ANÁLISES DE CONJUNTURAEUROPA

ESPECIAL - Choque entre Catalunha e Espanha: o início de uma possível secessão

Após uma semana de tensões entre o Governo da Espanha e o da Catalunha, a região separatista manteve o Referendum programado para o dia 1o de outubro sob o cerco das forças nacionais espanholas.

Idosa sendo levada pela polícia espanhola

O Governo central de Madrid proibiu a consulta popular por considerar a mesma inconstitucional e mobilizou grande parte do contingente espanhol para a região da Catalunha. Dois de cada três policiais espanhóis estavam na região nos últimos dias, com o objetivo de evitar a votação e cumprir com as determinações de Madrid e do Tribunal Constitucional.  

Ainda que tenha ocorrido a requisição de urnas, cartazes e cédulas, o Governo da Catalunha decidiu manter a votação, e uma comissão de deputados da União Europeia, além de um observador de Israel, acompanharam todo o processo.

O dia da votação ficou marcado na história da Espanha como o episódio mais violento desde a instauração da democracia. Mais de 800 pessoas foram feridas em sua tentativa de votar nos colégios eleitorais estabelecidos pelos governantes da Catalunha que foram bloqueados pelo Governo espanhol.

A legalidade, tanto das ações catalãs quanto as de Madrid, são outro ponto de inflexão, já que o presidente espanhol Mariano Rajoy atuou sem ativar o artigo 155 no Congresso dos Deputados, sendo acusado de atuar sem o consenso parlamentar. Já o Governo da Catalunha é acusado de desobediência.

Imagens de anciãs e crianças sendo removidas a força por policiais espanhóis chocaram o mundo e trouxeram à tona a situação da democracia na Europa, ganhando uma maior relevância na comunidade internacional.

Cartaz com a frase: ‘Votar é Democracia’

Segundo a legislação europeia, o direito à liberdade de expressão, o direito ao voto e o direito de decisão são fundamentais para o funcionamento do Bloco, e mesmo que as principais potências já tenham demonstrado apoio ao Governo central de Madri, a atuação das forças de segurança obrigou a União Europeia a repensar a situação.

Apesar do fechamento de algumas escolas, mais de 2,2 milhões de pessoas votaram, uma participação superior a 44% que segundo o governo da Catalunha poderia ter sido maior, caso não houvesse a intervenção da Espanha. Estima-se que 700 mil votos não foram contabilizados devido a requisição das urnas.

O resultado foi que 89% dos eleitores votaram a favor da separação da Catalunha e a fundação de uma nova república, embora o processo deva se dilatar e ainda dependa de uma série de fatores.

O Governo catalão já declarou no passado a República da Catalunha, mas nunca chegou a concretizar o processo. Agora, com o apoio de grande parte da sociedade e a atenção da União Europeia, o nacionalismo catalão talvez tenha iniciado um processo de secessão para o qual as próximas quarenta e oito horas são vitais.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 “Cartaz em Manifestação: ‘Democracia  Dignidade – Direitos’” (Fonte):

http://g8fip1kplyr33r3krz5b97d1.wpengine.netdna-cdn.com/wp-content/uploads/2017/05/GettyImages-634001272-1160×773.jpg

Imagem 2 “Anciã sendo levada pela polícia espanhola” (Fonte – Foto de David Ramos):

http://www.infobae.com/new-resizer/dGHuMwVG2ZrBc7nAOFgTjHaQj00=/600×0/s3.amazonaws.com/arc-wordpress-client-uploads/infobae-wp/wp-content/uploads/2017/10/01114910/anciana-represion-referendum-cataluna-1920.jpg?token=bar

Imagem 3 “Cartaz com a frase: ‘Votar é Democracia” (Fonte):

https://cdnmundo2.img.sputniknews.com/images/107277/79/1072777901.jpg

ANÁLISES DE CONJUNTURAÁSIAEUROPA

O papel da cooperação marítima nas relações entre China e Rússia

O cenário internacional usualmente se desenvolve em um dinâmico balanço de interesses entre seus atores, regidos especialmente pela batuta das principais potências. O reassentamento de aspirações políticas constitui-se como um processo complexo, com frequência gestado sutilmente a ponto de que só a partir de um determinado momento torna-se mais evidente.

Ao longo dos últimos quatro anos, a percepção geral é de que este processo tem se acelerado. As causas desta percepção podem ser múltiplas, mas quiçá tornou-se mais evidente porque – no emaranhado diálogo internacional – o tom predominante das pautas liberais passou a dividir mais espaço com as sutilezas da lógica de poder.

