ANÁLISES DE CONJUNTURAEUROPA

As verdades inconvenientes da pandemia

A discrepância entre os países no ritmo e evolução da disseminação do novo coronavírus tem escancarado como políticas públicas são construídas e implementadas de maneira distinta entre as nações, especialmente no que diz respeito ao gerenciamento de fatores de risco sistêmico. Neste sentido, muito se tem perguntado o quanto os Estados estão prontos para os principais desafios postos para o século XXI: para além da própria Covid-19 e outras possíveis mutações futuras, as mudanças climáticas, a crescente desigualdade e o aumento vertiginoso e contínuo das populações urbanas são tópicos cada vez mais preocupantes e demandantes de ações concretas de mitigação.

A redução de riscos sistêmicos resume um conjunto de atividades de caráter preventivo. Não necessariamente os seus efeitos ocorrem diretamente no tempo presente, uma vez que suas consequências serão majoritariamente sentidas no futuro. O isolamento social, por exemplo, ilustra o caráter preventivo frente ao novo coronavírus, sendo um “investimento social” que se faz no presente para a redução de impactos negativos já no curto prazo.

Segundo analistas, a pandemia reforçou a necessidade de se erguer ações no presente que previnem as sociedades e o planeta como um todo dos riscos que estão postos para os anos e décadas seguintes. O efeito avassalador da pandemia sobre sistemas de saúde desestruturados ao redor do mundo, sobre comunidades urbanas intensamente povoadas e com ínfimas condições sanitárias, somada a discrepância entre vítimas por classe social, demonstrou a inaptidão da atual estrutura social, econômica e institucional em lidar com as consequências de crises sistêmicas.

A Comissão Europeia tem debatido como
propor um plano de recuperação econômica da
Europa baseado na sustentabilidade econômica

O tema das mudanças climáticas, por exemplo, vem mobilizando ao longo das últimas décadas uma série de movimentos sociais, empresas e outros grupos da sociedade civil no debate e reivindicações por um modelo de desenvolvimento sustentável, especialmente baseado em economias de baixo carbono. Em pesquisa recentemente divulgada no jornal britânico BBC, cerca de 80% da população chinesa, 75% dos franceses e 70% dos brasileiros acreditam que os efeitos futuros do aquecimento global serão tão sérios quanto as consequências sanitárias e econômicas da Covid-19. O dado, acima de tudo, revela o caráter urgente que o tema assume entre ampla maioria da população mundial.

No entanto, um grande entrave para a construção de um modelo de desenvolvimento adaptado às condições necessárias para a mitigação dos efeitos da mudanças climáticas – o qual inclua, por exemplo, fim do desmatamento das florestas tropicais e redução no consumo de combustíveis fósseis – é a disposição do Estado em promover estímulos fiscais e apoio institucional a setores da economia e práticas produtivas alinhadas com a pauta da sustentabilidade, uma vez que a pressão pela continuidade de subsídios e incentivos para setores poluidores ainda é significativa. Especialmente no contexto pós-pandemia, onde as economias nacionais estarão mergulhadas em recessão ou em crescimento lento, é muito provável que haja uma “corrida ao Estado” por parte de empresas e associações empresariais – boa parte delas não alinhadas com a ideia de um futuro não muito diferente do atual –, o que pode impulsionar a reprodução da agenda econômica prévia à pandemia do que necessariamente induzir a mudanças sistêmicas de grande fôlego.

A mesma tendência à reprodução de padrões sociais e econômicos ocorre na esfera da desigualdade, uma vez que o combate ao crescente abismo entre ricos e pobres demanda intensas medidas, como a tributação das heranças, das grandes fortunas e combate às fraudes fiscais, por exemplo. Se, por um lado, alguns países, como Chile, experimentaram a adoção de uma nova política fiscal sobre essa questão durante a pandemia, do outro, muito se pergunta o quanto novas condutas de tributação e redistribuição de renda entrarão amplamente em vigência nos próximos anos.

Crises severas possuem a inconfundível característica de não somente alterar o estado presente das coisas, mas, principalmente, de sujeitar planos futuros a profundas correções de rota. O quanto o cenário pós-pandemia estará associado à adoção de novos padrões e políticas públicas que caminhem para a redução e mitigação dos riscos sistêmicos, ou se reproduzirá, em larga escala, o contexto institucional e social prévio à emergência do novo coronavírus, irá depender, em última instância, do espaço que as agendas progressistas terão dentro de um Estado intensamente disputado pelas mais variadas matizes de interesses políticos e econômicos.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 A pandemia do novo coronavírus tem escancarado as limitações de países em governos em mitigar riscos sistêmicos” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Cronologia_da_pandemia_de_COVID-19

Imagem 2 A Comissão Europeia tem debatido como propor um plano de recuperação econômica da Europa baseado na sustentabilidade econômica” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/European_Commission

ANÁLISES DE CONJUNTURAEUROPA

A Noruega planeja retirar recursos do Fundo de Pensão Global

A principal indústria produtiva da Noruega é o setor de óleo e gás, o qual desenvolveu-se no país a partir da descoberta de jazidas petrolíferas em 1969. Desde esse período, os noruegueses iniciaram um processo de crescimento econômico que mudou a história do Estado nórdico. Com os recursos provenientes das concessões de exploração de poços, royalties e dividendos, o Estado norueguês os utilizou para formar sua infraestrutura e investir nas políticas de bem-estar social.

