ANÁLISES DE CONJUNTURAEUROPA

[:pt]O Legado Europeísta de Mário Soares[:]

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Mário Soares, de seu nome completo Mário Alberto Nobre Lopes Soares, nasceu em Lisboa, no dia 7 de dezembro de 1924, filho de João Lopes Soares, professor, pedagogo e político da I República portuguesa, e de Elisa Nobre Soares. Casado com Maria de Jesus Simões Barroso Soares, ele teve dois filhos: João e Isabel. Soares faleceu no Hospital da Cruz Vermelha, na capital portuguesa, em 7 de janeiro de 2017. Ele licenciou-se em Ciências Histórico-Filosóficas, pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, em 1951, e em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, em 1957. Mário Soares foi professor do Ensino Secundário e diretor do Colégio Moderno, fundado por seu pai, tendo exercido advocacia durante muitos anos, principalmente durante a ditadura, altura em que trabalhou com afinco na defesa de presos políticos, no Tribunal Plenário e no Tribunal Militar Especial. Aquando do seu exílio em França, Soares foi “Chargé de Cours” nas Universidades de Vincennes (Paris VIII) e da Sorbonne (Paris IV), tendo sido igualmente Professor Associado na Faculdade de Letras da Universidade da Alta Bretanha (Rennes). Durante seu percurso político obteve significativo reconhecimento, nacional e internacional. Doutor “Honoris Causa” por 36 Universidades, foram-lhe outorgadas inúmeras honrarias, em seu país e no estrangeiro.

Desde a época de estudante universitário, Mário Soares militou na oposição democrática ao regime do Estado Novo, liderado por António de Oliveira Salazar. Ele integrou o Movimento de Unidade Nacional Anti-Fascista (MUNAF), em 1943 e, mais tarde, em 1946, foi membro da Comissão Central do Movimento de Unidade Democrática (MUD), tendo fundado o MUD Juvenil e servido como membro da primeira Comissão Central. Em 1949, Mário Soares foi Secretário da Comissão Central da candidatura do General José Norton de Matos à Presidência da República; nove anos mais tarde, ele integrou a candidatura do General Humberto Delgado à Presidência da República. Enquanto militante político compôs a Resistência Republicana e Socialista, na década de 1950, foi redator e signatário do Programa para a Democratização da República, em 1961, tendo sido candidato a Deputado pela Oposição Democrática, em 1965, e pela Comissão Eleitoral de Oposição Democrática (CEUD), em 1969. Em resultado da sua atividade contra a ditadura, Mário Soares foi 12 vezes preso pela Polícia Internacional e de Defesa do Estado (PIDE) – cumprindo um total de quase 3 anos de cadeia –, deportado sem julgamento para a ilha de São Tomé e Príncipe, em 1968 e, em 1970, forçado ao exílio em França. Decorria o ano de 1973 quando Mário Soares fundou em Bad Münstereifel, na República Federal da Alemanha, juntamente com outros opositores ao regime português, o Partido Socialista.

Após a queda de Marcelo Caetano, o herdeiro político de Salazar, em 1974, Soares regressou a Portugal, em 28 de abril, no “trem da liberdade”. Teve início, naquela ocasião, uma carreira pública que o levou a servir, além de Secretário-Geral do Partido Socialista, durante 13 anos, como Deputado em todas as legislaturas (até 1986), Ministro das Relações Exteriores (I, II e III Governos Provisórios), Ministro sem Pasta (IV Governo Provisório), Primeiro-Ministro (I Governo Constitucional, 1976-1977 e II Governo Constitucional, 1978) e, ainda, como Presidente da República, durante dois mandatos (1986-1991 e 1991-1996). Do mesmo modo, desempenhou o cargo de Vice-Presidente da Internacional Socialista durante dez anos (1976-1986), até assumir a Presidência da República. Nas eleições parlamentares europeias de 1999, Mário Soares foi eleito Deputado para o período compreendido entre 1999 e 2004. Durante sua vida política, a opção europeísta foi uma marca indelével da atuação do político português. Entre aqueles que, no plano internacional, cruzaram seu percurso vital são de salientar François Mitterrand, Willy Brandt, Olof Palme, Felipe González, Bettino Craxi. No Brasil, personalidades como Leonel Brizola, José Sarney, Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva tiveram a oportunidade de privar com o político português.

Mário Soares, enquanto Ministro das Relações Exteriores, tomou as primeiras medidas para desfazer um dos maiores equívocos do Estado Novo: a confusão entre a política exterior e a política ultramarina, fato que levou o país ao ostracismo internacional e à manutenção da Guerra Colonial, sem saída política, em Angola, Guiné-Bissau e Moçambique. Nos estamos referindo ao Acordo de Lusaka, assinado em 7 de setembro de 1974, entre o Governo português e a Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO) e aos Acordos de Alvor, assinados entre o Governo luso e o Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), a Frente Nacional de Libertação de Angola (FNLA) e a União Nacional para a Independência Total de Angola (UNITA), em 15 de janeiro de 1975, sem grande sucesso. O fim do Império Colonial motiva, ainda hoje, fortes críticas por parte dos setores conservadores da sociedade portuguesa e, sobretudo, das Associações de espoliados quer de Angola[1], quer de Moçambique[2].

Seria, contudo, a reorientação estratégica de Portugal em relação ao projeto europeu, fundado por Jean Monnet, Robert Schuman e  Konrad Adenauer, juntamente com outros líderes preeminentes do Velho Continente, que orientaria seu país nas grandes linhas de rumo. Logo em 1976, o Partido Socialista anunciava, na Cimeira Socialista levada a cabo na cidade do Porto, em 14 de março, aquele que seria o lema para as eleições legislativas daquele ano: “A Europa Conosco”. Nos anos seguintes, Mário Soares liderou as negociações rumo à adesão de Portugal à então Comunidade Econômica Europeia (CEE) que culminariam, em 1.º de janeiro de 1986, na entrada, juntamente com Espanha, naquele bloco político-econômico. Mário Soares que, ao longo de sua vida, não teve como previamente garantida nenhuma vitória ou a manutenção de uma posição já conhecida, foi um dos grandes protagonistas das mudanças sociais vividas pelos portugueses nos últimos quarenta anos. Com efeito, o país rural, pouco industrializado, com elevados índices de emigração e submisso da II República, se transformou numa média potência europeia, presente nas grandes questões mundiais, desde as Operações de Reforço e de Manutenção de Paz, sob a égide das Nações Unidas, ao apoio à concessão do Prêmio Nobel da Paz aos cidadãos timorenses Dom Ximenes Belo e a José Ramos-Horta, em 1996, e do Prêmio Nobel da Literatura a José Saramago, em 1998. O país também ganhou maior visibilidade internacional com a realização da Expo ’98, em Lisboa, durante 1998, e com a organização do Euro 2004, em futebol.