A anexação da península da Crimeia pela Rússia, em março de 2014, é um dos mais perceptíveis indicadores desta realidade. Um ponto de inflexão na, até então, relativamente estável estrutura internacional que Estados Unidos e Rússia modelavam – com considerável supremacia americana – na arena internacional após o fim da União Soviética.

A real intensidade do abalo que a Rússia imprimiu à ordem internacional com sua movimentação sobre a Crimeia ainda está sendo discernida pelos especialistas. Contudo, já foi suficiente para trazer à tona desdobramentos instigantes sobre o potencial de influência do eixo Beijing-Moscou sobre a agenda internacional, notadamente para a seara de defesa e segurança.

Dmitry Medvedev, ex-presidente russo, com Hu Jintao, ex-Primeiro-Ministro chinês, em uma visita de Estado (maio 2008)

Nos últimos 20 anos esta relação passou por períodos de altos e baixos, a depender da modelagem da arena internacional em cada momento histórico. A atual emergência desse eixo é alimentada principalmente pela gradual exclusão que a Rússia vem sofrendo do circuito político ocidental, representada pelas restrições financeiras impostas por meio das sanções estadunidenses e europeias. Fato este que catalisou a congruência dos interesses e necessidades da Rússia, carente de recursos financeiros para manter sua economia mais dinâmica, e da China, desejosa de acelerar sua capacidade de projeção de poder. 

Esta colaboração ainda é uma realidade em amadurecimento. Sua evolução depende de muitos elementos, mas parece encontrar uma lacuna favorável neste momento de fragilidade na coesão entre as potências ocidentais. Por isso, a aproximação entre os dois países vem ganhando contornos de maior destaque nos últimos anos, principalmente nas tratativas militares e econômicas.

Uma das faces mais visíveis e constantes da relação entre os dois países é a sua cooperação marítima. Desde 2003 as duas nações desenvolvem exercícios navais conjuntos sob as denominações Coalition, Peace Mission, Peace Shield e Joint Sea. A mais recente série desses exercícios, a Joint Sea, tem sido realizada ininterruptamente desde 2012.

Navio cruzador da Marinha Russa denominado Pedro, o Grande, durante um exercício

A versão 2017 do exercício conjunto Joint Sea foi realizada no período de 21 a 28 de julho, segundo informado pela Agência TASS. Ainda segundo a agência de notícias russa, o exercício teve com foco ações de defesa antissubmarino, antiaérea, antinavio, de combate à pirataria e de busca e salvamento. O aumento da capacidade de operação conjunta e a interoperabilidade das duas armadas também estiveram no plano de trabalho.

Até 2014, os exercícios navais tinham se concentrado basicamente nos mares adjacentes à China, ou seja, praticamente limitados ao leste asiático. Somente em 2009 as operações conjuntas tinham saído desta área. Foi durante o exercício Peace Shield 2009, simulado no Golfo de Áden e no Oceano Índico para adestrar as esquadras no combate à pirataria naquela região.

Contudo, a partir de 2015 as escolhas do teatro de operação dos respectivos exercícios passaram a expressar o novo tom que Rússia e China estão tentando dar para a sua colaboração. Com a aumentada complexidade dos exercícios, eles passaram a abranger mais de uma fase, sendo usualmente uma delas realizada em uma área de interesse direto da China e outra em área de interesse direto da Rússia.

Destroier chinês atracado

Em 2015, as áreas escolhidas foram o Mar do Japão e o Mar Mediterrâneo. Já em 2016, as águas contempladas foram as do Mar do Sul da China. No ano de 2017, a primeira fase da Joint Sea, mencionada anteriormente, foi realizada no Mar Báltico, sendo que a segunda está agendada para o próximo mês de setembro, novamente no Mar do Japão e adjacências. Nota-se, portanto, que a cooperação marítima tem sido bastante instrumental para a assertividade dos anseios geopolíticos das duas nações, concentrando-se onde ambos possuem interesses vitais para a projeção do seu poder.

A linguagem subliminar dessas atividades de cooperação marítima entre Rússia e China oferecem uma amostra incisiva da predisposição de ambos a projetar seu poder globalmente, lançando mão de mecanismos além do soft power. A latência do pacífico como uma área geopolítica – e não só econômica – de contraponto ao tradicional eixo do Atlântico Norte, encontra nesta colaboração um fato portador de futuro.

