ukraine International Airlines (UIA) com destino a Kiev foi alvejado a cerca de 30 km ao sul de Teerã. 176 pessoas faleceram, sendo 167 passageiros e 9 tripulantes de sete países: 82 iranianos, 63 canadenses (a sua maioria com dupla nacionalidade, canadense e iraniana), 10 suecos, 4 afegãos, 3 britânicos e 11 ucranianos (incluindo a tripulação). A aeronave, um Boeing 737-800 com a matrícula UR-PSR, tinha três anos de uso, embora esse tempo, em si, não seja considerado um fator preponderante para avaliar as condições de segurança da mesma.

A narrativa iraniana

As primeiras imagens do local do acidente mostraram danos na fuselagem, cujas avarias ocorreram antes do choque do avião com o solo. Em vídeo publicado logo após o acidente é possível ver o avião em chamas ainda no ar. Não havia como Teerã negar mais que alvejou o Boeing. Em 11 de janeiro, o governo iraniano admite erro humano na operação do sistema de defesa. A justificativa do governo se deu porque a aeronave teria se voltado para um “centro militar sensível” da Guarda Revolucionária Islâmica. As tensões ocorridas com os EUA deixaram as forças armadas iranianas em seu mais alto nível de prontidão e serviram de justificativa para o Ministro das Relações Exteriores, Javad Zarif, que declarou: “Um erro humano em tempos de crise causada pelo aventureirismo americano levou ao desastre (…) nosso profundo pesar, desculpas e condolências ao nosso povo, às famílias de todas as vítimas e a outras nações afetadas”.

Erro e reconhecimento

Apesar de não ser algo corriqueiro, acidentes fatais e tragédias em guerras são mais comuns do que se imagina. Os EUA, p.ex., durante a Guerra Irã-Iraque em 1988 abateram um avião comercial proveniente do Irã, um Airbus A300 da Iran Air, com destino a Dubai, com 290 passageiros. Este e outros casos foram reconhecidos como erros humanos, justificados em meio à tensão da guerra. O mais recente que também envolveu a Ucrânia foi o MH17 da Malásia Airlines, abatido em 2014 quando voava de Amsterdã a Kuala Lumpur. Assim como os iranianos hoje, os russos inicialmente rejeitaram as acusações de que o míssil utilizado tinha sua procedência, enquanto que o governo ucraniano acusava os rebeldes do Donbass, apoiados por Moscou, de derrubar a aeronave. Mas, diferentemente do governo iraniano que assumiu seu erro posteriormente, as autoridades russas ainda negam qualquer envolvimento e se recusam a participar das investigações. Esta é outra característica desses casos, mesmo em países com alto grau de transparência pública e respeito à atividade jornalística, as investigações nem sempre resultam em consenso.

Antecedentes, repercussões e consequências

Justin Trudeau, Primeiro-Ministro do Canadá, segundo país com a maioria das vítimas no voo, pediu respostas às suas famílias; Volodymyr Zelensky,Presidente da Ucrânia, exigiu um pedido de desculpas com total responsabilização pela tragédia, bem como indenização para os familiares; e Hassan Rouhani, Presidente do Irã, classificou o ocorrido como “erro imperdoável” e afirmou que as investigações irão continuar. Mas, se por um lado, o Líder Supremo iraniano, o aiatolá Ali Khamenei, também assumiu o erro de seu país, por outro defendeu a atuação da Guarda Revolucionária, responsável pelo ataque, porque “manteve a segurança” do Irã.

No início do ano (2020), o conflito entre EUA e Irã após a morte de Qassam Suleimani, o chefe da Guarda Revolucionária do Irã, o braço armado do regime dos aiatolás, foi um duro golpe na hierarquia de comando do país, o que levou à retaliação de Teerã lançando mísseis contra bases americanas no país vizinho, o Iraque. Em meio a essa tensão e esperando a possível retaliação americana na capital iraniana, o oficial responsável pela defesa provavelmente se equivocou atirando em uma aeronave, cujo padrão de voo não correspondia a um procedimento de ataque.