Republicano, socialista e laico, como se auto-definia, o percurso de Mário Soares foi o de um humanista integral. Autor de dezenas de livros, Mário Soares, ao honrar a memória dos judeus convertidos no século XV – os cristãos-novos – numa visita efetuada a Clive, em 17 de março de 1989, declarou enfaticamente: “Na paisagem alentejana e nesta tão bela terra, a judiaria ergue-se, desafiando os séculos, como um símbolo que desejamos seja de tolerância, de fraternidade e de unidade essencial do gênero humano. Em nome de Portugal, peço perdão aos judeus pelas perseguições que sofreram em nossa terra”. Anos antes, em 1987, reparando a memória do Dr. Aristides de Sousa Mendes, o Cônsul que desobedeceu às determinações do Ministério das Relações Exteriores, em junho de 1940, concedendo vistos de trânsito a mais de trinta mil refugiados, de entre os quais dez mil eram judeus, o político lusitano entregou a Ordem da Liberdade à filha do ex-Cônsul, em cerimônia realizada na Embaixada de Portugal, em Washington, D.C, tendo a família do diplomata recebido desculpas públicas por parte do dignitário português. Em 12 de setembro de 1991 foi constituída a Fundação Mário Soares, situada nas proximidades do Parlamento português.

A Fundação é “uma instituição de direito privado e utilidade pública sem fins lucrativos, ligada à pessoa do ex-Presidente da República Portuguesa”. Cinco anos mais tarde, em dezembro de 1996, em Cortes, Leiria, abria as portas ao público a Casa-Museu Centro Cultural João Soares. O edifício foi “doado pela família Soares à Fundação e por esta completamente recuperado e remodelado”. No edifício da Fundação “foi criada uma biblioteca e existem espaços destinados a exposições temporárias das ofertas recebidas por Mário Soares durante a sua vida pública, como Primeiro-Ministro e depois como Presidente da República. Simultaneamente, foi concebida uma exposição permanente, dotada de meios audiovisuais, que apresenta uma visão sintética do Século XX português”. Praticamente até o final da vida, numa atividade de cunho demopédico[3], Mário Soares colaborou na revista Visão, de Lisboa, e nos jornais Diário de Notícias, também de Lisboa, e no El País, de Madrid.

Portugal, um dos países mais antigos do mundo, ao longo de sua História alcançou reconhecimento que ultrapassou, em muito, sua dimensão geográfica e suas fronteiras territoriais. Logo na Idade Média, Santo Antônio de Lisboa, Pedro Hispano – o Papa João XXI – e o Rei Dom Duarte são personalidades que levaram o nome do país muito além do território nacional. No Renascimento, a expansão portuguesa, representada por Vasco da Gama, Dom Francisco de Almeida e Luís de Camões, foi pioneira e fez com que o país iniciasse o processo de globalização no qual, hoje, estamos imersos. Seguiram-se séculos de obscurecimento, iniciados no século XVII com a consolidação do domínio filipino (1580-1640), que se agravaram com o constitucionalismo de matriz francesa, que marcou a vida política portuguesa ao longo de boa parte do século XIX. Mário Soares renovou o ideal pátrio ao liderar o esforço de reintegração do país na comunidade internacional. Sua presença marcante na vida portuguesa fez dele alguém ímpar tanto em Portugal, quanto na Europa da segunda metade do século XX.

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Imagem 1 Mário Soares” (Fonte):

http://img.20mn.fr/T1uFsIi7TlGvsGvGYusvYw/2048×1536-fit_mario-soares-5-juin-2013.jpg

Imagem 2 Mário Soares (centro) durante as celebrações do 40.º aniversário da Revolução dos Cravos, em 25 de abril de 2014” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Mário_Soares#/media/File:Mario_Soares_Carmo_1_1.jpg

Imagem 3 Mário Soares com o então presidente brasileiro José Sarney (à direita), em 1988 ” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Mário_Soares#/media/File:Mário_Soares_e_José_Sarney_1988.jpg

Imagem 4 Vista geral da zona central da EXPO98” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Exposição_Mundial_de_1998#/media/File:Lisboa_-_Expo98_-_Vista_Geral.jpg

Imagem 5 Exéquias fúnebres de Mário Soares no Mosteiro dos Jerónimos” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Mário_Soares#/media/File:Exéquias_do_ex-Presidente_da_República_Portuguesa,_Mário_Soares_03.png

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Notas e Fontes consultadas, para maiores esclarecimentos:

[1] VerAssociação dos Espoliados de Angola (AEANG)”:

http://www.aeang.com/

[2] VerAssociação dos Espoliados de Angola (AEANG)”:

http://www.aemo.org/

[3] Mas o que queremos, os democratas? E o que é a democracia? Democracia, disse o socialista Proudhon que era demopedia. De dêmos, povo; kratos, governo. De dêmos, povo; paideia, instrucção, educação”, SAMPAIO BRUNO, Os Modernos Publicistas Portugueses, Porto, Livraria Chardron, de Lello & Irmão, Editores, 1906, p. 402.

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ANÁLISE - Sociedade InternacionalANÁLISES DE CONJUNTURABLOCOS REGIONAISCooperação InternacionalEUROPAParadiplomacia

[:pt]Paradiplomacia e a volta do Multilateralismo[:]

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O ano de 2017 apresenta uma série de desafios no panorama internacional. Analista convergem para o posicionamento de que o pior da crise econômica parece haver passado e, aos poucos, as nações começam a se recuperar. Também está sendo identificado que existe uma leve melhoria no valor das commodities e uma tímida recuperação da atividade industrial nos países desenvolvidos, porém a situação política parece confluir em uma nova etapa de mudanças e em novos desafios, fazendo com que o ano que se inicia possa viver aquilo que é chamado de “tempestade perfeita”.

O início da Era Trump coloca em xeque toda a geopolítica global. O que vem sendo considerado como a imprevisibilidade do novo líder americano, além de seu discurso protecionista, ameaça o sistema econômico internacional e as cadeias de produção global, deixando o mundo sem um modelo ao qual seguir e sem um líder que represente os ideais de mercado.