A China dá mostras gradativas de que está se movimentando para descolar-se da tônica mais econômica que até pouco tempo rotulava a sua inserção internacional. A colaboração atual com a Rússia, devido ao elevado expertise do seu setor militar, pode tornar-se uma peça chave no processo de superação da ainda restrita capacidade chinesa de projeção de poderio militar, especialmente do seu poder naval*.

Certamente este é um esforço de longo prazo que o Governo da China terá que empreender, em essência, por motu proprio. Entretanto, assim como a China soube se posicionar no sentido de potencializar os laços econômicos com os Estados Unidos e países da Comunidade Europeia nas décadas de 1980 e 1990, para impulsionar seu crescimento econômico de forma mais independente, também é plausível que ela extraia de uma possível cooperação marítima de longo prazo com a Rússia um impulso importante para adquirir a capacidade de desdobrar-se como um poder naval em escala mundial.

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Notas:

* Existem vários tipos de sistemas que classificam as marinhas conforme seu poder de alcance. Em muitos deles a capacidade de operar plenamente em escala global é atribuída somente aos Estados Unidos. Alguns aliados norte-americanos, como Reino Unido e França, têm capacidade imediatamente inferior, ou seja, projetam poder globalmente só que de forma limitada. Países como Rússia e China ocupam posições mais abaixo na escala, geralmente relacionadas com capacidade de projeção de poder em âmbito multirregional ou regional.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Mapa da península da Crimeia com suas principais cidades” (Fonte):

https://es.wikipedia.org/wiki/Crimea

Imagem 2 Dmitry Medvedev, expresidente russo, com Hu Jintao, exPrimeiroMinistro chinês, em uma visita de Estado (maio 2008)” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Sino-Russian_relations_since_1991#/media/File:Dmitry_Medvedev_in_China_23-24_May_2008-1.jpg

Imagem 2 Navio cruzador da Marinha Russa denominado Pedro, o Grande, durante um exercício” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Russian_Navy#/media/File:Tactical_exercises_of_the_Russian_Navy.jpg

Imagem 4 Destroier chinês atracado” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/People%27s_Liberation_Army_Navy#/media/File:CNS_Kunming_(DDG-172).jpg

ÁFRICAANÁLISES DE CONJUNTURAEUROPA

Projeto entre Alemanha e Moçambique para a regularização de garimpos

A relação de Moçambique com a extração de ouro e outros minérios é observado desde seu período colonial, marcando a fase inicial das atividades mercantis portuguesas no território. A abundância dos recursos naturais manteve a atividade garimpeira contemporaneamente e o Estado tem se utilizado desse meio de produção para impulsionar o desenvolvimento. Contudo, tal processo também refletiu no adensamento da ação de garimpos ilegais e o crescimento do contingente de mão de obra imigrante e infantil. 

Garimpeiros

As regiões onde se concentram os garimpos ficam ao norte de Moçambique, nas províncias de Niassa e Cabo Delgado, e ao centro, em Manica e Tete. A extração do minério ocorre tanto através de minas terrestres quanto no processo de levigação (método de separação de matérias sólidas de densidade diferente por meio da água). Outra característica desse setor é seu caráter artesanal, fator que dificulta o controle estatal da atividade. Como resultado, observam-se o grande número de acidentes de pessoas decorrentes do risco que envolve esse exercício e a degradação do meio ambiente, devido a utilização do mercúrio na extração de ouro dos rios.

Economicamente, a mineração é destacada como um dos potenciais do país, juntamente com a agroindústria e o turismo. Apresentando crescimento econômico nos anos anteriores, ultimamente passou por um período de retração, devido a questões políticas da dívida pública. Somado a esse panorama encontra-se socialmente altos incides de pobreza e níveis não satisfatórios de desenvolvimento humano, saúde e saneamento.

Chanceler alemã Angela Merkel e o Presidente de Moçambique, Filipe Nyusi

Em decorrência dos fatos mencionados, o Instituto Federal de Geociências e Recursos Naturais da Alemanha começou a desenvolver um projeto juntamente com o Ministério dos Recursos Minerais e Energia de Moçambique (MIREM). A sugestão alemã para a superação das consequências da ação dos garimpos ilegais é auxiliar nas relações entre garimpeiros e o Estado. Para isso, o projeto visa a criação de mecanismos de coordenação entre os setores governamental, empresarial e os trabalhadores, incentivando o diálogo no que tange a extração mineral legalizada. Também é enfatizado pelo projeto o caráter regulador que o Governo moçambicano deve adotar, em contrapartida, seria utilizado o conhecimento da população na área para impulsionar os ganhos.