Com o avanço do tempo, a Noruega construiu um parque tecnológico de ponta no setor offshore*, mediante a formação de clusters**, os quais constituíram uma rede de cooperação entre empresas e comunidade acadêmica. Os que mais destacam-se no setor de petróleo são os clusters NCE Subsea***, o qual desenvolve tecnologia submarina e sustentável na cidade de Bergen, e o NCE NODE****, o qual desenvolve tecnologia nas áreas de mecatrônica, robótica e logística na região de Kristiansand.

A partir da década de 1990 o Storting, Parlamento norueguês, preocupado com as gerações do presente e futuras do país, resolveu aprovar uma legislação específica para gerenciar os recursos de origem petrolífera. Consoante a situação, criou-se o “Fundo Governamental de Pensão – Global” (FGP-G) como forma de manutenção de uma poupança estatal para tempos de dificuldades financeiras.

A administração do FGP-G é de responsabilidade do Norges Bank (Banco da Noruega), do Storting e do Ministério das Finanças, os quais realizam a compra 1,5% das ações das principais empresas do mundo. O Conselho de Ética envia recomendações para o Conselho Executivo do Norges Bank, o qual decide pela inclusão ou exclusão do investimento.

O FGP-G foi avaliado em US$1,148 trilhão em 2019 (aproximadamente, 6,35 trilhões de reais, conforme a cotação de 22 de maio de 2020) e investe somente em três áreas: a participação societária em empresas multinacionais, a compra de títulos e em imóveis. Diante dessa perspectiva, os recursos do Fundo estão presentes em 9.202 empresas de 74 países, e os noruegueses estabeleceram que somente o montante de cerca de 3% deve ser transferido para o orçamento fiscal do governo.

Com o advento da COVID-19 no país, a população teve que permanecer em isolamento social e nessa situação a economia norueguesa sofreu um revés, pois as pessoas não puderam manter suas rotinas de trabalho. No tangente à questão, o governo planeja realizar uma retirada de NOK 420 bilhões (em torno de 42,24 bilhões de dólares – ou 233,6 bilhões de reais –, conforme cotação do dia 22 de maio de 2020) do FGP-G. Os recursos visam prestar assistência aos cidadãos, empresas, e auxílio a diversos setores de importância, tais como: hospitais, educação, cultura, transporte público, setor aéreo e governos locais.

O alto valor de saque do Fundo representa 4,2% do total de recursos existentes, ou seja, 1,2% além do que é considerado normal para repasse no orçamento fiscal da Noruega. Soma-se a questão o controverso pacote de ajuda de NOK 100 bilhões (em torno de US$ 10,06 bilhões de dólares – ou 55,6 bilhões de reais –, também de acordo com a cotação do dia 22 de maio de 2020) para as indústrias do setor offshore, o qual visa combater o desemprego e preservar a manutenção dos investimentos das empresas.

Ministro das Finanças da Noruega, Jan Tore Sanner

Em referência à emergência que os noruegueses vivem, o Ministro das Finanças da Noruega, Jan Tore Sanner, defendeu as medidas de inclusão de recursos do FGP-G para auxiliar a sociedade norueguesa e a indústria de óleo e gás. Em relação à pauta em comunicado do Ministério das Finanças, o Ministro afirmou: “Juntos, retomaremos nossa vida cotidiana de maneira segura. Com esta proposta de orçamento, procuramos fortalecer as atividades em todo o país e promover a reestruturação verde e o crescimento dos negócios. Também estamos priorizando hospitais e serviços para crianças vulneráveis. Jovens e idosos se sentirão seguros e receberão a ajuda de que precisam”.

A Primeira-Ministra da Noruega, Erna Solberg, afirmou sobre a situação de desemprego e a necessidade de incentivos para a criação de novos empregos em comunicado do Ministério das Finanças: “Muitos noruegueses estão sem trabalho, a maioria deles porque foram demitidos temporariamente. Muitos mais estão se perguntando se o trabalho deles ou a vida deles ainda estará lá quando a crise terminar. É por isso que estamos propondo uma série de medidas para desenvolver habilidades e incentivar a reestruturação verde para o futuro. Criaremos mais empregos e integraremos ainda mais pessoas à vida profissional”.

Ministra do Petróleo e Energia da Noruega, Tina Bru

A Ministra de Petróleo e Energia da Noruega, Tina Bru, manifestou concordância com seus pares no governo, e reiterou a necessidade de salvaguardar os empregos do setor petrolífero. No tangente à questão, a Ministra afirmou em comunicado do Gabinete da Primeira-Ministra: “A indústria norueguesa de petróleo e gás e a indústria de suprimentos estão agora no meio de uma crise, diferente de tudo o que já experimentamos. Desenvolvimentos de campo e projetos de manutenção em larga escala são a base de grande parte da atividade do setor de suprimentos. Manter atividades desse tipo salvaguardará empregos e manterá a posição competitiva da Noruega ao longo de toda a cadeia de valor em nossa maior e mais importante indústria. Nossas ações também garantirão a criação contínua de valor de nossos recursos e receitas de petróleo e gás para manter nosso sistema de bem-estar”.

Os analistas consideram perspicaz a atitude do Estado norueguês em criar o FGP-G, pensando em investimentos futuros, e como meio de manutenção da qualidade de vida de sua sociedade. O modo de operacionalização do Fundo também é digno de nota, visto que, na hipótese de retirada de recursos, tal qual se observa atualmente, é possível que grande parte do montante seja derivado de ganhos do mercado financeiro.

Com o FGP-G, a sociedade norueguesa possui uma fonte de recursos quase inesgotável, se ponderar sua população e administração recente, a qual poderá satisfazer as necessidades por muitas décadas. Todavia, o discurso de investimento em tecnologias verdes e de afastamento da dependência do óleo e gás, como fonte de recursos, já não é tão recente.