A China, embora advogue pelo livre comércio, ainda é vista com receio por grande parte das nações, não sendo capaz de assumir de momento a liderança global. A Europa, por outro lado, enfrentará neste ano o resultado de uma série de transformações sociais, politicas e econômicas que começaram com a crise financeira de 2008 e que vão alcançar seu ponto crítico durante as eleições a serem realizadas agora em 2017, nas duas principais economias do Bloco Europeu – a França e a Alemanha –, havendo a possibilidade de que se reconfigure um novo mapa político na região e ocorra o início da fragmentação da União Europeia e a fragilização de seu modelo de implementação para o resto do mundo.

Outras potências, tais como a Rússia ou a Inglaterra, buscam seus próprios interesses, negociando ora de um lado, ora do outro, mas mantendo distância de uma possível liderança, ou maior protagonismo, frente a um mundo em transformações.

O fator comum que paira sobre o panorama global em 2017 é a reconfiguração do sistema internacional e a total falta de liderança em um cenário onde o discurso nacionalista e conservador ganha cada vez mais força. Nesse panorama conturbado, é difícil para a diplomacia acompanhar todas as mudanças, uma vez que os próprios países estão inseridos nesse ciclo e muitos buscam um novo alinhamento político e econômico.

O grande desafio que enfrenta a diplomacia atual e a política externa dos países é saber a quê ou com quem devem se alinhar. Em um mundo em plena transformação, parece ser arriscado apostar todas as fichas em apenas um país ou em um eixo. Dessa forma, países como o Brasil dificilmente devem manter apenas uma linha de negociações, mas tendem a ampliar as mesmas, de modo a conseguir se reinserir no cenário global, uma vez que este ciclo de mudanças esteja concluído.

Nesse cenário caótico que vive a política internacional, o multilateralismo ganha força e se transforma em uma importante ferramenta, porém são poucas as nações capazes de se articular rapidamente nesse sentido, devido aos diversos acordos de integração assinados nas últimas décadas, os quais acabam engessando grande parte das ações políticas e das negociações.

Um país como o Brasil, por exemplo, por mais que opte por uma agenda multilateral, deve levar em consideração suas responsabilidades contraídas com o Mercosul e diferentes Acordos para não gerar problemas locais. Da mesma forma, outras nações do mundo enfrentam dilema similar.

A densidade das negociações diplomáticas e os novos alinhamentos que estão sendo configurados fazem com que outras áreas das relações internacionais ganhem notoriedade. A paradiplomacia e a diplomacia corporativa transformam-se em veículos importantes neste cenário de ação internacional controlada, sendo uma forma de se evadir da complexidade das negociações da alta política na busca de resultados rápidos e precisos.

Cidades e regiões do mundo com estrutura de paradiplomacia negociam entre elas com o intuito de agilizarem determinados processos internacionais e fomentarem mudanças locais, sem passar por anos de discussões e negociações nas altas esferas políticas. Além disso, as empresas buscam defender cada vez mais seus interesses, negociando com autoridades locais e influenciando em processos regionais com o intuito de manterem suas atividades e produtividades e não serem afetadas pela morosidade do processo político internacional.

A paradiplomacia se apoia no multilateralismo e se expande para se transformar em uma ferramenta para os governos subnacionais e para a economia de uma região. Uma cidade como São Paulo, por exemplo, pode negociar diretamente com outras metrópoles, fomentando intercâmbios, promovendo investimentos e atraindo recursos, sem afetar as ações do Governo Federal. Assim, o município pode receber multinacionais que tenham interesse específico na cidade e sejam atraídos por políticas de promoção econômica, de modo que o multilateralismo crescente, devido as mudanças geopolíticas, mostra-se como uma oportunidade para o desenvolvimento de outras áreas e como uma ferramenta das relações internacionais, surgindo como solução para o engessamento da política internacional e como forma de responder à redução de recursos dos governos centrais.

Uma vez consolidadas essas ferramentas, elas aumentam a representatividade e a competitividade da nação em geral, além disso, elas redefinem o reposicionando do país após a reconfiguração que possa ocorrer no sistema internacional.

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Imagem 1Mapa Mundi – Bandeiras dos Países” (Fonte):

https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Flag-map_of_the_world.svg

Imagem 2Donald Trump fazendo o juramento de posse” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Posse_de_Donald_Trump#/media/File:Donald_Trump_swearing_in_ceremony.jpg

Imagem 3Vista do Kremlin ao fim do dia” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Kremlin_de_Moscovo

Imagem 4Palácio do Planalto, sede do Poder Executivo (Brasil)” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Brasil#/media/File:06-11-2014_Novembro_Azul_(15733329532).jpg

Imagem 5São Paulo à noite, Brasil” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Brasil#/media/File:Sampa_Noite.jpg

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AMÉRICA DO NORTEANÁLISE - Sociedade InternacionalANÁLISES DE CONJUNTURAEURÁSIAEUROPATecnologia

[:pt]Relações Rússia-EUA após o caso do ataque cibernético durante as Eleições Presidenciais norte-americanas de 2016[:]

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Em 2016, as Eleições Presidenciais estadunidenses tiveram como característica central a polarização política, e isto configura uma situação que vai além da perspectiva tradicional de embates entre o Partido Democrata e o Partido Republicano, os quais representam o ápice do sistema eleitoral dos Estados Unidos da América (EUA). Neste embate de 2016, as visões de mundo dos respectivos candidatos chocaram-se em diversos momentos ao longo da campanha e contribuíram para acentuar a polarização da sociedade.

Na disputa observou-se a candidata do Partido Democrata, Hillary Clinton, a qual possuiu uma plataforma com ênfase na defesa de direitos de minorias étnicas, sexuais, culturais, religiosas e ambientais.

Do lado Republicano, Donald Trump apresentou uma plataforma voltada à defesa dos direitos da maioria, que, por motivos histórico-culturais é branca, protestante e liberal. O seu discurso abordou valores em que a concepção de liberdade humana não seria arbitrária, e, sim, decorrente da aceitação da existência de uma linguagem universal na esfera político-social e econômica. Após um período de intensos debates e comícios, Donald Trump, como vencedor, assumirá o cargo nesta semana, em 20 de janeiro de 2017.  Porém, em meio à turbulência polarizada das eleições, emergiu o relato de que o Diretor de Campanha do Partido Democrata, John Podesta, foi vítima de um hacker, o qual capturou informações importantes de sua conta de e-mail e estas foram publicadas no site Wikileaks.

Segundo especialistas, o hacker em questão poderia ter feito uso de um e-mail de aparência oficial – “phishing” – com os dados de Podesta e o pedido para baixar ou clicar em um link específico, com a intenção de induzi-lo a digitar a senha, cuja execução transferiu ao hacker a oportunidade de acesso direto aos arquivos de e-mail do Diretor de Campanha.