As relações entre Alemanha e Moçambique são observadas desde o processo de independência moçambicana, em 1975. Nesse período, a República Democrática da Alemanha iniciou diversas iniciativas envolvendo áreas como a mineração, produção têxtil e comércio. Essas relações também são marcadas pela forte migração de mão de obra do país para a Alemanha. Mais recentemente, ambos vem desenvolvendo outros meios de cooperação e evidenciando o caráter histórico de suas relações diplomáticas. A título de exemplo, durante o mês me março de 2017 foram iniciados projetos de cooperação financeira e educacional.

A perspectiva moçambicana quanto aos impactos ambientais geradas pelos garimpos é amplamente discutida. Sob essa perspectiva, no início do mês de junho foi lançado o Plano Nacional do Setor de Mineração Artesanal de Pequena Escala, com objetivo de incentivar a diminuição gradual da utilização de mercúrio no processo de extração. Dentre outras medidas tomadas, incluem a repressão da atividade ilegal pelo Comando-Geral da Polícia da República de Moçambique, que já realizou apreensões de cargas de ouro, esmeralda e rubis.

Bandeira da Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento Industrial (UNIDOS)

Nesse sentido, o representante da Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento Industrial (UNIDOS) em Moçambique, Jaime Comiche, concorda com a necessidade dessa iniciativa e destaca que o processo deve aliar-se à formalização dos trabalhadores e à criação de outras maneiras de geração de renda. Enfatiza que a atração pelo tipo ilegal de trabalho vincula-se a sua pouca oferta e à necessidade de meios para subsistência.

Nota-se que a exploração dos recursos minerais afeta não apenas as dimensões econômicas e o destino do comércio ilegal do ouro extraído, pode-se também observar o impacto social da mão-de-obra que, pela não adequação nas qualificações exigidas pelos trabalhos formais, acabam se inserindo em um mercado que lhes fornece risco. A iniciativa alemã, somada aos estímulos de Organizações Internacionais apresenta uma alternativa para o início da mudança de cenário. Todavia, esse processo demandará tempo e esforços do Estado, haja vista que os objetivos para que seja obtido os ganhos da cooperação dependem diretamente da maior atuação reguladora do Governo, o que se mostrará desafiador devido à proximidade das eleições autárquicas*, em 2018, e presidências, em 2019.

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Nota:

* As eleições autárquicas referem-se às eleições das autarquias locais, como os membros das Assembleias, Conselhos Municipais e Postos Administrativos nas Províncias. 

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Localização de Moçambique” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Guerra_da_Independ%C3%AAncia_de_Mo%C3%A7ambique#/media/File:LocationMozambique.svg

Imagem 2Garimpeiros” (Fonte):

http://static.folhademaputo.co.mz/cImages/5_0000010000/img010249-135-20151007-100445.jpg

Imagem 3 Chanceler alemã Angela Merkel e o Presidente de Moçambique, Filipe Nyusi” (Fonte):

https://static.noticiasaominuto.com/stockimages/1370×587/20615608.jpg

Imagem 4 Bandeira da Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento Industrial (UNIDOS)” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Organiza%C3%A7%C3%A3o_das_Na%C3%A7%C3%B5es_Unidas_para_o_Desenvolvimento_Industrial#/media/File:Flag_of_UNIDO.svg

 

ANÁLISES DE CONJUNTURAEUROPA

As novas metas da União Europeia

A União Europeia (UE) continua seu projeto de integração e reformulação visando sair fortalecida e preparada para um novo posicionamento geopolítico. Tal postura está sendo mantida, mesmo após 10 anos de crise econômica e de enfrentar uma crescente instabilidade política e social, causada tanto pelos reflexos das políticas de austeridade como por assuntos sociais, tais como a imigração e o terrorismo. Além disso, deve-se acrescentar a crise provocada pela saída de uma das principais economias da região, bem como ter de enfrentar a ameaça de outras desistências, alimentadas por um crescente populismo.

A saída do Reino Unido, os atritos com a gestão Trump e com a Rússia, as novas tendências globais e as novas ameaças promoveram uma reflexão e reposicionamento da União. Atualmente, o Bloco voltou a negociar com o Mercosul e acredita que um acordo seja assinado até o final de 2017; as negociações com o Canadá também evoluem rapidamente; assim como a retomada das solicitações de adesão ao Bloco Europeu.