Cabe lembrar que o governo iraniano foi alvo de uma série de protestos iniciada em novembro de 2019 contra a situação econômica, aumento do preço dos combustíveis, a corrupção e, também, contra a própria República Islâmica. As manifestações foram duramente reprimidas e deixaram, pelo menos, 180 mortos. Nesse contexto, a queda do avião com a morte de passageiros, inclusive iranianos e outros com dupla nacionalidade também iraniana, serviu como um revival de motivos pelos quais o governo atual do país não defenderia e, portanto, também não representaria sua população, o que realmente levou a novos protestos. Além dos motivos reconhecidos acima, há um sentimento geral anti-governista que se expande coma disseminação de teorias as mais variadas, inclusive de claro teor conspiratório: “O assassinato de Soleimani foi um verdadeiro choque para nós. Ele foi o herói da Revolução Islâmica. E agora existem muitas teorias sobre sua morte – alguns até acreditam que foi planejado. O sentimento se intensificou quando se soube que o Irã havia alertado sobre sua resposta. Diz-se que essa morte desviou a atenção dos assassinatos de manifestantes em novembro durante comícios contra o aumento dos preços dos combustíveis”.

Se a repercussão política deste acidente afetou Teerã, o mesmo ocorreu com Kiev. Enquanto o Ocidente protestava e acusava o Irã pelo feito, o governo ucraniano manteve prudência em não endossar, inicialmente, a versão do míssil, postura essa que, em meio a toda tensão, obviamente lhe trouxe críticas por seu silêncio. Após tantos revezes com o Irã se recusando a entregar a caixa preta da aeronave e não ter isolado a área da queda, foi proposta uma indenização de 80.000 dólares (aproximadamente 347.773 reais, no câmbio de 14 de fevereiro de 2020) às famílias dos passageiros. Zelensky considerou a quantia insuficiente e as relações entre os países têm se deteriorado. O vazamento de um áudio entre o aeroporto e o piloto do Boeing foi considerado como um dos motivos desta piora na cooperação entre os dois países. Segundo Hassan Rezaifar, diretor de investigação de desastres da Organização de Aviação Civil Iraniana, “Este arquivo foi um dos materiais fornecidos a um painel de especialistas que investigou o desastre. [A publicação do arquivo de áudio] pelo lado ucraniano indica que não iremos mais repassar nenhum material para eles”.

Fissura na aliança com o Ocidente

E como se isso não bastasse, fissuras podem surgir entre a Ucrânia e seus aliados ocidentais, devido à sonegação de informações. Após Zelensky ter sido envolvido em um escândalo por Donald Trump contra seu potencial rival, Joe Biden,também foi pego de surpresa quando autoridades americanas vieram a público em 10 de janeiro, com informações não disponibilizadas aos ucranianos. Pavlo Klimkin, ex-ministro das Relações Exteriores da Ucrânia, relatou que as autoridades ocidentais têm falhado no compartilhamento de informações com Kiev: “‘Perdemos nosso avião, perdemos nossos cidadãos’, Sr. Klimkin disse. ‘É claro que queremos que nossos amigos estejam conosco neste momento importante no sentido de compartilhar informações, no sentido de solidariedade, no sentido de simplesmente trabalhar juntos’”.

Apesar de autoridades americanas e ucranianas tentarem abafar o atrito que se formava, Anatoliy Hrytsenko, ex-Ministro da Defesa ucraniano, insinuou que a tragédia poderia estar sendo usada politicamente pelos países ocidentais: “‘Os líderes ocidentais precisam nos fornecer essas descobertas de inteligência’, disse o Sr. Hrytsenko. ‘Se assumimos o pior e eles não fazem isso, surge um grande ponto de interrogação: trata-se realmente de determinar a causa de um acidente de avião ou agora é geopolítica?’”.