Fato interessante aconteceu na Secure Works, uma empresa de segurança de informação, quando tiveram acesso a um erro de hackers e conseguiram interceptar uma campanha de larga escala de e-mails spear phishing contra contas do Google com uso de bitly, ou seja, de um encurtador de link o qual se expande em um domínio feito por hackers. Nesta situação, a companhia iniciou colaboração com as agências de segurança dos EUA e conseguiram observar as ações dos hackers e suas táticas de atingimento de 1800 contas do Google pertencentes a pessoas na Rússia, países do leste europeu que fizeram parte da ex-União Soviética, países da Europa e representações governamentais, diplomáticas e militares dos EUA. Ao longo da campanha presidencial, os investigadores identificaram a atuação de hackers durante a campanha de Hillary Clinton, os quais enviaram 213 links de tipo bitly para 108 contas do Google, e 16 links de tipo bitly para 9 contas do Google com resultantes respectivas de 20 cliques para o primeiro e 4 cliques para o segundo.

As notícias de espionagem ampliaram a polêmica em torno da candidatura de Trump, sobretudo com a afirmação das agências de inteligência dos EUA de que os hackers que invadiram e-mails de pessoas da campanha de Clinton seriam membros de serviços de inteligência da Rússia.

Em referência a questão, o Diretor de Inteligência Nacional – James Clapper, o Diretor da CIA – John Brennan, e o Diretor do FBI – James Comey, declararam unânimes em conversa com Trump: “Nós avaliamos que somente os funcionários mais antigos da Rússia poderiam ter autorizado os recentes furtos e divulgações de dados com base nas eleições, com base no escopo e na sensibilidade das metas”. Afirmaram ainda que a Rússia é “uma grande ameaça para o governo dos EUA, para a infraestrutura militar, diplomática, comercial e crítica e para as principais redes de recursos, devido ao seu altamente avançado programa cibernético ofensivo e táticas, técnicas e procedimentos sofisticados”.

Apesar das declarações dos oficiais de inteligência de que a Rússia seria a responsável pelos ataques com hackers, o Presidente eleito, Donald Trump, discorda dos agentes governamentais e entende a situação como uma espécie de perseguição política por ter ganho as eleições, a revés dos democratas, conforme declaração própria: “Eu ganhei mais condados nas eleições do que Ronald Reagan. Eles estão muito envergonhados com isso. Até certo ponto, é uma caça às bruxas. Eles só se concentram nisso”. Trump alega não participação russa em sua vitória e salienta: “Não houve adulteração alguma com máquinas de votação”.

Donald Trump também questiona as ações por trás da afirmação de interferência estrangeira nas eleições e cita sua suspeita na não verificação dos servidores do Partido Democrata, por meio das seguintes indagações: “O DNC não os deixaria ver os servidores. Como você pode ter certeza sobre o hacking quando você não pode chegar aos servidores?”; e “O Comitê Nacional Democrata não permitiria que o FBI estudasse ou visse suas informações de computador depois que foi supostamente hackeado pela Rússia. Então, como e por que eles estão tão certos sobre hacking se eles nunca sequer solicitaram um exame dos servidores de computador? O que está acontecendo?”.

O Presidente eleito demonstrou surpresa com a divulgação de um Relatório de inteligência para a imprensa e novamente insere seu questionamento: “Como a NBC conseguiu ‘um olhar exclusivo sobre o relatório secreto que ele (Obama) foi apresentado?’ Quem lhes deu esse relatório e por quê? Política!”, e por fim sugere que, além da Rússia, terceiros atores poderiam ter feito o ataque, seja a China ou mesmo um adolescente estadunidense: “Quer dizer, poderia ser a Rússia, mas também poderia ser a China. Também poderiam ser muitas outras pessoas. Também poderia ser alguém sentado em sua cama, que pesa 400 quilos, Ok?”.

Em meio a rumores de que a Rússia poderia ter feito uso de hackers para influenciar a decisão das eleições nos EUA, parte dos membros do Partido Republicano observam a questão com um entendimento diferente da opinião de Trump, pois a veem como uma quebra da segurança nacional e até especula-se se isto não seria um ato de guerra, conforme é evidenciado na declaração do Senador Graham (R-Carolina do Sul) sobre a ação de Obama ao expulsar do país 35 diplomatas russos: “O que Obama fez foi jogar um seixo. Estou pronto para jogar uma pedra”. Porém a situação se amenizou um pouco quando James Clapper respondeu ao Senador McCain (R-Arizona) sobre o impacto da suposta ação cibernética russa contra as eleições: “Não temos como avaliar o impacto, certamente a comunidade de inteligência não pode medir o impacto que teve sobre escolhas feitas pelo eleitorado”.

No tocante as afirmações céticas de Trump, referente as declarações dos serviços de inteligência dos EUA, o próprio James Clapper explicitou: “Há uma distinção importante aqui entre o ceticismo saudável, que os formuladores de políticas, para incluir o decisor político número um, deve sempre ter para a inteligência. Mas eu acho que há uma diferença entre ceticismo e depreciação”.

Em conformidade com a atual perspectiva geopolítica no Leste Europeu, faz-se pertinente a apresentação de uma série de eventos necessários para dar maior entendimento da perspectiva da Rússia sobre as ações dos EUA no plano internacional, e o início ocorreu durante a crise ucraniana, cujo desdobramento despertou no Governo russo o anseio de proteção de seus cidadãos na Ucrânia, os quais queixavam-se de discriminações por causa das divergências internas entre desejosos por uma política pró-União Europeia (UE) e os que queriam uma política pró-Rússia, acarretando em guerra civil naquele país.

Após a intensificação dos conflitos, os grupos separatistas apoiaram um referendo de anexação da Península da Criméia ao território russo, a revés da autoridade de Kiev, e a Federação Russa assumiu a responsabilidade pela Península. Com a consumação do fato, diversos Estados europeus começaram a criticar Moscou por suposta violação do Direito Internacional e instituíram sanções econômicas contra a Rússia, porém, de imediato, os Estados Bálticos demonstraram para a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) e UE sua insatisfação com a segurança regional e afirmaram que a Rússia possuía planos de invasão de seus territórios, à semelhança do que aconteceu com a Criméia. Desta forma, a OTAN reforçou sua estrutura militar e bélica nos países vizinhos da Rússia, cujas resultantes provocaram um azedamento nas relações diplomáticas entre Moscou e a UE.