A retirada dos Estados Unidos do Acordo de Paris fortaleceu a posição da União Europeia como maior promotor de cooperação internacional para o desenvolvimento, sendo o grupo responsável por mais de 60% de todos os recursos dedicados a esta atuação.

Conselho Europeu

A Comissão Europeia e o Parlamento Europeu assinaram na semana passada o chamado Consenso Europeu sobre o desenvolvimento”, no qual os países membros do Bloco se comprometem em manter o fluxo de recursos e ações para a cooperação internacional e intensificar as atividades que promovem o desenvolvimento das regiões mais carentes. Dessa forma, grupo europeu deseja transmitir ao mundo uma mensagem de coesão e futuro, focados no desenvolvimento e preservação do meio ambiente.

Atualmente, a Europa oferece subvenções e financiamentos, além de projetos de investimento social para todas as regiões do planeta, destacando-se que empresas e instituições interessadas podem participar em seus editais disponíveis no site da Europeaid.

O discurso da UE surge na semana de aniversário do maior projeto de mobilidade acadêmica do planeta, o programa Erasmus, que, após 30 anos, teve mais de 9 milhões de participantes e 1 milhão de bebês que nasceram entre os participantes durante o programa, sendo o mesmo ampliado para terceiros países, tais como o Brasil.

O Erasmus, assim como os projetos de cooperação internacional compõem a agenda estratégica da União Europeia e os pontos chaves do Programa Horizon 2020, nos quais se planeja superar as metas e compromissos contraídos na comunidade internacional e na agenda internacional.

Mapa das áreas do EuropeAID. Confirmadas a cada 17 anos

A Europa, dessa forma, busca voltar à liderança, mas através do softpower de suas ações, tomando a iniciativa em setores promissores e inovadores que aos poucos estão ganhando notoriedade mundial e que, no futuro, podem pautar novamente a balança de poder, tais como a distribuição de recursos hídricos, o desenvolvimento agropecuário, o meio ambiente e as energias renováveis.

Embora o cenário político de alguns países continue instável, como no caso da Espanha, o crescimento econômico da região e os resultados das eleições na França ajudaram a retomada da agenda internacional do Bloco, e mesmo com as futuras eleições na Alemanha, a União Europeia aos poucos parece encontrar seu novo caminho no panorama mundial que se desenha, ou, ao menos indica que nas altas esferas do grupo europeu já existe um consenso.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Parlamento Europeu” (Fonte):

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/1/11/European-parliament-strasbourg-inside.jpg

Imagem 2Conselho Europeu” (Fonte):

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/8/84/European_Commission.svg/2000px-European_Commission.svg.png

Imagem 3Mapa das áreas do EuropeAID. Confirmadas a cada 17 anos” (Fonte):

https://ec.europa.eu/europeaid/sites/devco/files/blending-worldmap-2015_2285x1405_300dpi_v2.jpg

ANÁLISE - Sociedade InternacionalANÁLISES DE CONJUNTURABLOCOS REGIONAISEUROPA

[:pt]Crescimento na Europa: economia e tensões em alta[:]

[:pt]

Desde o início da Crise Financeira Internacional, em 2008, este ano é o primeiro em que todos os países membros da União Europeia estão vendo sua economia crescer e deve se manter assim até 2018. Apesar da boa notícia, é necessário avaliar os fatores que promovem esse crescimento, bem como outros elementos que podem modificar o cenário regional nos próximos meses.

A taxa média de crescimento do Bloco Europeu, em 2016, foi de aproximadamente 1,9%, porém as fortes assimetrias que existem dentro do continente são refletidas nas taxas desiguais, havendo países que registram números superiores à média da União Europeia, tais como Espanha (3,2%) ou Irlanda (4,3%), e outros com índices inferiores, como a Itália (0,9%), ou a França (1,2%).

O crescimento da União Europeia coloca um ponto final a uma década de turbulências econômicas, porém são muitos os fatores que ainda podem afetar o andamento da economia da região.

Embora muitas nações registrem taxas de crescimento positivas, a dívida pública continua muito elevada. Na Espanha, ela supera 98% em relação ao PIB; na Itália mais, de 132%; na França o 93%. Isso que coloca em evidência o delicado equilíbrio das contas europeias.