Compreende-se que existem projetos noruegueses viáveis e eficazes na exploração de poços e para a diminuição das emissões de carbono, entretanto, chegará o momento quando a sociedade norueguesa precisará escolher entre permanecer com uma indústria robusta offshore, a qual pode financiar o bem-estar social, ou concentrar esforços produtivos e reinventar uma nova indústria capaz de promover a manutenção do padrão de vida e sistema social norueguês. Nesse sentido, deve-se aguardar o processo e observar como a principal indústria da Noruega poderá tornar-se 100% verde, ou, na hipótese, deixar de existir para a ascensão de uma indústria completamente nova.

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Notas:

* Setor Offshore: é a nomenclatura que faz referência à exploração de óleo e gás no mar; de forma que Onshore é a exploração em terra, e Offshore é a exploração marítima.

** Cluster: é um agrupamento geográfico de instituições e empresas semelhantes que cooperam entre si com o objetivo de adquirirem complementação e eficácia.

*** NCE Subsea: para mais informações veja o site: http://www.gceocean.no

**** NCE NODE: para mais informações veja o site:  http://gcenode.no

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 PrimeiraMinistra da Noruega, Erna Solberg” (Fonte):

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/9/97/Erna_Solberg_%288118929564%29.jpg

Imagem 2 Ministro das Finanças da Noruega, Jan Tore Sanner” (Fonte):

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/9/98/Jan_Tore_Sanner_-_2010-05-08_at_10-33-09.jpg

Imagem 3 Ministra do Petróleo e Energia da Noruega, Tina Bru” (Fonte):

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/f/f0/Tina_Bru_%282017-03-11_bilde02%29.jpg

ANÁLISES DE CONJUNTURAEUROPA

A Finlândia flexibiliza o isolamento social

A pandemia de Covid-19 atinge o cotidiano de milhões de pessoas ao redor do mundo. Diversos foram infectados e sofrem as consequências do vírus, o qual já levou a óbito algumas centenas de milhares em vários países. Todavia, com as medidas de isolamento social muitos foram protegidos, o que resultou no declínio da curva de expansão.

A Finlândia não foge das estatísticas e enfrenta as dificuldades geradas pela crise de saúde que se espalhou. Os dados pela BBC seguem a pesquisa feita pela Universidade John Hopkins, nos Estados Unidos, os quais apresentam o quantitativo de mortos e de infectados por Covid-19 no globo.

No universo dos Estados nórdicos, o menor índice de mortes teve registro na Islândia, com 10 perdas e 1.801 contaminados; na Noruega o contingente foi de 224 perdas e 8.132 contaminados; a Finlândia surge com 275 perdas e 6.003 infectados; a Dinamarca apresentou 533 perdas e 10.591 contaminados; e, por fim, o maior índice foi visto na Suécia, com 3.313 perdas e 27.272 contaminados.

A diferenciação de impacto da Covid-19 na região nórdica e na própria Finlândia corresponde a uma série de fatores, os quais salientam na proporção populacional, na complacência das autoridades locais, isso é, no uso de medidas de preservação, e na conscientização das sociedades.

Os finlandeses aguardam a flexibilização do isolamento social após cerca de 2 meses de confinamento. Diante da pauta, o jornal Helsingin Sanomat trouxe a informação de que o governo da primeira-ministra Sanna Marin planeja uma reabertura gradual das atividades do país, a partir do início de junho, todavia, algumas mudanças já começaram a ser implementadas desde o dia 14 de maio deste ano (2020), como a liberação de empréstimos de materiais pelas bibliotecas, e permissão de viagens e tráfego necessário transfronteiriço.

Segundo as autoridades finlandesas, divulgado no jornal Helsingin Sanomat, a ideia central é contribuir para trazer à sociedade finlandesa uma sensação de normalidade, entretanto, apesar do afrouxamento do isolamento social, com o retorno parcial do setor de educação, restaurantes e competições de esporte, muitas atividades permanecerão restritivas, tais como: o limite de até 50 pessoas para reuniões públicas, viagens de lazer, especialmente para o exterior, o aconselhamento do trabalho virtual, e a recomendação de isolamento de idosos com idade superior a 70 anos. 

Primeira-Ministra da Finlândia, Sanna Marin

As medidas de flexibilização do isolamento social não são unânimes entre os políticos e os especialistas. No tangente a questão política, o jornal Yleisradio Oy trouxe a declaração da Primeira-Ministra, que apresentou a tônica do relaxamento social: “A Finlândia abrirá gradualmente para o verão. Esforços estão sendo feitos para suspender as restrições de maneira controlada e gradual, para que a situação da doença permaneça sob controle, a capacidade de suporte da assistência médica não seja comprometida e a vida e a saúde das pessoas em risco possam ser protegidas”.

O jornal Yleisradio Oy ainda trouxe a declaração da parlamentar pelo Perussuomalaiset – PS (Partido dos Finlandeses), Riikka Purra, que se opõe a ideia de abertura do país e a considera como algo inconsistente, conforme sua afirmação: “No entanto, é improvável que a estratégia de saída escolhida pelo governo a mantenha pequena o suficiente, mas abrirá a sociedade de maneira inconsistente. O governo não está tentando reprimir o vírus, como já foi feito em muitos países, mas está avançando em um caminho sinalizado por seus especialistas de confiança de que ninguém sabe realmente o que está buscando”.