Ao longo dos últimos anos nenhuma ação bélica ou de invasão ocorreu no Leste Europeu, todavia, diversos países europeus mantiveram suas sanções contra a Rússia e continuaram a fomentar o que os cidadãos russos no exterior chamam de russofobia, a partir de relatos originários do medo. Porém, ao invés de melhoria de relações, os russos sentem-se novamente em tensões e, desta vez, com o foco de acusação repousando na questão da intervenção cibernética nas eleições dos EUA com o objetivo de um suposto favorecimento ao Presidente eleito Donald Trump, mediante o uso de hackers e de guerra de informação (híbrida) contra o Partido Democrata e seus eleitores.

No tocante a situação, o Porta-voz do Presidente Barack Obama, Josh Ernest, disse que uma ação deste porte apenas “deveria ter sido aprovada no mais alto nível”, e salientou: “Seria muito extraordinário se o próprio Putin estivesse entre as pessoas na nossa lista”. Todavia, Ernest comunicou que o Relatório completo da inteligência dos EUA sairá até o dia 20 de janeiro.

Em negação às acusações, na Rússia, o Presidente da Comissão da Duma para assuntos internacionais, Leonid Slutsky, chamou o caso de paranoia, de sem fundamento, e acrescentou: “A histeria em curso da administração dos EUA causa prejuízos significativos às relações EUA-Rússia, ao nível dos quais era menor do que durante a Guerra Fria. No entanto, tudo isso não ajuda a mudar os resultados das eleições presidenciais nos Estados Unidos e, em janeiro, o legítimo proprietário da Casa Branca será Donald Trump e espera-se que, com a sua chegada, o diálogo entre a Rússia e os Estados Unidos será realizado em um ambiente político mais saudável”.

Em detrimento da situação, os russos consideram uma insensatez as declarações do Presidente dos EUA, Barack Obama, de retaliação sobre o suposto ataque cibernético, afirmando que “são a resposta necessária e adequada para os esforços que visam causar danos aos interesses dos EUA em violação das normas internacionais de comportamento”.

Para findar, a exposição russa diante da negativa do episódio de ataques cibernéticos aos EUA, cujo ápice provocou um estremecimento na relações entre os dois atores, o Ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia, Sergey Lavrov, externou que a atribuição de culpa à Rússia pelo Governo Obama remete ao fracasso das próprias iniciativas de política externa de Washington, que acusa a Rússia de todos os problemas, inclusive de interferência a favor de Donald Trump, e, no caso da expulsão dos diplomatas, o Ministro Lavrov expressou: “Nós definitivamente responderemos a essas ações. A reciprocidade é um princípio básico da diplomacia internacional e das relações internacionais. Portanto, o Ministério russo dos Negócios Estrangeiros e colegas de outras agências submeteram uma proposta ao Presidente da Rússia para declarar ‘persona non grata’ 31 diplomatas da Embaixada dos EUA em Moscou e quatro diplomatas do Consulado Geral dos Estados Unidos em São Petersburgo”.

Observa-se que, para as variáveis centrais presentes na questão de impacto nas relações entre Rússia e Estados Unidos, o ataque cibernético contra a campanha de Hillary Clinton apresenta como foco de investigação duas linhas analíticas destacadas: a política internacional e a política doméstica.

Em primeiro plano, percebe-se que a situação abrange uma disputa pelo poder, manifestada na defesa da soberania e da moral dos EUA e da Rússia diante da sociedade internacional, com ênfase na legitimidade das agências de inteligência e no relacionamento diplomático.

Percebe-se também que existe uma clara preocupação em não deixar declinar o crédito dos serviços de segurança e de espionagem de Washington, os quais tendem a transparecer absolutos no sistema de Estados, porém as declarações de incerteza do Presidente eleito, Donald Trump, estimulam a quebra da coerência discursiva, cujos atos aumentam a sensação de indignação contra ele. Entretanto, são pertinentes as críticas de que é necessária mais explicação, conforme salientou Trump, ao ressaltar a certeza das agências de inteligência e a não verificação dos servidores do Partido Democrata, visto que poderiam ser quaisquer pessoas as responsáveis pelo ataque.

No que diz respeito a Rússia, as próprias agências verificaram o uso de recursos phishing e bitly via e-mails, os quais possuíam como alvos indivíduos na própria Rússia, Europa, e mesmo dos EUA, cujo modo de operação foi semelhante na aplicação do caso dos Democratas. Sendo assim, levantou-se a questão de entender por qual razão a Rússia interviria nas eleições estadunidenses para influenciar o eleitor a votar em Trump. Poderia ser pelo acréscimo de poder? Essa pergunta se ressalta, pois Trump prometeu recuar do apoio dos EUA no mundo e isto afeta diretamente a OTAN, mas emerge outra indagação: se a Rússia, como qualquer outra potência, não poderia conseguir mais poder por outras vias?   

Em segundo plano, observa-se a intensa movimentação social em torno das eleições e o aflorar das paixões políticas, cujo desejo pela vitória poderia acarretar em ações internas de uso de guerra híbrida. Novamente, emergem os questionamentos sobre a culpabilidade de atores, mas é preciso considerar os efeitos das ações políticas, visto que informações de inteligência foram divulgadas para a imprensa, mas, surge nova interrogação: se um Relatório definitivo está em andamento para a conclusão do fato, por qual motivo o Presidente Obama declara 35 diplomatas russos como persona non gratas?

Conclui-se pela necessidade de uma visão de paciência que se espera de qualquer ator global, cujo objetivo visa inteirar-se dos fatos para a tomada de decisões e mesmo novas interpretações, pois, neste caso, o Relatório final de inteligência do Governo dos EUA ainda não teve divulgação. Sendo assim, perspectivas alternativas precisariam de observação mais intensiva e o diálogo é imprescindível para a realização de qualquer ação com finalidade de serem evitados conflitos e tensões desnecessárias.