O desemprego e a redução das prestações sociais são outros pontos a serem observados, já que os anos de políticas de austeridade minaram o “estado de bem-estar” em diversos países da União,  principalmente os da faixa do mediterrâneo, gerando uma crescente tensão social e problemas de legitimação das ações do Governo, algo que ficou refletido nas diversas eleições que ocorreram na Espanha, na Itália e na Grécia. A Espanha, por exemplo, realizou profundos cortes nos gastos com saúde, segurança pública, iluminação e educação, ainda assim, o Banco Central Europeu continua pressionando para a realização de novos cortes e mesmo o país registrando taxas positivas de crescimento este não é revertido em benefício para a população, mas no saneamento das contas públicas, o que, sem dúvidas, gera fortes tensões sociais e mudanças políticas bruscas.

Os efeitos econômicos da saída do Reino Unido ainda não foram perceptíveis, não havendo um prognóstico claro do impacto do mesmo. Projeções falam de até 1% de perda do PIB do Bloco devido ao impacto no sistema financeiro.

As negociações com outros Blocos e países evolui lentamente, somente as negociações com o Canadá chegaram a um consenso, outras, como as negociações com o Mercosul, seguem, praticamente, paralisadas devido a falta de consenso tanta da Europa, em relação a sua política de subvenção do setor agrícola, como do próprio Mercosul e seu impasse regional.

Os bons resultados econômicos da Europa contrastam com a situação política da região, que se agrava, devido a crescente insatisfação dos cidadãos europeus e das tensões sociais causadas por problemas internos e externos.

O discurso eurocético está aumentando e já participa dos grandes círculos de discussões políticas.  As eleições na França, Holanda e Alemanha servem de termômetro para o futuro da União.

A candidata a Presidência da França, Marine Le Pen, já confirmou diversas vezes suas intenção de realizar um Referendo para a retirada da França da União Europeia e também da OTAN, o mesmo discurso é repetido por partidos de extrema direita em toda Europa, com crescente adesão social.

As nações da Europa já não sentem tanto os benefícios de pertencer ao Bloco. As políticas de austeridade impostas pela União Europeia revelaram a deterioração da soberania dos países em relação a suas políticas econômicas, e o posicionamento frente a questões internacionais, tais como as relações com a Rússia, ou a Crise dos Refugiados, evidenciaram profundas discrepâncias que permaneciam ocultas. Uma grande onda de insatisfação se instaurou na União Europeia, embora todos pareçam ignorar o fato de que pertencer ao Bloco significasse desde o princípio não somente a obtenção dos benefícios, mas também a adesão a uma série de obrigações. O único país que havia negociado um status diferenciado dentro da União Europeia foi o próprio Reino Unido, que deu início a era da “Europe a la Carte” e sua saída do Bloco só fez aumentar a desconfiança dos países membros.

Para a Comunidade Internacional, a situação da União Europeia revela uma série de paradigmas que não podem ser negligenciados.  Por um lado, os problemas que enfrentam o Bloco Europeu são uma evidência da própria evolução da integração regional que muitas regiões emularam em seus continentes (Mercosul, NAFTA, ASEAN etc.) e que, atualmente, serve como ponto de reflexão para a evolução futura desses Blocos. Por outro lado, o crescimento econômico da região revela um lado complexo da economia internacional, já que é cada vez mais evidente que o crescimento da economia de um país ou conjunto de países, não necessariamente significa uma melhoria na condição de vida de seus cidadãos ou em um fortalecimento do pacto social. Se este crescimento se obtém mediante o sacrifício dos serviços públicos e do estado de bem-estar da população, a insatisfação gera uma reação que pode provocar mudanças profundas no sistema de governo, ou nos formuladores de políticas.

A corrida pelo PIB” que pareceu substituir a corrida armamentista gerou um efeito acumulativo do capital em lugar de sua circulação, provocando uma crescente disparidade entre nações ricas e populações cada vez mais pobres. Certo é que nem todos os países registram este efeito. Nações menos desenvolvidas registram uma leve melhoria em suas condições sociais, o que reflete positivamente os dados do sistema internacional, mas, ainda assim, o paradigma do sistema financeiro internacional está sendo cada dia objeto de dúvidas e críticas, e não somente nos círculos acadêmicos, pois também vem sendo refletido nos discursos políticos.

A União Europeia é o epicentro dessa mudança, já que alcançou índices únicos de desenvolvimento social, crescimento econômico entre nações desenvolvidas, integração regional, liberalismo econômico em algumas nações e, agora, tanto os resultados de sua evolução, como também os reflexos de suas assimetrias e mazelas não resolvidas, são colocados à prova durante processos eleitorais, como já aconteceu nas nações do Mediterrâneo e, neste momento, chegam ao coração da União.