Conforme o jornal Ilta Sanomat, o professor de Virologia da Universidade de Helsinque, Kalle Saksela, é descrente de que a abertura planejada do país seja a melhor alternativa para o momento, e diverge do Relatório Abertura de Hetemäki, elaborado pelo Ministério das Finanças, o qual sinalizaria, na percepção do professor, um aumento no quantitativo de infectados por Covid-19, caso o isolamento realmente seja flexibilizado. O professor Saksela afirmou: “Não apoio essa estratégia [Relatório de Abertura de Hetemäki], porque penso que existem outras opções. É verdade que nenhuma sociedade pode suportar a repressão completa indefinidamente. No momento, porém, acho que uma opção completamente realista seria uma supressão limitada da epidemia até que melhores alternativas sejam encontradas”.

Covid-19

O jornal Ilta Sanomat ainda trouxe a declaração do médico-chefe da Unidade de Terapia Intensiva do Hospital Central da Universidade de Kuopio, Stepani Bendel, que concorda com a afirmação do professor Kalle Salsela, todavia abre maior margem analítica, caso os dados do Relatório de Abertura de Hetemäki estejam corretos, e a população siga as instruções preventivas. No tangente a questão, Bendel salientou: “É claro, que quando as restrições são relaxadas, as infecções aumentam. Se os números R0 das curvas publicados no relatório Hetemäki estiverem corretos e as pessoas seguirem as instruções fornecidas, faremos bem com os cuidados intensivos. No entanto, se o número de infecções for superior ao estimado, a sociedade terá que reagir de alguma forma para garantir a adequação da capacidade”.

Os analistas consideram importante as restrições sociais como método de prevenção da propagação da Covid-19, às quais precisam ser respeitadas mesmo diante das consequências psicológicas que o isolamento social tende a produzir. Todavia é preciso existir uma confluência entre políticos e especialistas de forma que a população não seja prejudicada frente à circulação do vírus no presente e no futuro.

A flexibilização do isolamento social finlandês poderia ser compreendida como um experimento controlado, pois inexistem manuais para serem seguidos perante crises e emergências. Dentro dessa perspectiva, seria visto como prudente a consideração de retorno ao método do isolamento social, caso os índices de Covid-19 voltem a crescer, permanecendo os investimentos em estudos de composição de vacinas e formas de tratamento.

A medida de abertura finlandesa é entendida de forma positiva e como modo de contentar a sociedade, a qual experimenta extrema mudança de rotina e pressão psicológica pela ausência da integração, todavia, compreende-se a flexibilização como uma possível e sútil pressão do setor econômico para o retorno às atividades laborais. Essa última também é vista como um fator positivo, porém ela pode se tornar negativa caso o governo tenha que retornar a tática da restrição social. Em suma, tudo depende da colaboração das pessoas, seja para evitar o vírus, seja para a reativação da economia.  

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Parlamento Finlandês” (Fonte):

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/f/f0/Eduskunta_istuntosali.jpg

Imagem 2 PrimeiraMinistra da Finlândia, Sanna Marin” (Fonte):

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/4/4c/Prime_Minister_of_Finland_Sanna_Marin_2019.jpg

Imagem 3 Covid19” (Fonte):

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/0/09/Covid-19-4855688_640.png

ANÁLISES DE CONJUNTURAEUROPA

A luta contra a pandemia na Ucrânia

A epidemia de um novo vírus na China no final do ano passado (2019) e que logo se disseminou pelo mundo se tornando uma pandemia[1] afetou duramente a economia da Ucrânia, além de causar um grande número de mortos. Como se trata de um vírus – o coronavírus SARSCoV2[2] – com alto poder de contágio, os sistemas de saúde de vários países ficaram sob ameaça de saturação. Isto fez com que diversos governos decretassem regimes de quarentena, ou até mesmo de lockdown[3], mas, mesmo assim, cidades foram duramente afetadas, assim como regiões inteiras, seja na China, Itália, EUA, Brasil, dentre outros casos.

Evolução e reação à crise

O primeiro caso registrado na Ucrânia data de 3 de março, em Chernivtsi. A vítima de infecção teria voltado com a esposa da Itália, país onde houve um grande número de contágios, especialmente na região da Lombardia. Nove dias depois, que coaduna com o ciclo de manifestação dos sintomas, normalmente de 1 a 14 dias,ocorre o relato de mais dois casos em 12 de março, um dia após a quarentena ter sido decretada, e um dia antes do primeiro óbito. Quase três meses depois, o número de casos tem aumentado exponencialmente e as mortes já chegam a mais de 300.

A Ucrânia fechou suas fronteiras no dia 13 de março, também interrompeu o transporte público e em Kiev foi restrito a categorias consideradas essenciais, profissionais do setor de saúde, financeiro e supermercados. Atividades recreativas foram proibidas, assim como aglomerações com mais de dez pessoas, incluindo cultos religiosos. Estradas e metrôs também foram mantidas com funcionamento restrito e escolas foram fechadas e até mesmo a entrada em cidades.

Até o dia 23 de março foram adotadas as seguintes medidas: “Suspensão do processo educacional em universidades, escolas e estabelecimentos de ensino pré-escolar; fechamento do metrô; impor restrições ao transporte público; suspensão de serviços ferroviários, de ônibus e aéreos; suspensão de compras, clubes esportivos, instituições culturais e restauração; proibição de ações em massa envolvendo mais de 10 pessoas – esses são os poderes das autoridades centrais e locais que visam estabilizar a situação epidemiológica e impedir a propagação do vírus”.