Zelensky em cerimônia de homenagem aos mortos do voo PS752

A tragédia e o simbolismo político

Ainda é cedo para dizer como o presidente Zelensky se sairá dessa, com uma melhor ou pior leitura por parte de cidadãos ucranianos, mas sabe-se que além da verdade, a política conta com a propaganda, a interpretação que se dissemina entre o eleitorado e, também, muito importante, o timing das ações adotadas. Enquanto Volodymyr Zelensky assinava um Decreto de luto oficial pelas 176 vítimas do voo 737-800 da Ukraine International Airlines, com suas bandeiras hasteadas a meio mastro nos prédios das autoridades estatais e agências locais de governo, empresas, instituições e demais organizações de estado, ainda se acreditava na versão de falha do motor da aeronave. Mas a circulação de notícias na internet é rápida, as primeiras fotos, ainda não certificadas, indicavam que o avião pudesse ter sido abatido por um míssil, cujos destroços se encontravam na cidade de Parand, a cerca de 46,6 km de Teerã.

O sistema de defesa que provavelmente abateu o avião da UIA foi o Tor-M1 9K331, de fabricação russa e usado pela Guarda Revolucionária do Irã. Para quem acompanha a política ucraniana, sabe-se que a oposição ao presidente Zelensky é fortemente anti-russa. O significado desta ação pode ser transmutado simbolicamente pelos seus opositores como uma extensão do braço russo contra ucranianos. É bom lembrar que este sentimento nacionalista foi um peso contra a reeleição de seu antigo rival, Petro Poroshenko, e até então esta era a vantagem de Volodymyr Zelensky, cuja mensagem de união e tolerância entre os diferentes povos que compõem a Ucrânia tem sido vista como um antídoto contra o divisionismo, a segregação e o preconceito. A questão que emerge é saber até quando este ativo político irá durar, se mesmo eventos aleatórios são utilizados como anti-marketing, não só de seus opositores contumazes, mas, também, de aliados como os Estados Unidos, ao não agirem com total transparência com Kiev.

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Notas:

* Especificamente às 23:42 minutos do dia anterior, 7 de janeiro de 2019, enquanto que já eram 06:12 do dia seguinte, 8 de janeiro de 2019, em Teerã.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Boeing 737800 da Ukraine International Airlines” (Fonte):

Автор: BrunoA380: http://www.plane-mad.com/aviation-photos/view/ukraine-international-airlines/boeing-737-800/paris-charles-de-gaulle/54087.html,

CC BY-SA 4.0: https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=50664635

Imagem 2 Zelensky em cerimônia de homenagem aos mortos do voo PS752” (Fonte): https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Meeting_Bodies_of_Ukrainian_Citizens_from_PS752_in_Boryspil_International_Airport_56.jpg

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A inauguração do gasoduto russo-turco

No dia 8 de janeiro deste ano (2020) o Presidente da Federação Russa, Vladimir Putin, e o Presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, reuniram-se na cidade de Istambul para a cerimônia oficial de inauguração do gasoduto Turkish Stream. O planejamento do gasoduto durou alguns anos e sofreu um leve revés em 2015 com o episódio da queda do avião de combate russo pelos turcos. Todavia, o incidente não inviabilizou o projeto o qual foi retomado em 2017 já com a construção da linha.

A principal linha do gasoduto possui 930 Km de extensão, e compreende 230 Km em águas marítimas russas e 700 Km em águas marítimas turcas. O Turkish Stream conecta o gás natural da cidade russa de Anapa, no Krai de Krasnodar, a cidade turca de Kiyikӧy, na província de Kirklareli, por debaixo do Mar Negro. A partir de Kiyikӧy inicia-se uma extensão da linha a qual estende-se por 69 Km até o centro de distribuição na cidade de Lüleburgaz, e por mais 145 Km até a cidade de Ipsala, na fronteira turco-grega.

O gasoduto russo-turco possui 2 operadores: a empresa Gazprom, que é a responsável pela seção onshore e offshore do lado russo; e a BOTAŞ, a empresa responsável pela seção onshore turca. Com custo estimado em 11,4 bilhões de euros (aproximadamente, US$ 12,6859 bilhões, ou R$ 52,1913 bilhões, conforme a cotação de 14 de janeiro de 2020), o projeto levou 1 ano e 3 meses para ser concluído, e tem capacidade total de fornecer até 31,5 bilhões de m³ de gás natural.