De momento é impossível prognosticar com total certeza os caminhos que seguirá o continente europeu, mas, uma coisa é certa, se a Europa mudar, o mundo também mudará, pois, ainda que enfraquecida, é inegável sua influência política, social, cultural e econômica.

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Imagem 1 Bandeira da União Europeia em fragmentação” (Fonte):

http://kaosenlared.net/wp-content/uploads/2017/02/ue-rota-680×365.jpg

Imagem 2 Sede do Banco Central Europeu Nova instalações do BCE (abril de 2014), em FrankfurtOstend” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Sede_do_Banco_Central_Europeu

Imagem 3 Serviço Naval Irlandês a resgatar imigrantes de um barco superlotado como parte da Operação Tritão, junho de 2015” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Crise_migratória_na_Europa#/media/File:LE_Eithne_Operation_Triton.jpg

Imagem 4 Imagem em uma Bolsa de Valores, no caso a Bovespa de São Paulo Brasil” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Crise_econômica#/media/File:Sao_Paulo_Stock_Exchange.jpg

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ANÁLISES DE CONJUNTURABLOCOS REGIONAISCooperação InternacionalEUROPA

[:pt]Cresce, na Suécia, o desejo por um Svexit[:]

[:pt]

No período posterior a Segunda Guerra Mundial, as nações do continente europeu estavam destruídas economicamente e possuíam frágeis Governos. Diante deste fato, dois projetos foram de fundamental importância para a reconstrução da Europa: o Plano Marshall e a Comunidade Europeia do Carvão e do Aço (CECA). O primeiro abrangeu financiamentos aos Estados europeus via Governo dos Estados Unidos (EUA), cujo interesse político central visava afastar os governos locais de influências de ideais socialistas, e dar a estes Estados alternativas de promoção de seus matrizes econômicos; o segundo projeto representa a cooperação supranacional entre França e Alemanha no âmbito do usufruto de carvão e aço, o qual originou a CECA, em 1952, cuja relevância para a política econômica fez aderirem a instituição os Estados do Benelux e a Itália.

Em 1958, os Estados europeus criaram a Comunidade Econômica Europeia (CEE), a qual ampliou as relações comerciais entre os signatários do Tratado de Roma, por meio da formação de um mercado comum entre os países da CECA e do Reino Unido, Irlanda e Dinamarca (1973), Grécia (1981), Portugal e Espanha (1986).

Em 1993, os países da CEE assinaram o Tratado de Maastricht que constituiu a União Europeia (UE), o maior projeto de integração regional já feito no globo, cuja principal inovação foi a implantação da cidadania europeia e a preparação para a união monetária, que se tornou realidade em 2002 e, atualmente, é utilizada por 19 dos 28 Estados-Membros.

Em 1995, a Suécia ingressou na UE, juntamente com a Áustria e a Finlândia, mas sem aderir ao Euro, e constitui uma das maiores vozes do Bloco na defesa dos valores democráticos e dos direitos humanos, todavia, na atualidade, parte dos suecos encontra-se insatisfeita com os rumos políticos da Organização Internacional na qual observam entraves aos interesses sociais, sobretudo com o distanciamento entre o cidadão e as instâncias decisórias, cujas ações transparecem aos eleitores como não legítimas.

Durante o verão de 2016, os suecos foram convidados a responderem via web a seguinte indagação: Você acha que a Suécia deve realizar um Referendo sobre a adesão a UE?  A pesquisa feita pela empresa de consultoria Inizio entrevistou 1.102 pessoas maiores de 18 anos e o resultado revelou que 41% são favoráveis ao Referendo, 50% não são favoráveis e 9% demonstraram incerteza. O quantitativo de descontentes com a permanência sueca na UE vem crescendo vertiginosamente e, a nível de comparação com a pesquisa da Inizio, observa-se um aumento de 8% em relação a junho de 2015, quando somente 33% do eleitorado tinha como opinião o Svexit.