O epicentro da doença é o oblast de Chernivetska, o que levou o Gabinete de Ministros da Ucrânia a introduzir o regime de quarentena, inicialmente por apenas três semanas. Até o dia 21 de março, o país elevou seus esforços designando 17.000 policiais no combate à pandemia e cerca de uma semana depois ainda se acreditava na hipótese de impedir a entrada do vírus em território nacional. Mesmo que isto fosse verdadeiro, não seria possível em um país conflagrado pela guerra na sua fronteira leste, em que tropas insurgentes apoiadas pela Rússia têm livre trânsito entre um e outro país. A Ucrânia adotou medidas de contenção fitossanitárias de seu lado, mas a situação é desconhecida onde grupos insurgentes em Donetsk e Lugansk controlam passagens para o lado russo.

Passados vinte dias após o primeiro relato de infecção trazida do exterior e o país já tinha sua primeira infecção doméstica, apesar de todas medidas de segurança adotadas. Por consequência, o Ministro da Saúde, Ilya Yemets, solicitou ao Verkhovna Rada[4] que introduzisse o Estado de Emergência.

A discussão sobre o que viria a ser este estado de emergência se estendeu levando em conta as garantias constitucionais dos cidadãos. A adoção de regras para cumprimento de medidas de segurança durante a crise pandêmica é emergencial, mas tem que se basear na lei que fornece poderes adicionais às autoridades com certas restrições aos direitos constitucionais.

A partir do dia 23 de março, a Verkhovna Rada alterou a legislação específica para a vida dos cidadãos, das empresas e do Estado nas condições atuais, com:

·              Introdução de restrições à exportação de suprimentos médicos;

·              Adoção de benefícios fiscais;

·              Moratória para verificações documentais e factuais;

·              Estabelecimento do direito de funcionários ao trabalho remoto;

·             Responsabilidade administrativa estabelecida pela violação das regras de quarentena com multa;

·          Aumento da responsabilidade criminal por violação das regras e normas sanitárias de prevenção de doenças infecciosas e envenenamento em massa, com multa ou prisão. Se tais ações tiverem consequências mais graves ou mortes, a pena será de prisão por um período de 5 a 8 anos.

Nesta situação, três regiões ucranianas já foram declaradas em estado de emergência, Donetsk, Ternopil e Cherkasy, informou o primeiro-ministro Denis Shmygal. Recursos adicionais foram utilizados, como helicópteros sanitários para transporte de pacientes infectados. A capital, Kiev, adotou a limpeza do transporte público, mas também das próprias ruas, pontes e estradas. E, apesar de problemas iniciais com o fornecimento de testes para detecção do vírus por uma empresa ucraniana, um carregamento proveniente da China trouxe um grande lote dos testes, dispositivos de ventilação pulmonar artificial, máscaras médicas e outros recursos. Também, na esteira dessa cooperação internacional, o Canadá ofereceu ajuda ao governo ucraniano fornecendo equipamentos e suprimentos médicos, este foi o foco da conversa entre o primeiro-ministro Justin Trudeau e o presidente Volodymyr Zelensky, bem como ajuda à remoção dos cidadãos ucranianos que desejassem retornar ao seu país.

A situação atual da crise pandêmica na Ucrânia – Mapa do surto de CoVid-19 na Ucrânia – By ZomBear – Міністерство охорони здоров’я України, CC BY-SA 4.0

A contrainformação

Como a Ucrânia tem sido palco de disputas políticas internas e pressões externas, mais intensamente desde 2014, a pandemia foi aproveitada para ampliar a crise. Vídeos e informações falsas, as chamadas Fake News, foram propagadas com intuito de gerar pânico na população, como já aconteceu em uma pequena cidade, Novi Sanzhary, com manifestantes tentando bloquear o transporte de ucranianos evacuados da China.

Segundo o Ministério das Relações Exteriores, mais de 70.000 ucranianos foram trazidos do exterior dentro das medidas de combate a CoVid-19. Já os cidadãos evacuados da China ficaram em uma quarentena no centro médico na região de Poltava. No final de fevereiro, o Vice-Ministro de Assuntos Internos, Anton Gerashchenkon,afirmou que a situação já havia se normalizado na cidade: “Agora a situação em Novi Sanzhary é calma. A ordem pública é mantida por 320 membros da Guarda Nacional, 70 oficiais da Polícia Nacional e 16 trabalhadores do Serviço de Emergência do Estado. A situação está completamente sob controle (…). Não vamos deixar alguém ameaçar a segurança no centro de saúde Novi Sanzhary”.

A tentativa frustrada de ucranianos tentarem negar atendimento médico para compatriotas também levou a Igreja Ortodoxa da Ucrânia a se manifestar: “Em vista do retorno à Ucrânia de nossos cidadãos que foram evacuados da China, onde uma doença perigosa se espalhou, estamos testemunhando atitudes agressivas sobre sua chegada à Pátria. Embora os serviços médicos indiquem que não há pacientes entre os repatriados, e a necessidade de quarentena é uma medida de segurança adicional e necessária – o medo e a alienação estão levando as pessoas a rejeitar. (…) Que o Senhor nos dê a todos, como sociedade, sabedoria e perseverança, nos salve dos estragos de doenças perniciosas e do ódio e alienação perniciosos!”.

Embora uma pesquisa realizada no final do mês de fevereiro mostrasse que 74% dos entrevistados fossem contra os protestos dos repatriados, apenas 11% estavam indecisos e ainda havia 15% que apoiavam este tipo de atitude.

As táticas de contrainformação, segundo fontes ucranianas anti-russas, atribuíam o vírus como sendo uma arma biológica criada pelos Estados Unidos, para desestabilização de instituições democráticas de outros países. O que é certo são os efeitos disso acirrando divisões e conflitos já existentes no país.