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Imagem 1 Casa Branca” (Fonte):

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Imagem 2 John Podesta” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/John_Podesta

Imagem 3 James R. Clapper” (Fonte):

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Imagem 4 John Brennan” (Fonte):

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Imagem 5 James Comey” (Fonte):

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Imagem 6 Donald Trump” (Fonte):

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Imagem 7 Barack Obama e Vladimir Putin” (Fonte):

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/e/eb/Vladimir_Putin_and_Barack_Obama_%282015-09-29%29_01.jpg

Imagem 8 Kremlin” (Fonte):

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/0/0f/Kremlin_27.06.2008_01.jpg

Imagem 9 Ministros da Defesa e das Relações Exteriores da OTAN reunidos na sede da organização em Bruxelas, Bélgica” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Organização_do_Tratado_do_Atlântico_Norte#/media/File:NATO_Ministers_of_Defense_and_of_Foreign_Affairs_meet_at_NATO_headquarters_in_Brussels_2010.jpg

Imagem 10 Presidente da Comissão da Duma para assuntos internacionais, Leonid Slutsky” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Leonid_Slutsky_(politician)#/media/File:Leonid_E_Slutsky_RN_09-2013.jpg

Imagem 11 Sergey Lavrov” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Sergey_Lavrov#/media/File:Sergey_Lavrov_17.03.2010.jpeg

Imagem 12 Mundo Conectado” (Fonte):

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/3/3b/Un_mundo_conectado.jpg

 

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ANÁLISES DE CONJUNTURAEURÁSIAEUROPAORIENTE MÉDIO

[:pt]A Federação Russa e sua Influência no Oriente Médio[:]

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O ano de 2016 foi para boa parte do mundo uma grande prova de resiliência, países enfrentaram crises humanitárias de refugiados, crises em suas políticas domésticas, atentados terroristas, guerra e crises políticas internacionais. A Federação Russa não fica de fora de nenhum destes cenários, sendo que, de todos estes, a guerra em que tomou partido na Síria foi a que manteve sua presença quase semanal nos tabloides de notícias internacionais ao longo de todo ano de 2016 e, certamente, mudará o seu protagonismo no Oriente Médio pela próxima década.

A participação na guerra Civil Síria pela Rússia tem maior relevância pelo fato de que este conflito interno, desde 2011, gerou uma das maiores crises humanitárias de refugiados de nossa história recente; criou uma crise política no Bloco da União Europeia (UE), dentre os vários fatores, devido a questão dos refugiados, que também influenciou a opinião pública do Reino Unido a pedir a retirada do país do Bloco, através de um Referendo; produziu um espaço para o estabelecimento de grupos terroristas como o Estado Islâmico (EI), ou Daesh, que promoveram atentados por toda a Europa através de suas células, e desestabilizaram países vizinhos, como o Iraque, que passaram, assim como a Síria, por uma guerra interna.

A Guerra na Síria foi capaz de desencadear uma reação em cadeia global em um espaço curto de tempo e lançou a questão do envolvimento da Federação Russa nessa situação, gerando ainda a pergunta sobre se o conflito é uma questão pontual de Bashar Al Assad com sua população, ou se é uma questão que envolve a religião, algo que a mais de mil anos faz com que o poder nessa região do Oriente Médio seja disputado entre as vertentes do Islã (Sunita e Xiita) e o Cristianismo. A resposta a ser apontada tende para esta última alternativa.

O conflito na Síria é ancestral, a comunidade islâmica no país era politicamente ativa e movimentava-se por respeito aos valores de sua fé, enquanto Bashar Al Assad caminhava por tornar o país mais voltado a um Estado modernizado e tendendo a ser secular. Analistas chegaram a afirmar que essa perspectiva gerou o protesto de 2011, o qual, motivado  pela Primavera Árabe vivenciada na Líbia, situação que teve apoio do EUA, levou a Oposição síria a acreditar que, talvez, viesse a ocorrer o mesmo apoio norte-americano em seus país, caso se insurgissem contra Assad. No entanto, o conflito se estendeu sem uma resolução. Ao longo do processo, a Federação Russa permaneceu ao lado de Assad, mesmo com a construção pela mídia de uma imagem demoníaca do Presidente sírio perante a comunidade internacional, principalmente no caso das armas químicas que foram utilizadas pelos rebeldes, mas disseminadas de forma a tentar incriminar Assad, conforme foi posteriormente divulgado na imprensa internacional.

Agora, com a vitória do Exército Sírio em Aleppo, certamente a Federação Russa ganha mais protagonismo internacional e se torna um dos global players de maior influência no Oriente Médio, mostrando que sua estrutura social (e capacidade de colocar a opinião pública a favor de suas ações), força política interna (apoio doméstico para suas ações globais), aptidão econômica (recursos para atuar em projetos internacionais) e potencial militar (capacidade de emprego bélico global), são adequadas para suportar e superar os percalços da guerra, sobrepujando, inclusive, o trauma da antiga União Soviética no Afeganistão.

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Imagem 1Batalha de Heraclius e persas sob o Khosrau II D.C.” (Fonte):

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/9/93/Piero_della_Francesca_021.jpg

Imagem 2Soldados Russos em Base Aérea na Síria” (Fonte Governo Russo):

http://mil.ru/images/upload/2015/kel_3529_kel_sbori_na_Vostok-900.jpg

Imagem 3Tropas soviéticas em combate no Afeganistão” (Fonte Governo Russo):

http://mil.ru/files/files/85vdv/images/2b68340a-3cc9-4106-a3a5-96cddb6463e0__3-18_s.jpg[:]

ANÁLISE - Sociedade InternacionalANÁLISES DE CONJUNTURAEUROPAORGANIZAÇÃO INTERNACIONAL

[:pt]O julgamento de Ratko Mladic no Tribunal Penal Internacional e sua reta final[:]

[:pt] Vinte um anos após a assinatura dos Acordos de Dayton, que findaram as guerras de dissolução da antiga República Socialista Federativa da Iugoslávia, o Tribunal Internacional para a Antiga Iugoslávia (ICTY, na sigla em…

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ANÁLISE - Sociedade InternacionalANÁLISES DE CONJUNTURAEUROPA

[:pt]O Elogio da Velhice, pelo Papa, no Dia de Seu 80.º Aniversário[:]

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No passado dia 17 de dezembro o Papa Francisco celebrou seu 80.º aniversário. Associado às comemorações do líder da Igreja Católica, o Vaticano disponibilizou uma conta de e-mail e uma hashtag para felicitar Francisco[1]. O primeiro ato de seu dia festivo teve lugar durante o café da manhã, servido na Casa Santa Marta, no Vaticano, para o qual convidou um grupo de oito pessoas sem abrigo, que dormiam nas proximidades da Praça de São Pedro, para se juntar a ele. Durante a refeição matutina Francisco recebeu um telefonema de felicitações do Presidente dos EUA, Barack Obama. Em seguida, às 8 horas da manhã, o Sumo Pontífice presidiu a uma concelebração litúrgica, na Capela Paulina, no Vaticano, com os Cardeais residentes em Roma. Cumprindo a rotina de um dia normal, Francisco recebeu em audiência o Presidente da República de Malta, o Prefeito da Congregação para os Bispos, o Bispo de Chur, na Suíça, e a Comunidade de Nomadelfia, fundada por Frei  Zeno Saltini. Mais tarde, às 17 horas, o Papa se conectou, via Skype, à Prisão dos Palácios, em Veneza, a convite do Capelão, o Padre Marco Pozza[2].