A Federação russa é uma das maiores exportadoras de gás natural para o continente europeu e abastece parcela considerável desse mercado energético, todavia, diversos Estados da própria Europa e inclusive os Estados Unidos tendem a rechaçar a expansão comercial do gás russo. A grande razão para o discurso dos opositores é a dependência que o país comprador poderia adquirir dos russos, e possíveis tentativas de interferência em assuntos internos desses últimos na realidade política regional.

Em relação a cerimônia de lançamento do gasoduto, o jornal Gazeta.Ru apresentou a declaração do Presidente da Federação Russa, Vladimir Putin, o qual disse: “Este é um sistema único e sem precedentes em seus parâmetros de transmissão de gás em alto mar. Vivemos em um mundo complexo. Na região em que estamos há tendências para uma exacerbação da situação. Mas a Turquia e a Rússia mostram exemplos completamente diferentes – interação e cooperação em benefício de nossos povos e de toda a Europa”.

O jornal Izvestia trouxe a declaração do Chefe do Departamento do Instituto de Pesquisa Energética da Academia Russa de Ciências, Vyacheslav Kulagin, sobre a questão do monopólio do gás russo, o qual mencionou a tendência de diminuição do fluxo de gás em trânsito pelos gasodutos europeus. Kulagin salientou: “Em breve, não mais que 20 a 25% do gás será entregue a nós por qualquer rota de exportação. Isso garante suprimentos confiáveis e a capacidade de trabalhar com flexibilidade no mercado. Quando houver uma reserva de capacidades, cada proprietário do gasoduto estará interessado em atrair um fornecedor e oferecerá condições mais convenientes”. 

Presidente da Federação Russa, Vladimir Putin, e Presidente da Turquia, Recep Erdogan

A Turquia não aparenta compartilhar do receio europeu e dos Estados Unidos em comprar o gás russo, e compreende a instalação do Turkish Stream como um benefício para sua própria infraestrutura. No que tange a uma possível dependência energética dos russos os turcos rejeitam essa perspectiva, pois pretendem investir em novas fontes de energia, como a exploração de hidrocarbonetos.

Em relação a temática, o jornal Gazete Duvar apresentou a declaração do Presidente da Turquia, Recep Erdogan, o qual disse: “Ganhamos uma infraestrutura significativa de oferta de gás natural na região. Estamos conduzindo nossos esforços de exploração de hidrocarbonetos para descobrir novas fontes de suprimento e desenvolver nossas reservas existentes. Vamos virar o Mediterrâneo, que foi o berço das civilizações ao longo da História, para o campo da cooperação, não para o conflito. Nossas expectativas é que nossos interlocutores se voltem para a Turquia para alargar a cooperação”.

O jornal Diyalog Gazetesi trouxe a declaração do Ministro da Energia e Recursos Naturais da Turquia, Fatih Dӧnmez, o qual enfatizou a cooperação com o vizinho russo, e a importância do gasoduto para o desenvolvimento do país. Dӧnmez salientou: “O Turkish Stream é um passo histórico dado o profundamente no Mar Negro. O projeto mostrou mais uma vez a importância da cooperação e do ganha-ganha para o mundo”.

Estação de gás natural

A cooperação entre ambos os atores é significativa e sólida, com duração de mais de 30 anos, nos quais cerca de 400 bilhões de m³ de gás já foram fornecidos da Rússia para a Turquia. Diante de um universo comercial atual equivalente US$ 100 bilhões por ano entre os dois países (próximos de 411,41 bilhões de reais, de acordo com a cotação de 14 de janeiro de 2019), os especialistas estimam que a Gazprom poderá obter um lucro de aproximadamente US$ 500 milhões por ano (em torno de 2,057 bilhões de reais, conforme a mesma cotação).