Disputas políticas e corrupção

Além da tensão gerada pela a pandemia em vários países, as disputas políticas internas crescem em meio às incertezas de como proceder. O partido do ex-presidente Petro Poroshenko, Solidariedade Europeia, se opôs à adoção do Estado de Emergência: “‘A Solidariedade Europeia se opõe fortemente, porque vemos isso como um tremendo risco para o país e a democracia. Acreditamos que, hoje, Zelensky e o governo tenham todos os poderes para tomar as decisões necessárias: através de um mecanismo para a adoção de leis separadas e do NSDC [5]”– disse, em 23 de março, a deputada popular Irina Gerashchenko.

Suspeitas de corrupção envolvendo os testes necessários para detecção do vírus também afetaram a credibilidade do enfrentamento da crise pelo governo. Antes dos aviões com novos testes chegarem da China, se buscou utilizar os de fabricação nacional para, mais tarde, descobrir que se tratava de produtos de uma empresa sem qualquer experiência ou tradição no mercado.

Evolução do número de casos, que aumentam, em relação aos novos testes aplicados – Testes e casos positivos na Ucrânia até o dia 5 de abril

Os efeitos na economia também são bastante disruptivos. Os preços dos medicamentos e utensílios médicos sofreram forte especulação, o que levou o presidente Zelensky a ameaçar com sanções quem resolvesse tirar proveito da situação.

Conclusões

Com mais de 13.600 casos confirmados até o momento, 340 mortes[6] e com o agravante de o país ainda manter uma guerra no Donbass, o que só sobrecarrega mais ainda o sistema de saúde regional, a Ucrânia expõe suas fragilidades, seja pela contrainformação gerando pânico e revoltas, pelo oportunismo político da oposição, pelas suspeitas de corrupção, ou pela especulação nos preços de materiais básicos. Isso mostra que a batalha deste governo não tem sido apenas contra a pandemia.

Em recente nota, o Fundo Monetário Internacional(FMI) afirmou ter disponibilizado recursos para recuperação econômica da crise que sucederá à pandemia. São 50 bilhões de dólares para os países emergentes e 10 bilhões a juros zero para os países mais pobres (respectivamente, aproximadamente 286,23 bilhões de reais e 57,35 bilhões de reais conforme a cotação de 8 de maio de 2020). É o caso da Ucrânia no contexto europeu, a qual, aliás, já recorreu ao FMI para evitar uma recessão.

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Notas:

[1] Pandemia difere da epidemia em escala. Enquanto esta se trata de surtos de uma doença que se manifesta em diferentes regiões, a pandemia se instaura quando uma epidemia se estende a vários países e regiões. Embora já tenha existido outros casos, como a chamada “gripe espanhola” no início do século XX, a Organização Mundial da Saúde (OMS), fundada em 1948, considerou como pandemias, a gripe A (“gripe suína”), em 2009, e agora, a partir de março de 2020, a CoVid-19 (“causada pelo coronavírus”).

[2] Identificado o novo coronavírus como SARSCoV2, a doença por ele gerada passou a ser chamada, oficialmente, pela Organização Mundial de Saúde (OMS), de CoVid-19, que significa Corona Virus disease (doença do Coronavírus), enquanto que “19” se refere ao ano em que foi descoberto, 2019, a partir dos primeiros relatos em Wuhan, na China.

[3] Quarentena é uma das medidas não farmacológicas de combate ao vírus, uma vez que não há procedimentos farmacológicos – medicamentos e ou vacinas baseadas em evidências com literatura científica robusta até o presente momento – para conter a CoVid-19 e sua transmissibilidade. Também chamada de distanciamento social, a quarentena tem como objetivo garantir que os sistemas de saúde tenham capacidade de absorver as demandas, com atendimento adequado em local apropriado. Portanto, para evitar sua rápida saturação é que se busca impedir a circulação de pessoas, o que aumenta os casos de contágio. O lockdown, por sua vez,é bem mais restritivo ao impor, por meio de decisão judicial, o bloqueio temporário de todas as atividades consideradas não essenciais para a manutenção da vida e da saúde, evitando, assim, a maior transmissão do vírus.

[4] Verkhovna Rada diz respeito ao Conselho Supremo da Ucrânia, sede do Poder Legislativo unicameral e o único do país.

[5] Conselho Nacional de Segurança e Defesa da Ucrânia,ou NSDC,é um órgão consultivo de Estado para o Presidente da Ucrânia. Trata-se de uma agência responsável pelo desenvolvimento de políticas de segurança nacional em questões internas e externas.

[6] Até o dia 5 de março de 2020.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 “No Aeroporto Internacional de Kharkov, guardas de fronteira fornecem autorização para 94 pessoas que chegavam da China, em 20 de fevereiro de 2020”(Fonte): https://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Ukraine_evacuates_Ukrainian_and_foreign_citizens_from_Wuhan_16.jpg

Imagem 2 “A situação atual da crise pandêmica na Ucrânia – Mapa do surto de CoVid19 na Ucrânia By ZomBear Міністерство охорони здоровя України, CC BYSA 4.0” (Fonte):

https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=87672818

Imagem 3 “Evolução do número de casos, que aumentam, em relação aos novos testes aplicados Testes e casos positivos na Ucrânia até o dia 5 de abril” (Fonte): 

https://en.m.wikipedia.org/wiki/File:Ukraine_COVID-19_tests_and_positive_cases,_chart_by_day,_Aprile_5.png

ANÁLISES DE CONJUNTURAEUROPA

União Europeia dá sinal verde para fundo de recuperação econômica

Até o momento, a Europa é o continente mais castigado pela pandemia causada pelo Covid19, com mais de 1,2 milhão de infectados e milhares de falecidos. Aos poucos, os países vão se preparando para retomar à normalidade, porém, o panorama econômico configura um novo desafio que expõe as assimetrias dentro do Bloco, que já prepara o maior plano de recuperação econômica da história do continente desde o Plano Marshall, após o final da II Guerra Mundial.