Em pleno Advento, a partir de sua condição pessoal, Francisco se dirigiu aos 60 Cardeais, com idades aproximadas à sua, presentes na Capela Paulina para refletir acerca da dignidade da velhice e, também, do humor que é necessário para se enfrentarem as diferentes fases e situações vitais. Tendo recebido felicitações desde quarta-feira, dia 14 de dezembro, o Papa comentou: “Na minha terra, parabenizar antes da hora dá azar, e quem dá parabéns antecipado é pé-frio”. Por outro lado, na saudação proferida no final da missa, ele disse: “Vem-me à mente aquele poema… acho de Plínio: ‘Tacito pede lapsa vetustas’ [Ovídio]: chegará a velhice recurvada com passo silencioso. É assustador! Mas quando a consideramos como uma etapa da vida que serve para proporcionar alegria, sabedoria, esperança, começamos a viver”.

Para Francisco, a traditio é a base da revolutio. Com efeito, só sabendo quem fomos poderemos saber quem iremos ser. Esta máxima é válida para cada um de nós. Isto é válido para a família a que pertencemos, como o é para o país que nos viu nascer. Tradição, de tradere, equivale a “entrega”, é aquilo que se passa de um a outro, trans, um conceito que é irmão dos de transmissão e de transladação. Não pode ter esperança quem não tem recordações: é o caminho percorrido que nos dá forças para completar o que falta. Podemos, contudo, rejeitar a herança; podemos aceitá-la, criticando-a; podemos, ainda, aceitá-la sem qualquer tipo de crítica. Não defendemos, contudo, que os povos sejam tábuas rasas que, sem memória de nada, criem tudo a cada momento do seu existir. De acordo com Francisco, “é próprio do amor o facto de não esquecer; é próprio do amor ter sempre sob o olhar o muito, o muito bem que recebemos; é próprio do amor olhar para a história: de onde viemos, os nossos pais, os nossos antepassados, o caminho da fé…”. Assim, assinalou o Papa, “esta memória faz-nos bem, porque torna ainda mais intensa esta expetativa vigilante do Natal. Um dia calmo. A memória que remonta ao início da eleição do povo: ‘Jesus Cristo, Filho de David, Filho de Abraão’ (Mt 1, 1)”.

Tal como o Vigário de Cristo confidenciou aos presentes na missa do dia 17, “desde há alguns dias vem-me à mente uma palavra, que parece feia: a velhice. Assusta, pelo menos, assusta… Também ontem, para me oferecer um dom, monsenhor Cavalieri ofereceu-me o De Senectute de Cícero — uma gota a mais… Recordo o que vos disse a 15 de março [de 2013], no nosso primeiro encontro: ‘A velhice é a sede da sabedoria’. Esperemos que também para mim seja isto. Esperemos que seja assim!”. Após ter citado um verso de Hölderlin, “Es ist ruhig, das Alter, und fromm” – “a velhice é tranquila e religiosa”, Francisco pediu: “Rezai para que a minha seja assim: tranquila, religiosa e fecunda. E também jubilosa”.

Se o Papa Francisco, à semelhança de seus antecessores, tem defendido a vida em sua integralidade, o certo é que atualmente, altura em que se entende o ser humano a partir da dimensão hedonista, transferiram-se para o domínio público as dimensões fundamentais da existência humana: hoje, cada vez mais seres humanos nascem e morrem em hospitais. Paradoxalmente, nesta época em que se cultuam os aspectos lúdicos subjacentes a cada um de nós, se avaliam os seres humanos pelas capacidades aquisitivas que demonstram e não pelo valor ontológico que têm. Em contrapartida, o Sumo Pontífice, defendendo os valores de sempre, e não o relativismo neoliberal deste tempo, vê na velhice a fonte de sabedoria, tal como os gregos, os romanos e grande parte da História do Ocidente o fizeram. Francisco não descarta os idosos nem qualquer outra pessoa, qualquer que seja a faixa etária em que se encontram. Afinal de contas, tal como Cícero sublinhou[3] certeiramente, e Francisco corroborou, em nossos dias, a velhice é a idade da sabedoria.

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Imagem 1Jorge Mario Bergoglio, o Papa Francisco, enquanto Arcebispo e Cardeal de Buenos Aires (2008)” (Fonte):

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/5/5a/Conf%C3%A9rence_18_juin_2008_par_le_cardinal_Bergoglio_-9.jpg

Imagem 2Domus Sanctae Marthae” / “Casa Santa Marta” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Casa_de_Santa_Marta

Imagem 3Vista da Praça de São Pedro do topo da Cúpula de Michelangelo” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Vaticano

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Notas e Fontes consultadas, para maiores esclarecimentos:

[1] Ver:

email: [email protected]

hashtag: #pontifex80

[2] Acerca da relação especial que mantém com aqueles que se encontram privados da liberdade, Francisco escreveu: “Tenho um afeto especial pelos que vivem na prisão, privados da liberdade. Sempre fui muito apegado a eles, por esta consciência do meu ser pecador. Cada vez que entro numa prisão para celebração ou para uma visita, sempre me vem este pensamento: por que eles e não eu? Devia estar aqui, merecia estar aqui. A sua queda poderia ser a minha, não me sinto melhor do que aqueles que tenho diante de mim. Assim me encontro a repetir e a rezar: por que eles e não eu? Isso pode escandalizar, mas consolo-me com Pedro que negou Jesus e apesar disso foi escolhido.”, FRANCISCO, O Nome de Deus é Misericórdia. Uma Conversa com Andrea Tornielli, São Paulo, Planeta do Brasil, 2016, trad. do italiano por Catarina Mourão, pág. 76.

[3] CÍCERO, A Velhice Saudável, in (Apresentação de Luiz Feracine), A Velhice Saudável. O Sonho de Cipião, São Paulo, Editora Escala, 2006, trad. do latim por Luiz Feracine, págs. 21-77.

A versão online de “De Senectute”, em latim, pode ser consultada em:

http://www.thelatinlibrary.com/cicero/senectute.shtml

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ANÁLISE - Sociedade InternacionalANÁLISES DE CONJUNTURAEURÁSIAEUROPA

[:pt]Fethullah Gülen, Mestre do Humanismo e do Entendimento Multicultural[:]

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Nascido em 27 de abril de 1941, em Erzurum, na Turquia, no seio de uma família humilde, filho de um Imã e de uma professora voluntária de Alcorão, Fethullan Gülen aprendeu, desde cedo, os princípios do humanismo que alimentaram a sua infância e juventude tornando-o, na atualidade, num dos pioneiros do discurso intercultural e inter-religioso, no seu país e no mundo.