A pressão política começa a aquecer os debates em Estocolmo sobre um futuro Svexit* e já mobiliza parlamentares do Miljöpartiet Gröna, o Partido Verde sueco (MP), e especialmente dos Sverigedemokraterna, Democratas da Suécia (SD), cujo líder, Jimmie Åkesson, entende que a estrutura da UE tornou-se uma espécie de monstro, visto que cada setor dos governos locais possui um alto grau de intervenção a favor das operações e diretivas do Bloco e, conforme a Associação Sueca de Autoridades Locais e Regionais (SKL), muitas destas ações, de implementação dos ideais da UE, chegam a ultrapassar 50% das atividades. Desta forma, o parlamentar Åkesson afirmou: “Eu diria que a União Europeia tomou uma posição completamente diferente do que vinha a desenvolver. A partir de uma cooperação mais limitada, temos visto durante décadas como mais e mais poder foi transferido para Suécia a partir de Bruxelas”, ou seja, a Suécia tem perdido soberania com a redução de suas próprias decisões.

A composição desta análise centra na observação das principais razões que levaram a sociedade sueca a rejeitar cada vez mais o projeto europeu e afirmar um Svexit, e compreende-se a questão por meio de dois fatores conjunturais: a crise de refugiados e o despertar do nacionalismo. No tocante a crise entende-se que o âmago da tensão está relacionado ao recebimento do alto contingente de pessoas no território sueco, mediante a política de cotas da UE, ou mesmo do ingresso dos milhares de refugiados que buscavam a Suécia como destino final de jornada. Estas ações resultaram de um acolhimento sueco aos refugiados, o que é positivo, porém, o acréscimo de circulação de pessoas poderia ter atiçado sensações de desconforto e de insegurança por parte dos nacionais, visto que a obrigação legal com os Tratados de Direitos Humanos no âmbito do Bloco europeu os impedia de não permitir a entrada dos refugiados, além, é claro, das inúmeras situações de choques culturais, sobretudo religiosos, que as populações sofreram e cujo conteúdo pode ter ampliado ainda mais o desejo de saída da UE.

O fator do nacionalismo é basicamente um desdobramento da situação atípica que a Suécia experimentou durante os grandes fluxos de refugiados pedindo asilo, e pode ser mensurado a partir do descontentamento social presente nos momentos de ápice da crise, quando centenas de pessoas permaneciam nas ruas; todavia, a grande relevância do crescer do nacionalismo pode ser melhor compreendida por meio da já existente realidade cotidiana dos suecos em referência aos choques políticos entre o ser Europa e o ser Suécia, ou seja, o nacionalismo nada mais é que o desejo pela afirmação da soberania sueca sobre os rumos de seu próprio futuro.

O Svexit possui influências externas que trazem ânimo a causa manifestas nos diversos movimentos de caráter soberano na Europa os quais também tem interesses divergentes com as políticas europeias a exemplo do Brexit**, que representou a atenção para com o direito do cidadão de escolher seus próprios caminhos e, por extensão, de sua nação. Diante de todos estes anseios populares, especialmente, o Svexit possui ligações com várias facetas políticas, todavia o que se busca analisar é a relação de perda de cidadania frente a estrutura global da EU, cujas ações começam a dar sinais de desgaste e de perda de coesão interna.

É desta maneira que se compreende a rejeição do projeto europeu pelo líder do SD, Jimmie Åkesson, pois a questão não é finalizar com o processo de cooperação e de integração da Europa, visto que o mundo atual é globalizado e hipóteses isolacionistas configurariam em fiascos para os interesses de quaisquer Estados-Nação, e, sim, manter um espaço maior de decisão para o cidadão local. Entende-se que esta é a razão para a exortação do líder do SD para a convocação de um novo Referendo sobre a UE para o Primeiro-Ministro, Stefan Löfven, ou seja, a opção de dar ao cidadão sueco a decisão de implementar ou não um Svexit.

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Notas e Fontes consultadas, para maiores esclarecimentos:

* Svexit: é um termo híbrido cujo significado é saída da Suécia (Sverige).

** Brexit: é um termo híbrido cujo significado é saída do Reino Unido.

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Imagem 1 Bandeira da Suécia” (Fonte):

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/4/44/Sweden_flag_waving_icon.svg/1280px-Sweden_flag_waving_icon.svg.png

Imagem 2 Bandeira da União Europeia (UE)  (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Europa#/media/File:European_flag_in_Karlskrona_2011.jpg

Imagem 3 Jimmie Åkesson Líder dos Democratas da Suécia” (Fonte):

https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Jimmie_%C3%85kesson_inf%C3%B6r_slutdebatten.jpg

Imagem 4 Vista aérea de Estocolmo” (Fonte):  

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/4/4b/The_Outskirts_of_Stockholm.jpg/640px-The_Outskirts_of_Stockholm.jpg

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