Os analistas entendem que a conexão russo-turca mediante a operação do gasoduto Turkish Stream é estratégica no sentido econômico e político. No primeiro caso, a Federação Russa obtém lucro a partir da expansão de sua rede de gasodutos, visto que o território turco possibilita criar um contorno ao gasoduto que passa pela Ucrânia, e, dessa forma, abre expectativa para novos clientes entre os Estados balcânicos.

No segundo caso, a Turquia ganha por exercer parte do controle sob o Turkish Stream, auferindo a possibilidade futura de negociações sobre o valor de exportação do gás russo, e, é claro, os turcos também poderiam vir a obter benefícios financeiros com a transmissão do gás para países vizinhos.

Em relação a questões políticas, o gasoduto não interfere no equilíbrio de poder regional, pois os principais Estados da localidade (Rússia e Turquia) uniram-se a favor de objetivos comuns. Todavia, é possível a ascensão de discursos acalorados no futuro caso os países do entorno resolvam importar seu gás em conexão com o Turkish Stream. Isso significaria uma possível tensão entre a Federação Russa e a União Europeia (UE), a qual observa com descrença o destaque da influência russa no mercado de gás do Leste Europeu.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Gasoduto Turkish Stream” (Fonte): https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/e/ed/Turkish_Stream.png

Imagem 2 Presidente da Federação Russa, Vladimir Putin, e Presidente da Turquia, Recep Erdogan” (Fonte): https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/f/f2/Meeting_Vladimir_Putin_with_Recep_Tayyip_Erdogan_2017-03-10_03.jpg

Imagem 3 Estação de gás natural” (Fonte): https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/6/64/Pipeline_device.jpg/1280px-Pipeline_device.jpg

ANÁLISES DE CONJUNTURAEUROPA

2020: o desafio Brexit ainda não acabou para Boris Johnson

2019 foi um ano inesquecível para Boris Johnson: em julho, o britânico se tornou líder do Partido Conservador, sucedendo Theresa May no posto mais alto do sistema político do país; em outubro, com o processo do Brexit travado em um Parlamento extremamente dividido, Boris apostou na convocação de uma arriscada eleição e a aposta foi certeira, garantindo ao Primeiro-Ministro uma confortável maioria

A vitória abriu as portas para que novo Parlamento aprovasse a saída do Reino Unido da União Europeia, marcada para ocorrer no dia 31 de janeiro de 2020. Depois de meses em tramitação, a legislação referente à ratificação passou pela segunda leitura na Câmara dos Comuns, com 330 votos a favor e 231 contra. Ela ainda sofrerá o escrutínio da Câmara dos Lordes, que, apesar da expectativa de duras discussões, deverá conceder a aprovação. 

A chamada “lei do divórcio trata sobre os acertos financeiros da saída, os direitos dos cidadãos europeus no Reino Unido e de britânicos no resto da Europa, e o novo esquema alfandegário para a Irlanda do Norte. Além disso, ela aprova um período de 11 meses de transição até que um acordo comercial seja criado entre ambas as partes.

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Justamente essa nova relação comercial deverá trazer renovada dor de cabeça para o Primeiro-Ministro. Ursula Von Der Leyen, nova líder da Comissão Europeia, criticou o curto período de 11 meses, alertando sobre as dificuldades para se chegar a um bom e completo entendimento.

As discussões agora deverão se ater a elementos técnicos, mas extremamente complexos, como questões alfandegárias e barreiras não-tarifárias. Estes assuntos podem trazer implicações para futuros acordos do Reino Unido com países de fora da União Europeia. Além disso, existe a questão sobre o comércio de serviços. O setor é responsável por cerca de 80% da economia britânica, mas tem sido pouco mencionado pelos políticos envolvidos na negociação. 

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Boris Johnson, o PrimeiroMinistro Britânico” (Fonte): https://www.flickr.com/photos/uk_parliament/48922480198/

Imagem 2Boris Johnson se encontra em Londres com Ursula Von Der Leyen, nova Presidente da Comissão Europeia” (Fonte): https://twitter.com/BorisJohnson/status/1214974020136980481