O Banco Central Europeu alerta que “A recessão econômica na Europa pode ser de até 15% do PIB da região, embora existam países cujos efeitos podem superar essa cifra, devido ao impacto sofrido durante a pandemia e aos efeitos do cenário internacional que são imprevisíveis, pois um agravamento da epidemia nos Estados Unidos e uma expansão da mesma nos países emergentes, além da queda do preço das commodities, podem dificultar mais ainda a recuperação do Bloco.

Com um montante total estimado em  quase 500 bilhões de Euros, a Comissão Europeia propõe o uso de todos seus recursos financeiros, dentro do plano orçamentário de 2021-2027, para recuperar a economia e reativar o mercado interno, reduzindo assim o impacto da demanda internacional. Porém, nem todos os países do Bloco são favoráveis a essas medidas, havendo uma tácita divisão entre as grandes economias e os países mais afetados, não existindo de fato uma cifra aprovada.

Setores como o turismo e a construção civil são uns dos mais impactados e que representam uma inestimável fonte de geração de emprego e renda, principalmente em países como Espanha, França e Itália, que dificilmente vão conseguir regressar aos índices prévios à pandemia, o que gera incertezas em diversas nações.

Até mesmo o Reino Unido, após sair da União Europeia (UE), se mostra disposto em colaborar com o Bloco, uma vez que os reflexos no mercado financeiro sem dúvidas sobrepassaram os limites fronteiriços da UE.

Uma crise maior que a enfrentada em 2008, e para muitos analistas equiparável à Crise de 29, pode decretar uma mudança substancial no destino da Europa, que já vinha enfrentando diversas fragmentações oriundas de temas polêmicos, tais como a migração, a expansão do grupo, o aquecimento global e os investimentos e subvenções internas.

Neste cenário caótico e de poucas esperanças, o Banco Central Europeu aprovou a compra de dívida dos países integrantes do Bloco, assim como bônus de alto risco, com o objetivo de gerar certa estabilidade, mas que, porém, pode derivar em longo prazo em um ônus para a região, onde muitos países acumulam dívidas públicas superiores a 90% do PIB.

Banco Central Europeo

Manter o emprego e reativar a economia interna são as principais metas da Europa, levando diversos Estados a atuarem diretamente no mercado, obtendo o controle temporário de empresas, subvencionando até 80% dos salários e distribuindo renda com programas semelhantes ao auxílio emergencial existente no Brasil.

Fortalecer o mercado interno é uma prioridade para manter flutuando a economia até obter uma recuperação do cenário internacional, uma aposta arriscada, porém sem outra alternativa capaz de reduzir o resultado da crise.

A Comissão Europeia ainda deve determinar os valores e os critérios usados no programa de recuperação econômica, enquanto isso, cada país adota uma série de medidas internas segundo sua própria realidade e necessidades.

A suspensão da circulação de pessoas dentro do Bloco, com o objetivo de controlar o avanço das infecções, também afeta os ciclos de produção e a paralisação temporária de algumas economias cobra hoje seus resultados.

Um remédio amargo, porém, necessário, em um continente onde grande parte da população está no grupo de risco e que não teve outra opção que a de ceder frente ao incremento dos contágios e parar quase por completo. É uma opção entre a vida e a economia, que, agora, mostra seus efeitos e que depende da mesma capacidade de resposta.

A unidade da União Europeia pode enfrentar os efeitos da crise e superar a mesma, pois, separada, ela estará destinada a sucumbir a um cenário de pós-guerra, onde os recursos, em lugar de serem divididos, são requisitados pelos mais fortes.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Ursula Von der Leyen Presidente da Comissão Europeia” (Fonte): https://web.static-rmg.be/if/c_crop,w_1000,h_664,x_0,y_0,g_center/c_fit,w_620,h_411/2eb8ecda53f539aafeed6a2302bca6a0.jpg

Imagem 2 Banco Central Europeo” (Fonte): https://elglobal.es/wp-content/uploads/2020/01/image_content_232494_20170802000321.jpg

ANÁLISES DE CONJUNTURAEUROPA

A Rússia e a OPEP: redução da produção global de petróleo

A Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) é uma instituição intergovernamental criada em 14 de setembro de 1960, na cidade de Bagdá, capital do Iraque. A OPEP nasceu com o propósito de promover uma coordenação da política de petróleo entre seus membros fundadores: Irã, Iraque, Kuwait, Arábia Saudita e Venezuela.

A estratégia de formação do grupo funcionou e os Estados-parte passaram a deter um maior poder econômico. O êxito da OPEP despertou o interesse de terceiros países, os quais também ingressaram na organização, a qual, atualmente, é composta por: Argélia, Angola, Congo, Guiné Equatorial, Gabão, Irã, Iraque, Kuwait, Líbia, Nigéria, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Venezuela.

Posteriormente se observam várias mudanças administrativas na Organização, visto que alguns Estados optaram pelo término de suas participações, a exemplo do Equador, em 2020, do Qatar, em 2019, e da Indonésia, em 2016. A exceção de retorno à participação foi o Gabão, em 2016.  