Formado em Ciências Islâmicas, Gülen é, além de professor, teólogo, literato, escritor, poeta, líder de opinião e erudito islâmico, um destacado ativista pela Educação e defensor da paz em nossos tempos. Enquanto promotor dos valores espirituais, por meio da Educação e do diálogo, o líder turco tem trilhado um caminho que, para os seus seguidores e, também, para aqueles que trabalham em prol das causas humanitárias, constitui um modelo que inspira a prática cotidiana. Porém, o pensamento de Gülen, que não está apenas no plano das ideias, tem provocado o combate por parte daqueles que rejeitam a igualdade de direitos entre as pessoas e os princípios da Democracia.

Em 1971, na sequência de um Golpe de Estado na Turquia, Fethullah Gülen foi preso permanecendo encarcerado durante seis meses sem acusação. A reprimenda aplicada ao líder humanista não foi suficientemente capaz de interromper a sua obra que continuou e se expandiu desde a criação do Movimento Gülen, ou Hizmet (Serviço), de caráter cívico-social, idealizado por ele em finais dos anos de 1960, na Turquia. O Hizmet tem como alicerce da sua existência o compromisso com a Educação, o diálogo, a paz, a justiça e a harmonia social. Este movimento traduz, na prática, as ideias de seu fundador, isto é, de que é possível alterar positivamente uma sociedade. Segundo Fethullah Gülen, “o Hizmet surgiu com a ideia de fundar instituições educacionais para formar jovens virtuosos, a fim de tentar encontrar soluções para os problemas do país”.

Numa época em que muitas famílias na Turquia, com poucas condições econômicas, não tinham muitas opções para conseguirem manter os seus filhos no Ensino Médio ou na Universidade nas grandes cidades, num ambiente propício para a formação dos jovens, Fethullah Gülen mudou esta realidade, através da criação de bolsas de estudo e de alojamentos para estudantes financiados pelas comunidades locais. O Hizmet, de fato, foi e continua a ser para muitos a crença no futuro a partir de uma Educação laica e com valores centrados no ser humano independentemente de confissão religiosa. Hoje, o movimento é transnacional e está presente em mais de 170 países, devolvendo a esperança de vida digna a milhares de pessoas. Os seus voluntários são “estudantes, acadêmicos, empresários, profissionais liberais, funcionários públicos, agricultores, homens e mulheres, jovens e velhos” que “contribuem para múltiplas formas de serviços, que se concentram em centros de ensino, escolas, faculdades, hospitais, organização de ajuda humanitária, editoras e instituições de mídia, tanto na Turquia”, quanto ao redor do mundo.

O trabalho desenvolvido por Fethullah Gülen, digno de distinção e que culminou no Hizmet, enfrenta na atualidade a oposição do Presidente turco, Recep Tayyip Erdoğan, para quem o movimento é “um Estado paralelo” e uma “organização terrorista”. Gülen encontra-se auto-exilado nos EUA desde 1999, quando viajou àquele país para que lhe fossem prestados cuidados médicos. No Estado da Pensilvânia, onde estabeleceu residência, o erudito turco vive em um retiro “com um grupo de estudantes e médicos” e dedica-se “à leitura, escrita, ensino, oração individual e em pequenos grupos, e recebe alguns visitantes, quando sua saúde permite”. Embora distante da Turquia, ele enfrenta diversas acusações por parte do Governo turco, que tenta criminalizá-lo, tal como o Hizmet, embora nunca tenha conseguido provar envolvimento, quer de Gülen, quer do movimento que ele lidera, em nenhum crime. Mas a ausência de provas não serviu para impedir que a Procuradoria turca pedisse duas “condenações perpétuas e uma pena adicional de 1.900 anos” de prisão para ele. Gülen foi acusado de ter orquestrado o Golpe de Estado falhado de 15 de julho deste ano (2016), assim como de tentar “destruir a ordem constitucional pela força” e, também, “de formar e conduzir grupos terroristas armados”. No entanto, ele nega todas as acusações, condenando qualquer ato de violência.

Em 19 de dezembro, o assassinato a tiros do Embaixador russo na Turquia, Andrei Kharlov, durante a inauguração de uma exposição de fotografias, em uma galeria de Arte em Ancara, por um jovem ex-policial turco de 22 anos, de nome Mevlut Mert Altintas, fez com que, imediatamente, Erdoğan atribuísse a responsabilidade do crime a Fethullah Gülen. Porém, o grupo insurgente Jaysh al-Fateh, que integra a Frente da Conquista do Levante – a antiga Frente al-Nusra – assumiu a autoria do atentado que, mais tarde, foi reivindicado pelo Estado Islâmico.

A frase proferida pelo assassino antes de ser morto pela polícia, em que disse: “nós morremos em Aleppo, você morre aqui”, revela que os radicais agiram em retaliação ao apoio russo ao regime de Bashar al-Assad, na guerra na Síria e, ao mesmo tempo, inocenta Fethullah Gülen, que condenou o trágico episódio que levou a óbito o Embaixador russo. Em declaração escrita, Gülen afirmou: “Eu condeno veementemente este ato hediondo de terrorismo”.

Segundo informações, há indícios de que há radicais infiltrados nas forças policiais turcas, depois que milhares de policiais foram expurgados por suas supostas ligações com o movimento Gülen. Neste contexto, em várias ocasiões, o líder humanista Fethullah Gülen foi responsabilizado pelo Governo turco por ações levadas a cabo contra o país. Até hoje, nada se conseguiu provar, mas ante as incertezas regionais e internacionais torna-se necessário refletirmos sobre a segurança deste ser humano que persiste na defesa de valores humanísticos a partir do acolhimento e da prática enraizados no princípio do entendimento intercultural e inter-religioso que, muitas vezes, são condenados por indivíduos cuja visão estreita da realidade não concebe a liberdade e a igualdade entre os seres humanos como um direito inalienável.

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Imagem 1 Fethullah Gülen” (Fonte):

http://www.theblaze.com/wp-content/uploads/2016/02/Fethullah-G%C3%BClen.jpg

Imagem 2 Logo do Gulen Movement” (Fonte):

http://hizmetnews.com/gulen-movement/

Imagem 3 Gülen and Pope John Paul II” / “Gülen e o Papa João Paulo II” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Gülen_movement

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