A OPEP possui sede em Viena, Áustria, desde 1965, e é alvo da atenção dos setores energéticos mundiais, pois suas decisões colaborativas tendem a influenciar diretamente na produção e no preço dos barris de petróleo pelo globo. Fato de magnitude ocorreu durante a Crise do Petróleo na década de 1970, quando houve um dramático aumento dos preços dos barris. O episódio trouxe alcance imediato na economia mundial daquele período, devido à decisão de queda de produção pelo Bloco.

Diante da sensibilidade da oferta de petróleo e das flutuações de preços, diversos Estados ficaram espantados com o poder que uma instituição não estatal adquiriu. Todavia, tal força se deve não à organização em si, mas à cooperação entre seus membros, os quais concentram os maiores volumes confirmados de petróleo do mundo.

Com a recente pandemia da Covid-19, as atividades econômicas foram reduzidas, pois maior quantitativo de pessoas permanece em suas casas, às quais deixaram de utilizar seus veículos. A baixa no consumo de petróleo provocou a expectativa de um declive na economia mundial, o que acarretou na decisão de redução do volume de barris produzidos pela OPEP. Dentro da lógica de redução da produção, a OPEP e o Grupo dos 20 (G20)* iniciaram negociações no tangente aos mecanismos de adoção que seriam implementados.

O resultado obtido foi um acordo entre os produtores, o qual prevê a sistematização de um planejamento em três etapas. O jornal Novaya Gazeta trouxe o modelo que será aplicado: na primeira etapa a redução prevista é de 10 milhões de barris por dia (bp) no período de maio a junho de 2020; na segunda etapa a redução prevista é de 8 milhões bp no período de julho até o fim de 2020; e, na terceira, a redução prevista de 6 milhões de bp no período de janeiro de 2021 a abril de 2022.

Em conformidade com o apresentado no jornal Novaya Gazeta, o objetivo do acordo é buscar reduzir o excedente de 1 a 2 milhões bp no período anterior à crise; gerar na primeira e segunda etapas uma compensação parcial devido aos efeitos de queda da demanda; e a redução no mercado de um adicional de suprimento russo de cerca de 4 milhões bp, por causa das discordâncias de preços com a Federação Russa.

Nesse sentido, é necessário observar a importância da Federação Russa na redução da produção de petróleo. Os russos e sauditas divergem quanto à política de preços, pois esses últimos possuem maior poder produtivo e podem utilizá-lo de forma a afetar a economia russa com perda de recursos. Os Estados buscam favorecer seus interesses e a cooperação somente se torna ativa enquanto houver benefício. Entretanto, após negociações, a Federação Russa concordou com os termos da OPEP e deverá diminuir sua produção em cerca de 2,5 milhões bp, pois os russos perceberam que a situação poderia ser pior para sua economia.

Ministro de Energia da Federação Russa, Alexander Novak

A Federação Russa apresentaria dificuldades com a exportação de petróleo a baixo preço, todavia, diante da emergência da Covid-19, a desvantagem com as perdas de um não acordo com a OPEP seriam bem maiores. Em relação a essa temática, o jornal RBC traz a declaração do vice-presidente da LUKOIL, Leonid Fedun, o qual sinalizou: “Isso seria um tapete fechado [dos poços]. A mineração teria caído muito mais. Não teríamos a oportunidade de enviar petróleo, exceto para nossas próprias refinarias, e o consumo é extremamente baixo na Federação Russa, para que pudéssemos fechar até 50% da produção”.

Vice-presidente da LUKOIL, Leonid Fedun

Por fim, o jornal Izvestia trouxe a declaração do Ministro de Energia da Federação Russa, Alexander Novak, sobre a questão, o qual afirmou: “Os parâmetros atuais dos acordos atendem plenamente aos interesses da Rússia em termos do efeito sobre a economia e o orçamento”. O Ministro observou a concordância dos líderes das principais empresas petrolíferas sobre o acordo e demonstrou otimismo quanto a um equilíbrio do mercado.

Os analistas apontam como realistas os parâmetros de consideração de vantagens e desvantagens que os Estados fazem no jogo da política internacional. Nessa perspectiva, a OPEP, com o acordo, apresentou soluções condizentes com os fatos observados, os quais correspondem aos interesses dos países que a compõem, e mesmo ao mundo, como forma de evitar um possível caos econômico.

Em relação à Federação Russa, suas autoridades optaram pela perda menor, a fim de ganharem estabilidade econômica e a manutenção de seu setor petrolífero. Resta-nos aguardar e esperar os acontecimentos futuros e observarmos se o acordo da OPEP será realmente cumprido à risca, ou se variáveis novas poderão surgir, não somente entre a Federação Russa e a Arábia Saudita, como também com terceiros atores não participantes da OPEP.  

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Nota:

* Grupo dos 20: é um grupo formado pelos Ministros de Finanças e Chefes de Bancos Centrais das 19 maiores economias do mundo e da União Europeia (UE). O objetivo visa à promoção do diálogo sobre pautas econômico-financeiras de destaque para os países participantes, visto que representam parcela significativa do comércio e população mundial. A composição do G20 abrange: Argentina, Austrália, Brasil, Canadá, China, França, Alemanha, Índia, Indonésia, Itália, Japão, México, República da Coreia, Rússia, Arábia Saudita, África do Sul, Turquia, Reino Unido, Estados Unidos e União Europeia.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Navio petroleiro” (Fonte): https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/6/66/Sirius_Star_2008b.jpg

Imagem 2 Ministro de Energia da Federação Russa, Alexander Novak” (Fonte): https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/0/02/Alexander_Novak_portrait_%28cropped%29.jpg

Imagem 3 Vicepresidente da LUKOIL, Leonid Fedun” (Fonte): https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/f/f4/Spartak-Zrvena_%281%29.jpg